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Sábado, Abril 28, 2012
FORÇA, NEGRO-VIDA !!! Anos atrás, prefaciando um livro do imortal Abdias Nascimento, lembrávamos a “tirada” de Nelson Rodrigues, segundo a qual Abdias Nascimento (citamos de memória) seria “o único negro autêntico do Brasil”. E lembrávamos dando razão ao autor de “A vida como ela é”. Porque, no tempo de seu texto, os anos 50, o afro-brasileiro proeminente, cioso e orgulhoso de sua descendência africana era mesmo raro. Os que tinham ascendido ou experimentavam processo de ascensão social ostentavam quase sempre uma postura ambígua: ou mascaravam sua condição étnica na lacuna da “origem humilde” ou a descartavam como dado irrelevante. Até aí, e apesar de experiências como a da Frente Negra, o indivíduo afro-brasileiro era, assim, apenas algo a ser “examinado, olhado, visto”. Era sempre tema e nunca ator de seu próprio destino – como muito bem teorizou o negro Guerreiro Ramos, fundador da sociologia brasileira, amigo e colaborador do líder Abdias. A esse “negro-tema”, Guerreiro contrapunha o “negro-vida”, que resiste ao grilhão e nunca se deixa imobilizar. E, aí, nesse tipo de indivíduo, o sociólogo afro-baiano personificava a própria força vital, chamada – segundo aprendemos – axé, entre os iorubanos; nguzu entre os congos; tumi entre os aças; baraka entre os africanos islamizados. Nos anos 50, quase todos os negros proeminentes do Brasil foram apenas “negros-tema”, incapazes de assumir o discurso anti-racista na primeira pessoa. Os “negros-vida”, como Luiz Gama, Monteiro Lopes, Hemetério dos Santos etc., ou foram mitificados, folclorizados, satirizados ou, no extremo, literalmente varridos da memória coletiva. Vai daí que, então, no Brasil, o indivíduo negro era quase sempre assim: olhos baixos, andar pesado; ou descarregando sua revolta em pedradas inconseqüentes. Até que veio Abdias Nascimento, por trilhos tortuosos, conduzindo o comboio e o sonho da eliminação do racismo e da exclusão dos negros (pretos e mulatos) na sociedade brasileira. Com a partida de Abdias para a outra dimensão, no ano passado, a galeria dos negros-vida se desfalcava. Até que reluz com brilho próprio, no cenário da mais alta magistratura brasileira, a figura de Joaquim Barbosa. Empossado no STF em 2003, quatro anos depois o Ministro Barbosa ganhava projeção nacional ao ser relator do processo que colocou no banco dos réus importantes figuras da política brasileira acusadas de corrupção, em combate ferrenho ao poder econômico e ao corporativismo. E agora, mesmo enfrentando ferrenhos obstáculos em seu ambiente de trabalho, teve papel decisivo na decisão do Supremo sobre a constitucionalidade da adoção do sistema de ingresso por cotas nas universidades públicas. O Lote saúda esse valoroso “negro-vida”, desejando-lhe Saúde e Força em sua importante missão. Quinta-feira, Abril 26, 2012
CARLOS ROBERTO DE OLIVEIRA, “DICRÓ” – 1946-2012 Se tivesse nascido em outra “circunstância”, Dicró poderia tranquilamente ter sido um publicitário famoso, um comediante de peso, um artista-criador respeitado, enfim. Mas não foi assim. De qualquer forma, quem o conheceu e o admirou, como nós, sabe que ele deixa saudades. Quinta-feira, Abril 19, 2012
ECOS DA BIENAL DE BRASÍLIA De volta da Bienal de Brasília, cujas maiores atrações foram o nigeriano Wole Soyinka (foto acima) e a afro-americana Alice Walker, o “grilo” grila mais forte: Quantos escritores afrobrasileiros (pretos e mulatos) nós conhecemos? Talvez não sejam muitos, mas alguns são muito importantes: Machado de Assis, Paula Brito, Luiz Gama, Cruz e Souza, Lima Barreto, João do Rio... Entretanto, quase todos são do século 19. E os do século 20 pra cá? Agora: quantos escritores com nomes de famílias que indicam origem européia, levantina ou asiática atuam, hoje, com grande brilho, no Brasil, e, muito merecidamente, freqüentam os festivais e os suplementos literários? Aí vem o grilo: será que os afrobrasileiros desaprenderam a arte da escrita? Será que os que escrevem não publicam mais; ou apenas não chegam às livrarias e, consequentemente (ou vice-versa), não aparecem nos jornais, revistas, tevês e festivais? Segundo algumas opiniões, dentro da lógica de mercado vigente no Brasil de hoje, qualquer produto que traga referência à identidade afrobrasileira é de difícil aceitação. E, no universo literário, a ideia geral seria a de que nossa escrita é, ainda, “primitiva”, naïf, infantil, carente de um processo de depuração e aprendizado que a faça atingir “os cânones em que se baseia o lavor literário dos escritores consagrados e de prestígio”. Foi isso o que ouvimos, entre cochichos e rumores (felizmente não gravados) na Bienal de Brasília. Mas será que é isso mesmo? Sábado, Abril 14, 2012
www.elizartlivros.estantevirtual.com.br MANOEL DA ELIZART E O CONJUNTO DA OBRA Parodiando o legendário sábio africano Amadou Hampâte Ba, queremos dizer que quando morre um livreiro carioca das antigas, boa parte da inteligência do Rio vai com ele. É este o sentimento que nos toma agora, com o fechamento do Livro da Existência terrena do queridísssimo Manoel, da Livraria Elizart. Uma das melhores livrarias de usados do Rio, com variado e importante acervo sobre História Geral e do Brasil, Artes e, sobretudo, Rio Antigo, paixão do Manoel e de sua família, a Elizart, é há muitos anos uma referência. Localizada no número 63 da Avenida Marechal Floriano (tels. 2233-6024 / 2253-5201), ela teve seu período áureo no tempo em que o Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores) era carioca; e o Colégio Pedro II ainda ecoava os tempos imperiais. Mas não perdeu o posto Manoel (irmãos do Arthur e tio da Ana e do Tuca) tinha um humor meio britânico. O que ficou claro no dia em que me deu a notícia do fim do casamento de uma senhora de sua família com um célebre e adorável amigo porra-louca do eixo Vila Isabel-Santo Cristo. – Mas o quê houve, Manoel? Depois de tantos anos de casados. Eu perplexo buscava uma explicação para o fim do longevo matrimônio. – Ele fez alguma grande cagada? No que o Manoel, com sua fleuma de livreiro carioca, meio português, meio britânico, sentenciou: – Foi o conjunto, meu caro! O conjunto da obra... ** Grande Manoel! Já deixou saudades. Quinta-feira, Abril 12, 2012
QUEM FOI MESMO QUE RENOVOU O SAMBA, HEIN? Num texto publicado no Rio, na extinta “Revista Civilização Brasileira”, em maio de 1966 , o crítico musical Flávio de Macedo Soares chamava a atenção para o fato de que na evolução da música popular, as crises – no sentido sociológico, de interrupção do curso regular e previsível dos acontecimentos – eram constantes. E que nos Estados Unidos essas crises eram provocadas pelas grandes corporações; o que não ocorria no Brasil, onde, então, os interesses envolvidos na indústria da música apenas tiravam proveito das situações de transformação geradas naturalmente. Muito sintomaticamente denominado “A nova geração do samba”, o texto de Macedo Soares analisava a crise (na acepção sociológica) que gerara a bossa-nova, cerca de seis anos antes, e o surgimento da chamada “corrente nacionalista” do moderno samba. Tipificada por Carlos Lyra, Sérgio Ricardo, Nara Leão, Edu Lobo, Dori Caymmi (ainda mencionado como “Dorival Caymmi Filho”) etc., essa corrente abrigava uma nova fornada de músicos engajados, entre os quais o critico incluía Caetano Veloso, Gilberto Gil e “Francisco Buarque de Holanda”, além de nomes hoje desaparecidos ou em outros caminhos, como os de Sidney Miller, Paulo Thiago, Luís Carlos Sá. Mas a crise desencadeada pelo advento da bossa-nova não foi a primeira nem a última dentro da imbatível vertente principal da música brasileira. Antes dela, houve pelo menos duas outras. Em 1917, quando Donga registrou o “Pelo Telefone”, deflagrava-se a primeira tensão. Como a autoria do proto-samba começou a ser contestada, J.B. da Silva, o “Sinhô”, criou uma outra letra, em resposta à registrada. Surgia então, no seio da incipiente comunidade sambista do Rio, uma grande polêmica, que acabou por opor baianos e cariocas e projetar o nome de Sinhô. Daí até a década seguinte, Sinhô foi o “Rei do Samba”, numa hegemonia só ameaçada pelo talento de Caninha (cognome de Oscar de Morais, 1883-1961), agraciado pelo jornal A Pátria com o título de “Imperador”. Ocorre, entretanto, que os “sambas” compostos por ambos eram, estruturalmente, maxixes. E o maxixe é até hoje reconhecido como um híbrido da habanera cubana com a polca européia, ao qual apenas se acrescentou um tempero afrobrasileiro. De qualquer forma, boa parte da década foi das composições de Sinhô, interpretadas principalmente por Francisco Alves e Mário Reis, cantores de grande prestígio. Até que em 1927 a gravadora Odeon lançava A malandragem, de Alcebíades Barcelos (o Bide), considerado o primeiro exemplar gravado do “novo samba” que estava sendo criado pelos compositores do bairro do Estácio. Por essa época, o jovem Noel Rosa iniciava carreira compondo emboladas nordestinas e outras canções nos estilos rurais então em voga. Admirador confesso de Sinhô, o poeta já tinha notícia de que um novo tipo de samba já estava sendo feito e cantado no Rio de então. Enquanto o de Sinhô vinha da década passada e da Cidade Nova, o novo samba surgia no Estácio e dali se espalhava pelos morros próximos do Centro, seguindo pelas linhas de trem até os subúrbios, conforme anotaram João Máximo e Carlos Didier no livro Noel Rosa; uma biografia. Chegava-se ao ápice da segunda grande crise do samba, em 1930, quando Noel Rosa encetou amizade e parcerias com sambistas como Canuto e Antenor Gargalhada, do Salgueiro; Ismael Silva, do Estácio; Cartola, de Mangueira; e outros bambas. A partir desse ponto de ruptura, o samba -- para usar uma expressão tão ao gosto dos escribas de hoje -- nunca mais foi o mesmo. Pelo menos até a crise da bossa-nova, em que foi despojado de sua excitante polirritmia para que se tornasse mais compreensível aos ouvidos estrangeiros, o que felizmente deu certo; ainda bem. Não esqueçamos, porém que, no desdobramento dessa ruptura, eclodiu uma outra variante, buscando um outro universo temático, mais comprometido com a realidade político-social, chegada no 1º de abril de 1964. O samba realmente já não era mais o mesmo. Mas a dicotomia entre o samba “da cidade” e o “do morro” permanecia. Para romper mais essa barreira foi que, na passagem para a década de 80 surgia um estilo que, além de incorporar novos instrumentos ou modos de executá-los, servia-se das infindáveis possibilidades harmônicas desenvolvidas nas magistrais interpretações de João Gilberto, Tom Jobim etc. Então, redesenhava-se a polirritmia; e o cavaquinho saía da limitação dos acordes fundamentais para visitar as infinitas possibilidades e alterações das “sétimas” e “diminutas” –. Coisas de músico, mesmo! Pois este é o samba que está aí, inclusive no texto do doutor etnomusicólogo Phillip Galinsky (http://www.jstor.org/stable/780347). E que os interesses das grandes corporações insistem em aproximar do universo pop, simpático, atual, bacaninha, mas musicalmente pobre, como todos nós sabemos. Agora, a indústria e a Mídia hegemônica, mais uma vez, forçam uma crise, propalando aos quatro ventos que Fulano, Sicrano ou Beltrano renovaram o samba, dando-lhe uma injeção de Pop. Tadinhos! Eles esquecem (ou não querem saber) que, no Samba – arte e comportamento – as verdadeiras transformações continuam acontecendo naturalmente. Como sempre. Segunda-feira, Abril 02, 2012
MUITO ANTES DE TOM JOBIM: A MÚSICA BRASILEIRA FORMATANDO O JAZZ O simpático coroa aí em cima chamava-se James Hubert Blake, passou á História como “Eubie Blake” e viveu, nos Estados Unidos, seu país natal, exatos cem anos, entre 1883 e 1983. Nascido em Baltimore, Maryland, de um casal de ex-escravos, começou a tomar lições de piano aos seis anos de idade e, mais tarde, estudou composição. A partir de 1915, quase sempre em dupla com Noble Sissle, tornou-se compositor e pianista de espetáculos musicais, como os célebres Shuflle along e Chocolate dandies. Nos anos de 1930, em bem-sucedida dupla com Andy Razaf, compôs o sucesso Memories of you. Considerado um dos mestres do ragtime*, foi também autor de You are mean’t for me, um clássico do cancioneiro popular internacional, e apreciado pianista de temas eruditos. Em 1978 foi celebrado na Broadway com o musical Eubie!. (cf. LOPES, N. “Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana”, 4ª. ed. São Paulo, Selo Negro, 2011). O velho e bom Eubie está hoje aqui no Lote porque, na modorra de ontem, domingo, o Velhote – que gosta muito de sua música -- resolveu revisitá-lo, num livro chamado “Combo, oito estórias do jazz” (BLESH, Rudi. São Paulo,Cultrix, 1974). No livro, o grande pianista assim narra um episodio ocorrido por volta de 1895, em seu ambiente: “Ele [Edgard Dowell, também pianista] sentou-se tocou. Eu nunca vira algo semelhante. Ele tocava um baixo-duplo, da-da, da-da (duas notas para cada uma que eu, ou qualquer outra pessoa, tocava) e introduzia-se num complicado ritmo de MAXIXE BRASILEIRO” (pág. 183). ** Sem comentários? Ou com muitos? |
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