MILLÔR FERNANDES (1923 – 2012):
DE “TERRA NOVA” PARA A ETERNIDADE
Na região suburbana do Rio, “Terra Nova” era o lírico nome de uma antiga estação da antiga Linha Auxiliar (na atualidade, Ramal de Belford Roxo). Localizada na região de Pilares, com acesso pela rua Luis de Castro, foi inaugurada em 1905 e desativada na década de 1970.No ano de 1935, com cerca de doze anos de idade, lá chegava o menino Millor, nascido no Méier, ali perto.
Artista e humanista, considerado um dos maiores intelectuais brasileiros de seu tempo, Millôr Fernandes, falecido esta semana, sempre evocou sua infância suburbana como uma época feliz e de grande aprendizado, apesar das dificuldades financeiras. Sobre sua primeira professora, Isabel Mendes, mais tarde diretora e hoje nome da antiga escola Ennes de Souza (E. M. Isabel Mendes, Rua Joaquim Méier, 293), descrita como “uma mulatinha magra e devotada”, dizia que ela lhe ensinou “tudo o que se deve aprender de um professor ou de uma escola: gostar de estudar” .
Nossas homenagens a esse gênio brasileiro!
(Fonte: Nei Lopes: Dicionário da Hinterlândia Carioca, Rio, Pallas Editora – em lançamento)
A jovem afrodescendente Juliana Barbosa, filha de um simpático casal de sambistas da Hinterlândia Carioca, é doutoranda em Estudos da Linguagem na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Como se isso não bastasse, é gestora de Comunicação da Prefeitura londrinense, além de produtora e apresentadora do programa "Estação Samba", na Rádio UELFM, de sua Universidade.
Não satisfeita com toda essa bagagem, ano passado, no Rio, a Juliana participou do XV Congresso Nacional de Lingüística e Filologia da UERJ. Onde apresentou comunicação sobre a obra “Sambista Perfeito”, de Arlindo Cruz em parceria com o Velhote do Lote, analisando-a do ponto de vista estilístico. É mole?
Agora o trabalho acaba de ser publicado nos Anais do Congresso (no bom sentido!). E a moça nos “dá ciência” do texto, cuja 5ª parte, agora transcrevemos, para alegria de todos.
Valeu, Juliana! Esculachou geral !!!
ESTÍLISTICA: ASPECTOS HISTÓRICOS E ANÁLISE DA MÚSICA “SAMBISTA PERFEITO”
5. Análise Estilística
Neste tópico analisamos a composição “Sambista Perfeito”, de autoria de Arlindo Cruz e Nei Lopes, identificando alguns elementos que conferem expressividade à letra desse samba:
Sambista Perfeito (Arlindo Cruz/ Nei Lopes)
O sambista perfeito devia nascer com a luz de Candeia
Que animava o terreiro em noite de chuva ou de lua cheia
E ainda ser valente sem dar bofetão, cabeçada ou rasteira
Mas brigar pela arte, a parte melhor de Geraldo Pereira
Elegante do jeito Paulinho
Cativante do jeito Martinho
Ser malandro e contagiante do jeito Zeca Pagodinho
Orfeu intuitivo, senhor e cativo nas artes do amor
A vida aventureira e no bolso a carteira de trabalhador
Um lenço muito bem perfumado
O sapato de cromo engraxado
O sambista completo devia ser neto dos antigos bambas
Mente aberta no corpo fechado
Contra plágio, pedágio e muamba
O sambista perfeito devia ser feito à imagem do samba (x2)
Feito o velho Ataulfo, ser a corda e a caçamba
O sambista perfeito devia ser feito à imagem do samba
“Sambista Perfeito” é um samba de exaltação, que usa a metalinguagem para definir o perfil do samba e do sambista. É um texto que se baseia na imagem consolidada de alguns grandes personagens da cultura do samba, mesclando suas características para dizer como seria um sambista ideal.
Os compositores elencam artistas expoentes de diferentes épocas e estilos, como Candeia (1935-1978), Geraldo Pereira (1918-1955), Paulinho da Viola (1942-), Martinho da Vila (1938-) e Zeca Pagodinho (1959-), agregando à composição o perfil de cada uma dessas figuras no universo do samba (tomamos por “figura” uma pessoa típica, representativa, ativa e curiosa, cuja menção imediatamente confere certos significados).
Sambistas como Candeia, que “animavam o terreiro” em qualquer circunstância, mesmo depois de ficar em uma cadeira de rodas em função de um tiro alojado na medula óssea. Gente que brigou em nome do samba, como Geraldo Pereira, um brilhante cultor do samba sincopado que, em suas letras, atuou como um cronista perspicaz do Rio de Janeiro de sua época, e morreu em uma briga no emblemático bairro da Lapa.
Não passam em branco em Sambista Perfeito: a sofisticação de Paulinho da Viola, para quem o samba é a forma principal e o choro - um sofisticado estilo instrumental, quase erudito – é legado de seu pai; a fala mansa e o jeito devagar de Martinho da Vila, que levanta bandeiras em seus sambas sempre com muita leveza rítmica, sem perturbar a festa do samba com a militância, seduzindo as pessoas; e Zeca Pagodinho, sempre brincalhão e “boa vida”, a quem, na cultura carioca, se costuma chamar de “malandro”. A esses sambistas os compositores atribuem, respectivamente, os adjetivos elegante, cativante e contagiante.
O samba se apropria muito bem dos diminutivos: “Martinho”; “Paulinho”; “Zeca Pagodinho” que, além de servir à rima, serve ao ritmo essencial para o cantar. Não se trata, porém, só de ritmo e sonoridade, mas de sua conjunção com significados. O diminutivo, no português brasileiro, está ligado ao universo da infância, evocando alegria, simplicidade, despojamento, carinho, espontaneidade, bem de acordo com a intenção criativa de compor algo empático, afetivo.
Outra astúcia de construção textual do samba está na maneira como se posiciona politicamente. Não se produz um típico discurso militante, mas opera-se no nível da articulação de linguagem.
O trecho: “Mente aberta no corpo fechado / Contra plágio, pedágio e muamba” envolve uma terminologia popularizada, disposta na antítese: “mente aberta” (possibilidade de relacionamento com o mundo) no “corpo fechado” (relação religiosa comum ao universo do samba, onde o corpo, ao “ser fechado” é protegido contra ameaças e mal-olhados, significando também que está preparado para manter posições firmes); “contra plágio, pedágio e muamba”, envolvendo em três termos um vasto universo que ameaça a música brasileira: o plágio; os pedágios cobrados pela indústria radiofônica para difusão, conhecidos como “jabás” e a pirataria, que termina retirando do artista parte da possibilidade de viver de sua arte.
Enfim, nesta composição os autores consolidam uma imagem comportamental, ética e moral em torno do samba. A diferença entre o que seria um manifesto militante e esse samba, é que o samba faz um trabalho estilístico, “feito segundo todas as regras da arte”, como disse Bertolt Brecht. E essa diferença faz toda diferença. De novo citando Brecht: “Trabalhem com arte, pois a arte dá prazer!”
Cavaleiros muçulmanos no norte da atual Nigéria (foto meramente ilustrativa)
UM ENREDO SUPER-DA-PESADA
Agora, já que não há mais obrigatoriedade de enredos sobre temas nacionais no desfile das escolas de samba; já que os carnavalescos gostam tanto de falar de escravidão; e que a carnavalização dos Orixás já está se tornando incômoda, trazemos aqui uma ideia para o próximo fevereiro. Seguinte:
As antigas relações entre o continente africano e o asiático, através do Mar Mediterrâneo, do Mar vermelho e do Oceano Índico, levaram a presença e a contribuição africana aos vales dos rios Tigre e Eufrates, à Suméria, à Arábia, à Índia e, também, à China, ao Japão e ao Sudeste Asiático. Entre os séculos VIII e XV, essa presença foi potencializada, principalmente através do comércio de escravos; que vinha já de tempos remotos.
Desde pelo menos o século VII, existiu importação de escravos da África oriental, do litoral da Somália até Moçambique. Os homens eram em geral levados para trabalhar como pescadores de pérolas, soldados, estivadores, marinheiros e domésticos; e as mulheres para serem concubinas, nas comunidades muçulmanas espalhadas por toda a Ásia.
Um texto árabe do século X, por exemplo, revela que todo ano, por aquela época, cerca de 200 escravos eram levados da África oriental para Omã, na Arábia. Da mesma forma, um documento chinês de 1119 revelava que, em Cantão, na China, a maior parte das famílias ricas possuía escravos negros.
Do século X ao XII, países do golfo Pérsico, principalmente o Bahrein, importavam escravos leste-africanos. Por esse período, diversos viajantes informaram sobre a presença africana nas regiões de Guzerat e Deccan; e, de 1459 a 1474, Barbouk, rei de Bengala, possuía um efetivo de 8 mil escravos, oriundos, em sua maior parte, ao que consta, da atual Tanzânia. As principais rotas de penetração dos mercadores árabes responsáveis por esse comércio iam de Quíloa até além do lago Niassa; de Zanzibar até o interior do Congo; e de Mombaça até o lago Vitória.
A História da diáspora africana na Ásia (cf. Yusof Talib, in História Geral da África, vol. III, págs. 825 – 859) revela a presença de africanos ou descendentes ilustres, como, por exemplo, os seguintes:
Ibrahim ben Al-Mahdi, califa abássida em Bagdá (775-785 d.C.), filho de uma “preta africana”; Al-Muktafi, califa abássida de Bagdá (902-908), filho de uma mulher núbia (idem);; Kafur Al-Ikhshidi, eunuco negro , regente do Egito durante o período Iquíxida (Ikshida) no século X; Muflih, o Negro, favorito de Al-Radi, califa abássida de Bagdá (934-940), encarregado de formular as políticas do Estado; Al-Mustansir, califa fatímida (1036 – 1094), filho de Al-Zahir (1021-1036) com uma “bela escrava sudanesa” sua concubina, a qual governou o Egito durante a menoridade do filho. E muitos outros...
A magnífica coleção História Geral da África (MEC/Unesco, 2010), com seus monumentais 8 volumes, não está só na estante do Lote, não. Ela está disponibilíssima na Internet, para quem souber fazer bom uso dela. Inclusive nos enredos das escolas de samba.
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P.S. – O Lote agradece ao amigo Flávio Cappelletti o envio do DVD com o desfile da Vila Isabel. Belíssimo! Só faltou um pouquinho mais de pesquisa, principalmente para que não se misturasse a História de Angola com a tradição dos Orixás. No mais, tudo bacana!
Morava no Rio desde 54, quando aqui chegara com a Companhia de Revistas Amália Rodrigues e se estabelecera na Cidade Maravilhosa com ânimo definitivo. O Rio inteiro, até a imprensa, achava (sem ousar dizer) que ela era mulher do técnico Flavio Costa. Mas na verdade quem mandava no pedaço era o General, que a conquistara num momento e numa circunstância jamais sabidos ou revelados. Como também nunca se soube como o nosso meia-esquerda a viu pela primeira vez.
Pelo menos era isso o que dizia o Jota Peçonha, a língua mais viperina, mais venenosa de toda a Barreira do Vasco e adjacências.
– O Ipojucan - é ele que está dizendo - só tinha tamanho. E futebol, é claro! Veio do Canto do Rio com onze anos, e já era um galalau. Fazia com a bola o que queria, mas era mole, lerdo, preguiçoso. Não queria nada!
Pô! Durante os vinte anos que jogou no Vasco Ipojucan jogou 413 jogos e fez 225 gols. Quase 2 por jogo. E o cara ainda vem dizer que ela era preguiçoso. Pra mim, Ipojucan foi na verdade o mágico, o malabarista da pelota, um cara que chamava a bola de “meu amorzinho”. Foi um dos maiores craques brasileiros de todos os tempos!
Mas vamos ver o que o tal de Peçonha diz da portuguesa...
– Foi uns dois ou três dias depois da final contra o Uruguai que ele viu a portuguesa apela primeira vez. Paixão fulminante. E, a partir daí, foi aquela loucura: sonhava com ela dormindo e acordado; amanhecia e anoitecia pensando nela, não a esquecia nunca; não conseguia nem ao menos pensar em Deus, veja você...
Segundo o Peçanha, o pesadelo era recorrente. Toda noite ela aparecia, os cabelos soltos, vestindo um peignoir vermelho, transparente, com rendas mais vermelhas que a camisa do América, despia-o e dançava a dança mais lúbrica e sensual de todas quantas existiam. Então, o abracaça e beijava suave e longamente, as coxas grossas se enroscando nas suas como jibóias amazônicas, e os seios fartos roçando, roçando, roçando no seu peito... E se desfazia numa diabólica espiral de fumaça rubra.
Toda noite era aquilo. E o craque acordava do pesadelo num banhado de águas pútridas, com os nervos em frangalhos... Feito cipós apodrecidos. Porque ela, como todo mundo dizia, era a mulher do “General”. E o general, para ele, era Seu Flávio Costa. (NL)
(Trecho do livro “Contos da Colina” – lançamento segunda-feira, 19, a partir de 19h, na Livraria Saraiva do Shopping Rio Sul)
A conhecemos em novembro, na FLICA, a baianíssima Festa Literária de Cachoeira. Mas já sabíamos que a agora desembargadora Luislinda Valois (foto) era uma mulher admirável.
Era aquela que, ainda mocinha, muito humilde, escutou de um professor que em vez de querer estudar, deveria procurar trabalho de cozinheira em “casa de branco” .
Era aquela, filha devota de Iansã, que recusou a cozinha e foi à luta, tornado-se a primeira juíza negra no Brasil, e colocando a luta contra o racismo como foco de seu trabalho.
Aquela que – não obstante sua formação – esperava, havia longos 8 anos, para chegar ao cargo de desembargadora. Como chegou no final do ano passado, aos 68 anos de idade, nomeada por decisão do Conselho Nacional de Justiça – senão, teria que se aposentar compulsoriamente, pela idade, e sem alcançar o cargo. Coisas do Brasil!
Sua Excelência a desembargadora Luislinda Valois é, nesta Semana Internacional da Mulher, o ícone do Lote, simbolizando todas as mulheres que admiramos.
Resultante, inicialmente, da coexistência dos hábitos alimentares das diversas correntes migratórias aqui aportadas, a culinária da hinterlândia carioca foi, entretanto, através dos anos, sofrendo a influência de outras variantes, como, por exemplo, tempo de preparo, ocasião e, principalmente, renda. Em 1905, discorrendo sobre a alimentação do carioca médio, Ferreira da Rosa (1978) escrevia: “O prato nacional mais vulgar no Rio é feijão preto com carne seca, toucinho e farinha de mandioca, prato que não dispensa outras iguarias, e, aliás, não aparece nas mesas de luxo e de cerimônia; o arroz é indispensável e tem o seu preparo bem brasileiro”.
Quase um século depois, em um livro sobre a Zona Norte carioca, aí incluída a região suburbana, a jornalista Danusia Bárbara escrevia, particularizando, o seguinte: “Foi a Zona Norte que seguiu o tronco da feijoada completa de feijão preto, grãos escolhidos, carnes de porco postas de molho na véspera, farinha fresca, torresmo escorregadio, couve verde-escura cortada fininha” (RITO, 2001, p. 177).
À época deste texto, levadas em conta as variantes acima apontadas, o prato carioca básico, cotidiano, tinha, no ambiente estudado neste livro, mais ou menos a mesma composição, com especial destaque para os “ensopadinhos” de legume e carnes. Entretanto, nos núcleos de renda mais baixa, alimentos mais baratos, embora de menor valor nutritivo, como macarrão, embutidos e enlatados, são largamente consumidos em lugar do feijão com arroz da tradição. E, quanto às “outras iguarias”, o bife com batatas fritas, há bastante tempo presente na mesa carioca, é, na atualidade, muitas vezes descartado em função do preço da carne. Da mesma forma que, em muitos lares e residências, a pizza, feita em casa ou comprada fora, já é uma constante.
Veja-se agora que, além dessa culinária cotidiana, a tradição doméstica da hinterlândia consagrou também uma gastronomia de festa, ainda bem portuguesa, com pratos únicos, como DOBRADINHA, MOCOTÓ etc., ou variados. Um dos exemplos mais eloquentes dessa variedade foi este cardápio, do almoço oferecido pelo legendário NATAL DA PORTELA à equipe do jornal O Pasquim, que em sua casa, em MADUREIRA, realizou histórica entrevista no ano de 1976: “ Menu de Natal – Almoço: Macarronada ao molho de tomate, com queijo parmesão. Frango assado, com tempero suave. Salada variada (tomate, alface, pepino, salsa e cebolinha). Feijoada completa à moda da casa (feijão, carne-seca, paio, cheiro-verde, louro e farinha). Empadas magníficas de camarão, sem azeitona dentro. Arroz ao leve molho de tomate. Sobremesa: Romeu e Julieta (goiabada com queijo). Sorvete de abacaxi com pedaços de abacaxi dentro. Bebidas: Brahma Chopp e guaraná para o nosso fotógrafo. Água gelada e cafèzinho para todos.(PASQUIM, 1976, p. 26).
Na atualidade, à variedade e formalidade de banquetes como o desse cardápio, os organizadores de festas familiares, em geral, preferem algo como o frango assado com maionese e farofa, servido em pratos descartáveis, além do BOLO SALGADO. Fora das festas, nas reuniões de familiares e amigos nos fins de semana, impera o churrasco. (...)
N.E. Este texto é parte do verbete “Culinária, Alimentação e Gastronomia” do DICIONÁRIO DA HINTERLÂNDIA CARIOCA: Antigos subúrbios e zona rural” (Pallas Editora), contendo biografias, dados históricos, mapas etc., que o Velhote do Lote estará lançando em maio.