Sexta-feira, Setembro 25, 2009



O LOTE ABRAÇA A LAPA

Em meio à guerra do dia-a-dia, num refresco da luta anti-racista e contra todo tipo de discriminação e exclusão, o Lote abraçou a Lapa, na figura do grande cantor, instrumentista e gente que é Alfredo Del-Penho (ao cavaco, na foto).

Um dos nomes mais destacados do samba lapeano, Del-Penho chegou ao Lote cheio de disposição e amor pra dar. E, aí, não se fazendo de rogado, meteu a mão nas armas (cavaco e violão) e, juntamente com a turma da casa, Jorge Moreno, Doceu, Corélio, Luizinho Canela, Juca da Quarta, Major Quaresma, Budé, devidamente ancorada pelos amigos Paulo Papai, Leitão, Makiba, Marquinhos Sathan, Nézio etc., mandou ver.

E fez bonito, também, na degustação dos tira-gostos e dos birinaites, da melhor qualidade, segundo ele.

Afinal era a FESTA DA PRIMAVERA. E as flores estavam voltando.

Faltou apenas o Quinteto em Branco e Preto, cujo ônibus foi detido na Dutra por excesso de bagagem (artística). Mas a FESTA DEL-PENHA vem aí. Afinal, já estamos quase em outubro. E aí o couro come, de novo.




Quinta-feira, Setembro 24, 2009



AINDA O RACISMO ORGANIZADO E A MESTIÇAGEM CENOGRÁFICA

Primeiro, um certo João Batista de Lacerda, antropólogo físico, na condição de diretor do Museu Nacional, declarava num congresso realizado em 1911 em Londres, que o problema do Brasil se resolveria em 100 anos, quando a população, devidamente miscigenada, já não apresentaria mais nenhum traço de africanidade.

Depois, na década de 1920, um certo Renato Kehl, médico eugenista, liderava, através da publicação de vários livros, campanha no sentido de que a “raça” brasileira seria melhorada através de uma seleção, efetivada principalmente no casamento.

Na mesma década, um certo Delgado de Carvalho, escrevia no livro Corografia do Distrito Federal (Rio, Francisco Alves, 1926): “Durante o XIXº século, de ativa imigração estrangeira, cresceu consideravelmente o elemento branco, formado por todas as nacionalidades da Europa. Tomando como base os cálculos feitos por Roquette Pinto sobre a percentagem das diferentes raças no Brasil em 1912, poder-se-ia talvez estabelecer, para a população do Rio, que representa bem a média das misturas étnicas do país, as seguintes proporções: brancos puros, 55%; brancos mestiços 25%; índios, 13%; pretos, 7%” (Grifamos).

Na década de 1930, um certo Conde de Afonso Celso, no celebre livro Porque me ufano do meu país (talvez com mais ingenuidade que malícia), escrevia: “Os negros africanos (...) sempre se mostraram dignos de consideração, pelos seus sentimentos afetivos, resignação estóica, coragem, laboriosidade”. [...] Do cruzamento das três raças – portuguesa, africana e índia – originou-se o tipo do mestiço brasileiro, chamado mameluco quando provém da união entre o branco e o selvagem, cafús ou caboré, quando da do selvagem com o negro. A denominação popular – caboclo – designa os primeiros; cabra os segundos”.

Observe-se aí que o Conde não leva em conta a mestiçagem do branco com o negro, talvez considerando, também, os resultantes desse tipo de miscigenação “brancos mestiços”, tal como fez Delgado de Carvalho. Para ele, mestiços eram: os “vaqueiros”; “os canoeiros e jangadeiros do norte”; “os cearenses, adaptáveis aos mais rudes climas”; “os caipiras, independentes e fortes”; “os gaúchos (...), infatigáveis, de forca e destreza raras”.

Vejamos agora que, durante toda a década de 1950, um certo jornal O Globo desencadeava truculenta campanha contra as comunidades de culto afro-brasileiro, iniciada com um editorial de 6 de janeiro, em que caracterizava nossas religiões como “infecção” que precisava ser erradicada: “É preciso que se diga e se proclame que a macumba, de origem africana (...) – dizia o texto – constitui manifestação de uma forma primitiva e atrasada da civilização e a sua exteriorização e desenvolvimento são fatos desalentadores e humilhantes para os nossos foros de povo culto e civilizado”. Meses depois, no mesmo jornal, reportagem sobre uma visita ao terreiro de Joãozinho da Goméia em Caxias informava, acima de qualquer coisa, ser o local sujo e infestado de pulgas.

A partir daí, como todo mundo sabe (ressalvadas as conhecidas e honrosas exceções), o candomblé virou balé afro; o samba virou “showbizz”; a capoeira virou educação física... E tudo ficou bacana, com as “mulatas do Góis”, os sambistas “boas-praças”, e os pais-de-santo da “cor brasileira” destacados nas colunas sociais.

Foi assim que chegado o final da década de 2000, ante as evidências de que a população brasileira não embranqueceu, tendo, pelo contrário se tornado, em sua aparência e auto-identificação, muito menos européia (e isto, é claro, em seus extratos mais pobres), o Racismo Organizado Futebol Clube começou a exaltar e comemorar essa mestiçagem – que ainda não incomoda, pois não muda, por enquanto, a configuração social que confere aos eurodescendentes, principalmente, os papéis preponderantes na condução da economia e da política nacionais. E ele, o R.O.F.C., o faz como aquele time que está perdendo o jogo, mas se consola porque já ganhou tantas partidas (no “apito” e no “tapetão”) que, assim mesmo, consegue se classificar para a final do campeonato.

Provavelmente mestiço (não conheci meus avós nem por fotografia), embora não seja vaqueiro, canoeiro nem gaúcho, e tenha mais ou menos a mesma coloração de pele de africanos como Nelson Mandela (este, eu conheci pessoalmente), Eu, cidadão AFROBRASILEIRO, venho, através deste texto, repudiar essa mestiçagem cenográfica que agora querem nos impor. Porque sei muito bem a Quem ela interessa. E espero pelo dia em que cor da pele, bunda grande, cabelo duro, beiço, nada disso seja mais importante que Inteligência, Força espiritual e Amor fraterno.

P.S. Na seção de cartas de O Globo, hoje, 24.09.2009, a redação do jornal procura esclarecer o “equívoco” da minha interpretação. Leiam.




Sexta-feira, Setembro 18, 2009



NECO E O CHAMADO DOS DEUSES

O CD se chama “The Ipanemas - Call of the Gods” ( “Chamado dos Deuses”), foi gravado lá fora, para o mercado externo, e os “nego-véio” aí da capa são respectivamente o nunca assaz louvado Wilson das Neves, nosso irmão de samba e de santo, e o virtuose Neco, cobrão do violão, derivados e conexos.

Na quarta faixa, chama a atenção um choro altamente jazzístico, daqueles de se dançar chorando (literalmente), solado pelo flügelhorn do Jessé Sadoc e com uma intervenção divina do piano de Fernando Moraes. O título é “Tema do Neco” (Neco’s theme, pros gringos).

Daudeth de Azevedo, o Neco, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 1932. Exímio exe­cu­tan­te de vio­lão, gui­tar­ra e ca­va­qui­nho, in­te­grou im­por­tan­tes for­ma­ções or­ques­trais, prin­ci­pal­men­te no con­tex­to da bos­sa no­va e do sam­ba-­jazz, ao la­do de Tenório Júnior, Astor Silva e ou­tros, ten­do tam­bém par­ti­ci­pa­do de inú­­me­ras gra­va­ções e es­pe­tá­cu­los, co­mo mú­si­co acom­pa­nhan­te de can­to­res co­mo Beth Car­valho. Na década de 2000, reativou, juntamente com Wilson das Neves, o grupo Os Ipanemas, gravando, uma série de discos voltados para o mercado externo, entre os quais esse cuja capa vai aí em cima.

Só que, esta semana, o irmão Das Neves, me falou que Neco acabou de atender ao chamado dos Deuses. Discretamente, quase sem aparecer, caladinho, como sempre.

Os Deuses gostam do que é bom e discreto. E como gostam!







TV CULTURA apresenta:
MOSAICOS – A ARTE DE DONA IVONE LARA
23 de Setembro – 00h10


Documentário musical retrata a trajetória da sambista do Império Serrano trazendo as participações de Nei Lopes, Délcio Carvalho, Dona Inah, T-Kaçula e Bernadete

Dona Ivone Lara foi a primeira compositora a se destacar como autora de samba-enredo – em 1965, assinou “Os Cinco Bailes da História do Rio” em parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau. Além disso, consagrou-se como a primeira-dama do gênero, tendo criado clássicos como “Mas quem disse que eu te esqueço?” (com Hermínio Bello de Carvalho), “Sonho meu” e “Acreditar” (ambas com Délcio Carvalho). A trajetória artística da cantora e compositora é tema do programa “Mosaicos – A Arte de Dona Ivone Lara”, que a TV Cultura exibe à 00h10 da próxima quarta, 23 de setembro (madrugada de terça para quarta).

O documentário musical apresenta imagens de arquivo mescladas com gravações inéditas que trazem as participações especiais dos compositores Nei Lopes, Délcio Carvalho e T-Kaçula, e ainda das cantoras Dona Inah e Bernadete.

Dirigido por Nico Prado com narração de Rolando Boldrin, “Mosaicos – A Arte de Dona Ivone Lara” recupera no acervo da TV Culturas as várias participações da sambista em programas da emissora nos últimos 35 anos. Destacam-se, por exemplo, as edições de MPB Histórias (TV Tupi, 1976), RTC Samba (1979), Show do Dia 1º de Maio (1979), Metropolis (1989), Ensaio (1990, 2005).

REPERTÓRIO DOS CONVIDADOS
– “Sonho meu” (Dona Ivone Lara/Délcio Carvalho) com Délcio Carvalho, Nei Lopes, Ruy Quaresma e Marcelo Menezes
– “Alguém me avisou” (Dona Ivone Lara/Délcio Carvalho) com Bernadete
– “Menino brasileiro” (Dona Ivone Lara/Rildo Hora) com T-Kaçula
– “Se o caminho é meu” (Jurandir Brinjela/Paulinho Mocidade) com Dona Inah
– “Agradeço a Deus” (Dona Ivone Lara/Mano Décio da Viola) com Nei Lopes e Ruy Quaresma
– “Pra afastar a solidão” (Dona Ivone Lara/Délcio Carvalho) com T-Kaçula
– “Acreditar” (Dona Ivone Lara/Délcio Carvalho) com Délcio Carvalho e Marcelo Menezes
– “Tendência” (Dona Ivone Lara/Jorge Aragão) com Bernadete
– “Bodas de ouro” (Dona Ivone Lara/Paulo César Pinheiro) com Dona Inah
– “Senhora da canção” (Nei Lopes) com Nei Lopes e Ruy Quaresma

FICHA TÉCNICA
Coordenador do Núcleo de Música/TV Cultura: Fernando Faro
Direção: Nico Prado
Roteiro: Alexandre Pavan
Produção: Fernando Abdo
Produção musical: Cesar Gavin
Assistentes de produção: Luiz Felipe Trezza, Ivo Madruga e Deborah Esther




Quinta-feira, Setembro 17, 2009



A História do Rio de Janeiro segundo o Meu Lote – 1

DE COMO O LARGO DE SANTA RITA TORNOU-SE O QUE É.


A Corte chegou.

E dois dias depois da festa, a cidade ainda meio de ressaca, a mulata Constância, filha da preta Ifigênia, examina com cuidado os peixes que o barqueiro vai despejando na banca. São atuns, espadartes, hipocampos, lúcios, robalos, salemas, sardinhas – peixes que não havia nas águas brasileiras, mas que, inexplicavelmente, aqui chegaram, talvez seguindo as naus portuguesas – tainhas, jaús, pirapitangas, cações, raias, peixes-serra, peixes cartilaginosos, anádromos, catádromos, teleósteos, seláquios... Um verdadeiro tratado de ictiologia, ali naquela banca mixuruca.

A mulata Constância pega uma cocoroca, examina a guelra, separa. Pega agora uma savelha, examina, cheira e separa também. O moleque, rodilha na cabeça, espera entediado, o cesto já preparado para receber as compras.

Constância não percebe o tubarão que lhe chega por trás, fardado de alferes da guarda do Príncipe. Logo, ela, que tem sentidos aguçados, tato, olfato e gosto, principalmente em relação ao sexo oposto ao seu. E se assusta com a abordagem do militar lusitano, recém-chegado, com aquele olho de peixe morto: -- Vossa Excelência aceita os préstimos deste humilde criado?

É mulata a Constância. E, embora de saia, traja-se elegantemente; sua pele clara cheira a cambucá; e, assim, o português, embora tocado por uma atração histórica, de mais de 400 anos, não hesita em chamá-la de “excelência”.

Nunca foi tratada assim, a Constância. Nem sabe bem o que são “préstimos”. Mas é mulher (e como!). Então, passado o susto, recupera a altivez e o donaire, apenas sorrindo, maliciosa.

Dois anos depois desse encontro fortuito, e depois de um filho, anjinho pálido e frio (Deus o tenha no limbo onde se encontra!), nascido morto, eis aí Constância, com um barrigão “deste” tamanho, parecendo uma pata choca, com a maior dificuldade para tocar os negócios da primitiva quitanda, agora virada em taberna.

O português foi no brigue Adamastor pra Portugal, pra se casar com uma cachopa. Mas Constância não está nem aí. -- Com que roupa? Vou de vento em popa, ioiô! Responde ela com uma gargalhada. Ao que o negro Camunguelo, tira a flautinha do embornal e mete lá um lundu animado, que é acompanhado nas palmas por Setembrino, Aniceto, Fuleiro, Vista Limpa e outros companheiros do cais. Porque a “Taberna Feliz Constância”, como está lá garranchado na plaqueta de madeira, é o ponto preferencial dos estivadores, barqueiros, catraieiros, apreciadores de cachaça com sardinha frita, o local mais freqüentado do Largo de Santa Rita.

Perto dali, na direção da Prainha, está a chácara dos beneditinos e o aljube dos padres, prisão especial para os condenados à forca, os quais lá assistem a última missa antes da execução. Foi o caso do Tiradentes, uns quinze anos atrás.

O chafariz defronte da pracinha é um constante bafafá de negros e negras se acotovelando e empurrando para pegar água. Nos fundos da igreja, o ambiente é outro: ali estão pretos também, mas vendendo em barracas e tabuleiros, outros espalhados pelo chão, tirando uma soneca, na sombra e na água fresca.

Da porta da casa onde mora Constância – com a mãe velhinha e doente, e o filho branco cujo pai não sabe exatamente quem é –, dá para distinguir claramente as torres de três igrejas e, certamente, ouvir-lhes o repique dos sinos, uns toques significando que a missa vai começar, outros que ali se sufraga a alma de algum defunto ou, então, que o Viático está prestes a sair, percorrendo as ruas para ungir um moribundo com os santos óleos da extrema unção. Que, evidentemente, não são os mesmos óleos do comércio de Constância. Por conta dos quais o apetitoso cheiro de sardinha frita paira sobre as ruas vizinhas ao Largo de Santa Rita, e chega até o morro de São Bento, parecendo que vai ficar ali para sempre, per omnia saecula saeculorum.

Pois esse é o tempus regis, o tempo do Rei. Que, logo-logo, dá lugar ao Imperador. O qual, por sua vez, cede seu trono aos regentes. Tempo de instabilidade, insubordinação, revoltas, levantes sérios.

(NL – “O Bienal do Livro: um a cada 2 anos”)




Quarta-feira, Setembro 16, 2009



E ALÉM DO MAIS, COMPOSITOR.

A luta do povo cubano perdeu, para a Eternidade, mais um comandante.

Juan Almeida Bosque, o “Comandante Almeida", nascido em Havana, em 1928, foi um dos líderes da Revolução e vi­ce-pre­si­den­te do Con­selho de Estado de Cuba. Autor de Presídio (Ha­vana, 1988), li­vro que nar­ra a pre­pa­ra­ção e o as­sal­to aos quar­téis Moncada e Carlos Ma­nuel de Céspedes, eta­pa ini­cial do mo­vi­men­to re­vo­lu­cio­ná­rio cu­ba­no, nos ­anos de 1950, era também compositor popular, autor de boleros e “sones”.

Por tudo isso, por ser duro e terno ao mesmo tempo, aqui vai nossa homenagem. Lembrando, no título, um verso do amigo Rubem Confete, num samba feito em parceria com o saudoso Garça – quando fazíamos nossa revolução a partir do “Little Harlem” (ou “Harlenzinho”), apelido dado pelo racismo ao bar que freqüentávamos, no subsolo do Ed. Avenida Central.

Valeu, Comandante Almeida!




Terça-feira, Setembro 15, 2009



CALOUSTE GULBENKIAN RECEBE NEI LOPES. QUASE ÀS SETE.

Calouste Sarkis Gulbenkian (1869 – 1955) foi um engenheiro e empresário nascido na Armênia e naturalizado britânico, atuante no setor do petróleo e um dos pioneiros no desenvolvimento desse setor no Oriente Médio. Foi também um importante mecenas, com grande contribuição para o fomento da cultura em Portugal. Essa contribuição está na origem da constituição da Fundação Calouste Gulbenkian, que, no Rio, mantém um excelente centro de artes, onde fica o Teatro Gonzaguinha.

Pois é nesse Teatro que, nesta quinta-feira, dia 17, com início às 18h45, o modesto Velhote do Lote vai canariar uns sambinhas, acompanhado dos cobrões Ruy Quaresma (violão e arranjos), Fernando Merlino (piano), Zé Luiz Maia (baixo), Jorge Gomes (bateria) e Sanny Alves (vocais e participação especial).

Viram? O Doutor Calouste foi ou não foi um homem de grande visão? Pena é não ter saído na foto.







22 QUE NADA: PROFETA É O QUE ELE É

Nosso parceiro e afilhado de casamento Efson (Edson Ferreira, grande compositor de grandes sucessos, bem aí nas fotos), que num antigo carnaval, emplacou conosco, na voz da Madrinha, o “Se o Brás é tesoureiro...”, é tido como 22 mas o que ele é mesmo é um tremendo profeta – como aliás quase todo artista de verdade!

E dizemos isso ao ler n’O Dia, do nosso primo Fernando Molica, a seguinte manchete:

BANDO INVADE IGREJA, FAZ REFÉNS E ROUBA ATÉ O PADRE APOSENTADO (Edição de 11.09.2009)

Pois acontece que há uns 22 anos atrás, às 22 h. de um dia 22, o Efson nos trazia, entre outras vinte e uma grandes idéias, uma “primeira”, pra gente dar uma “intera”. E a letra do samba, “Dedos de Cortiça”, inédito até hoje, ficou assim:

Antigamente, não havia tamanha cobiça
Ninguém tinha tanta preguiça
De ir procurar trabalhar.
Mas hoje, não dá nem pra acreditar,
Até na igreja tem nego assaltando
Na frente do altar. (BIS)

Antigamente, podia amarrar cachorro com lingüiça
Podia juntar urubu com carniça
Que ninguém roubava, nem dava balão.
Mas hoje em dia,
Ninguém mais respeita nem Deus nem Justiça
Roubaram até a dentadura postiça
E o olho de vidro do Zé Sacristão.
Hoje, não dá nem pra acreditar,
Até na igreja tem nego assaltando
Na frente do altar. (BIS)

Olha o “Quatorze’ aí! Dedos de cortiça!
Agora, na igreja
É um olho no padre e outro na missa (BIS)

**

Tremendo profeta, não? “Quatorze” é, em suburbanês carioca, sinônimo de "gato", apócope de “gatuno”. E, por isso, o samba está devidamente registrado, morô?




Sexta-feira, Setembro 11, 2009



UM ESTATUTO CHEIO DE EFEITOS ESPECIAIS

Depois de sete anos de tramitação do projeto, o Estatuto da Igualdade Racial foi aprovado do jeito que o Rei mandou. Garantindo a fazendeiros, agroboys e duplas sertanejas o direito à propriedade de terras griladas por seus bisavós aos “treze de maio”. Mantendo no universo da “excelência acadêmica” a predominância e a hegemonia daqueles sobrenomes cheios de “k”, “w”, “y” e daquelas terminações do genitivo latino. Da mesma forma, na TV, onde os pretos e mulatos vão continuar, lá no fundo, de bandeja na mão, como pretinhos e "ritinhas" de fazenda, e escravos, nas novelas “históricas”. Ou batucando lata e dando cambalhota nos projetos de “cidadania”.

Um ilustre parlamentar muito apropriadamente chamado Onyx Lorenzoni (ô ducha fria!) regozijou-se dizendo que o estatuto é “mestiço como o Brasil” – país onde, como todos sabemos, é regra geral os donos do Poder casarem, prazerosamente, suas filhas com os filhos pretos de seus criados, legando, de graça, aos netos, seus rutilantes sobrenomes europeus, levantinos etc.

Mais sincero ainda foi S. Excia. o deputado Índio da Costa – caraca, que nome legal! Que foi contra o Estatuto original por temer que descendentes de quilombolas reivindicassem para si o Alto Leblon. E isto, porque talvez não lembre que o Quilombo do Leblon, aquele das camélias, já foi formado no apagar das luzes, sob liderança de intelectuais abolicionistas, ou seja, de forma meio cenográfica. Como um ancestral do Projac.




Quinta-feira, Setembro 10, 2009



MARQUES REBELO, VAI PARA O TRONO OU NÃO VAI?

O escritor carioca Edi Dias da Cruz (1907 – 1973), celebrizado sob o pseudônimo MARQUES REBELO, é uma das grandes admirações da turma aqui do Lote. E uma das grandes interrogações também.

O caso é que, lendo seus romances e contos cheios de suíngue, cheios de carioquice, cheios daquela suburbanidade gostosa, e olhando aquela sua nareba, largona, e aquela boca beiçudinha, a gente sempre pensou: - Esse tremendo intelectual parece que é mais um parente que ficou no armário...

Lendo Marques Rebelo, a gente vai ouvir lá, ele dizer, recorrentemente, que a Leniza, de “A estrela sobe” é mestiça disfarçada. Da Oscarina, a mesma coisa. Sobre a Dona Linda, mulher do Coronel Madureira, ele mete a caneta:

“Deolinda, que fizera jus ao apelido em sua requestada mocidade no Realengo (...), doida para fazer uma operação plástica no nariz, com o qual sempre implicara, achando-o muito abatatado, parecido com o pai, que o tinha enormes (...) franziu os beiços carnudos com nítidos vestígios mulatais (...)” – IN “O simples Coronel Madureira”, Rio, Nova Fronteira, 2003, págs. 16 e 26.

Agora, então, às voltas também com uma edição atualizada e aumentada do nosso “Dicionário Literário Afrobrasileiro” (Rio, Pallas, 2007), vemo-nos roxinhos pra verbetizar lá o nosso Marques Rebelo. Principalmente depois que vimos publicada na imprensa a foto acima, onde ele ainda não ostenta o coquinho raspado e aquele tufinho de cabelo espetadinho, à guisa de topete.

Dêem só uma conferida na carapinha do grande escritor. Merece ou não merece ser incluído no panteão dos grandes escritores afrobrasileiros, junto com Machado, Lima, Cruz e Souza, Joel Rufino, Muniz Sodré, Edimilson da Silva Pereira, Dalcídio Jurandir. Mário de Andrade e um montão deles, que ainda estão no armário?

Vai para o trono ou não vai? A opinião dos visitantes do Lote é importantíssima. E se alguém tiver uma prova concreta, tirada da biografia, por favor informe. Vai ser show de bola.




Sexta-feira, Setembro 04, 2009



A CIDADE MAIS FELIZ DO MUNDO

Realmente, é uma cidade maravilhosa. Onde o ensino básico é ministrado em horário integral e regime de internato. E onde quem não estuda, trabalha seis horas por dia, seis dias na semana, com direito a férias anuais de vinte dias. Aposentadoria antes dos 70 anos só em caso de incapacidade física ou mental para o trabalho. E feriado, só no dia 1º de novembro, dia de Todos os Dos Santos (na foto, um flagrante das comemorações, no ano passado).

Cheia de encantos mil, nela não existem analfabetos; a televisão, sempre digital, não exibe filmes que ensinem a matar nem programas que imbecilizem; os videogueimes são exclusivamente educativos. E a internet é apenas um veículo destinado à comunicação e ao estudo.

A municipalidade é totalmente responsável pela saúde da população. E vícios como os do álcool e do fumo foram erradicados há mais de 20 anos. Recentemente o governo divulgou a descoberta de vacinas contra o câncer, a AIDS, a dengue, a hepatite C. E a cura da anemia falciforme já está sendo anunciada.

Quanto às uniões maritais entre pessoas do mesmo sexo, com o tempo foram se tornando normais e hoje estão previstas e amparadas pela lei. Mas o homossexualismo é visto apenas como uma questão íntima e pessoal e não como um propulsor do consumo ou uma fonte de divisas. E no que toca à criminalidade, o último delito ocorrido foi o roubo de um exemplar do livro A Utopia, de Thomas Morus, no dia 9 de maio de 1942.

Esta, então, é Banzagudá, a capital de Oiobomé. Cuja história completa poderá ser lida em novembro, quando nossa rapsódia deverá sair do prelo da Editora Agir.

Banzagudá é a cidade mais feliz do mundo!