Segunda-feira, Agosto 31, 2009



FAVELAS, NA CRISTA DA ONDA

Decididamente, como diziam os colunistas sociais de antanho, as favelas estão em moda. A onda, advinda do sucesso de bilheteria do filme Cidade de Deus, chegou às passarelas, ao teatro, repete-se nos cinemas, e motivou reações, como a da professora Ivana Bentes, da Escola de Comunicação da UFRJ, para quem o filme teria inaugurado uma “estética da fome”, expressa em filmes que, segundo ela, explorariam a miséria “de uma forma confortável para o público de classe média”.

Discussões à parte, o fato é que a moda da favela chegou também ao samba – que, aliás, já foi (e não é mais) um produto típico do ambiente – num DVD muito bem produzido, ambientado numa favela cenográfica, com laje, piscina de plástico e tudo o mais, exibido na TV esta semana.

O DVD é do ótimo cantor Leandro Sapucahy, moleque esperto de Jacarepaguá, filho de uma família de amigos de infância aqui do Velhote, na qual brilhou o saudosíssimo Lair Sapucahy (colega de ginásio, de faculdade e dos botecos da Vila), inspirador do nosso livro Guimbaustrilho, dedicado à sua memória.

Mas o fato é que pouca gente sabe de onde vem o termo “favela”. E, assim, trazemos, aqui, a informação, que integra o longo verbete do nosso Dicionário da Hinterlândia Carioca, já na reta final, e no qual enumeramos todas as favelas cariocas até aqui nascidas – até o ponto final no livro, ninguém sabe quantas mais nascerão.

Uma favela é, em síntese, um aglomerado de casebres erguidos de modo improvisado e desordenado, em terreno invadido. O termo surgiu na última década do século XIX, quando, finda a Guerra de Canudos, ex-combatentes e vivandeiras, de várias procedências, vieram, em grande número, à antiga Capital Federal reivindicar a assistência do governo. Alojados, precariamente no Morro da Providência, próximo ao Quartel General do Exército, esses migrantes foram os responsáveis pelo apelido “Morro da Favela”, pelo qual esse morro foi conhecido durante largo tempo. O apelido veio de um outro Morro da Favela, existente no entorno do arraial de Canudos e mencionado por Euclides da Cunha no clássico Os Sertões, ou por semelhança, segundo alguns, ou por ser o local de origem das vivandeiras, segundo outros. Daí, do aspecto tosco das moradias improvisadas, o termo “favela” se estendeu, para qualquer aglomeração do mesmo tipo.

Inicialmente construídas com restos da sociedade industrial, como tábuas de caixotes e folhas-de-flandres, ou na forma conhecida como “de sopapo”, as moradias das favelas cariocas foram, com o tempo, ganhando características mais permanentes, como a utilização de tijolos e de lajes de concreto, embora quase sempre sem emboço ou revestimento.

Outro aspecto a ser destacado é que, no Rio, muitos núcleos populacionais historicamente considerados como favelas, por vivenciarem alguns dos problemas mais comuns desse tipo de moradia, são, na atualidade, complexos parcial ou totalmente urbanizadas, obtendo o estatuto oficial de bairro, como é o caso da Maré e do Alemão, por exemplo.

Observe-se, ainda, que a idéia de favela como o “morro” oposto ao “asfalto” lá em baixo, vem principalmente das favelas da zona sul da cidade, incomodas principalmente pelo fato de se situarem em regiões altamente valorizadas pela especulação imobiliária, como acentuou Marcelo Monteiro, em seu Pequeno Dicionário das Favelas, disponibilizado na internet. Olhadas como um câncer a ser extirpado, foram essas o objeto exclusivo das políticas de remoção postas em prática durante o governo de Carlos Lacerda, apelidado por seus inimigos de “O Corvo do Lavradio”, na década de 1960.

Essas políticas pareciam explicitar o perverso sentimento segundo o qual “lugar de pobreza é o subúrbio”. Ironicamente, antes e agora, as favelas da zona sul parecem representar verdadeiros bolsões de cultura suburbana dentro da sofisticação internacionalizada dos abastados bairros litorâneas.

Outro dado a considerar é a origem das populações faveladas, quase sempre relacionadas ao êxodo rural ou de centros urbanos empobrecidos. Foi assim com a crise da cafeicultura e a abolição da escravatura, na passagem para o século XX, trazendo para o Rio de Janeiro muitos trabalhadores, majoritariamente negros, saídos das lavouras fluminenses e paulistas do Vale do Paraíba. E foi assim, também, em vários momentos de colapso na oferta de trabalho e moradia em diversas áreas da região nordeste.

Observe-se, ainda, nas denominações das favelas mais modernas, a forte presença da televisão na vida das populações carentes, moradoras nesses núcleos desassistidos: muitos dos nomes são tirados, quase sempre por ironia, dos títulos de telenovelas ou programas humorísticos (“Chega Mais”, “Mandala”, “Salsa e Merengue”, “Te Contei” etc.); outros de produtos anunciados (“Kinder Ovo”); outros mais até ironizando a violência gerada pelas más condições de vida, como “Fogo Cruzado”.

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Independente de qualquer modismo tipo favela movie, o importante é dizer que os sambas do DVD do Sapucahy, pelo menos os que vi e ouvi, são muito bons. Bastante diferentes daqueles da avenida de mesmo sobrenome.




Sexta-feira, Agosto 28, 2009



CRISTIANISMO, É ASSIM QUE SE FAZ

O Professor ROLF DE SOUZA, amigo do Lote, comunica e nós divulgamos:

Sábado, 29 de Agosto – 14 horas

Oficinas:

- A fé contra o racismo - Igreja Metodista - Juventude da Pastoral de Combate ao Racismo 1ª RE
- Trabalho e geração de renda
- Reforma agrária e reforma urbana
- A comunicação como instrumento de transformação social

Catedral Presbiteriana do RJ - Praça Tiradentes




Quarta-feira, Agosto 26, 2009



SOBRE PIRATAS E AMADORISMO

O tema é recorrente. E está em todas as boas bocas – no sentido estrito. Trata-se da proliferação do amadorismo na ação cultural, em escala universal, situação essa provocada pelo mau entendimento e pela má utilização dos avanços tecnológicos, e que acaba causando sérios prejuízos na área da criação intelectual.

Olhando bem lá pra trás, vamos ver que, em 1847, em Paris, dois compositores, Paul Henrion e Victor Parizot, e um escritor, Ernest Bourget, apoiados por seu editor, meteram uma bronca judicial contra o Ambassadeurs, famoso e granfino café-concerto parisiense.

Argumentavam eles que era uma tremenda sacanagem o fato de terem de pagar mesa e consumação na casa, enquanto que a orquestra tocava a música deles sem nem mesmo pedir permissão.

Foi aí que, enchendo-se de brios (e licores) Parizot e Henrion tomaram a valente e lógica decisão de não pagarem suas contas, inclusive as penduradas, até que o dono do Ambassadeurs “chegasse junto” ou “aos costumes” – como se diz no fórum.

O fato é que os dois ganharam a ação judicial impetrada. E o dono do Ambassadeurs foi condenado a lhes pagar uma boa grana, em francos. Abria-se, então, com essa sentença judicial, novas e amplas possibilidades para os compositores e letristas de obras musicais. E daí foi que nasceu, uns três anos depois, a pioneira SACEM, sociedade francesa de compositores e editores de música, até hoje em atividade.

Bola que rola, chegou-se a diversos aprimoramentos no processo de arrecadação e distribuição dos direitos autorais nas várias áreas da criação intelectual, do livro à canção, da fotografia ao “audiovisual”. É claro que os conflitos nunca deixaram de existir, principalmente por conta da insolúvel oposição entre capital e trabalho, entre criação e utilização econômica dos produtos criados, entre autores e editores. Mas, sem sombra de dúvida, os avanços foram grandes. E isso fica bem claro quando se conhecem e comparam os métodos de arrecadação/distribuição dos direitos da música, no Brasil, antes e depois da década de 1970, quando a cobrança foi unificada.

Mas eis que chegamos à “Era do Download”, quando, pelas facilidades da tecnologia, qualquer um, mesmo sem talento ou instrução formal, pode fotografar, desenhar, escrever, compor canções. E principalmente pegar o passarinho que voa e apropriar-se dele, sem dar satisfações a ninguém.

É nessa que chega ao Lote a notícia da criação, lá nas oropas, do “Partido Pirata da Suécia”, o qual, tendo como plataforma e programa “a livre circulação de conteúdo audiovisual”, já estaria atuando em 30 países, inclusive no Brasil.

“Os direitos autorais – segundo a presidente do estranho Partido, Amélia Andersdotter, 21 anos – são usados para privar as pessoas de cultura e criatividade. Precisamos de um sistema – completa ela – no qual a sociedade possa enriquecer com a livre expressão e a mentalidade do compartilhamento”.

Compartilhar, todos sabemos, é dar de mão beijada, graciosamente. E isso não se obriga: faz quem quer e pode. Imaginem, nós, que vivemos das modestas castanhas que produzimos, se sairmos por aí “compartilhando” nosso sustento, como é que vamos viver? E a própria Amélia, se é que ela é mulher de verdade, sabe que sair “compartilhando” por aí, a troco de nada, não é uma atitude muito legal.

A declaração da jovem consta de matéria assinada por William Helal Filho, publicada no Megazine (suplemento juvenil semanal de O Globo) em 25.08.09, ao final da qual, em resposta à pergunta “você sempre pensou em se envolver em política?”, a jovem foi veemente:

“– Jamais. Eu queria ser acadêmica ou pesquisadora”.

Pois é isso, amigos! O amadorismo da “Era do Download” está contaminando até a política, essa coisa sempre tão profissional.

Piratas da Suécia? Bons mesmo eram os do Caribe!




Segunda-feira, Agosto 24, 2009
Sexta-feira, Agosto 21, 2009



EM PORTUGAL, O USO DO PRETO VEM DE LONGE

Nosso querido amigo e parceiro Cláudio Jorge, que colocamos no pedestal dos Dez Maiores Violões deste país de grandes violonistas, temporariamente exilado em Portugal pelo Martinho da Vila (d’ Elvas?) manda de lá esta lera:

“Nei meu cumpádi, como vamos? Li, no Lote, seu post sobre a ditadura do preto. Estou aqui em Portugal desde o dia 15 de julho e ‘tava observando justamente isso. Como se usa preto por aqui! Até seria de se compreender quando temos aquela imagens das portuguesas da antiga com suas roupas pretas cobrindo até a cabeça. Mas isso tá rolando muito entre os jovens hoje também. Na contrapartida observo duas coisas nas viagens de metrô por aqui. A quantidade de negão que vive em Lisboa é impressionante, na sua maioria africanos e descendentes, mas eles não usam roupa preta, não, e sim as coloridas que nós conhecemos. Alguém me disse uma vez, mas não tenho elementos para comprovar, que o preto está sendo muito usado também pelas religiões que andam perseguindo a nossa. Seria uma oposição ao nosso branco tradicional”.

Sempre plugado, mesmo quando está acústico, o nosso Cláudio Jorge foi lá, na mosca. E como ele se lembrou das roupas daquelas avozinhas lusíadas, me permito aduzir os seguinte:

É, meu cumpádi! Esse negócio de Portugal usar preto vem de muito longe. Olha só:

“1442 – ARGUIM : Nuno Tristão, a mando do Infante D. Henrique, penetra no Golfo de Arguim e descobre algumas das suas ilhas, onde teria filhado cerca de 30 cativos (Ilhas de Gete e Garças)” – Cf. Pedro Ramos de Almeida, “História do colonialismo português em África: Cronologia”, vol. 1- Lisboa, Editorial Estampa, 1978, pág. 29).

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Ainda bem que Portugal, hoje, parceiro Cláudio Jorge, é um país moderno, comum, europeu e bacana (como você sempre me diz); e esse papo de “filhar cativo” já era, não é mesmo?

Senão...se não, senão, não sei não...




Terça-feira, Agosto 18, 2009

SINCOPANDO O BREQUE
10 anos depois

De São Paulo, o jornalista Lucas Nobile, do Estadão, nos manda o seguinte texto, postado no blog “Sete Doses”:




Dizem as línguas – não sou maniqueista a ponto de fazer distinção entre as boas e as más – que um gênio alcança o grau mor de seu alcance quando consegue usufruir de suas habilidades e bagagens para mesclar a mais alta erudição com o linguajar do povo.

Ciente disso, Jurandir Pederneiras, malandro nato com passe livre nos flancos e meandros do Morro do Tostão, enfiou na cabeça que estudaria milimetricamente as fórmulas e alquimias das síncopes e breques da mais fina flor do samba para conquistar reconhecimento e medalha no universo acadêmico. E se a moeda caísse virada pelo dorso, ele traçaria o caminho do destino na contramão.

Saiu de casa despedindo-se da patroa com um beijo na testa:

- Mon amour, descobri a fórmula perfeita para trazer status para nosso lar e substituir o sururu e o mocotó dos pratos daqui de casa por caviar e escargot.

- Jura, Jurandir? Saindo bêbado de casa de novo, é?

- Pois fique sabendo que já molhei o bico, sim, minha formosa dama. Mas é justamente aí em que reside o segredo para nossa ascensão. Aprendi que misturar Kant com cachaça faz bem. De hoje em diante, é só Miami com Copacabana, Mário Quintana com Morena Tropicana, Chiquita Bacana com Bachiana.

Determinado a prosperar, Jurandir encampou sua missão de tornar-se ao mesmo tempo livre docente em Samba e mestre-sala em Intelectualidades. Mergulhava nos calhamaços de Jürgen Habermas, Nicolau Copérnico e Michel Foucault ao som de Monarco, Paulo da Portela, Casquinha, Argemiro e Mijinha. Horas depois, empilhava os volumes de prateleira por sobre os litros da beberagem etílica nos botequins de Oswaldo Cruz.

Não tardou para que seu bolero de dois pra lá, dois pra cá entre o céu das teses e o inferno dos partidos altos entrasse em parafuso completo. O “castigo-lição-de-moral” veio a galope diretamente de Vila Isabel, montado nos versos do samba Feitio de Oração, de Noel Rosa e Vadico: “batuque é um privilégio, ninguém aprende samba no colégio”.

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e tem plena convicção de ser um privilegiado por ser contemporâneo do cantor, compositor e pesquisador Nei Lopes, a última e derradeira personificação do malandro intelectual

* O título deste texto é uma homenagem ao nome do disco de Nei Lopes que completa dez anos em 2009.




Sexta-feira, Agosto 14, 2009



NEM EU, NEM EU, NEM EU...

Um dia, na década de 90, nós e o caríssimo Cleber Augusto, ele, com seu violão e seu vozeirão, então a serviço do Grupo Fundo de Quintal, fizemos um samba.

Chama(va)-se “Guadalupe e Sulacap”, contava a história de um casal suburbano, fazendo trocadilhos com os nomes e apelidos do pessoal do Cacique, e era (é) bem engraçado. O samba foi gravado pela rapaziada do Bira Presidente. Mas antes de ser gravado, sugerimos ao Cleber mostrar a outros intérpretes, com os seguintes pseudônimos autorais: “João Fosco e Aldir Black”. E isto porque o samba era a cara das composições da dupla Bosco & Blanc.

Tempo vai, tempo vem, e há uns dois anos, o Velhote aqui engatou uma parceria com o Bosco. Que acaba de estrear, quentinha, no CD cuja capa vai acima reproduzida.

E não é que o samba "Jimbo no Jazz” (recordando e homenageando nosso saudoso irmão trombonista Gimbo – que grafava seu apelido africano [“dinheiro”], com “j”) começa a ser devidamente apreciado? Vejam só o seguinte comentário, pinçado na resenha do Luiz Felipe Carneiro no “Blog do Sidney Rezende”, dia desses:

“Além de Francisco Bosco e Aldir Blanc, João Bosco divide o lápis e o papel com Carlos Rennó e Nei Lopes. Com o primeiro, foram duas canções: "Pronto Pra Próxima" e "Pintura". Já a parceria com Nei Lopes é estreada com uma das melhores faixas de "Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão". "Jimbo No Jazz", apenas com o violão e a voz de João Bosco, já pode ser considerado, fácil, fácil, um dos melhores momentos de sua carreira”.

É isso aí, meus camaradas! E pra rapaziada dos “tubérculos” e “rizomas” deixamos a seguinte lera:

Aí, ó! Samba não é só um ritmo, um gênero ou uma dança, meninos! E nem é folclore pra ficar “dando mole pra kojak”. Samba é aquilo que, dentro da alma da gente, bate como samba. E a gente, que sabe que é sambista, tem mais é que caminhar, caminhar, caminhar! Morô?

Cobra quem não anda não engole sapo




Quinta-feira, Agosto 13, 2009



CUBA E A CULTURA SAUDAVELMENTE CONSERVADA

Os repórteres “de Cultura” não param. Assim, o Lote volta ao teclado para responder a mais uma entrevista. E socializar seu conteúdo com os ilustres amigos que nos visitam.

Agora, o assunto é a afrocubanidade. Ou “afrocubanía”, como se diz lá. E, aí, começamos por identificar as raízes.

Em Cuba, as principais regiões de onde provieram os africanos escravizados é perfeitamente identificável, graças à continuidade cultural que lá se processou. A cultura afrocubana se divide, basicamente, nas seguintes vertentes: conga, proveniente da bacia do rio Congo e arredores (atuais republicas do Congo-Kinshasa, do Congo-Brazzaville e de Angola etc); lucumí (dos iorubás, do sudoeste da atual Nigéria e parte do Benin); arará (de Benin e Togo); carabalí (do Calabar, sul da Nigéria) e mandinga (Mali, Senegal, Guiné etc).

País com História colonial muito semelhante à do Brasil, Cuba foi o penúltimo país a extinguir o escravismo, em 1886, dois anos antes da Lei Áurea brasileira. Esse processo foi gradual, iniciando-se em 1880, com um tratado que instituiu a abolição por etapas. E, como aqui, havia várias correntes de interesse. Só que, lá, por isso mesmo, o fim do escravismo ocorreu em meio a um grande conflito, chamado "A Guerra Grande", da qual participaram alguns lideres negros, como os generais António Maceo, Flor Crombet e Guillermo Moncada. Além de lutarem pela abolição da escravatura, eles queriam, também, a independência total, em relação à dominação norteamericana - já naquele tempo.

Sobre o general Maceo, veja-se que protagonizou pelo menos um episódio realmente exemplar. Durante a guerra, quando ouviu a sugestão de que soldados negros e brancos se organizassem em regimentos separados, ele respondeu aos militares brancos responsáveis pela idéia que só não os mandava fuzilar para não ser acusado de racismo.

Com a abolição da escravatura, a guerra pela independência recrudesceu. Mas, em 1898, embora liberto do jugo espanhol, o pais caiu sob o domínio intervencionista dos Estados Unidos, que só abandonaram o país em 1902, deixando lá a base de Guantánamo como “lembrança”. E essa presença norteamericana, alida à proximidade física entre os dois países, levou inclusive um braço da famigerada Klu-Klux-Klan até a Ilha.

Uma conseqüência disso é que a discriminação racial, mesmo após a Revolução castrista, nunca foi lá totalmente eliminada, pois esse tipo de sentimento não é algo que se consiga liquidar apenas com medidas legais ou burocráticas. Além disso, o racismo anti-africano tem raízes muito remotas e antigas. Mas, em nosso ponto de vista (que talvez não coincida com o de nosso amigo e irmão, o antropólogo Carlos Moore, já celebrado neste espaço), Cuba está no caminho da inserção de seu povo negro.

O país tem hoje, e mais do que na década de 1960, diversos políticos importantes, ocupando cargos de alta direção, coisa que no Brasil só ocorre muito excepcionalmente, e só nas áreas da cultura, dos esportes, da ação social. Da mesma forma, Cuba tem cientistas, escritores, intelectuais influentes... sem falar nos grandes desportistas, claro! E, lá, o censo define exatamente quem é "afro-americano" (11%) e "eurafricano" (51%). No Brasil, até hoje, não se conseguiu ou não se quis estabelecer classificações étnicas que dêem a exata medida da nossa presença.

Os negros (“afroamericanos” mais “eurafricanos”) são, então, maioria também em Cuba, como no Brasil. E sua importância cultural se mede principalmente por sua música.

A música afrocubana é, hoje, a grande base da música globalizada. Ela reformatou o jazz, ajudou a criar o reggae e o compas (música do Haiti) e deu status de música popular a vários estilos musicais africanos, antes apenas folclóricos. Essa grande música nasceu das religiões levadas a Cuba pelos escravos africanos. Religião que, hoje, também se globalizou, exercendo forte influência inclusive nos Estados Unidos e até mesmo no Brasil. E isto porque suas diversas vertentes permaneceram bastante definidas em seus princípios, quase sem novidades, invencionices ou glamurizações vazias.

Apesar de toda a carência que disseminou, o bloqueio de quase 50 anos sofrido por Cuba teve como positiva conseqüência (pelo menos até este agosto de 2009, de escandalosas manchetes nos jornais) a permanência de certos valores que desapareceram em outros países das Américas.




Sexta-feira, Agosto 07, 2009



MOSKA RECEBE NEI LOPES NO CANAL BRASIL E SUA "ACEÇORIA" DE IMPRENSA ACHA QUE É ELTON MEDEIROS

Hoje, dia 07 de agosto, o cantor e compositor Moska - grande figura! - recebe em sua quarta temporada do programa ‘Zoombido’ no Canal Brasil o cantor e compositor Nei Lopes. O chato é que sua assessoria, numa confusão outrora comum mas hoje imperdoável, distribuiu um release com a foto do Elton Medeiros, como se vê acima.

Mas o importante é que Paulinho Moska (que não tem nada a ver com esse vacilo) recebe, semanalmente, grandes nomes da música brasileira para interpretações e entrevistas sobre o processo de criação de suas canções. O apresentador convida personalidades dos mais diversos estilos da música brasileira, para falar sobre o início de suas carreiras, influências, seus ídolos e de onde surge a inspiração para compor. l Quinta, dia 06 de agosto, às 21h30, no Canal Brasil. Horários Alternativos: Sexta, às 16h l Sábado, às 13h.




Quinta-feira, Agosto 06, 2009



SAMBA, PINGA, PANGO E PUNGA

Pergunta-nos o jovem jornalista sobre as afinidades entre a repressão ao samba na década de 1920 e a repressão ao funk, no Rio de hoje. Então, puxando um pouquinho pela memória, lida e vivida, vamos lá.

Na década de 20, com Epitácio Pessoa, o governo brasileiro começou a implementar políticas ditas de “eugenia”, para “melhorar a raça”. E isto significava europeizar a sociedade, banindo qualquer resquício de africanidade que ainda houvesse por aqui. Mas desde a década anterior, pelo menos, desenvolvia-se uma idéia de branqueamento, expresso na perspectiva de que, em cem anos, não existisse mais negros no Brasil. E isso foi anunciado euforicamente, em 1911, num congresso na Europa, pelo diretor do Museu nacional, um certo João Batista de Lacerda. Por baixo da capa da “eugenia’, então, havia um genocídio sendo tramado”. Então, você vê: se, no plano biológico, a coisa já era assim, imagina no cultural! Qualquer manifestação de cultura negra era reprimida. E o sambista, em si, também. Você não sabe da história do Cartola, que, já na década de 1930, levou um couro da polícia, à toa, no carnaval, exatamente no ano em que foi eleito “cidadão samba”? Por quê? Porque era sambista E ser sambista era ser negro. E ser negro, principalmente depois da abolição, era ser “vadio”, vagabundo, malandro... E quem bancava essa discriminação era o próprio Estado brasileiro.

Para que se tenha uma idéia, até a década de 1950 (e nós nos lembramos muito bem disso) os soldados da P.E. (Polícia do Exército) aqui no Rio, eram basicamente uns louros grandões, mandados vir do Sul (por isso eram, aqui, chamados de “catarinas”, em alusão à simpática unidade da federação, entre Paraná e Rio Grande do Sul). E eles, inclusive, falando com sotaque de gringo metiam medo nos crioulinhos recrutas. Que, quando eram flagrados farreando, na rua, eram sempre esculachados, mesmo! Ser branco, “loiro”, e ainda mais com sotaque, era ser superior. E isso foi introjetado na cabeça da nossa rapaziada. Inclusive, de rapazes de nossa família, servindo ao Exército. E, nós, gurizinhos, ficávamos muito impressionados com essas histórias!

A instituição da “vadiagem” como contravenção penal era o argumento que justificava a opressão racista. O visitante do Lote certamente conhece aquele samba do repertório do Moreira da Silva, sobre um delegado chamado Padilha, que jogava uma laranja por dentro da calça do malandro... Se a laranja não passasse, era porque a calça era “boquinha” (tinha menos de 22 cm., o regulamentar), moda de malandro. A mesma coisa era o cabelo: se fosse “esticado”, o crioulo estava ferrado. Não era questão de violência nem de criminalidade, não: era o racismo institucionalizado. Eco, ainda nas décadas de 50 e 60, daquelas políticas de extermínio lá de baixo. Como o genocídio se frustrou, com o exemplo de Hitler, agora era tentar matar o comportamento, a cultura.

Reação explícita a isso, não havia, não! A consciência política era coisa de sindicato, ou da “Frente Negra Brasileira”, que já tinha sido dissolvida pelo Estado Novo. O jeito era levar na manha, fingir que estava tudo bem, fazer um samba, cultuar os orixás (na encolha), bater uma bola redondinha... Era o jeito, então! Pois só na década de 70 é que a militância negra retoma o fio da meada.

Hoje, embora muita gente queira estabelecer paralelo, a forma pela qual o Estado e a sociedade lidam como funk é completamente diferente. Nos dias atuais, apesar de o racismo continuar, de forma insidiosa (inclusive, agora, dizendo “não somos racistas”; e botando a máscara do “somos todos mestiços”), o Brasil tem uma Constituição que protege as manifestações culturais negras, está implementando políticas de igualdade racial. Só que a sociedade abrangente parece não estar assimilando isso direito. E, assim, vê a emergência dos negros, depois de tanto tempo de invisibilidade e silencio, apenas como uma festa, uma coisa pitoresca.

Nessa “balada”, “fashion e descolada”, o que realmente acontece é que a grande mídia fomenta uma espécie de “voyeurismo” com relação à miséria, da qual a população negra, como um todo, é a maior vítima. Aí, tome-lhe de filme de favela, de excursão a favela, de baile na favela, de “cultura favelada”. E todo mundo cai dentro, todo mundo compra, porque é moda!

A gente sabe que morar em favela não tem nada de bonito nem engraçado. Bom é saneamento básico, programa de saúde, água e luz direitinho, lixo na lixeira... E pitoresco é a garotada aprendendo música (como era na escola, no meu tempo) e não batendo lata. Mas a sociedade vai nessa onda midiática. E o funk também vai. Então, todo aquele funk que veio lá de trás, do James Brown (polêmico, difícil, mas líder) até o Brasil dos anos 70, foi-se despolitizando, perdendo a substância, perdendo o respeito. Virou sacanagem. É feio, muito feio, mas está na moda, não é?

Então, damos um break no raciocínio, tentando comparar; e aí pensamos: cadê o Cartola, cadê o Ismael, cadê os poetas do funk?

Veja-se, então, que, no Brasil de hoje, o Estado e a sociedade tratam o funk com muito mais benevolência do que tratavam o samba no início do século XX. Mesmo porque a sociedade e o Estado de hoje, é óbvio, não são os mesmos daquele tempo. Tempo em que, no samba, em termos de transgressão, o que havia mesmo era só pinga, pango e punga. Coisas que, aliás, não eram só do nosso meio.




Quarta-feira, Agosto 05, 2009



EM DEFESA DO BRANQUINHO BÁSICO

O Dhyago é um bom garoto. Bom filho, bom vizinho, prestativo. Apesar desse nome estranho, que a mãe botou porque acha “Tiago” muito vulgar. E “Diago” com “dh” é muito mais fashion.

E o lourinho, coitado, gosta do seu nome “americano”. E, como é obediente, se veste sempre de preto. Num “pretinho básico”, como sua mãe aprendeu num desfile no Sapopemba Country Club, noutro dia.

– Agora, todo mundo só veste roupa preta, Dhyago! Tu num tá vendo? Quem num tá de preto tá out-side, meu filho.

A mãe do Dhyago não sabe – e nem tem obrigação de saber – que a tradição aqui do Lote identifica a cor branca com a Ancestralidade. Assim, diante da Espiritualidade mais alta, nós, aqui em casa (mais a extensão de Songa*, lá do outro lado da “poça”), sempre que podemos, nos vestimos de branco.

Não que o branco seja a “cor do luto” africano, como pensam alguns. Não! Pois ela é exatamente, como em diversas tradições de arkhé (termo grego que designa os saberes e práticas lá de trás, de uma época muito anterior, mas muito anterior mesmo), a cor do júbilo, da alegria, da plenitude, do reencontro; e das vibrações mais completas para se atrair coisas boas.

Imaginem, então, o nosso incômodo diante do visual do Dhyago – que é um menino bom na sua língua natal, generoso, solidário, prestativo – ; visual esse, imposto pela mãe, que fica vendo filme policial americano na Gatonet; lendo revista Caras no Coiffeur’s; admirando as incursões da Civil no Rato Molhado; assistindo o Altas Horas; curtindo rock; freqüentando os desfiles do Sapopemba; vivendo, enfim, a Ditadura do Preto!

Pois é isso mesmo: Ditadura do Preto. Observem!

Na TV, nos eventos ditos chiques, nos aeroportos, no Leblon, no West Side carioca, na Oscar Freire, nos Jarddínnsss, TÁ TODO MUNDO DE PRETO!

Só quando o bicho pega e a porca torce o rabo é que a tchurma se lembra do branco. Pra pedir PAZ, arrego, sossego. Isto, de manhã, na passeata, no abraço na Lagoa... Porque, de noite, na balada, todo mundo incorpora o preto de novo.

O Dhyago, é claro, é uma flor do seu tempo. Mas não custa avisar nada a ele (e é o que a gente está fazendo) que, além do branquinho básico, um azul clarinho, um vermelho, um coral, um amarelo, também têm o seu lugar. Como dizia o saudoso Compadre Felipão, “cada chegança tem a induma [indumentária] de acordo”

Mas a mãe do nosso amiguinho, essa não tem jeito. E dá logo um piti, daqueles novelescos:

– Não adianta! O Dhyago veste preto!!!

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(*) São Gonçalo, município do RJ.




Terça-feira, Agosto 04, 2009



AQUILES (MPB-4) MATA O BALDE COM O CALCANHAR

“Nei Lopes é o cara.

“Sambista cheio de ginga, letrista apinhado de assunto, sua sagacidade impera em cada palavra que ajunta a outra para realçar o bom humor, a ironia e a crítica ferina.

“Nei é um dos grandes, daqueles que fazem samba com a naturalidade de quem o conhece profundamente. Suas letras não dão vez à conversa fiada. Tudo o que escreve vem do sentido que o dia a dia das ruas lhe dá. Cronista atento a cada detalhe que a muitos parece banal, as gentes lhe despertam a atenção, por isso sabe o linguajar que falam. Suas rimas vão direto ao coração do ouvinte, atiçando-lhe a curiosidade de onde será que ele vai chegar a cada história que conta.

“As músicas de Nei Lopes são cantadas por grandes intérpretes que nelas descobrem o lado mais esperto e mais divertido do samba. Conhecedor das várias facetas do gênero, ele, mais do que ninguém, sabe que a africanidade é direito e herança a serem reconhecidos e aplaudidos.

“Com jocosa capa de Mello Menezes, Chutando o Balde (Fina Flor) é seu novo CD – só de sambas inéditos. Junto com outros grandes compositores criou parcerias que logo estarão sendo cantadas nas boas rodas de samba, onde os quintais são protegidos por tamarindeiras que espalham sombra e abrigam os sambistas do calor.

“No álbum, três sambas têm versos e música de Nei Lopes. Em outros seis, suas letras emprestam criatividade às melodias da trinca do Quinteto em Branco e Preto – Everson Pessoa, com quem, por exemplo, Nei fez a divertida “Dicionário”, e Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira, que deram a Nei a oportunidade de criar, dentre outras, ótima letra para “Samba de Fundamento”. Com Ruy Quaresma, arranjador e regente do CD (além de seu produtor), Nei compôs o bom “Saracuruna – Seropédica”. Com os violonistas Claudio Jorge e Luis Filipe de Lima, ele compôs dois grandes sambas: “Recordando Seu Libório”, com o primeiro, e “Águia de Haia”, com o segundo. Com Dauro do Salgueiro fez o ótimo samba “Confraria” e com o também salgueirense Luiz Fernando fez a esperta “Meia Cabeleira”.

“Para tocar este repertório impecável, com finura e suingue, foi destacada uma força instrumental capaz de expandir ainda mais o universo musical de Nei Lopes. A sessão rítmica traz craques como Marcelinho Moreira e Ovídio Brito, além de Jorge Gomes na batera. O piano está nas boas mãos de Fernando Merlino, o baixo está preciso com Zé Luis Maia, o violão soa com a competência de Rui Quaresma, o violão de sete está firme com Samara Líbano e o cavaco brilha sob os dedos de Alceu Maia. O competente Humberto Araujo toca saxes e flauta, além de escrever os arranjos tocados pelo trompetista Nelson Oliveira e pelo trombonista Sergio de Jesus, que com ele integram o naipe de metais.

“O novo trabalho de Nei demonstra o quanto a madureza de um artista pode engrandecer sua obra. Chutando o Balde é disco para ser ouvido com um sorriso nos lábios e um copo de cerveja gelada na mão.

“Gigante pela própria natureza da sua música, o cara é Nei Lopes.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4”

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Texto publicado na “Coluna do Aquiles”, no Diário do Comércio (SP), Meio Norte (Teresina), A Gazeta (Cuiabá), Jornal da Cidade (Poços de Caldas) e no Brazilian Voice (uma publicação voltada para os brasileiros residentes em toda Costa Leste dos EUA).




Domingo, Agosto 02, 2009



No Bola Preta, quem não chora não mama.
NO SAMBA SOCIAL CLUBE, SÓ CHORA QUEM AMA.


Atendendo ao intenso clamor popular, o Velhote deu uma chegada no “Samba Social Clube”, aquela agremiação lá nas bocadas do MAM e gravou, com o Zeca (na foto acima, o então já veterano compositor ainda tinha cabelo meio grisalho), o “Só Chora Quem Ama” (Wilson Moreira e Nei Lopes), que, quase mais de 20 anos depois, ficou assim, no DVD que vem aí. Curtam o aperitivo!

(CENA: 1980)

CORO:
Quero ter alguém que tome conta de mim
Não suporto mais ficar sozinho
Preciso de uma companheira
Que me dê conforto e carinho (BIS)

SOLO:
Disse-me Vovó Cambinda, etc...
...................................................

SOLO: Ana Rosália da Silva, etc...
..................................................

WILSON:
Essa mulata formosa
É a flor mais cheirosa
Da Ala das Damas
Do famoso celeiro de bamba,
A escola de samba “Só Chora Quem Ama”.

NEI:
E eu que jamais vi pastora
Tão perturbadora
Tão meiga e tão bela,
Na maior privação de sentidos
Fiz esse partido chorando por ela.

(CORTA PARA 2009)

NEI:
Hoje só resta saudade
Da comunidade “Só Chora Quem Ama”
Uns fecharam e outros sumiram,
Alguns sucumbiram em busca da fama.

ZECA:
Hoje eu encontrei a Musa
Morgada na encruza da casa do Nei.
Quando ela fez o pedido: “Quer casar comigo?”.
Eu... disse “não sei”.