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Quarta-feira, Abril 29, 2009
Cheikh Anta Diop (1923 – 1986) CHEIKH ANTA DIOP Um sábio à frente de seu tempo Nascido em Diourbel, Senegal, em 1923 e falecido em Dacar, capital de seu país natal, em 1986, Cheikh Anta Diop é hoje considerado o maior intelectual produzido pela África no século XX. Descendente direto de Cheikh Amadou Bamba, fundador da verte islâmica hoje majoritária entre a população senegalesa, mal saído da adolescência já se distanciava do fundamentalismo religioso em busca do conhecimento cientifico. Com 23 anos, Diop chegava a Paris, disposto a tornar-se engenheiro aeronáutico. Mas logo, encantado com as possibilidades da Física, escolhe essa ciência como o caminho balizador de sua trajetória. Mas esse não era o caminho, e sim o atalho. Assim, insuflado pelos ventos de independência em seu continente, e pelo processo de reavaliação e reconstrução do passado africano, o inquieto senegalês agregava aos seus estudos de pós-graduação em Física, rigorosos estudos de História, Antropologia, Sociologia, Lingüística e Egiptologia. Mas, como era de se esperar, o avanço de suas idéias trouxe-lhe rejeições e problemas. Sua tese sobre a origem africana da civilização egípcia foi rejeitada duas vezes. Até que o jovem cientista, já publicado em Paris pela prestigiosa revista Présence Africaine, conseguia, finalmente seu titulo de Docteur d’Ètat e Lettres, em 1960. Entre 1959 e 1967, Cheikh Anta Diop publicou os livros Unidade cultural da África Negra, África Negra pré-colonial e A anterioridade das civilizações negras, trabalhos pioneiros que não só inauguraram uma nova abordagem no estudo do passado africano como premiaram seu autor com amplo reconhecimento internacional. Assim, em 1974, ao lado do igualmente brilhante Théophile Obenga, (historiador, lingüista e egiptólogo nascido no Congo-Brazzaville em 1936), realizava o Simpósio do Cairo, o qual teve como conclusão final, em linhas gerais, o seguinte: tudo o que de mais característico houve na cultura egípcia pré-dinástica se deveu ao intercâmbio com o interior da África e à influência direta e permanente do elemento negro, presente na população do Egito meridional desde os tempos mais remotos. Esse é então um dos pilares do pensamento de Cheikh Anta Diop, que pode se resumir nos tópicos seguintes: a) A humanidade começou na África; b) O Antigo Egito desenvolveu uma civilização negro-africana; c) A origem dos povos da África Ocidental remonta ao vale do rio Nilo: d) O mundo semita é uma fusão de imigrantes caucasóides ou arianos com negros já antes estabelecidos na Ásia Ocidental; e) O desenvolvimento humano, nos tempos pré-históricos ocorreu em um berço meridional (África, Elam, Vale do Indo e Suméria) e em outro setentrional (atual Europa); f) A ciência, a medicina, a filosofia, a arquitetura, a engenharia e a arte civilizada surgiram primeiro no vale do rio Nilo; g) Os reinos pré-coloniais do oeste africano desenvolveram formas de organização social e sistemas de governo altamente sofisticados; h) A chamada “África Negra”, apesar de leves diferenças entre as diferentes sociedades, apresenta uma perfeita unidade cultural. O pensamento de Diop é o leme que norteia o Afrocentrismo, movimento que usa a pesquisa científica para construir uma visão de mundo com foco também na contribuição das civilizações clássicas africanas – egípcia, núbia e cuxita – e no saber produzido pela África pré-colonial. A suma desse pensamento chega a nós, agora, no magnífico livro “Afrocentricidade; uma abordagem epistemológica inovadora” (São Paulo, Selo Negro, 2009), graças ao esforço de sua organizadora, a incansável Elisa Larkin Nascimento, cientista de origem anglo-saxônica abrasileirada e amorenada na ampla frente da luta contra o racismo e a exclusão neste país. E foi desse já indispensável livro que extraímos, resumimos e adaptamos o texto de Charles S. Finch III sobre Cheikh Anta Diop (em tradução de nosso fraterno amigo Carlos Alberto Medeiros), com que compusemos este pálido retrato desse “visionário e guerreiro do intelecto”; um sábio tão “firme e solidamente enraizado na África” quanto “um homem para todas as horas e para [todo] o mundo”. Terça-feira, Abril 28, 2009
Foto: Google ADEMIR BATIA UM BOLÃO Mas o time da Eugenia perdeu A mais recente edição da revista Super Interessante (maio, 2009) traz uma instigante matéria, assinada por Karine Ninni, extremamente reveladora. É sobre a ideologia eugenista que grassou no Brasil da década de 1920 e que, se vitoriosa, levaria a práticas genocidas, vendidas como salutares, vitimando principalmente a parcela afrodescendente da população brasileira. Tudo começou em 1911, no 1º Congresso Mundial de Raças, em Londres, onde o então diretor do Museu Nacional, o antropólogo João Batista de Lacerda, anunciou, eufórico, que, no ritmo em que caminhava a miscigenação entre nós, em 2010 não haveria mais negros no país. Lacerda era adepto de Francis Galton, cientista para quem “a evolução humana deveria ser acelerada artificialmente, através da seleção genética e do controle da reprodução”. Com a criação, em 1918, da Sociedade Eugenista de São Paulo, as idéias de Galton tomaram corpo no país, impulsionadas principalmente pelo médico Renato Kehl. Filho de imigrantes alemães nascido no interior de São Paulo, o Dr. Kehl foi o mais importante eugenista brasileiro. A ponto de suas idéias influenciarem a Constituição de 1934, que postulava o “aprimoramento racial” do povo brasileiro, inclusive através da instituição do exame pré-nupcial obrigatório, para “determinar a sanidade física e mental dos noivos”. Bem verdade que as noções de aprimoramento biológico da nação brasileiro envolviam também um conteúdo benéfico, uma “eugenia do bem”. Mas, no fundo, a grande motivação da época era aquela contida na afirmação radiante de João Batista de Lacerda na Londres de 1911 – o que, com o recente “Relatório Anual das Desigualdade Raciais no Brasil”, sabemos que se frustrou. E mesmo porque, com a derrota nazista em 1945, a eugenia exterminadora já tinha caído por terra. Braba essa história, não, amigos? Mas como, aqui no Lote, tudo tem seu lado engraçado, em 1928 o governo de São Paulo, como ficamos sabendo através do texto de Karina Ninni, realizou o concurso “Criança Mais Eugênica do Brasil”. Ganhou uma linda menina, branquinha, cabelinhos adoravelmente castanhos, olhinhos azúis. Mas... sabem como era o nome dela? Não? Era “Ademir”. Dizem que batia um bolão. Sexta-feira, Abril 24, 2009
ASSIM FALOU JEAN-PAUL SARTRE “O que esperáveis que acontecesse, quando tirastes a mordaça que tapava estas bocas negras? Que vos entoariam louvores? Estas cabeças que nossos pais haviam dobrado pela força até o chão, pensáveis, quando se reerguessem, que leríeis a adoração em seus olhos? “Ei-los em pé, homens que nos olham. E faço voto que sintais como eu a comoção de ser visto”. (Em “Reflexões sobre o Racismo”, São Paulo, Difel, 1960, pág.105, tradução de J.Guinsburg - Foto: http://images.google.com (acesso em 23.04.2009). Quinta-feira, Abril 23, 2009
O ABRAÇO DA “RURAL”, SINCERO E COMOVENTE O “Rural Semanal” é o informativo comunitário da famosa e bela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, da qual temos enorme orgulho em ser vizinhos. Em recente edição especial, datada de 30.03.2009, o simpático informativo estampa vasta matéria sobre a posse do magnífico reitor Ricardo Motta Miranda, reconduzido ao cargo, pelo voto de professores, alunos e funcionários, depois de um primeiro mandato de excelência, no último dia 30 de março. Convidados para a solenidade, no anfiteatro Gustavo Dutra, o popular “Gustavão”, no campus sede, lá comparecemos, nós e nossa família. E fomos brindados com a seguinte fala do locutor oficial do evento, a qual está integralmente transcrita na referida edição do “Rural Semanal”: “(...) Falar de Nei Lopes neste momento tão breve é difícil, tão grandiosa é a sua obra. O centro de Arte e Cultura da UFRRJ sente-se honrado com o privilegio de integrar a este dia de comemoração este grande ícone da Cultura Brasileira, resgatando em nome da Reitoria o reconhecimento da relevância de tê-lo entre nós, aqui em Seropédica, cidade que ele e sua família escolheram para morar!”. (...) “Que você venha, Nei Lopes, nosso convidado especial, para receber o carinho da comunidade da nossa Rural e de todos os nossos convidados”. Subimos ao palco, então. E, em nosso agradecimento pela tocante homenagem, assim evocamos a proteção divina para a respeitada instituição e para o líder reempossado: “Como seguidor de uma das muitas vertentes religiosas de raiz africana desenvolvidas nas Américas, desejamos que Eleguá, a divindade primordial, abra os caminhos do Magnífico Amigo Ricardo Miranda. Que Ogum, dono da tecnologia, o instrumentalize! Que Oxossi, dono da subsistência, o alimente! Que Xangô, dono do fogo que transforma e regenera, lhe ajude a renovar o que é preciso! E que Orumilá, dono do saber e do conhecimento, ilumine seu caminho nesta nova etapa de sua missão, à frente da Rural, mas dentro e ao lado de nossa... Cidade Universitária de Seropédica!” Foi um dia inesquecível. Quarta-feira, Abril 22, 2009
O LOTE EM BUSCA DE PATROCÍNIO Nestes tempos de privatização da Cultura, em que os chamados “artistas” são reféns das grandes corporações e empresas, sempre com a mão estendida em busca de um “qualquer” pra fazer um filme, montar uma peça, produzir um CD; nestes tempos, carentes inclusive de boas idéias, vai aqui uma: que tal um filme, um musical, uma ópera, um enredo de escola de samba, com o título “Em Busca de Patrocínio” ? E o enredo é este, ó! Zeca Patrocínio é o nome pelo qual foi mais conhecido José Carlos do Patrocínio Filho (foto acima), personagem da vida boêmia e intelectual brasileira, nascido no Rio de Janeiro em 1885 e falecido em Paris, França, em 1929. Jornalista, poeta, cineasta e homem de teatro, levou, segundo seu biógrafo R. Magalhães Jr., vida mais anedótica e dramática que edificante, resultado, talvez, da infância de mimos prodigalizada pelo pai, o célebre abolicionista José do Patrocínio, o “tigre da Abolição”. Apesar disso, de ser um “filhinho de papai”, mimado e marrento, foi homem de talento e de vasta produção escrita. Em 1910, com o “filme-revista” Paz e amor, exibido no Cine Rio Branco com grande sucesso de público e de crítica, Zeca tornou-se autor do primeiro script feito por um autor nacional diretamente para o cinema. Depois disso, realizou Logo cedo, outro filme, escreve espetáculos teatrais do gênero revista e publica três livros. Dominando os idiomas francês e alemão, viveu entre o Brasil e a Europa, primeiro em estudos, depois em cargos consulares na França e na Bélgica. Em 1916, na Inglaterra, acusado de espionagem pró-Alemanha, é salvo de execução por interferência de altas autoridades brasileiras, permanecendo, entretanto, preso até 1919. A propósito, escreve e publica “Sinistra Aventura”, assim resumido: “A bordo de um vapor durante a 1ª Guerra Mundial, o autor comete uma indiscrição que o leva às prisões inglesas por suspeita de espionagem. Em liberdade, escreve um formidável relato de cárcere, em que se destaca a história do companheiro de prisão russo tornado embaixador logo após o triunfo dos bolcheviques em 1917, além de um afirmado romance com Mata Hari, a famosa dançarina de cabarés fuzilada pelos franceses, acusada também de espionagem”. Zeca Patrocínio faleceu em Paris, durante o nono período de permanência na capital francesa, comissariado pelo Ministério da Viação, e seu corpo foi trasladado para o Brasil a expensas do governo de Washington Luís. É ou não é um tema e tanto? Segunda-feira, Abril 20, 2009
NÃO ADIANTA NEM TENTAR ESQUECER O “DIA DO ÍNDIO” A pena, diante da folha virgem do papel almaço, neste dia 19 de abril, hesita, trêmula. Tenta iniciar o escrito assim: “À sanha dos meus inimigos, entrego o legado...”. Mas esta não é uma boa frase no dia do “Santo das causas impossíveis”. Quem sabe esta: “Eu te proponho nós nos amarmos...”. Também não! As emoções são muitas. Mas, ah! Hoje é também o “Dia do Índio”! Ótimo! Vamos nessa! Pois o encontro, nas Américas, entre as culturas locais e as de origem africana foi um momento de trocas imensamente ricas que até hoje repercutem no campo religioso, nas manifestações carnavalescas e em outros aspectos. No Brasil, essa repercussão é evidente na umbanda, no candomblé de caboclo e em diversos folguedos populares. Interessante saber que à época da escravidão negra, no século XVIII, os índios Malali da região de Peçanha, em Minas Gerais, abrigavam em sua comunidade vários negros fugidos da escravidão. Segundo Saint-Hilaire, esses índios chegaram a ter como seus chefes uma mulher negra e, mais tarde, um homem negro, talvez descendente dela. E esse não foi um fenômeno exclusivamente brasileiro. Nos Estados Unidos, os líderes políticos e espirituais, unidos na luta comum contra o “demônio branco” (expressão da época), trocaram experiências de toda sorte, com a semelhança de suas práticas espirituais facilitando esse intercâmbio. Na Louisiana, por exemplo, os índios natchez muitas vezes integraram escravos fugitivos às suas comunidades, da mesma forma que os seminoles da Flórida, povo no qual um dos chefes teve como esposa uma mulher negra. As guerras entre o Exército americano e os seminoles originaram-se, em parte, de expedições de recaptura de escravos fugidos. Os traços dessas alianças se fazem sentir, ainda hoje, também na religiosidade dos negros americanos ( a Spiritual Church, vertente sincrética afro-americana, venera, tal qual na umbanda, espíritos de índios célebres, como Touro Sentado), e até mesmo no famoso carnaval de New Orleans, onde uma das grandes atrações são os grupos de Mardi-Gras Indians (literalmente, “índios de carnaval”), semelhantes ao Xavantes do Tingüí, Caciquinhos de Inhoaíba, Apaches do Tororó, na zona oeste carioca e na capital baiana. *** Fica , então, resolvido o post de hoje, nesta homenagem aos espoliados senhores ancestrais do chão brasileiro, a quem devemos todas as reverências. Os aniversários do “Rei” e do “Pai do Povo” ficam para o ano que vem, neste dia de Santo Expedito, ao qual nosso Eledá é às vezes associado. Boa semana! Quinta-feira, Abril 16, 2009
COM DOMÍCIO E DEMÓCRITO, O LOTE NA ACADEMIA Depois de se mudar daquela do Salgueiro, de doce memória, e de recusar a da Cachaça, por ser apenas cervejeiro, o ilustríssimo senhor aqui do Lote deu uma chegada na Academia mais antiga, a Brasileira de Letras. E o fez atendendo a solicitação do ilustre amigo cabofriense Dr. Demócrito Azevedo, presidente da atuante confraria literária da charmosa cidade litorânea fluminense. O evento foi no ultimo dia 15, em evocação da memória do escritor afrodescendente Teixeira e Sousa, pioneiro do romance brasileiro, nascido em Cabo Frio em 1812 e falecido na capital do Império em 1861, quinze dias antes da morte do seu amigo-irmão Paula Brito, livreiro, editor e escritor, líder querido de uma comunidade de intelectuais pretos e mestiços em seu tempo, e cujo bicentenário de nascimento está sendo celebrado. A Academia Brasileira de Letras, fundada pelo mulataço Machado de Assis, estava bonita. E o público presente deliciou-se com as sábias falas do poeta Ivan Junqueira, dirigente da Casa; do amigo Demócrito - escritor, médico e também compositor -; do professor Carlos Alberto Sepúlveda, da UFRJ, mestre da literatura e da simpatia, e de nosso fraterno Domício Proença Filho (na foto acima, conosco em outro evento), o primeiro "afro", assumido como tal, a ter ingresso na ABL. Foi realmente uma tarde-noite muito bonita, afora uma ou duas presenças vazias e desagradáveis. E aí, o bruxo do Cosme Velho deve ter pensado lá com seus etéreos botões: - Ah! Esse Lote está “impossível”. Cada vez mais trêfego e ladino! Quarta-feira, Abril 15, 2009
Nelson Sargento – Versátil sem perder a Raiz Afinal pra quê serve um “sambista de raiz”? Esta pergunta nós nos fizemos, num misto de tristeza e indignação, quando vimos o parceiro Wilson Moreira cair vítima de um derrame, cerca de onze anos atrás. Naquele momento, a garotada, filha daquela rapaziada universitária que se extasiou com a modernidade afro de Clementina no Teatro Jovem e elevou o velho Zicartola à categoria de templo maior do samba carioca, começava a descobrir os finos petiscos de Cartola, Candeia e companhia. E, aí, nós, aporrinhados da vida, chamamos para nós mesmos a responsabilidade da resposta. No nosso modesto entender – pensamos –, um sambista de verdade (“de raiz” é rótulo maroto) serve como ponte entre o ontem e o amanhã; como referencial e também como baluarte – no sentido de “suporte, apoio, sustentáculo” e também no de “fortaleza inexpugnável” contra as investidas destruidoras. Agora – perguntávamos novamente, para logo depois voltarmos a responder – : quanto vale um sambista, nessa história? Em termos de mercado, sabemos, por experiência própria, que vale muito pouco. Porque os assim chamados, principalmente os rotulados como “de raiz”, são sempre aqueles que, embora reverenciados e com boa entrada na tal da “mídia”, quase nunca são gravados pelos grandes vendedores de disco; quase sempre são convidados “especiais” só para cantar de graça ou receber o “simbólico”, o “da passagem”; e nunca, apesar das placas-de-prata e medalhas de mérito, são incluídos no contexto da milionária indústria cultural. Mas acontece que, hoje, graças aos deuses e musas, o que de melhor se faz na música popular brasileira, incontestavelmente, está exatamente fora desse contexto aviltado e emburrecido. E este é, com toda a certeza, o caso de Nelson Sargento e deste seu CD “Versátil”. Às vésperas de completar 84 anos de idade; 43 anos depois do inesquecível Rosa de Ouro; numa trajetória artística e literária que inclui telas, filmes e livros, Sargento põe a tropa em fila e apresenta suas armas, neste seu quinto CD individual. E essas armas são: composições com sua marca, parcerias geniais, arranjos eficientes, músicos de grande talento... E fidelidade absoluta à sua sina de artista moderno e corajoso. O disco começa com um autêntico ivone-lara (substantivo incomum), pra malandro nenhum botar defeito. Pois Nas asas da canção, embora Nelson sempre apareça, no “ocaso da vida”, na “mente cansada”, “emoldurando a fantasia”, é um ivone-lara legítimo, safra 1947. E dele vamos para o correto Sinfonia imortal, parceria com Agenor de Oliveira, conhecido como intérprete e entusiasta da obra de Noel Rosa (o saudoso poeta da Vila), de ausência quase tão sentida, para nós, quanto a do nosso pranteado parceiro Maurício Tapajós, que assina, com Sargento, o Verão no Rosto. Nessa faixa, a seqüência harmônica do trecho “sorriso infantil” parece Maurício dizendo “estou aqui!”. E daí, passamos, tirando o chapéu, por um Cartola (Ciúme doentio), para chegar à primeira surpresa do disco. Mas como?! Uma valsa? Sem letra? E solada ao piano pelo Wagner Tiso? Calma, prezado leitor-ouvinte! Rosa Maria, flor mulher é apenas a primeira surpresa deste CD “Versátil”. Porque, a faixa seguinte, Bálsamo... é um bolero! Com direito a acordeom e tudo! No melhor estilo anos 50. E a outra é um fox (Primeiro de abril), com a guitarra elétrica harmonizando, tipo Oscar Moore ou Billy Mackel; e na qual nosso Sargento incorpora Custódio Mesquita na melodia e Lamartine Babo na letra lírico-brincalhona. Mas a versatilidade do artista é claro que acaba (ou continua) em samba. Com o protesto partideiro do parceiro Agenor em Acabou meu sossego; com outra reclamação, desta vez mais bronqueada, quando o letrista acusa a mentirosa de “tapar o sol brilhante com a peneira da ilusão” (Parceiro da ilusão); até que chegamos ao “samba do Marreta”. Compositor dos primeiros tempos da verde-e-rosa, Marreta, integrante da Galeria de Honra da ala de compositores mangueirenses, ao que consta, jamais ganhou um samba-enredo e é muito pouco conhecido. E é Nelson Sargento que, agora, o apresenta ao grande público, nesta parceria (Só eu sei) tão pequenininha quanto melodiosa e contagiante. Um verdadeiro samba-de-terreiro dos bons tempos! Tão forte quanto a faixa seguinte, Pobre milionária, é ilustrativa da influência de Cartola nas obra do nosso grande artista. Sobre o clássico Falso amor sincero já se disse tudo. Mas aí vêm, de novo, Sargento e o Oliveira com uma marcha-rancho “daquelas” – que não nega sua raça nem no arranjo. Versatilidade! E, então, o excelente Pranto ardente, nos faz ver Os Cinco Crioulos (inclusive com os saudosos Anescar e Jair) metendo bronca, de terno branco, no palco do Teatro Jovem; e nós também. Mas eis que chega o Século do samba, concorrente ao enredo da Manga em 1999, nos fazendo coçar a cabeça: “é melhor este samba aqui, Seu Nelson; pois lá, ia virar outra coisa!”. É nessa que a letra de Ídolos e astros dá o recado final: “Os grandes artistas, como Nelson Sargento, sempre viverão na memória daqueles que têm respeito e consideração”. Pois é isto! Ponte entre o ontem e o amanhã, este CD mostra, de fato, a maestria e a versatilidade de Nelson Sargento, valioso e valoroso, referencial e baluarte. Fortaleza inexpugnável do samba, ao lado de Evonete (seu “bálsamo”), ele incursiona também por outras “praias” do seu tempo. E, assim, sob a batuta desse extraordinário Paulão Sete Cordas e contando com um batalhão de grandes músicos e amigos, ele, versátil sem perder a raiz, põe a tropa na rua e toma suas providências. É para isto que serve um sambista de verdade! Quinta-feira, Abril 09, 2009
SOBRE “MARECHAU” E PLANEJAMENTO URBANO No momento em que as discussões sobre planejamento urbano voltam à baila na corte carioca, daqui do fundo, o Lote relembra Marechal Hermes, palco de altas estripulias, na época da Visconde de Mauá, escola tão boa que nos motivou a fazer o ginásio em 5 anos, entre 1953 e 57. O bairro, cuja beleza (de verdade!) já começa na arquitetura da estação do trem – acima, em foto de Luiz Bettencourt, O Globo, 1986 –, foi, na segunda década do século XX, o primeiro planejado e criado no Brasil como uma “Vila Proletária”, estritamente residencial, dotado de completa infra-estrutura de serviços públicos. E isto, motivado por uma viagem presidencial à Europa, onde Hermes da Fonseca se deslumbrou com algumas “vilas operárias” francesas e alemãs. De volta da viagem, o marido de Dona Nair de Teffé (caricaturista e violonista, como boa parte dopovo do Lote), meteu mãos à obra e mandou construir quatro vilas: uma na Gávea, outra no Estácio, outra ainda no Catete, e, por fim, a maior de todas, a nossa focalizada. A Vila Operária nas terras do antigo Engenho Sapopemba nasceu, segundo seu projeto, dotada de praças e ruas largas e arborizadas. E próximo a ela – pasmem! –, na atual rua Sirici, do outro lado da via férrea, no alto de uma pequena elevação, o primeiro mandatário fez construir um palacete para sua amada Nair, o qual, ali pelos anos 70, não resistiu à especulação imobiliária e acabou demolido, para dar lugar a um condomínio. Os primeiros moradores da vila seriam os desabrigados pelo desmonte do Morro do Castelo. Mas, já naquela época, as coisas não eram bem assim. Então, a prioridade acabou sendo concedida a funcionários públicos e a quem tinha “pistolão”, o “Q.I.” da época. E em 1930, com Getúlio Vargas, o projeto original foi alterado, sendo os amplos sobrados em boa parte substituídos por blocos de apartamentos. Mas mesmo assim, como dizia o Je-suis (traduzam o francês, por favor!), o bairro continuou “gracinha”, com suas ruas largas e arborizadas; o sobrado de Dona Marieta, mãe do Dr. Carlos, o querido “Ferro”, o primeiro médico preto de nossa amizade; a Igreja de Nossa Senhora das Graças; a querida Escola Mauá; e o prédio da estação, tão “show de bola” que há pouco tempo foi restaurado pela SuperVia. Tão bacana era o bairro que tinha até um tênis clube, o Marã. Que, em 1956 ganhou destaque pela participação no concurso de Miss Distrito Federal de sua representante Leda Brandão Rau, uma tremenda gatona. Classificada em 3º lugar, “apesar de ser suburbana”, Ledinha foi notícia. Porém logo logo, o folclore acabou, quando a mídia (que na época era apenas “imprensa”) descobriu que ela morava em Botafogo. Mas enquanto o “lado de lá” era isso tudo, o “lado de cá”, berço da saudosa escola de samba Unidos do Indaiá (e onde, mais tarde, uma academia de judô virou gafieira e, depois, bunker de um senhor abaixo de todas as suspeitas), ficava só olhando. Tanto que o trêfego Je-suis, orgulhoso do sobradão onde morava costumava dizer: – Eu moro em “Herrrmes”; eles lá, aqueles neguinhos, eles moram em “Marechau”. Com “u”. Terça-feira, Abril 07, 2009
Professora Manuela Carneiro da Cunha: “'RAÇA' É UMA NOÇÃO QUE OPERA” A simpática senhora da foto acima, publicada na edição de nº 17 da Revista de História da Biblioteca Nacional, em fevereiro de 2007, é a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, professora da Universidade de Chicago e autora de várias obras fundamentais sobre a História dos índios e dos negros. Nascida em Portugal, filha de pais húngaros, judeus, formou-se em Matemática Pura, freqüentou o seminário de Lévi-Strausss e acabou por dedicar-se à antropologia. Na década de 1981, foi professora visitante em Cambrigde e na École des Hautes Études em Sciences Sociales, em Paris. Trata-se, portanto, de uma intelectual que merece o nosso maior respeito e nossa maior admiração. E foi ela que, na edição mencionada da RHBN (pág. 55), declarou, leiam com atenção, o seguinte: “Sei que o grande argumento de quem é contra as cotas é que isso introduz ‘raça’ na lei, racializa a legislação. Mas ‘raça’ já existe no Brasil. Existe porque, pragmaticamente, ela está em funcionamento. E, certos momentos, ela até desaparece do censo, mas isso não a tira do universo social. O que eu quero dizer é que ‘raça’ é uma noção que opera e, portanto, existe no Brasil, mesmo que se conteste seu fundamento. Não adianta dizer que raça não é um conceito adequado; ele existe no senso comum e na sociedade, e produz os efeitos sociais e psicológicos que todos conhecemos”. Daqui, então, depois de ler o virulento artigo do jornalista João Ubaldo Ribeiro intitulado “Quem tem raça é cachorro” (O Globo, 05.04.2009), coçamos a cabeça e passamos a dar menos razão ao genial baiano Gordurinha, autor de “Pau que nasce torto”, 1959. O jornalista perdeu uma boa oportunidade de ficar calado. |
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