Segunda-feira, Março 30, 2009



OIOBOMÉ: NASCE UMA NAÇÃO

"O general governador gosta de se embrenhar pela floresta, para senti-la e conhecê-la. E numa dessas incursões, quando tenta se desvencilhar de um espinhoso cipoal, após um estranho redemoinho que repentinamente se forma à sua frente, ele vê o negrinho.

"É um anão. De pouco mais de 3 pés de altura, tem apenas uma perna e, em seu corpo, não se vê nenhum distintivo sexual, apesar de estar completamente nu. Mas o guerreiro percebe que é um homem, talvez um menino, pois usa um barrete vermelho. Ou é um velho, pelo cachimbo que fuma?!

"Seus olhos, que parecem duas brasas, olham fixa e severamente os de Dos Santos, como a cobrar alguma coisa prometida.

"– Cadê meu fumo de rolo?. – A pergunta, numa voz fanhosa e esganiçada, sai como um silvo, de uma boca apenas entreaberta.

"– Cadê meu rolo de axá? – o negrinho insiste, pedindo tabaco com sal, para mascar.

"Dos Santos tem certeza de que jamais viu aquele negrinho. A única coisa que sabe dele é que tem a pele tão preta e a fisionomia tão afróide, quanto as suas. E que usa um barrete africano de cor vermelha, talvez um eketé iorubano, talvez uma kijinga de Angola.

“Parece um Elegbara, um Exu, o negrinho” – pensa Dos Santos, apenas baseado nos relatos de quem já viu um Exu, como Gbetó Muçá, que inclusive tem um em casa. Porque ele, ainda bem, nunca viu nenhum. Mas o que estaria fazendo um Exu-Elegbara em plena floresta amazônica? Confraternizando com Anhangá, Apeautó e outras entidades perigosas?

"– Cadê meu fumo de rolo? . – pergunta de novo o negrinho, insistente na cobrança que faz a todos os que adentram seus domínios, mas sem demonstrar impaciência. Será Arôni, o duende iorubano das matas, da família de Oçãe, que só tem uma perna no corpo humano? Não! Arôni tem cabeça de cachorro.

"– Meu nome é Sácí Kpededè, que quer dizer, em fongbé, “muito bonito”... – diz o negrinho, todo rempli de soi mème. Aí, o general governador, contente em saber que ele e o personagem têm a mesma origem étnica, fica sabendo mais: que ele é o famoso Saci Pererê, meio africano e meio índio, nascido, segundo sua própria e discutível versão, de um babaloçãe jeje-iorubano que um dia, há muitos anos, entrou na mata para colher folhas e foi encantado e seduzido por uma bela índia dotada de poderes sobre-humanos.

"– Por isso eu sou preto, uso barrete vermelho e chamo o fumo de “axá” – pelo lado paterno. Por isso fumo cachimbo e sou filho da Mãe-do-Rio.

"O Saci Pererê, então, se gaba de ter sido o primeiro afro-indígena. Mas foi banido do convívio dos humanos, conforme confidencia, por intriga de um grupo de antropólogos, sob o argumento de que o fumo que fuma não é nem um pouquinho inocente. É pango, diamba, fumo-de-angola, makanya, igbó, igi ogbó, moda, rama, tabanagira... Que dá, segundo ele, sensação boa, sim, fazendo esquecer muita tristeza.

"– Mas também dá preguiça, provoca torpor, leseira, leva à vagabundagem. E se fumado em demais, potencializa as más tendências do indivíduo. - Adverte Dos Santos.

"Mas apesar disso, o Saci Pererê (ou Sácí Kpededè ) foi, de fato, o primeiro afro-indígena. Por isso,Dos Santos pensa em fazer dele o símbolo de sua República, o que mais tarde se realiza".

(Da rapsódia "Oiobomé O' Mezamu", no prelo, Editora Agir, com lançamento previsto para outubro, 2009).







MILTINHO: O SAMBA SINCOPADO NA TELONA

Chega ao Lote, através do sempre atento Gerdal José de Paula, o papa da divulgação da boa música brasileira via internet, o seguinte recado:

"Você, mulher, que já viveu/que já sofreu/não minta/um triste adeus/nos olhos teus/a gente vê, mulher de trinta..." ("Mulher de Trinta", de Luís Antônio); "Foi assim/a lâmpada apagou/a vista escureceu/um beijo, então, se deu/e veio a ânsia louca, incontida do amor..."("Meu Nome É Ninguém", de Luiz Reis e Haroldo Barbosa); "Peguei o Zé/de copo na mão/tentando afogar a Conceição/no bar, quem é triste vira herói/engana a cabeça/o coração não dói..." ("Zé de Conceição", de João Roberto Kelly); "Luminosa manhã/pra que tanta luz?/dá-me um pouco de céu/mas não tanto azul..." ("Canção da Manhã Feliz", de Luiz Reis e Haroldo Barbosa); "Você errou/quando olhou pra mim/uma esperança fez nascer em mim..." (Recado", de Djalma Ferreira e Luís Antônio). Esses, entre outros, são sucessos que, sobretudo nos anos 60, firmaram o cantor carioca Miltinho, no panorama da MPB de então, com uma interpretação diferente, anasalada, toda sua, em que brincava com o ritmo e a divisão. Seu primeiro elepê solo, "Um Novo Astro", data de 1960, em que gravou a bem rodada "Mulher de Trinta", mas, antes disso, provara da antiga e eficaz receita do canto popular: a atuação como "crooner", de 1950 a 1957, da Orquestra Tabajara e, pouco depois, do conjunto Milionários do Ritmo, liderado pelo organista Djalma Ferreira. Também fizera parte de memoráveis conjuntos vocais, como Namorados da Lua, Anjos do Inferno e Quatro Ases e um Curinga, cantando e batendo pandeiro, o que hoje, muito bem, faz um talentoso seguidor seu, da nova geração da Lapa, Pedrinho Miranda, do Grupo Semente.

"Filho direto do melhor sincopado brasileiro", como escreveu o colunista de economia e bandolinista Luís Nassif, Miltinho é tema do curta-metragem "No Tempo de Miltinho", de André Weller, pianista, artista gráfico e ex-integrante do conjunto Família Roitman ("flyer" anexo). Do amigo André tive a sorte de ganhar, no Natal passado, uma cópia desse documentário, que recomendo com ênfase e será exibido neste domingo, no Artplex, em Botafogo, às 14h, e amanhã, no mesmo cinema, às 16h, pelo festival É Tudo Verdade, indo em seguida para São Paulo. Feito com recursos da Petrobras, após aprovação em concurso público da estatal, e mostrando raras imagens de arquivo, trata-se de merecido e bem-vindo reconhecimento. Flores dadas, ainda em vida, aos 81 anos recém-completados, a "esse cantor que sempre transitou entre a modernidade e a tradição, que é popular sem deixar de ser sofisticado", de acordo com a arguta observação do jovem jornalista, pesquisador e escritor Rodrigo Faour.

Um bom dia a todos. Muito grato pela atenção.

Um abraço,

a) Gerdal


R: Grande Gerdal, filho do não menos Geraldo José, pioneiro da sonoplastia radiofônica e cinematográfica no Brasil! Você é o "faz a diferença" da internet! Muito obrigado!







O OLHO MAIS AZUL

O respeitável público, com toda a razão, cobra um pronunciamento do Lote sobre a metáfora dos “olhos azuis” espanada pelo Presidente Lua na cara dos banqueiros internacionais. Mas o pronunciamento já tinha sido feito, em 2004, na primeira edição da Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, que estamos revisando e atualizando para futura edição. Vejam estes dois verbetes:

“LOURO, Idealização do tipo. - A idea­li­za­ção e a an­ge­li­za­ção do in­di­ví­duo bran­co de ca­be­los lou­ros pa­re­cem ser, se­gun­do Gilberto Freyre, rea­ções à su­per­va­lo­ri­za­ção da be­le­za “mou­ra” na Europa me­die­val. Assim, ao mi­to e às len­das da Moura Encantada, que se di­zia pos­suir be­le­za per­tur­ba­do­ra, se­gui­ram-se os da Moura Torta, es­ta alei­ja­da e ­feia, com a as­so­cia­ção dos não-bran­cos a an­jos ­maus, trai­do­res e de­caí­dos, e do ti­po lou­ro a per­so­na­gens di­vi­nas e an­ge­li­cais. Entretanto, se­gun­do o his­to­ria­dor gre­go Heródoto, os an­ti­gos egíp­cios evi­ta­vam a com­pa­nhia de pes­soas de ros­to cla­ro e ca­be­los rui­vos, por con­si­de­rá-las ma­lé­fi­cas; e, no tem­po em que os sa­cri­fí­cios hu­ma­nos ­eram ­usuais, in­di­ví­duos lou­ros ­eram es­tran­gu­la­dos sob o tú­mu­lo de Osíris* ou quei­ma­dos vi­vos.”

“BLUEST EYE, The. Romance de es­tréia da es­cri­to­ra Tony Morrison*, pu­bli­ca­do em 1969 e lan­ça­do no Brasil, em 2003, sob o tí­tu­lo O ­olho ­mais ­azul. Nele, a au­to­ra ques­tio­na o pa­pel das bo­ne­cas bran­cas de ­olhos ­azuis na for­ma­ção psi­co­ló­gi­ca das me­ni­nas ne­gras. De ob­je­to de so­nho ­elas se tor­na­riam um pe­sa­de­lo, ator­men­tan­do es­sas me­ni­nas com a cons­ta­ta­ção de que só com ­olhos ­azuis po­de­riam exer­cer ma­gia e fas­cí­nio, ob­ten­do, em tro­ca, ca­ri­nho e mei­gui­ce. No Bra­sil, no fi­nal do sé­cu­lo XX, a in­dús­tria de brin­­que­dos – tal­vez sen­si­bi­li­za­da, mer­ca­do­lo­gi­ca­men­te, por es­se ti­po de ques­tio­na­men­to – co­me­ça­va ti­mi­da­men­te a fa­bri­car bo­ne­cas ne­gras. Ver LOURO, Idealização do tipo.




Quinta-feira, Março 26, 2009



HEMETÉRIO, O VERDUGO E SEU MACHADO

Pouco restava da memória de Hemetério dos Santos, a não ser o episódio que baniu seu nome dos livros: a afirmação veemente, quando da morte de Machado de Assis, em 1908, de que o "bruxo", envergonhado de suas origens, teria se omitido sobre o escravismo e a questão negra.

Agora, Hemetério volta à vida. Esplendorosamente moço, bonito, elegante (vejam a foto acima, do acervo da BN, reproduzida no livro que a seguir comentamos), além de catedrático, e, pasmem, oficial do glorioso Exército Brasileiro. Ele que, aos 30 anos de vida, viu o fim do escravismo; e viveu até o advento do Estado Novo e suas propostas arianizantes.

Mas... quem foi esse negro, cujo nome grego significa "nosso amor"? Vejamos.

Hemetério José dos Santos (1858-1939), professor, gramático, fi­ló­lo­go e es­cri­tor, nasceu em Codó, no Maranhão, e faleceu na cidade do Rio de Janeiro. Com cerca de 20 anos de idade já era professor do Colégio Pedro II, na capital do Império; e em 1890 era nomeado professor adjunto do Colégio Militar do Rio de Janeiro, onde, mais tarde, tornou-se professor vitalício. Cursando a Escola de Artilharia e Engenharia, conquistou a patente de major, obtendo, depois, o galardão de tenente-coronel honorário. Foi também professor da Escola Normal do Distrito Federal, granjeando fama de grande mestre. Na opi­nião de Sílvio Romero, om­brea­va com Olavo Bilac, Graça Aranha, Aluísio e Artur Azevedo, no uso da pa­la­vra es­cri­ta. Entretanto, após a mor­te de Machado de Assis*, acu­sou-o de ter traí­do o po­vo ne­gro; e essa po­si­ção pa­re­ce ter de­ter­mi­na­do uma es­pé­cie de boi­co­te à sua ­obra e à sua me­mó­ria. Emílio de Menezes, cha­man­do-o “He­metério de Souza”, de­di­cou-lhe ­dois so­ne­tos sa­tí­ri­cos ei­va­dos de ra­cis­mo. E Luiz Edmundo tra­ça-lhe um per­fil de “fi­ló­lo­go pro­fun­do”, mas “um tan­to dis­cu­ti­dor”. Em 2008, o livro A cor da escola, de Maria Lúcia Rodrigues Muller (Cuiabá, UFMT), resgatava parte de sua memória, publicando inclusive fotografias que ressaltam a harmonia de seus traços físicos e sua elegância, além de sua condição de único negro entre os docentes do Colégio Militar em seu tempo. Obra publicada: Gramática elementar da língua portuguesa; O livro dos meninos; Gramática portuguesa; segundo grau primário; Pretidão de amor (conferencias literárias); Carta aos maranhenses; Da construção vernacular; Gramática portguesa: adotada na escola normal do Distrito Federal; Frutos cativos (poesia); Etimologia: “Preto” (artigo).

Dizem que Hemetério, honrando o nome, era "espada". Condição essa que, hoje se sabe (como se sabe também que não foi assim tão distante da causa negra), o "bruxo do Cosme Velho" também, nas caladas, ostentou.

Aí, quem sabe, então, se a "bronca", a "quizila" entre eles não teria outras razões, hein?! Quem sabe?

Talvez o soubesse o Quincas, que cunhou a célebre frase com que fechamos este bate-papo:

Ao vencedor, as batatas!




Terça-feira, Março 24, 2009



O DECANO DA MÚSICA AFRO-AMERICANA

O mulato esperto aí em cima chamava-se William Grant Still, nasceu em Woodville, Mississippi, em 1895 e viveu 73 anos.

Conhecemo-lo hoje, em nosso passeio matinal em torno da "Africana - The Encyclopedia of the African & African American Experience", cuja edição brasileira estamos "consultoriando".

Grant Still (intimidade...), compositor clássico cuja vasta obra contemplou do clássico ao jazz e à música popular , é considerado o decano da música afroamericana. Multi-instrumentista, destacou-se na execução de oboe, violino e violoncelo, sem perder o suíngue, pois exerceu sua arte de intérprete também na música de dança e de teatro, tocando inclusive no histórico musical "Shuffle Along".

Foi também letrista, arranjador e diretor de gravadora, no caso a pioneira Black Swan Records, orgulho do povo negro nos EUA.

Autor de uma obra singular, baseada no folcore afro-americano e na tradição musical nativa de seu país, William Grant Still passou primeiro (como não poderia deixar de ser) pelo estudo dos mestres europeus, desenvolvendo, a partir daí, sua própria "caligrafia" musical.

Mulato esperto! Sabia das coisas! E se criou em um país onde, mesmo com todas as barras pesadas que os negros enfrentam e enfrentaram, teve condições de desenvolver suas aptidões, sua versatilidade e seu talento.

País esperto! Hoje governado por um mulato idem (no bom sentido, queremos crer).

Enquanto isso, aqui embaixo, na Zona Sul, na Zona Oeste, no Senado... Deixa pra lá!




Quinta-feira, Março 19, 2009



O DRAMA E A COMÉDIA DO RACISMO EM BRANCO E PRETO

“Uma empregada doméstica negra foi presa no Espírito Santo e autuada por crime de racismo contra um motorista também negro. Ela subiu no ônibus e, após um a discussão com o motorista, teria dito: ‘Só podia ter sido um preto para fazer uma coisa dessas.” (O Globo, 18.03.2009).

Lemos esta triste notícia logo após tomarmos conhecimento, pela autobiografia do presidente Barack Obama (“A origem dos sonhos, São Paulo, ed.”. Gente, 2008) de outro fato mais ou menos do mesmo calibre: nos anos 60, milhares de mulheres e homens negros, nos Estados Unidos, submeteram-se a um frustrado tratamento químico, visando embranquecer fisicamente, tendo conseguido apenas a assustadora aparência acinzentada de vítimas de um desastre nuclear.

Lembramo-nos então de vários episódios similares, de autonegação, por nós presenciados ao longo da vida, uns mais outros menos engraçados. Lembramos também da capacidade que têm, por exemplo, os judeus, graças ao seu elevado poder de autodefesa, de sacanearem a si próprios, com a verve atilada de seus humoristas. E chegamos à trágica dimensão disso que resolvemos denominar “endorracismo” (aquele que, aqui, ocorre entre nós mesmos, negros, principalmente nas cabeças dos menos “resolvidos”).

Essa doença é um dos resultados mais cruéis da colonização racial. Para inferiorizar e destruir, o racismo coloniza a mente de suas vítimas, fazendo com que o colonizado se sinta feio, pequeno, desimportante, porque não tem a aparência do colonizador. E, aí, diante do espelho, ele se insurge contra a própria imagem.

No Brasil, a eleição, pela mídia visual, de um padrão preferencial de beleza, baseado no tipo nórdico ou no caucásico (louro, alto, olhos claros), é o vetor mais letal dessa doença. E foi principalmente por causa dele que a doméstica afro-capixaba se sentiu no direito de acusar o motorista de fazer “crioulice” (termo não dicionarizado, mas corrente no nosso universo, como sinônimo de coisa feia, mal feita).

Aí, então, nos vem à cabeça a célebre jogada do Robson, pequeno grande meia-esquerda do Fluminense nos anos 50, o qual, do alto de sua auto-estima muito bem trabalhada, toda vez que se defrontava com uma parada indigesta como a que agora comentamos, mandava lá, de trivela: “-- Eu também já fui preto e sei como é que é”...




Terça-feira, Março 17, 2009



O “BISPO” ESTÁ PEGANDO. E FATURANDO.

"Aos pouquinhos, aos pouquinhos, a brabeza foi tomando conta da vida cotidiana e agora ameaça claramente o Estado de Direito". – pigarreia, ao nosso lado, o Mattos Espíndola, jurista aposentado. E ele tem razão. Pois o Mal, de pé descalço e sem camisa; de tênis de marca e boné de grife; de termo Armani e gravata Hermès; de gandola e coturno; de toga, borla e capelo; de túnica com alamares e espada à cinta; de tudo quanto é jeito e feitio, está aí, na esquina, nos salões, no ônibus, nos plenários, nos pretórios, nos tribunais.

“O enfrentamento – secunda Mattos Espíndola, plagiando a fala de um nobre deputado estadual – não se pode dar apenas através da polícia. Mais do que simplesmente prender os lideres, é preciso quebrar o braço financeiro que sustenta esses grupos”.

Em sua declaração, verídica, o ilustre deputado se referia a um aspecto típico, fluminense, do Mal. Entretanto, suas palavras se aplicam a todas as latitudes e longitudes da brabeza hoje em curso no País, da Carobinha ao Jardim Botânico e à Praça dos Três Poderes; do Rato Molhado ao Barra Green; da Salsa & Merengue ao Engenho Novo e ao Cosme Velho; de Campo Grande à Gávea Pequena.

Em meio a essa reflexão, e ao som da passeata pela paz (todos de branco) que caminha lá fora, abrimos os suplementos dominicais e vamos às novelas, pra espairecer. E lemos:

“Cenas de ação e violência voltarão a marcar a dramaturgia da TV-X, que prepara o lançamento de sua próxima novela seguindo uma tática que mostrou resultados". É sobre o próximo folhetim, que estréia mês que vem, no qual o autor adianta que o publico verá, já no primeiro capítulo, uma explosão cinematográfica. "A opção pelo gênero (A série 'Brabeza', atuamente em cartaz, ganhará uma nova temporada) faz parte da estratégia da emissora na briga pela audiência, tanto que o diretor já recebeu carta branca para utilizar todos os recursos disponíveis a fim de deixar os telespectadores impressionados”.

Impressionadíssimos, vamos, então, ao resumo de “Brabeza 1” e lemos:

“Manu e Beatriz saem correndo do escritório e fingem que estão dormindo. Xavier entrega uma faca para Lincoln usar para matar Lipe, que é informante de Fausto. Ivonete prepara o café da manhã de Vilma. Vilma não come com medo de estar envenenado. Lipe se aproxima da grade e Lincoln lhe dá uma estocada coma faca. Lipe cai ferido”.

Suando frio e aos borbotões, vamos a outro suplemento dominical. E neste, numa reportagem justamente sobre o tal seriado mencionado, o ator principal (que vive na série o chefe do tráfico em uma favela carioca) comenta que teve bons papéis na TV-H (hegêmonica), de onde é egresso, mas que sentiu falta de papéis trágicos, de viver "situações limite”.

É aí que, com a pressão lá em cima, perguntamos à Comadre Adrenalina, que acabou de nos trazer o café com "donnuts" (ela não fala mais "biscoito"):

– Péra aí! Mas essa TV-X aí não dizem que é do “Bispo”?

E a Comadre, judiciosa como sempre, coça a cabeça e observa, para espanto de Mattos Espíndola:

– É, Velhote... o “bispo” tá pegando. Na mão grande. E faturando.




Quarta-feira, Março 11, 2009



ABDIAS, 95
LIDERANÇA E RESISTÊNCIA


Neste sábado, 14 de março, amigos e correligionários de Abdias Nascimento estarão celebrando seus 95 anos. Daqui do nosso quilombo, enviamos nosso abraço ao grande líder, exemplo de firmeza e coerência, através do texto que se segue.

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Em 1999 era publicada nos Estados Unidos a primeira edição da Africana: The Encyclopedia of the African and African American Experience. Trata-se de um tão volumoso quanto importante livro (depois editado em 5 tomos), organizado por Kwame Anthony Appiah e Henry Louis Gates, com a colaboração de uma equipe de centenas de colaboradores da área acadêmica , responsável pela elaboração de longos e bem fundamentados artigos, distribuídos por mais de 2 mil páginas.

Sem dúvida a maior obra já publicada sobre a África, suas civilizações e seu impacto na cultura mundial, a Africana, sonho acalentado durante anos pelo respeitado intelectual afro-americano W.E.B. Du Bois, nasceu principalmente da carência de uma obra de cunho enciclopédico na qual se enfatizasse a origem africana de importantes instituições, realizações, eventos e personalidades em todo o mundo. Nas publicações disponíveis até então, a africanidade parecia ter apenas interesse etnográfico, nelas raramente figurando heróis, sábios, grandes homens realçados em sua circunstância étnica. Inclusive, no Brasil, para publicações desse tipo, em geral, o vocábulo “negro” define mais uma categoria social, já que os “grandes homens”, quando afro-descendentes, são apenas “nascidos em lar humilde” e quase nunca efetivamente “negros”.

Foi, então, seguramente para reparar essa grave omissão que o sonho de Du Bois se concretizou na elegante Africana. E, nela, na página 1385 do volume de 2093 páginas, impecavelmente impressas em papel cuchê, lá está a entrada: “NASCIMENTO, Abdias (...) Afro-brazilian playwright, poet, educator, artist, and political activist; onde of the leading figures of Brazil’s black movement”. E segue-se o alentado verbete, ilustrado por uma bela foto colorida do venerando brasileiro.

Nascido no interior paulista, numa família operária, em março de 1914 – há exatos noventa anos portanto –, Abdias do Nascimento foi sucessivamente entregador; servente de laboratório farmacêutico; e faxineiro num consultório médico, atividade que acumulou com a de estudante de contabilidade num curso noturno. Até que na década de 1930 se transfere para São Paulo e, depois, para o Rio de Janeiro.

A vida intelectual e artística na antiga capital federal fascina o jovem interiorano. A cidade fervilha, notadamente no centro, numa área nítida e simbolicamente demarcada pelos prédios da Biblioteca Nacional, da A.B.I., do Teatro Municipal, da Câmara dos Vereadores e do antigo Senado. É ali, naquele ambiente efervescente de idéias que, em 1944, levado pela constatação de que “num país de negros, o negro não podia representar papéis principais, mesmo quando os personagens desses papéis fossem especificamente negros”, Abdias funda, dirige e atua no T.E.N. ,Teatro Experimental do Negro.

Muito mais que um simples companhia de teatro, o T.E.N. foi uma das primeiras experiências de conscientização e luta pela cidadania dos descendentes de africanos no Brasil. Tendo a prática teatral como alavanca, o movimento religava os elos de uma corrente quebrada com a dissolução da Frente Negra Brasileira, alguns anos antes.

A partir dessa primeira e decisiva experiência, Abdias organiza encontros nacionais para discutir a questão negra; funda e dirige o jornal Quilombo e o Museu de Arte Negra, este não um mero acervo físico de obras mas um núcleo irradiador de conhecimento voltado para a estética afro-brasileira. E por aí vai.

No exílio, nos anos 70, fez-se professor na Universidade do Estado de Nova Iorque em Buffalo, onde fundou a cadeira de Cultura Africana no Novo Mundo tendo sido, ainda, professor visitante nas universidade de Yale e no departamento de línguas e literaturas da Universidade de Ifé, na Nigéria. A partir dessa década, tornou-se presença constante em congressos e fóruns de debates anti-racistas nos Estados Unidos, na África e no Caribe, constituindo-se na primeira voz brasileira a ecoar no cenário do pan-africanismo.

Em 1982 coordenou e presidiu, na PUC-SP, o 3º Congresso de Cultura Negra das Américas; em 83 elegeu-se deputado federal; e a partir de 1991 assumiu, seguidamente, o Senado na condição de suplente de Darcy Ribeiro; e os cargos de secretário de Estado de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras e de Cidadania e Direitos Humanos, ambos no governo do Estado do Rio e Janeiro.

Além de a mais longeva liderança negra em atividade no Brasil, o pan-africanista Abdias Nascimento é também, como verbetizou a enciclopédia Africana, ator, autor teatral, poeta e artista plástico. Guerreiro com nome de profeta, sua trajetória se escreve com a lança e a pena da mais absoluta coerência. Coerência de 95 anos absolutamente bem vividos, dentro dos quais mais de setenta dedicados à luta pela afirmação, no Brasil e no mundo, do ser humano negro em todas as dimensões.




Terça-feira, Março 10, 2009

‘HISTÓRIA E CULTURA AFRICANA E AFRO-BRASILEIRA’ É DISPONIBILIZADA AOS ESTUDANTES BRASILEIROS PELA EDITORA BARSA PLANETA

BARSA lança seu primeiro livro didático. Obra trata exclusivamente do continente africano e de sua influência na história do Brasil

Especialista em cultura afro-brasileira, o pesquisador Nei Lopes assina a obra, indicada para professores e alunos dos ensinos fundamental e médio, além de público em geral. O livro contém Atividades, desenvolvidas pela escritora Carmen Lucia Campos

Apesar de o Brasil ser o País de maior população formada por afro-descendentes fora do continente africano, o País ainda é carente de informações sobre a história deste continente e de seu povo, principalmente, sobre as lutas e realizações dos herdeiros das tradições culturais africanas dos tempos remotos até os dias atuais. Por conta dessa relevância, o Ministério da Educação (MEC), sob a Lei Federal 10.639/03 instituiu que, a partir deste ano, 2009, as escolas de ensino fundamental e médio terão como obrigatoriedade temática a História do povo e do continente africano como conteúdo básico na grade curricular. A tiragem inicial é de 100.000 exemplares – destes, boa parte já vendida para diversos estados do Brasil.

Como reforço dessas diretrizes, a Editora Barsa Planeta lançou este mês o livro didático “História e Cultura Africana e Afro-Brasileira”, escrito por Nei Lopes, referência em pesquisa e material literário de temática africana no Brasil. Obra traz, também, conteúdo de atividades elaborado pela escritora Carmen Lucia Campos (biografia abaixo*). “Conhecer as origens é fundamental para a ampliação da consciência social e histórica do povo brasileiro (...) África, Europa e América percorreram juntas uma tormentosa trajetória, especialmente nos últimos cinco séculos. O futuro para barbárie ou para dar luz, também terá que ser construído em conjunto”, afirma o professor Amauri Pereira, grande incentivador das obras de Lopes.

A obra – que segue a nova ortografia da língua portuguesa – é composta por oito Unidades que explicitam, por meio de imagens, iconográficos, glossário e referências de filmes, livros e sites, todo processo de desenvolvimento da África, desde a origem dessa civilização no próprio continente à identidade afro-brasileira e o processo de formação brasileira a partir desses povos. “Ao longo de suas oito Unidades – que vão da História da África e a chegada dos negros ao Brasil às discussões atuais sobre a multiculturalidade no país –, este livro vem para promover o debate, dentro e fora da sala de aula, e para demonstrar o quanto o continente africano é fundamental para a formação do Brasil, tal o conhecemos hoje e nele vivemos”, afirma Nei Lopes.

Do ponto-de-vista histórico, o livro começa por narrar os feitos do continente, que foi o berço das civilizações, com o Egito representando o auge das conquistas humanas. No campo da ciência, para se ter uma ideia da importância do continente, a África é a única região onde se encontram ininterruptamente vestígios de todos os estágios do desenvolvimento humano. A cultura, por sua vez, também é considerada na obra. “A cultura tradicional africana não conhece a arte voltada apenas para o prazer estético. Nela, a ação artística tem sempre uma finalidade concreta. A música, por exemplo, quase sempre em conjunto com a dança, serve para invocar e louvar divindades, exaltar os feitos de um herói ou de um povo, suavizar um trabalho árduo ou manifestar um sentimento”, atesta Lopes.

Unidades:
1. História da África: Das civilizações e organizações pré-coloniais à intervenção europeia
2. Contribuições para o Brasil: Os povos africanos e a cultura afro-brasileira na construção do país
3. Os quilombos ontem e hoje: De Palmares às comunidades quilombolas remanescentes
4. Heranças culturais: Manifestações fundamentais para a formação do Brasil
5. Ancestralidade e religiosidade: A alma da África no Brasil e o entendimento dos sincretismos
6. Abolicionismo e Lei Áurea: Da rebeldia escrava à abolição e suas consequências nos dias atuais
7. Fim do escravismo: Da discriminação e exclusão à luta pela igualdade e representatividade
8. Identidade afro-brasileira: O mito da democracia racial e a defesa de ações afirmativas

Carmen Lucia Campos é licenciada em Letras pela USP. Editora e consultora editorial, é também organizadora de quatro antologias literárias e autora de 15 obras de ficção para crianças e jovens. Em seus textos, mesclando ficção e realidade, Carmen costuma abordar a identidade racial e a questão das diferenças, como fez nos livros Não tem Dois Iguais (2005) e A Cor do Preconceito (2006).

Barsa Planeta – Um compromisso com a América Latina:
Fundada em 1949, a Barsa Planeta é uma divisão de venda direta do Grupo Planeta. A Editora, localizada na zona oeste da cidade de São Paulo, tem por missão levar conhecimento e cultura aos lares e é conhecida por seu amplo catálogo, nas línguas portuguesa e espanhola, com títulos de interesse geral, por sua qualidade editorial, sua diferenciada forma de venda door to door por meio de seus assessores culturais, além do engajamento com as novas tecnologias como multimídia e Internet, disponibilizada aos seus clientes. A credibilidade da Barsa Planeta faz com que suas obras sejam adotadas em milhões de lares espalhados pela América Latina, bem como sejam utilizadas em bibliotecas e no acervo de renomadas universidades.

Qualidade Barsa:
As obras são todas produzidas com encadernações resistentes e papel de altíssima qualidade, feitas para durar muitos e muitos anos. A missão da empresa é colaborar no desenvolvimento educacional da nação brasileira.

História e Cultura Africana e Afro-Brasileira, Nei Lopes
1 volume, 144 páginas 20 x 26 cm.
www.barsasaber.com ou 0800 772 1050

LEIA TAMBÉM “HISTÓRIA DO BRASIL”, EM 4 VOLUMES, DA EDITORA BARSA PLANETA

Informações para a Imprensa:
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Antoune Nakkhle, Malu Abib e Mariana Garcia
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Quinta-feira, Março 05, 2009



MAIS UM SAINDO DO PRELO

Carnaval acabou, gente! Vamos trabalhar!

Chega de boteco, concurso de tira-gosto, papo furado!

Consciente de que o trabalho enobrece, a “fantástica fábrica” já está a mil de novo. E a novidade é um livro novinho chegando às lojas. Vejam se não é bonito!

Vem pela Editora Barsa-Planeta, com projeto gráfico da A+ Comunicação, farta e belamente ilustrado. E é aquele, feito de encomenda, em prazo recorde, no meio do ano passado. Lembram?

Valeu a pena!

O primeiro livro com fotos coloridas a gente nunca esquece...




Segunda-feira, Março 02, 2009

DO BLOG NOTAS MUSICAIS, DE MAURO FERREIRA