Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009



"LÁ VEM ELE OUTRA VEZ, DE BONÉ TIPO INGLÊS, MAS DE PALA PRA TRÁS...

Quem é esse cara, malandro? O que é que ele faz?"

Não! Calma! O Velhote do Lote não aderiu à estranha moda da pala do boné pra trás. Ele está apenas tirando uma chinfra, ilustrando a letra do samba, justamente esse (parceria com Magunu e Maurílio, do Quinteto) enquanto grava.

E o CD, "Chutando o Balde", com 16 inéditos registrados sob a competente direção artística de Ruy Quaresma, para a griffe Fina Flor, está tinindo!

Em maio ele chega. Aguardemos.




Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009



SALGUEIRO CAMPEÃO!
Uma Furtiva Lágrima


Quem vê aqueles senhores, cansados mas empertigados, que vêm no fim de cada escola de samba no desfile principal, certamente imagina o que lhes vai n’alma. “Ali outrora retumbaram hinos”, diria um poeta parnasiano. Entretanto, muitos dos que vêem aqueles pés muitas vezes arrastados e aqueles acenos com os chapéus de palhinha talvez não lembrem que, antes eles, vinham à frente de suas agremiações, como heróis fundadores que são, orgulhosos, num gestual que simbolicamente dizia: “Vejam! Todo o esplendor de que vocês desfrutarão agora, fomos nós que semeamos, com nosso suor e nosso sangue; para oferecer hoje a vocês, respeitável público!”

Pois Seu Manduca é um desses heróis. Dançou dança de velho nos Turumbambas da Barafunda, um cordão de péssima fama no Morro do Pinto; saiu como porta-machado no Flor do Lavradio, ainda no tempo dos ranchos; pintou os canecos no Macaco é o Outro, um bloco endiabrado; saiu no Deixa Malhar ainda rapazinho; afrontou as convenções sociais no Faz Vergonha de Vila Isabel; e, bem mais tarde, lastreado em toda essa experiência e em todo o seu talento, fundou, com um grupo de vizinhos leopoldinenses, o G.R.E.S. Aliados da Capelinha.

Hoje, Seu Manduca sai (“quem, desfila é soldado”, costuma dizer) na Velha Guarda da escola que ajudou a fundar. E chova ou faça noite enluarada, todo ano lá está ele, terno completo ou casaca, conforme o enredo; chapéu chile, coco ou cartola, de acordo com o tema; gravata borboleta ou plastron, consoante a época da trama; luvas e bengala, se o enredo pedir; e, em qualquer circunstância, sapatos feitos sob medida e aquela elegância inata, sóbria, natural, que é o dom maior de todo e qualquer sambista dos bons tempos.

Antigamente, Seu Manduca vinha na frente, com mais onze colegas, de porte e história semelhantes aos seus. Formavam ao seu lado, todo ano, próceres como Ernane Feijoada, Paulo Carvoeiro, Tião Miquimba, Sebinho, Antônio Bagunça, João Cabeça de Pombo e outros. De uns tempos para cá, entretanto, a grande parada do samba passou a exigir menos fleugma e mais performance; menos cadência e mais acrobacias; menos tradição e mais espetaculosidade. Aí, Seu Manduca e seus camaradas, entre os quais incluem-se algumas respeitáveis senhoras, como Rita Fuzarca, Jupira Moleque e Léa Formiga, foram passados lá para o último setor.

Entretanto, seja atrás ou à frente do cortejo; seja na pista ou na concentração; seja na avenida ou na escola; o carnaval, mais que o samba, funciona para Seu Manduca como uma catarse, uma válvula de escape, uma ponte de safena. Porque, no fundo, ele é uma tristeza só, em seus 85 anos de vida, 70 e tantos anos de recreativismo, 3 de viuvez e 25 de aposentadoria.

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Este texto, abertura de “Uma furtiva lágrima”, texto ficcional publicado no nosso “Vinte Contos e Uns Trocados” (Ed. Record, 2006), vai aqui postado em homenagem à memória de Baiano, João Laurindo, Edivar, Nescarzinho, Noel Rosa de Oliveira, Carlinhos Pepé, Seu Geraldo do Caxambu, Paulo Carvoeiro, Tio Ernani Feijoada, e outros saudosos companheiros da Ala dos Compositores e da Velha-Guarda dos Acadêmicos do Salgueiro, escola-de-samba da qual fizemos parte, de 1963 a 1989.




Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009



Dez! Nota dez! O melhor enredo deste ano!
AGORA NÃO TEM PRA MAIS NINGUÉM.


Encontrei hoje cedo no meu barracão, enfiado por baixo da porta sem trinco e com a lua ainda furando o nosso zinco, um envelopão.

Clima decididamente carnavalesco (eu já me preparava pra suspender as atividades do NEI, Núcleo de Estudos Interdisciplinares, e cair na gandaia), o rádio não parava de berrar, emendando velhos sambas e marchinhas: “Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia?”...; “O rei Zulu,u,u, o Rei Zulu, não paga casa nem comida e anda nu...”; “O teu cabelo não nega mulata...”; “Tava jogando sinuca, uma nega maluca me apareceu...”

O envelope veio por Sedex. Cuidadosamente aberto, constatei que tinha sido enviado pelo Instituto de Economia da UFRJ, e continha a sinopse do maior enredo deste ano, que chegava pra tapar a boca de todos os doutos sociólogos e insuspeitos diretores jornalistas deste sambódromo em que vivemos. Tratava-se do “Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil: 2007-2008.

Publicação organizada pelos pesquisadores sociais Marcelo Paixão (velho amigo do Lote) e Luiz M. Carvano e editada, em conjunto, pelo Laboratório de Análises Estatísticas Econômicas e Sociais das Relações Raciais, LAESER, e o Instituto de Economia da UFRJ, o Relatório, nesta sua primeira edição, focalizando o período 2007-2008, analisa a “evolução social dos distintos grupos de cor ou raça e sexo” em todo o território brasileiro., com base em dados produzidos por órgãos governamentais. Essa análise contempla: evolução demográfica recente da população nacional; perfil de mortalidade nessa população; desigualdades no acesso ao sistema de ensino; desigualdades na dinâmica do mercado de trabalho; condições materiais de vida; acesso ao pode institucional, políticas publicas e marcos legais. Uma das conclusões do Relatório, em sua primeira edição, é a de que, no Brasil do início de 2009 a tarefa de “redução das iniqüidades de raça e de gênero” ainda está longe de ser concluída.

Numa resposta clara ao racismo que não ousa dizer seu nome (“Para a moderna Ciência, raças não existem!”), o Relatório esclarece:

“Tais verdades cientificas são importantes, pois, no plano normativo, contribuem, fundamentalmente, para os que lutam contra o racismo. Todavia, tais avanços precisam ser bem compreendidos, para que, de uma compreensão progressista, não se transformem em instrumento de preservação de antigas assimetrias entre seres humanos de diferentes aparências físicas.

“Pode-se considerar que a realidade das raças biológicas é inexistente. Mas não as formas mentais e comportamentais dos indivíduos e grupos sociais que buscam preservar as tradicionais assimetrias socioeconômicas e políticas fundadas em critérios de aparência e origem. Esse é o elemento principal que leva à perpetuação da idéia de raça”.

Sobre a questão da identidade nacional (“O Brasil é um país miscigenado!”), o Relatório explica:

“(...) o fato de os brasileiros dos diversos grupos de cor ou raça e étnicos assumirem, de forma efetiva e inquestionável, a identidade brasileira, não impediu a incessante discriminação contra negros, indígenas e mestiços de nítida tez africana e ameríndia. Suas aparências físicas e aportes culturais ancestrais foram e ainda são considerados menos desejáveis e mais primitivos que os do contingente de peles claras e ascendência européia. Portanto, na sociedade nacional, os brasileiros portadores de diferentes aparências físicas e origens étnicas, infelizmente, são submetidos a diferentes modos de inserção”.

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Bonito, bem impresso, gostoso de ler até pra quem não gosta de gráficos estatísticos, o Relatório é uma paulada! O endereço do LAESER é www.laeser.ie.ufrj.br, o e-mail da editora Garamond é editora@garamond.com.br.

Bom Carnaval pra todos!




Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009



QUANTO RISO, OH,QUANTA ALEGRIA!

Estamos nós lá no Alemão, tomando um chope e comendo um chucrute, quando de repente o Comandante, no verdor de seus 20 e poucos anos, adentra o restaurante e nos dirige um discurso inflamado, do alto de sua cerrada e maestra barba negra.

- Sim! Fuego!

Misturando sua própria persona com a do Che, ele encerra a fala com a célebre frase: "Hay que endurecer, pero sin perder la ternura". E, no que se despede, dá uma rodada e mostra a bunda rosadinha, de borracha, comprada na Saara, onde judeus e palestinos convivem numa boa.

Não foi delirium tremens, não! Foi pré-carnaval. No sábado 14, por volta das 13 horas, em Santa Tereza, nas bocadas da Fina Flor. Onde, momentos antes havia passado o bloco que ilustra esta nota, e que se caracteriza por ter no repertório apenas três marchinhas clássicas (pra quê mais?), tocadas com apuro e cantadas com vivo entusiasmo.

Quanto riso! Quanta alegria! Mais de mil chopaços no salão!

Mas... segunda-feira, abrimos o Jornalão e lá vem uma foto de uma ala de baianas de uma de nossas escolas de samba, velhinhas, cansadas, tristes, (defendendo um "cascalho", tudo bem!), mostradas como a grande atração de um bloco
desses aí, de camiseta.

Pô! Qualé? Presta atenção, rapaziada!!! A vida não é só isso que vocês querem ver. É um pouco mais.




Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009



Africanos Ilustrados na Luta contra a Escravidão:
UM ENREDO DA PESADA


Por uma dessas coisas que os incrédulos chamam de coincidência, chegam-nos ao Lote, nesta semana já quase carnavalesca, duas obras abordando o mesmo tema, abolicionismo; e relatando, cada uma de um modo, a espantosa história de Olaudah Equiano (ilustração acima), africano do povo Ibo, escravo nas Antilhas e na Inglaterra no século XVIII, e autor de um livro em que narra sua história.

O primeiro dos volumes a chegar ao Lote, pelas mãos do grande jurista e fraterno amigo Eloá Cruz, foi o livro “Enterrem as correntes: profetas e rebeldes na luta pela libertação dos escravos” (Rio, Record, 2007) do escritor norteamericano Adam Hochschild. O outro foi a “Autobiografia de um ‘africano ilustrado’: um estudo de caso: Olaudah Equiano (1745 – 1797)”, dissertação de mestrado de autoria de Mônica Valéria Silva de Queiroz Vargas, apresentada à UERJ em 2006 e prestes a, convenientemente adaptada, ser publicada em livro.

Ambas as obras narram a história de Equiano, destaque no enredo que sonhamos, ou enredo, ele mesmo, esse “africano ilustrado”.

Olaudah Equiano – cujo nome, em ibo, ecoa algo como “jóia, ouro” (ola) “sonante, sonoro” (uda) – nasceu, segundo seu relato, numa aldeia do sudeste da atual Nigéria, em 1745, filho de aristocratas. Com onze anos de idade teria sido capturado por traficantes de escravos, juntamente com uma irmã, e transportado para as Antilhas, onde tria sido comprado por um proprietário chamado Michael Pascal. Cidadão inglês, esse Pascal teria lhe dado o nome cristão de Gustavus Vassa, numa estranha e talvez irônica homenagem (principalmente pela forma latina) ao rei sueco Gustavo I, fundador da dinastia dos Vassa ou Wasa, mais de um século antes.

De sua base, na Inglaterra, para onde foi levado em 1757, e assumindo seu nome sueco, nosso herói luta, com seu patrão, na Guerra dos Sete Dias, e participa de aventuras rocambolescas. Na Grã Bretanha, onde se instruiu e se tornou cristão, sua honestidade e sua integridade de caráter, segundo a maioria de seus contemporâneos, lhe garantiram a amizade e a ajuda de muitos ingleses influentes.

Em 1763, Pascal o vende ao americano Robert King, a serviço do qual Gustavus Vassa trabalha como marinheiro, barbeiro, fabricante de vinhos, aprende aritmética e adquire completo domínio da fala e da escrita em língua inglesa. Assim, três anos depois, compra alforria, mas permanece trabalhando no mar ainda um bom tempo.

De posse de sua carta de alforria, Gustavus Vassa viaja até o oceano Ártico, no Canadá, como assistente de um cirurgião; até o mar Mediterrâneo como mordomo de um aristocrata; e permanece algum tempo entre os moskito, povo indígena da Nicarágua.

De volta à Inglaterra em 1787, o irrequieto africano alista-se nas fileiras do movimento abolicionista. E o faz chamando a atenção do célebre líder inglês Granville Sharp para o massacre de 130 escravos ocorrido a bordo de um navio, o Zong, na ocasião. Nesse mesmo ano, é nomeado comissário da expedição de libertos que irão, de retorno à África, estabelecer-se como elite em Serra Leoa, fundar a República e consolidar as bases da dominação britânica na região. Descobrindo fraudes no empreendimento, Gustavus Vassa as aponta, denunciando também as más condições dos navios destinados a transportar os retornados. Demitido como um simples “criador de casos”, o herói volta à Inglaterra. E é aí que o enredo se realiza.

Aproveitando-se do nome que já conseguira pela publicação, em artigos de jornal, de suas idéias, principalmente sobre a extinção da escravidão, Vassa, já agora reassumindo a jóia tilintante de seu nome ibo, Olaudah Equiano, acrescida do epíteto “O Africano”, publica, através de subscrições de amigos, o livro “The interesting narrative of Olaudah Equiano or Gustavus Vassa – the African – written by himself”, que obtém grande sucesso. Em meio à faina da luta abolicionista, como membro da associação “Filhos de África”, casa-se com Susannah Cullen, inglesa branca, com a qual tem dois filhos. E permanece brandindo suas armas contra o escravismo até o fim da vida, em 1797.

Ainda mais interessante nessa história é que Equiano teve um êmulo, com nome de sonoridade próxima à do seu – Ottobah Cugoano –, tido como de origem coromanti e capturado em Adjumako, na atual Gana, em 1770.

Com trajetória incrivelmente semelhante à do nosso herói, a ponto de nós, quando da escrita de nossa Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, acharmos tratar-se do mesmo personagem, Quobna Ottobah Cugoano (Kwabena, entre os povos akan, é nome dado ao menino nascido numa terça-feira) também foi abolicionista, trabalhou no Canadá, participou de preparativos de expedição de retornados a Serra Leoa e casou-se como uma inglesa branca. Além disso, também publicou um livro – cujo título em português ler-se-ia como “Pensamentos e sentimentos sobre o imoral e perverso trafico da escravidão e o comércio da espécie humana” –, no que, segundo alguns, poderia ter sido ajudado por Equiano, com o qual se relacionava.

Lançado no mesmo ano do livro de Equiano, chegando à 3ª. edição nesse mesmo ano de 1787, a obra, como observa Adam Hochschild, embora bastante radical na denúncia do escravismo e em suas propostas abolicionistas, apenas em cinco de suas 102 páginas aborda a história de vida de vida do autor.

Ainda segundo Hochschild, recentemente, alguns historiadores têm posto em dúvida o fato de Olaudah Equiano ter realmente nascido na África. Entendem esses analistas que a adoção dessa identidade foi uma espécie de “marketing” abolicionista, adotado por Gustavus Vassa para melhor vender seu livro e propagar as idéias que defendia. Entretanto, o escritor americano admite: “Seja como for, qualquer que seja o mistério de suas origens, a grandeza do livro de Equiano, de sua adolescência em diante, é inegavelmente autêntica e continua a ser uma das grande histórias de sobreviventes de sua época ou de qualquer outra”.

De posse desse atestado de autenticidade, finalizamos este texto recomendando a leitura do livro de Hochschild e, assim que publicado, do livro da brasileira Mônica Valéria Vargas sobre a saga de Olaudah Equiano. A partir dessa leitura, quem sabe um carnavalesco inteligente e bem formado como Milton Cunha não se anima a colocar a história dele na Avenida? Que dá um tremendo enredo, temos certeza que dá! Com um samba bonito, bem feito, caprichado, como aqueles épicos de antigamente.




Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009



“QUEM DESFILA É SOLDADO”, JÁ DIZIA O WALDINAR.

Um certo jornalismo de variedades, que às vezes nos engana, fantasiado de “cultural”, insiste em confundir samba com carnaval, espetáculo com folia, alhos com bugalhos. É assim que, para esse jornalismo, todo diretor de bateria é “mestre”, todo sambista é “bamba”, toda “musa” tem “samba no pé”, e qualquer bebum deprê, desde que vista uma fantasia no carnaval, mesmo que seja uma reles camiseta de bloco de boteco ilustrada pelo picasso da esquina, é um “folião”.

A mesma linha de “raciocínio”, que repete mais do que pesquisa, vai sempre buscar as origens do carnaval brasileiro nas saturnais romanas, que, dizem, celebravam a volta da primavera e o renascer da natureza; e daí passa pelos bailes de Veneza, Nápoles e Florença, chega ao Zé Pereira e a um certo “Congresso das Sumidades Carnavalescas” que ninguém sabe bem o que foi.

O que quase ninguém menciona é que, embora relacionado ao ca­len­dá­rio ca­tó­li­co, o car­na­val do Brasil e das Américas – o das ruas, livre e solto ( “abada”, camiseta e camarote é outro papo) – tem raízes em vá­rias cul­tu­ras afri­ca­nas. Em Gana, por exemplo, entre o povo Akan, é co­mum a rea­li­za­ção de um gran­de fes­ti­val ­anual, o od­wi­ra (na ilustração acima), se­gui­do de um lon­go pe­río­do de re­co­lhi­men­to e abs­ti­nên­cia, co­mo na qua­res­ma. Devido a es­sa si­mi­li­tu­de, as ce­le­bra­ções car­na­va­les­cas nas Américas com cer­te­za de­vem sua ale­gria e seu bri­lho, fun­da­men­tal­men­te, à mú­si­ca dos ­afro-des­cen­den­tes. Assim foi e é, no Brasil, nos ran­chos car­na­va­les­cos, nas es­co­las de sam­ba, nos maracatus, afo­xés, blo­cos-­afro etc.; no can­dom­be pla­ti­no; nas com­par­sas cu­ba­nas; e no mar­di­gras, nas Antilhas e em New Orleans.

Em toda a América colonial, isolados pe­la so­cie­da­de do­mi­nan­te, africanos e descendentes uniam-se pa­ra ce­le­brar o car­na­val à sua mo­da, com a mú­si­ca e a dan­ça de sua tra­di­ção, in­tro­du­zin­do, na fes­ta eu­ro­péia, ­além dos ins­tru­men­tos ca­rac­te­rís­ti­cos, ­suas cren­ças e seu mo­do de ser. Na Martinica, o cos­tu­me foi ado­ta­do por vol­ta de 1640 e as fes­ti­vi­da­des do kan­na­val, co­mo é de­no­mi­na­do o car­na­val mar­ti­ni­ca­no, ex­pres­sam-se em um es­ta­do de es­pí­ri­to pe­cu­liar, trans­mi­ti­do de ge­ra­ção pa­ra ge­ra­ção. Durante mui­to tem­po a fes­ta rea­li­za­da na ci­da­de de Saint-Pierre foi o pon­to cul­mi­nan­te da co­me­mo­ra­ção na ­ilha, e, ten­do sua fa­ma se es­ten­di­do pe­lo Caribe, ­atrai anual­men­te mi­lha­res de vi­si­tan­tes de to­do o mun­do. Depois da de­vas­ta­do­ra erup­ção vul­câ­ni­ca de 1808, a tra­di­ção car­na­va­les­ca re­vi­veu em Fort-de-France, a no­va ca­pi­tal da Martinica, on­de, nos ­dias de ho­je, os pre­pa­ra­ti­vos co­me­çam na epi­fa­nia, em mea­dos de ja­nei­ro, e se es­ten­dem até a quar­ta-fei­ra de cin­zas. Durante es­se pe­río­do e no car­na­val pro­pria­men­te di­to, a ca­da do­min­go, gru­pos fan­ta­sia­dos ­saem às ­ruas, em tra­jes va­ria­dos: ca­sa­cos ve­lhos, rou­pas fo­ra de mo­da, cha­péus ras­ga­dos, fan­ta­sias bri­lhan­tes e co­lo­ri­das de ar­le­quim, pier­rôs e dia­bos. As más­ca­ras tam­bém são im­por­tan­tes aces­só­rios da fes­ta: ­além das que ho­me­na­geiam ou cri­ti­cam per­so­na­li­da­des do mo­men­to, há aque­las re­la­cio­na­das à mor­te, re­ple­tas de sim­bo­lo­gias afri­ca­nas, cu­jo sig­ni­fi­ca­do Aimé Cesaire en­con­trou em ri­tuais da re­gião de Casamance, no Norte do Senegal (con­for­me Alain Eloise). No Haiti, de mo­do ge­ral, o car­na­val é ce­le­bra­do se­guin­do es­se mes­mo es­pí­ri­to e com tra­ços se­me­lhan­tes aos fes­te­jos que se rea­li­zam no Brasil, em Trinidad e na Louisiana, Estados Unidos. Em Porto Príncipe, o vi­si­tan­te en­con­tra des­fi­les, fes­tas e fan­ta­sias cria­ti­vas, co­mo os que se ­vêem nes­ses lu­ga­res. Da mesma forma em Cuba, onde o carnaval é celebrado, desde o século XVII, em julho; e onde a cidade de Santiago é tida por alguns como o berço do carnaval caribenho.

No Brasil, pelo me­nos des­de o iní­cio do sé­cu­lo XIX, a par­ti­ci­pa­ção do po­vo ne­gro nos fol­gue­dos car­na­va­les­cos sem­pre foi mar­ca­da, também, por uma ati­tu­de de re­sis­tên­cia, pas­si­va ou ati­va, à opres­são das clas­ses do­mi­nan­tes. Proibidos por lei de re­vi­dar aos ata­ques dos bran­cos, afri­ca­nos e criou­los pro­cu­ra­vam ou­tras ma­nei­ras de brin­car no en­tru­do. Tanto as­sim que Debret, en­tre 1816 e 1831, pe­río­do em que vi­veu no Brasil, fla­grou ce­nas in­te­res­san­tes de car­na­val, co­mo por exem­plo, um gru­po de ne­gros que, fan­ta­sia­dos de ve­lhos eu­ro­peus e ca­ri­ca­tu­ran­do-­lhes os ges­tos, zom­ba­va dos opres­so­res, crian­do, sem sa­ber, os cor­dões de ve­lhos, de imen­so su­ces­so no iní­cio do sé­cu­lo XX. Entre 1892 e 1900 sur­gi­ram no car­na­val baia­no, pe­la or­dem, a “Embaixada Africana*”, os “Pândegos d’Áfri­ca*”, a “Chega­da Africana” e os “Guerreiros d’Áfri­ca”, apre­sen­tan­do-se em prés­ti­tos cons­ti­tuí­dos úni­ca e ex­clu­si­va­men­te de ne­gros. Essa mo­da­li­da­de car­na­va­les­ca – “a exi­bi­ção de cos­tu­mes afri­ca­nos com ba­tu­ques” – se­ria proi­bi­da em 1905 na Ba­hia. Exatos ­dois ­anos de­pois, sur­ge no Rio de Janeiro o ran­cho car­na­va­les­co “Ameno Re­sedá*” que, pre­ten­den­do “­sair do afri­ca­nis­mo orien­ta­dor dos cor­dões” (con­for­me Jota Efegê), con­quis­ta, com ­seus en­re­dos ope­rís­ti­cos, im­por­tan­te es­pa­ço pa­ra os ne­gros no car­na­val ca­rio­ca, pre­pa­ran­do o ca­mi­nho pa­ra as es­co­las de sam­ba, que sur­gi­riam um pou­co ­mais tar­de. Estruturadas no fi­nal dos ­anos de 1920, de 1932, ano do pri­mei­ro des­fi­le real­men­te or­ga­ni­za­do, até os ­dias de ho­je, as es­co­las de sam­ba ca­rio­cas vi­ve­ram vá­rias fa­ses de um ins­ti­gan­te pro­ces­so dia­lé­ti­co. Nunca dei­xa­ram de ser, no en­tan­to, pe­lo me­nos em te­se, nú­cleos de re­sis­tên­cia ne­gra – a ri­ca sim­bo­lo­gia das ­alas de baia­nas e das ve­lhas-guar­das cons­ti­tui exem­plo em­ble­má­ti­co.

Enquanto as es­co­las ca­rio­cas iam se trans­for­man­do, na Bahia ­eram fun­da­das agre­mia­ções co­mo o afo­xé “Filhos de Gandhi”, em 1948, “pa­ra di­vul­ga­ção do cul­to na­gô, co­mo for­ma de afir­ma­ção ét­ni­ca”, se­gun­do ­seus es­ta­tu­tos; o blo­co-­afro Ilê ai­yê, em 1974, “por um gru­po de jo­vens cons­cien­tes da ne­ces­si­da­de de man­ter vi­va a lu­ta dos ­seus an­ces­trais pe­la com­ple­ta in­te­gra­ção so­cial da po­pu­la­ção ne­gra no Brasil”, tam­bém con­for­me ­seus ob­je­ti­vos es­ta­tu­tá­rios; e o afo­xé “Badauê”, em 1978, tor­nan­do, se­gun­do o es­cri­tor Antonio Risério, “ir­re­ver­sí­vel o pro­ces­so de rea­fri­ca­ni­za­ção do car­na­val da Bahia”.

Mas nessa reafricanização, o capital acabou entrando de cabeça. Aí, vieram, entre outras novidades, os blocos-de-trio e os abadás (“abadá” é, no sentido originário, aquela espécie de blusão masculino, sem gola, usada no oeste africano e nos candomblés). Da mesma forma que, nas escolas de samba cariocas, veio aquele padrão de fantasia que, qualquer que seja o enredo, mistura punhos egípcios com capacetes astecas e capas de super-heróis, etc.

Em meio a tudo isso, veio a síndrome do “desfile”, do espetáculo, em prejuízo da “saída” espontânea, contaminando até o bloquinho mais mixuruca ali da esquina. É, então, que nos vem a cabeça a célebre frase do saudoso jornalista e boêmio carioca Waldinar Ranulpho (1922-1985), o qual, na sua ácida verve de cronista carnavalesco, talvez o último deles, um dia fulminou:

– Sambista “sai”, meu sinhô! Quem “desfila” é soldado!

Grande Waldinar!...




Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009



COTAS RACIAIS: LIVRINHO DO IBASE CHEGA À 3ª. EDIÇÃO

O livro “Cotas raciais – Por que sim?”, da “sobrinha” Cristina Lopes, acaba de ganhar uma 3ª. edição. Tão bonitinho quanto importante, oportuno e confortável, o livrinho (formato 10 x 13 cm., vejam acima), com edição do também “sobrinho” Rafael César, é uma publicação do IBASE. E cita, nesta nova fornada, como referência de conhecimento, este “Meu Lote” que vos fala, agradecido.

Às vésperas da votação, pelo Senado, de uma lei que, segundo opositores, “reduz a importância do mérito acadêmico e privilegia a cor da pele na escolha daqueles que cursarão o nível superior” (O Globo, editorial de 02.02.2009), vale a pena dar uma olhada no livrinho da Cristina Lopes. E, como entrada, ler, aqui, este trechinho do nosso “O racimo explicado aos meus filhos” (Agir, 2007), saboreando a intervenção da querida Dona Ernesta, personagem inspirado em muitas “tias” que devem ter passado pela vida de alguns dos amáveis leitores do Lote. Vamos lá!

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A política de cotas para acesso de afro-descendentes à educação, ao emprego, à saúde, à moradia etc é certamente uma importante arma de combate ao racismo. Assim que começou a ser cogitada, ela acendeu o debate público sobre um assunto sempre considerado tabu e, por isso, nunca discutido. Embora algumas pessoas, até mesmo bem intencionadas e certamente por desconhecerem os disfarces de que esse racismo se beneficia, insistam em negar a existência de racismo no Brasil, hoje, por conta do debate que se trava no momento da edição deste livro, cada vez fica mais fácil detectá-lo. E conhecer o racismo já é um passo para eliminá-lo.

Mas só instituir essas cotas não basta. Observemos que hoje, segundo José Jorge de Carvalho, entre as melhores universidades públicas brasileiras, apenas a Universidade Federal de Goiânia tem em seu corpo docente mais de 1% de professores negros – para sermos mais exatos, tem 1,2%. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro, UERJ, que aliás foi a primeira a instituir o sistema de cotas em seu vestibular, tem apenas 0,21% de negros entre seus 2.300 professores.

É preciso, então, preparar a escola e as outras instituições, como o universo do trabalho, o da saúde pública etc para os novos tempos. E essa preparação passa primeiramente pela valorização do povo afro-descendente, de sua história, de sua conquistas, de seus anseios. É preciso, enfim, melhorar a sociedade brasileira, tornando-a digna desse seu segmento tão importante. Melhorar a sociedade brasileira é melhorar a educação, a saúde, as oportunidades de emprego, as condições de moradia, transporte etc. Como afirmou o economista e professor Marcelo Paixão, em entrevista a Márcia Lobo, publicada na revista Rumos nº 183, abril de 2001, pág. 28: “Não adianta tornar todo mundo escolarizado, se as políticas de desenvolvimento não dão conta dessa necessidade, se a estrutura da terra continuar concentrada nas mãos de poucos (...), se os negros que estudam enfrentarão os problemas de sempre no mercado de trabalho”.

Dona Ernesta resolve mais uma vez manifestar sua opinião:

– Ah! Esmola do governo eu não acho bom não, doutor Paulão! Meus netos também são mulatos, o senhor sabe. E eu sempre disse pra eles: vocês têm é que se esforçar, procurar ser os melhores em tudo o que vocês fizerem. E todos eles se formaram direitinho. Com muito sacrifício, estudando de noite, custaram mas se formaram.

Paulão contesta, sem perder a ternura:

– Eu acho Dona Ernesta, que, no Brasil, ninguém ascende sozinho, pelos próprios méritos. Se não tiver uma estrutura econômica básica, família organizada, relacionamentos, o máximo que se chega é até o meio do caminho. Quer estudar medicina mas só chega a “enfermeiro”; quer ser economista mas acaba sendo “contador”... Aqui é assim.

A questão do mérito, sempre levantada nas discussões sobre as cotas também precisa ser reavaliada. Por quê um estudante com melhores condições econômicas, que, por isso freqüentou melhores escolas sem precisar se ocupar de outra coisa, teria mais mérito que um estudante pobre que teve de trabalhar para estudar e que, além disso, só teve acesso a ensino deficiente?

O sistema de adoção de cotas para estudantes da rede publica, supostamente pobres, sem que se leve em conta sua condição étnica, é importante mas não é suficiente. Ele resolveria o problema dos pobres (entre os quais os negros se encontram em maioria) mas não resolveria o dos negros. A população afro-descendente tem problemas específicos, centrados na sua emocionalidade, na perda de sua auto-estima, por conta do estigma de inferioridade que pesa sobre si desde muito tempo, estigma esse reforçado através dos meios de comunicação. E aí é que entra a “preparação da escola”.

As ações afirmativas, aplicadas com sucesso em países como os Estados Unidos e a Índia, não são ações permanentes. Elas têm um “prazo de validade”, que pode ser de uma geração ou de vinte anos, por exemplo. Esse prazo se encerra quando se garante que os objetivos foram realmente atingidos. #

N.R: As referências a “enfermeiro” e “contador” dizem respeito às denominações populares das profissões de auxiliar de enfermagem e técnico de contabilidade, no Rio de Janeiro.







ENQUANTO A “MULATA-VELHA” NÃO CHEGA

A revista Época, nas bancas esta semana, estampa uma reportagem surpreendente. É sobre o renascimento, em terras brasileiras, do Islã Negro, desaparecido, talvez, desde a década de 1930, com a morte dos últimos alufás, entre os quais Assumano Mina do Brasil, legendária figura da Praça Onze carioca.

Bem verdade que esse islamismo era sincrético. Tanto que foi mais visto como vertente do candomblé, embora chamado “lei de muçurumim” (do hauçá musulmi, muçulmano). Mas o foi, certamente por estratégia contra repressão que se seguiu à grande Revolta dos Malês, ocorrida na Bahia em 1835. Repressão que hoje, pelo menos em termos institucionais, já não mais ocorre. Daí, a expansão do islamismo, a partir da periferia da Grande São Paulo, como conta a surpreendente reportagem.

Inspirados por essa revelação, fomos buscar nos arquivos a ilustração acima e o texto abaixo, parte do nosso tardio romance de estréia “Mandingas da ‘Mulata-Velha’ na Cidade Nova”, cujo lançamento pela Editora Língua Geral, previsto para o ano passado, foi atropelado pelo acordo ortográfico que acabou com o nosso querido trema e limitou o uso do nosso não menos hífen. Mas Alá é grande! Então, enquanto nosso livro não vem, vamos curtindo aqui o tira-gosto. Sem deixar de ler, é claro, a matéria da Época, intitulada “O Islã dos Manos”. Boa leitura!

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Noite de Natal é isso mesmo e sempre foi assim. Família, quando existe, à volta da mesa, lembranças boas, ausências sentidas. E há sete natais, esta é a noite em que a falta de João Pereira, mesmo com sua esquisitice nos últimos tempos, se faz mais forte. Honorata pensa nele , enquanto , calada e sozinha, vai sorvendo, em goles miúdos, o conteúdo da segunda garrafa de vinho Poirée Radioso, que ganhou do Doutor Ulisses.

Vazias a taça e a garrafa, a velha baiana, embriagada de lembranças, levanta-se devagar e, sem que ninguém perceba, vai para o quarto e se deita, assim mesmo como está, sem nem mesmo tirar ou desmanchar a trunfa na cabeça, e nem tirar os fios de contas do pescoço.

O sono vem logo. E com ele, mansamente, envolto numa bruma luminosa, um velho de cor indefinida, túnica branca, cavanhaque encanecido, olhar penetrante, que a conduz pelo braço. Ela sabe que esse senhor é o Clemente e Misericordioso. E que a aléia pela qual é conduzida vai dar no verde Vale das Bem Aventuranças.

No Vale, o Senhor dos Senhores a introduz no sodalício, na assembléia dos santos e profetas., os quais, como Mussá sobre a montanha, a esperavam, braços abertos, sentados em roda, à volta de um pequeno tapete de sizal.

Honorata senta-se no tapete. E um dos profetas, em tudo, tudo mesmo, igual ao velho feiticeiro Aabed, mas que ela sabe ser Maomé filho de Abdula, lhe fala, numa voz que ecoa pelo vale, muitas vezes ampliada:

– Em nome do Clemente e Misericordioso, nós sabemos que tu és honrada, embora tivesses agido com leviandade. E que todas as tuas faltas não foram exatamente intencionais. Considera-te absolvida. Tu não tiveste a intenção de trair minha causa, na derrota que meus exércitos baianos sofreram em 35. Mas a traíste. Falaste dos planos da revolta ao governo da Bahia apenas para agradar aos poderosos e porque temias o castigo de teus senhores. Mas, mesmo assim, causaste danos e mortes irremediáveis.

O Profeta se refere à grande sedição dos malês baianos , ocorrida, segundo a ampulheta do tempo terreno, setenta e poucos anos antes. E fala a Guilhermina dos Anjos, delatora do levante, e não a Honorata , em cujo corpo Guilhermina reencarnou, retornando à terra, dezenove anos depois, para expiação de sua culpa.

– De agora em diante – prossegue o Mensageiro – te chamarás Amina, honesta e fervorosa, que é o nome de minha santa e adorada mãe. Expiarás tua falta pela dedicação ao serviço de Deus, Clemente e Misericordioso.Cumprindo o que me foi por ele terminado.

Honorata, agora Amina, observando novamente como o Profeta se parece com o velho Aabed, baixa os olhos, confusa e chora.

– O dia do renascimento do Islã no teu país está próximo; e esta renovação depende muito de ti. – Quem fala agora é Bilau, um negro muito forte e de voz abaritonada, secretário de Maomé, e que é a pura e fiel imagem de João Bemol. -- Ela se dará consoante a palavra e os hábitos praticados pelo Sagrado Profeta, que tem a paz de Deus consigo. E trará de volta o Islã, liberto de tudo o que lhe foi incrustrado à nossa revelia, e que se foi acumulando ao longo dos séculos no corpo da nossa doutrina, multiplicando seitas e orientações, e adulterando não só a fé como todo o universo do Islã.

Sob o eco destas últimas palavras, uma linda menina negra, Maizah, cujo nome Amina sabe que significa “discernimento”, surge trazendo nos braços uma túnica verde e um longo véu da mesma cor. Na túnica, estendida no colo da eleita, lê-se, em grafismos bordados a ouro, a inscrição “Não há nenhum deus senão Alá”; e no véu, em caracteres que formam o desenho de uma estrela, “Alá é o único Deus”.

Então, o Profeta, que tem a paz consigo, manda que a vistam e coloquem o véu cobrindo sua cabeça. Feito isso, a pequena Maizah entrega-lhe uma bolsinha de couro dentro da qual, Amina sabe, há dois pedaços de pergaminho dobrado, onde foram escritos, com sangue de um sacrifício, a Oração do Arcanjo Miguel (“Deus e Senhor dos anjos, a quem encomendais a guarda dos seres humanos, ofereço os merecimentos deste soberanos espíritos...”) e estes versículos do Alcorão Sagrado:

“II: 190 - Combatei pela causa de Deus àqueles que vos combatem; porém, não os provoqueis, porque Deus não estima os agressores.

“191 – Combatei-os onde quer que os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a intriga é mais grave que o homicídio. Não os combateis nas cercanias da Sagrada Mesquita, a menos que vos ataquem. Mas se ali vos combaterem, combatei-os. Tal será o castigo dos incrédulos”.

O Profeta faz sua última fala:

– Amina! Outra surpresa te espera. Alguém que tu não sabes mas que te presenteou com o dom da vida vai revelar-se ante teus olhos. Acolhe-o, pois ele é a Profecia transmutada. Mas nada esperes dele no plano terreno.