Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

PRA REFRESCAR A MEMÓRIA - 1

Na ressaca da posse do novo presidente americano, depois daqueles dez bailes, nos quais dançamos todas – na força da imaginação! –, chega aos nossos olhos o seguinte texto. Leiam! Com atenção.

“O espírito de imitação sempre foi mau conselheiro. Ainda agora, suas influências tentam criar, entre nós, um problema que nunca existiu. No Brasil não se conhecem os efeitos malignos dos preconceitos racistas que dividem outros povos e dão origem a conflitos deploráveis. Desde os tempos mais remotos da nossa formação, pretos e brancos se tratam cordialmente. Muitos descendentes das raças importadas têm ocupado postos de relevo na política, nas letras, em todos os ramos das atividades nacionais, em perfeita fraternidade com os descendentes das raças conquistadoras, que fundaram a nacionalidade. No entanto, de algum tempo para cá, vem-se constituindo correntes preocupadas em dar aos negros uma situação à parte. Com isso, procura-se dividir, sem resultados louváveis.

“Teatro negro, jornal dos negros, clubes dos negros... Mas isso é imitação pura e simples, de efeitos perniciosos. Agora já se fala mesmo em candidatos negros ao pleito de outubro. Pode-se imaginar um movimento pior e mais danoso ao espírito indiscutível de nossa formação democrática? Vale a pena combatê-lo, desde logo, sem prejuízo dos direitos que os homens de cor reclamam e nuca lhes foram recusados. Do contrário, em vez de preconceitos de brancos, teremos, paradoxalmente, preconceitos de pretos. A tais extremos conduzem, não o racismo (que não existe entre nós) mas o espírito de imitação mal digerido e cuja conseqüência talvez mais nefasta seja o estabelecimento de um sistema por todos os títulos abominável.: os indivíduos passariam a ser isto ou aquilo, a ocupar determinados cargos, não pelo valor pessoal que os recomendasse, mas por serem pretos ou não serem pretos. A pigmentação cutânea entraria a valer como prova de títulos”.

Então? Que tal? “Raças importadas”; “raças conquistadoras que fundaram a nacionalidade”; “direitos que os homens de cor reclamam e nunca lhes foram negados”... Políticos negros, sim, mas não candidatos negros, eleitos pelo povo negro!

Pois saibam que esse texto foi o editorial do jornal O Globo, estampado na primeira página de sua edição de 13 de abril de 1950; no contexto da visita ao Brasil da bailarina e coreógrafa afroamericana Katherine Dunham, vítima, então, em São Paulo, de um episódio de discriminação racial deflagrador da promulgação da Lei Afonso Arinos, como já informado aqui no Lote.

Diz aí! E daqui a pouco tem mais.




Quarta-feira, Janeiro 21, 2009



EU TAMBÉM SOUL, AMÉRICA!

“I too sing America”.
(Langston Hughes)


Peço licença pra dizer
Que eu também soul, América!

Não no sentido sambolista
Dos rubros e trêfegos pés
Natalinos, manecos, dimas,
Riscando no gramado o tico-tico-no-fubá.

Eu também sou América
No sentido langstonhughiano
Do faminto que vê e cheira
A lauta mesa
Lambendo os beiços apenas.
Do sedento impotente
Ante as violentas águas da catarata.

A Klan não pendurou meus avós
Em nenhum galho.
Meus pais
Nunca foram expressamente proibidos
De entrar aqui ou ali.
Mas também
Nem passaram na porta
Por conhecerem seu lugar
Não o da porta.

Menino,
Me apontaram o caminho
Do torno, da forja, dos motores
(Alta combustão!).
Pois o das leis, das finanças,
Dos cálculos superiores,
Das belas artes e letras,
Das ciências físicas e naturais,
Já estava reservado para outros meninos.

Me disseram, América,
Que o emaranhado da minha carapinha
Era apenas um acidente de percurso
E que raça era só
Uma metáfora bíblica.

Mas cortei caminho, América.
Tomei um atalho.
E agora eis-me aqui
Confortavelmente sentado
Ante a tela jubiluminosa
Com um incômodo, porém
Nos olhos e na alma
Diante de teu justificado orgulho.

Mas... como, América?
Quando? Por quê?

Se eu também soul, América,
Também quero limusine, batedores,
Honras militares...

Hey, man! Hey, brother!
Chega de tico-tico-no-fubá,
Baby!

(20.01.2009)




Segunda-feira, Janeiro 19, 2009



O CAMINHO DAS ÍNDIAS TAMBÉM PASSA PELA ÁFRICA

Deste janeiro até talvez o próximo, milhões de lares brasileiros serão bombardeados com informações sobre a Índia. E isto por conta da superprodução que a Rede Globo de Televisão está estreando, a telenovela “O Caminho das Índias”.

O que talvez não seja mostrado é a milenar presença africana nesse país realmente fascinante, primeiro ponto de parada dos migrantes que, há cerca de 50 mil anos deixaram o continente de origem da Humanidade, para povoar o mundo e, através de suas descendências, dar aos humanos a diversidade de aparências físicas que hoje ostentam.

No século V a.C, Heródoto, o cé­le­bre his­to­ria­dor gre­go, já afirmava a exis­tên­cia de ­duas gran­des “na­ções etío­pes”, uma na Áfri­ca, ou­tra em Sind, re­gião cor­res­pon­den­te aos ­atuais ter­ri­tó­rios da Í­ndia e do Paquistão. Essa in­for­ma­ção é corroborada no cé­le­bre re­la­to do via­jan­te ve­ne­zia­no Marco Polo (1254-1323), no qual lemos que os in­dia­nos de de­ter­mi­na­da re­gião re­pre­sen­ta­vam ­suas di­vin­da­des co­mo ne­gras e os de­mô­nios com uma al­vu­ra de ne­ve, afir­man­do que ­seus deuses e san­tos ­eram pre­tos. Mais, ainda, em O Livro das Maravilhas, atribuído ao lendário viajante (Porto Alegre, L&PM, 2006, pág.236), lê-se que os habitantes do “reino de Coilum”, atual cidade de Quilon, na província de Querala, eram “todos de raça negra”.

Esses ne­gros in­dia­nos te­riam ido da Áfri­ca, le­va­dos co­mo es­cra­vos, pri­mei­ro por mer­ca­do­res ára­bes e de­pois por na­ve­ga­do­res por­tu­gue­ses, per­fa­zen­do uma ro­ta li­to­râ­nea que pas­sa­ria pe­los ­atuais Iêmen, Omã, Irã e Paquistão. Cativos, ­eles de­sem­pe­nha­vam vá­rias ta­re­fas, com ­maior des­ta­que pa­ra aque­las re­la­ti­vas às de sol­da­dos nos exér­ci­tos dos che­fes mu­çul­ma­nos, a par­tir do sé­cu­lo ­XIII. Por vol­ta de 1459, o rei mu­çul­ma­no de Bengala man­ti­nha um exér­ci­to de 8 mil es­cra­vos afri­ca­nos.

Em 1500 os por­tu­gue­ses ane­xa­ram os ter­ri­tó­rios in­dia­nos de Goa, Damão e Diu e trans­for­ma­ram dras­ti­ca­men­te a es­cra­vi­dão na Í­ndia: res­trin­gi­ram o de­sem­pe­nho de ­seus es­cra­vos a ta­re­fas me­no­res em ­seus ne­gó­cios, ca­sas e fa­zen­das; e as mu­lhe­res es­cra­vas pas­sa­ram a ser ­mais uti­li­za­das co­mo con­cu­bi­nas ou pros­ti­tu­tas. Com os in­gle­ses, a maio­ria foi re­pa­tria­da pa­ra a Áfri­ca e ­seus des­cen­den­tes fo­ram dei­xa­dos em bol­sões obs­cu­ros ao lon­go da cos­ta oci­den­tal, em par­ti­cu­lar nas re­giões cen­tral e sul.

Na Ín­dia ­atual, ­além dos po­vos ­afro-in­dia­nos que lá che­ga­ram ­mais re­cen­te­men­te, os drá­vi­das cons­ti­tuem uma das pro­vas des­sa pre­sen­ça. Localizados no Sul do ­país, e con­tan­do cer­ca de 100 mi­lhões de in­di­ví­duos, os drá­vi­das têm pe­le bem es­cu­ra e fei­ções ne­grói­des, ­além de cos­tu­mes, lín­gua e he­ran­ça cul­tu­ral que evi­den­ciam la­ços com as ci­vi­li­za­ções egíp­cia, cu­xi­ta e etío­pe. Construtores de im­por­tan­tes com­ple­xos ur­ba­nos co­mo os de Harappa e Mohenjo-Daro, ­mais tar­de fo­ram re­du­zi­dos à con­di­ção de es­cra­vos e co­lo­ca­dos no ­mais bai­xo pa­ta­mar do sis­te­ma de cas­tas ins­ti­tuí­do pe­los aria­nos. Até 1951, o ni­zam (so­be­ra­no) de Haiderabad man­te­ve um cor­po de guar­das de­no­mi­na­do “ca­va­la­ria afri­ca­na”. E nes­sa re­gião, a zo­na de Siddi Risala con­ser­va, na mú­si­ca, na dan­ça e no uso de pa­la­vras da lín­gua suaí­le, for­tes tra­ços cul­tu­rais afri­ca­nos. Ade­mais, pes­qui­sas re­cen­tes des­co­bri­ram a exis­tên­cia de co­mu­ni­da­des ­afro-in­dia­nas em Karna­kata, Gujarat e Anhara Pradesh, e ­seus mem­bros se au­to­de­no­mi­nam “afri­­ca­nos” (con­for­me The African dias­po­ra in India, 1989).

Nas fotos que ilustram este texto (http:www.kamat.com/kalranga/people/siddi/htm), os visitantes do Lote vêem indianos do grupo Siddi, os quais certamente não terão a oportunidade de figurar na suntuosa telenovela da Rede Globo. Nem mesmo no “núcleo dos pobres”.







A AFRICANA E O VELHOTE DO LOTE

Em 1999, a bibliografia internacional de Estudos Africanos era grandemente enriquecida com a concretização do sonho do grande intelectual panafricanista W.E.B. Dubois (E.U. A.1868 – Gana, 1963), acima, em foto do início do século 20.

Esse sonho era a publicação de um grande livro contemplando o máximo possível de informações sobre o universo africano, no continente de origem e na diáspora, principalmente sobre as grandes e decisivas realizações do povo negro e seus grandes vultos históricos, desde a Antiguidade. E o livro era a “AFRI­CA­NA: The Encyclopedia of the African and African-American Expe­rience”, or­ga­ni­za­da por Kwame Anthony Appiah e Henry Louis Gates, e pu­bli­ca­da nos Estados Unidos.

Com uma equi­pe de cen­te­nas de co­la­bo­ra­do­res da ­área aca­dê­mi­ca, res­pon­sá­veis pe­la ela­bo­ra­ção de lon­gos e bem fun­da­men­ta­dos ar­ti­gos, dis­tri­buí­dos por ­mais de 2 mil pá­gi­nas, essa primeira edição do livro configurava a ­maior ­obra já pu­bli­ca­da so­bre a Áfri­ca, ­suas ci­vi­li­za­ções e seu im­pac­to na cul­tu­ra mun­dial, em todos os tempos. E apenas seis anos depois do lançamento, a monumental Africana tinha, em 2005, já uma 2ª. edição aumentada, dividida em 5 volumes de cerca de 800 páginas cada um.

Agora, uma grande editora brasileira adquiriu os direitos de tradução da obra, para lançá-la em nosso país, naturalmente adaptada à realidade brasileira. E o Velhote do Lote foi convidado para ser um dos 5 consultores de conteúdo da edição, tarefa que ele, que não é bobo, aceitou sem pestanejar.

Mergulhado cada vez mais no fecundo universo da Africanidade, o mencionado senhor está feliz. Pela oportunidade de aprender cada vez mais sobre essa vastidão de temas que tanto o fascinam. E de ser um dos vetores na moderna difusão das realizações do povo negro e do conhecimento delas emanado.

Se isso vai conseguir alavancar as transformações que todos esperamos, não se sabe. Mas o Velhote vem fazendo a sua parte.




Terça-feira, Janeiro 13, 2009



A PAULICÉIA NÃO É TÃO “AL DENTE” ASSIM

O “Bexiga”, oficialmente “Bela Vista”, é um bairro central da cidade de São Paulo. Famoso por suas cantinas italianas, pela gastronomia escandalosa, que chega até as celebrações da padroeira, Nossa Senhora Aquiropita (de “aquiropeto”, ícone bizantino, “que não foi feito por mãos humanas”), a região virou símbolo da italianidade na Terra da Garoa. Mas, segundo o recém-lançado livro Bexiga, um bairro afro-latino (Ed. Annablume, 2008), do jornalista Márcio Sampaio de Castro, não é totalmente assim que tocam os bandolins.

Em seu surpreendente livro, Márcio, um afrodescendente que nasceu e foi criado lá, revela que, no início do século 20, a cidade de São Paulo sofreu o mesmo tipo de intervenção “eugenística”, europeizante e embranquecedora que o Rio de Janeiro. Assim, foram demolidos os cortiços na região da Sé, bem como foi “transferida” a Igreja do Rosário, que abrigava a Irmandade dos Homens Pretos, com o povo negro sendo empurrado para localidades mais distantes do centro.

Nas três primeiras décadas daquele século, os negros oriundos do interior vão procurar, obviamente, moradias próximas das oportunidades de trabalho. É assim que surge, por exemplo, o território negro da Barra Funda, onde se localizava o terminal de carga da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. E que se consolida o do Bexiga (que já tivera, inclusive, em suas proximidades, um quilombo), pela proximidade das mansões senhoriais da Avenida Paulista, carentes da mão-de-obra subalterna.

Saindo um pouco do livro de Márcio Sampaio de Castro e dando uma olhada no célebre texto de Roger Bastide sobre a “macumba paulista”, vamos ver que, nas décadas de 1940 e 1950, na capital paulista, o distrito da Bela Vista (Bexiga), juntamente com o de Santa Cecília eram os que mostravam o “curandeirismo preto e o baixo-espiritismo” com maior índice de desenvolvimento; e isto pelo fato de que, nessas regiões, o número de “brasileiros de cor” atingia a “porcentagem mais elevada” (Bastide, Estudos afro-brasileiros, Ed. Perspectiva, 1972, pág. 206). E mais: ano passado, numa edição focada no Dia da Consciência Negra, a revista Brasileiros também falava do Bexiga, ressaltando a Pastoral do Negro na igreja da Aquiropita; o trabalho do padre Toninho, que já é o segundo pároco afro-descendente naquele importante templo católico; da missa da Mãe negra, ao final da qual é servida uma grande feijoada (como nos banquetes festivos dos finais dos candomblés tradicionais); e na presença, mesmo, do povo de candomblé nessas celebrações do Bexiga.

Vale a pena dar uma olhada no livro. Que nos chegou aqui no Lote não sabemos por que via (o autor? a editora?). Só sabemos que foi muito bem chegado. Como foi o dia em que conhecemos, na Vila Mariana (levados pela magistral cantora afro-italiana Fabiana Cozza), o Pasquale, dono de uma conhecida casa de massas que leva o seu nome e que, apesar do sotaque carregado, usa chapéu de aba curta, chinelo charlote e versa num partido-alto como um Tantinho, um Renatinho, um Dudu. Com pimenta e sem farofa. Al sugo.




Sábado, Janeiro 10, 2009



SE ESTOU ERRADO, ME PERDOA!

Mas eu acho que o valoroso esquadrão verde-rosa já não tem mais ninguém pra resolver o jogo, não! Pelo menos, pra resolver com aquela disposição e batendo aquela bola redondinha dos anos 50, 60...

Se estou errado, me perdoa, leitor! Mas veja só a linha de frente aí na foto:

Padeirinho, Babaú, Xangô, Sargento e Zagaia.

Tremendo ataque, não!?

Mas com a compra do passe também de Xangô, o eterno diretor de harmonia, esta semana, pelo poderoso Orum Futebol e Regatas lá de Cima, só ficou mesmo o meia-esquerda.

Que é um cracaço, diga-se de passagem. E ainda tem bola pra jogar por muito tempo.

Mas uma andorinha só não faz verão, não é mesmo?

É por isso que eu moro na roça. E nunca morei na Cidade.

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PS: A foto que ilustra este post está no magnífico livro-CD "Xangô da Mangueira: recordações de um velho batuqueiro", autobiografia, apoiada por textos de Nei Lopes (Rio, Casa - Cooperativa de Artistas Autônomos, 2005) e encontrável na Livraria Folha Seca, R. do Ouvidor, 37




Terça-feira, Janeiro 06, 2009



MARTINHO 70, INDESTRUTÍVEL

Por algumas dessas coisas que todos nós já sabemos, Martinho da Vila completou 70 anos no ano passado e só está conseguindo viabilizar parte dos projetos comemorativos este ano. E de uma maneira bastante discreta, haja vista o espaço que seus 70 têm tido na imprensa (pelo menos, até agora) em comparação com outras efemérides menos importantes.

Nascido em Duas Barras, no interior serrano fluminense, em fevereiro de 1938, Martinho veio para o Rio morar no morro. Tornou-se sargento burocrata do Exército e sambista na pequena escola de samba de sua comunidade, a Aprendizes da Boca do Mato, pas­sando-se no fi­nal da década de 1960 pa­ra a Unidos de Vila Isabel, na qual, convidado para ser secretário da diretoria (porque era bom datilógrafo) acabou fazendo fa­ma co­mo um dos gran­des au­to­res de sam­bas-en­re­do em to­dos os tem­pos.

Ingressando no meio artístico em plena Era dos Festivais, no momento em que a música brasileira dava seus primeiros passos em direção à globalização colonizada, sua presença ali, causou estranheza. Daí ter sido alvo de criticas maldosas, que punham em dúvida inclusive seu talento. Entretanto, Martinho, fez sucesso. Mesmo cantando que, em sua casa de bamba, a macumba tinha galinha preta e azeite de dendê. E esse sucesso, iniciado em 1969, perdura até hoje, quarenta anos depois, embora sem muito apoio da grande mídia – essa doidivanas novidadeira, sempre em busca de “tendências”, e que despreza a eternidade em favor de modernidades duvidosas.

Mas o fato é que com o sucesso, Martinho obteve também o êxito, representado pela construção de só­li­da car­rei­ra pro­fis­sio­nal e pela conquista do res­pei­to da co­mu­ni­da­de afro-bra­si­lei­ra, com seu po­si­cio­na­men­to so­bre a ques­tão ne­gra e prin­ci­pal­men­te pe­las li­ga­ções que es­ta­be­le­ceu en­tre a cul­tu­ra bra­si­lei­ra e as afri­ca­nas de ex­pres­são por­tu­gue­sa.

Observemos que, uns vinte anos após o início dessa trajetória, certo dia, Martinho abria o coração, dialogando com o psicanalista Luiz Alberto Py, num dos depoimentos mais lúcidos e corajosos de que se tem notícia no ambiente artístico brasileiro, e que soa, hoje, como uma espécie de parábola sobre sua trajetória :

“Sabe, eu nasci no Estado do Rio, pai e mãe lavradores, o pai suicida, eu um pouco culpado, as irmãs mais novas... Aí eu vim para o Rio, a vida deu mil voltas e eu fiquei maluco por causa do álcool. Porque o maior tóxico que existe é a cachaça. Fui colocado em camisa-de-força, fui internado, passei por um monte de psiquiatras. (...) – contava ele à revista Diálogo Médico, em entrevista publicada na edição de numero 9, em 1987, e assim prosseguindo:

“Quando chegavam os caras de branco, aqueles caras fortes, eu falava assim: ‘Vão me levar, só que vai custar muito’. Aí me davam injeções e ficavam pálidos, porque eu não caía com a injeção para dormir. Eles entravam em pânico e diziam, baixinho: ‘Se der mais uma, o coração dele não aguenta’. Eu também já estava mortão, me deixava ir, até porque já estava sabendo que precisava ir. Eu me curei numa clínica no Alto da Boa Vista, era até meio pobrinha. Um dia, um médico de lá me falou: ‘Martinho, vamos conversar. Olha, rapaz, você está doente ou não está doente?’ Eu respondi : ‘Bem, doutor, eu acho que estou’. E ele: ‘Você quer se curar ou não quer se curar?’. Isso para mim era uma coisa horrível, porque para mim era um grande barato eles pensarem que eu estava doente... Ele me deu uma terapia de uns 15 dias, algumas injeções, muitos comprimidos coloridos e aí, pronto”.

Depois dessa experiência de arrepiar, vivida na década de 1970, Martinho promoveu eventos de arte e cultura negra; fez jus a várias premiações importantes, entre as quais o insupeito Prêmio Shell; estrelou inúmeros shows, no Brasil e no exterior; e fez-se porta-voz da lusofonia, incrementando as relações culturais Brasil-Portugal-África. Além disso, e contabilizando mais de 40 lançamentos em discos desde 1969, escreveu e viu encenado, em duas oportunidades, um Concerto Negro, no Teatro Municipal carioca, além do enredo Kizomba, que deu a sua escola de samba o primeiro supercampeonato, em 1988. E, depois de ter publicado o livro infantil Vamos Brincar de Política (1986) e o relato Kizombas, Andanças e Festanças (1992); deu à luz, em livro, a uma Ópera Negra (1998), a Um Romance Fluminense (1999); à biografia Memórias Póstumas de Teresa de Jesus (2003), na qual, assumindo o discurso de sua mãe falecida, relata a saga e a luta de sua família; e o texto ficcional Os Lusófonos (2006), ambientado em vários pontos da comunidade internacional de língua portuguesa.

Este é, então, o Martinho da Vila, 40 anos de carreira ininterrupta. O único artista brasileiro realmente importante e bem-sucedido a carregar em seu nome artístico a referência a uma escola de samba. O único sambista de sucesso perene a poder dizer que é realmente do morro.

Vida longa ao Martinho que, agora, às vesperas dos 71 anos, celebra a vitória de seu talento, de sua lucidez e de sua trajetória única! Que ninguém conseguiu derrubar.







OLIVEIRA SILVEIRA (1942-2009)

Em uma de nossa mais recentes idas a Porto Alegre, fomos brindados, em uma mesa de bate-papo, com um bilhete que veio da platéia, com algumas saudações em uma língua africana. Nelas, identificamos alguns termos do quimbundo, língua de Angola. E, na assinatura, vimos que o remetente era nosso fraterno companheiro Oliveira Silveira, que poucas vezes encontramos, mas do qual tínhamos ótimas impressões e referências.

Oliveira (prenome, mesmo!) Ferreira da Silveira, nascido no mesmo ano que nós, em Rosário do Sul, era um mulato magro, alto e aguerrido, na sua condição de poeta e militante pelos direitos de nosso povo negro. Fez sua es­tréia li­te­rá­ria em 1962 com a co­le­tâ­nea de poe­mas Germinou e, a par­tir daí, pu­bli­cou, en­tre ou­tras co­le­tâ­neas, Poemas re­gio­nais (1968), Banzo, sau­da­de ne­gra (1970), Décima do ne­gro ­peão (1974), Praça da pa­la­vra (1976), Pelo es­cu­ro (1977), Roteiro dos Tantãs (1981) e Poema so­bre Palmares (1988), ­além de par­ti­ci­par de di­ver­sas an­to­lo­gias, in­clu­si­ve edi­ta­das na Europa. Formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com especialização em língua francesa, li­de­rou, em 1971, a cria­ção do Grupo Palmares, que reu­niu ex­pres­si­vos no­mes da li­te­ra­tu­ra ne­gra.

Mas o que marcou mesmo a passagem de Oliveira, falecido no dia 1º. de janeiro em Porto Alegre, por este planeta, foi a iniciativa, na década de 1980, de instituir o Dia Nacional da Consciência Negra, no que contou com a colaboração de outros companheiros gaúchos.

Hoje o “Dia de Zumbi” é uma realidade nacional. Graças à luminosa inspiração do Oliveira, que nesta hora deve estar começando a fazer sua entrada triunfal na Terra dos Antepassados Ilustres, com todos os batuques, danças, comidas e bebidas a que fez jus e realmente merece.

Enda uéua, kamba dia mi (Boa viagem, meu companheiro!) Kazêgibo! (Durma bem!)