Terça-feira, Dezembro 30, 2008


Zé Carlos Bigorna, Ruy Quaresma, Nei Lopes, Sany Alves e Quinteto em Branco e Preto

FINALMENTE, OS MELHORES DE 2008

O ano que se encerra foi, como todos os outros, entremeado de maus e bons momentos; tendo, entretanto, graças aos Ancestrais e Divindades, os bons superado os maus, com vantagem.

Dos maus pedaços, algumas grandes perdas, como a do nosso irmão Mavile (operário gráfico encadernador que nos ensinou, desde pelo menos os 10 anos de idade, a trilhar o interminável e prazeroso caminho dos livros); a do primo e compadre Mizoca, companheiro de aventuras criativas e elucubrações intelectuais; e a de Luiz Carlos da Vila que, sozinho, valeu por uns cinqüenta dos “poetas” que pululam por aí, na cena musical brasileira. Mas vamos falar dos bons momentos.

Desses, destacamos o “bembé” ou “güemillere” realizado aqui no Lote em homenagem a Xangô, em novembro. Nele, sob a competente maestria de Léo Leobons, onilu consagrado em Cuba, os tambores batá soaram bonito, em honra do Alafim de Oyó, para gáudio dos fieis presentes, num clima de grande harmonia, fraternidade, alegria e muita música. O Rei gostou!

Depois, num outro plano, teve o desafio feito pelo grupo editorial Barsa-Planeta para que produzíssemos, em menos de 30 dias, a partir de criterioso projeto editorial, inclusive com detalhamento gráfico, todo o conteúdo de um livro sobre História da África e do Brasil afrodescendente. O desafio foi aceito e o livro está, belissimamente ilustrado, já na bica. Orumilá ficou feliz! Como também feliz ficou com a publicação do nosso “Kofi e o menino de fogo”, pela Pallas Editora, já alçando vôo internacional.

Ainda em outra área, veio a consolidação do formato piano-baixo-bateria-violão-sopros que sonhamos para as nossas apresentações musicais. Conhecendo as inúmeras possibilidades de se cantar e tocar Samba (sem ficar preso ao esquema surdo-cavaco-pandeiro e sem descaracterizá-lo), o arranjador, produtor e parceiro Ruy Quaresma pôs mãos à obra e a coisa aconteceu. E o resultado foram os magníficos espetáculos da série Quartas Cariocas, no Teatro João Caetano, além dos temáticos “Samba na Caixa, Dinheiro no Samba”, “Tributo a Cartola” e “A Vez do Morro”. Neste (veja-se a foto), voltamos ao formato padrão, só que com o vantajoso acréscimo do sempre excelente Quinteto em Branco e Preto.

No campo político, é claro que a eleição de Barack Obama e a consagração de Lewis Hamilton foram acontecimentos marcantes para nós. Assim como foi triste o fim de Matilde Ribeiro à frente da SEPPIR, num episódio cheio das costumeiras “cascas-de-banana” que estão sempre espalhadas pelo nosso caminho. Tão triste quanto nos encheu de alegria rever o venerando líder Abdias Nascimento, aos 95 anos, embora diminuído fisicamente, ainda lançando a flecha flamejante e certeira de seu discurso, em duas ocasiões, uma em São Paulo, outra no Rio.

Mas nada deste ano foi melhor e mais emocionante que a seguinte descoberta.

Nascido em fevereiro de 1888, o Sr. Luiz Braz Lopes, patriarca de nossa família, falecido em 1960, pouquíssimas informações nos deixou sobre suas origens. Só sabíamos os nomes de seu pai e sua mãe, constantes de sua carteira de identidade, e da existência de um casal de seus sobrinhos, que pouco conhecemos.

Acontece que, em outubro, mais de 120 depois do nascimento do patriarca, ao passarmos pela porta da histórica Igreja da Lampadosa, na Avenida Passos, lembramo-nos de que ele sempre dizia ter sido batizado lá. Aí, através do amigo historiador Flávio dos Santos Gomes, desvendamos parte do mistério.

Nos registros da Igreja, que inclusive sediou uma “Irmandade de Homens Pardos”, está lá o batismo de nosso pai e de nossas tias Lucinda e Luiza (das quais ninguém na família sabia) nascidas respectivamente em 1884 e 1886. Ressalte-se que o Velho nasceu em 3 de fevereiro, dia de São Braz. Daí o “Braz” que legou a todos os filhos, como sobrenome. E, nesses registros estão também os nomes de nossos avós e bisavós, numa árvore que remonta à primeira metade século 19.

O ano de 2008, então, foi histórico para nós. Nele, além das recompensas conseguidos por nosso trabalho, graças ao incansável Flávio Gomes (um dos mais reconhecidos historiadores brasileiros da atualidade, e também sambista e afrodescendente) desvendamos parte do véu que cobria nossa ancestralidade, tornando para nós um pouco mais acessível o sonho de paz, saúde, estabilidade e desenvolvimento que todos pretendemos.

Que 2009 seja igual ou melhor. Para todos nós!




Segunda-feira, Dezembro 29, 2008


O haitiano Jean-Baptiste Belley, deputado à Assembléia Nacional Francesa em 1794, foi grande amigo de Oiobomé.

ANO NOVO! OIOBOMÉ PREPARA A VITÓRIA FINAL

A grande ilha agora chamada pelos conquistadores de Oiobomé é, na verdade um arquipélago, pois os rios e estreitos que coleiam por seus mais de 50 mil km2 de superfície, formam cinco grandes áreas distintas de território, além de uma dezena de outras ilhas e ilhotas, principalmente na foz onde o grande rio Amazonas encontra o mar.

Cercada, então, dos lados, pelas águas doces dos rios outrora chamados Amazonas e Tocantins, e abrindo-se para a imensidão salgada do Mar Grande, a Oiobomé dos negros e índios, que os brasileiros ainda consideram a sua Marajó, tanto pela localização, quanto por sua condição de maior arquipélago fluvial do mundo, sem falar nas riquezas de seu solo e suas águas, não é algo que se possa perder sem lamentar. Então, os brasileiros partem.

Partem esses expedicionários brasileiros sem saber, como os oiobomenses já sabem muito bem, que aqui chove durante todo o ano, ficando boa parte das ilhas alagada em função do grande volume das chuvas. Que só diminuem um pouco sua intensidade nos meses de janeiro e junho, tanto nas planícies do leste quanto nas densas florestas da parte ocidental.

Não sabem também os brasileiros que, desde que Dos Santos, o fundador da República, fez suas primeiras alianças com os maopitiãs, paracanãs, gaviões, diores, amanajés, açurinis e todos os outros grupos indígenas do arquipélago é quase inexpugnável. Aqui, o que não é naturalmente intransponível pela força natural das florestas e dos rios, o é pelas paliçadas e fortificações que tornam Ganamali, Oioçongai, Tombungola, Banzagudá e Popolomé cidades teoricamente imunes a invasões estrangeiras. Da antiga Bailique ao Tocantins; da Baía de Marajó à ex-ilha Grande de Gurupá, hoje Ganamali; das fronteiras com o Grão-Pará ao Canal do Sul – o Império Brasileiro não sabe – o que há, além do armamento e da munição enviados da França, através de Caiena e de Trinidad, por traficantes ingleses: o que há são forças da terra, do mar e dos céus guardando Oiobomé para um glorioso futuro de paz, saúde, estabilidade e desenvolvimento.

Tomar, então, o arquipélago altamente fortificado do presidente Mundurucu não é fácil, como pensam os regentes do Brasil. Que inclusive, neste momento grave, se vêem às voltas com outras situações igualmente difíceis. E também porque Mundurucu acaba de entregar o comando-em-chefe do Exército ao seu nada diplomático filho Benjamim, conhecido ironicamente pelo apelido de “Benzinho”.

O novo general é um mulato escuro com menos de 30 anos, fartos bigodes e aspecto enganosamente simpático, apesar do abdômen, grande e redondo como um tambor de ngumba, a música das ruas de Oiobomé. Daí o populacho, com a irreverência própria de seu temperamento, logo o ter rebatizado como o “Ngumba”.

Mas Benzinho Ngumba é um militar à moda africana. E, além de orgulhoso das origens indígenas de sua ancestralidade materna, é um profundo conhecedor das artes e técnicas de seus antecessores e contemporâneos no continente africano. Sabe de Sundiata, Suni Ali e Idriss Aluma. Tem ouvido falar de Chaka, Horombo, Abdel Kader, Ibrahima Sori, Kumvimbu Ngombe... Por isso, paramenta-se como um senhor da guerra, lança, escudo, a pele de onça sobre os ombros... mas sem esquecer o moderno rifle Mauser alemão. E sai de Oioçongai, que os brasileiros chamam de Soure, à frente de sua tropa, indo ao encontro da esquadra inimiga fundeada na baía, que eles ainda chamam de Marajó.

O general Benzinho Ngumba segue para a frente de batalha como um autêntico rei bantu. À sua vanguarda vão os bacamarteiros precedidos pelos estandartes coloridos com os emblemas das várias guarnições; e à frente de todo o cortejo, o batalhão de lanceiros. Atrás do enorme guarda-sol sobre o qual caminha, empertigado, o general, vêm os músicos. E com esses músicos uma batucada infernal, na qual se distingue claramente a marcação dos tambus e o repicar dos batacotôs; o chocalhar dos maracás e o estrídulo dos canzás; o gonguejar dos gungas e agogôs; o farfalhar das caixas surdas e dos taróis; o retumbar das caixas de guerra. Batucada fantástica! Ritmo contagiante! É a mocidade de Oiobomé lutando para ser sempre independente...

E, nesse mesmo momento, no extremo sul do Brasil, revolucionários entram em Porto Alegre e destituem o presidente da província. Com apoio de boa parte do povo da cidade, reagem às forças governistas e, embora Porto Alegre seja logo retomada pelas tropas imperiais, os rebeldes ampliam o controle sobre as áreas ao longo da Lagoa dos Patos e na Campanha Gaúcha. Eles também querem proclamar uma Republica varonil, independente do Brasil. Mas sem libertar seus soldados negros, que acabam traídos na localidade de Porongos e entregues ao Império, sendo de novo escravizados no Arsenal de Guerra e na Fazenda de Santa Cruz, no Rio de Janeiro.

(Trecho de “Oiobomé O’ Mezamu”, rapsódia de Nei Lopes, inédita)







NA PONTA DO VERSO: POESIA DE IMPROVISO NO BRASIL - Livro-CD da Caburé ganha matéria no Overmundo

Recém-lançado, o excelente livro-CD "Na Ponta do Verso", que esquadrinha boa parte das cantorias do populário nacional, tem um texto nosso: "Partido-alto, a Receita do Samba Integral". Muito bem cuidado, como toda produção da Associação Cultural Caburé, à frente nosso amigo, o geógrafo e sambista Alexandre Pimentel, o livro-CD já é um sucesso. Tanto que mereceu uma bela matéria no importante site Overmundo, escrita pela excelente jornalista Helena Aragão.

Vamos lá? Apreciem!

http://www.overmundo.com.br/overblog/tu-improvisas-eles-improvisam

Gostaram? Mas comprem também.
Nas boas lojas do ramo. (NL)
**
Associação Cultural Caburé
(21) 2245.8625 / 9896.9926




Terça-feira, Dezembro 23, 2008



"... nunca se esqueça / que do velho nasce o novo / e que todo poder só é real se vem do povo."

(Zé Luiz do Império - Nei Lopes)






CARTÃO DE NATAL RECEBIDO DO AMIGO ARTISTA GRÁFICO LUIZ CARLOS GÁ.
VEJAM, QUE BELEZA!









FIM DE ANO EM NEW YORK, NEW YORK...

Aproveitando os raros momentos de descanso concedidos por sua árdua rotina, o Velhote do Lote, como bom colonizado que é, deu um pulo à velha e boa New York para curtir um White Christmas, on the rocks.

Na bela cidade, como não poderia deixar de ser, o Little Old Man deu um pulinho até o Harlem, para rever os brothers.

Mas, pálido de espanto, o Coroa quase se engasgou com a torta de maçã quando verificou que o Harlem era aqui mesmo, perto do Andaraí. E que a chinfra de Harlem Globetrotters era mais um caô do impagável "Big Reborn" ("Renatão" em brasileiro), o terror das "soul singers"
nacionais.

É Natal!? Ôu...ou..ou...Dia de Ação de Graças?




Quarta-feira, Dezembro 17, 2008
Segunda-feira, Dezembro 15, 2008



A JANGADA DE PEDRA VAI VADIAR

Um dos encontros mais impressionantes dos últimos tempos ocorreu, semanas atrás, a bordo de um avião da TAM. Foi com dois ícones da Cultura, lusa e brasileira. Um José e um Jessé, chamados respectivamente “Zé” e “Zeca”.

O encontro foi através de duas alentadas matérias da revista de bordo TAM nas Nuvens (nº 11, ano 1, nov. 2008) da simpática companhia alvirrubra – que até já ajudou num enredo salgueirense. Uma era sobre o escritor José Saramago, assinada por Adriana Carvalho; e a outra, de autoria de Marcos Diego Nogueira, sobre meu querido amigo e parceiro, o malandro e contagiante Zeca Pagodinho.

O caso é que fomos lendo, lend..., len..., le..., e dormimos. E, aí, vejam só no que deu: misturamos tudo! Vejam!

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“Num meio-dia de fim de verão, [ele] senta-se na poltrona de sempre, a da esquerda de quem entra na sua biblioteca, local que também lhe serve como oficina de trabalho. À sua volta estão 15 mil livros, vitrines que expõem preciosidades (como manuscritos inéditos) e fotos.

“[Ele] não está em Xerém [Jerez], mas se sente em casa. Dali ele comanda o pessoal que empacota doces para sua festa em homenagem a são Cosme e são Damião, marcada para o dia seguinte, um sábado, 27 de setembro. Tem maria-mole, pipoca doce de saco rosa, paçoca. [Ele] belisca um suspiro e é prontamente advertido por sua filha de 16 anos: ‘Faz mal pra sua saúde, pai! ’. Ele responde, com sotaque mole e sorriso de canto de boca, que não faz mal, não.

“[Ele] chegou à porta da morte. ‘Foi quando eu saí lá do Quebramar achando um ponto de táxi e não tinha. E acontece, nesse momento, de se desatarem todos os controles internos aos quais temos que recorrer para que não nos convertamos numa expressão contínua de sentimentos mais complicados’, ele explica, atiçando a curiosidade alheia a partir de sua poltrona: ‘Vou passando pela rua e todo mundo falando ‘Fala, Zeca! ’ E eu cumprimentando. Aí um cara do pet shop fez isso também, me cumprimentou e eu pedi, ‘Me deixa ali, cara’. Ele achou que eu tava de sacanagem, né? Entrei e ele me pediu pra segurar um cachorro. Era como se eu tivesse duas partes: um corpo em mau estado, e uma cabeça ativa, como se a própria doença a estimulasse. Passei por essa experiência e penso que não seria justo agora me retirar da vida. Cerveja pra mim tem que estar gelada, com as bolhinhas. Esquentou, eu jogo fora.

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“[Ele] chegou à porta da morte. E voltou. Recuperou os 15 quilos perdidos com a pneumonia que sucedeu a uma grave crise de soluços, curada com goles de vinagre. Mas escapou. Por mais incongruente que possa parecer, ele saiu desse episódio com uma ‘sensação de serenidade absurda’.

“Isso não significa que ele ‘não seja mais disso’, como canta em um de seus sucessos. Sua malemolência permanece intacta, nas generosas doses diária de cerveja ou nas reuniões que varam as madrugadas em seu sítio.

“[Então, ele] começa a contar sobre a primeira de todas essas noticias que o cercam: ‘Há dez anos, estava em Salzburgo e fui jantar em um restaurante chamado O Elefante. Não havia nenhum motivo para que eu perguntasse por que o restaurante tinha esse nome. Mas me chamou a atenção uma série de pequenas esculturas que mostravam a jornada de um elefante que havia sido oferecido como presente pelo rei de Portugal, dom João III, ao arquiduque austríaco, Maximiliano II. Não gostei, nunca mais fui. Agora eles querem porque querem ir para a Disney e eu não posso pular fora. Tomara que eles desistam e resolvam ir aqui pra Jericoacoara , no Nordeste, ou para Bonito, Fernando de Noronha. Tanta coisa bonita aqui!

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“[Ele] passeia pelas ruas sua ‘expressão sisuda que engana toda a gente’. Mas, como caracteriza a si próprio em uma crônica, é um bom sujeito. [E] não foge a nenhuma pergunta: fala sobre fé, vida de sambista, ressaca, visitantes indesejados. Quando está cansado, simplesmente muda de assunto: ‘Vamos lá pra outra sala pra você comer um docinho?”.




Sexta-feira, Dezembro 12, 2008

AFRODESCENDENTES GRADUADOS
(De qualquer idade)
ITAMARATI CONCEDE BOLSA-PRÊMIO


Programa de Ação Afirmativa 2008
Inscrições até 26/12/08

O Edital do Programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco – Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia tem como objetivo incentivar e apoiar o ingresso de afro-descendentes na Carreira Diplomática.

O candidato selecionado receberá uma bolsa-prêmio no valor total de R$ 25.000,00, a ser desembolsado parceladamente entre março e dezembro de 2009. O valor deverá ser utilizado para custeio de material bibliográfico e para pagamento de cursos preparatórios ou de professores especializados nas disciplinas exigidas pelo Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata, realizado anualmente pelo Instituto Rio Branco.

INFORMAÇÕES GERAIS

Inscrição: até 26 de dezembro de 2008

Onde se inscrever: http://www.cespe.unb.br/concursos/irbrbolsa2008







CORÉLIO CONDUZINDO MISS DEISE

Corélio chegou aqui vibrando:

- Pô, Meu Tio, consegui um papel numa novela. Vou ser o dirigente de uma grande empresa!

Fiquei feliz, porque o Corélio sempre foi um bom ator. Mas estranhei o papel: "dirigente de uma grande empresa", com aquela cor, com aquele cabelo ?!... Hmmm... Ainda se fosse de político trambiqueiro... Mas ele estava tão animado, que eu nem fiz nenhum comentário. Só dei força.

Mas aí, no primeiro capítulo, veio a realidade: o papel do Corélio era de chofer (como se dizia no tempo do Dondon). Dirigente, sim, mas de uma fubica velha e caindo aos pedaços. E, ainda por cima, conduzindo uma coroa mala e racista, chamada Miss Deise (a da foto - de divulgação).

Corélio bem que merecia papel melhor! E está chateado por isso. Mas, pra não se deixar abater, dia sim, dia não, ele mete a mão na alavanca, acelera e chama Miss Deise "na buzina". E a coroa até que gosta. Não sabemos até que capítulo...




Quarta-feira, Dezembro 10, 2008



GATONET e GLOBALIZAÇÃO

Chego no “Convenção de Genebra”, aqui do lado, a fim de aliviar um pouco a tensão do dia. Arrumo quatro tijolos da obra (que não fica pronta nunca), empilho, ajeito, me acomodo e peço o de sempre: uma Belco mais-ou-menos e uma porção de torresmos, no papel pardo.

Tão distante estou que só na segunda mastigada é que me ligo no papo entre os dois conhecidos de vista, as frases intercaladas com pontuais lapadas de 51, a “boa idéia”:

- Você viu o filme no “eitchi-bi-ou”?

- Não! Eu tava vendo um documentário no “pípou-enarts”.

-Ah! Esse canal é muito mala, maluco! Documentário bom é no “ânimal plenet”.

- Pô! Tu gosta de bicha é? Então, bota no “Sôni-intertêinment-televijion”.

- Esse é de série. E série boa pra mim é as do “Fox-laife”.

- E tu vai de “pei-per-viu”?

- Só quando recebo. Aí eu vou até de “xop-táime”, “xop-tur”, “poli-xop”...

- Hoje eu acho que vou curtir um “max-praime”.

- Bom hoje vai sê é na “ême-tivi”. Tem cada clip maneiro, maluco!

- E as crianças? Como é que fica o “discovri-kids” delas?

- “Discovri-kids”? É ruim, hein !? ...

**

Ah! Agora, entendi! Eles estão falando em gatonetês, a língua nova da periferia.

É isso! Beleza! É a TV a cabo ajudando as seitas pentecostais a, através do espaço público da comunicação, acabarem de moldar, ao jeito das grandes corporações, os corações e as mentes da massa dos excluídos nas grandes cidades brasileiras!

Beleza! Simbora! Mete bronca! A trilha sonora é o batidão, no “sub-woofer” do carro parado aqui, dando porrada no pé do meu ouvido. Bacana!




Segunda-feira, Dezembro 08, 2008



OOOXUM! EKARÊ, FIDEREMÃ!

Apesar de nós, aqui no Lote, não sermos muito chegados ao chamado “sincretismo”, é sempre bom respeitar as tradições. E, assim, neste dia em que o catolicismo celebra a Imaculada Conceição de Maria (Nossa Senhora da Conceição), resolvemos, respeitosamente, saudar Oxum, nossa grande Mãe, orixá iorubano das águas doces, da riqueza, da beleza e do amor.

Segundo alguns relatos tradicionais, Oxum é divindade superior, tendo participado da Criação como provedora das fontes de águas doces. É a divindade tutelar do rio que leva seu nome (Ósun) que nasce em Ekiti, no leste da Nigéria, e passa pela cidade de Oshogbo, onde se localiza o primeiro santuário desse importante orixá, cujo culto foi também forte entre o povo Ijebu. Seus principais símbolos são seixos rolados e pequenos bastões, o que as distingue das outras divindades. Seu assentamento inclui, também potes com água (que seus seguidores podem beber) e dezesseis búzios, que são usados na consulta ao seu oráculo.

Oxum é a dona do metal amarelo, do latão. Seus “filhos” usam braceletes desse metal como insígnia e dançam segurando um leque ou uma espada também feita desse metal. Numa aproximação com a mitologia greco-romana, ela seria a Vênus dos iorubás, famosa por sua beleza e por seu grande cuidado com a aparência. Alta, de seios belíssimos, é descrita como divindade que gosta muito de se banhar, que está sempre se mirando num espelho, e que usa braceletes de latão, do pulso até o cotovelo.

Segundo um itan (relato mitológico) iorubano, seus cabelos eram longos até que Iemanjá roubou-os enquanto ela estava ocupada com suas tintas de índigo (que os africanos usam para tingir roupas). Oxum, então, consultou seus dezesseis búzios e ficou sabendo quem tinha furtado seus cabelos, não tendo, entretanto, condição de recuperá-los. Então, juntou banha, panos e tintura de índigo ao pouco cabelo que lhe restara e fez um coque, exatamente como os postiços que suas sacerdotisas usam em Oshogbo.

Por causa de sua grande beleza, Oxum foi desejada por todos os orixás masculinos, e fez de muitos deles seus maridos ou amantes. Sua aventuras amorosas tornam ainda mais complexa a genealogia dos orixás. Mas seus “filhos”se orgulham dessas aventuras, porque elas alimentam sua reputação de pessoas belas e desejadas.

No Brasil, o culto de Oxum deve ter chegado à Bahia juntamente por volta de 1826, quando começaram a chegar em massa ao Brasil africanos originários da bacia do rio que lhe tomou o nome, notadamente ijexás, ifés e efãs. Aqui, então, ela passou a ser cultuada sob as seguintes denominações ou qualidades: Oxum Pandá, Iabá-Omi, Abaé, Abotô, Apará (a mais jovem de todas), Ioni, Abalô (a mais velha), Timi, Akidã, Ninsim, Lobá.

No Haiti, Oxum é conhecida como Mademoiselle Anaisé; na República Dominicana como Anaísa, Anaísa Pié e Anaísa Pié Dantó. Em Trinidad-Tobago seus equivalentes seriam as entidades conhecidas como Girebete e Demorlé. Em Cuba, outras manifestações de Oxum, ou entidades a ela associadas, são: Oxum Ayé, Ijumo, Logoún (no Brasil, Logunedé), Olopondá, Olueri, Onilaba, Suni, Tobochimeife e Yumí.

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Pronto, Mamãe! Não era isso que a Senhora queria? Orá Ieiê-ô !!!!

(Fonte: “Dicionário de Cultos Africanos nas Américas”, Nei Lopes, em finalização).




Sábado, Dezembro 06, 2008



WILSON MOREIRA, 72 ANOS
(texto de Gerdal José de Paula)


Pouco citado como um bairro musical - onde nasceram e/ou viveram o percussionista Robertinho Silva, o violonista Neco (Daudeth Azevedo) e seu irmão compositor Adílson Azevedo (parceiro de Orlandivo em "Bolinha de Sabão"), o sete-cordas Darly Louzada, a cantora Jurema e o cavaquinhista Waldir Caciporé, por exemplo -, Realengo é também berço e lugar de criação de Wilson Moreira, compositor de genial intuição para a melodia, mormente do samba, em cuja figura a brandura e o talento se irmanam em doses avantajadas. Levado, bem moço, por Paulo Brazão para a ala de compositores da então nascente Mocidade Independente de Padre Miguel, nos anos 50, Wilson, ainda do período nessa escola, teve, em 1975, um de seus sambas de terreiro, "Antes Assim", gravado por Leny Andrade e, recuando no tempo, em 1968, a convite do todo-poderoso Natal, ingressou no escrete de compositores da azul-e-branco de Madureira, recebido por Picolino, presidente da ala, e tornando-se parceiro de Candeia. Aliás, a bem-sucedida participação de Wilson em discos da série "Partido em Cinco" - com os demais portelenses Anézio do Cavaco (depois ligado à Beija-Flor), Velha, Casquinha e o próprio Candeia - ensejou ao popular Alicate (apelido dado por Xangô da Mangueira) o convite do produtor Adelzon Alves, conhecido na época como "o amigo da madrugada", para, em 1974, num ótimo pau-de-sebo da Odeon intitulado "Quem Samba Fica", gravar duas faixas ("Mel e Mamão com Açúcar" e "Meu Apelo"), num disco em que também mostravam preciosidades Dona Yvonne Lara, Casquinha, Flávio Moreira e Sidney da Conceição - este um bamba do Estácio e pintor "naïf", autor do quadro reproduzido na capa do elepê.

Um capítulo à parte na trajetória de Wilson Moreira é, sem dúvida, o encontro dele, então funcionário do Desipe, onde trabalhou por muitos anos, com Nei Lopes, que, num prédio da Rua Santa Luzia, trabalhava ainda na produção de "jingles" com outro talento, Reginaldo Bessa. Coube a Délcio Carvalho, segundo palavras do próprio Wilson em entrevistas, promover essa aproximação dele com Nei, a qual deu um tremendo caldo - inicialmente ensopado, como nos festivais do gênero na casa da família de Nei Lopes, em Irajá, onde surgiu "Leonel, Leonor", gravada por Roberto Ribeiro, a primeira de uma série louvável de composições da dupla, como "Senhora Liberdade", "Gostoso Veneno", "Deixa Clarear", "Sandália Amarela", "Coisa da Antiga" e "Ao Povo em Forma de "Arte" (samba-enredo do tempo em que ambos passaram pela Quilombo) etc.

Domingo, 7 de dezembro, a partir das 15h, no Tabuleiro da Baiana, em Botafogo - Av. Carlos Peixoto, 140 (sobre o Túnel Novo), tel.:2295-7015 -, com participação especial de uma nova e excelente cantora, Luísa Dionízio, esta glória do nosso samba, Wilson Moreira, comemorando 72 primaveras, será homenageado. O nome dele pesa na balança. Temos de estar presentes.

PS: Associando-se à homenagem do amigo Gerdal J. de Paula, o Velhote do Lote, cumprindo compromisso profissional em Belo Horizonte, envia seu abraço ao parceiro Wilson Moreira.




Sexta-feira, Dezembro 05, 2008

RODA DE SAMBA DO DNA DO SAMBA RECEBE DONA IVONE LARA
DOMINGO - 07/12 - 17H30


Todo domingo no final da tarde em Vila Isabel, o grupo DNA DO SAMBA é o anfitrião de uma das mais novas rodas de samba da cidade. Das 17h30 às 23h, o samba rola solto na Associação Atlética Vila Isabel. O clube quer trazer para o seu espaço, a tradição das já famosas rodas de samba do bairro.

Comandando a roda está o grupo DNA DO SAMBA, formado por filhos e netos de grandes baluartes do samba. São eles: André Lara, neto de D. Ivone Lara, Diogo Pereira, neto de Noca da Portela, Nei T. Lopes, filho de Nei Lopes, Raoni Ventapane, neto de Martinho da Vila e Ronaldo Mattos, filho de Nelson Sargento.

A cerveja estupidamente gelada e os petiscos do bar prometem ser outra atração deste samba. Considerando a presença do DNA DO SAMBA, prepare-se para se divertir quando Noca da Portela, Martinho da Vila, Nei Lopes, Nelson Sargento, Dona Ivone Lara e outros "baixarem" por lá.

RODA DE SAMBA DO DNA DO SAMBA
ASSOCIAÇÃO ATLÉTICA VILA ISABEL

Horário: Domingos (17h30)
Couvert: HOMENS: R$5,00 - MULHERES: GRÁTIS
Consumação: Sem consumação
Endereço: Av. 28 de Setembro, 160 (um quarteirão antes do Petisco da Vila), Vila Isabel, Rio de Janeiro, RJ





ALÔ, VISITANTES!

Informamos aos caríssimos que o "Lopes" que tem vindo ao Lote fazer comentários não é da Casa e dela só tem (se é que tem mesmo) o sobrenome. E aos que têm sentido falta de réplicas aqui do Velhote, informamos que elas não têm ocorrido por problemas técnicos: nossos comentários, não sabemos por quê, estão sendo "banned" (limados) pelo Webmaster [?], não podendo ser "added".
Coisa de Mr. Hacker, we presume. Mas o Editor já vai resolver o problema...




Segunda-feira, Dezembro 01, 2008

1920, A DÉCADA QUE NÃO ACABOU

Aberto o debate sobre o racismo brasileiro, chega às livrarias mais um livro revelador: “A cor da escola; imagens da Primeira República”, de Maria Lúcia Rodrigues Muller, publicado pela Editora da Universidade Federal de Mato Grosso. Trata-se de um livro sobre as políticas de branqueamento da sociedade brasileira principalmente na década de 1920.

Observe-se que nossa “Enciclopédia brasileira da Diáspora Africana”, lançada há quatro anos, já havia, no verbete “Mestre-escola”, tangenciado o assunto, assim:

“No Brasil do sé­cu­lo XIX, mui­tos des­ses pro­fes­­so­res [do ensino fundamental] eram de ori­gem afri­ca­na. Nessa épo­ca, o pre­­­pa­ro de um mo­ço era jul­ga­do pe­lo no­me do mes­­tre com o ­qual se de­ra o seu apren­di­za­do (...)”.

Gestada, pois, talvez desde o início da República, é na década de 1920, durante a chamada Belle Époque – como acentua outro estudo importante, “As tradições populares na ‘belle époque’ carioca”, de Mônica Pimenta Velloso, Funarte, 1988 – que toma corpo a idéia de que a Cultura brasileira seria inferior enquanto abrigasse os elementos “arcaicos, bárbaros e selvagens” das camadas populares. E que nossas elites, “dotadas da dinâmica da razão, detentoras do princípio ativo da ciência” seriam superiores “por estarem em sintonia com a cultura universal”.

A partir dessa formulação, vamos até outro livro nosso, “O racismo explicado aos meus filhos” (Agir, 2007), para lembrar que: em 1920, o governo brasileiro proibiu a inclusão de jogadores negros na seleção nacional de futebol; que, no ano seguinte, ante a hipótese da emigração de norte-americanos negros para o Brasil, tramitou no Congresso Nacional um projeto proibindo a imigração de “indivíduos humanos das raças de cor preta”; e que, em 1922, a viagem a Paris de Pixinguinha e Os Oito Batutas, chamados de “pardavascos e negróides”, chegou a provocar longos debates na Câmara Federal.

Unindo esses fragmentos de uma mesma triste história, vamos ver que, no livro da professora Maria Lúcia Müller (baseando-nos, por enquanto, apenas na matéria de capa do caderno Prosa & Verso de O Globo, em 29.11.08, “Uma história esquecida”), vamos ver que, nos primeiros anos do século XX, havia, no Rio de Janeiro principalmente, uma importante classe média negra. Aí, lembramos de alguns exemplos conhecidos, de afro-descendentes e bem postos na vida. E voltamos ao artigo para ver que “a partir dos anos 1920 o governo tomou medidas que dificultaram a formação de professoras e professores negros”.

Esse governo foi o do presidente Epitácio Pessoa, no qual foi remodelada a parte central da cidade do Rio, então a capital federal, com o arrasamento do morro do Castelo, em continuação às obras iniciadas em 1904; e no qual, concedendo vultosos empréstimos, os Estados Unidos suplantaram a Inglaterra como principais credores do Tesouro brasileiro.

Deixemos, então, a palavra, com a autora de “A cor da escola”:

– Surge nessa época – diz ela na matéria em questão –, a idéia de que não éramos um povo, que precisávamos construir uma idéia de povo. Ao mesmo tempo – prossegue –, quase todos os intelectuais são influenciados pelo discurso eugenista. A principal preocupação deles era pensar o que seria do Brasil, com uma população tão escura. Houve então um esforço deliberado para excluir os negros de espaços estratégicos. Eles podiam estudar, mas não dar aulas.

Deixando-os estudar, mas não dar aulas; podendo cantar, tocar e ser auxiliar de ser viços, mas não dirigir emissoras de rádio; podendo ser jogadores, mas não técnicos ou dirigentes no futebol, etc.etc.etc., assim o Brasil foi segregando veladamente os negros, sem nada explícito, sempre por baixo dos panos. E é isso o que nos tem mostrado o “Mapa Anual das Desigualdades Raciais”, elaborado pelo Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Sociais, da UFRJ.

O racismo brasileiro pode até não existir mais, como querem alguns. Porém continua fazendo vítimas. Desde a década de 1920.





SE NELSINHO FOSSE BLACK

Em recente artigo em O Globo, o bem-humorado produtor musical Nelson Motta, um dos mais ativos entusiastas da internacionalização da cultura brasileira, lamenta não ser preto. E isso porque, se fosse, estaria, segundo suas palavras, incluído no que ele acredita ser mais uma minoria privilegiada: aquela que, conforme diz, faz jus a “cotas na universidade e na administração pública” e a um alegado benefício que menciona como “bolsa-quilombola”.

Declarando-se – com a mesma ironia do célebre “pé na cozinha” do então presidente Fernando Henrique – um afro-descendente sem “melanina suficiente” para receber “as proteções que a maioria das minorias hoje desfruta no Brasil”, o sempre jovial Nelsinho nos faz refletir sobre o problema que é a classificação etno-racial neste país “desracializado”.

Enquanto, aqui, o grau de descendência africana se mede quase que sempre pela cor da pele (a ponto de algumas pessoas, apesar das evidências familiares, se autodeclararem “brancas”, como o fez o fenomenal craque Ronaldo, pouco tempo atrás), nos EUA, como lembramos repetidas vezes, qualquer pessoa com um mínimo de africanidade em sua herança genética, é um negro.

E foi essa objetividade, embora chocante para a realidade brasileira, que levou os afro-descendentes de lá, efetivamente uma minoria, a ter clareza quanto ao alvo de suas reivindicações por igualdade e promoção social, e a chegarem à mobilidade ascendente que, em termos gerais, conquistaram.

Nascido na alta classe média urbana brasileira há 64 anos, Nelson Cândido Motta Filho, ao que sabemos, teve todas as oportunidades e jamais encontrou barreira em sua trajetória de sucesso. É jornalista, escritor, compositor, produtor de discos e de shows, e, ao que supomos, um homem rico.

Por seu histórico familiar e pelas características da sociedade brasileira, as possibilidades de ele nascer com “melanina suficiente” seriam ínfimas. Mas se, por um acaso, ele tivesse nascido negro, no Brasil, antes de tudo, ele não seria parte de uma minoria. E sua vida, mesmo iniciada em berço esplêndido, certamente não seria assim tão plácida (grandes jornais, editoras fortes, projetos sempre viabilizados); e ele, aos 64 anos, com certeza, não seria tão “lindo, leve e solto” como é.