Quinta-feira, Novembro 27, 2008



ÁUREA MARTINS DEIXA SANGRAR

Olha aí, gente boa!

Chama todas as cantoras brasileiras que você conhece (Alcione e Leny não vale!). Chama essas que cantam com voz de homem, coçando os instrumentos! Chamam as que cantam com voz de boneca! Chamam as que cantam louvando e adorando em “tremolos”, de olho no dízimo do freguês! Chama as que cantam de bustiê e shortinho, o celular balançando no bolso de trás! Chama as que cantam de chapéu e botas texanas, liquefazendo os erres! Chama as de calcinha preta! Chama as Reianas, Fanteijas e Maraiacareis de araque! Chama as madrinhas e afilhadas! Chama as que cantam samba de olho fechado, sem se mexer!

Chama todas elas pra virem ouvir o novo CD de Áurea (de ouro) Martins!

Chama pra ouvir Johnny Alf, Herivelto, Lupicínio, Ary, Luis Reis & Haroldo Barbosa, Meira, Chocolate, Custódio Mesquita, Chico e Tom. Na medida certa!

Chama, pode chamar! E diz que a que estão ouvindo é uma das três maiores cantoras brasileiras da atualidade. Que o CD se chama “Até Sangrar”. Que a idéia é do Hermínio (esse biscoito fino) e Zé-Maria Rocha. Que tem participação de Emílio Santiago e Alcione.

Chama todas as cantoras a que nos referimos acima! Chama, que desta vez elas vão finalmente saber qual é a voz da canção brasileira. E vão ouvir até sangrar.




Terça-feira, Novembro 25, 2008



AMERICAN AIRLINES E MEDO DE FEITIÇO

O episódio, amplamente noticiado, da injúria de base racial sofrida, dias atrás, por nosso amigo, parceiro e “afilhado” Dudu Nobre, juntamente com sua família, seria apenas mais um capítulo da triste rotina dos negros neste país, se não fosse ressaltado por alguns fatos interessantes.

O primeiro foi a aprovação, pela Câmara dos Deputados, no âmbito das celebrações da Semana da Consciência Negra, do projeto de lei que estabelece cotas para o preenchimento de vagas nas universidades públicas federais. Ao qual se seguiu retumbante matéria em O Globo, ilustrada por uma inexplicável foto, em tamanho grande, da veterana professora recentemente celebrizada pelo fato de encabeçar dois manifestos contra esse tipo de ação afirmativa.

Como justificativa da foto, o já desgastado argumento, defendido pela professora, de que a adoção das cotas ameaçaria a paz social e fragmentaria a unidade supostamente existente entre os vários elementos étnicos que compõem a sociedade brasileira.

Dois dias depois, entretanto, na edição do último dia 23 do mesmo O Globo, o colunista Elio Gaspari, com sua conhecida e admirada independência, iluminava as negras consciências sobre a questão. Quanto ao episódio “Dudu-Bombom”, o colunista informava a reincidência da American Airlines e de um certo comissário Carlos Carrico naquele tipo de procedimento, que consiste em não fazer caso e até debochar das leis brasileiras. E insinuava que o melhor a fazer seria um boicote a tal empresa, acostumada a reparar suas ofensas com oferecimento de “milhas”, segundo ele. Quanto ao projeto de cotas, na mesma coluna, evocando alguns exemplos históricos, Gaspari lembrava que, em sete anos de vigência de políticas de ação afirmativa em algumas universidades brasileiras, “não apareceu um só episódio ou estudo relevante capaz de desqualificar essas cotas”.

Diante disso, aqui no Lote, depois de pensarmos em alguns procedimentos, além daqueles que o Dudu já pôs em prática, resolvemos botar pilha:

- Olha aí, Dudu! Da próxima, em vez de ir aos States, por quê tu não leva a família a Cuba, rapaz? Lá tem uma estrutura turística legal, paisagens lindas, uma rumba em cada esquina e a população compreende 51% de euro-africanos e 11% de afro-americanos! E já que a professora Anticotas é autora de 1 (um) livro chamado “Medo do Feitiço”, por quê tu não aproveita e bota o nome dela na macumba, como diz aquele teu samba?




Quarta-feira, Novembro 19, 2008


Nei Lopes e o Instrumental Luar de Prata, de São Paulo

NO ANDAR DE CIMA
(O Samba da Consciência Negra)


Mas pra quê tanto tambor?
Pra quê tanto berimbau?
Não cabe no elevador...
Ele é social! (BIS)

A gente precisa ter gente no andar lá de cima
Mas não desse jeito sem jeito que a turma imagina.
A gente tem que ser modelo noutro figurino
As damas no salto e os valetes, no esporte fino

Passando da área de serviço pro meio da sala
Dizendo no pé e na mente, no gesto e na fala
E mesmo se for chamuscado ao por a mão no fogo
A gente precisa aprender toda a regra do jogo.

Mas pra quê tanto tambor?
Pra quê tanto berimbau?
Não cabe no elevador...
Ele é social! (BIS)

A gente quer superestar sempre bem colocado
Mas nunca dando de bandeja ou levando recado
Bonito é um povo mostrar a sua resistência
Mas não de chofer ou de armário de S.Excelência.

Bacana é a gente gingar, mas no andar superior
Naquele passo de chefe, magistrado ou senador.
E não é no afrodisíaco rap do logro
Que a gente vai poder botar novas regras no jogo.

Mas pra quê tanto tambor?
Pra quê tanto berimbau?
Não cabe no elevador...
Ele é social! (BIS - NA CABEÇA!)

P.S: Às vésperas do Dia Nacional da Consciência Negra e em seguida à publicação de mais um artigo do "diretor" Ali Kamel, negando a existência de racismo no Brasil, meu amigo Dudu Nobre e família são chamados de "macacos" e ofendidos racialmente a bordo de um avião, nos céus do Brasil. Valeu, Zumbi?




Sexta-feira, Novembro 14, 2008



LÁZARO RAMOS E CONSCIÊNCIA NEGRA

Cento e setenta e cinco anos depois do lançamento, no Rio, do jornal O homem de cor, de Paula Brito; 77 após a fundação, em São Paulo, da Frente Negra Brasileira; 64 passados desde a criação do Teatro Experimental do Negro; e 30 anos depois do Movimento Negro Unificado, a consciência dos negros brasileiros já tem outro rosto. E essa face radiante e lúcida é personificada por jovens como o ator Lázaro Ramos.

Nascido em Salvador, Bahia, em 1978, Lázaro vem do Bando de Tea­tro Olodum, importante companhia dramática nascida no universo dos projetos sociais desenvolvidos pelo famoso bloco afro. De­pois de in­ter­­pre­tar Shakespeare, Brecht e Cervantes, “Lazinho” – como é tratado pelos amigos – tor­nou-se na­cio­nal­men­te co­nhe­ci­do em 2002 ao vi­­ver, na te­la, o per­so­na­gem cen­tral de Madame Satã, fil­me de gran­de re­per­cus­são, com o ­qual ar­­re­ba­tou o prê­mio de me­lhor ­ator da Academia Bra­sileira de Cinema. Em 2003, pro­ta­go­ni­zou João Camargo, o lí­der re­li­gio­so pau­lis­ta, no fil­me Cafundó, de Paulo Betti; e ao fim da­que­le ano con­ta­bi­li­za­va par­ti­ci­pa­ção em on­ze lon­gas-me­tra­gens, ­além de di­ver­sas atua­ções na te­le­vi­são e no tea­tro.

Hoje, Lázaro Ramos, com apenas 30 anos, é um dos artistas de maior visibilidade no cenário nacional. E isso sem perder a consciência dos seus valores familiares, comunitários e principalmente étnicos.

E assim é que vamos encontrá-lo assinando uma coluna, “Espelho”, na revista Raça Brasil, fundada em 1996, como um referencial para nossa comunidade afrodescendente e que agora passa por transformações animadoras.

Independente e corajoso, Lazinho escreve, de forma simpática, coisas inimagináveis para um artista midiático como ele. Como na edição de novembro da Raça, ora nas bancas. Vejam só!

“Me dá um certo desconforto ver outras pessoas sendo porta-vozes da história ou da mensagem alheia. Claro que não descarto a possibilidade de alguém que não vivencia uma história ser capaz de contar bem a mesma, ou até mesmo se apaixonar pelo universo alheio e ter o direito legítimo de falar dessa paixão. Mas – e aí é que está o ruído – vejo que, muitas vezes, aqueles que vivenciam a história não têm a possibilidade de ter sua voz escutada. Veja os exemplos a seguir. Esfera da dramaturgia: na retomada do cinema nacional, quantos cineastas negros ou vindos das periferias do país tiveram seus projetos viabilizados? E olha que estes são assuntos da moda, na tal retomada”. E vai por aí o grande ator, acrescentando: “Houve o crescimento de atores negros na tevê, correto? Correto. Mas e a maneira que eles são descritos? Alguém já perguntou ao ser em questão qual é a maneira que ele gostaria de se ver representado? Será mesmo que, se essas vozes fossem escutadas, teríamos tantas famílias desestruturadas nas histórias? E a temática da violência urbana seria tratada da maneira que é?”.

Escreve simples o Lazinho. Como a gente gosta. E diz aquelas coisas que todos nós (do livro, do cinema, do teatro, da tevê, da música, da fotografia) gostaríamos de perguntar ou poder dizer nesta Semana da Consciência Negra.

O venerando Abdias Nascimento, “pai” de nós todos, do alto de seus 94 anos, deve estar feliz, Lazinho!




Quinta-feira, Novembro 13, 2008

COCA-COLA, CHICLETES E AFONSO ARINOS

Talvez muitos não saibam que a primeira lei contra a discriminação “racial” no Brasil só foi promulgada por causa dos Estados Unidos.

Era uma fria noite de junho de 1951. E os funcionários de um hotel de São Paulo resolveram negar hospedagem a duas pretas estranhas, arranhando uma língua esquisita. Só que essas negras eram a renomada bailarina e coreógrafa Katherine Dunham, mais tarde reconhecida como a “mãe” da dança moderna; e a soprano Marian Anderson, célebre cantora e militante pelos direitos civis em seu país.

Nascia aí a Lei Afonso Arinos, que acabou tornando famoso um político conservador mineiro, não tão identificado assim com as questões étnicas e sociais. Mas o fato é que essa lei fez renascer a militância negra no Brasil, a qual, no final da década de 1960, assim fortalecida retomou, com vigor, a denúncia contra o mito da democracia racial aqui vigente.

A nova militância dos movimentos negros no Brasil veio, segundo John Burdick (in Appiah & Gates, Africana: thhe encyclopedia of the African American experience, Nova York, 1999), ensinar às jovens gerações de brasileiros afrodescendentes que sua história e muitos termos até então usados, por eles mesmos, pra se autodefinirem tinham sido criados ou distorcidos pelo poder político e econômico dominante. Integrado inclusive por entidades leigas surgidas no seio da Igreja Católica, além de centros de pesquisa em universidades, esse moderno ativismo passou a respaldar-se, também, numa nova vertente da pesquisa acadêmica sobre relações raciais no Brasil. Através de militantes qualificados por meio de graduações e pós-graduações universitárias, os afro-descendentes passaram a assumir o protagonismo do discurso anti-racista, não necessitando mais de intérpretes intermediários.

Foi assim, segundo muitos analistas, que a democracia racial supostamente existente no Brasil foi desmascarada. E que o pensamento conservador, alegadamente preocupado com a “divisão racial do país” (quando se discute a adoção de ações afirmativas para incluir os negros), teria passado a enfatizar o elogio da mestiçagem.

Os defensores das ações afirmativas argumentam que é impossível desvincular-se a questão social ; que toda discussão sobre a má distribuição da renda, no Brasil, e sobre a conseqüente pobreza que assola a maioria da população nacional, precisa ser compreendida em sua dimensão etno-racial. E isto porque, segundo eles, divisão da sociedade brasileira entre brancos e não-brancos sempre existiu.

Na defesa de seus pontos de vista, lembram os partidarios das ações afirmativas que no Brasil, a ascensão pela miscigenação, quando se deu, foi em ocorrências isoladas. Aqui, até pelo menos até o fim da época imperial, a mestiçagem entre “brancos” e “não brancos”, quando aconteceu, teria sido, em geral, no âmbito da superioridade dos primeiros sobre os outros, encoberta sob o manto do temor reverencial, através da imposição do poder sobre o corpo: do estupro, real ou presumido. Sem falar dos momentos em que a miscigenação foi vista como uma solução eugênica, como possibilidade de resolução de um problema, dentro da perspectiva que tinha a sociedade brasileira de “melhorar a raça” – para usar a expressão empregada, ainda em 2008, por um senador da República, o tal “Mão-Branca”, em relação ao casamento interétnico de um seu colega afro-descendente.

Dentro dessa perspectiva de “aprimoramento genético”, é que, outrora, no Brasil rural, em contraponto à rotina dos coronéis “tombando” negras nos canaviais, alguns proprietários afro-mestiços mandavam buscar nas grandes cidades, homens “brancos” e alfabetizados para a eles entregarem suas filhas em casamento. Acreditava-se, aí, como expressou no 1º. Congresso Universal de Raças em Londres, 1911, o então diretor do Museu Nacional brasileiro que, no Brasil, a mestiçagem da população a levaria ao total embranquecimnto em cem anos, o que evidentemente não ocorreu.

O caso é que, na sociedade brasileira, salvo raríssimas exceções conhecidas, a efetiva mestiçagem da população quase que só se verifica nos estratos mais baixos, entre aqueles que não têm acesso à mobilidade social ascendente. E, tirante a histórica propensão do português à miscigenação, os outros grupos de imigrantes pouco influíram nesse particular. Então, a propalada mestiçagem é sempre um fator de perpetuação da exclusão.

Com base nesses argumentos os defensores do Estatuto da Igualdade Racial, (mutilado e engavetado no Congresso nacional desde 2000), os chamados “racialistas”, pregam que toda discussão sobre justiça social no Brasil tem que passar, sempre, pelo enfoque étnico. E esse enfoque é aquele que destaca a afirmação da identidade de cada grupo formador da sociedade brasileira. Não fosse assim, a Constituição Federal não disporia sobre a proteção das culturas de todos os grupos “participantes do processo civilizatório nacional", descendo à minúcia de abordar a “fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais”. Se, na luta por melhores condições sociais, a afirmação da identidade afro-descendente carecesse de sentido, também não se justificaria a existência dos milhares de associações étnicas ou nacionais, tanto recreativas quanto assistenciais e beneficentes que aglutinam, legitimamente, milhares de pessoas e famílias por todas as grandes cidades brasileiras. Associações estas tão mais fortes e politicamente influentes quanto maior seja o poder econômico dos que as criaram e mantém.

Assim, nós, entendendo que o Brasil é um país múltiplo, e que a nação brasileira é um todo multicultural, não nos incomodamos de ser chamados “racialistas”. Porque sabemos que só conhecendo bem as questões relativos a “raça”, principalmente a partir dos Estados Unidos – país cuja experiência histórica e social vai muito além do chiclete e da coca-cola que tanto se masca e bebe por aqui – é que chegaremos ao “pós-racial” com que todos sonhamos.




Segunda-feira, Novembro 10, 2008
Quinta-feira, Novembro 06, 2008



O NEGRO DA CASA BRANCA

Terça-feira, o tempo meio lusco-fusco, Virgínia, a “ocidental”, metida como ela só, encontra Carolina, a do norte, que “deixou de ser branca pra ser franca”, como ela mesma diz, e manda esta:
– Já viu, Carolina, o crioulo que está se mudando pra aquela casa branca lá em cima, lá do outro lado da pista?

A arrogante joga a bola quicando, e a outra rebate:

– Crioulo não vi, não, madame! Eu vi foi um afrodescendente.

A metidaça tenta botar pra corner:

– E não é a mesma coisa?

Mas Carolina não deixa a peteca cair:

– Não é, não, minha senhora! O vocábulo “crioulo”, quando se re­fe­re a pes­soas, seu sig­ni­fi­ca­do re­me­te ao in­di­ví­duo de qualquer as­cen­dên­cia estrangeira, inclusive européia, nas­ci­do nas Américas. Mas, com relação aos negros, quase sempre é usado de maneira pejorativa.

A “do norte” dá um verdadeiro show de bola. Me lembra a sua homônima, a Carolina Maria de Jesus. Mas a “ocidental” não se conforma:

– “Crioulo”é o modo de se dizer. Ou você preferia que eu dissesse “colored”.

– Não, senhora! “Colored”, “moreno”, “mulato”, “crioulo” é tudo discriminatório. Em todas as Américas, o único grupo que é qualificado de acordo com sua aparência física é o dos afro-descendentes. Por isso é que aqui nós, tanto os de pele mais escura quanto os mais claros, nos identificamos em torno da palavra “negro”.

– Mas... negro é “preto”. E o sociólogo do Globo disse que “raça não existe”.

– Menos, madame! Menos! Aqui, a palavra “negro”, que du­ran­te mui­tos ­anos foi si­nô­ni­mo de “es­cra­vo”, com o tem­po passou a ser um re­fe­ren­te ét­ni­co e principalmente po­lí­ti­co. Nos Estados Unidos os ­afro-des­cen­den­tes rei­vin­di­cam pa­ra si o tra­ta­men­to de afri­can-ame­ri­cans (afri­ca­no-ame­ri­ca­nos), a exem­plo de ou­tros gru­pos, co­mo os ju­deus- ame­ri­ca­nos, íta­lo-ame­ri­ca­nos, his­pa­no-ame­ri­ca­nos etc...

Virginia, a ocidental, não se conforma. E parte pro discurso da mudernidade:

– Você fala tanto em Estados Unidos, minha jovem, mas lá, enquanto o Brasil utiliza a tecnologia mais avançada em suas eleições, nas quais o voto já há bastante tempo é eletrônico, assim como os escrutínios e apurações; (o que condiz com o luxo e o aparato que cercam nossos poderes legislativos, e judiciários também, inclusive na esfera da justiça eleitoral)... Enquanto no Brasil eleição é modernidade, nos Estados Unidos ainda se vota através daquelas anacrônicas tiras de papel preenchidas a mão e depositadas em sacolas; e a contagem de votos ainda é feita ponto a ponto, aritmeticamente, como no tempo da tabuada.

A “ocidental” fala como um ministro baiano da Cultura. Mas Carolina sabe que eleição no Brasil ainda se vence com votos comprados; que ganha quem paga mais, direta ou indiretamente, às massas de eleitores famintos ou interesseiros, nas cidades e no campo. Ela sabe que é por isso que, no Brasil, as eleições dificilmente levam ao poder pessoas oriundas das camadas mais pobres da população, onde se concentra a expressiva maioria de afrodescendentes. E que é por isso que o Brasil quase não tem negros eleitos para suas principais instâncias legislativas, principalmente federais. E, assim, as reivindicações do povo negro (como o Estatuto da Igualdade Racial, por exemplo) são sempre torpedeadas, sobre argumentos discutíveis , como o de que somos “um país mestiço”, que não pode ser dividido por “raças”.

Aí, Carolina, resolve esculachar:

– E sabe por quê aquele negro está se mudando lá pra casa branca, Miss Sippi? Não? É porque lá, de onde ele veio, ou é ou não é: não tem esse caô, não, minha santa! E foi através da consciência de sua identidade étnica que ele e seus irmãos vieram abrindo caminho, cada vez mais sabendo que um dia podiam chegar lá. E chegaram.

Virgínia não concorda com uma só palavra do que diz a vizinha. Mas, como boa cristã, bota seu “Livro de Louvor” na sacola de dízimos e vai pregar noutra periferia.




Segunda-feira, Novembro 03, 2008



2 DE NOVEMBRO, DIA DA SAUDADE:
É ISSO AÍ, IRAJÁ!


A tradição africana nas Américas, venha ela do oeste, do centro ou do leste do continente, não abre mão do legado dos ancestrais.

Para essa tradição, a personalidade humana situa-se num campo psicológico dinâmico definido por três eixos principais de relacionamentos, que são: o eixo vertical, ligando a pessoa ao seu ancestral fundador, ao Ser Supremo e a outras Existências invisíveis; o eixo horizontal, o da ordem social, que mantém a pessoa em ligação com sua comunidade cultural; e o eixo da existência própria da pessoa. No ponto em que esses três eixos se cruzam está a personalidade. O equilíbrio da personalidade, e portanto sua saúde mental, dependem do equilíbrio desse universo psicológico.

Foi pensando nisso que acordei, ontem, 2 de novembro, dia dedicado aos Ancestrais e a todos os mortos. E, depois das homenagens rituais de estilo, resolvi escrever este texto, dedicado à memória de meu pai carnal.

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Luiz Braz Lopes (na foto) nasceu em 3 de fevereiro de 1888, sem conhecer pai nem mãe. Na rua, virou-se do jeito que pode para sobreviver. Até trabalhar como calceteiro ( trabalhador que calça ruas com pedras ou paralelepípedos ) nas obras da avenida Central, hoje Rio Branco, inaugurada em 1906. E dali chegar à Casa da Moeda, onde foi artífice da Seção de Obras e Reparos – nome pomposo para a seção que congregava pedreiros, pintores de parede, carpinteiros etc., “peões de obra”, enfim.

Numa época bastante diferente da de hoje, Seu Braz Lopes conseguiu comprar um bom terreno, o seu lote, no Irajá da década de 1920. E a família está lá até hoje, no que nós todos, apesar dos pesares, ainda temos como o “quintal do Céu”.

Entretanto, o legado mais importante desse legítimo Patriarca (embora pobre) e Ancestral foi a dignidade. Aquela da calça remendada mas sempre limpinha; de não ir até a padaria sem o paletó e o chapéu na cabeça; de ser honesto e cortês com todos; e principalmente, de “não dar mole” (como se diz hoje) em nenhuma circunstância.

É isso aí, “Irajá”! É isso que eu quero te dar, hoje. Quando já tenho um pouquinho mais que um simples samba – esse bem cada vez mais chinfrim e desvalorizado – pra te dar.

Hoje tenho uma Filosofia. De verdade. E essa, ninguém tasca! Ibaê, Babá Tobi!