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Quarta-feira, Outubro 29, 2008
Segunda-feira, Outubro 27, 2008
MONTEIRO LOPES, UMA MEMÓRIA A RESGATAR De repente, em meio ao trabalho de atualização e revisão de nossa Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, na letra “L”, de “Lopes”, nos vem à cabeça uma conversa com nosso velho pai. Foi num dia em que, esperando o trem na plataforma da estação de Madureira, vimos passar pelos trilhos um guindaste enorme, preto, poderoso, rebocador de vagões, e o velho, ajeitando o laço da impecável gravata borboleta, ensinou: – Sabe como é o nome desse guindaste? Não? É... “Monteiro Lopes”. Não! O nome não era homenagem ao inventor, coisa nenhuma. Era apenas mais uma expressão do racismo brasileiro fantasiado de humor carioca. Observem! Manuel da Mota Monteiro Lopes foi um parlamentar, nascido provavelmente em Recife, PE, em 1870 e falecido na cidade do Rio de Janeiro, em 1916. Eleito deputado federal pelo Rio para a 28ª. legislatura (1909 – 1912), depois de ter cumprido mandato no Conselho Municipal da capital da República, destacou-se pela visão social do trabalho, defendendo a criação de uma legislação trabalhista para o Brasil. Dando especial atenção aos marinheiros e servidores públicos subalternos, votou favoravelmente à anistia para os envolvidos na Revolta da Chibata, demonstrando em sua fala, segundo observadores da época, um considerável conhecimento de História e de Teoria do Direito. Figura bastante popular na vida carioca do princípio do século XX, é descrito por Luiz Edmundo (s/d, 3º. Vol., pág. 522) como “líder da raça negra, suando reivindicações, a falar, sempre, muito alto, a gesticular como se estivesse discursando...”. Em um episódio narrado pelo mesmo Edmundo (idem, pág. 654), teria sido, na gestão do prefeito Pereira Passos, impedido, por racismo, de entrar, com sua “senhora” no luxuoso Pavilhão de Regatas, um bar ou restaurante recém-inaugurado em Botafogo. Presenciando a afronta, Maria de Bragança e Melo, famosa freqüentadora da boemia literária da cidade, teria rumado, com rapidez, para o Cais do Porto, de onde teria voltado com cerca de trinta estivadores negros que promovem uma espécie de ocupação do estabelecimento, sem que ninguém esboçasse um só gesto de protesto. Tal passagem, na qual Edmundo não refere a participação direta do injuriado, talvez sirva para exemplificar o grau de consideração de que Monteiro Lopes gozava entre as massas trabalhadoras. Outro episódio, ainda, teria sido o da recusa do Parlamento em lhe dar posse, em 1909, alegando motivos que ignoramos. Neste caso, protestos teriam ocorrido em várias partes do Brasil; e, em Pelotas, RS, a discriminação efetivamente levou à criação da entidade de defesa denominada “Centro Etiópico [negro] Monteiro Lopes”. Hoje, os incrivelmente bem organizados arquivos da Câmara Federal, acessíveis via Internet, guardam, nos anais das sessões, vários discursos desse negro gigantesco. Cuja memória está aí para ser resgatada, içada e rebocada pelos guindastes do Movimento Negro (Ah, esse humor carioca que não nos deixa em paz, nem aqui no Lote!). Sexta-feira, Outubro 24, 2008
CAMELO E OS 5O ANOS DA BOSSA O grande Camelo, músico artiodáctilo ruminante da família dos Camelídeos, fez seu primeiro lançamento, “Dromedarius”, no Salão Assírio, ali por volta de 10.000 CD. Três milênios depois, o retumbante lançamento chegou à África, lançado a partir do Egito, em substituição aos já obsoletos discos que representavam o Deus Sol, Amon Ra, também muito invocado sob o nome Vinil, o que o deixava possesso, em transe mesmo. A utilização de “Dromedarius” como meio de transporte, fez grande sucesso e ensejou o aparecimento de similares como Calhambeque, Pára-lamas do Sucesso, 14 Bis etc. E aí, disseminando-se rapidamente pelo Vale dos Nulos, principalmente nas regiões desérticas, Camelo e seus Abóboras Amestrados proliferaram, mesmo em cativeiro. Só que, um dia, o grande Camelo percebeu que a sua bossa já estava gasta e precisando de uma guaribada. Então, há exatos 50 anos, Camelo criava a bossa nova. Essa bossa nova, tida por muitos como uma protuberância é, no fundo, uma excrescência, uma saliência. Entretanto, cai muito bem com Nescau e Brócolis, esta dupla altamente energética. Camelo sabe disso. E não a dispensa nos seus 30 segundos anuais de reflexão. Graças a esse esforço, foi que Camelo tornou-se um fenômeno. E os números mostram que essa expressão não é exagero. Camelo é hoje, além de ter sua pele usada como vestimenta e para a feitura de tendas, o ruminante mais vendido do Brasil, só atrás de Vitória Ilhéus e Padre Marcelo Alencastro. No último domingo, no Fallstaff, levando sua carne e seu leite como alimento e remédio (as propriedades medicinais de sua gordura são conhecidas e sua urina é comumente empregada como desinfetante e estancadora de hemorragias), Camelo elevou a audiência de 23 para 29 pontos no Bope. No programa, recebeu uma homenagem pela venda superior a 100 mil cópias. E, isto, sem nenhum tipo de jabá, que sua carne não se presta para tanto. Além do mais, Camelo lê. Muito. E, bambambã da agrobiologia, costuma dizer que as matas que têm muito pau-ferro (Caesalpinia ferrea), são ótimas para a caça do tatu (mamífero xenartro da família dos dasiposídeos). a) Mylot Records Inc PS: É isso mesmo, João Macaco Pequeno? Confirma? Onde tem pau-ferro tatu abunda? Diz aí! Quarta-feira, Outubro 22, 2008
CARLOS MOORE LANÇA AUTOBIOGRAFIA E DETONA O MERCADO DE LIVROS A Letter to my Friends Carlos Moore O antropólogo Carlos Moore, focalizado num dos últimos posts do Lote, está lançando sua autobiografia, num livro chamado “Pichón”. Mas alerta para as dificuldades que os interessados pela obra certamente encontrarão em adquiri-la, a não ser pela internet. Leiam! “O clima atual no comércio de livros imprime um controle sem precedente nas mãos de alguns conglomerados e corporações multinacionais, enquanto que o número de independentes capazes de uma publicação autônoma vai diminuindo cada vez mais. É uma atmosfera totalmente desfavorável para livros como Pichón. Eu acredito que Pichón é da categoria de livros que tratam de assuntos sociais e históricos sérios, que tratam do modo como a sociedade trabalha e como a ordem mundial atual pode afetar gravemente as vidas de indivíduos e, ao final e ao cabo, as vidas de milhões das pessoas. (...) “O controle monolítico da produção do livro e a indústrias de distribuição significa que sempre há menos diversidade nos estoques das livrarias, com cada vez maior quantia de pensadores sendo controlados por poucos, quais sejam as grandes editoras. Os pequenos editores independentes estão sempre em franca desvantagem. A lógica que permite que isto aconteça é simples: livrarias têm a expectativa de grandes descontos, e as editoras podem ter de pagar até dezenas de milhares de dólares por título de seus livros que serão expostos em destaque nas lojas. Então, inevitavelmente a concentração será feita naqueles materiais de reconhecido e seguro retorno financeiro, e praticamente nenhum autor negro se enquadra nessa categoria. “Por conseguinte, há uma seleção rigorosa de livros escritos por autores negros disponíveis nas lojas. A maioria dos que estão nessa situação, são provavelmente colocados em prateleiras ‘separadas’, como ‘assuntos negros’ e não ao lado dos assuntos de interesse geral (ou seja ‘não negro’), onde os autores são simplesmente organizados em ordem alfabética de A a Z. O que o público em geral raramente sabe é que esses ‘livros negros’ ou ‘assuntos negros’ só conseguem ser admitidos nas lojas quando são sujeitados a esse tipo de catalogação e estratégia de ‘visibilidade’ que os torna invisíveis. É um ‘segredo declarado’ onde o espaço reservado para os/as escritores/as negros/as é freqüentemente em um canto qualquer ou atrás de outras obras; próximo ou atrás dos estudos sobre as mulheres. “Em outras palavras, o tratamento dado a ‘livros negros’ ou a ‘assuntos negros’ identifica os parâmetros de exclusão, de ‘guetização’ e de marginalização que são impostas pela grande economia mundial. Escritores, distribuidores e vendedores normalmente já ‘sabem’ que ‘os autores minoritários’, que produzem ‘assuntos minoritários’ não serão comprados, que o leitor ‘popular’ não tem interesse neles. Da mesma forma, algumas pessoas afirmam que minorias não contam quando se trata de grandes números. A indústria do cinema tem trabalhado com a mesma falácia, até que Melvin Van Peebles mudou essa lógica com o filme baseado nele mesmo, intitulado ‘Sweet Sweetback’s Baadassss Song’. Se lembre? Nosso inconformado Spike Lee seguiu o exemplo, quebrando records com seu trabalho de baixo-custo ‘She’s Gotta Have It.’ Se lembra? “Embora a indústria chamada ‘popular’ continue considerando o grande equívoco de que livros ou filmes feitos por negros e outros grupos ‘minoritários’ dizem respeito tão somente a negros e, automaticamente, têm limitações de marketing e de mercado, estou convencido que Pichón – que destrói mitos que têm perdurado por muito tempo e que abre a porta para o entendimento de um dos maiores fenômenos políticos do século XX, é relevante para todos”. ** Carlos Moore (www.drcarlosmoore.com) disse tudo! Segunda-feira, Outubro 20, 2008
LUIZ CARLOS DA VILA (21.07.1949 – 20.10.2008) O país dos pop-bobões, dos famosões, dos não-sei-quantos milhões... esse, é claro, não sabe o que perdeu. Mas nós que nascemos na outra margem do Rio; que pisamos descalços as valas negras de nossas infâncias; que engolimos em seco todas as humilhações e descasos; que, não obstante resistimos e insistimos fazendo e cantando samba; nós sabemos o que o Brasil perdeu hoje com a partida do grande Luiz Carlos da Vila. Perdeu-se um poeta de finíssimo lavor, um grande entre os maiores. Perdeu-se um ser humano gigantesco, apesar da fragilidade material. Perdeu-se um músico completo, embora pouco instruído nas regras de sua arte. Perdeu-se um sambista de nível absolutamente superior. Nossas vidas se cruzaram no meio dos anos 70. E em 1981 ele era responsável indireto pela grande correção de rumo que a minha trajetória experimentou. Estivemos juntos não todo dia ou toda hora. Mas compartilhamos alguns momentos memoráveis. Que nunca vou deixar de recordar.. Meu amigo Luiz Carlos da Vila parte agora, neste momento, para a Eternidade. Vai, pela Avenida da Saudade, ao encontro do Candeia que tanto admirou. Ao encontro do Cartola, este ano redivivo. De Carlão Elegante, seu primeiro mestre. De tantos e tantos que o precederam e hoje espalham pétalas de rosas brancas no seu caminho. Vai, “Dávila”! Teu caminho é de paz e amor! Valeu, Da Vila! Nós sabemos o quanto o Brasil ainda vai chorar a tua ausência. Quarta-feira, Outubro 15, 2008
DE CRIVELLA E PRÓSTATA Uma passagem quase bíblica. Parece brincadeira, mas não é, não! Porque com saúde não se brinca. Mas o fato é que, nos preparativos para a campanha eleitoral, fomos fazer aquele exame rotineiro, que todo coroa esperto de nossa idade deve fazer. Tratava-se de uma ultra-sonografia. Cujo laudo, datado de 17 de julho, revelava as seguintes desconfortantes medidas: Diâmetros: 54.7 mm x 50.3 mm x 53.9 mm Peso: 81 g Assustados, corremos lá no médico requisitante do exame, que logo sacou: – Está errado!!! Faz outro! Em outro lugar. Dito e feito, veio lá o novo resultado: Diâmetros: 3.6 mm x 4.5 mm x 3.2 mm Peso: 19.4 g Respirando aliviados, resolvemos conferir o nome do médico que assinou o laudo. O sobrenome era exatamente o do candidato então na dianteira da campanha para prefeito do Rio: “CRIVELLA”. Tentamos contato (através de fax e informando nosso e-mail) para ver se conseguíamos uma explicação. Mas foi em vão. O profissional (aliás, do sexo feminino) devia estar muito ocupado com as eleições para nos responder. Negligência? Imprudência? Imperícia? Mas resolvemos deixar pra lá. O Senhor já tinha feito justiça. E Jesus mandou dar a outra face. Terça-feira, Outubro 14, 2008
O VELHOTE NA SALA DE PARTO O ilustríssimo leitor do Lote há de imaginar, se já não passou por isso, a angústia de um pai na sala de parto, à espera do filho custando a nascer. Não importa se é o primeiro ou... o vigésimo quinto. Mas parto é parto. E, assim, estamos nós aqui, fumando um Alonso Menéndez atrás do outro, enquanto não saem dos respectivos prelos os filhos que estamos esperando, a saber: Dicionário da Antiguidade Africana; História e cultura africana e afro-brasileira; Kofi e o menino de fogo; e Mandingas da “mulata-velha” na Cidade Nova. Olhando daqui, lá dentro do prelo, parece que o Kofi (olha lá, que bonitinho!) vem vindo primeiro. Seguido de pertinho pelo História e cultura (que luxo, hein?; nem parece!). Mas o tira-gosto fica mesmo é por conta do Mandingas. Vamos lá! Vê se gosta, leitor! ** “Três dias depois. Livros, muitos, muitos livros, enfileirados nas estantes que tomavam quase todos os cômodos da casa, indo até o teto. Outros tantos empilhados pelos cantos, em aparente desordem. Outros ainda, alguns abertos, outros fechados, mas com as páginas, lidas ou por ler, marcadas com tiras de papel ou fitas de pano; livros esparramados sobre a grande mesa de trabalho, no tampo da qual avultam também bolos de fichas anotadas e cadernos de apontamentos... Esse é o cenário com que Costinha se depara na casa do professor Nascentes, mulato risonho e simpático. O mestre Nascentes tem 38 anos e mora no Andaraí Grande, numa casa modesta. Professor do Colégio Pedro II, apesar de ainda jovem já publicou um livro sobre redação, outro sobre fonética diferencial luso-castelhana, um método prático de análise lógica, um manual ensinando como separar silabas em latim, uma gramática da língua espanhola, um método de análise gramatical e um livrinho sobre a gíria carioca. Mas o que ele gosta mesmo é de etimologia. Tanto que está produzindo o primeiro grande Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa feito no Brasil. Tudo começou em 1911, quando tentou adquirir o Dicionário de Adolfo Coelho e não conseguiu. Então resolveu fazer, ele mesmo, um pequeno dicionário, para seu próprio uso. Aí, pegou o Dicionário da Língua Portuguesa de Levindo de Castro e passou as palavras primitivas para dois caderninhos. Então, escreveu ao lado as etimologias que já conhecia e foi aos pouquinhos preenchendo as lacunas. Como foi ficando difícil ir fazendo os aditamentos, ele resolveu passar tudo para tiras de papel, escritas de um lado só. O verso ficou reservado para os acréscimos. Em fevereiro deste ano, ou seja, treze anos depois, acabou o trabalho. Mas ele acha que ainda falta muita coisa. Assim, agora está passando o conteúdo das tiras de papel para fichas de cartão, agrupando os vocábulos por origem; e uma turma de seus alunos está colocando tudo em ordem alfabética. O professor Nascentes mora no Andaraí Grande. Que é distante da “Zona do Peu” e da Praça Onze. Conhece algumas baianas de vista. Mas sabe que muitas delas tem nomes gregos e romanos. – O que primeiro me chama a atenção nessas senhoras baianas são seus nomes clássicos. Que delícia! Honorata vem do latim honor, honoris, consideração, respeito, atenção estima, glória, honra! Honorata é aquela que tem honra, que merece ser honrada. Hilária, (do latim hilaris,e) alegre, jovial; Prisciliana, de priscus, a, um, antigo, dos primeiros tempos, dos tempos primitivos, veneranda antiga...Veridiana, de vero, verdadeiramente, ligado a veritas, veritatis, verdade. Veridiana é verdadeira, verídica. Pulquéria era a irmão do imperador Teodósio e esse nome deriva de pulcher, pulchra, pulchrum, belo, formoso, lindo, precioso. Maximiana era o nome de uma legião imperial romana. E vem de maxime, muitíssimo, mui grandemente, extremamente, excessivamente, superlativamente. Agripina foi a mulher de Germânico. E seu nome vem de ager, agri, campo cultivado, pomar. Escolástica – veja que fantástico! – é o pensamento cristão baseado na conciliação entre um ideal de racionalidade e a expressão do contato direto com a verdade revelada. Não é divino? Glicéria é a designação comum às plantas do gênero Glyceria, da família das gramíneas. Veja aqui – o mestre mostra uma ficha – Vem do grego glukerós, á, ón, de sabor doce. E Licínia? É nome de origem etrusca, que se refere à pessoa que tem os cabelos lisos. Licínia era o nome da mulher de Catão, o censor. E os descendentes do casal foram chamados licinianos. Viu, que importante? Mas Asseata, que é o nome também de uma senhora baiana muito falada nesse meio, que me desculpem outros colegas, não vem de “asseio”, nem do latim assedare, sentar-se, colocar no lugar, que teria dado, “asseio”, nem vem de Sciatos, antiga ilha do mar Egeu...” Sexta-feira, Outubro 10, 2008
CARTOLA CENTENÁRIO E O MENINO DO MÉIER Os visitantes do Lote devem imaginar o quanto, neste momento, o dono deste modesto espaço deve estar recebendo de solicitações para falar sobre a importância do velho Cartola. Teve até jornalista achando que este que vos escreve, conviveu com “Seu Angenor”, como coleguinha de curso primário no Catete. Não foi bem assim, vocês percebem. Ele nem sabia o nosso nome. A ponto de, após uma homenagem que lhe prestamos, no Clube do Samba, do João Nogueira, no final dos anos 70, ele – segundo Dona Zica – se referia a mim e ao parceiro Wilson, como “aqueles meninos do Méier”. Mas como há sempre alguma coisa pra dizer, pra contar, pra esclarecer, vamos a ela. O caso é que numa noite, em 1935 – como já foi contado aqui no Lote, – o musicólogo e compositor erudito Basílio Itiberê visitou Mangueira. E foi recebido, na ponte, por um grupo de ritmistas e pastoras da Estação Primeira, porque a Unidos já agonizava. Feitas as apresentações, a comitiva subiu em cortejo. E, como era de praxe, ao som do coro e da bateria; tendo à frente o baliza e a porta-estandarte; e sob o comando do apito do mestre de harmonia. Profundamente impressionado por essa visita, Itiberê fez, sobre ela um relato minucioso. No qual fala de seu encantamento com um samba em especial: Tragédia. “Prestai bem atenção que este é um samba do Cartola! – escreveu. – Não ouvireis tão cedo um canto assim tão puro, nem linha melódica tão larga e ondulante. Atentai como é bela, e como oscila e bóia, sem pousar, entre a marcação dos ‘surdos’ e a trama cerrada dos tamborins” – desmanchou-se Itiberê. Esse Cartola, “fascinador impenitente”, já estava desde 1920 em Mangueira, então uma favela incipiente. Morrera-lhe o avô, sustentáculo da família, e a vida teve de mudar. Mas a semente de uma instrução pública rigorosa, como era a daqueles tempos, semeada em terreno fértil, frutificou. E como! Era 1935. E o compositor já tinha alguns belos sambas gravados com Francisco Alves, Carmem Miranda e Silvio Caldas. Só que, de repente, “tudo acabado, o baile encerrado” – como diz um de seus sambas. É que em 1928, por força de lei, os compositores musicais foram equiparados, em termos de direitos autorais, aos autores de teatro. Abria-se, então, um novo campo profissional, num setor ainda inexplorado. E a turma da música teve que se abrigar sob as asas da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, SBAT, que, por seu perfil aristocrático, não os viu com bons olhos. Logo, logo, instaura-se o conflito: de um lado, a SBAT; do outro, compositores populares. Sim, populares (alunos, à distância, dos fundadores do samba), mas de paletó e gravata e até “anel no dedo”. Os quais, assim, e, dizem, com dinheiro vindo de fora, organizam-se em associação, para protagonizar os primeiros momentos da história dos direitos autorais musicais no Brasil. Enquanto isso, de longe, na calçada, do outro lado da rua, olhando o burburinho do Café Nice, os pretinhos do samba não entendiam bem o que se passava. Frustrados, assim, em sua expectativa de ascensão social através de sua arte, os sambistas, então, continuaram em seus biscates e “virações”, ocasionalmente de cunho artístico. E Cartola, mesmo admirado por Villa-Lobos e elogiado por Stokowsky, não foi exceção. Por outro lado, em 1945, as rixentas sociedades autorais celebram um armistício. No acordo, a SBAT fica com os direitos de teatro, que até hoje ainda são chamados “grandes direitos”, e os compositores “populares” ficam com os “pequenos”. E é assim que o pessoal do Estácio, do Salgueiro, de Mangueira, de Oswaldo Cruz, vai, mesmo, saindo de cena. E Cartola, pobre e doente, vai junto, no mesmo momento em que se consagra a categorização “samba de morro”, distinta dos sambas feitos pelo compositores efetivamente “do rádio”. Mas o destino, sábio, fez com que as escolas de samba crescessem em importância; e, com elas, Cartola se consolidasse como mito. Mesmo tendo, em 1951, passado o bastão da harmonia mangueirense ao ex-portelense Xangô. E até porque a “harmonia”, no sentido técnico de conjunto de regras da tonalidade; ou de sons relacionados, já não cabia nas escolas, as quais, já aí, sustentavam-se apenas na percussão. Nos anos 50 e 60, então, Cartola, que muitos julgavam morto, veio vindo, de novo à superfície. Primeiro, escorado aqui e ali, com um emprego subalterno em um Ministério, conseguido por um político amigo; e com a abertura do “Zicartola”, também com capital de amigos. Depois, com as gravações de O Sol Nascerá, por Elis Regina em 1964, e Alvorada por Clara Nunes em 1972. E sempre com o indispensável companheirismo de Dona Zica, mulher pra toda obra... Até que veio o êxito. Entre 1974 e 1979, com As rosas não falam, O mundo é um moinho e Peito Vazio, entre outras composições, com ou sem parceiros, Cartola, com quatro LPs gravados por sua própria voz, chegou onde sempre deveria estar. Mas a “indesejada” logo cobrou seu tributo. E a 30 de novembro de 1980 o levou. ** E hoje estamos aqui, Seu Angenor, tomando uma Baixa Renda em honra do seu Centenário! Quem diria, hein? E o “menino do Méier”, que de novo o homenageia, já fez 66 anos. Mas, como disse V.Exa. “as rosas não falam”. Simplesmente “exalam”, não é mesmo? Terça-feira, Outubro 07, 2008
ELE, HEITOR, E O VOTO CONSCIENTE. Ele, Heitor, sempre votou consciente. Quer dizer: às vezes ele chega lá na boca da urna meio enzinabrado, depois de umas timbucas. Mas sempre consciente. Às vezes, na hora de assinar, a letra sai meio fora de esquadro. Mas, fora do ar, mesmo, fardado, ou tipo pé-de-papel, ele nunca chegou. Sempre fez questão de votar consciente. Foi assim que mês passado reuniu a família, naquela espécie de aula de Moral e Cívica, e deu as ordens: - Gleycienny vai sacudir bandeira na Pista! Com o shortinho rosa-choque de laicra e o bustiê menorzinho! Klaudiélly vai andando e dando santinho. Com aquela minissaia do baile funk. Kleyberson pega a moto da Cooperativa, enfia duas bandeiras e fica zoando pra baixo e pra cima. Enquanto isso, a mamãezinha de vocês, vai de porta em porta, feito crente, levando o pessoal no bico. A minha parte, deixa comigo. O Homem tá pagando 50 por semana. Somando tudo, a gente arruma no mês, com o meu, que é maior, uns mil real. Cês vão ver só! É só trabalhar. Com consciência. E assim foi feito. As meninas, com aquelas consciências bonitas, apesar de um pouco empoeiradas (porque asfalto aqui, só perto da casa do Homem), fizeram tudo direitinho. Kleiberson, moto-taxista esperto, botou pra quebrar. Rrrrrrrrrrrrrrrrrrruuuuuuuuummmmmmmmmmmmmm, só dava ele, com as duas bandeiras do Homem, pra baixo e pra cima. E a Comadre, gastava saliva de porta em porta. Ele, Heitor, ia só contabilizando: - O Homem paga 50 pelo trabalho e 10 por cada voto que nós arrumar. E a cada malandro que diz que fecha com nós, nós dá 5. Mas tem que provar que votou mesmo. Já tem três molequinhos aqui que vão junto, tirar foto da urna com o celular. Estava tudo certo. Porque Ele, Heitor, só vota consciente. Mas ninguém contava que na última hora chegasse aquele cara bonitão, com aquele carrão, cheio de conversa boa. E não é que no sábado, Gleycienny resolve apresentá-lo à família?! - Pai, esse é o Doutor Kadu! Ficamos noivos ontem, na Pista. Ele também é candidato. E trouxe uma coisa pro senhor. Ele, Heitor, nunca tinha visto “skóis” tão suadinhas. E tanto croquetinho, pastelzinho, empadinha. E ainda por cima o Doutor trouxe uísque. Porque a comemoração era especial. Bem... Vamos encurtar a história, que aqui não tem segundo turno. É que, 11 horas da manhã de domingo 5 de outubro, o funk ainda estava rolando na casa. Ele, Heitor, tinha finalmente perdido a consciência e estava morgadão lá nos fundos. As filhas estavam como o diabo gosta. A mamãe, por sua vez, se mandou pra padaria, pra botar o fermento na massa do Seu Manel, que é português e não quer nem saber desse negócio de voto. E o motoqueiro só rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrruuuuuuuuuuuuuuuuuuummmmmmmmmmmm, ruuuuuuuuuuuuuuummmm, pra baixo e pra cima, doidaço, sem dizer coisa com coisa. O Doutor? Hmmm!!! Malandro como ele só, apertou o “confirma” e se mandou, deixando um “galo” no bustiê da “noiva”. E o Homem, quando soube que tinha perdido a eleição por causa dessa família de vacilões e de todas as outras que tinha contratado, botou a culpa no Partido, o P.F.P. - Periferia filha da... E, aí, contemplando as “límpidas” águas do córrego que corta sua “fazenda”; e recordando as velhas aulas de piscicultura, o Homem resolveu a questão: - Ah! Piranha? Traíra? É na vala, Ditão! É na vala! Ainda bem que ele, Heitor, sartou de banda a tempo. Hoje, terça-feira, eu soube que ele está em lugar incerto e não sabido, internado num colégio eleitoral, já sem o cabresto. E que fez voto de abstinência. Consciente, absolutamente consciente. E a família vai bem...OBRIGADA. Quinta-feira, Outubro 02, 2008
BANJO DE JOÃO NOGUEIRA À VENDA. Alô, museólogos do Samba! Nosso saudoso João Nogueira tinha um banjo. Bacana, americano, que está conservadíssimo, num estojo elegante. O modelo é TB 75 , marca Remo, com data de 27/11/98. Peça de colecionador, o instrumento está à venda. Pois, além de bacana, e com um valor histórico significativo, é digno de figurar em qualquer museu ou exposição sobre a importância do banjo na recodificação do samba na década de 1980, quando ocorreu a maior renovação experimentada pelo nosso gênero-mãe desde a bossa-nova. Está avaliado, por baixo, em algo como R$ 1.500,00. E quem se interessar, pode contatar nossa querida amiga Ângela, nos telefones (21) 2437-7664/ 9538-9910. Esta é imperdível! Vai ou fica, Seu Arlindo? Quarta-feira, Outubro 01, 2008
EURÍDICE SOBE AOS CÉUS, EM BUSCA DE ORFEU. Qual de nós, neguinhos de 16 anos em 1958, não quis ser, pelo menos um pouquinho, o Breno Mello, craque gaúcho do Fluminense, só pra namorar a Marpessa Dawn, atriz americana, bela e terna como uma deusa da Somália, então na flor dos seus 24 aninhos? Pelo menos, topetinhos bicudinhos todos nós tínhamos. Até o Edson Arantes... Deuses e reis à parte, o fato é que o destino, sempre caprichoso, e naquele momento, francês e chamado Marcel Camus, uniu o Mello e a Dawn no filme “Orfeu Negro”, premiado em Cannes, no momento em que a bossa nova dava seus primeiros passinhos, ao compasso do violão de Luiz Bonfá. E que contou, na comparsaria (extras e coadjuvantes) com nossa negrada toda, de Cartola a Adhemar Ferreira da Silva. Entretanto, ganha a “Palma de Ouro” etc, parece que Orfeu e Eurídice foram cada um pro seu canto, quem sabe carregando, lá com eles, a frustração de um amor não realizado, simplesmente por dificuldades de idioma. O tempo passou e o Orfeu Mello deixou o futebol, fez mais uns filmezinhos sem sucesso, dedicou-se a outras atividades, casou-se, foi morar em Floripa, teve uma filha... Até que faleceu no último dia 11 de julho, em Porto Alegre, aos 76 anos. Enquanto isso, Eurídice Dawn, voltava para a França, onde já vivia antes, e continuou atuando e dançando, bailarina que era... Até que no último dia 25 de agosto, faleceu, aos 74 anos em Paris (O Globo, Obituário, 30.09.08). Engraçado, não? Exatos 15 dias depois de Orfeu, Eurídice se vai. Quem sabe à procura do amado, pelo qual agora sobe aos céus – e não ao inferno, como na tragédia grega de Moraes. Quem sabe, agora, livres dos impedimentos idiomáticos, Orfeu e Eurídice, ao som do violão de Luiz Bonfá e do piano do Antônio Brasileiro; quem sabe agora eles não se amam – comemorando os 50 anos da bossa-nova e o próximo “Ano da França no Brasil”?! Engraçado, esse destino chamado André... desculpem! ... Marcel Camus. |
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