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Terça-feira, Setembro 30, 2008
“NEGRAS LÍRICAS”, O RESUMO DA ÓPERA De repente, toca a sineta no portão, vamos ver, é a mula do Correio trazendo o pacote da Livraria Folha Seca, na rua do Ouvidor 37. A encomenda, como sempre, é mais gostosa que o doce-de-coco que faz aqui a Raquel do Bandolim, serrana bela, a cujo pai, o nosso Jacó serve há dez anos. Trata-se do livro “Negras Líricas; duas intérpretes brasileiras na música de concerto”, de Sérgio Bittencourt-Sampaio (o nome do autor é mera coincidência com o doce-de-coco!), recém-lançado. E, dele, rápido como quem rouba, extraímos, rapidinho o sumo de dois verbetes, para a edição revista e aumentada da nossa Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, que vem aí, ano que vem. Vejam só: - 1 - “LAPINHA (séc. XVIII – XIX). Nome pelo qual foi popularmente conhecida a cantora lírica e atriz brasileira Joaquina Maria da Conceição Lapa. Revelando-se no Rio de Janeiro, viveu parte de sua trajetória artística em Lisboa, regressando ao Rio na primeira década do século XIX. Na capital portuguesa gozou de grande prestígio, tendo, ao que consta, encenado uma obra especialmente traduzida pelo poeta Bocage (1765-1805); e em Coimbra, foi alvo de homenagens feitas pelos estudantes daquele tradicional centro. No Brasil, onde se exibiu várias vezes para a corte de D. João VI, inclusive como participante dos festejos reais, interpretou duas peças musicais especialmente criadas pelo Padre José Maurício. Consagrada como” a primeira atriz do Teatro de Manuel Luís “, o melhor do Rio em sua época, foi, entre todas as artistas, a legítima pioneira da atividade musical feminina no Brasil. Ainda em Lisboa, foi descrita pelo sueco Carl Israel Ruders ( cit. in Bittencourt-Sampaio, 2008) como “filha de uma mulata”, tendo “a pele bastante escura”, embora disfarçada com cosméticos. - 2 - “CONCEIÇÃO, Camila [Maria] (1873 – 1936). Cantora lírica e professora nascida e falecida na cidade do Rio de Janeiro. Afro-descendente, de pais desconhecidos, provavelmente escravos, foi criada em uma ramo da família do filólogo Carlos de Laet. Em 1890 ingressou no Instituto Nacional de Música, onde, aluna do francês Louis Gilland, graduou-se em canto com distinção. Na década seguinte, tornou-se substituta do mestre, sendo efetivada no cargo em 1904. Entre 1892 e 1908, apresentou-se, como solista, em vários concertos no Instituto Nacional de Música, nos Teatro Lírico e São Pedro, bem como em outros palcos. A partir daí, dedicou-se mais ao ensino, integrando a congregação do Instituto, germe da futura Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil. Em 1925, foi a idealizadora a criação da Academia Brasileira de Musica, em cuja direção permaneceu nos três primeiros anos, ajudando mais tarde a criar também a Casa do Músico, entidade assistencial. No início de 1936, participando, a contragosto, da banca examinadora do concurso para livre-docência de canto do Instituto, foi alvo de intrigas. Deprimida, faleceu logo depois, vitima de problemas circulatórios, não sem antes doar, à Casa do Músico, a quantia de 200 mil réis”. Como verbete atrai verbete, assim como bons pensamentos atraem coisas boas, daqui vamos até este outro, do qual agora só transcrevemos a parte brasileira: “CANTO LÍRICO. (...) No Brasil, sem estrutura que possibilitasse iniciativas como as norte-americanas, embora Bittencourt-Sampaio (2008) faça um minucioso estudo, desde a época colonial, da atuação de negros no campo da música de concerto neste país, observe-se, com o mesmo autor que, antes da década de 1950, como as óperas eram sempre européias, versando sobre temas locais, em geral históricos ou mitológicos, os papéis para negros, quando havia, eram os de escravos, criados, mouros etc. As exceções vinham, por exemplo, com Aída de Verdi e poucas outras, nas quais os artistas, brancos, eram maquilados para parecerem negros. Mesmo assim, o livro de Bittencourt-Sampaio (apud Antonio Carlos dos Santos) traz à luz os nomes das cantoras líricas Leonor Joaquina, Ignácia Francisca e Maria da Conceição, sopranos; Maria Josepha e Bonna Luisa, contraltos; além de Maria da Exaltação, Sebastiana e Matildes (apud. Benedicto de Freitas), todas escravas da Real Fazenda de Santa Cruz, onde os jesuítas implantaram uma importante escola de música, mantida até o Império. Afora estes nomes, são destaques na história do canto lírico no Brasil, entre outros, Áurea Gomes, Aída Batista, Elizeth Gomes, Elsie Houston, Ivonette Riggot Muller, Leda Coelho de Freitas, Maura Moreira, Maurício Luz, e Zaíra de Oliveira. Finalmente, nosso trem chega ao fim da linha. Vejam só: “SANTA CRUZ, Conservatório de. A imensa Fazenda de Santa Cruz, com sede no atual bairro de Santa Cruz, na zona oeste carioca, no término da linha férrea de mais de 60 quilômetros que liga o bairro ao centro da cidade, pertencia, aos padres jesuítas. Na ocasião da expulsão destes, pelo ministro português Marquês de Pombal, em 1760, a fazenda tinha cerca de 1600 escravos. Desses, entre moças e rapazes, muitos eram, ainda adolescentes, iniciados na música sacra, formando corais, tocando instrumentos e tornando-se mestres também. Celebrizado pela excelência de seu ensino, o Conservatório ganhou fama, seus músicos sendo requisitados para concertos e celebrações no Paço de São Cristóvão, na Capela Imperial e em outros locais. E, apesar da decadência que se seguiu à expulsão dos jesuítas, a escola destacou-se como o mais importante estabelecimento de ensino musical no país à sua época. Com a chegada de D. João VI, que além de apreciador da arte era também músico, a escola recebeu novo impulso. Entretanto, sob D. Pedro I a fazenda foi praticamente abandonada; mas, em 1818, a criação da “Banda de Música da Imperial Fazenda” reavivou a chama. A partir daí, a banda recebeu todo o incentivo e apoio da Casa Imperial, que lhe cobria todas as despesas. Na década de 1830, quando contava com trinta instrumentistas e um coro feminino de seis vozes, destacou-se, no conjunto, o escravo flautista Antonio José, o qual, em 1860, por suas qualidades como músico, recebeu de D. Pedro II a alforria. O conjunto atuou com brilhantismo até 1888, quando contava com 31 músicos escravos (cf. Lília Schwarcz, 2004).” Acabou o conforto, senhores passageiros! E apesar da distância da Rua do Ouvidor a Santa Cruz, foi boa a viagem, não foi? Segunda-feira, Setembro 29, 2008
A REPÚBLICA “EVANGÉLICA” DO BRASIL Quem já viu, como nós temos visto, em localidades do Grande Rio e outras periferias, enormes placas anunciando que esta ou aquela cidade “pertence ao Senhor”, não deve ter-se espantado com a matéria de O Globo (21.09.08) sobre a pregação do autodenominado Bispo Macedo, o qual, num livro recém publicado, açula os seus “evangélicos” a tomarem o poder no Brasil. Da mesma forma quem vê, como temos visto, a cada dia surgir, praticamente em cada esquina dessas miseráveis cidades “periféricas”, um novo “cenáculo”, “ministério”, “tabernáculo” etc., incitando os desassistidos a “expulsarem os demônios”, também já sabe do que o “bispo” está falando. E quem, como nós, professa qualquer religião afro-originada, desde o “espiritismo” mais singelo até as tradições mais ortodoxas e complexas, como o culto aos orixás e ancestrais das diversas vertentes africanas – com suas estruturas filosóficas milenares e seus fundamentos rituais altamente intelectualizados –, certamente sabe que o problema é muito mais sério do que se pode imaginar. Por mais incrível que isso possa parecer, há em curso, hoje, em todo o Brasil, uma estratégia política de base religiosa desenvolvida no sentido de tomar o poder, para fazer do Brasil uma república fundamentalista evangélica. Da mesma forma que, tempos atrás, a Igreja Católica, para manter sua velha hegemonia, incitava o Estado brasileiro a reprimir principalmente as religiões dos negros. Relembremo-nos que no início do século XX, com o pensamento higienista começando a influenciar a sociedade brasileira, desencadeavam-se, a partir da antiga Capital Federal campanhas “civilizatórias” que tinham a higiene como base. Então, as práticas religiosas de origem africana, tidas como poluidoras e anti-higiênicas, começavam a ser duramente reprimidas. Assim, numa seqüência, em 1927 criava-se uma comissão policial para repressão ao chamado “baixo espiritismo”; em 1934 ampliava-se a repressão com uma delegacia policial especialmente voltada para a questão; e em 1937 ocorria a criação, dentro dessa delegacia, de uma “Seção de Tóxicos e Mistificações” , especializada no combate às práticas de religiosidade tidas como delituosas ( conforme historiou a “anti-racialista” Yvonne Maggie, em um livro de 1992 ). Certamente em resposta a essa repressão foi que se realizaram, em Recife e Salvador, em 1934 e 1937, os “congressos afro-brasileiros” presididos respectivamente por Gilberto Freyre e Édison Carneiro, os quais abriram novas perspectivas para as práticas religiosas afro-originadas, as quais, a partir daí, foram deixando, gradativamente, de ser vistas como “caso de polícia” para até, a partir da Bahia, pelas boas relações de grandes dignitários com o poder constituído, ganharem efetivo estatuto de religiões. Tudo é, pois uma questão de poder! Mas há que distinguir, como distinguem os iorubás, na África e nas Américas, entre os dois tipos de poder existentes no Universo: entre o “axé”, o poder espiritual, e o “agbara”, o poder físico. Para os nossos “mais-velhos”, o conjunto de meios materiais que permitem executar uma ordem, representa o poder físico. Já o poder espiritual é muito mais sutil, pois se constitui de um conjunto de poderosas forças invisíveis. Entretanto, a coação da miséria, da fome e da desassistência pode ser entendida como poder físico. E, aí, ela consegue, de certa forma, até mesmo atravancar a ação do poder espiritual. O Estado, como grupo politicamente organizado, pode e deve ser um veículo neutralizador da coação de que se têm valido os “ministros” do Bispo Macedo (e sua dissidência) para levarem avante seu propósito. E, em nosso modesto entender, basta lançar mão da Constituição Federal (art. 5º, VI e VIII; XLII; LXXI; art. 19, I). Quanto a esse ultimo e importante dispositivo, ele diz o seguinte: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”. Entendemos que para coibir, na raiz, a pretensão de poder do Sr. Macedo e seus dissidentes é preciso começar a chamar a atenção de certos prefeitos municipais e diretores de escolas públicas “evangélicas” das periferias, inclusive no Grande Rio, para o art. 19 da Constituição Federal. E fazer ver a eles que, embora escreva livros, como, aliás, seu pai-de-santo, o falecido “tata” Tancredo da Silva Pinto (negro, líder do samba e da umbanda, que viveu entre 1904 e 1979), também escrevia, o “bispo” parece não entender esse dispositivo constitucional. PS: Em um município pobre do Grande Rio, segundo soubemos, uma diretora de escola de ensino fundamental proibiu a capoeira, por considerá-la prática fetichista; e esvaziou, no currículo de História, pelo mesmo motivo, a saga de Zumbi dos Palmares. Quinta-feira, Setembro 25, 2008
SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA Este ano não vai ser igual àquele que passou. Ótima notícia! Este ano, na “Semana da Consciência Negra”, a professorinha da escolinha aqui perto do Lote não precisa mais esquentar a cabeça na hora de contratar aquele grupo de capoeiristas marrentos; nem aquele pessoal banqueiro da dança afro; nem aquela coroinha baiana que faz aquele acarajé suspeito; e nem aquela garotada que “se acha” só porque sabe bater “olodum”. Este ano, a “tia” já tem coisa bem mais significativa pra mostrar. E está tudo lá no livrinho (grande!) a “África explicada aos meus filhos” (Rio, Agir, 2008), do acadêmico e africanista Alberto da Costa e Silva. Vejam só, se não temos razão! “Desde pelo menos 600 a.C – escreve o mestre – a África conhecia a metalurgia do ferro. Os nativos adotavam uma técnica de pré-aquecimento dos fornos (que só seria desenvolvida na Europa no século XIX), que lhes permitia obter um ferro, e também um aço, de alta qualidade, comparável, e até a superior, em alguns casos, ao que saía das usinas européias”. (AQUI, A “TIA” ILUSTRA A INFORMAÇÃO COM UMA FERRAMENTA, DE OGUM OU DE OXOCE, COMPRADA NO MERCADÃO DE MADUREIRA). “Os tecelões africanos – prossegue o professor -- produziam panos de algodão de ótima qualidade, que desde o século XII eram exportados para a Europa e, a partir do século XVI, para o Brasil – os famosos panos-da-costa”. Aqui, lembramos o último grande artesão brasileiro dessa espécie de xale, que compõe o traje típico das negras baianas, foi Abdias do Sacramento Nobre, o Mestre Abdias, falecido em Salvador aos 80 anos, em 1990. (MAS NÃO TEM PROBLEMA: É SÓ PEDIR EMPRESTADO, À BAIANA DO ACARAJÉ, O “ALACÁ” – QUE É O NOME AFRICANO DESSA PEÇA). E por aí vai o livro do professor Da Costa e Silva, falando da escultura (NO MERCADÃO TEM), da ourivesaria, da arquitetura, do aspecto das cidades africanas antes da chegada dos portugueses no final do século 15. A isso tudo, juntamos agora parte de um editorial da revista Muntu, publicada em Libreville, no Gabão, e que integra o verbete “Civilizações” do nosso Dicionário da Antiguidade Africana, no prelo da Record/Civilização Brasileira: “Perfeito domínio do ferro, conhecimento enciclopédico das plantas tóxicas e terapêuticas (ABUSE DO MANJERICÃO, MAS TENHA MUITO CUIDADO COM A GUINÉ, TIA!), proliferação das artes plásticas e dos sistemas gráficos originais; música de riqueza ímpar, literaturas orais vivas e apaixonantes! As civilizações bantu, agrárias e rurais na alma, distinguiram-se em todas estas “artes e ofícios”, no tempo e no espaço”. (QUANTO A ESCULTURAS, TECIDOS, INSTRUMENTOS DE MÚSICA ETC, A “TIA” PODE PEDIR ÀQUELA SUA COLEGUINHA PAULISTANA PRA DAR UMA PASSADA NA “MAMMA ÁFRICA”, NA PRAÇA DA REPÚBLICA, MAS COM O “CARTÃO” EM DIA; OU, NO CENTRO DO RIO, NA BOA LAPA, DAR UMA CHEGADA NA “KITÁBU”, NA JOAQUIM SILVA; OU, AINDA, EM BELO HORIZONTE, NA “SOBÁ” OU NA “NANDYALA”). ** Viu só “tia “ da escolinha? Este ano, na “Semana da Consciência Negra”, não precisa tanta capoeira e dança! A gente tem muito mais coisa bacana pra mostrar. Está lá no livrinho do professor Alberto da Costa e Silva. Segunda-feira, Setembro 22, 2008
MOACYR LUZ É ERUDITO !!! Meu querido amigo e parceiro Moacyr Luz, esse artista que brinca nas doze, do telecoteco ao hard marketing, é bom mesmo! Pois não é que, mesmo tomando chá de capim-limão ele consegue 2 páginas na revista de domingo do Globo? Não viram, não? Foi neste agora, dia 21 de setembro, abrindo a primavera! Primeiro, ele fingiu que era bebum. Estratégia genial! Mas o Baiano denunciou aqui no lote: - Moacyr Luz é abstêmio !!! Agora, ele bem lá no Beco do Rato, reduto de sambistas da Joaquim Silva, dizendo que está dodói; e o danado do Baiano vai lá nos arquivos e traz a bela foto aí de cima. Nela, observem bem, nosso querido Moa, elegante como sempre, está metendo a vara numa viola-da-gamba (não é "de samba": é "da-gamba"), instrumento que se toca entre as pernas, como o violoncelo, pai dela. No que me passa a foto, o filósofo Baiano mete bronca, de novo: - O instrumento é da Renascença! Desfeita a confusão, com a Débora esclarecendo que o instrumento foi inventado no século XVII e não tem nada a ver com o simpático clube do Andaraí, o Baiano, defendendo nosso ídolo com unhas e dentes, mete bala: - Moacyr já era barroco antes do Ari! Moacyr Luz é erudito !!! Terça-feira, Setembro 16, 2008
DO SITE ZIRIGUIDUM
Grupo Social Samba Fino lança primeiro CD Disco junta novos nomes e grandes mestres em arranjos elegantes por Beto Feitosa A proposta do grupo é seguir a linha elegante do samba. O grupo Social Samba Fino faz exatamente isso em seu primeiro CD. Não é um samba para as grandes quadras, e sim para a sala de casa. O elegante disco, lançado pela Lua Music, junta composições inéditas de Nei Lopes, do Quinteto em Branco e Preto além de regravações de Noel Rosa, Eduardo Gudin e João Nogueira. Vocalista do grupo, o cantor Luiz Mel define: "A idéia é encontrar um lugar que esteja entre a originalidade do samba de Cartola e Noel e a bossa e o samba estilizado de Tom Jobim e João Bosco, por exemplo", explica revelando a nobre linhagem que serve de inspiração. "Outra característica do trabalho é misturar um repertório de gerações distintas. Novos como o Quinteto e Andréa Lafayette e veteranos como João Nogueira e Nelson Cavaquinho". O grupo tem a grande honra de receber Dona Ivone Lara, que divide com Luiz o vocal em Mel pra minha dor. A dama ganha reverência do grupo e devolve a gentileza: "E que o nosso samba cada vez brilhe mais com a força de vocês". Para lembrar os mestres, o grupo junta o Quinteto em Branco e Preto e a batucada do Fundo de Quintal em Canto para a Velha Guarda. Cutucando valores distorcidos rebobina Não tem tradução. A atualíssima e séria brincadeira de Noel Rosa, Francisco Alves e Ismael Silva em cima da mania do "feliz-colonizado" de usar palavras em inglês em seu dia-a-dia. Engata com a deliciosa Dicionário, parceria de Nei Lopes e Everson Pessoa. A ótima letra coloca vários pingos nos lugares certos: "Pra mim, sertanejo é antes de tudo um forte / Axé é força e boa sorte", dispara. "Artista em meu ponto de vista / É quem cria e conquista / E que sabe que mesmo em capa de revista / Artista é artista, e mané é mané", dispara. Tá tudo explicado. O CD é uma coleção de bons sambas executados com arranjos carregados de sutilezas e harmonias agradáveis. O grupo estréia pegando o caminho elegante, do Paulinho carioca e do Gudin paulistano. De um samba que não é necessariamente para festa. Faz pensar, questiona e funciona para ouvir, com todo prazer. Segunda-feira, Setembro 15, 2008
CARTA ABERTA A CARLOS WEDDERBURN MOORE Meu Lote, 15 de setembro de 2008 Estimadíssimo Carlos Moore: Tenho agora diante de meus olhos, na página 176, da edição de nº 52 (4º trimestre de 1964) da revista Présence Africaine, uma dedicatória assim escrita: “Para mi hermano Gilberto, com todo el afecto fraternal de su hermano de raza, para el fin de la completa libertad de nuestra raza. [a] Carlos”. A dedicatória encaminha um polêmico artigo, em francês, sobre o lugar do povo negro na Revolução Cubana. E chegou a mim pelas mãos de um saudoso e querido amigo, meio irmão mais velho, que, sem saber, balizou meu pensamento a partir da década de 1960. Gilberto de Jesus era o nome desse nuestro hermano. Também conhecido como “Popó”, era ogã do candomblé e atabaquista do Balé de Mercedes Baptista. Através dele, que conheci na deflagradora casa de “Tia Dina”, no bairro do Sampaio ( onde, como já escrevi tempos atrás, “deixei de ser mulatinho pra ser negro”) foi que ingressei na escola de samba Acadêmicos do Salgueiro. Onde fui feliz por 26 anos, estimado Moore! Pelas mãos desse filho de Oxalá foi que cheguei também ao candomblé, Carlos! Lembro com clareza do sábado em que ele me levou a Camari, Nova Iguaçu, onde os búzios do venerando Pai Ninô de Ogum me revelaram os orixás que disputavam minha cabeça. E foi ele, ainda, quem me levou à casa do saudoso Joquinha de Iroco, onde, em 1977, a disputa se revolveu, para minha alegria e felicidade. A edição da Présence Africaine (na qual teu nome ainda era grafado “More” – quase como o de Benny Moré) veio parar nas minhas mãos, estimado Carlos Moore, pelo simples fato de que meu amigo não lia francês. Então, me deu o precioso texto, e eu lhe expliquei, com toda a gratidão, que o autor era um intelectual cubano insatisfeito com a falta de propostas para seu povo naquele momento da Revolução de Fidel. Cujos ideólogos viam a questão afro-cubana como algo que se dissiparia depois que tudo estivesse resolvido, no âmbito das conquistas socialistas. E eu já conhecia essa ilusão falaciosa, amigo Moore! Meus líderes na “base” comunista do C.A.C.O., na Faculdade Nacional de Direito, diziam a mesma coisa; e me proibiam de tocar nessa “contradição”, apontando-a como um “desvio ideológico”. Para eles, o racismo era incompatível com o socialismo, Don Carlos! O tempo passou, Moore, e um dia me vi na Ilha de Fidel (que ainda é tua também, apesar da cidadania que a Jamaica te deu). E, lá, Ifá-Orula corrigiu minha trajetória e me mostrou minha sina de “farol mariño”. Seguindo esse caminho e voltando lá outras vezes, vim acompanhando também a evolução da tua caminhada e do teu pensamento. Soube que temos a mesma idade; e muitos amigos comuns. E que estamos juntos, já há algum tempo, nas páginas de algumas publicações. Foi aí que conheci, através de fotografia, tua fisionomia absolutamente singular, a carapinha totalmente alva, contrastando com o rosto duramente talhado no mais negro ébano.Um dia, é claro, teríamos que nos encontrar. E isso quase que se deu – 44 anos após a dedicatória na Prèsence Africaine – uns quatro dias atrás. Na fila da revista policial, no Aeroporto do Galeão, de repente te vejo à minha frente, a dois passos de mim, forte, atlético, bem disposto: – Coño! È o professor Carlos Moore! Vou falar com ele. – pensei. Só que, mal concluída essa intenção, uma mulher-furacão, de alta intensidade, não sei se louca ou realmente apressada, interpõe-se, correndo, entre nós dois, e quase te derruba com um empurrão. Passado o huracán (ou um mulher-bomba?), te procuro Carlos Moore; e não te vejo mais. Hora e meia depois, chego ao meu destino, que era a magnífica “Noite do Griot”, no Palácio das Artes em Belo Horizonte, e recebo a pasta com as informações sobre o evento em suas edições anteriores. E quem esta lá, dentro da pasta, a cabeleira alva sobre o rosto negro? Tu, Carlos Moore! À noite, no evento, entre CDs, DVDs, candomblés, atabaques, meus sambas, poesia, gente inteligente, música boa, a revelação da Livraria e Editora Nandyala, a efervescência cultural da Belo Horizonte negra, o orgulho das entidades da militância, a preservada ingenuidade das escolas-de-samba... E sabes sobre o quê mais se comenta? Sobre o teu novo livro, Carlos Moore. Aos demais leitores, informo que o livro se chama “A África que incomoda” (Belo Horizonte, Nandyala, 2008) e contém, em cerca de 220 páginas, formato de bolso e ao preço de “uma bala e uma mariola”, tudo aquilo que sempre quisemos e precisamos saber na hora de encarar o Racismo Organizado. Estão lá os porquês de racializar, sim, o estudo da sociedade brasileira; de ensinar a História da África do jeito que Cheikh Anta Diop desejava; de acusar o medo da Academia diante dos novos tempos, mostrando ao Brasil que o que eles querem não é preservar a unidade nacional coisa nenhuma, e sim, em nome do “Brasil mestiço”, impingir aos nossos jovens e crianças os ensinamentos totalmente equivocados dentro dos quais eles se tornaram mestres, doutores e donos do nosso saber. Já falei demais, meu amigo (permita-me a liberdade) Carlos Moore! Mas o ará-orum de Gilberto de Oxalá me pediu que escrevesse esta carta. Porque ele está pontuando, a mando de Ifá, essas “coincidências” todas que vêm ocorrendo entre nós. E sabe como se chama aquela mulher-furacão que nos separou lá no aeroporto? Não sabe? O nome dela é “Academia”. Mas ela vai ver só o que a espera! Reciba, entonces, mi afecto fraternal, hasta la completa libertad de nuestro pueblo. Tu hermano, a) Nei Lopes Quarta-feira, Setembro 10, 2008
SANKOFA: MATRIZES AFRICANAS DA CULTURA BRASILEIRA (Selo Negro Edições, 4 volumes, vários autores org. Elisa Larkin Nascimento) Abdias Nascimento, artista, escritor e ativista da causa negra, dono de uma trajetória que reluziu, ainda mais, nos anos 70, no exílio, quando conquistou lugar entre as lideranças pan-africanistas na África e nas Américas, já de volta ao Brasil, em 1991, tornava-se o primeiro titular da então criada Secretaria de Estado de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras, no governo do Estado do Rio e Janeiro. No cargo, viabilizou a criação de um curso de extensão universitária, ministrado na UERJ. À frente desse curso, chamado “Sankofa” (em referência a um ideograma africano de significado altamente filosófico: “nunca é tarde para voltar e recolher o que ficou para trás”), esteve sempre sua esposa, parceira e seguidora, a professora Elisa Larkin Nascimento. Escritora, autora de importantes ensaios, mestra em Direito e Ciências Sociais pela Universidade do Estado de Nova Iorque, além de doutora em Psicologia pela USP, Elisa, nascida nos EUA e radicada no Brasil desde a década de 80, é responsável também pelo conjunto de obra ora resenhado. Publicada, primeiro, em forma de apostilas de apoio ao curso Sankofa, a coletânea foi, depois, editada em parte. E vem a público, agora, em versão integral de 4 volumes, em um momento de especial importância para os estudos africanos no País. Conquista da militância pelos direitos civis dos negros, a Lei nº 10.639/2003, tornando obrigatório o ensino de História da África e do legado africano à cultura brasileira, veio contemplar, quase vinte anos depois, os principais objetivos do Sankofa. E esses objetivos eram, exatamente, mostrar que as histórias e as culturas africanas e afro-brasileira dizem respeito não apenas aos descendentes de africanos, mas ao Brasil como nação à humanidade como um todo. Em seu primeiro volume,”A Matriz Africana no Mundo”, a coleção ora publicada mostra porque a noção da África como berço único da humanidade é um dos dados que hoje se impõem, com força cada vez maior, nos estudos humanísticos interdisciplinares. Assim, entenderá o leitor porque é preciso conhecer a África para compreender a origem das primeiras civilizações, a formação do mundo antigo e suas conseqüências na História contemporânea. E, para tanto, o livro não só introduz o leitor à saga da resistência africana ao escravismo e ao colonialismo, base do surgimento das modernas nações americanas, como também mostra as implicações dessa dinâmica nas relações entre a África e o Brasil. O segundo e o terceiro volumes – “Cultura em Movimento” e “Guerreiras da Natureza” -- abordam os fundamentos africanos da cultura brasileira e a relevância do combate ao racismo anti-negro para o todo da sociedade brasileira, inclusive na educação. Ambos os livros destacam o papel da mulher negra e da religiosidade afro-originada na formação da cultura brasileira, bem como a importância do vitalismo africano nas ações ambientalistas. E, no quarto volume, destaca-se o ensaio do advogado Hédio Silva Jr. sobre os abusos de direito hoje cometidos, contra as religiões afro-originadas, pelas seitas neo-pentecostais, em todo o Brasil. No quarto volume, “Afrocentricidade”, a coleção apresenta, de forma pioneira, as idéias de intelectuais africanos e afro-americanos que, a partir das propostas dos sempre lembrados Cheik Anta Diop e W.B. DuBois, vêm revolucionando o conhecimento sobre a contribuição do pensamento filosófico africano para o desenvolvimento do saber no mundo contemporâneo. Apesar de vigorar já há quatro anos a Lei nº 10.639, os recursos para efetivação de seu cumprimento ainda são bastante escassos, diante da crescente demanda. Que não é apenas quantitativa, mas principalmente de qualidade. Por isso, a coleção Sankofa cumpre com os objetivos legais a partir de um novo ponto de vista, com pesquisas e reflexões construídas sobre novas bases epistemológicas. E, isto, num contexto em que a falta de conhecimento sobre suas origens e identidade contribui para que muitos afro-descendentes sofram de baixa auto-estima, o que tolhe seu acesso pleno às oportunidades e mina sua capacidade de lutar por direitos. Os textos da coleção Sankofa levam assinaturas de peso. Neles, estão, entre outros, além da organizadora, o historiador afro-americano Molefi Kete Asante, principal teórico do afrocentrismo contemporâneo; os africanos Anani Dizidzieyo, sociólogo ganense, radicado nos EUA; Michael Hamenoo, também de Gana, e os angolanos Francisco Romão da Silva e Ismael Diogo. Além destes, integram também o elenco de autores, Carlos Moore, etnólogo afro-cubano, doutorado pela Universidade de Paris; os afro-brasileiros Edna Roland, Joel Rufino dos Santos, Nei Lopes e Sueli Carneiro, entre outros. Além destes, Sankofa reproduz, também, textos das já falecidas Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez, docentes fundadoras do Sankofa. ** O LANÇAMENTO CARIOCA DA COLEÇÃO SERÁ NO DIA 23 DE SETEMBRO, NO MUSEU DA REPÚBLICA, A PARTIR DAS 18H30. Segunda-feira, Setembro 08, 2008
O Centro Afro Carioca de Cinema oferece a você agenda muito especial 13 a 24 de Novembro de 2008 II Encontro de Cinema Negro Brasil-África América Latina Curadoria: Zózimo Bubul Onde... - Cine Odeon BR - Centro Cultural Justiça Federal - Tenda na Lapa - Tenda em Nova Iguaçu - Espaço Tom Jobim Cultura e Meio Ambiente Detalhes da Programação em breve Sexta-feira, Setembro 05, 2008
SEMANA DA PÁTRIA Que os eguns ou egunguns de Caxias, Tamandaré, Barroso, Osório, Vilagrán Cabrita, General Electric, Capitão Furacão, Sargento Garcia, Soldado Razzo, Cabo Diva Soura etc, não nos levem a mal, mas achamos que já está na hora de tirar do 7 de setembro esse caráter militar. É claro que o Conde Affonso Celso tinha razão quando dizia que “se não abundam feitos extraordinários na história pátria, também não os há deprimentes ou vergonhosos”; e que “a conquista portuguesa não se caracterizou pelas violências da espanhola”; que “no regime colonial a regra foi ordem, paz, raras guerras civis, progresso contínuo, sem vicissitudes revolucionárias e retrocessos violentos; que, abolido esse regime, continuamos amigos da mãe-pátria”. E se ele tinha razão, se o brasileiro sempre foi cordial, se a nossa índole é mansa e pacífica, pra quê então esse negócio de comemorar o 7 de setembro botando tropa na rua, e os aluninhos das escolinhas de “marcha-soldado-cabeça-de-papel?”. Stefan Zweig também estava coberto de razão quando escreveu que “... falta à alma brasileira qualquer traço de brutalidade, violência, veemência, tudo o que é grosseiro, presunçoso e arrogante”. Que “o brasileiro é um tipo quieto, sonhador, e sentimental, às vezes até com uma certa melancolia”. Que “até no trato social as maneiras são visivelmente moderadas: quase não se ouve alguém falar alto ou gritar com raiva com outra pessoa, e quando multidões se reúnem se percebe mais nitidamente a surdina”. Disse ele que “mesmo se divertindo em massa, as pessoas aqui continuam quietas e discretas, e essa ausência de robustez e brutalidade confere à sua tranqüila alegria um comovente encanto”. E olhem que ele disse isso sem receber nada em troca, nem uma guarida, nem um favorzinho! Em honra, então, da memória desses saudosos e argutos analistas da alma brasileira, lançamos daqui um manifesto para desarmarmos o 7 de setembro. Joguemos fora nossas AR-15, nossos oitões, nossos trabucos, nossas úzis de fabricação israelense! E, em substituição, coloquemos na rua o bloco da nossa identidade nacional e da nossa multiculturalidade, num desfile assim: -- Mostrando a pujança da nossa raça mestiça, com os atletas do nosso iatismo, do nosso automobilismo, da nossa ginástica [Daiane dos Santos já tá coroa!] etc; -- Ao som do melhor da nossa música popular, com “bandas” de pop-rock, heavy metal, punk etc, além de DJs exibindo suas habilidades no techno, hardcore, drum’n’bass etc. e tal. -- Vestindo o melhor de nossa moda esportiva, com os vistosos trajes, calçados e bonés Nike, Adidas, Mizuno etc. -- Apresentando carros alegóricos com o melhor da arte contemporânea brasileira, como “instalações”, grafites, rascunhos, rabiscos, pichações etc. -- Exibindo, como prova da boa convivência entre os diferentes no Brasil, a encenação de um diálogo entre os ministros do STF Joaquim Barbosa e Marco Aurélio de Mello. -- E por aí vai o desfile, com exaltações explicitas às ONGs, às telefônicas, à Rede Globo, às madeireiras, à imparcialidade do Judiciário, e ao poder paralelo nas comunidades. Muito mais coisa pode se fazer para desmilitarizar o 7 de setembro e tornar a “Semana da Pátria” quase que um “Domingão do Faustão”.Ou, quem sabe um “Criança Esperança”, transmitido ao vivo para todo o Brasil, com comentários do Galvão Bueno. É só ter vontade política, não é mesmo?... Segunda-feira, Setembro 01, 2008
JORNALISTA DENUNCIA RACISMO NA NOVELA DA GLOBO Chega ao Lote um e-mail do jornalista Mário Augusto Jakobskind, velho e firme aliado da militância afro-brasileira, com o qual ele nos leva até o site “Direto da Redação”. No site, em artigo excelente, Jakobskind denuncia várias colocações políticas feitas, à moda da casa, na telenovela atualmente exibida pela Rede Globo no horário nobre. Sobre uma delas, ele escreve o seguinte: “Como se não bastassem esses exemplos que têm o visível intuito de fazer cabeças, outro fato ocorrido na mesma novela, na prática faz cair por terra os argumentos segundo os quais não há racismo no Brasil. A avó de uma personagem adolescente grávida, que não revela quem é o pai, se mostra indignada e preocupada, pois a neta poderá gerar uma criança com “o olho esticado, negro, drogado ou alcoólatra”. Quer dizer, na fileira do abominável senso comum racista da TV Globo, o negro, da mesma forma que o de “olhar esticado”, que pode ser um índio, é equiparado a drogados e alcoólatras. Tem mais: um dos personagens negro da telenovela é exatamente um deputado corrupto. ”O que dirá o diretor-executivo de jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, autor do livro Não somos racistas, defensor da invasão do Iraque e de Bush? Certamente dirá que liberdade de criação é liberdade de criação e negará o senso comum racista global, como tem feito rotineiramente em diversas ocasiões ao defender a empresa onde é preposto patronal”. Aqui no Lote, a gente já saiu dessa da novela há muito tempo. Mas é sempre bom dar uma olhada. Vamos conferir, embora a gente sempre assine embaixo do que o M. A. Jakobskind escreve.
BOMBA! MOACYR LUZ É ABSTÊMIO! Em meio ao árduo trabalho de divulgação de seu novo livro sobre o cotidiano dos bares cariocas, Botequim de bêbado não tem dono (Ed. Desiderata), nosso amigo Moacyr Luz nos convida pra mais uma parceria, a ser incluída no CD que está começando a produzir. Como estamos aqui mais enrolados do que linha com cerol, em lata de leite-em-pó, somos tristemente forçados a recusar o trabalho, não sem antes nos questionarmos: como é que o Moa arranja tempo prá tanta coisa, livro, disco, show, pagode (todo dia sai foto dele no Globo!), e ainda sobra pra tomar um negocinho? É nessa que Wilson Flora, o nosso popular e querido Baiano, espana: – Ô, Chefia!? Qualé? Tu ainda acha que o Moacyr bebe? Quem bebe é Cláudio Jorge, Hugo Sukman, Luiz Carlos da Vila, Wilson Moreira... Tu conhece algum samba dele falando em cachaça? Wilson Moreira tem um monte! Paro pra pensar, ainda meio incrédulo, quando o Baiano, do alto de sua sapiência nordestina arremata: – Todo mundo sabe que quem bebe, mesmo (por motivos que variam de problemas pretéritos da personalidade a condições ambientais especiais), fica embriagado, mentalmente confuso e ocasionalmente alucinado; com fraco desempenho intelectual, além de distúrbios do caráter e do senso moral. Sem falar da irritabilidade, do menor nível de eficiência, do descuido pessoal do egocentrismo, da sugestibilidade e da apatia... Fica que nem o cão chupando manga! Eu já admirava a lábia nordestina do Baiano, mas não sabia que ele sabia tanto. E ele continua: – Quem bebe, mesmo, mermão, experimenta estados de excitação psíquica, desorientação espacial e temporal; e um tipo de alucinação em que os sintomas surgem bruscamente, com idéias delirantes, pobres em sistematização e uma sucessão de períodos de euforia e agitação. E tem mais: quem bebe, mesmo, tem ciúme, com reações agressivas; e expressa idéias delirantes. Que pressupõem um critério de realidade inadequado e séria incapacidade de crítica. Baiano pede mais uma rodada. E eu me quedo a cismar. Acho que é isso mesmo. Nosso amigo e parceiro Moacyr Luz brilha como seu sobrenome. Faz sambas maravilhosos. Bate uma viola tão redondinha quanto a de seu mestre Helinho Delmiro. Trabalha paca. Na música e no marketing. Então... o Baiano tem razão. – Sabe o quê que tem naquele copinho dele? - Baiano pergunta e responde, ele mesmo, de trivela: – É chá de erva-cidreira. Confuso, passo a régua no meu chope, fazendo aquele bigodinho de espuma, quando a potente voz do Baiano, ecoando do Bar Getúlio pra todo o bairro do Catete, sentencia, enquanto ele paga a conta: – E o que é pior: MOACYR LUZ É ABSTÊMIO!!! |
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