Sexta-feira, Agosto 29, 2008


Descendente de Catuio.

NEI LOPES, BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA

Uma das mais trágicas seqüelas deixadas em nós, afro-descendentes, pela escravidão africana, é não sabermos com certeza de quem e de onde viemos. Um sobrenome, para nós, nada mais significa que uma referência a algum proprietário de um de nossos ancestrais. E é nessa que eu, filho de um casal do século19, fico embatocado, pasmado, diante dos sonoros nomes de meus avós paternos, que nem meu pai, Luiz Braz Lopes, nascido em São Cristóvão, no dia 3 de fevereiro de 1888 (dia de São Braz), conheceu e dos quais, só temos os nomes (serão deles mesmos? ), no registro; e o sobrenome LOPES.

Mas... péra aê! Por quê não inventar uma biografia? Afinal...

Então, vamos lá!

**

Ninguém sabe ao certo como o português Elias Antônio Lopes, o “turco Elias” fez fortuna. Só se sabe é que, no tempo em que o comércio exterior do Brasil era monopólio da Metrópole, o “turco” prosperou de maneira estarrecedora.

Mas ninguém sabe, também, quais as artimanhas que ele usou para tornar-se, em 1803, o proprietário das terras antes pertencentes ao cacique Araribóia. Chegando ao ponto de manter, nelas, um plantel de quase 100 escravos. E dar-se ao luxo de nelas construir, para o seu descanso, uma casa-quinta.

O terreno escolhido ficava numa elevação que se estendia das margens do rio Maracanã ao mar, entre a enseada de São Cristóvão e de Inhaúma. E a propriedade foi chamado “Quinta da Boa Vista”. E a comunicação de Elias com a cidade e vice-versa era feita através de uma ponte de desembarque pois, não estando ainda aterrado o Mangue de São Diogo, era dificílimo o acesso por via terrestre.

Em 1808, com a chegada da Família Real, Elias doou a sua propriedade a D. João VI , transformando-a em residência do monarca. Em troca, recebeu não só uma boa indenização como um título de nobreza e um salário vitalício. E também o cargo de administrador da Quinta, no que, por ser analfabeto, não podia prescindir de um de seus escravos, chamado Cândido, sabendo ler, escrever e executar com destreza as quatro operações, e ao qual o “turco” permitiu usar seu sobrenome.

Cândido Lopes, chegara ao Brasil, num navio-negreiro, procedente de São Filipe de Benguela, em 1752, ainda menino. Chamava-se Catuio; e era filho de um chefe, no sobado de Limbuata.

[Continua na próxima semana]




Quinta-feira, Agosto 28, 2008



DOMINGO EM MENDES. COM DIREITO A GALO PRETO, EMPADINHAS, CERVEJINHAS E BOA MÚSICA.

Nosso compadre Alexandre Paiva cavaquinista do grupo Galo Preto, manda convocar nossos leitores para o lançamento do CD "Pare, Olhe, Escute" do conjunto Passagem de Nível, no próximo
domingo, dia 31 de Agosto, na simpática praça Dr. João Nery (a da foto), no centro da aprazível cidade de Mendes. O evento é totalmente gratuito e terá início às 10:30h, com convidados da pesada como Noca da Portela, Nelson Sargento, Elton Medeiros, Elisa Addor, além do VELHOTE DO LOTE, e músicos da própria região do Vale do Café - da qual o município do Lote foi temporariamente expulso, para o "Vale de Lágrimas", por incompetência municipall.

Onde: praça Dr. João Nery, centro de Mendes.
Como chegar: Mendes fica a uma hora e meia da Z. Sul do Rio. Pegar a
Dutra em direção a São Paulo e a saída para "Paracambi" logo após o
primeiro pedágio.
Quando: dia 31 de Agosto de 2008, este domingo!!! 10:30h.
Quanto: TOTALMENTE GRATUITO! O CD será vendido no local por 15 reais.
Quem: Passagem de Nível e seus convidados (Nei Lopes, Elton Medeiros,
Nelson Sargento, Noca da Portela, Elisa Addor, Galo Preto, Antonio
Rocha, PC Botelho e muitos outros)
Maiores informações: http://www.myspace.com/passagemdenivel ou pelo
telefone (21) 8282-7750 (Antonio)




Quarta-feira, Agosto 27, 2008

A VOLTA DO VELHOTE DO LOTE. A MIL

Desafiado por uma grande editora e escrever um livro paradidático em 2 semanas, o Velhote esteve fora da área de cobertura durante esse tempinho.
Mas o desafio, aceito, foi vencido com galhardia. E eis aqui de novo o Velhote aos vossos pés, humilde e contrito como sempre, seletos leitores!
No palco, a presença nas Quartas Cariocas do João Caetano, até 15 de outubro. No forno, uma batelada de escritos. Que logo estarão servidos. Quentinhos.
Me aguardem! - como diz a "Marrom".




Segunda-feira, Agosto 18, 2008

ELES DÃO O SEU MELHOR. E DAÍ?

Vejam só o papo que rolava, ontem, no Convenção de Genebra, entre o Zé Olímpio e o João Bossa-Nova, que, com aquele corpinho de 70, comemorava seu aniversário de 50 anos:

– Pô, Zé, tu já viu a mania desses atletas brasileiros, quando morrem na praia, lá em Pequim?

– Qualé, meu cumpádi?

– Todos dizem assim: “eu dei o meu melhor” – e começam a chorar.

– Ué? Dão e se arrependem?

– Pois é. Quem não tem “melhor” não faz trato com o “pior”, né ?

É nessa que chega o professor Méllo Cunha, cobrão em português e adjacências, laureado no Liceu Literário Lusitano com o título de “Doutor em Hífen”. Informando-se sobre o tema da conversa, o mestre esclarece o assunto aos dois otários:

– Ora, meus caros! O esporte hoje é totalmente globalizado. Então, isso de “dar o melhor” não é nada do que vocês estão pensando. Trata-se apenas de tradução literal do inglês I do (ou did) my best. E equivale ao nosso “fiz o que pude”. Que, por sua vez, se origina nesta frase latina: Feci quod potui, facent maiora potentes...

– Ahn!???

– É... Foi dita em Roma, no ano 45 a.C., por um gladiador africano, vaiado no Coliseu e chamado de “crioulo frouxo”, porque só tinha conseguido acabar com 365 adversários. – completa o professor, e pergunta: Entenderam?

É claro que ninguém entendeu xongas. Mas o Bossa-Nova, pra não dar bandeira, encerrou a conversa lapidarmente.

– Tá certo, professor! É isso mesmo. Se eles dão o que é deles, ninguém tem nada com isso.

– Mas sem chorar depois, né? – arremata o Zé Olímpio.





Nesta 4a.feira,
na série QUARTAS CARIOCAS
Nei Lopes apresenta
NELSON SARGENTO
NOCA DA PORTELA
e
DNA DO SAMBA
("quem não sai aos seus, é doente do pé")
TEATRO JOÃO CAETANO
DIA 20/08
QUARTA, ÀS 19H
R$ 10,00 - INTEIRA
R$ 5,00 - MEIA ENTRADA




Sexta-feira, Agosto 15, 2008



Cultura em movimento
Matrizes africanas e ativismo negro no Brasil – Volume 2


Coleção: Sankofa - Matrizes africanas da cultura brasileira
Autor: Elisa Larkin Nascimento

Tratando do legado cultural e da tradição de resistência dos descendentes de africanos no Brasil, este volume reúne ensaios e depoimentos sobre várias dimensões e aspectos. Nei Lopes e Beatriz Nascimento trazem uma perspectiva sobre o legado dos ancestrais bantos e malês; Elisa Larkin Nascimento, Joel Rufino e Abdias Nascimento, assinando pelo Conselho Deliberativo do Memorial Zumbi, esboçam uma pequena história das lutas afro-brasileiras do século XX. A questão da educação no Brasil como tema fundamental da vida e da luta dos afro-descendentes é tema de relatórios de fóruns de educadores que a abordam no seu aspecto teórico e prático. Três educadoras – Vera Regina Triumpho, Silvany Euclêncio e Piedade Marques – trazem depoimentos ricos sobre a sua experiência com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, modificada pela Lei nº 10.639 de 2003.

Selo Negro Edições







NÓS NO BARQUINHO, COM O PATO FAZENDO QÜEM-QÜEM

Comemorando os "50 Anos da Bossa", o Lote fez-se presente, esta semana, no caderno especial publicado em o Globo sobre o assunto, dia 13. A solicitação veio do jornalista Antônio Carlos Miguel, autor de uma alentada e laudatória matéria sobre a mitológica figura de João Gilberto.

Sobre este, o Velhote aqui da Casa, lembrando dos saudosos Pedro Sidrônio e Mizoca, e evocando a memória, esquecida, do grande compositor Jaime Silva, crioulo de cabelo frito, sambista da Portela, morador de Rocha Miranda, sapateiro do E.C.de Material de Intendência do Ministério da Guerra e simplesmente autor de "O Pato" ("...vinha cantando alegremente"), além de outros sambas importantes, mandou a seguinte fuleira:

- João Gilberto é um baiano esperto; como muitos outros que conheço. Canta samba, suave como o Dick Farney cantava e com uma divisão suingada, como o Miltinho; gosta de sambas sincopados, com balanço de boogie-woogie, de grandes autores do estilo, como Denis Brean (seu guru, dizem), Janet de Almeida, Haroldo Barbosa; e desenvolveu uma batida esperta no violão, atrasando e adiantando os tempos, além de usar acordes não muito comuns, como Garoto, Valzinho e outros do seu tempo. Ele é esperto!




Quinta-feira, Agosto 14, 2008
Terça-feira, Agosto 12, 2008

TANCREDO, O GENERAL DA BANDA

No carnaval de 1950, um samba diferente ganhava as ruas, na voz do saudoso cantor Blecaute. Constava quase que só de um refrão (“Chegou general da banda ê ê! Chegou general da banda ê á!”) tirado talvez de uma cantiga de umbanda ou do repertório das batucadas que animavam o antigo jogo da pernada carioca, primo-irmão da capoeira. Levava as assinaturas de Sátiro de Melo, Tancredo Silva e José Alcides. E fez tanto sucesso que seu intérprete passou, a partir daí, a apresentar-se, nos shows carnavalescos, envergando uma vistosa fantasia de talhe militar. Mas “general” mesmo foi o co-autor Tancredo. General do samba, da umbanda e das causas populares.

“Arte e Música”

Tancredo da Silva Pinto nasceu em Cantagalo, RJ, em 1904. “Tata de inquice”, ou seja, pai-de-santo, da linha do Congo e do rito omolocô, em 1949 fundou a Confederação Umbandista do Brasil e durante sua existência publicou vários livros sobre a doutrina umbandista. Em música, Tancredo é também co-autor, com Davi Silva e Ribeiro Cunha, de outro clássico: o samba Jogo Proibido, gravado em 1937 por Moreira da Silva e tido, quase unanimemente, como o primeiro samba de breque. Dez anos depois, destacando-se como líder, ajudava a fundar a Federação Brasileira das Escolas de Samba.

Em janeiro de 1950, o jornal Quilombo, dirigido por Abdias do Nascimento e voltado para a comunidade negra, publicava matéria intitulada “Os compositores populares defendem os seus interesses”. E nela dava conta da fundação da “Escola de Samba Arte e Música”, por iniciativa de Tancredo e seu parceiro José Alcides.

A “Arte e Música”, segundo seus fundadores, era uma sociedade de âmbito nacional e suas realizações deveriam repercutir até no estrangeiro. Seu objetivo era divulgar a música popular tipicamente brasileira. E, para tanto, ela pretendia criar departamentos autônomos e especializados para cada setor, nomeando representantes estaduais, e estabelecendo núcleos de “arte e música” pelas principais cidades brasileiras, com vistas a intenso intercâmbio de experiências artísticas.

A escola de Tancredo pretendia também divulgar, a partir do Rio e através do rádio, do disco, do teatro musicado e de partituras impressas, as criações de autores desconhecidos do interior do Brasil. E se dispunha a, mediante contrato, colaborar com as firmas produtoras de “películas cinematográficas, fornecendo-lhes artistas, extras e compondo música popular” – conforme declaração de Tancredo Silva.

Firme em seus objetivos, a instituição pretendia tão somente atuar no mercado de trabalho e não fazer benemerência: “É preciso não esquecer que constituímos uma entidade de arte e cultura e não de assistência social.” – afirmava um de seus dirigentes ao jornal Quilombo. “Contudo não podemos fechar os olhos aos problemas de caráter grave e urgente. Mantemos um socorro social com a finalidade de atender às necessidades básicas e às situações aflitivas dos nossos associados”.

Tancredo Silva Pinto faleceu no Rio em 1979. Três anos antes recebia honrarias da câmara de vereadores do município de Itaguaí. E, em 1974, realizava na ponte Rio-Niterói, na condição de sacerdote da umbanda e com respaldo governamental, ritual propiciatório da fusão entre os antigos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro. E dois anos antes da passagem do líder para a Outra Dimensão, era fundada, no bairro da Abolição, na antiga Avenida Suburbana, numa loja onde antes funcionava uma funerária, a chamada “Igreja Universal do Reino de Deus”, criada, segundo consta, por um dos filhos-de-santo do respeitado tata (e bamba).

Líder do samba, dos cultos afro e de parte do segmento autoral musical, foi de fato um comandante. Sobre sua inusitada escola de samba, pouco se sabe. Mas seu ideário, antecipando muita coisa boa que efetivamente veio, anos depois – como o Projeto Pixinguinha, as gravadoras independentes e até mesmo alguns princípios defendidos pela SOMBRÁS e pela nossa AMAR – fez dele um legítimo estrategista.

Saravá sua banda!




Sábado, Agosto 09, 2008

ZÉ OLÍMPIO E OS JOGOS NA AVENIDA

Zé Olímpio, o atleta aqui do Lote, campeão de lançamento de livros, levantamento de cálices e copas, já de saída pro “Convenção de Genebra”, onde exerce seu mister, me provoca:

- E aí Chefia? Viu a abertura dos Jogos? Parecia até a Marquês de Sapucaí! E que bateria, hein!? Só faltou samba.

Não me fazendo de rogado, eu repico:

- Na Sapucaí também, meu caro Zé Olímpio! Tá faltando. E qualquer dia vai ser só aquilo mesmo da abertura dos jogos. Só efeitos, só ilusão...

Nisto, chega o Imeio (um pivetinho de menos de 1m. de altura, mas rápido como um velox) trazendo uma mensagem do carnavalesco Milton Cunha, meu chapa, que prepara o enredo pra Viradouro. Imeio vai, Imeio vem, eu junto pé com cabeça, misturo China com Olimpíadas e resolvo elaborar a sinopse de um outro enredo que ficou assim, vejam só!

“PRESENÇA AFRICANA NA CHINA MILENAR.

“A pre­sen­ça ne­gro-afri­ca­na na China vem de tem­pos ime­mo­riais. A mi­to­lo­gia chi­ne­sa men­cio­na um po­vo ori­gi­nal, de na­riz lar­go e cha­to e ca­be­los en­ca­ra­pi­nha­dos, cha­ma­do Ainu. Essa pa­la­vra, cu­jo sig­ni­fi­ca­do é “ser hu­ma­no”, te­ria se ori­gi­na­do no Egito, e de lá se dis­se­mi­na­do atra­vés da Meso­po­tâmia, da Pérsia e da Í­ndia, on­de ga­nhou a acep­ção de “ne­gro”. Os Ainus, ca­rac­te­ri­za­dos co­mo ­anãos, apa­re­cem em to­da a his­tó­ria chi­ne­sa, co­mo, por exem­plo, na di­nas­tia de Fu-Hsi (2953-2838 a.C.). Tido co­mo ne­gro e de ca­be­lo la­nu­do, es­se rei foi o res­pon­sá­vel pe­la cria­ção das ins­ti­tui­ções po­lí­ti­cas, so­ciais e re­li­gio­sas, bem co­mo da es­cri­ta, que ­iriam per­du­rar até nos­sos ­dias. Foi su­ce­di­do por Shen-Nung (2838-2806 a.C.), ao ­qual se atri­bui a in­tro­du­ção da agri­cul­tu­ra no ­país, tam­bém per­ten­cia ao po­vo ai­nu (cf. Elisa Larkin Nascimento, “As civilizações africanas no mundo antigo”. In “Sankofa. Resgate da cultura afro-brasileira, vol. I. Seafro. Gov. Estado RJ, 1994, págs. 49-74 ). No ano 614 D.C, em­bai­xa­do­res de Java pre­sen­tea­ram o im­pe­ra­dor da China com ­dois es­cra­vos pro­ve­nien­tes de Zanzibar. Por vol­ta de 1119, se­gun­do Alberto Costa e Silva, a maio­ria das pes­soas abas­ta­das de Cantão pos­suía es­cra­vos ne­gros, oriun­dos da Áfri­ca ín­di­ca, os ­quais, ape­sar de for­tes, em­pre­ga­dos em ­obras sub­ma­ri­nas de re­pa­ros na­vais, mor­riam fa­cil­men­te, em ge­ral de diar­réia, por es­tra­nha­rem a ali­men­ta­cão [Fonte: Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, 2004”.

Dia seguinte, terminada a sinopse, dei-a pro Zé Olímpio ler e opinar. Mas ele olhou, olhou, pensou e, aí, deu o parecer conclusivo, já tirando o time de campo:

- Acho que não dá, não, Chefia! O senhor viu a delegação do Brasil, na abertura? Parecia a da Suécia! De pretinho mesmo, parece que só tinha o pessoal do futebol e do atletismo. Mas a televisão não mostrou. E se a televisão não dá, o enredo não tem credibilidade. Vou nessa! Fui! Feliz Dia dos Pais!




Terça-feira, Agosto 05, 2008



O SAMBA DE TERNO E GRAVATA

A roupa é uma linguagem! Já dizia Petrônio, o árbitro romano da elegância, ao qual fez coro Walter Taylor, ancestral britânico de Walter Alfaiate, o “magnata supremo da elegância moderna” – que, aliás, precisa botar pra dentro da camisa aquelas correntes e medalhas de prata.

Através do traje, a gente fala muita coisa. E o “passeio completo” (terno e gravata) transmite seriedade e distinção. Por isso é que, do pastor neo-evangélico ao estelionatário (categorias que muitas vezes se confundem), qualquer um-sete-um, quando quer ser visto como sério e refinado, põe logo essa “induma” – termo da lavra do saudoso Compadre Filipão, usado como abreviação de “indumentária”. E quando esse propósito de seriedade e refinamento é verdadeiro, o traje representa um compromisso com essa verdade.

O boné de pala pra trás; a camisa de malha, gola olímpica e manga curta vestida sobre a de manga longa; o bermudão largão abaixo do joelho; o jeans rasgado; o tênis encardido; essas modernidades, pra nós aqui no Lote, significam, mesmo, é alienação, subserviência, falta de personalidade, desrespeito, e não “transgressão” ou “negação da ordem estabelecida” – pois obedecem a padrões impostos pelo Sistema (o mesmo que fabrica e vende “mortal games”, “punk rock”, “gangsta rap”, e outras “drogas”), sob a máscara falaciosa da palavra “tendência”.

Na música, quando o artista sobe ao palco, sua indumentária fala antes de sua voz ou de seu instrumento. E, se esse artista quer mostrar que sua música é refinada, séria, digna de respeito e admiração; e que ele, antes de tudo, a preza e admira, esse artista vai sempre se vestir com a elegância do bom senso.

Não estamos falando aqui de sobriedade e, sim, de bom gosto. Pois afinal, o palco é um lócus de fantasia. Assim, jamais imaginaríamos, por exemplo, um Luiz Gonzaga, um Renato Borghetti, um Genésio Tocantins, um puxador de toada de Parintins ou um amo de bumba-meu-boi cantando de terno e gravata. Mas, como pensavam Paulo da Portela, Ataulfo Alves, Jorginho Pessanha (1931-81) e Aldacir Louro (1926-96), nobres exemplares, para o samba (os “sambistas de camiseta” que nos desculpem) terno e gravata é fundamental.

Inteligente, perspicaz, sensível, o Samba sempre foi elegante. Mesmo quando era “a voz do morro”. E o Quinteto em Branco e Preto, nos dez anos de carreira que completa este ano, assimilou bem a lição. Se não vestiram ternos bem cortados desde o começo, foi porque a grana não dava, claro! Mas os “meninos”, comprometidos com o que de melhor o Samba tem, e jamais desprezando a tradição, sempre primaram pela elegância, que a cada dia se refina, como vemos na foto que ilustra este texto, reproduzida do encarte de seu terceiro e excelente CD, “Patrimônio da Humanidade” (Trama, 2008).

E isto ficou ainda mais claro na primeira (curta) temporada no grupo no Teatro Rival, de 1 a 3 de agosto últimos: a elegância somou-se à beleza das interpretações, inclusive com ricas vocalizações; ao domínio absoluto dos instrumentos, com solos altamente complexos; a arranjos altamente criativos; à precisão do grupo acompanhante; à inserção de filmes ilustrativos; enfim, a um espetáculo como poucos apresentados nos palcos do Rio nos últimos tempos.

O samba merece, meninos! E agradece.




Segunda-feira, Agosto 04, 2008



A EPOPÉIA AFRICANA E A CONFERÊNCIA DO CAIRO

No último dia 31, encerrando belamente o mês de agosto, O Globo, publicava, em sua pagina de Opinião, nosso artigo que vai abaixo transcrito. Sobre ele, nosso milhão de amigos se manifestou, lotando a caixa de e-mails. E os outros, silenciaram, certamente preparando argumentos para desclassificar os nossos e tentar mostrar, como sempre, que a Civilização nasceu na Ásia e que a História da África começa com a chegada dos europeus. Mas os Orixás não dormem. E antes que venha a costumeira tentativa de desqualificação, chega-nos, lá do fundo da estante, o velho sábio congolês Théophile Obenga, para reavivar em nossa memória o seguinte:

Até pouco tempo atrás, os africanistas – africanos ou não – tinham uma espécie de temor doentio de desvendar a realidade histórica das grandes civilizações do vale do Nilo, permitindo, então, que essa “doença espiritual” gerasse explicações e conceitos artificiais sobre a cultura africana, tais como os de “povos hamitas”, “raças camíticas”, “verdadeiro negro”, “brancos de pele avermelhada”, “semibantos” etc. que estiveram em vigência durante mais de um século.

Entretanto, entre 28 de janeiro e 3 de fevereiro de 1974 realizava, exatamente no Egito, a chamada “Conferência do Cairo”, reunindo grandes especialistas de todo o mundo. Foi aí que caiu a máscara, quando, depois de uma semana de debates, os cientistas reunidos concluíram, à unanimidade que “o Egito faraônico foi africano por sua cultura, sua língua, por seu temperamento e seu modo de pensar” – cf. Obenga, in La cuenca congolesa: hombres y estructuras. La Habana, Ed. Sciéncias Sociales, 1988:43-44.

Feita este intróito, vamos ao nosso texto publicado em O Globo. Axé!


AFRO-DESCENDENTE, COM ORGULHO!
Nei Lopes


Escrevemos este texto sob o impacto, profundamente negativo, do artigo “Visita à ‘terra dos negros” publicado nesta página, no último dia 24 de julho. E o fazemos para demonstrar, em poucas linhas, que, se o indivíduo afro-brasileiro e o brasileiro em geral conhecesse um pouquinho de História da África e da afro-descendência, no Brasil e no mundo, ninguém se surpreenderia ou horrorizaria ao visitar a África de hoje, notadamente aquela parte do continente mais atingida pelo genocídio iniciado com a chegada dos europeus no século 15.

Quem se dispuser a conhecer um pouco dessa tragédia saberá que a mesma Humanidade que, hoje, justificadamente se extasia diante de um Michelangelo também há de se tocar com a beleza naturalista dos bronzes de Ifé e Benin, obras de autores africanos cujos nomes, infelizmente a História não registrou – talvez como recurso para atribuir a extrema beleza dessas obras a artistas europeus, como já se tentou fazer sem sucesso. Como compreenderá também, por mero exemplo, a grandeza artística dos negro spirituals, canções que, segundo a melhor musicologia, produzem seu indescritível efeito pelo emprego de uma escala ( pentatônica) completamente diversa das convencionais seqüências de tons maiores e menores da música ocidental, e desconhecida na Europa até pelo menos o século 19.

Da mesma forma, quem, em busca de conhecimento, for além do que hoje, no Brasil, oferecem as universidades e as listas de best-sellers, vai saber que, bem antes de Alexandre, no século 15 AC, o negro Tutmés III, príncipe núbio (filho bastardo que Tutmés II levou para a corte faraônica), quando no poder, estendeu seus domínios até a Ásia, inaugurando a era do imperialismo egípcio. Com ele, o Estado egípcio atingiu o maior momento de sua expansão territorial, subjugando povos e reinos até a Mesopotâmia, chegando, mesmo, à Europa mediterrânea. Assim, até as vésperas de sua morte, todos os reinos das margens do Eufrates à quarta catarata do Nilo, eram seus tributários. Cerca de 700 anos após esse Tutmés, uma dinastia de reis núbios, negros portanto, tomou o Egito, governando-o por cerca de 90 anos. Esse período inicia-se com o faraó Piye-Piankhi, o qual, liderando uma revolução nas artes de na cultura e, após unir as civilizações do Vale do Nilo, restaurou templos e monumentos, transferindo a capital de Tebas para Napata, no atual Sudão. Noutra dimensão histórica e geográfica, vamos ver que, antes de Cristóvão Colombo, Abubakar II, imperador do Mali, adentrou o Atlântico com cerca de duzentas embarcações de pesca e chegou ao México atual, por volta de 1312.

Na mesma medida, é preciso mostrar que a Ciência que pauta seu saber pelos ensinamentos de Platão, discípulo do egípcio Chonoupis; de Sócrates, que estudou na cidade egípcia de Busíris; e de Aristóteles ( “os que são excessivamente negros são covardes e isso se aplica aos egípcios e etíopes”, disse ele) ou mesmo pelos ensinamentos do Eclesiastes bíblico, igualmente inspirado na filosofia kemética (do antigo Egito); essa Ciência talvez também pudesse guiar-se, acaso a conhecesse, pela visão de mundo contida no conjunto de muitos milhares de parábolas enfeixadas no corpo de ensinamentos do oráculo iorubano de Ifá. E mais: os que ainda acreditam que Hipócrates foi o “pai da medicina” certamente nunca ouviram falar no egípcio Imhotep. Como os admiradores de Napoleão seguramente nunca souberam do zulu Chaka, o comandante africano mais temido pelo imperialismo europeu no século 19, por força das inovações, estratégias e armamentos que criou, até sua morte em 1828. Da mesma forma que até mesmo os cristãos mais esclarecidos certamente não sabem que o orixá Ogum é venerado, na África e nas Américas, por ser a divindade da tecnologia (que ensinou os homens a domarem o ferro), dos negócios militares, do trabalho e, conseqüentemente, da prosperidade e da saúde.

Finalizando este texto, sob a inspiração de W.E.B. Dubois, André Rebouças, Abdias do Nascimento, Milton Santos, e outros não menos, perguntamos: o que seria da música popular que se consome hoje em escala planetária se não fosse a arte musical criada pelos afro-descendentes nos Estados Unidos, no Caribe e no Brasil?

É por tudo isso que não nos consideramos “brasileiro negro” nem “negro brasileiro”. Somos, sim, com muito orgulho da ancestralidade que cultuamos, um afro-descendente, integrante de uma maioria etnocultural num país em que, por razões que muita gente esclarecida ignora ou finge ignorar, uma parcela minoritária da população detém o poder político e econômico e manipula o conhecimento, desde sempre. E a essa minoria é mais conveniente ensinar aos jovens, nas escolas, que a proposta de se estudar a África, “terra dos negros”, é uma “declaração de ignorância”.