Quinta-feira, Julho 31, 2008



O VELHOTE NO MEMORIAL (SP) E NO RIVAL (RJ)

Depois do memorável "Samba Novo", no Renascença Clube, o incansável Velhote do Lote (acima, em foto de Ierê Ferreira) canta pros "da garoa" e os "da gema" quase ao mesmo tempo.

Nesta sexta, jongos, lundus, curimbas e sambas, com o acompanhamento esperto da Orquestra Fina Flor, vão inundar a Barra Funda e a Paulicéia, no Memorial da América Latina, durante a reunião internacional do CNAB, Congresso Nacional Afro-Brasileira, ativa entidade presidida pelo venerando poeta Eduardo de Oliveira.

Já no sábado, o Velhote "faz fita" na velha Cinelândia, no Teatro Rival, invocando seu direito a "Prisão Especial" e sacudindo seu "Xequeré", no show de lançamento do novo CD do aplaudidíssimo Quinteto em Branco e Preto (orgulho de Sampa) "Patrimônio da Humanidade".

É... desse jeito, Seropédica (que já está no caminho) acaba se mudando pra São Paulo!




Terça-feira, Julho 29, 2008



O BICHO PEGOU NO RENA. VITÓRIA!
(Quem Não Foi Perdeu)


Domingo 27, o tradicional Renascença Clube viveu uma tarde/noite de gala no pagode "Samba Novo", organizado pelos amigos Cláudio Jorge, Hugo Sukman e Baiano nos últimos domingos de cada mês.

Quanta gente bonita! Quanto reencontro de velhos amigos! Quanto axé bom, minha gente!

Pra que se tenha idéia do que rolou, numa festa absolutamente única, onde o samba foi apenas pretexto (e que pretexto!), leiam o e-mail que o Lote acaba de receber. Vejam só:

"Nei Lopes, meu irmão: Quero te agradecer do fundo do meu coração o axé que você levou para o nosso evento. Você e Sônia estavam ótimos como nos nossos melhores momentos, nos velhos tempos. Tuas palavras dizendo que ninguém tava ali de bobeira soaram pra gente como um presente; e você chamar o Luiz Carlos [da Vila] pra cantar o samba-enredo do Solano Trindade fez tocar um tambor que detonou tudo no Rena. Os Orixás pintaram lá ontem! Ainda bem que tá tudo gravado. O testemunho das pessoas no final, o Ferraz [presidente] dizendo que nunca tinha visto "aquilo" no Rena, ele sentindo "uma energia vindo do chão", tudo isso foi proporcionado em grande parte por conta da tua presença. Beijos mis. Obrigadíssimo.
a) Cláudio Jorge".

A coisa foi tão boa, gente, que o Lote não quis esperar as fotos e ilustra esta nota com um "caô", de outro pagode bom. Só que lá em Vitória...




Segunda-feira, Julho 28, 2008



SOLANO TRINDADE (1908 – 2008)
O Centenário do Poeta da Negritude


Em 1978, a importante revista Estudos Afro-asiáticos, editada pelo CEAA da Universidade Cândido Mendes, no Rio, em sua edição nº 2, publicava um artigo do brasilianista David Brookshaw, intitulado “Quatro Poetas Negros Brasileiros”. No texto, o professor inglês, abordando a poética desses escritores, ressaltava que ela era “marcada por uma busca de identidade cultural num mundo branco hostil, ora através de tentativa de integração nesse mundo (Lino Guedes e Eduardo Oliveira), ora pela negação dos valores que ele impõe (Solano Trindade e Nei Lopes)”.

O Nei Lopes analisado no texto ainda era inédito em livro, tendo Brookshaw partido, em sua crítica, de um conjunto de poemas apenas datilografados. Mas os outros, embora vítimas do véu de indiferença e invisibilidade que lamentavelmente ainda se estende sobre a maioria de nós, já eram estudados e reconhecidos como grandes vozes do povo negro. Principalmente Solano Trindade.

Autor do célebre poema “Tem Gente Com Fome”, sucesso nos “jograis” do CPC e congêneres, Solano Trindade nasceu em 24 de julho de 1908 em Recife, filho de um sapateiro, que era também comediante nas horas vagas, e de uma cozinheira. Homem de idéias e grande agitador cultural, o poeta fundou, no Rio, entre outras organizações, o Teatro Popular Brasileiro; e, em São Paulo, foi o principal impulsionador de um movimento que fez nascer, na cidade de Embu, o que hoje se conhece como “Embu das Artes”.

Sobre Solano, David Brookshaw escreveu: “Trindade incorporou temas afro-brasileiros em sua poesia, o ritmo dos tambores servindo de fundo para seus versos. (...) [Para ele, ao contrário de Lino Guedes, que via o samba como um ópio do negro] a pura experiência sensorial induzida pelos tambores desempenhava a mesma função que o sexo. A vitalidade que ambos transmitiam era fonte de inspiração poética, sendo a poesia, por sua vez, meio para expandir uma mensagem social revolucionária. Bastide carinhosamente classificou os poemas de Trindade como um misto de Xangô e Marx”.

Grande Solano, que conheci já no finzinho da etapa terrena, encerrada em 1974! E, para o qual, eu e os sempre grandes amigos Zé Luiz do Império e Luiz Carlos da Vila escrevemos um samba-enredo quilombola, fragorosamente derrotado em Acari, às vésperas do carnaval de 1981, mas recentemente gravado pelo nosso “Dávila”, e cuja letra diz assim:

“Quilombo vem, /com a singeleza de um maracatu, /cheiroso como um lote de cajus, / delicioso feito um mungunzá. /Vem exaltar, / render tributo ao quilombola pioneiro/, gênio do pensamento afro-brasileiro, / filho dileto de Oxalá, /que fez soar, no tambor dos oprimidos, /esses valores esquecidos: /negritude e liberdade! / Poeta negro, /pintor das negras aquarelas, /cantor de páginas tão belas: / a bênção, Solano Trindade! (No Recife!) // Recife, das velhas guerras de libertação! / No ano dos 20 anos da Abolição/ nascia este gigante das idéias /que o Rio e a Paulicéia/ consagrariam. /Neto de negra que lutou /na Revolta dos Malês, / igual a couro de tambor /quanto mais "quente" mais tocou, /quanto mais velho mais zoada fez. /Por isso, agora, /que o poeta está dormindo, /sonhando com um dia lindo /que certamente vai raiar (raiar) / Quilombo vem, /com a singeleza de um maracatu, / cheiroso como um lote de cajus, /o velho Solano homenagear”.

Como o samba perdeu fragorosamente, no dia seguinte, pê da vida, subi o Morro do Pinto, com o “Dávila”, naquela do “escurinho” do Geraldo Pereira: a fim de qualquer negócio, até de acabar com o samba. Foi aí que, em frente àquela pedreira que tinha lá na quadra dos Independentes, Xangô e Oxum reescreveram belamente meu destino. Mas isso é outra história. Porque o Centenário é do Solano Trindade e a festa é no Embu das Artes.




Sexta-feira, Julho 25, 2008



O LOTE ABRE O PANO COM CLARA NUNES

O Lote foi tirar uma chinfra no 21º Festival de Inverno de São João Del Rei, que este ano, numa promoção da Universidade Federal local, homenageou Clara Nunes.

Fomos bater um papo sobre a presença dos nossos orixás na obra da Guerreira. E ficamos extremanente felizes em saber, entre outras coisas o seguinte:

Que o deprtamento cultural da Universidade ocupa um solar colonial da pesada, num local privilegiado, em frente à Igreja de Nossa Senhora do Carmo.

Que, quando posto à venda, o imóvel foi cobiçado pelos ousados empresários da autodenominada "Igreja Universal do Reino de Deus", os quais sempre dobravam as ofertas.

Que, entretanto, o Bispo da Diocese, entrou no circuito e deu um xeque-mate no "bispo", chamando a senhora proprietária à razão. Ai, então, a negociação com a Universidade pôde se concretizar e povo de São João pôde continuar em sua santa paz.

De nossa parte, a turma de lá gostou de saber das ligações do "bispo" com o falecido Tancredo da Silva Pinto, nego-velho malandro, do Estácio, fundador da Confederação Umbandista do Brasil, da União das Escolas de Samba e autor do samba "General da Banda", que foi pai-de-santo do "Macedinho".

O Lote, assim como a saudosa Clara Nunes, "abriu o pano do passado". E, na foto (by Ruy Quaresma), o Velhote tira uma de turista em frente à igreja de São Francisco.




Terça-feira, Julho 22, 2008

O EXEMPLO VEM DA FLÓRIDA, AMIGO ELOÁ!

Na lufa-lufa pra colocar o ponto final no nosso Dicionário de Religiões Africanas nas Américas (nome provisório), de repente surge uma novidade (de 15 anos atrás) da qual já tínhamos ouvido falar mas não conhecíamos detalhes.

A “novidade” rendeu um verbete consistente, que temos a alegria de dedicar ao nosso amigo Dr. Eloá dos Santos Cruz, jurista afro-descendente, que, com a força de seu pai Xangô vem há doze anos, sozinho, e através de uma Ação Popular, sustentando uma titânica luta judicial contra a privatização da Vale do Rio Doce, como em breve detalharemos.

Leia aí, Eloá! Veja a luz lá no finzinho do túnel. Olhe aí o caminho pro povo-de-santo ficar internacionalmente unido e mais forte!

Leiam e reflitam, caríssimos e lúcidos visitantes, independente de origem étnica ou orientação religiosa!

Church Of The Lukumi Babalu Ayé (CLBA). Congregação religiosa fundada em 1974 na cidade Hialeah, na Flórida, um dos Estados Unidos da América. Primeira entidade de culto aos orixás iorubanos criada no país, pugna pela pureza da tradição em relação à matriz afro-cubana, fora de qualquer variação sincrética e por ser reconhecida como a grande referência da REGLA DE OCHA fora do Caribe. Congregando membros de cerca de 35 nacionalidades, segundo sua página na Internet, em 1993 deu prova de sua força quando conseguiu, na Suprema Corte, vencer uma demanda assim resumida, conforme a decisão do alto tribunal: A CLBA alugou em Hialeah, Florida, uma propriedade onde planejou estabelecer um complexo de igreja, escola, centro cultural e museu. Sua religião é a santeria, que surgiu no século 19 em Cuba e adota o sacrifício de animais, além do tratamento de doenças, entre outras práticas de sua tradição. Entretanto, contrariando o propósito da CLBA de realizar rituais a céu aberto, a cidade de Hialeah promulgou vários ordenamentos no sentido de coibir tais práticas, proibindo expressamente, em decreto de junho de 1987, o sacrifício de animais de qualquer espécie. Em 1993, porém, a Suprema Corte, em decisão unânime, anulou esse decreto. A decisão baseou-se em princípio constitucional que garante a todos os indivíduos a liberdade de exercer sua religião. Embora o sacrifício de animais possa parecer abominável a algumas pessoas – assim entendeu o juiz relator – crenças religiosas não precisam ser aceitas, lógicas, consistentes ou compreensíveis a olhos alheios, nos termos da proteção concedida pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos da América

(cf. http:// atheism.about.com/library/decisions/religion/bl_1_LukumiHialeah.htm).

Observe-se mais, como dissemos em texto anterior, que, na santería, como no candomblé, os animais sacrificados, depois de oferecidos às divindades, vão pra mesa, para serem gostosamente compartilhados pela comunidade de fiéis.




Segunda-feira, Julho 21, 2008

UM MACUMBEIRO RAÇUDO E BOM DE BOLA

Mexendo aqui na papelada e nas revistas velhas (dessas que, por estratégia comercial, não informam o mês e o ano de sua publicação, e aí não podem ser citadas nas bibliografias), encontro um depoimento do pai-de-santo Jamil Rachid, paulistano de origem libanesa, líder da Umbanda em seu Estado, presidente que é da “União das Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil”.

“Tudo o que é feito por Deus é encaixado direitinho, porque Deus faz as coisas certas, nós é que fazemos tudo errado”, mete lá o Pai Rachid a certa altura do depoimento. E completa: “Um dia, fui a esse templo [um “centro espírita”] e justamente o Pai Jaú era o dirigente. Isso em 1948, quando eu tinha cerca de 17 anos. No primeiro dia que assisti, caí; a entidade me pegou e me judiou.”

O engraçado é que nós já tínhamos ouvido falar no Pai Jaú, negão paulista, jogador de futebol e pai-de-santo, craque da seleção de 38. Aí, fomos lá no “Guia dos Craques”, de Marcelo Duarte (São Paulo, Abril Multimídia, 2000) e encontramos:

“JAÚ, Euclydes Barbosa (São Paulo, SP, 1909 – 1988: Marcador viril, raçudo, entrava nas divididas para ganhar. Um dos heróis corintianos da década de 30, foi bicampeão paulista em 1937/38. (...) Disputou a Copa de 1938 e fez dez partidas pela Seleção. Ao abandonar a carreira, Euclides se transformou no pai-de-santo Jaú, devoto de Ogum e filho de Xangô”.

Tá explicado o “marcador viril, raçudo, que entrava nas divididas pra ganhar”.




Sexta-feira, Julho 18, 2008



SAMBA E MACUMBA: O LOTE EM NOVA IORQUE

Numa atividade de intercâmbio do SESC-São Paulo (sempre ele!) com uma entidade norte-americana, o "Berço do Samba de São Mateus" (show e CD aqui noticiados no ano passado) esteve, em junho, na cidade de Nova Iorque. No Harlem e na Broadway, bilivem-me!

Durante uns dez dias, os mano da perifa (mas de sapatos bicolores e chapeuzinhos panamá de abas curtas, como os minino do Quinteto em Branco e Preto), cantaram, sambaram, batucaram, tiraram chinfra e ainda se emocionaram vendo e ouvindo um coral de crianças do Harlem cantando "Bahia de Todos os Deuses", samba-enredo salgueirense de 19... Entretanto, por mais ameizing e ambilívabou que possa parecer, nesse intercâmbio, a macumba ficou por conta dos bróders. É que, embora muita gente não saiba, a busca das raízes africanas está cada vez mais firme por lá. E em termos religiosos essas raízes, infelizmente, estão, hoje, cada vez mais perto deles do que de nós. Explicamos.

No finalzinho dos anos 30, a mitológica bailarina e coreógrafa Katherine Dunham, mestra da nossa querida Mercedes Baptista, indo a Cuba pela primeira vez, lá teve seu contato inicial com a tradição dos Orixás lucumís (iorubanos). Em 1952, já iniciada, recrutou os músicos rituais Julito Collazo e Francisco Aguabella para integrarem sua companhia de danças, digamos assim, étnicas. Filho da renomada ialorixá Ebélia Collazo e exímio tocador de batá (o tambor criado por Xangô), Julito tornou-se, então, o pioneiro de um pequeno grupo de iniciados que estabeleceu e desenvolveu o culto aos Orixás em Nova Iorque.

De lá pra cá, a coisa só fez crescer. Inclusive com uma decisão da Suprema Corte, na década de 1980, legitimando o sacrifício de animais em oferendas - principalmente porque, na melhor tradição, depois de eles serem oferecidos às Divindades, suas partes comestíveis são alegremente saboreadas pela comunidade de fiéis. Mas, antes disso, e até 1958, muita gente importante foi a Havana, Matanzas e Santiago de Cuba fazer santo. E, após o "bloqueio", o endereço "610 W, 136th. St, Manhattan" fez fama como espaço de culto, motivando a abertura de vários outros.

Em 74 era fundada na Flórida, a "Church of the Lucumi Babalú Ayé", título que pode ser traduzido, em bom brasileiro - e sem aquela escrita complicada de que os presepeiros e marmoteiros tanto gostam - como "Igreja do Obaluaiê (Omolu) Iorubá (nagô)". No ano seguinte, o primeiro conjunto de tambores anhá, de grande fundamento, consagrado a um orixá já desaparecido no Brasil, era sacralizado em Miami.

E foi isso o que mais surpreendeu o "Berço do Samba de São Mateus" em Nova Iorque: os bróders de fios-de-conta no pescoço, nas cores de seus respectivos "orisha", orgulhosos e felizes de ver o mesmo nos seus resistentes irmãos de São Mateus. Certamente sem saberem que uma das fotos que ilustrava o cartaz de divulgação da programação (essa aí de cima, que figurou ao lado da foto de Tia Cida, a charmosa filha do general-da-banda, o não menos saudoso cantor Blecaute) era de um irmão também, iniciado na fronteira do Rio com a Baixada, na decisiva década de 70, e "reciclado", via Havana, no início deste novo Século.

Foi assim, então, que, bem longe da intolerância irracional dos tabernáculos, diáconos, presbitérios, ministérios e louvores gospel de araque; foi assim que o Harlem e a Broadway transformaram-se, por alguns dias, na gloriosa "periferia" aqui deste nosso Lote virtual.

Modupê, Babá Mi!




Quarta-feira, Julho 16, 2008

O ECTOPLASMA DO SAUDOSO JORNAL DO BRASIL BAIXOU NO LOTE

O falecido Jornal do Brasil, onde um dia brilharam os saudosos Juarez Barroso, Lena Frias e Marta Caballero; o internacionalmente respeitado historiador José Ramos Tinhorão e outros nomes importantes, de vez em quando, como bom espírito obsessor que é, sai da tumba e vem assustar a gente aqui no Lote. E ontem, dia 15 de julho (véspera do "fantasma de 1950"), o fantasmagórico periódico, em forma de ectoplasma, voltou a assombrar.

O "ecto", desta vez, foi um garotão chamado MÁRIO MARQUES, ex-morador daqui da Baixada, hoje emergente da Barra e metido a crítico de música. E que mandou a seguinte letra. Prestem atenção!

"No último fim de semana (...) procurando um show para o sábado, dividi-me entre Alexandre Pires, Dorina, Galocantô, Henrique Cazes, Samba com Atitude, Sururu na Roda, Ana Costa e Conversa de Botequim. Dos cerca de 30 artistas da programação, mais da metade era de samba. Numa cidade em que o sujeito de bem não pode tomar uma taça de vinho e dirigir, mas pode tomar tiros a esmo de traficantes e da polícia, que não tem um cardápio variado de shows e que é perseguido pelo loteamento de blockbusters, a sentença mínima a ser dada é: o Rio de Janeiro está morto."

**

Cariocas e fluminenses de todos os quadrantes, uní-vos! O e-mail do "ectoplasma" é mariomarques@jb.com.br.

E... ô, Jornal do Brasil! Revertere ad locum tuum, pô! E não enche mais o saco da gente! Vai assombrar o ... deixa pra lá...




Terça-feira, Julho 15, 2008



Eleguá mandou chamar.
E o SAMBA vai rolar!
HOJE, dia 15, às 20h,
na
MODERN SOUND
Rua Barata Ribeiro, 502
lançamento carioca do
DVD de
NEI LOPES

Com a luxuosa participação da Banda Fina Flor.
Grátis, mediante reserva: 2548.5005




Segunda-feira, Julho 07, 2008



O ANJO-DA-GUARDA DO SAMBA

Sábado, a “van do Honnneur”, o francês que presta serviços à “Rede Hilton” (que inclui o magnífico Candongueiro, complexo sambístico-etilo-gastronômico em Marie-Paule, no condado de Pen d’Autibah) saiu daqui do Lote levando nossa comitiva pra comer uns pasteizinhos de siri, tomar umas timbucas e eventualmente cantar uns pagodes lá do outro lado da poça.

Samba vai cerveja vem, o Hilton, dono da rede (aqui, minúscula) e da inigualável Dona Hilda, manda a notícia:

– O Luiz Grande tá doente...

Esse Luiz, pra quem não sabe, é o Grande compositor da Imperatriz, autor ou co-autor de sambas antológicos dos repertórios de João Nogueira, Zeca Pagodinho e muitos outros – como “Maria Rita”, “Parabólica”, “Dona Esponja” ... – alguns deles em parceria com Barbeirinho e Marcos Diniz, seus companheiros do Trio Calafrio.

Mas a má noticia é logo suavizada :

– Se não fosse o Doutor Bigu... Não sei, não...

“Doutor Bigu” pra quem não conhece, é o apelido do médico Jorge Luiz do Amaral (na foto meio antiga, lá em cima), professor da Escola de Medicina Souza Marques, diretor da Federação Nacional dos Médicos e do Sindicato de sua categoria no Rio de Janeiro, membro da Comissão Intersetorial de Recursos Humanos do Conselho Nacional de Saúde e autor do estudo “Avaliação e transformação das escolas médicas: uma experiência brasileira na ordenação de recursos humanos para os SUS, nos anos 90”, com que se fez mestre na UERJ.

Sentiram? É um médico daqueles da antiga, preocupado com o social e não com os presentinhos e viagens a congressos fajutos com que os “empurroterapeutas” se deixam subornar pela indústria farmacêutica multinacional.

Brasileiro, socialista e de gosto refinado, Bigu há muito que fez sua opção preferencial pelo Samba. E aí, juntando o útil ao agradável, carregando na maletinha preta um estetoscópio e um agogô, ele se tornou o anjo-da-guarda do samba. Querem ver?

Luiz Carlos da Vila tá aí forte, bonitão e cada vez mais inspirado, graças a quem? Ao Doutor Bigu.

Meu parceirão Wilson Moreira igualmente recebeu, na hora crítica, toda a força do Bigu. O compositor Bandeira Brasil, também, recentemente – me conta o Hilton – foi acolhido sob as asas deste grande amigo de nós todos. E muitos e muitos outros.

Doutor Bigu é o cara! Aquele certo nas horas incertas. Aquele que é capaz de tirar o jaleco pra estancar o sangue das feridas que quase todo sambista carrega, no corpo ou na alma, nesses tempos de capitalismo selvagem, em que qualquer triozinho de roqueiros vagabundos é uma banda; e nós, sambistas, “não somos nada” – como disse o velho Lima pela boca de sua/nossa filha Clara dos Anjos.

Mas nós ainda temos o Doutor Bigu. O médico da família sambista e de todos aqueles que não podem se dar ao “luxo” de pagar um plano de saúde.

Mas...Não! Pêra aí! O Bigu não é candidato a nada, não! Pelo menos enquanto não vagar a cadeira de Imhotep (o verdadeiro pai da medicina, Egito, 2700 AC) lá em cima. Não é, Bigu?

Que Inlê-Ábata e Babá Oluayê, os médicos dos médicos, te protejam!




Sexta-feira, Julho 04, 2008



LANÇAMENTO DO DVD "NEI LOPES - AO VIVO"

9 de julho - quarta - 18h

SESC Vila Mariana
Rua Pelotas, 141
São Paulo - SP
(11) 5080.3000







MEU IRMÃO MAVILE

Meu Dicionário da Antiguidade Africana, há 2 anos no prelo da Editora Civilização Brasileira, tem uma dedicatória assim redigida:

“Para meu irmão Ismar Braz Lopes, o “Mavile”, operário gráfico que, nos anos de 1950, ao me presentear com meus primeiros livros, inoculou em mim o amor pelas Ciências da Humanidade”.

E o fato é que tenho até hoje pelo menos um desses livros, aos quais veio se juntar, em 1977, um exemplar, encadernado em capa verde, da primeira edição do pioneiríssimo Dicionário de Cultos Afro-Brasileiros de Olga Gudolle Cacciatore, no qual chama a atenção, escrita em tinta também verde de caneta pilot, naquela caligrafia inconfundível, as letras nunca se juntando e sem o uso de nenhum ponto ou vírgula (absolutamente dispensáveis) esta outra dedicatória:

“Para o Nei com todo carinho do Ismar (Mavilis) 25.12.77”.

Pois é. A origem do apelido, grafado de forma diferente por mim e por ele, estaria num clube de futebol do antiga Praia do Caju onde, ainda bem pequenininho, meu irmão teria sido encontrado depois de se perder, num giro pelas redondezas, andarilho que já era. O nome do clube deveria ser, provavelmente Ma Ville (do francês, “minha cidade”), talvez de uma fábrica ou empresa francesa ali estabelecida. Mas, para ele, sempre foi “Mavilis”, substantivo paroxítono, com jeito de latim.

Só que, há algum tempo, por conta dessa mania de dicionário com a qual ele muito colaborou para me enfeitiçar, descobri que “Mavile” é uma entidade do povo Cabinda, andarilho, safado, biriteiro, mulherengo, nem bom nem mau. E aí, sacramentei a grafia.

Pois foi meio assim igual a esse Mavile congo meu irmão Ismar, que partiu para a Outra Dimensão na manhã do dia 2 de julho, dia dos Caboclos. Partiu aos 77 anos, deixando uma lembrança muito boa. Principalmente do tempo em que seu temperamento meio inconseqüente ainda não era uma doença: era só um jeitinho moleque capaz de frases como esta:

- Ah! As melhores coisas da vida são três: cerveja gelada, empada e Jorge Ben!

Isso no tempo em que a cerveja era inocente, a empada tinha recheio, e o Jorge Ben era o Jorge Ben mesmo.

Saudade do meu irmão... Ibaê baiê torum!