Terça-feira, Abril 29, 2008
CHARLES AZNAVOUR PINTOU NO LOTE
Como no Lote mora uma professora de francês, de vez em quando rola aqui um Que c’est triste Venise, embora o Velhote seja um pouquinho mais chegado a um certo Gilbert Becaud.
Mas Aznavour é Aznavour . E quando ele pintou no pedaço aí da Capital e disse que não vinha aqui porque não anda de van, mototáxi ou qualquer tipo de transporte alternativo, quase que a gente foi ver. Mas, como não deu, a gente se contentou em botar o disco e ficar olhando o retrato dele, com aquela cara de Renato Aragão inteligente, na revista da CISAC, la Conféderation Internationale des Autours et des Composeurs.
Foi no ano passado, já há quase um ano. Mas vale o registro, porque as discussões, lá, em Bruxelas, centraram-se principalmente no impasse que se estabeleceu entre a criação e a produção musical no âmbito do mercado e das novas tecnologias. E foram quentes.
A idéia predominante hoje, no meio internacional da música, é aquela segundo a qual, por ser business, a música seria algo subsidiário, que vem atrelado a um produto, sendo então mais relevante ocupar-se o mercado com esse produto do que criar-se obra musical artisticamente boa e destinada a permanecer.
Nesse quadro de deseducação progressiva, como diz aqui o grande maestro Marcus Vinícius de Andrade, presidente da nossa AMAR, embute-se um processo de despersonalização, no qual o quer vale é criar música para, por exemplo, botar ringtone em celular, sonorizar videogames e outros brinquedos nem sempre inocentes. Contra isso, segundo o relato do Marcão, que estava lá, insurgiu-se, no plenário da CISAC, Monsieur Aznavour, conclamando os presentes, em veemente discurso na língua de Racine (“bom mesmo é Molière”, diria o Zé Trindade) a não negligenciarem a boa gestão de seus direitos em nome de uma alegada modernidade digital e em beneficio das empresas multinacionais que exploram economicamente as obras de autores e compositores.
Foi aí que nós aqui em casa ficamos ainda mais fãs do Aznavour. E cantamos, em duo: “La Bohème, La Bohème / Cést bien meilleur que Scarriol...”
Cruz créu!
por Nei Lopes 09:03
Terça-feira, Abril 22, 2008
CAFUNDÓ - UM FILME DA PESADA, UMA HISTÓRIA SURPREENDENTE
Paulo Betti, grande ator e realizador, envia para o Lote esta mensagem:
"Nei, amigo, fiquei feliz que você tenha visto o Cafundó.
Se tiver um tempo veja o nosso site
www.cafundo.com.br
lá tem o artigo do Florestan fernandes escrito em 1942. "Contribuição para o estudo de um lider carismático".
Ele tinha 22 anos quando escreveu.
E no DVD tem o extra com a entrevista dele realizada 50 anos depois.
Fecha um ciclo.
abração,
paulo".
E o Lote recomenda. Orgulhoso, pelas amizades do Betti e do grande ator Lázaro Ramos, protagonista da história.
por Nei Lopes 17:40
O Lote convida
(mas não dá o banquete):
SAMBA NOVO
"Sambas inéditos nas vozes de seus criadores"
Estréia dia 27 de abril
Renascença Clube
R. Barão de São Francisco, 54, Andaraí.
A partir das 14 horas
Atrações de Estréia: Cláudio Jorge e Luiz Carlos da Vila
Cozinha a cargo dos chefes Baiano do Getúlio e Jorge Ferraz
Sempre no último domingo do mês.
Couvert artístico: Cavalheiros, R$10,00
Damas R$ 5,00
por Nei Lopes 17:39
Sexta-feira, Abril 18, 2008
MORREU AIMÉ CESAIRE
(Martinica, 1913 – 2008)
Viva a Negritude! Viva a Poesia!
por Nei Lopes 18:12
Quarta-feira, Abril 16, 2008
1º SEMINÁRIO NACIONAL DA MÚSICA INDEPENDENTE
Irmã de Juca Kfouri Bate uma Bola Redondinha. No Nosso Time.
Entre as grandes figuras presentes ao Seminário da Música Independente a que o Velhote do Lote compareceu, em Curitiba, nos dias 12 a 14 últimos, estava a jornalista Maria Luiza Kfouri, cobrindo o evento para o Music News. Jogando bonito, pro time, a alegre e simpática periodista fez um gol de placa, na 2ª. Feira. Pois, vejam só o que ela escreveu, na edição do dia 15 de sua folha, sobre a bola mais alta levantada no Evento. Leiam e pasmem:
“Para que se tenha uma idéia do massacre a que a produção independente tem sido constantemente submetida, peço ao leitor a
atenção ao que se segue.
“Em 2007, as quatro gravadoras multinacionais que atuam no Brasil lançaram, no total, 130 novos discos, dos quais, 75 são licenciamentos de música estrangeira. A EMI lançou 9 novos títulos nacionais e 11 licenciamentos; a Sony-BMG, 17 nacionais e 25 licenciamentos; a Universal, 24 nacionais e 25 licenciamentos; e a Warner, 5 nacionais e 14 licenciamentos.
“Enquanto isso, 63 gravadoras independentes lançaram 784 novos discos. Estão excluídos deste número aquelas que trabalham principalmente com licenciamentos internacionais e os músicos que se autoproduzem, estes últimos pela impossibilidade de ser contabilizados.
“No entanto, a grande indústria do disco ocupou 87,37% do espaço das rádios comerciais brasileiras, contra apenas 9,82% do espaço dado à música produzida pelas independentes. O cálculo final não fecha em 100% porque os dados referentes à gravadora Som Livre não estão contabilizados. Mas, os números disponíveis são eloqüentes e falam por si.
“A relação inversamente proporcional entre produção e veiculação é, no mínimo, perversa e revela os mecanismos nada honestos utilizados, de um lado, pela grande indústria e, de outro, pelas emissoras comerciais que vendem seu espaço, forjam o ‘sucesso’ e, como se isso não bastasse, não pagam os direitos autorais. Mais da metade das emissoras comerciais brasileiras não está cumprindo seus deveres em relação ao ECAD. Ou seja, estão fora da lei, motivo mais do que suficiente para que suas concessões sejam cassadas. Temos, assim, um modelo em que impera a ditadura do mercado em detrimento da cultura e da identidade nacionais e no qual, normalmente, o mau gosto impera”.
Viram? Brabeza, não? É por isso que está cada vez mais difícil viver de música no Brasil. Mas a rapaziada está reagindo e o Seminário resultou numa Carta esperta. Que pode ser lida no “lote” da nossa Associação, www.amar.art.br. Vamos lá?
por Nei Lopes 17:44
Coral de Cânticos Sagrados - IYÚN ASÉ ORIN
Inscrições abertas para todos os naipes!
VENHA CANTAR CONOSCO!
VENHA SE EMOCIONAR COM AS MÚSICAS SAGRADAS DE MATRIZ AFRICANA!
NOSSO OBJETIVO é o de divulgar um dos aspectos mais significantes da cultura negra brasileira na diáspora, isto é, a música, o canto e os instrumentos que acompanharam os africanos para o novo mundo. Os cânticos falam de dilemas existenciais como vida e morte de heróis civilizadores e da relação com a natureza vivenciada, como lugar, privilegiado da experiência humana. A nossa luta é pela igualdade social, econômica e política dos afros descendentes na atualidade, além de mostrar que o belo é fonte de entretenimento, educação e valorização da cultura negra no Brasil.
Dr. José Flávio Pessoa de Barros
Confirme sua inscrição por telefone ou e-mail.
Contatos com o Coral Iyún Asé Orin (Coral de Cânticos Sagrados):
Aduni Benton: E-mail: abenton21@yahoo.com.br - 21-2502-5015 / 21-9482-6863
Lucinha Pesssoa: E-mail: lucinhapessoa@gmail.com - 21-2493-8120 / 21-8229-9891
Local dos ensaios: UERJ, na sala de música
Dias: 2ª e 5ª feiras - 19h às 21h
Investimento: A SUA ALEGRIA DE CANTAR
por Nei Lopes 16:37
UMA VISITA MUITO ILUSTRE
Terça-feira 15 foi dia de festa no Lote. Pintou no pedaço, pelas mãos do amigo, parceiro e produtor Ruy Quaresma, o grande músico brasileiro Jorge Degas.
Pra quem não conhece, Degas (o mais novo aí da foto) é baixista, cantor, compositor e produtor de discos. Nasceu em 1953 no Rio, tornou-se músico profissional aos 17 anos, depois de ralar em todas aquelas ralações de negro pobre, pobre, pobre de marré de si e passar por todas aquelas provações que a gente pode imaginar.
Entretanto, moleque esperto e inteligente, sozinho, autodidata mesmo, tornou-se um virtuose do contrabaixo elétrico. Então, fez seu nome, tocando com Al Di Meola, Bob Moses, Robertinho Silva, Paulo Moura, Martinho da Vila e Alceu Valença, entre outros, no Brasil, na Europa, na África e na América hispânica. Aí, tocou no Festival de Montreux, no Free-Jazz, no Rock in Rio, em grandes festivais em Londres, Paris, Copenhague, Berlim, Nice, Lyon, Cascais e outras paradas. Além disso ,participou de centenas de CDs como músico de estúdio ou artista convidado; e tem composto trilhas para cinema e televisão.
Há alguns anos Jorge Degas mora na Dinamarca. Bem paca! Do jeito que fez por merecer. Com direito a uma fazenda, pra curtir com a numerosa família, hoje acrescida de dois loirinhos que o governo de lá o incumbiu de acabar de criar. Tudo isso depois de ralar tudo que a gente falou lá em cima, o que lhe rendeu uma história de vida daquelas que dão livro e filme.
O Brasil dos “domingões”, “caldeirões” e “celebridades” não conhece o Degas. Mas o “degas aqui” (como se dizia antigamente) teve a honra de receber no Lote esta verdadeira celebridade brasileira. Ao redor de um tremendo caldeirão de tripa à lombeira preparado a quatro mãos por Donas Sônias. Numa terça-feira faustosa, com cara de domingão. No bom sentido, é claro!
PS: Pra quem quiser saber mais sobre o Degas, olha aí: http://www.jorgedegas.dk
por Nei Lopes 13:06
Sexta-feira, Abril 11, 2008
MÚSICA POPULAR BRASILEIRA E DEPENDÊNCIA
Os tratores multinacionais são cada vez mais agressivos na floresta onde agoniza, cantando, o sabiá.
Cumprindo sua profética vocação de itinerância, o Lote estará neste sábado em Curitiba, participando de um seminário sobre música independente, patrocinado pela Secretaria de Cultura local, levando na ponta da língua a seguinte lição, aprendida na AMAR-SOMBRÁS, nossa sociedade autoral musical:
Antes do advento do disco e do rádio, a música só chegava ao público quando executada ao vivo, nos teatros, cinemas e circos, ou através da edição de partituras impressas. Aí, o editor de livros se confundia com o de música. E um bom exemplo foi o grande afro-brasileiro Paula Brito (1809-1861) – alavancador de carreiras literárias como a de Machado de Assis – que se destacou também no ramo da edição musical.
Entre mais ou menos 1850 e 1890, do casamento da música ligeira européia – aquela dos schotishes, que viraram “xotes”; e das polcas, mazurcas etc – com nossos lundus e modinhas, nasceu a música popular brasileira.
Com o crescimento do consumo desse tipo de criação musical, a indústria fonográfica chegou ao Brasil. E, aí, pelo menos em gêneros e estilos, a música brasileira de massa começa a se diversificar, num contexto em que, também da mistura dos vários “sambas” do ambiente rural com o que já era consumido, formata-se, no Rio, o gênero Samba.
Então, a indústria fonográfica (estrangeira, claro) passa a competir também no ramo da edição. E assim, incentivadas por ela, surgem os organismos arrecadadores de direitos autorais, primeiro com o departamento de “pequenos direitos” da SBAT, do qual nasceu a ABCA, Associação Brasileira de Compositores e Autores, em 1938; a qual, por sua vez, gerou a UBC, em 1942.
A UBC nasceu no âmbito da “política da boa-vizinhança” posta em prática pelo Departamento de Estado norte-americano no pós-Guerra. E de um racha em suas fileiras surgiu em 1946 a SBACEM, criada, conforme os historiadores do tema, por iniciativa de um editor americano e dirigida, segundo consta, por uma suposta conexão ítalo-estadunidense (capisce?), numa manobra continental, cujos tentáculos teriam chegado a Argentina, Uruguai e Chile.
A partir desse momento, em lances sensacionais, vão surgindo outras sociedades arrecadadoras de direitos autorais musicais, umas totalmente dependentes outras independentes, mas que mais tarde também se viciam. E por aí vamos, até a unificação da cobrança em um só órgão, o tão famigerado quanto desconhecido ECAD.
O básico que queremos demonstrar é que, nesta história, que já rola há 70 anos, o grande problema é que os mega-editores transnacionais (braços de grandes corporações de atuação infinitamente diversificada) não se conformam em ser condôminos no negócio autoral: eles querem é ser donos do condomínio inteiro, da rua, do bairro, da cidade, do Estado, do País, dominando todo o processo produtivo. E aí, aos autores que sonham manter independência, através de suas pequenas editoras (que, como alguém já disse, querem preservar o mico-leão, numa floresta onde os tratores multinacionais são cada vez mais potentes e agressivos) só resta lutar pela sobrevivência em trincheiras de guerrilha. Como é o caso da AMAR, herdeira do heróico movimento da SOMBRÁS, na “luta armada” da música brasileira nas trevas dos anos 70.
por Nei Lopes 10:01
Sábado, Abril 05, 2008
REINALDO CASSETA E OS "EMOS"
Nosso amigo Reinaldo Casseta, além de grande cartunista, humorista e ator, é músico. Baixista da Companhia Estadual do Jazz (não digo que é "banda", porque banda pra mim ter que ter trombone; e isso de chamar até dois roqueiros juntos de "banda" é tradução mal feita do inglês "band", bando); mas o Reinaldo, como nós, também acha engraçado esse negócio de "emo", termo que designa mais uma dessas presepadas qualificadas como "fenômeno" ou "tendência", criado para batizar os caras dessas "tribos" de jovens "góticos-pós-punk", só que, segundo eles (como Reinaldo me explica) "mais emotivos, suaves e sensíveis". Coisa de ... deixa pra lá. É numa dessas que o Reinaldo me envia esta charge, que, com a devida autorização, vai aqui publicada. Em homenagem aos "emos" que certamente lêem os posts deste blog, sempre tão emotivo, suave e sensível.
Emos, Reinaldo! Ou não Emos?

por Nei Lopes 18:31
Sexta-feira, Abril 04, 2008
Um dos estudos para a capa do dicionário
VEM AÍ O DICIONÁRIO DA ANTIGÜIDADE AFRICANA
Nosso Dicionário da Antigüidade Africana está passando pelas últimas revisões e já vem aí, pela Editora Civilização Brasileira, do grupo Record.
Nele, que mereceu do acadêmico e africanista Alberto da Costa e Silva a qualificação de “interessantíssimo livro”, adotamos uma abordagem afrocêntrica. E isto quer dizer que estudamos o passado da África partindo da própria África e não de uma perspectiva européia, como sempre aqui se fez.
Para tanto, expandimos o conceito de “Antigüidade”, cujo termo final, em certos casos, não corresponde ao início da Idade Média européia. E isto porque muitas regiões africanas permaneceram “antigas”, mesmo após o advento do islamismo, no século VII a.D., tendo se desenvolvido fora do contexto árabe.
Justificando tudo isso, nossa Introdução diz o seguinte:
“ A antropologia física eurocentrada povoa o passado africano de “raças” e “sub-raças” irreais. Assim – disse o antropólogo, lingüista, historiador e físico senegalês Cheik Anta Diop (1923-86) – a história que se escreveu sobre a África está repleta de citações a “negróides”, hamitas, camitas, etiopídeos, nilóticos, em nenhuma parte aparecendo a palavra “negro”. Busca-se sempre uma origem externa para os aportes civilizatórios que fecundaram o continente, restando apenas aos povos coletores e caçadores – pigmeus, bosquímanos, hotentotes etc – até hoje congelados em seus ambientes naturais, a condição de autóctones. Daí, a abordagem escolhida para este trabalho.
Como premissa básica do Dicionário, procuramos estabelecer o real significado de nomes como Axum, Cuxe, Etiópia, Kerma, Méroe, Napata, Núbia, Punt, Sabá, e mesmo Egito. Para tanto, partimos do princípio de que o nome “Núbia” referir-se-ía, como ainda hoje, a uma vasta região; que Cuxe teria sido um território delimitado geográfica, social e politicamente, ou seja, um país, dentro dessa região, a qual abrigou também os reinos da Etiópia (sub-região também chamada Abissínia); que Kerma, Napata e Méroe foram capitais cuxitas, esta última sediando mais tarde um poderoso estado imperial que acabou por lhe tomar o nome; e que, finalmente, a sub-região da Etiópia viu surgir em seu seio, nas proximidades do antigo reino conhecido como Punt, a cidade-estado de Axum, fundada por migrantes de Sabá, no atual Iêmen (ou no próprio território africano, como querem alguns historiadores), mais tarde também expandida em dimensões imperiais.
Outra premissa, sabendo-se que o nome “Etiópia” foi atribuído pelos gregos provavelmente a partir do século XIII AC e que o nome “Abissínia” tem origem árabe, foi procurar conhecer a denominação vernácula de cada uma dessas unidades talvez a partir do Egito, berço da mais antiga civilização no nordeste africano.
Os antigos egípcios chamavam “Ta-Seti” (“o país do arco”) à Núbia e “Ta-Neter” (“o país do sagrado”) à Etiópia. Já o nome “Kerma”, também de provável origem egípcia , seria o nome com que o Egito (ou Kemet, seu nome vernáculo) denominava o país de Cuxe, esta, por sua vez, uma denominação originariamente hebraica. Já o nome “Abissínia” tem origem, segundo consta, no sul da Arábia, sendo utilizado , então, a partir de 1000 AC, com a chegada de migrantes sabeus à região; migrantes esses que, aliás, tanto poderiam ter partido do atual Iêmen, a Arabia Felix dos romanos, quanto de mais próximo, uma vez que o nome Saba, como veremos no corpo deste Dicionário, parece designar duas regiões distintas”.
por Nei Lopes 08:56
Quarta-feira, Abril 02, 2008
DEU NO BLOG DO MAURO FERREIRA
Quinteto retorna fiel às cores do melhor samba
Resenha de CD
Título: Patrimônio da Humanidade
Artista: Quinteto em Branco e Preto
Gravadora: Trama
Cotação: * * * *
Enquanto o grupo carioca Fundo de Quintal permanece cedendo às duras pressões da indústria fonográfica para gravar redundantes discos ao vivo (com justa ressalva para o belo álbum de inéditas Pela Hora, de 2006), o Quinteto em Branco e Preto colhe os frutos por semear no quintal paulista o gosto pelo melhor samba. Avalizado por Beth Carvalho desde seu primeiro disco, Riqueza do Brasil (2000), o grupo chega ao terceiro CD, Patrimônio da Humanidade, fiel às cores do melhor samba. É o primeiro álbum do Quinteto em seis anos - e o sucessor de Sentimento Popular (2002) vai fazer jus à expectativa criada pelos admiradores dos sambistas, oriundos da periferia de São Paulo (SP). O padrão de qualidade do grupo é mantido em sambas como o melódico Mananciais - trunfo do CD.
Seja nos sambas românticos de tom dolente que nunca resvala na banalidade do pagode sentimental (Desejo, Coisas do Coração, Meu Pranto), seja nos sambas de balanço mais buliçoso (Cabrochinha é uma delícia), os principais compositores do grupo - Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira - mostram que estão entre os melhores criadores do gênero. No repertório quase todo inédito de Patrimônio da Humanidade, há belos sambas da dupla - como a faixa-título, que alude ao fato de o samba de roda da Bahia ter sido eleito patrimônio nacional pela Unesco. Fora da lavra de Magnu e Maurílio, há partidos de altíssimo quilate como Brisa da Colina e Carrapato Deu no Boi, unidos em contagiante medley. Outro destaque é Prisão Especial, parceria de Nei Lopes com o violonista e vocalista do quinteto, Everson Pessoa. Na sarcástica letra, a melhor do CD, o sempre afiado Nei Lopes alfineta o preconceito que ainda envolve os sambistas face às empresas e autoridades. Tema recorrente em Elemento Suspeito, que toca na ferida do racismo ao falar do preconceito sofrido pelos negros que moram em morros e favelas - com direito a efeitos sonoros. Enfim, Patrimônio da Humanidade é um grande disco de samba. Somente os preconceituosos e os cariocas bairristas vão fechar os ouvidos para a beleza do repertório gravado pelo Quinteto em Branco e Preto - ele próprio um patrimônio do samba. E do Brasil.
por Nei Lopes 10:26
|