Segunda-feira, Março 31, 2008
ÌROHÌN, OS AFRO-BRASILEIROS E O AVIÃO DA HISTÓRIA.
Em iorubá, a língua litúrgica da tradição afro-brasileira, “ìrohìn” quer dizer “notícia”. O nome, que evoca o do primeiro jornal africano editado nessa língua, no século 19, é hoje também o de um tablóide de 32 páginas, publicado em Brasília há doze anos e que é talvez a melhor e mais profunda publicação periódica destinada aos que se interessam pela questão afro-brasileira.
Em sua mais recente edição (ano 12, nº 22), como não poderia deixar de ser, o jornal Ìrohìn aborda com precisão o episódio da exoneração de Matilde Ribeiro da SEPPIR, Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Igualdade Racial, os vícios de origem e a possível derrocada dessa secretaria, pomposamente destacada por seu status de ministério.
No editorial, assinado por Edson Lopes Cardoso, coordenador da publicação, o Ìrohìn aborda a institucionalização das demandas do movimento negro desde a década de 80, quando em São Paulo criou-se o primeiro órgão público voltado para pensar a exclusão e buscar soluções para ela; e pergunta: “O jogo acabou sem que tenhamos aprendido a jogar? Ou o jogo que devemos jogar é outro, distante dos controles partidários?”.
Em outro texto, a sempre brilhante Sueli Carneiro, advogada e militante pelos direitos da população afro-brasileira, aponta como os erros da SEPPIR caem agora, como um fardo de alegadas culpa e incompetência, sobre nós militantes, reverberando em toda a sociedade civil negra organizada no Brasil.
Sueli denuncia a criação de uma secretaria “com status de ministério e estrutura de ONG”. E sobre isso, nós – que, na década de 90 fomos “alto funcionário” em uma natimorta Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Afro-brasileiras aqui no RJ e, depois, “assessor especial” na Fundação Cultural Palmares-MinC – sabemos muito bem do que o Ìrohìn está falando.
Sintomático é que, pontuando esses dois textos, um outro, a respeito do recente falecimento da ialorixá Mãe Nitinha de Oxum (ibaê!), relembra, como que numa triste metáfora, o episódio em que essa venerável sacerdotisa, convidada oficial do Governo brasileiro para os funerais do Papa João Paulo II, foi barrada no aeroporto, por não lhe ter o Governo garantido a necessária estrutura para a viagem.
Pois é isso: só quem já leu o Ìrohìn (www.irohin.org.br) sabe porque nós, os negros deste país, estamos sempre perdendo o avião da História. E quem ainda não leu, não sabe o que está perdendo.
por Nei Lopes 10:09
Quinta-feira, Março 27, 2008
My Lot Entertainment Inc.
apresenta
MAIS UM CAPÍTULO DO SAMBA
O problema todo é que o samba começou a dar dinheiro, meu patrão. E onde tem dinheiro, logo, logo, os moços bonitos se intrujam e tiram os crioulos da jogada. Isso é sempre, em qualquer lugar. E com o samba não foi diferente. Quer ver só uma coisa? Direitos autorais. O senhor sabe o que é, não? Claro que sabe. Um homem estudado assim como o senhor...
O caso é o seguinte. Acompanha comigo o raciocínio:
No Brasil, a primeira sociedade arrecadadora foi a SBAT, fundada em 17. Onze anos depois, em 28, essa SBAT, obrigada pela chamada Lei Getúlio Vargas de direito autoral, começava também a arrecadar e distribuir, mal e porcamente, os direitos dos compositores de música. E, por isso, o pau lá dentro quebrou...
- Senhores, esta é uma sociedade de autores teatrais! Temos em nosso seio figuras da estatura de um Viriato Correia, de um Bastos Tigre, de um João do Rio. Como então vamos admitir no nosso convívio o “povo da lira”, os capadócios, a gentalha dos ranchos, dos blocos, dos subúrbios, a negrada dos morros e dos cortiços?
Quem falava assim era um Fulano de Tal, neto do Visconde de Qualquer Coisa. Mas tinha gente que não concordava.
- Ilustre colega, a canção popular pode não ser algo meritório, do ponto de vista da criação intelectual. Mas pode redundar em crescimento para nossa sociedade. Os direitos de música daqui a algum tempo podem render um bom dinheiro!
Conversa vai, conversa vem, depois de muito lero-lero veio a solução. Na base do salomão, sabe como é que é, né?
- Bem... Que eles entrem. Mas que venham compostos, limpos, sóbrios, sem abrir muito a boca, por causa do bafo... E sem direito a voto.
Mas - o senhor sabe como é né? - a discriminação vinha de tudo quanto era jeito. Então, os compositores começaram a reagir. Mesmo porque, entre eles, já tinha gente de paletó e gravata, filhos de boas famílias. Só que, nessa lengalenga, puxa daqui puxa de lá, muitos anos depois, em 37, o vice-presidente da SBAT, Paulo Magalhães, perdeu as estribeiras e meteu o pé na bunda dos compositores. Aí, a coisa ficou feia.
- E agora, Valparaíso ?
- Ora, Carlinhos, nós temos do nosso lado os editores. O Provolone e o Carnevale são nossos. E o Mister Runaway, esse funcionário americano que está aí, diz que está disposto a nos ajudar. Com dinheiro, inclusive.
- Mas.. dinheiro do estrangeiro, Val ? Do Departamento de Estado americano?
- Besteira, Alberto! O quê que tem? Dinheiro tem nacionalidade?
Esse Mister Runaway, inclusive, parece que esteve lá na Portela, naquela noite do Walt Disney, o senhor lembra? Naquela em que o Paulo acabou virando o Pato Donald. O senhor conhece a história... De formas que, aí, acabou sendo fundada a Associação dos Compositores... Na época, nenhum de nós sabia nada disso. E, mesmo eu, que estudei um pouquinho, não tinha capacidade pra entender essas manobras. Mas eu tenho um amigo jornalista, por nome Tinhorão, sabe quem é? Pois, então. O Tinhorão me botou por dentro dessas jogadas todas.
**
O caso é que a SBAT sentiu o peso e chiou, botou a boca no trombone. Mas na diretoria tinha Chiquinha Gonzaga, aquela veterana que fez o “Abre alas que eu quero passar” pra aquele cordão lá do morro do Andaraí. Dona Chiquinha, embora tivesse morrido em 35, ainda freqüentava a SBAT e mandava à pampa na diretoria. E lá, praticamente só ela – e garantida agora em sua Eternidade – dava força pro pessoal do morro.
- O fato é que estamos perdendo dinheiro, meus senhores. Por causa de alguns “aristocratas”que temos aqui dentro...
O espírito de Dona Chiquinha não era brincadeira, não! Era fogo na roupa. Mas a reação a ela era forte. Os espíritas – e havia muitos lá nessa época – respeitavam ela. Os que não acreditavam, sabe como é, né, sacaneavam, chamavam ela até de “Chica Polca”, pra debochar. Mas por trás. Porque, pela frente, era aquela falsidade...
- Senhora Maestrina! Nós, inclusive a senhora, embora já em outra dimensão, somos a aristocracia. Somos uma élite artística e intelectual. E, como tal, não poderíamos agir de outra forma.
- Sim, está bem, nós somos uma...élite, como diz o ilustre poeta...mas a música já começa a arrecadar um montante considerável. Os nossos autores, que antes escreviam canções exclusivamente para o teatro, hoje já começam a preferir o disco e o rádio.
A verdade era essa. Os discos, mesmo aqueles bolachões, gravados de um lado só, já começavam a vender bem. O rádio já começava a ser um grande meio de divulgação da musica. E, nessa, os vivaldinos procuravam um meio termo, uma solução lá e cá.
- Por quê, então, nós não trazemos, de novo, os melhores da Associação pra SBAT? É só oferecermos melhores condições, mais vantagens.
- Nós temos conosco todas as representações estrangeiras. Não há o que temer. É só cobrarmos direitos mais barato. Eles não vão agüentar.
- E podemos também orquestrar uma campanha de descrédito. Isso sempre funciona.
Foi nesse dia, e por causa da pilantragem, que Dona Chiquinha cantou pra subir, mesmo, e nunca mais apareceu. Era briga de foice no escuro! E, nessa, a Associação, diante da grana e da influência da SBAT, quase que dá com os burros n`água, quase que vai pra cucuia.
Até que em 42, se aproveitando de um arranca-rabo, de um desentendimento que a SBAT teve lá com a sociedade americana, que ela representava aqui, uma curriola de famosos compositores, só quatro mas tudo cobra-criada, fez lá um cambalacho e conseguiu pra eles a representação dos americanos. Aí os malandros – esses sim, é que eram “bambas”! - chamaram lá o pessoal da Associação e fundaram a Aliança, que está aí até hoje.
**
Três anos depois, em 45, tudo se acerta: a SBAT fica com os direitos do teatro, que até hoje eles ainda chamam de “grandes direitos” e a Aliança fica com os “pequenos direitos”, os da música popular. O mais engraçado disso tudo é que o pessoal do Estácio, do Salgueiro, de Mangueira, de Oswaldo Cruz, o pessoal que começou, mesmo, com o samba foi sendo tirado de jogada. E isso principalmente depois que morreu o Noel. Esse botava o pessoal do morro na cara do gol. Mas os outros... Hmmm. Então, sambista agora, no rádio mesmo, era tudo bonitão e de gravata. E foi aí que nasceu esse negócio de “Samba de morro” e “samba de radio”, samba de meio de ano e samba de carnaval. Os crioulos do só tiveram mesmo algum sucesso entre 35 e 42, pode ver. Daí em diante, babau! Teve nego até indo lavar carro pra poder comer. Nessa, o Mário – não me conformo com esse nome! –; nessa, ele começou a descer a ladeira. E, na ilusão de ser “artista”, acabou indo tocar no rádio, pra ganhar uns trocados. Mas tocar tamborim. Que era, naquela época – esse, sim, e não o violão – instrumento de vagabundo. Entendeu, meu patrão?
(Excerto de “A lua triste descamba”, novela, em elaboração. – Texto de ficção: a semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência [NL]).
por Nei Lopes 14:13
Terça-feira, Março 25, 2008
SEMINÁRIO "SAMBA - PATRIMÔNIO CULTURAL DO BRASIL"
Clique na imagem para ampliar.
por Nei Lopes 09:28
Sexta-feira, Março 21, 2008
A INDEPENDÊNCIA, NO DIA DA PAIXÃO, COM DENGUE.
Segundo a versão mais conhecida, não foi em busca de independência e sim por discriminação sofrida numa mesa kardecista, onde espíritos de africanos e índios não podiam se manifestar, que nasceu a umbanda, há exatos 100 anos. Mas foi certamente por anseio de liberdade e expansão que o protestantismo saiu do catolicismo. E que uma miríade de seitas, confissões, “ministérios”, “tabernáculos” etc. nasceu dos primordiais luteranismo, calvinismo, zwinglianismo; e, depois, das igrejas congregacionais batistas, metodistas, pentecostalistas etc. Até que chegamos ao “evangelismo delinqüente”, denunciado em uma série de reportagens jornalísticas da última semana, segundo as quais, bandidos que freqüentam “igrejas independentes vêm proibindo manifestações de umbanda e candomblé nas favelas cariocas e expulsando donos de terreiros” (Extra, 17.03.08).
A independência religiosa é sempre preocupante. É por isso que tanto os fiéis do candomblé ortodoxo quanto os da santería cubana, antes de qualquer ritual ou cerimônia, precisam invocar, por ordem cronológica, desde o comecinho, os fundadores de sua crença na Diáspora. E é assim que sempre, com grande emoção, ouvimos em nossas invocações nomes de sacerdotes africanos chegados às Américas, às vezes ainda na primeira metade do século 19, como Atandá, Adexina, Tata Gaytán, Obá Sãnia, Bamboxê Obitikô e tantos outros (aos quais enviamos o nosso “ibaê” respeitoso). É graças a essa linha de continuidade, que nos mantém juntos há mais de 200 anos, que muitos cânticos sagrados iguais, podem hoje ainda ser ouvidos, apenas com leves acentos locais, tanto em Recife quanto em Havana, tanto em Salvador quanto em Santiago de Cuba. E é por conta, talvez, da mesma discriminação de há 100 anos que vemos, agora, nascer, da umbanda brasileira, uma corrente internacionalizada que renega as origens africanas de sua crença.
Pois, é isso: quase sempre os arroubos de independência geram a fragmentação, a desunião e a fragilização – que é o calcanhar-de-aquiles das religiões de matriz africana no Brasil. Mas, do ponto de vista dos “neo-evangélicos” ela é certamente vantajosa e lucrativa, haja vista a infinidade de novas “igrejas” que surgem, a cada dia, não se sabe bem com que intenção, quase que esquina em esquina – sem exagero – nas regiões mais pobres do Estado.
Assim, hoje, na sexta-feira santa do ano dos nossos 66 anos, com os netos ao lado, rogamos a Babaluaiê proteção contra o aedes aegypti (cuja proliferação, neste triste momento, é fruto também de um certo “independentismo” político) e pedimos a gbobo kalenda Ocha (todos os orixás juntos) que nos guardem contra a morte, a doença, as perdas, o derramamento de sangue, os inimigos, a maledicência, e todo o Mal. Axé!
P.S.C.A. (PARA UM SARRO COM OS AMIGOS): O vocábulo “dengue”, tem origem no termo multilingüístico banto ndenge, que conota fraqueza, lassidão, fragilidade (v. o quicongo ndenge, recém-nascido) etc, presente em “candengue”, criança; “dengue”, birra ou choradeira de criança; “dengue”, doença infecciosa. Já o “dengo”, carinho, vem mesmo é do quicongo ndengo, lubricidade.
por Nei Lopes 12:44
Segunda-feira, Março 17, 2008
ME AND MS. RICE
Procuro pelo sobrenome “Rice” no African America: Portrait of a People e só encontro a biografia de um atleta. Vou à portentosa enciclopédia Africana ... e nada de “Rice”. Aí, chego ao Google e apenas fico sabendo que Ms. Condoleezza nasceu em 14 de novembro de 1954. E confirmo que é secretária de Estado da nação mais imperialista e belicista do mundo.
Mas não é isso que eu procuro. Nem me interessa se ela é “analfabeta” , como disse o bolivariante Hugo Chávez. O que eu quero é saber por quê aquele sorriso terezo-cristino me cativa. E o que me lembra aquele jeitinho tímido e aquele cabelinho armado (Epa!).
Tudo isso após a visita, que vi na tv, da todo-poderosa Condoleezza a Salvador, onde um neguinho lhe pediu 1 real, em italiano (certamente pilhado pela sonoridade do seu prenome); e o inimaginável Carlinhos Brown galanteou-a, chamando-a de “sexy”.
É sexy, sim, a “Condoliza”, Carlito Marrom! E tem mesmo que pedir 1 real a “Dona Condolência”, Neguinho do Pelô!
Agora... dizer que o sorriso dela em Salvador era o “riso frouxo de um turista em férias nos trópicos”, como escreveu um garotão desses aí do Globo, é realmente desconhecer o que se passa nos desvãos da alma da gente negra. E W.E.B. Dubois (1868 – 1963) sabia do que eu estou falando.
Pois foi exatamente Dubois que, juntando pé com cabeça, mostrou a nós que existe um elo ligando a gente escurinha dos EUA com a da América Central e do Caribe, que se liga com a do Brasil, com a do Peru, e até da Bolívia, passando pelo Prata, um amarradinho no outro. Esse elo, chamado “África” não deixa a gente se soltar de jeito nenhum. Onde quer que a gente vá, ele segura a gente. Mesmo que a gente, sendo secretário de Estado da nação mais imperialista e belicosa do mundo, não deva perceber. Mesmo que a gente, por ter a pele um pouco mais clara e o cabelo menos encarapinhado, não queira aceitar.
E o caso é que quando Ms. Condolleeza Rice nasceu, eu estava no 2º ano ginasial me preparando para levar bomba em matemática, depois de um balaço ter apagado o sorriso do Velhinho no Catete. Ela com 10 anos, eu estava às voltas com um IPM no saudoso Centro Popular de Cultura do CACO, ali perto do Campo de Santana. Quando ela se formou em Ciências Políticas eu já tinha me perdido nos labirintos da Justiça fluminense e caído de cabeça no samba. E no ano em que ela se tornou professora na Stantford University em publicava meu primeiro livrinho, predizendo o que iria acontecer com as escolas a partir dali.
Na década de 90 ela começava a ser poderosa. Então, bem que a Africana podia ter feito um registrozinho dela. Como eu fiz em 2004 na minha modestíssima Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana – que contempla até (sem entusiasmos, claro!) sobrenomes como um certo “Timóteo” e outros menos votados.
**
O sorriso de Condoleeza em Salvador – e é aí que eu quero chegar – era o sorriso do espelho, aquele que a gente dá quando se olha e se vê bonito. Como eu dei quando folheei pela primeira vez a revista Ebony e vi aquele monte de crioulos e crioulas bem vestidos, realizados, saudáveis – num tempo em que no cinema, no gramado, nas primeiras páginas, o que eu via era o Grande Otelo sendo sacaneado; o Barbosa sendo execrado; e as caras facinorosas de Zé da Ilha, Tião Medonho, China Preto, presos ou “devidamente” apresuntados.
Então, o que eu quero e é preciso mostrar é que Condoleeza riu-se. E que naquele riso, o que se viu foi uma irmãzinha, num sábado dos anos 60, arrumada pra festa. E isto depois de ter encerado a casa toda com o velho escovão, pesado pra cacete; depois de ter feito as unhas de cinco colegas na varandinha de casa pra arrumar um trocado. E, aí sim, banho tomado, cheirosa e charmosa, tirar os rolinhos do cabelo, caprichado no henê, e ir dançar na festa, que nenhuma dama é totalmente de ferro.
por Nei Lopes 08:41
ANGELA EVANS, A MAIOR REVELAÇÃO DO SAMBA, CANTA NEI LOPES NO CCC. IMPERDÍVEL!
por Nei Lopes 08:33
Segunda-feira, Março 10, 2008
BAHIA HOMENAGEIA ABDIAS NASCIMENTO
A UNEB, o IPEAFRO e a PORTFOLIUM convidam para uma homenagem a Abdias Nascimento, dia 17 de março no Teatro Castro Alves, oportunidade em que a Universidade do Estado da Bahia - UNEB estará lhe entregando o título de Doutor Honoris Causa às 17h30. Pouco depois, às 19h, ocorrerá o lançamento do filme documentário de longa-metragem "Abdias Nascimento Memória Negra". A entrada é livre até a lotação da sala principal. Os ingressos podem ser retirados na bilheteria do Teatro Castro Alves a partir das 14h do dia 17 de março.
Vamos lá, Bahia!
por Nei Lopes 10:39
Quinta-feira, Março 06, 2008
PREFEITURA DE SALVADOR DERRUBA TERREIRO DE CANDOMBLÉ
A NOTÍCIA: “O Terreiro Oyá Onipo Neto, localizado na Avenida Jorge Amado - Imbuí, foi parcialmente destruído na manhã desta quarta-feira, dia 27, por agentes da Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município (Sucom). A ação foi feita sem que o órgão apresentasse documento de autorização para a derrubada da casa religiosa. A mãe de santo Rosalice do Amor Divino, Mãe Rosa, 50 anos, já havia denunciado intolerância religiosa por parte de um vizinho dela, engenheiro do órgão municipal que teria manifestado o desejo de derrubar seu imóvel”.
O COMENTÁRIO DO LOTE: Não conhecemos o terreiro nem suas origens e filiação. Não sabemos se a ação foi anunciada e se os líderes da comunidade consultaram o oráculo sobre as providências rituais a serem tomadas para evitar o triste evento de perda. Do ponto de vista legal, ouvimos, em noticiário de televisão, que a construção do terreiro feria postura municipal.
Ouvimos dizer, entretanto, que o atual prefeito da cidade seria “evangélico” e estaria atendendo a interesses da tristemente famosa Igreja Universal, já assídua freqüentadora dos nossos tribunais.
Comprovada essa circunstância, achamos que, quaisquer que tenham sido os fatos que motivaram a ação truculenta – e mesmo que tenham faltado não só diálogo como providências rituais que a evitassem – é preciso que o povo-do-santo esteja atento, organizado, coeso, em dia com suas obrigações e lutando por seus direitos. Porque, como escreveu o saudoso etnólogo maranhense Nunes Pereira, “as divindades naturais da África (...) são sóbrias, polidas, convenientes. Mas quando castigam, lembram certas forças naturais que individualizam: são violentas, implacáveis, tremendas”.
por Nei Lopes 10:17
Segunda-feira, Março 03, 2008
AGORA A COISA VAI. SIN EMBARGO.
“A democracia seria o regime ideal se a liberdade solucionasse o problema econômico” (P. Mendès-France, 1907)
"Ah, sei! É a Marianne, aquela que saiu na Mangueira, com aquela touquinha de veludo, no enredo sobre o Getúlio, em 56" (Dezói, 2008)
Agora, sim! Agora a música do país vai poder entrar na linha evolutiva que se ensaiou com o feeling e não deu em nada, por conta do conservadorismo daqueles que ainda tudo faziam baseados na mixórdia dos ritmos congos. Ela agora vai recuperar o atraso de 50 anos em relação à música brasileira: vai aposentar congas, güiros, bongôs, cencerros, maracas e baixo acústico; e resumir tudo na economia do violão e da flauta. A partir dessa revolução básica - e do fim dos embargos, claro! - vai importar guitarras e teclados, padronizar suas harmonias dentro dos cânones legado pelos Beatles, para então, chegar, evoluída e gradativamente, ao rock’n’roll, ao soul, ao boogaloo, ao funk, ao hip-hop, à boquinha-da-garrafa e ao créu. E assim, finalmente, os tambores e suas polirritmias complexas, as claves marcando aqueles mil códigos indecifráveis para cada uma das dúzias de gêneros, a africanidade enfim, vão se recolher no quartinho dos fundos daquele velho solar no bairro de Jesús María. Então, aí sim, a música do país entrará feliz, na era da globalização, ficando igualzinha à de todo o Planeta.
A religião, por sua vez, agora vai atingir excelsas alturas! As estatísticas não vão mais admitir a tal da “dupla confissão”, que agrega 1,4% da população do país. Todos vão ser cristãos, em princípio sob a proteção de São Cristóvão, padroeiro da Capital, recolhidas aos seus sacrários as escurinhas Vírgen de Regla e a del Cobre. E como os tempos são outros, em cada esquina, inclusive como incentivo à livre iniciativa, se abrirá um tabernáculo, com ministros e diáconos, vindos do Brasil e competindo entre si, para difundir a palavra do Senhor, cada um do seu jeito, com histéricos altos-falantes e sofríveis cantores, para inclusive morderem sua fatia no mercado musical, amplamente controlado pela Sociedade General de Autores de Espanha, SGAE, e pelos grandes conglomerados de telefonia e comunicação. E, nessa ordem de coisas, os santeros, babalaus, mayomberos, abacuás etc, todos transferidos para Santiago, em Oriente, serão incorporados ao Ministério do Turismo, pelo qual serão destacados para apresentações em navios, aeroportos etc, a dar boas-vindas aos visitantes que chegam. Em datas especificas, como o carnaval, ser-lhes-ão concedidas rápidas oportunidades de exibirem suas danças e pantomimas, exóticas e pitorescas, em vibrantes espetáculos públicos, na rua (Tropicana nem pensar!) que certamente rivalizarão com os maiores do mundo.
O decreto de reforma agrária será revogado, sendo os atingidos ou seus sucessores – a começar pela família Castro – amplamente reintegrados na posse de suas terras ou indenizados em euros, na forma da Lei. A indústria farmacêutica será toda gerenciada pelos laboratórios internacionais, o atendimento médico hospitalar ficando por conta exclusiva da Golden Cross. O esporte será comandado por um ministro vindo diretamente do Brasil, indicado pelo Sr. Havelange ou preposto.
A educação vai ser menos formal: teremos “artigos 99, em 1 mês, sem necessidade de freqüência”; cursos profissionalizantes e por correspondência em todos os níveis, focados nas áreas de percussão, capoeira, tae-kwon-do, modelo-manequim, DJ, street dance e basquete de rua. E mais: o analfabetismo funcional (em inglês) será reconhecido como especialidade.
Quanto às liberdades individuais, todos, inclusive crianças, serão livres para viver onde quiserem, principalmente ao relento, desenvolvendo assim sua criatividade na obtenção do sustento. O conceito de poluição ambiental fica abolido, incentivando-se a indústria automobilística a equipar os novos modelos fabricados com alto-falantes de ponta, de máxima potência, instalados nos porta-malas. Do ponto de vista da liberdade de expressão e comportamento, a memória general Arnaldo Ochoa, herói da República, acusado de tráfico de drogas e fuzilado em julho de 1989, será reabilitada. Não haverá repressão ao uso de estupefacientes, nem naturais nem sintéticos, cada um sendo dono do seu nariz e de sua cabeça.
As sedes dos Poderes serão otimizadas, construindo-se, nos lugares dos prédios que hoje ocupam, inclusive o obsoleto Capitólio, palácios de mármore e aço escovado, principalmente, face à sua suprema importância, os do Poder Judiciário, cujos membros deverão ser remunerados de maneira diferenciada, inclusive com o aporte de complementos tais como, auxílio para gasolina, propina pal saco (auxílio-paletó), ajuda-moradia etc.
Quanto ao Sistema Financeiro, os bancos terão liberdade para fixar, sem restrição, suas taxas de juros e tarifas de serviço.
Last but not least, a composição étnica da sociedade jamais será divulgada, para evitar confusões ou pleitos por ações afirmativas. Nada de “europeus ibéricos, 37% ; eurafricanos, 51%; afro-americanos, 11%” ! Para todos os efeitos, Mariana Grajales, António Maceo, Guillermón Moncada, Flor Crombet, Juan Guallberto Gómez, fundadores da pátria, além dos atuais vice-presidentes Juan Almeida e Estebán Lazo eram e são “queimadinhos de praia”.
Esto es la cosa!
por Nei Lopes 17:03
|