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Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008
REFLEXÃO SOBRE UMA BOSSA CINQÜENTONA Nos anos de 1950, a partir da Zona Sul do Rio, longe – geográfica mas não ritmicamente – da Praça Onze, do Estácio e dos morros, o cantor e violonista João Gilberto, alterando as harmonias com a introdução de acordes não convencionais, como antes já o faziam músicos como Garoto, Oscar Bellandi, Vadico, Valzinho etc; e radicalizando a sincopação do samba, com uma divisão única; João Gilberto começava a se tornar o papa de uma nova religião. “João – e quem conta é o músico e cineasta Sérgio Ricardo – pegava o instrumento e mostrava sambas tradicionais com um acompanhamento diferente, intrigante, casando de uma foram nova com o solo de sua voz. Surpreendentemente diverso de tudo o que eu já ouvira em matéria de samba (...) seu violão era seguríssimo, preciso, simples, sem floreios ou escalas. Só os acordes batidos no momento certo, na beleza do inesperado, num balanço inimitável”. Curioso é que toda essa revolução joão-gilbertiana era feita basicamente em cima de sambas absolutamente tradicionais, como, entre outros, De Conversa em Conversa (Ari Barroso), Isaura (Herivelto Martins e Roberto Roberti), Falsa Baiana (Falsa Baiana (Geraldo Pereira) e O Pato (Jaime Silva e Neuza Teixeira), escolhidos por ele, em geral, por serem balançados, sincopados, permitindo o exercício de toda a sua criatividade rítmica. Ao redor e a partir de João Gilberto reuniu-se um grupo de músicos, quase todos de classe média alta e formação universitária, com o intuito de, partindo das experiências formais de João Gilberto tentar “simplificar” o samba tradicional e adequá-lo a certos padrões internacionalizantes. Dentro dessa idéia, de fazer um samba moderno, sem pandeiro nem cavaquinho, Tom Jobim, músico de formação erudita, ex-estudante de arquitetura e morador em Ipanema desde a infância, teorizava, segundo um texto de Gene Lees, publicado na Hifi/Stereo Review, em 1963: “O autêntico samba negro é muito primitivo. Nele usam-se, às vezes, dez instrumentos de percussão e quatro ou cinco cantores. Ele é cantado alto e a música, maravilhosa, é sempre muito animada. Já a Bossa-Nova é calma e contida. Ela conta uma história, tentando ser simples, séria e lírica ... João (Gilberto) e eu achamos que a música brasileira até agora tem sido uma tempestade no mar e, assim, queremos torná-la tranqüila para que ela possa entrar nos estúdios de gravação. Pode-se dizer que a bossa-nova é o samba limpo, depurado. Mas nós não queremos perder o que há de importante nele. E aí o problema é saber como compor sem perder o balanço”. Esse afã de simplificar e suavizar o negro samba gerou identificadas com uma proposta de lazer e descompromisso, com letras sorridentes, douradas pelo sol e pelo sal das praias da Zona Sul. E, contraditoriamente, deu também origem ao personalíssimo som do então Jorge Ben, hoje Benjor, provável mistura de samba com rhythm & blues. Mas o alegre barquinho da bossa-nova era atropelado pelo golpe militar de 1964 e pela nova ordem político-econômica consolidada a partir de dezembro de 1968. Nesse interregno, então, os seguidores de João Gilberto se dividiam, como explica este trecho de Flávio Eduardo de Macedo Soares, publicado na Revista Civilização Brasileira, em maio de 1966: “A contradição inicial dentro da bossa nova assumiu em pouco tempo o aspecto de uma verdadeira diáspora. Em termos gerais, pode-se dizer que uma facção optou por manter a influência do jazz norte-americano, um tom suave, intimista (personificado na voz fanhosa de João Gilberto) e nas letras de temas amenos, sem maior compromisso com a realidade brasileira ou qualquer espécie de participação social. A outra, constituída por gente como os compositores Baden Powell, Sérgio Ricardo e Carlos Lyra e os letristas Vinícius de Moraes e Nelson Lins e Barros, uniu-se ao movimento geral da cultura brasileira no sentido de uma base popular-folclórica nas músicas, e uma temática de realismo e participação social nas letras”. Esse rompimento com a estética do Barquinho que já se delineara em sambas como Zelão (Sérgio Ricardo, 1961), O Morro e Feio Não é Bonito(Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri, 1963) e O Morro Não Tem Vez (Tom e Vinícius, 1963), entre outros, vai estabelecer ou reestabelecer um elo importante entre o samba da classe média, a bossa nova, e o samba das camadas populares, “do morro”. É através desse elo que Cartola, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti, entre outros compositores que, embora desfrutando de grande prestígio no mundo do samba, já se tinham como definitivamente alijados do mercado musical, puderam enfim – a afirmação é do já citado Macedo Soares – dialogar com um público, jovem e universitário, que até então só tinha acesso à música composta pelos artistas de sua classe social. No mesmo contexto do ressurgimento de Cartola e Nelson Cavaquinho, o samba vê surgir o talento de Paulinho da Viola. E é também em meados da década de 60 que emerge, no cenário artístico, como um sucessor de Noel Rosa ou de Ismael Silva, o pós-bossanovista Chico Buarque, autor de sambas também antológicos. Entretanto, 50 anos depois do Chega de Saudade, é importante que se questione o seguinte: quando a bossa-nova (estilo de compor e interpretar e não gênero musical) resolveu simplificar a complexa polirritmia do samba e restringir sua percussão ao estritamente necessário, não estaria embutido nesse gesto tido apenas como estético, uma intenção desafricanizadora? E essa intenção não se originaria no preconceito, até hoje persistente, segundo o qual o samba cheira a senzala, a coisa velha e incompatível com a modernidade? Para felicidade geral, a bossa-nova ganhou o mundo. Com títulos como Samba de Verão, Samba do Avião, Samba em Prelúdio, Samba Triste, Só Danço Samba etc, etc, etc. E, na década de 1980, nosso gênero-mãe mais uma vez se renovou, através do jovem estilo “pagode” de compor e interpretá-lo. (Texto extraído e adaptado de Sambeabá, 2003, incômodo livro esgotado, para o qual procuramos novo Editor) Terça-feira, Fevereiro 26, 2008
COM AS BÊNÇÃOS DE SANTA CECÍLIA Conheci o Mauro Santa Cecília num “off-Flip”, no ano passado, a bordo de uma sprinter carregada de escritores multinacionais que, vinda do Leblon, laçou a mim e à Cumádi na Rio-Santos, aqui na altura de Itaguaí. Mas quem de fato nos apresentou não foi nenhum parati on the rocks e, sim, uma cerveja estupidamente gelada, no meio daquela free feira, literalmente livre. Digo “uma cerveja” por modéstia, porque o Mauro, como bom roqueiro, sabe degustar a lourinha; e nos acompanhou em mais de uma dúzia das baixinhas. Grande figura o Santa! Parceiro do Frejat, com altas baronagens vermelhas gravadas, ele é autor de um tremendo romance, chamado “Cão com Cabelo”, publicado no ano passado pela editora Língua Geral – a da “Mandingas da Mulata Velha”, que está vindo aí. Pois, agora, é do Maurão que chega ao Lote, pelas ondas cibernéticas, esta mensagem. Leiam só: “Caro Nei, terminei ontem de ler seu ‘20 contos e uns trocados’. Gostei demais do texto! Adorei a inteligência, o humor, a erudição sem presepada nem punhos de renda, a malandragem, a sabedoria, o estilo. Texto de bamba. Pude me embrenhar um pouco mais por um universo chapa quente que admiro - de longe -, embevecido com algumas das histórias sobre poetas, compositores e anônimos do Planeta Samba. Meus contos preferidos foram: ‘Até a água do rio’, ‘Cidadão samba’, ‘Olhos de azeviche’, ‘Manchete de jornal’ e, sobretudo, ‘Os Izidoros, os Belizários’, magistral! Dos trocados, ‘Crime passional’. (...) Quanto àquele chope pós-Paraty, que (espero) algum dia rolará, aviso que ao contrário do Joelzinho, que não toma ‘quente’, eu tomo. Também. Grande abraço, a) Mauro”. Pois é, Santa Cecília, padroeiro dos poetas-músicos! O chope vem aí. Vai ser no dia do lançamento do “Mandingas da Mulata Velha da Cidade Nova”. Nesse dia, o Joelzinho (que inspirou o “trocado” acima mencionado) vai estar presente e, embora “crente”, vai brindar com a gente. Alegremente. Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008
Da série "Os Que Fizeram Minha Cabeça" GIUSEPPE GHIARONI (1919 - 2008) Artidoro Giuseppe Ghiaroni nasceu aos 22 de fevereiro de 1919, em Paraíba do Sul, RJ. De condição social muito humilde, aos 11 anos já trabalhava "carregando telhas numa cerâmica", como escreveu certa vez. Ainda menino, ganhou o pão, sucessivamente, em atividades subalternas como aprendiz de ferreiro, ajudante de cozinha, aprendiz de barbeiro, praticante de trocador de ônibus, caixeiro de armazém e contínuo de escritório. Autodidata, mais tarde exerceu o jornalismo em A Noite e foi tradutor. Radialista, destacou-se na Rádio Nacional como redator de rádio-teatro, programas humorísticos, musicais e textos comerciais. Em 1941 Ghiaroni publicou sua primeira coletânea de poemas, O Dia da Existência, à qual se seguiu A Graça de Deus (1945) e a Canção do Vagabundo (1948). No fim da década de 1950, seus poemas Dia das Mães e Dia dos Pais emocionavam o Brasil na voz de Paulo Gracindo. Finalmente, em 1997 publicou A Máquina de Escrever, com poemas inéditos e outros já publicados anteriormente. Para que sintam a doce simplicidade desse grande poeta (que nos chegou, para sempre, num livro sem capa na Escola Visconde de Mauá e um dia, em 1957, por incrível que pareça, honrou o Irajá com uma visita, inclusive provando e aprovando a “abrideira” de Seu Luiz Braz), leiam, visitantes do Lote, este soneto: DEPOIS (G. Ghiaroni). Depois de ter tentado e conseguido, depois de ter obtido e abandonado; depois de ter seguido e ter chegado; depois de ter chegado e prosseguido! Depois de ter querido e ter amado; depois de ter amado e ter perdido; depois de ter lutado e ter vencido; depois de ter vencido e fracassado! Depois que o sonho comandou: ''Avança!" Depois que a vida ironizou: "Criança!" Depois que idade sentenciou: ''Jamais!"... Depois de tudo que escarnece e exalta, depois de tudo, quando nada falta, depois de tudo, falta muito mais! P.S: Ghiaroni, falecido no último dia 21, era pai de Regina e sogro de Sérgio Chapelin, casal amigo, a quem o Velhote do Lote envia seu abraço. Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008
RIACHÃO, QUEM DIRIA, EM PROFUNDA DEPRESSÃO A notícia triste chegou a nós em São Paulo: o velho e bom Riachão, 86 anos, grande artista com quem fizemos gostosa amizade em um evento em Belo Horizonte, há uns três ou quatro anos, está isolado, em sua casa no Garcia, em Salvador, só saindo para ir ao cemitério. É que no dia 8 de janeiro um acidente, numa estrada aqui no Rio, pôs a fim à vida de sua esposa, Dona Dalva, de seu casal de filhos, ele com com 29 ela com 25 anos, além do genro e da nora. Em profunda depressão, Riachão, um dos maiores sambistas baianos, que só conheceu verdadeiramente o sucesso há bem pouco tempo, não quer mais saber de nada. Que pena! E a prosseguir nessa situação, o Brasil perde um de seus mais alegres e vibrantes artistas. Mas o Lote torce para a recuperação do grande Riachão. Os Orixás hão de lhe devolver a alegria, o ritmo, o carisma e a Força Vital! Ogunhê!
DOM JOÃO VI E OS PRETOS DO ROSÁRIO Em meio às badalações pelo bicentenário da vinda da família real portuguesa para o Brasil – que já engoliu várias outras efemérides importantes, como o centenário do poeta Solano Trindade e os 120 anos da Abolição - sai de um dos baús aqui do Lote uma informação de Luiz Edmundo. Nela, o velho historiador carioca conta que, na chegada das “reais pessoas” em 1808, os negros da Irmandade do Rosário emprestaram sua igreja (a da rua Uruguaiana) e acabaram barrados na festa. Aí, o Velhote pôs mãos à máquina e começou a elaborar uma pecinha teatral. Cujo trecho principal vai aqui, pra deleite dos leitores. ..................................................... CENA 2 EM PALÁCIO, O VICE-REI ACERTA COM UM SACERDOTE GRADUADO DETALHES DA RECEPCAO À CORTE. V-REI – Sua Alteza não achou muito protocolar a idéia de seguirem as pessoas da Família Real para a Igreja do Carmo, após o embarque. Não temos uma Sé? SACERDOTE – Ter temos, meu senhor. Mas ela não nos parece um templo capaz de favorecer tão honrosa visita. VR – Por que? SCDT – É muito distante do cais de desembarque, senhor. E está se esboroando. VR – Esboroando? SCDT – Desde que a igreja mor abandonou o sítio do Castelo, que o cabildo anda pulando de casa em casa, de igreja em igreja. VR – Então... SCDT – Já esteve na Igreja da Cruz. E agora está na Igreja do Rosário. VR – E daí? Vamos para o Rosário. SCDT – Mas é uma igreja de pretos, senhor. VR – De pretos, de verdes, de amarelos... o caso é que nos temos que cumprir o protocolo. Se o cabildo está lá, lá é a Catedral. E é lá que nos vamos rezar o Te-Deum. CENA 3 IGREJA DO ROSARIO. OBRAS FRENETICAS. ESCRAVOS E ESCRAVOS TRABALHAM NA TRANSFORMAÇãO DA HUMILDE IGREJINHA, PARA COLOCÁ-LA DIGNA DO PRINCIPE. CANTAM E DANÇAM CENA 4 A CORTE JÁ DESEMBARCOU E A IGREJA ESTÁ PRONTA PARA RECEBER AS REAIS PESSOAS. O PADRE JOSÉ MAURICIO, RESPONSÁVEL PELA MÚSICA, INFORMA O VICE-REI SOBRE O QUE PREPAROU. JM – Hoje, senhor Vice Rei, estão aqui reunidos os melhores músicos da capital do Vice-Reinado. Foram escolhidos a dedo, senhor. VR (OLHANDO A ORQUESTRA, PARA CONFERIR, SE SURPREENDE) Mas... são todos pretos, quer dizer, todos assim “trigueiros”... JM (ALTIVO E SERENO) – Como eu também, Senhor. VR – São todos daqui? Eu não os conhecia... JM – ENUMERA. VR – Bem... o importante é que sejam bons músicos e que agradem. O príncipe gosta muito de música, sabia? JM – Eu sei, senhor. E por isso preparei um magnífico Te Deum Laudamus, o Hino de Graças e as antífonas Sub Tuum Presidium e O Beata Sebastiana. CHEGA UMA AUTORIDADE E DIRIGE-SE AO VICE-REI INDIGNADO AUTDD. – É um absurdo, não, Senhor!? Receber-se a família real numa igreja suja e miserável como esta! Uma igreja de pretos, Senhor Vice-Rei! VR (GOZANDO) – Os pretos sabem fazer boas festas, meu caro! E a de hoje parece que vai ser muito boa. Não é mesmo, Padre José Maurício? JM – Praza aos céus, senhor Vice-Rei! Deus vos ouça! A AUTDD DEMONSTRA IRRITAÇÃO CENA 5 CORO, SIMULANDO ENSAIO, REGIDO PELO PADRE JOSE MAURICIO, INTERPRETA PEÇA SACRA CENA 6 AOS ÚLTIMOS ACORDES DA BELA INTERPRETAÇÃO DO CORO, NA PORTA DA IGREJA, OS NEGROS DA IRMANDADE DO ROSÁRIO, PARAMENTADOS PARA A SOLENIDADE E EMPUNHANDO UM PÁLIO COM QUE PRETENDEM COBRIR SUA ALTEZA, DISCUTEM ACALORADAMENTE COM OS CÔNEGOS, NUMA TROCA DE EMPURRÕES. PRETO – A Igreja é nossa! Nós fizemo ela cum nosso dinhero! PRETA – A Igreja tá emprestada à Mitra mas os dono samo nós! PTO - Nós somos os donos da casa e por isso nos temo direito de homenajeá o prinspe tomém! CÔNEGO – A Irmandade não pode se imiscuir no protocolo. E logo que Irmandade! Uma Irmandade de pretos. Era só o que faltava! PTA - Nós samo os dono da casa! Os incomodado que se mude! CNG – Grande desaforo! São Sebastião é uma cidade e não uma aringa africana! PTO – A casa é nossa e nós vamo recebê Dão João! CNG – Era o que faltava! Negro ter voz ativa aqui! VICE-REI (CHEGANDO-SE PARA SABER DA RAZAO DO TUMULTO) O que está acontecendo aqui? Que balbúrdia é essa? CNG – Esses negros querem estragar a festa, Senhor! Querem se mostrar para o Príncipe. VICE-REI (DANDO CRÉDITO AO CÔNEGO, SE ENRAIVECE) Fora daqui! Andem! Fora! Já! OS NEGROS SE AFASTAM CABISBAIXOS, LEVANDO CONSIGO O PÁLIO E OS ORNAMENTOS QUE TINHAM PREPARADO (CANTAM CANÇAO TRISTE, LAMENTO) *** NOTA: No Rio, D. João VI assinou várias cartas régias proibindo os folguedos públicos dos negros. Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008
DE SUELI CARNEIRO SOBRE O CASO MATILDE Sueli Carneiro, advogada e educadora paulista, é um dos mais brilhantes nomes da militância pelos direitos da população afro-brasileira. E é dela a primeira grande manifestação sobre o caso Matilde Ribeiro, publicada na edição de 8 de fevereiro do Correio Braziliense. Leiam e reflitam: "Não, não há racismo na demissão de uma gestora pública em nível de ministra sobre a qual pairem suspeitas de uso indevido de dinheiro público ou erro administrativo — tratando-se ou não de pessoa negra. Há, no entanto, racismo e discriminação no tratamento que foi dispensado à ex-ministra Matilde Ribeiro dentro e fora do governo. "A ministra não é chamada pelo presidente da República, de quem seria pessoa de confiança, para se explicar. É sabatinada com direito a muitos “pitos” e aconselhamento para se demitir por outros três ministros supostamente equivalentes a ela. Evidencia-se aí o que parece ser o caráter simbólico do título de ministra. Demitida, é exposta numa patética coletiva de imprensa, jogada aos leões, sem a presença de nenhuma das figuras de expressão do governo ou de seu partido para emprestar-lhe “solidariedade” como houve em outros casos similares. "Na mídia, proliferam charges que extrapolaram, em muito, o objeto central das irregularidades de que era acusada. De forma grotesca, deram plena vazão aos estereótipos. As ilustrações de sua figura nos órgãos de imprensa serviram-se de todos os clichês correntes em relação às pessoas negras. Em uma delas, ela é representada sambando com batas africanas e tranças rastafári, como se esses traços de identidade falassem por si e, portanto, explicassem os erros que lhe custaram o cargo. "Foucault já explicou como se dá esse processo que ele nomeou de “dobrar o delito” acoplando-lhe “uma série de outras coisas que não são o delito mesmo, mas uma série de comportamentos, de maneiras de ser que (...) são apresentadas como a causa, a origem, a motivação, o ponto de partida do delito”. O resultado dessa operação é que a falha cometida se torna a marca, o sinal de uma suposta imperfeição congênita de uma pessoa ou, mais ainda, de seu grupo social. (...)" Parabéns, Sueli Carneiro! Mais uma vez! Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008
SUBALTERNOS E DEFORMADOS Leia em Carta Capital matéria sobre o Dicionário Literário Afro-Brasileiro, de Nei Lopes, que será lançado em São Paulo, na Casa das Rosas, Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura (Av. Paulista, 37) , na próxima 5a. feira, dia 14, a partir das 19h. FLORES EM VIDA E PRESENTE DE GREGO Tempos atrás, listávamos e publicávamos tudo aquilo que achamos que o samba precisa para ser visto e respeitado como a grande arte que é. O texto foi tão bem recebido que a então deputada Jandira Feghali o fez constar dos anais do Congresso Nacional, na seção realizada em Brasília no Dia Nacional do Samba. Agora, alguém, que suponho um jovem bem intencionado, vem até nós, a pretexto de uma homenagem, como tem ocorrido com freqüência, solicitar nossa presença e nosso samba em outro Estado, sem nos oferecer nenhum tipo de contrapartida a não ser a honra das "flores em vida", que embora muito nos envaideçam, às vezes acabam se tornando um presente de grego. É então que, zeloso, delicado e profissional como sempre, o produtor e amigo Ruy Quaresma, através de sua Fina Flor Produções, adianta-se e escreve ao propositor da sincera homenagem, dizendo entre outras coisas o seguinte: “Diferente do que você imagina – escreveu Quaresma - o samba só passa a ser respeitado quando tenta se nivelar economicamente aos outros segmentos do mercado musical, exigindo o mesmo tratamento e até mordomias, se houver. Não precisamos exigir 80 toalhas negras, como fazem os roqueiros que vêm aqui, mas podemos e devemos exigir condições mínimas, como bilhetes aéreos (sambista já andou muito de carona, kombi e ônibus), hospedagem em hotel decente, alimentação adequada, um camarim confortável, etc. Fazemos isso há, pelo menos, 30 anos, e ainda tem gente (produtores) que se espanta, porque está acostumada a tratar sambista como um bando de batuqueiros que fazem qualquer coisa por um espeto de churrasco com farofa, umas cervejas, uma cachacinha e, quem sabe, até um trocozinho pra fazer uma graça com a D. Maria. Sabemos que o samba é a grande matriz da música brasileira, sabemos da importância disso tudo. Mas se os sambistas continuarem a participar gratuitamente de rodas de samba, comparecer aos salões da "sociedade" em troca de um jantar e uma merreca, fazer participações em eventos de “jovens”, em troca de um cachezinho de ajuda de custo, vão continuar eternamente à margem, mendigando e reclamando da vida, que o samba não tem vez etc etc. “Temos que agir profissionalmente SIM. – prossegue Ruy. Na nossa gravadora FINA FLOR, sambistas gravam discos decentes, com músicos de verdade, com naipe de sopros, orquestra de cordas, etc e são respeitados e regiamente pagos, como qualquer outro artista da chamada MPB. Na produtora FINA FLOR, procuramos, cobrando cachês decentes e estabelecendo condições mínimas de trabalho, dar dignidade a artistas como Nei Lopes, Walter Alfaiate, Surica, Monarco, Tantinho da Mangueira, Almir Guineto, Luiz Carlos da Vila, Noca e muitos outros. O samba, como cultura, está acima, muito acima de todos nós; já está devidamente eternizado e é imortal, não correndo o risco de morrer, como você teme, nem de agonizar como, equivocadamente, imaginou nosso querido Nelson Sargento”. E arremata Ruy Quaresma: “Nei Lopes mora a 80km do Rio, num município onde faz suas pesquisas, escreve seus livros, compõe suas músicas, enfim, trabalha diariamente, só vindo ao Rio para gravar alguma coisa, fazer algum show ou pegar um avião pra viajar. Mesmo sendo um escritor respeitado e um cantor-compositor de reconhecidos sucessos, ele ainda não pode se dar ao luxo de, por conta própria, se deslocar, seja para onde for, para participar de qualquer evento, homenagens etc, que não tenham cunho profissional.” É isso... Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008
MANDELA E A FARRA NO MOTEL DE REALENGO Um episódio exemplar Nos anos 90, o Velhote aqui do Lote foi servir ao Estado, no segundo governo Leonel Brizola. E de repente viu-se ocupado com os preparativos para a recepção a Nelson Mandela, que, recém liberto dos cárceres do apartheid, viria ao Brasil. Reúne daqui, reúne dali; disputa daqui disputa dali, pra ver quem era o "dono" da ilustre visita, após meses de stress e politicagem, chega a semana da festa. Nos detalhes finais, na hora H não se tinha o nome do fornecedor do bufê, constante de pingues salgadinhos e uns refrescos meio mornos. Mas era preciso empenho, licitação, aquelas coisas. Mais correria. Até que um burocrata experiente descobre na Lei uma justificativa para não se licitar o fornecimento do bufê: urgência, pois Mandela chegava no dia seguinte. Achada a receita legal, vem o remédio: o Doutor Fulano conhecia um bufê que já era fornecedor do Governo. Aí assinamos os papéis. Só que o bufê era do mesmo dono de um motel da avenida Brasil, em Realengo. E a nota consignou: "Motel Coisa e Tal; CGC tal; fornecimento de N lanches". Pra quê!? No dia seguinte, o maior jornal do Brasil lascava a manchete, mais ou menos assim: "FUNCIONÁRIOS DE BRIZOLA E COMITIVA DE MANDELA FAZEM FARRA EM MOTEL". E a assinatura do Velhote estava lá, na foto do documento que autorizara a despesa e agora ilustrava a matéria. Para decepção e vergonha de um Irajá inteiro. Mais tarde, o imbroglio foi desfeito. Mas os visitantes do Lote podem imaginar o quanto isso custou de mágoa, acabrunhamento, sensação de impotência, pressão alta, dor de cabeça. Esta remexida na parte fedorenta do baú vem a propósito da demissão de Matilde Ribeiro da SEPPIR, num triste caso que há dias vem ocupando as páginas dos jornais. Há sempre uma casca de banana, uma armadilha à nossa espera. Os que são "macacos velhos" saem dessas numa boa, sem estresse ou depressão. Mas os nossos, quando são bem intencionados, escorregam sem nem saber que escorregaram. E aí a dor é grande, mas muito grande mesmo, repercutindo em ondas. Esclareço que, embora inscrito na OAB e com anuidade em dia, não tenho procuração da ex-ministra para qualquer tipo de defesa. Mas quem conhece sabe que, até aqui, todos os órgãos públicos voltados para a cidadania dos afrodescendentes nunca têm carro, verba, móveis, respeito, status, nada! São criados apenas para que não se diga que o Estado brasileiro não se preocupa com os seus excluídos. E a parte melhor de seus funcionários, quase sempre trabalhando em nome da causa, estão o tempo todo sujeitos àquela "casca de banana" sobre a qual tanto o saudoso Brizola nos alertava. Seria bom, então, que antes de qualquer juízo sobre o caso SEPPIR - principalmente se as investigações forem, mesmo, estendidas ao governo Fernando Henrique - se refletisse melhor, buscando historinhas exemplares, como a de "Mandela no motel". Mesmo porque, logo depois, no governo seguinte, a Secretaria Extraordinária de Defesa das Populações Afro-brasileiras, genialmente idealizada e liderada pelo venerando Abdias Nascimento, foi extinta. Ou será que não sabemos que, no caso específico de Matilde Ribeiro, o que está em jogo, neste momento, é a apreciação, pelo Congresso, do Estatuto da Igualdade Racial, pièce-de-resistence da SEPPIR? |
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