Quinta-feira, Janeiro 31, 2008
Terça-feira, Janeiro 29, 2008

DEU NA COLUNA DO JOAQUIM
(O Globo, 28.01.2008)






Segunda-feira, Janeiro 28, 2008

AS ESCOLAS DE SAMBA VÊM DO TEMPO DE DOM JOÃO CHARUTO

Os historiadores do carnaval brasileiro costumam ver suas origens remotas na Roma antiga, como contou a Beija-Flor, há alguns anos. Mas o fato é que os festejos, embora atrelados ao calendário católico, têm também, sob alguns aspectos, raízes na África negra, encontrando similares em várias culturas africanas.
Em Gana, por exemplo, entre os povos Akan (fantis e axantis) é comum a realização de um grande festival anual, o odwira, seguido de um longo período de recolhimento e abstinência, como na quaresma. Certamente devido a essa similitude, as celebrações carnavalescas nas Américas devem sua alegria e seu brilho, fundamentalmente, à música dos afro-descendentes. Assim foi e é nos ranchos carnavalescos, escolas de samba, afoxés, blocos-afro etc, no Brasil; no candombe platino; nas comparsas cubanas; no mardigras, nas Antilhas e em New Orleans.

Nas Antilhas, o carnaval foi introduzido pelos católicos franceses, que costumavam estendê-lo por um bom tempo antes de enfrentarem os rigores da quaresma, sendo que, na Martinica, o costume foi adotado por volta de 1640. Isolados pela sociedade dominante, os escravos uniram-se para celebrar o carnaval à sua moda, com a música e a dança de sua tradição, introduzindo, na festa européia, além de seus instrumentos, suas crenças e seu modo de ser. As festividades do carnaval martiniquenho, o kannaval, expressam-se em um peculiar estado de espírito, transmitido de geração a geração. A cidade de Saint Pierre foi, durante muito tempo, o ponto culminante da festa na ilha, tendo sua fama se estendido por todo o Caribe, atraindo a cada ano milhares de visitantes de todo o mundo.

Depois da devastadora erupção vulcânica de 1808, a tradição carnavalesca reviveu em Fort-de-France, a nova capital, onde, hoje, os preparativos têm início na epifania, em meados de janeiro, quando o povo começa a se animar, e se estendem até a quarta-feira de cinzas. Durante esse período e no carnaval propriamente dito, a cada domingo, grupos fantasiados saem às ruas, em trajes variados: casacos velhos, trajes fora de moda, chapéus rasgados, bem como fantasias brilhantes e coloridas de arlequim, pierrôs e diabos. As máscaras também têm lugar destacado na festa. E além das que homenageiam ou criticam personalidades do momento, como artistas, políticos etc, há as relacionadas à morte, cheias de simbologias africanas -- das quais Aimé Césaire encontrou o significado em rituais da região de Casamance, no norte do Senegal (cf. Alain Eloise). No Haiti, de um modo geral, o carnaval é celebrado dentro desse mesmo espírito e com traços semelhantes aos carnavais do Brasil, de Trinidad e da Louisiana. Em Port-au-Prince, o visitante vai encontrar os mesmos desfiles, festas e fantasias criativas que se vêem nesses lugares.

No Brasil, desde pelo menos o início do Século XIX, a participação do povo negro nos folguedos carnavalescos sempre foi marcada por uma atitude de resistência, passiva ou ativa, à opressão das classes dominantes. Proibidos por lei de, no entrudo, revidarem aos ataques dos brancos, africanos e crioulos procuravam outras maneiras de brincar. Tanto assim que Debret, entre 1816 e 1831, flagrava uma interessante cena de carnaval em que um grupo de negros, fantasiados de velhos europeus e caricaturando-lhes os gestos, fazia sua festa, zombando dos opressores e criando, sem o saber, os cordões de velhos, de tanto sucesso no início do século XX.

Entre 1892 e 1900 surgem no carnaval baiano, pela ordem, a “Embaixada Africana”, os “Pândegos D’África”, a “Chegada Africana” e os “Guerreiros D’África”, apresentando-se em forma de préstitos constituídos única e exclusivamente de negros. Essa modalidade carnavalesca (“a exibição de costumes africanos com batuques”) é proibida em 1905 na Bahia. Exatos dois anos depois, surge no Rio de Janeiro o rancho carnavalesco “Ameno Resedá” que, pretendendo “sair do africanismo orientador dos cordões” (cf. Jota Efegê) conquista, com seus enredos operísticos, um espaço importante para os negros no carnaval carioca, cimentando a estrada por onde, mais tarde, viriam as escolas de samba.

Mas a gênese do carnaval negro brasileiro, o dos cortejos que gerararam as escolas de samba, talvez esteja mesmo é em 1808, no Rio, quando das festas em homenagem à família real que aqui chegava. Vejamos esta descrição dos viajantes John e William Robertson, transcrita no precioso livro de, Mary C. Karasch “A vida dos escravos no Rio de Janeiro; 1808-1850” ( Companhia das Letras, 2000):

“Em frente avançavam os grupos das várias nações africanas, para o campo de Sant’Anna, o teatro de destino da festança e da algazarra. Ali estavam os nativos de Moçambique e Quilumana, de Cabinda, Luanda, Benguela e Angola [...]

“A densa população do campo de Sant’Anna estava subdividida em círculos amplos, formados cada um por trezentos a quatrocentos negros, homens e mulheres.

“Dentro desses círculos, os dançarinos moviam-se ao som da música que também estava ali estacionada; e não sei qual a mais admirável, se a energia dos dançarinos, ou a dos músicos. Podiam-se ver as bochechas de um atleta de Angola prontas a arrebentar pelo esforço de produzir um som hediondo de uma cabaça, enquanto outro executante dava golpes tão abundantes e pesados no tímpano que somente a natureza impenetrável do couro de um boi poderia resistir-lhes. Um mestre-de-cerimônias, vestido como um curandeiro, dirigia a dança; mas era para estimular, não para refrear, a alegria turbulenta que prevalecia com supremo domínio. Oito ou dez figurantes iam e vinham no meio do círculo, de forma a exibir a divina compleição humana em todas as variedades concebíveis de contorções e gesticulações. Logo, dois ou três que estavam no meio da multidão pareciam achar que a animação não era suficiente, e com um grito agudo ou uma canção, corriam para entro do círculo e entravam na dança. Os músicos tocavam uma música mais alta e mais destoante; os dançarinos, reforçados pelos auxiliares mencionados, ganhavam nova animação; os auxiliares pareciam envoltos em todo o furor de demônios; os gritos de aprovação e as palmas redobravam; cada observador participava do espírito sibilino que animava os dançarinos e os músicos; o firmamento ressoava com o entusiasmo selvagem das clãs negras [...]”

Que tal? Digam se não parece que foi aí que nasceram o diretor-de-harmonia, a bateria, as pastoras. Hein?




Segunda-feira, Janeiro 21, 2008

OS JORNALÕES NÃO DERAM. MAS O LOTE DÁ

Na calada da noite de 17 de janeiro, o Jornal Nacional, baixinho, quase de boca fechada, no seu finalzinho, deu a notícia. Entretanto, no dia seguinte, na mídia impressa, nada! Mas tá aqui, na Internet:

“MINISTÉRIO PÚBLICO ARQUIVA INVESTIGAÇÃO CONTRA MATILDE RIBEIRO POR RACISMO”

Imaginemos que a decisão fosse no sentido inverso. Já pensaram? Às vésperas da apreciação do projeto do Estatuto da Igualdade Racial? Mas vejamos como foi a decisão!

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”O Ministério Público Federal no Distrito Federal (MPF/DF) promoveu ontem, 16 de janeiro, o arquivamento do procedimento administrativo instaurado para investigar suposta prática de crime de racismo pela secretária especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República, Matilde Ribeiro, durante entrevista ao site BBC Brasil, em março de 2007.

“A representação ao MPF foi feita pelo Instituto de Cooperação, Desenvolvimento Humano e Social (Codhes), em setembro do ano passado. Segundo o instituto, a secretária teria cometido crime de racismo ao declarar que 'não é racismo se insurgir contra branco".

“Durante a investigação, a BBC Brasil enviou ao MPF a íntegra da entrevista realizada com a secretária especial, a nota de esclarecimento divulgada pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e divulgada no site, a entrevista em que a secretária se reposiciona em relação a suas afirmações e a transcrição da reportagem transmitida pela rádio.

“Após analisar o material, a procuradora da República Lívia Tinôco afirma não haver elementos que comprovem a vontade da secretária de incitar ou instigar a prática do racismo no seio da sociedade brasileira. Ao contrário, a transcrição integral da entrevista demonstra que Matilde Ribeiro rechaçou tal possibilidade e expressamente desaprovou a conduta.

“Para a procuradora, "ainda que se possa objetar a infelicidade de suas palavras ou o tratamento pouco cuidadoso que possa ter tido na apresentação de suas idéias durante a entrevista, não parece possível avançar para a conclusão da prática da conduta criminosa de incitação ou instigação ao racismo".

“O entendimento baseia-se na definição de racismo adotada pelo Supremo Tribunal Federal: ‘reprovável comportamento que decorre da convicção de que há hierarquia entre os grupos humanos, suficiente para justificar atos de segregação, inferiorização e até de eliminação de pessoas’. Segundo a procuradora, é impossível constatar no discurso de Matilde Ribeiro a concepção de que os negros seriam um grupo social hierarquicamente superior aos brancos”.

(de http:www.tvjustica.gov.br, 18.01.08)




Quinta-feira, Janeiro 17, 2008



O CARNAVAL E SEU IMPACTO
Antegozando o Tríduo Momesco


Sinceramente, o que eu curto mesmo no carnaval, de montão, é o impacto que ele causa na economia. Vejam se eu não tenho razão!

O carnaval – e quem diz é o superintendente do SEBRAE, Dr. Sérgio Malta – movimenta mais de 1 bilhão e meio de reais, gera 100 mil postos de trabalho e traz pra cidade, naquela do entra e sai, uns 670 mil turistas. E, durante quase todo o ano, a festa gera 60 mil empregos permanentes e beneficia o comércio, a industria e o turismo, desde o setor editorial e gráfico até o da música, chegando inclusive ao fabrico de instrumentos musicais. É demais, não é?

Agora, vêm esses caras dizerem que antigamente é que era legal; que tinha ranchos, sociedades, blocos de sujo, frevos; que tinha carnaval na Rio Branco e em todas as outras avenidas; que em todo bairro o povão se divertia de graça em volta dos coretos; que, desses coretos, os mais bonitos e bem concebidos eram premiados; que os bondes eram verdadeiros salões ambulantes de folia, cortando a cidade; que as marchinhas eram às vezes belíssimas, e em geral muito espirituosas; que os sambas eram ao mesmo tempo melodiosos e animados; que os sambas-enredo das escolas eram quase sempre obras- primas; que, nessas escolas, cada mestre-sala e cada passista tinha um estilo próprio de dançar; que, nas ruas e nos salões, havia uma variedade enorme de fantasias, desde as industrializadas até as improvisadas, de ultima hora; que tinha máscaras de diabinho, morcego, vovô e clóvis de tudo quanto era jeito; que as pessoas atiravam confetes e serpentinas umas nas outras, carinhosamente; que lança-perfume era para espargir nas moças, sinalizando a paquera.

Bah! Saudosismo bobo! O importante é o impacto que o carnaval causa na economia da cidade! Não é mesmo?





O "VIGOR VOCAL" DO LOTE

O jornalista Mauro Ferreira estava lá na Universal, na última 3a. feira, assistindo à gravação do DVD de Dudu Nobre, na qual o Velhote aqui do pedaço fez uma pontinha, na sua reentré após a "tia-ciatalgia" que o acometeu na Semana da Consciência Negra.

O exigente crítico musical de O Dia tirou o bonezinho!

Vejam aqui.




Sexta-feira, Janeiro 11, 2008
Quarta-feira, Janeiro 09, 2008



Ê, IRAJÁ, 90 ANOS! PARECE QUE FOI ONTEM...

No ano de 1918, depois de morar um pouquinho na Piedade, o casal - ela com 18, ele com 30 anos - chegava, casadinho, à Freguesia de Irajá, terra onde o mel ainda brotava.

Depois de um tempinho na esquina da Rua dos Inválidos (atual Gustavo de Andrade) com a Estrada do Monsenhor Félix, em parte do terreno hoje ocupado pela loja dos Supermercados Guanabara, o casal tomava posse do terreno da então Estrada do Pau-Ferro (rua Honório de Almeida) onde escreveu sua história. E, mesmo sem água encanada nem luz elétrica e cozinhando à lenha, os dois e os filhos - chegados, de início, em média, a cada dois anos - plantaram uma árvore frondosa que até hoje frutifica.

***

Vivos fossem, Seu Luiz com 120 anos de idade e Dona Eurydice com 108, não sabemos se gostariam de tudo o que acontece hoje por lá. Mas certamente apreciariam ver a família junta, no mesmo lugar, principalmente nos dias de "brincadeira", que não são poucos. E, com certeza, achariam engraçada a foto que ilustra este "post".

Aí, Dona Eurydice, irônica e brejeira como sempre, comentaria, apontando para o ilustre passageiro baixinho, o segundo no estribo, da direita para a esquerda, segurando o embrulho:

- Credo, Luiz, que roupa mais fora de moda a tua! Teu caçula já falando em "post", "blog", "photoshop", e você assim! E ainda por cima nesse "bonde-de-burro". Que horror!

***

(Saudade veio à sombra da mangueira...Desculpem, leitores...)







ANÚNCIO VEICULADO POR SENAC-RIO EDITORA EM NOVEMBRO DE 2007




Terça-feira, Janeiro 08, 2008

SOBRE UM EDITORIAL DE O GLOBO

No auge das discussões sobre o “Estatuto da Igualdade Racial”, as opiniões contrárias à aprovação do texto pelo Congresso procuram caracterizá-lo como uma ameaça ao convívio supostamente pacífico que reinaria entre os vários segmentos étnicos da sociedade brasileira. É o caso agora do editorial intitulado “Grave Ameaça”, publicado na edição de 6 de janeiro de O Globo.

No texto, o jornal condena Brasília por “importar modelos aplicados em sociedades diferentes da nossa”, referindo-se aos Estados Unidos, “país símbolo dessas ações ditas afirmativas”, como ressalta. Como se, desde pelo menos a Segunda Guerra, o Estado e a sociedade brasileira não tivessem sido contumazes importadores de modelos emanados da sociedade norte-americana. E como se a “democracia racial” brasileira não tivesse sempre conhecido, bairros negros, irmandades negras, clubes de negros, diversões para negros – face à simples impossibilidade de esses negros circularem sem problemas nos ambientes dos brancos.

Para O Globo, a baixa escolaridade do indivíduo negro e sua conseqüente estagnação nos estratos de renda menos beneficiados da sociedade brasileira ocorrem não por ele ser negro mas por ser pobre. Aí o editorialista esquece ou não quer lembrar que a situação do negro brasileiro hoje é resultante de um processo abolicionista que, ao instituir uma nova ordem social no país, foi jogando na rua da amargura, sem terra, sem moradia e sem trabalho digno, através de gerações, milhões de ex-escravos e descendentes. E que, com relação aos livres ou libertos em 1888, a nova ordem os foi empobrecendo e marginalizando, pela preferência que dirigiu à mão de obra recém chegada, principalmente da Europa. Então, o negro brasileiro, sim, é pobre porque é negro – a palavra aí entendida como sinônimo de “descendente de africano escravizado”.

Diz mais o editorial que as ações afirmativas desafiam “o princípio constitucional da igualdade de tratamento entre todos os cidadãos brasileiros”. Ora, ora... essa igualdade, todos sabemos, é apenas um princípio constitucional que na prática nunca se realizou. Se houvesse essa igualdade, o negro não teria “escolaridade relativamente mais baixa” nem se situaria “nos estratos de renda menos beneficiados da sociedade brasileira”, como o próprio texto comentado admite.

Sobre o mérito acadêmico deixado, segundo O Globo, “em plano secundário” pelas políticas de ação afirmativa , perguntamos: que mérito escolar tem, sobre outro menos afortunado, o estudante tranqüilo, saudável, bem alimentado, vivendo em família abastada, letrada e com bem estruturados hábitos de consumo cultural?

Quanto à baixa qualidade do ensino publico no Brasil, servimo-nos de nossa experiência pessoal para lembrar que, em meados da década de 1950, um novo modelo educacional veio colocar por terra a escola em tempo integral, na qual se oferecia aos estudantes carentes de diversas origens uma grade curricular dividida em “cultura técnica” e “cultura geral”, que nos propiciava a todos a possibilidade de acesso ilimitado ao mundo do conhecimento. E que, pelo menos no nosso ambiente, guindou da pobreza para o sucesso profissional muitos jovens, hoje sessentões, na época nem tão brilhantes nem tão disciplinados quanto poderiam ou deveriam ser.

Finalmente, sobre o “convívio pacífico”, em nosso país, “de várias raízes étnicas” – como se lê no editorial de O Globo – o que vemos no nosso dia-a-dia é mais a impossibilidade, para o brasileiro preto ou afro-mestiço, de sair do seu “lugar de negro”. Estão aí as telenovelas, as revistas de glamour, as redações, as agências e produtoras, os estúdios de arte etc, que não nos deixam mentir. Dessa exclusão é que se nutre a violência que abala as grandes cidades brasileiras, a qual se reveste de fortes componentes etno-raciais.

A violência que hoje nos atinge a todos – ela, sim, uma grave ameaça, de caos e destruição – resulta principalmente do fosso que se foi cavando, após 1888, neste triste Brasil em que vivemos, entre os “brancos” e os “não brancos”, até mesmo no terreno lamacento do ilícito penal .




Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

A IEMANJÁ DE MADUREIRA E A VÍRGEN DE REGLA
Com votos de Feliz Ano Novo


Vendo pela televisão a procissão que saiu, no último dia 29, do Mercadão de Madureira, levando uma bela imagem de Iemanjá para as homenagens nas águas de Copacabana – registre-se que, na noite de 31, a tradição do culto foi banida em favor dos shows musicais e pirotécnicos – ocorreu-nos a seguinte reflexão:

Iemanjá é o grande orixá iorubano das águas, reverenciada, no Brasil, como mãe de todos os orixás. Tem temperamento maternal, seu domínio são as portas, simboliza o futuro e se materializa simbolicamente num conjunto de sete pedras do mar. É celebrada, na Bahia, a 2 de fevereiro, dia consagrado a Nossa Senhora das Candeias. Nesse dia, no bairro litorâneo do Rio Vermelho, realiza-se, no mar, com grande afluência de fiéis, a cerimônia do “Presente das Águas” ou “Presente de Iemanjá”, instituída na década de 1920, por iniciativa de pescadores locais e sob a orientação da mãe-de-santo Júlia Bugan. Vejamos aí que essa tradição parece que é um híbrido cultural, já que se originaria no “presente da Quianda”, a “sereia” de Angola, o qual até a década de 1980 ainda ocorria na baía de Luanda, com oferenda de flores, perfumes, objetos de adorno, bebidas finas etc.

O culto de Iemanjá tem origem entre o povo Egbá, habitante do centro-sul do país iorubá, na atual Nigéria. Filha de Olocum,o senhor do mar, Iemanjá é a divindade tutelar do rio Ogum (em referência a ògún, espécie de nassa, usada para pescar camarões e lagostas; diverso de Ògun, divindade do ferro e da guerra), o qual passa pela cidade de Abeokutá e desemboca em frente a Lagos, antiga capital nigeriana.

Segundo seu mito primordial, Iemanjá nasceu perto da cidade de Bidá, no território do povo Nupê, e se mudou para Oió, onde casou com Oraniã e deu à luz Xangô. Seu símbolo é um colar de continhas de vidro, cristalinas “como água”. Sobre ela , escreve Pierre F. Verger: “Iemanjá, cujo nome deriva de yèyé omo ejá (“mãe cujos filhos são peixes”), é o orixá dos egbás, um povo iorubá estabelecido outrora na região ente Ifé e Ibadan, onde existe ainda o rio Yemojá. As guerras entre nações iorubás levaram os egbás a emigrar na direção oeste, para Abeokuá, no início do século 19. Evidentemente não lhes foi possível levar o rio, mas em contrapartida, transportaram consigo os objetos sagrados, suportes do axé da divindade e o rio Ógún, que atravessa a região, tornou-se, a partir de então, a nova morada de Iemanjá”.

No Brasil, segundo P. Verger, são conhecidos os seguintes avatares ou qualidades de Iemanjá: Assabá, que é manca e está sempre fiando algodão; Assessu, muito voluntariosa e respeitável; Euá ; Iamassê, mãe de Xangô; Iemouô, mulher de Oxalá; Olossá, que é o nome de uma lagoa africana; e Ogunté, casada com Ogum Alabedé.

Em Cuba, orixá da maternidade por excelência, Iemanjá (Yemayá) é cultuada, segundo N. Bolívar Aróstegui, nos seguintes camiños: Awoyó; Akuara; Okuté; Konlá; Asesú; Mayalewo; Okotó; Lokún Nipá; Alará Magwá Onoboyé; Oguegué, Awoyó Olodé; Ye Ilé Ye Lodo; Ayabá Ti Gbé Ibú Omi; Atará Magbá Anibodé Iyá; Iyamí Awoyómayé Lewó; Yalodde; Awó Samá; Yembó.
No Haiti, associam-se a esse grande orixá feminino os loás (guias) Grande Erzili, Maitresse Erzili, Agoué, Grand Erzilié, Erzilié Freda. E na República Dominicana, Metre Silí e Agué Toroyo.

Em Trinidad-Tobago, nossa Mãe Iemanjá recebe o nome de Emanjah ou Amanjah e tem como correspondentes, Ajajá e Mahadoo.

Diante disso tudo, a procissão vista pela tevê, nos fez bem. Pois lá estava, ao contrário do que até bem pouco tempo se via, uma Iemanjá mulata, de nariz largo e cabelos crespos, afro-descendente com certeza. Assim é que se faz! E agradeçamos aos movimentos negros por essa importante conquista. Que só não é boa para aqueles que, sob o malandro argumento da “mestiçagem” ficam agora dizendo, do alto de suas cátedras universitárias, que a afirmação da identidade negra é segregacionista e vai dividir o país. Como se já não houvesse a segregação e a divisão!

Em Cuba, esse sim, um país muito mais referencial para nós aqui do Lote do que os EUA, por exemplo, a Vírgen de Regla, padroeira de Havana, celebrada a 8 de setembro e associada a Iemayá, é uma nossa-senhora pretinha, bem pretinha.

Que essas nossas deusas protejam a nós e aos visitantes deste modesto mas vibrante pedaço durante todo o ano de 2008 é o que sinceramente desejamos!

Odô Iá, Mãe do rio Ogum! Omi ô, Senhora das Águas!