Sexta-feira, Dezembro 28, 2007
SEU ROSA FICOU DE FORA. MAS NA PRÓXIMA...
Nosso grande João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, pacata localidade mineira entre Belo Horizonte e Diamantina, em 1908. Lá, aluno de padre, aos 6 anos de idade, leu o primeiro livro em francês. E, aos nove, em Belo Horizonte, freqüentava a Biblioteca da cidade.
Dos 10 aos 14 anos o menino Rosa colecionava borboletas e outros insetos, tinha grande amor por animais e conhecia várias línguas. E em 1930, já adulto e médico, exerceu a profissão em Itaguara, município de Itaúna, por dois anos. Mais tarde, foi oficial do corpo de Saúde do Exército, em Barbacena. E a partir de 1934 foi admitido por concurso nos quadros do Itamarati, repartição diplomática para a qual o Barão do Rio Branco (1845-1912) recomendava a admissão apenas de homens altos, fortes e de aparência européia.
Nascido o querido autor apenas 10 anos após a Abolição da escravidão negra no Brasil e vivendo no ambiente em que viveu, era inexplicável a ausência de personagens seus em nosso Dicionário Literário Afro-Brasileiro. Mas, agora, relendo nós o magistral “Sagarana”, a lacuna começa a ser preenchida, num arquivo que aguarda uma próxima edição aumentada da obra. Nela, o leitor deverá encontrar verbetes como os seguintes, que acabamos de compor:
JOÃO MANGOLÔ – Personagem do escritor mineiro Guimarães Rosa na novela São Marcos, integrante do livro Sagarana (Rio, Record, 1984). Habitante do interior de Minas Gerais, e talvez fruto de reconstituição de lembrança do autor – a criação da novela exigiu, segundo ele, “grandes esforços de memória” e é narrada na primeira pessoa –, João Mangolô, veterano da Guerra do Paraguai, é um preto feiticeiro, de “pixaim alto, branco amarelado; banguela; horrendo”. Sobre ele, outro personagem, Aurísio, “mameluco brancarano (...), com supersenso de cor e casta” diz: “Não gosto de urubu... Se gostasse, pegava de anzol e andava com uma penca embaixo do sovaco!...”. Um dia, mesmo aconselhado pela criada Sá Nhá Rita Preta, o narrador, jovem de família patriarcal, tratado como “sinhô”e “seu moço”, resolvendo desafiar os poderes de Mangalô, vai até ele e recita os “mandamentos do negro”, como sejam: “Primeiro: todo negro é cachaceiro...”; “Segundo: todo negro é vagabundo.”; “Terceiro: todo negro é feiticeiro...”. Tempos depois, o narrador fica cego, por conta das artes maléficas do feiticeiro. Dando-se conta da causa de sua cegueira, mesmo sem enxergar, ele vai à casa de João Mangolô e, à força, o faz confessar a bruxaria. Mangolô, acovardado, conta que apenas fez um “retrato”do sinhozinho e amarrou uma tira de pano preto em seus olhos, para o rapaz “não precisar de ver negro feio”. Desfeito o encanto e recuperada a visão, o rapaz acaba por dar ao negro uma nota de dez mil réis.
LALINO SALÃTHIEL - Personagem do escritor mineiro Guimarães Rosa na novela A Volta do Marido Pródigo, integrante do livro Sagarana (Rio, Record, 1984). É o estereótipo do mulato malandro e sestroso, do “capadócio” simpático, tocador de violão, inteligente mas avesso ao trabalho, sempre arquitetando trapaças, como vender a mulher a um espanhol para cair no mundo. É repetidamente referido no texto como “mulatinho descarado”, “mulatinho levado”, “mulatinho indecente” etc. Termina por ser o bem sucedido cabo eleitoral de um “major” latifundiário, o qual o aceita com reservas mas acaba se beneficiando largamente de sua esperteza.
PRETINHO, O - Personagem do escritor Guimarães Rosa na novela O Burrinho Pedrês, integrante do livro Sagarana (Rio, Record, 1984). “Assinzinho, regulando por uns sete anos, um toquinho de gente preta”. Vindo como encomenda de um fazendeiro em uma tropa, para ser entregue, em outra cidade, a outro patrão, “era magrelo, com uns olhos graúdos, com o branco feio de tão branco”. Sobre essa característica física, diz um outro personagem: “...Deus me perdoe, mas eu acho que alguns pretos têm o branco-dos-olhos assim só para modo de assombrar a gente!...”.
***
Como diz a comadre Alcione, autodenominada A Marrom, “me aguarde, Seu Rosa!”
por Nei Lopes 11:00
Quarta-feira, Dezembro 26, 2007
PARTIDO LÁ NO ALTO PRO CAMUNGUELO
(Cláudio Lopes dos Santos, 6.6.1947 – 24.12.2007)
Eu vou fingir que fechei o paletó
Pra ver quem vai fofocar que eu fui oló
Mamãe não chore não
Que eu tô seguindo a minha pauta:
Nessa e na outra eu levo a vida na flauta! (CORO – BIS)
EU - Dizem que cachaça mata
Cachaça não mata ninguém
O que mata é pneu de automóvel
Bala de revolver, trombada de trem.
ELE - Minha mãe sempre me disse:
Meu filho tu não vai no samba.
Samba tem muita quizumba
Tem muita macumba, tem muita muamba.
(CORO)
EU - As mulheres de hoje em dia
Deixa as filhas vadiar
Depois é Vara de Família
Dizendo que a filha quer DNA.
ELE - Vou-me embora, vou-me embora
Gudbái! Alô, mai guél!
Com saudades da Portela
E daquela morcela de Vila Isabel.
(CORO)
EU - Se tu for pro andar de cima
Dê um abraço em Filipão
Mande meu verso pro Beto,
O Catone, o Aniceto e o Geraldo Babão.
ELE - Vou me embora que aqui embaixo
Virou esculacho e a coisa tá feia
Vou entregar teu carinho
Em mãos de Padeirinho e Antônio Candeia...
DIZ, HUMBERTO ARAÚÚÚJO!!!!!!
“Salve, companheiro (a)!
Morreu um amigo meu.
Um irmão de dores e alegrias.
Não obstante, um fazedor de alegrias.
Um negro, pobre, que fez, com seu talento, arte e humildade, um caminho mais digno e coerente para sua precária vida de estivador do cais do porto.
Coerente, pois artista maior. Coerente enquanto estivador artista.
Artista puro e “louco”, sonhador e suingueiro chorão da mais alta estirpe.
Macumbeiro de fé sempre constante e inabalável a “seu” Jorge Ogum e Oxóssi ao mesmo tempo, aqui por essas plagas.
Guerreiro e caçador dos maiores brasileiros, um lutador, esse meu amigo que morreu.
Ou ... melhor seria dizer: Saiu de nosso convívio aqui no “planeta-matéria”.
Dizem os incautos: “Foi para o ‘descanso’ eterno.”
Não! Um guerreiro jamais eterniza nada que não seja a luta!
Ejilà! Soldado no quartel, quer briga!
Um lutador, um bailarino, um compositor, um intérprete, um flautista, um brasileiro, um macumbeiro, um Negro, com fé na sua ancestralidade!
O Brasil perde um homem de princípios! (Como são trágicos, sempre, os heróis!)
Ganham os Céus! Batam palmas, pois!
Joguem palmas brancas para esse filho de Obatalá que partiu talvez por merecer novos horizontes, não estes tão sofridos, com melhores cachaças e tira-gostos que os daqui desse Brasil violento de desmandos cada vez mais crescentes.
Patápio, Callado, Irineu, Alfredo Filho, Anacleto, Tom, Cachimbinho...
Seria muito simples dizer que todos o aguardam lá no Céu.
Difícil é falar da dor e da saudade que esse Camunguelo, Cláudio, de pia, faz aqui no Chão!
Saudade, meu grande irmão das alturas de urubuir.
Deus o guie em paz nessa nova fase de sua vida, Oxalá, mais calma e branda como você merece.
Meu, sempre forte, aperto de mão, beijo e abraço fraterno”.
(texto do saxofonista Humberto Araújo, enviado por e-mail em 25.12.07)
por Nei Lopes 09:30
Sexta-feira, Dezembro 21, 2007
MERRY CHRISTMAS, SEU NOZINHO!
- Natal bom era naquele tempo, quando a gente comia do bom e bebia do melhor ainda! Não que durante o ano a gente não bebesse nem comesse. Mas Natal era dia de juntar pé com cabeça, morrer todo mundo abraçado que nem filhote de gambá.
Ih! Já está Seu Nozinho, de novo naquele papo careca de “meu tempo”, naquele caô de bonde Irajá, lotação abaixadinho. Pô, coroa, já era! O esquema agora é outro, tio!
- Naquele tempo, aqui no morro, a gente amarrava cachorro com lingüiça mas tinha respeito. E Natal tinha pastorinha, folia de reis, castanha, rabanada. O vinho era Telefone. Mas a gente tinha dinheiro pra comprar um, dois, três garrafões, daqueles com palhinha..
Ninguém está mais nessa, não, maluco! O lance hoje é progresso, é pra frente, é vamo que vamo! O que a moçada quer do Natal é grana do bolso da bermuda, um bom “naique” no pé, um namorado ou uma namorada pra ficar... Vaz Lobo hoje é uma cidade. E Natal é uma festa como outra qualquer: negócio de “xópin”, mesmo. A diferença é que tem o especial do Roberto Carlos.
- Esse negócio de Papai Noel e árvore de Natal, veio depois, muito depois. O que tinha era presépio, com as figurinhas lá, os santos, os reis magos, os bichos... Era cada um mais bonito que o outro. E quem podia, até fazia com movimento, as figuras mexendo a cabeça. Às vezes tinha até água caindo, fazendo cascata.
“Presépio”! Nome besta! Lembra “presepada”. E Seu Nozinho quando toma uns negócios fica mesmo presepeiro. Presepeiro e cascateiro. Onde já se viu Natal sem árvore nem Papai Noel?
- E digo mais. Lá em casa, onze e meia o Velho sentava na cabeceira da mesa. Aí, é que a gente sentava também, a família toda reunida. A primeira caneca de vinho, que era o sangue de Cristo; a primeira rabanada, que era o pão; e o primeiro bolinho de bacalhau, que era o peixe, isso tudo era dele, que abria os trabalhos. Depois é que a gente caía dentro. Com educação, devagarinho, porque juntar pé com cabeça, mesmo, só depois que o Velho ia dormir. Mas antes de dormir, Ele ficava “alegre”. Uma vez por ano. E aí pegava o violão e a gente começava o samba, versando no partido.
Natal com samba ! Eu, hein!? Coisa de coroa, mesmo! Não dá nem pra pensar no Papai Noel com aquele chapeuzinho de velha-guarda. Tremenda bobeira! E família, maluco ?! Família aqui, sou eu, que sou pai, mãe, avó, tudo ao mesmo tempo...
- Quando veio aqui pra Jaqueira, o Velho quis seguir a tradição lá de Minas. Mas não deu. Lá, como ele dizia, o Natal ia do 25 de dezembro até 6 de janeiro, dia dos Santos Reis. Dia 25 era o aniversário do Menino Jesus; dia 27 se comemorava Nossa Senhora do Rosário; dia 28, São Benedito; e no dia 6 fechava com chave de ouro. Ele contava que era festa de arromba mesmo, nas casas e na rua. Com foguetório, procissão, mastros, bandeiras. E os congos e moçambiques na praça.
Foguete, aqui a gente sabe que tem utilidade. E é o ano todo. Agora, esse papo de (como é que é?), “congo”, “moçambique”, parece coisa de macumba. E macumba também é um bagulho da antiga. Aqui no morro, hoje em dia, eu acho que (deixa eu ver) pelo menos uns sessenta por cento do povo é crente. Eu, mesma, recebi Jesus ano passado... Caraca ! Eu era muito doida. Agora, estou numa boa!
- É... era outro Natal!E eu vou nessa! Até mais!
Hmmm. Seu Nozinho vem vindo pra cá. Não vai falar bobagem pra ele, viu Maicon!? Tem, que respeitar os mais velhos!
***
- Como é que foi o Natal, Marli, tudo bem?
- Foi tudo na paz, Seu Nozinho! A gente ficou aqui orando...
- E você, Maicon? Papai Noel chegou junto?
- (...)
- Que cara emburrada é essa, moleque?
- Ah, Seu Nozinho! Esse menino anda impossível. Queria porque queria um “mini-gueime ou um “páuer-renger”..
- ???
- Eu disse que não ia dar. Depois, cismou com uma pistola. Eu fiz pé firme e ele armou o maior banzé aqui, dizendo que tinha que ganhar pelo menos um revolvinho. Aí, eu falei pra ele que Papai Noel não gosta de menino teimoso.
- Isso mesmo. Papai Noel só gosta de menino sangue bom.
- E sabe o quê esse menino, que nem sabe falar direito, me respondeu, seu Nozinho?
- O quê?
- “Quero que Papai Noel se f...!” . Vê se pode?
- Deixa isso pra lá, minha filha. O Natal já não é mesmo mais aquele!
(Do livro "Vinte Contos e Uns Trocados", Ed. Record, 2006)
por Nei Lopes 16:26
Segunda-feira, Dezembro 17, 2007
DEU NA
Nei Lopes cria dicionário para revelar escritores negros
Luiz Fernando Vianna
da Folha de S.Paulo
Em março do ano passado, num debate, o escritor e compositor Nei Lopes ouviu um colega de mesa citar apenas autores brancos ao falar do tema "O negro na literatura brasileira". Foi a semente para que começasse a produzir o "Dicionário Literário Afro-Brasileiro", agora lançado.
"Senti que era necessário tirar da invisibilidade o grande contingente de escritores negros existentes no nosso panorama literário", afirma Lopes, 65. "E mostrar, também, o modo como os negros foram habitualmente tratados, com estereótipos que moldaram, de forma distorcida, a percepção da sociedade brasileira sobre nós, afrodescendentes de todos os graus." Para ele, esses estereótipos chegaram às telenovelas, nas personagens da empregada, do negro bandido etc.
Os verbetes têm livros, autores e personagens. Os textos são muito mais descritivos do que militantes, mas a visão crítica de Lopes é perceptível. Criações de escritores importantes são registradas como podendo ter contribuído, de alguma maneira, para a consolidação de um discurso racista.
"Há personagens que são verdadeiros arquétipos, como a Bertoleza de "O Cortiço" [de Aluísio de Azevedo]; a galeria de tipos do Jorge Amado; os do Josué Montello em "Tambores de São Luís'; e os do teatro de Arthur Azevedo", exemplifica. Mais do que repisar o suposto alheamento de Machado de Assis nas questões raciais, Lopes vê um sentido militante em sua obra ao falar de escritores pouco conhecidos, especialmente os contemporâneos.
"Em São Paulo, por exemplo, há um movimento literário que publica antologias anuais há mais de 20 anos. Em Minas, existe uma editora de autores negros. O dicionário é composto dentro de uma perspectiva de mostrar o que está escondido", afirma.
Com vocação de polemista desenvolvida em artigos de jornais, ele faz questão de estar na linha de frente na defesa das cotas nas universidades e contra o que chama de "racismo organizado".
"Você escreve um artigo e, no dia seguinte, já tem um "doutor da USP", como diz o [deputado federal do PSOL] Chico Alencar, te replicando. Você escreve uma carta ao jornal e, aí, no pé da tua carta, já tem uma "nota da redação". O racismo se organizou para negar a existência do racismo no Brasil."
Lançando seu 21º livro, Lopes assume que busca um "respeito" que não alcançou na música popular, apesar dos 35 anos de carreira e de sucessos como "Senhora Liberdade", "Tempo de Dondon" e "Gostoso Veneno". "Embora, aqui em casa, o sambista pague as contas do escritor, acho que não conquistei o respeito que mereço", diz.
DICIONÁRIO LITERÁRIO AFRO-BRASILEIRO
Autor: Nei Lopes
Editora: Pallas
Quanto: R$ 35 (168 págs.)
por Nei Lopes 16:17
Quinta-feira, Dezembro 13, 2007
UM CD LUMINOSO, UM GRANDE PRESENTE DE NATAL
Um dos muitos problemas enfrentados pelos adeptos das religiões afro-brasileiras é o vácuo que se estabeleceu na transmissão dos conhecimentos rituais de umas duas gerações para cá. Até a década de 1970 (sempre ela!) os terreiros da Baixada Fluminense e dos subúrbios cariocas eram verdadeiros celeiros de grandes e fervorosos sacerdotes e fiéis. Eram cantores, profundos conhecedores do imenso repertório da tradição, bem como do momento certo de entoar cada seqüencia de cânticos. Eram grandes atabaquistas, grandes dançarinas e dançarinos, talentosos artistas devotos, como os saudosos Caboclinho, Popó, Joquinha, Nilson de Ossãe, Seu Encarnação etc; da querida Reginão (onde andará?), Ebâme Vera, Lulu... e tantos outros.
Agora, parece que essa figuras só se encontram nas casas muito, muito tradicionais. Porque, nas outras, segundo eu soube, quando se quer tocar pros orixás, é preciso contratar músicos e cantores, muitas vezes tendo que pagar a tabela do Sindicato, hoje magistralmente presidido pela violoncelista Débora Cheyne - que só entrou aqui pra receber uma homenagem há muito devida.
Sindicalismos e puxa-saquismos à parte, o queremos dizer é que anda por aí, desde o ano passado, um tremendo CD de músicas rituais. Afro-brasileiras e afro-cubanas. Encaixadinhas, como a gente sempre sonhou. E que eu acabo de receber, de presente de Natal.
Chama-se "AGÔ! CANTOS SAGRADOS DO BRASIL E DE CUBA". E é literalmente um disco de arrepiar. E de fazer a gente chorar de emoção e orgulho.
Nele, os tambores batá e os xequerés da percussão ritual afro-cubana deitam e rolam sobre a cama de cellos, violinos, palhetas e metais, pianos e vibrafones - sem perder o clima respeitoso, sem deixar de ser alegre. E as vozes dos alabês e apwóns passeiam bonito pela periferia dessa São Paulo cada vez mais surpreendente, vão a Santiago de Cuba, passam por Regla, vem até Miguel Couto, dão um pulo no Engenho Velho, voltam pra Coelho da Rocha e recolhem-se ao igbodú, de costas, encerrando magistralmente o xirê, o güemillere, o concerto sinfônico-vocal-percussivo.
Superprodução! Infinitamente distante daqueles "discos de macumba" de antigamente, que o Humberto Araújo e o Cláudio Jorge ainda insistem em comprar na rua Regente Feijó e no Mercadão de Madureira.
Tremendo presente de Natal! Obrigado, Carmo Lima! Obrigado Quinteto BP! Obrigado, Sapopemba! Obrigado, Tata Monalê! Obrigado, Ari Colares, Dino Barioni, Carlinhos Brown e Alê Siqueira!
Tremendo presente de Natal! Que, é claro, não vai estar em nenhuma loja de shopping. Mas que eu acho que pode ser adquirido através do e-mail sambata@terra.com.br.
Vamos lá? Quem não for, é mulher do padre (ou do pastor?) e come toda a porcaria (pop-rock?) do mundo.
por Nei Lopes 10:35
Segunda-feira, Dezembro 10, 2007
LUZ, MAIS LUZ! ESTÁ NO PONTO?
"Luminosa manhã", como dizia o saudoso Haroldo Barbosa!
E o Velhote, acordando light, não sei porque, pensa em censo. E ocorre o seguinte:
Será que - neste momento em que estelionatários, ladrões, homicidas, políticos inescrupulosos etc, travestidos de pentecostais, abusam da ignorância do povo, engrossando as estatísticas sobre o crescimento das religiões evangélicas, até mesmo em prejuízo da imagem dos sérios protestantes tradicionais - não está na hora de lançarmos uma luz sobre uma importante realidade que está acontecendo na religiosidade africana no Brasil?
Essa realidade é o efetivo renascimento, aqui, do Culto de Ifá (uma das ramas da "santería" cubana) desde a década de 1990, com a chegada do babalaô Rafael Zamora.
Nossas fileiras, em nosso país, assim como nos Estados Unidos, no Caribe e em todas as Américas, já chegam a uma soma considerável. Que é preciso quantificar.
De nossa parte, então, aqui no Lote, quando chegar o próximo Censo, na hora de informar o quesito "religião", vamos meter lá: "santería cubana".
Essa talvez seja a forma mais prática de informar, sem descer a detalhes, sem ter que explicar o que é Ifá (e mesmo porque muitos de nós cultuamos igualmente outros orixás, semelhantes aos do candomblé).
E também porque "quem dá luz a cego é Santa Luzia". Porque a Light, a patrocinadora aí em cima, vende e cobra bem. Embora, aqui no Lote e adjacências, a toda hora ela nos deixe na mão...
por Nei Lopes 09:32
Quarta-feira, Dezembro 05, 2007
A CULTURA EM OIOBOMÉ (1945 -1955)
(...)
Mais tarde, é a vez do barítono Paul Robeson. Depois de visitar a URSS, a Ásia e a Europa, Robeson vem a Oiobomé conhecer e se entusiasmar com a pioneira república afro-indígena. Nessa visita, ao ver um velhinho pescando num igarapé, a bordo de seu barquinho modesto, não se contém e faz seu vozeirão ecoar pela floresta: “Ole man river... That ole man river...”, ele canta. Mas de repente, um mensageiro traz o telegrama cruel: o passaporte de Robeson, apologista do socialismo e dos direitos civis, acaba de ser cassado pelo reacionário governo americano. O barítono baixa a cabeça e chora.
Mas como – dizem os brasileiros – “tristezas não pagam dívidas”, do Rio de Janeiro, chegam, numa esfusiante seqüência, Ataulfo Alves e suas pastoras; Jupira e suas cabrochas; Luiz Gonzaga, sua sanfona e sua simpatia; o Teatro Folclórico Brasileiro de Solano Trindade; e, com sua partner Deo Maia, o inimitável Grande Otelo, que, aliás, já estivera no país anos atrás, ainda menino, com a Companhia Negra de Revistas. Na ocasião, em que se constituiu no grande sucesso da Companhia, o querido artista era apresentado como o “notável ator infantil Otelo Gonçalves” e também anunciado como “O Grande Othelo, o artista mais pequeno do mundo”.
**
Tudo isso inspira e motiva escritores, músicos e atores oiobomenses que, primeiro com adaptações, como as de Shuflle Along, Chocolate Dandies e Love Will Find a Way, logo passam a criar e interpretar textos e partituras originais e interessantes, falados e cantados em oiobomês como Lezuazô Waúna (Pássaros negros), Zi Pupê di Cocoá (Bonecos de Chocolate) e Wasoba di Kafê (Barões de Café).
No campo das artes plásticas, Oiobomé projeta internacionalmente nomes como o de Héctor Plaisir dos Santos, Serge Vidall dos Santos e Antoine-Joseph Da Penha. Suas obras conquistam medalhas na Exposição de Paris, na Exposição Pan-Americana, na Exposição de St. Louis, algumas de suas obras passando depois a integrar o acervo permanente de grandes museus e galerias da Europa e das Américas. E todas elas, sem exceção, evocam a essência afro-indígena da alma de Oiobomé.
Nesse estimulante quadro, ao mesmo tempo que estudantes oiobomenses vão para os Estados Unidos, aprimorar-se em universidades para negros, como a Fisk, a Virgina Union, o Lincoln Institute, o Morehouse College, a Howard e outras, músicos e cantores como Duke Ellington e Count Basie, com suas respectivas big-bands; o cubano Benny Moré e sua Banda Gigante; o haitiano Nemours Jean-Baptiste e sua orquestra; Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Nat King Cole, Billy Eckstine, entre outros, apresentam-se em Oiobomé, nos vários “sesks” que movimentam todas as províncias, a da capital e as das outras ilhas.
Muitos de passagem para o Brasil, chegam a Oiobomé também grandes desportistas como Joe Louis (recentemente aposentado como o maior dos campeões em sua categoria); o grande Sugar Ray Robinson e o jovem Floyd Patterson, além dos brasileiros Zizinho, Domingos da Guia e Leônidas da Silva, gozando folgadas e merecidas férias. Chegam também os malabaristas do basquete, The Original Harlem Globetrotteres, quase ao mesmo tempo que a fantástica dupla de sapateadores The Nicholas Brothers. E a literatura também diz presente, com Langston Hughes, Countee Cullen, Richard Wright, Aimé Cesaire, León Damas, David Diop e Leopold Senghor.
No “Guidan Wasa”, o Teatro Nacional de Oiobomé, a soprano americana Marian Anderson, depois de ser proibida de cantar no Constitution Hall de seu país, pelo simples fato de ser negra, é desagravada pelo numeroso público presente à récita de gala que se dispôs abrilhantar, em beneficio dos flagelados da seca no nordeste brasileiro. Acompanhando-a ao piano, destaca-se a “prata da casa”, na virtuosa presença do jovem Nonô dos Santos.
Da Jamaica, vem a grande Louise Bennet, a “Miss Lou”, com seu partner Rannie Williams, com o qual proporciona às famílias oiobomenses inesquecíveis horas de bom humor e boa música.
Do “vizinho de baixo”, ora amigo de fé ora adversário, passam por Oiobomé, nessa época de proveitoso intercâmbio e intensa ebulição cultural, para longas e bem sucedidas turnês por todo o arquipélago, o Teatro Experimental do Negro, de Abdias Nascimento; a Orquestra Afro-Brasileira do maestro AbigailMoura; o Teatro Popular Brasileiro, de Solano Trindade. Também do Brasil, com sua jovem aluna brasileira Eurides Batista, vem a bailarina e coreógrafa americana Katherine Dunham, que tem uma história triste para contar:
– Foi in Sam Paolo... eu me hospedarr in houtell, you know? – Eurides traduz:
– Foi num hotel em São Paulo, onde ela ia se hospedar...
– The man no... carpeta... dize que ...I can’t ... because ...the hotel was only for white people... – Miss Dunham começa a chorar. Eurides a consola e traduz:
– O homem disse pra ela que preto não pisava no carpete daquele hotel.
Aqui, uma dupla confusão. A coreógrafa tinha vindo de Cuba, onde “recepção” de hotel se diz carpeta. E Eurides traduziu com o que tinha em mão. Mas o fato é que a grande Katherine Dunham tinha sido real e vergonhosamente discriminada e barrada em São Paulo, cidade barra-pesada. Mas houve a pronta intervenção do Itamarati, para evitar um vexame maior. Então, depois dos competentes pedidos de desculpas, a turma do “deixa-disso” levou o assunto para o Congresso e, rapidinho, o Brasil ganhou a Lei Afonso Arinos, a primeira de uma série contra a discriminação racial e a exclusão do povo negro.
(Nei Lopes - trecho do romance inédito Oiobomé O' Mezamu)
por Nei Lopes 11:31
Terça-feira, Dezembro 04, 2007
RESSONÂNCIAS MAGNÉTICAS DA CONSCIÊNCIA NEGRA
Segundo alguns laudos médicos, foi aquela punga de mau jeito dada no final da interpretação do Jongueiro Cumba no palco da Casa Rosa do SESC-Tijuca – que nada tem a ver com a da rua Alice. Já segundo outros, teria sido aquela profunda reflexão feita na mesa-redonda Religião: tradição e modernidade, no mesmo evento, no dia anterior. O certo é que terminada a Semana da Consciência Negra e o II Seminário Inserção e Realidade, o Velhote do Lote ganhou uma beliscada no nervo ciático, o que o levou ao Estaleiro da Xica... (ele esqueceu o sobrenome), de onde dita estas linhas.
O chato é que não sobrou nada pro Dia do Samba. Mas foi tudo como Agbomiregum mandou; e a gente não tem do quê reclamar.
Reclamar como – pergunta o Coroa – diante de presenças estelares no Seminário, como as do padre Renato Chiara, fundador da Casa do Menor São Miguel Arcanjo (que levou um Kitábu de presente);do pastor Marco Davi de Oliveira, coordenador do Fórum de Lideranças Negras Evangélicas e membro do Movimento Brasil Afirmativo (que vai receber um Kitábu pelo correio) ;do nosso particular amigo e mestre, babalaô Rafael Zamora, um dos grandes responsáveis pelo revigoramento do culto de Ifá no Brasil? Foram quatro horas de iluminação, com o numeroso público presente interagindo com os palestrantes em todas as intervenções.
Nas outras mesas, que o Velhote não pode assistir, falaram, entre outros, o cientista social coronel Jorge da Silva; o pesquisador José Luis Petrucelli, do IBGE; a antropóloga Alba Zaluar; a médica Jurema Werneck; a antropóloga Wânia Santana; a socióloga Sônia Maria Giacomini; e o professor José Vicente, reitor da bem sucedida Universidade Palmares, de São Paulo. Palestrantes de altíssimo nível em um evento que a cada ano fica mais importante!
Sensação boa, também, foi ver na Semana, a seguinte declaração da influente jornalista Miriam Leitão, colunista de O Globo, reproduzida na pág. 34 do no. 467 da revista Época:
“O esforço dos negros de entenderem sua história, origem e identidade é visto como uma ameaça que legitimaria o racismo. Como se o racismo brasileiro precisasse de mais reforço”...
E bom também foi ler no Jornal do Professor, do SinproRio ( no. 204, set-out, 2007), a moção de repúdio da respeitável entidade sindical às declarações do diretor da TV Globo, Ali Kamel, sobre o livro do professor Mario Schmidt, publicado na Coleção Nova História Crítica, definido por ele como “um livro bisonho, encharcado de ideologia”. Segundo a nota, no esforço de vincular a publicação do livro ao governo Lula, o famigerado Kamel esqueceu de verificar que ele fora aprovado no governo Fernando Henrique. Diz mais o texto que o movimento capitaneado por O Globo “esconde uma disputa ideológica e econômica que envolveu 560 milhões de reais em 2007”, na qual o Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) vem redirecionando a aquisição e a distribuição de 121 milhões de exemplares, contrariando interesses de grupos estrangeiros e de nacionais a eles associados.
No mais, foi o lançamento do Dicionário Literário Afro-brasileiro (este, sim, um livro “encharcado de ideologia!”), ao qual o Velhote compareceu, mancando, no sapatinho, de bengalinha e tudo. Mas com seu magnetismo ressoando à flor da pele. Literal e literariamente.
Parodiando Drummond, "a Semana hoje é apenas uma radiografia no envelope. E como dói."
por Nei Lopes 08:59
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