Terça-feira, Agosto 28, 2007



NOVO CD DE ALCIONE, "DE TUDO QUE EU GOSTO"

Laguidibá é a quinta faixa! Salve! Mais uma vez, Nei Lopes!

Nei Lopes é o compositor mais gravado por Alcione, e pra não deixar por menos, mais uma vez desfrutaremos de sua luxuosa presença neste último trabalho da cantora, “De Tudo Que Eu Gosto”. Aliás, com este título, nem poderia ser diferente!

Tudo teve início há 35 anos atrás, quando estreavam ambos no circuito da música brasileira, em uma parceria que desde o começo se mostrou potencialmente promissora. Suas carreiras se perfilaram no compacto simples de 1972, quando Marrom gravou “Figa de Guiné”, de autoria dele e de Reginaldo Bessa. Um sambinha cheio de sonoridade, ingênuo até, sobre coisas de preto, diz ele. Nesta época, segundo o próprio Nei, ele ainda era um desconhecido estreante, enquanto ela era “A Marrom, com A de Alcione e M de Maranhão”, novata no mundo fonográfico, mas já reconhecida por cantar na noite. “Então, deu o maior pé!”, arremata o compositor. A partir daí, foram um total de 23 músicas, sem contar as inúmeras regravações do sucesso “Gostoso Veneno”.

E agora, mais uma vez, lá está ele, em parceria com Magnu Sousa e Maurílio de Oliveira, a emprestar seus versos à voz do samba em uma música chamada “Laguidibá”. O nome da canção remete ao colar constituído por um fio preto de rodelas de chifre de búfalo, usado nos rituais de um orixá muito forte cujo nome sequer se pronuncia - e sendo conhecido apenas pelo epíteto de Omolu. O artefato, na tradição jeje-iorubana é portador de muito respeito, entretanto virou acessório usual de músicos, principalmente percussionistas. A canção, pois, constitui um alerta ao respeito que se deve ter aos fundamentos que regem o candomblé.

(do blog "Morena Forrozera do Cangote Suado", dedicado a Alcione)

Obs: A letra de "Laguidibá" já foi postada aqui no Lote.




Sexta-feira, Agosto 24, 2007



O “SALTO SOCIAL” DO MINISTRO “DE PAVIO CURTO”

Uma afirmação da ministra do STF Carmem Lúcia Antunes Rocha, publicada na primeira página de O Globo na última quinta-feira (23/8) causou profunda estranheza aqui no Lote. Segundo ela, seu colega o ministro Joaquim Barbosa, por sua condição de relator do processo do chamado “Mensalão”, iria agora “dar um salto social”.

O quê se esconde por trás dessa afirmação? O quê quereria dizer a expressão “salto social”, denotativa de mobilidade ascendente, na vida de um ministro da mais alta corte brasileira? Salto por quê? Para onde?

Joaquim Benedito Barbosa Gomes nasceu em Paracatu, MG, em 1954. Filho de um pedreiro, bacharelou-se em direito pela UnB e doutorou-se pela Universidade de Paris-II, sendo mais tarde professor visitante da Universidade da Califórnia em Los Angeles e professor de direito público da UERJ. Segundo o site do STF, “é Professor licenciado da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ensinou as disciplinas de Direito Constitucional e Direito Administrativo. Foi Visiting Scholar (1999-2000) no Human Rights Institute da Columbia University School of Law, New York, e na University of California Los Angeles School of Law (2002-2003).É assíduo conferencista, tanto no Brasil quanto no exterior. Foi bolsista do CNPq (1988-92), da Ford Foundation (1999-2000) e da Fundação Fullbright (2002-2003). É ainda, segundo a mesma fonte, “autor das obras ‘La Cour Suprême dans le Système Politique Brésilien’, publicada na França em 1994 pela Librairie Générale de Droit et de Jurisprudence (LGDJ), na coleção ‘Bibliothèque Constitutionnelle et de Science Politique’; ‘Ação Afirmativa & Princípio Constitucional da Igualdade. O Direito como Instrumento de Transformação Social. A Experiência dos EUA’, publicado pela Editora Renovar, Rio de Janeiro, 2001; e de inúmeros artigos de doutrina”.

Será, então, que o ministro, por ser preto e retinto, não é igual àqueles seus colegas cujos sonoros sobrenomes remontam ao patriarcalismo brasileiro ou à mais recente imigração estrangeira? Será que um jurista, por ser negro, depois de chegar ao supremo colegiado do Judiciário brasileiro e nele primar, s.m.j., pela firmeza e imparcialidade de suas decisões, a ponto de ser classificado pelo mesmo O Globo como “de pavio curto” (pág. 4 da mesma edição), ainda precisa de um “salto midiático” para ser reconhecido e aceito? Será?




Terça-feira, Agosto 21, 2007



O VELHOTE DO LOTE RECOMENDA




Segunda-feira, Agosto 20, 2007


Menino e menina oiobomenses na atualidade.


O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO

Bem... Já que a gente não consegue, de jeito nenhum, ter a grande Nação que desejava, a gente cria uma só pra gente. E isso é o que estamos ultimamente fazendo aqui no Lote, como já informamos, com a fundação de Oiobomé, o país ideal que nosso herói Domingos Dos Santos (que achou muito bobinha a “Inconfidência” dos mineiros, da qual “sartô” fora) foi criar, junto com quilombolas e indígenas humilhados, lá onde era a Ilha do Marajó. E a coisa vai andando assim. Provem o tira-gosto!

**

“Passados já bem mais de cinqüenta anos de sua fundação, Oiobomé, povoada por gente de tantas origens diferentes, já começa a falar uma língua própria e peculiar.

No início, essa gente, para poder se estender, foi colocando o português original – que, por sinal, já chegara do Brasil carregado de outras influências – ao seu jeito, impregnando-o das palavras e do modo de falar que trouxeram consigo. Para tanto, construíam frases simples, sem quaisquer tipos de cuidados gramaticais, ou de concordâncias de qualquer ordem. Foi assim que o oiobomês foi nascendo, estando agora prestes a ser institucionalizado como língua oficial. Seu léxico e suas possibilidades expressivas vão-se ampliando a cada dia, o português servindo apenas como arcabouço para os revestimentos e complementos que chegam do iorubá, do quicongo, do fon, do tupi e também do francês e do inglês antilhanos.

É assim que, por exemplo, em oiobomês, “pai” se diz babtata; “mãe”, mamaiá; “casa”, okailê; rio, iguiodô; “peixe”, piraejá; "mar", igalunga; “água”, igomin; “comida salgada”, paparúti; “comida doce”, curimã; “branco”, funtinga; “preto”, duduna; “vermelho”, puparanga; “caminho”, jirapé; “morte”, ikujuká; “Deus”, Zambidiê ou Tupangod; “homem”, okurimen; “criança”, monampiá; “mulher”, femecunhã; “moça nova”, cunhanguel; “mulher feia”, baranga, juburunga, jabiraka etc.

A junção dessas palavras, no contexto de uma frase, dá margem a construções como: Ai vê kuriá piraejá, que se traduz como “eu quero comer peixe”; mai okailê ce grandinene y bunidara, “minha casa é grande e bonita”; Zamdidiê cé majó ki igalunga, iguiodô, okurimen, okujuká, ki ol xoze, “Deus é maior que o mar, que os rios, que os homens, que a morte: é maior que todas as coisas”.

Hoje, na verdade – e assim o presidente Jorge José da Silva pensou, quando consolidou a independência, em 1805 – o povo de Oiobomé conseguiu libertar-se inteiramente da língua luso-brasileira. Ninguém mais, nem mesmo os muito velhos, sabe ler nem escrever nessa língua. O que para os brasileiros tinha sido no passado a “última flor do Lácio inculta e bela”, hoje, nesta década de 1850, é apenas reconhecido como um dos falares que contribuíram para a formação da língua franca em que negros e índios, caribenhos ilhéus e continentais, lá se comunicam.

Já a família oiobomense evoluiu a partir de três tipos de relacionamentos: o casamento legal ou as uniões informais entre negros e negras; o mesmo entre negros e índias e entre índios e negras, sendo mais constantes os dos primeiro tipo; e também as uniões informais entre homens negros e mulheres brancas, já que aquelas verificadas entre homens brancos e mulheres negras , de acordo com as convenções sociais vigentes e por força do histórico de estupros, reais ou presumidos, ocorridos no ambiente escravista, são constitucionalmente proibidas, por imorais e incivilizadas.

Mas elas, é claro, ocorreram e ainda ocorrem, porque, como diz a sabedoria popular universal, “o coração é um jardim onde ninguém passeia”; e, como escreveu o poeta oiobomense Torrozu Ferreira, “quem ama não tem que procurar saber a razão por que ama”.




Terça-feira, Agosto 14, 2007



ERLON CHAVES, VENENO OU MOCOTÓ?

Dia desses, relaxando da labuta, resolvemos no Lote ouvir uns discos desses de requebrar o esqueleto, desses que confirmam que nossos Deuses africanos dançam. E como dançam!

Sacamos então, lá da estante, discos com “muito balanço” e “pouco conteúdo”, incluindo aí muita guaracha, muito són, muito suingue, muito rhythm & blues, muita batucada, e, entre esses, uns disquinhos relançados do polêmico Wilson Simonal, naquela do patropi e da pilantragem. Foi aí que, ouvindo, sacando as idéias, analisando os arranjos, o clima e lembrando das pessoas envolvidas, nos veio à mente a seguinte pergunta:

Quem foi realmente o maestro Erlon Chaves? Por que morreu tão cedo, aos 41 anos, depois de ser consagrado como regente e ótimo arranjador de música popular; presidente do júri internacional V FIC (Festival Internacional da Canção); de “comer mocotó”; de “tirar altas chinfras”, cheio de “balanço e de veneno”; de transmitir aquela imagem bacana e auto-suficiente... e depois ser taxado de “crioulo nojento”, que “só gostava de loura”, que “não se enxergava” e “nem sabia o seu lugar”. E, afinal, de que morreu Erlon Chaves?

Nascido na capital paulista em 1933, Erlon foi – segundo o Cravo Albin – regente, arranjador, pianista, vibrafonista, compositor e cantor. Em 1965, depois de ter composto para a Tv Excelsior uma sinfonia que se tornou tema de abertura da emissora, mudou-se para o Rio, onde foi diretor musical da TV Rio e um dos idealizadores do I Festival Internacional da Canção em 1966. Até que chegou a quinta edição do famoso festival, em plena ditadura de Garrastazu Médici. E aqui passamos a palavra ao amigo Zuza Homem de Mello, através das páginas de seu primoroso livro A Era dos Festivais: uma parábola (Editora 34).

Para a apresentação de “Eu Também Quero Mocotó” , na final de 25 de outubro de 1970, Erlon resolveu incrementar ainda mais o happening, que já ocorrera na apresentação classificatória da música, quando sua Banda Veneno, somando 40 pessoas entre cantores e músicos (eta, banda larga!), fez platéia e jurados dançarem ao som da canção, feita mesmo pra dançar, só à base de riffs dos metais, ritmo de boogaloo (a moda black de então) . E aí anunciou, segundo Zuza: “Agora vamos fazer um numero quente, eu sendo beijado por lindas garotas. É como se eu fosse beijado por todas aqui presentes”.

“Na platéia foi uma vaia só. Nos lares, algumas esposas brancas engoliram em seco, ofendidíssimas, ao lado dos maridos”. E o happening rolou.

Só que, segundo nosso amigo Zuza, “o espetáculo de um negro sendo beijado por loiras no encerramento do V FIC foi demais para os padrões conservadores da época, e Erlon Chaves foi levado, dias depois, para um interrogatório na Censura Federal”, ao qual se seguiu a prisão, segundo consta, pela influência de esposas de alguns generais da Ditadura, ficando o músico, depois de libertado, proibido de exercer suas atividades profissionais em, todo o território nacional por 30 dias.

No caldo grosso do “Mocotó”, Erlon, acuado, limitou-se ao seu trabalho de arranjador – da mesma forma que Toni Tornado, pela BR-3 apresentada no mesmo certame, foi “convidado a sair do país”. E Wilson Simonal, seu parceiro e amigo, acabou acusado de delator em 1972, comendo a partir daí o mocotó que a Ditadura azedou.

Apesar do relativo sucesso dos discos com repertorio internacional da Banda Veneno, lançados de 1972 a 1974, a carreira de Erlon Chaves acabava ali, naquele festival que, segundo o nunca assaz citado Zuza, “deixou um rastro de racismo, uma marca de preconceito contra artistas da raça negra, aquela que contribuiu para a música brasileira, como também para a cubana e a norte-americana, com o elemento mais proeminente de seu caráter, o ritmo”.

Em 14 de novembro de 1974, Erlon Chaves, que transmitia a todos nós com seu talento, charme, sorriso e simpatia aquela autoconfiança que a nós todos ainda nos faltava, enfartou, quando olhava uns discos de jazz numa loja da zona sul, e morreu. No ato.

Será que morreu de seu próprio “veneno”? Este veneno de que nos faz querer também comer o “mocotó” dos espaços de excelência, das instâncias do poder, do conforto material, do acesso ao saber, do êxito, do respeito enfim!? Ou será que morreu porque era um “crioulo metido e pilantra”, que “não sabia seu lugar”, só “gostava de mulher branca” e “carro do ano”; que, de repente, quem sabe, queria até ver seus filhos – absurdo! – entrando pra uma boa faculdade ?!...

Você sabe?




Quinta-feira, Agosto 09, 2007



O LOTE SAÚDA O DIA DOS PAIS

O lote saúda o Dia dos Pais.
Os que vão e vêm
Em viagens transcendentais
Ou de trem.
Os que acham e os que buscam
As forças vitais dos ancestrais
E o Zen.
Os que queimam a carne
Em fundos de quintais
Além.
Os que bebem cervejas
Nem sempre sociais
Também.
Mas na mais santa paz.
Amém.
O Lote saúda os pais
Os que sabem ou não sabem
Dos capitais
Que estão por trás
De cada Dia dos Pais.




Segunda-feira, Agosto 06, 2007

PAN E TAM: QUE LAS HAY, HAY

Nossa sobrinha filósofa Amir, que, apesar do nome islâmico, é kardecista e respeita os orixás e voduns jeje-iorubanos, acaba de nos chamar atenção para alguns aspectos interessantes dos dias agitados de TAM e PAN, no eixo Rio-São Paulo.

Ela, que mora no Irajá mas é assinante da “Folha”, assinala com veemência o que considera arrogância do capitalismo paulista e sua inveja com relação ao Rio. Inveja e ganância que chegam, segundo ela, a ponto de os jornalões de lá escamotearem dados sobre a violência local, jogando tudo em cima da Cidade Maravilhosa. Aí, fazemos um breque pra lembrar o dia em que, recebidos nós na chácara de um agroboy paulistano, depois de um show de samba, nosso dileto amigo Sérgio Cabral, o Velho, depois de suportar até comparações desairosas entre o time do nosso Vasco e um daqueles “XV de Jaú” de lá, quase que enfia a mão no anfitrião ao ouvir a frase chavão: “Eu até que gosto do Rio mas lá é muito violento”.

Amir nos fala da euforia serena que foi o PAN em casa de nossa família irajaense, como na maioria das casas do subúrbio carioca, todo mundo de verde-amarelo, churrasqueando, brameando (“a Antártica é paulixta, meu tchio”!) e vibrando com nossas cores. Euforia abençoada pelo Cristo lá do outro lado da cidade (as duas partes, naquele momento, sob a proteção de Nossa Senhora Bernardes de Fátima e coladas com Super William Bonder), as matracas silenciadas enquanto a “inveja arrogante do capitalismo bandeirante”, segundo ela, irritava o Grande Arquiteto do Universo a ponto de fazê-lo travar os spoilers do airbus e explodir tudo, como explodiu, para tristeza e luto de quem não tinha nada a ver com a história.

Não concordamos com uma só palavra das que disse Amir, mas ela tem o direito de dizê-las. Ela, que é viajada; que conhece a cracklândia, o Capão Redondo, a ROTA; e que ainda fica boquiaberta com o estacionamento e as superlojas do novo aeroporto de Congonhas em contraste com as pistas que derrapam; ao mesmo tempo que se entristece com o abandono do Terminal I do tão portentoso quanto sub-utilizado Galeão, com todas aquelas pistas dignas de uma ilha de governadores.

Não concordamos com Amir, não vamos a Ipanema, não gostamos de sol. Mas também achamos que, pela Folha – que só chega aqui, na Banca da Simone, aos domingos e sob encomenda, embora o Lote esteja no caminho da capital paulistana – tem-se uma boa idéia do que é a APCA, o concretismo, a tal “vanguarda paulista”, os Jardins, esses capitalismos. E falamos isso com a autoridade de quem tem xodós em Sampa. De quem tem amores e amizades que se chamam SESC, Camisa Verde e Branco, Quinteto em Branco e Preto, Bar Samba, Pasquale, Antarctica Original, Funk Como Le Gusta, Carmo Lima (“nos seus olhos fundos”) etc, etc, etc... Amizades e amores em que Rio e Paulicéia só se distanciam no farol e no sinal, no marmitex e na quentinha, no olerite e no contracheque, na guia e no meio-fio.

Não concordamos com a sobrinha. Mas que houve alguma trama (epa!), envolvendo o PAN e o caso TAM, enredada lá por cima, entre Orumilá, Xangô, Zâmbi, Vichnu, Alá, Jah etc, acho que houve, sim! Ou melhor: “que las hay, hay”. Muito mais do que cabe na van do Filó e da Sofia.