Quinta-feira, Junho 28, 2007



EU VISTO ESTA CAMISA

Não vou dizer que São Paulo é o “berço”, porque o samba, como é conhecido hoje, formatou-se no Rio, no longo eixo Praça Onze-Estácio-Osvaldo Cruz, depois de ocorrer sincronicamente em vários pontos do país, inclusive em terras paulistanas, desde pelo menos o século 19. Mas digo veementemente que o preconceito de uma certa intelectualidade litorânea carioca contra o samba paulista sempre foi uma rematada besteira. Que o digam, por exemplo, Jangada, Talismã, Sílvio Modesto, Murilão e os primeiros Originais do Samba, grandes artistas cariocas que acolheram e foram acolhidos pelo samba de São Paulo há muito tempo. Que se evoquem, também, a cumplicidade entre Padeirinho da Mangueira e Germano Matias; e a afinidade histórica entre o Largo da Banana e a Praça Onze – só para citar dois ou três exemplos.

Diferenças, se houve e há, estão nas escolas de samba. Que, no Rio, deixaram há quase 30 anos, de ser expressão do poder e da cultura das comunidades negras, para serem a milionária atração turística que hoje são. E que em São Paulo, em sua maioria, ainda fitam, cautelosas, a bifurcação do caminho.

Mas acima do mercado paira o samba, enquanto gênero musical e forma de sociabilidade. E isso fica evidente no recém-lançado CD “Canto para Viver”, belo e comovente registro, em sua qualidade musical e sua hostoricidade – o talento e o companheirismo de compositores e intérpretes da Velha Guarda da Camisa Verde e Branco realçado por músicos exponenciais e amigos como Edmilson Capeluppi, Luizinho Sete Cordas e a “família” Quinteto em Branco e Preto – cumprindo a função de mostrar que samba é samba e escola é escola.

Isso, eu digo na condição de membro da “Irmandade dos Carmelitas Descalços”, irmão pobre que sou do produtor Carmo Lima. E de sambista que veste com orgulho a “Camisa” recebida nos anos 90, juntamente com o parceiro Wilson Moreira, como membro honorário da ala de compositores da querida verde e branco da Barra Funda.

(foto: Andréa de Valentim)




Quarta-feira, Junho 27, 2007

VOCAÇÃO CONTRARIADA E JUSTA CAUSA

Num daqueles tristes e rotineiros casos de vocação contrariada, o Ururau, que estudava Biologia e é fissurado em Botânica, acabou tendo que ser repórter policial, num jornal da Baixada, desses que escorrem sangue por entre as letras da manchete. E ontem chegou aqui no Lote, chutando garrafa pet de guaraná Convenção, os quatro pneus arriados:

- Pô, chefia! Me limaram! Me passaram o cerol!

- Como assim? Te xobaram? Demitiram? - perguntei eu.

- É... e só por causa disso aqui, ó! - e me mostrou o texto, meia laudazinha, onde eu li:
"Confronto armado no Morro do Dendê (Elaeis guineensis) repercute na Mangueira (Mangifera indica) especialmente na travessa Saião (Kalanchoe brasiliensis) Lobato, leva pânico ao Salgueiro (Salix chilensis), provoca comoção nos morros da Congonha (Villaresia mucronata) e Tamarineira (Tamarindus indica); e leva três pro Caju (Anacardium occidentale)"

Lido o texto, olhei pra cara de pau do cara e realmente lamentei.

Lamentei que, além da justa-causa, ele não tivesse levado uns justos cascudos, pra deixar de ser bobo e prestar atenção nos trabalhos.




Segunda-feira, Junho 25, 2007



AINDA O DICIONÁRIO DA ANTIGÜIDADE AFRICANA

O Lote está feliz. O novo Dicionário entrou em produção, com os mapas que o integrarão já sendo devidamente desenhados. E vejam abaixo a recém-chegada mensagem, da parte do acadêmico Alberto da Costa e Silva, o maior africanista vivo do Brasil:

"Meu caro Professor Nei Lopes:Tive imenso prazer em ler o seu dicionário. Fiz algumas sugestões à editora sobre a grafia portuguesa das palavras africanas, francesas e inglesas. Grande abraço, Alberto da Costa e Silva"

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O "professor" foi uma gentileza do Mestre. Que o modesto bacharel aqui agradece.




Sexta-feira, Junho 22, 2007

UM PRÍNCIPE DO DAOMÉ NO IRAJÁ

A Fantástica Fábrica de Textos não Pára. E já está urdindo mais uma trama de ficção. Trata-se da história de um escravo numa fazenda na freguesia de Irajá, descendente de um nobre daomeano, o qual, depois de participar, sem sucesso e sem ser notado, da Conjuração Mineira, acaba por fundar a terceira república das Américas, na Ilha do Marajó, aqual, sob o nome de Oiobomé, chega até os dias de hoje, com toda a sua população galhardamente alfabetizada e com um IDH igual ao da Dinamarca. Leiam o tira-gosto! Sem revisão nem nada. Voici!

*****

Desde a primeira reunião, em casa do tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrada, que sua presença se tornara um incômodo e um embaraço. Mas ele viera trazido pelo Dr. Álvares Maciel, vestia-se humilde mas decentemente, era altivo porém respeitoso, suas idéias tinham alguma coerência, e era um dos amigos fluminenses do alferes Xavier. O fato, porém, de ser um negro, embora dizendo-se livre e dono de alguns haveres, fazia dele um estranho naquela assembléia de bem nascidos.

- Temos que ter mais cautela nos nossos convites, Aires. Afinal, este é um grêmio seleto e não um calundu... - cochichou Paula Freire no ouvido de Aires.

- Concordo inteiramente, Freire. E acho que alguns de nossos confrades não têm muita clareza da nossa proposta. - redargüiu Aires, chegando à narina esquerda o lenço de alcobaça empoado de rapé, enquanto tapava o conduto direito, para inalar melhor.

- Nesse andar, a proclamação terá que ter uma versão em caçanje.

- Ou bunda, Excelência. Aliás, bunda sempre me pareceu mais apropriado.

O negro percebe ser o tema da conversa. Mas mantém-se firme, esperando que lhe dirijam a palavra. Tem os argumentos organizados na mente. Principalmente a condenação total e irrestrita do trabalho escravo.

A escravidão corrompe o escravo e o senhor. - ele pensa.

Paula Freire era sobrinho do Conde de Bobadela e comandante do regimento de Dragões; o Dr. Maciel, que acabara de se formar em Coimbra, era seu cunhado; Aires Gomes era juiz; Alvarenga Peixoto, Cláudio e Vidal Barbosa viviam de rendas, nos bolsos e nos punhos, pois eram simplesmente poetas; Oliveira Lopes, Abreu Vieira e Toledo Piza eram militares de patente alta; Rolim, assim como Toledo e Melo era padre... Então, o que fazia aquele negro ali senão causar incômodo e mal-estar?

Chamava-se Dos Santos. Francisco Domingo Vieira dos Santos. Tinha 35 anos e nascera na senzala da fazenda Vieira do português João Vieira dos Santos, ex-coronel do exército de Dona Maria I, na freguesia de Irajá, província do Rio de Janeiro. Por nascer a 4 de outubro, ganhou o nome do santo do dia, Francisco. Por ser domingo, dia santificado, acrescentou-se o "Domingo", assim mesmo, no singular ; e após, o sobrenome de seu dono: Vieira dos Santos.

Tanto seu pai quanto sua mãe eram escravos crioulos, nascidos no Brasil. E o avô paterno, segundo se dizia, tinha sido um grande na corte de Agadjá, rei em Abomé, na Costa dos Escravos.

O reino de Daomé, com sede no planalto de Abomé, crescera e florescera mais de 100 anos antes, fundado por uma família de nobres vinda do litoral, do poderoso reino de Alladá. Expulsa por questões de sucessão, e por pressão dos mercadores holandeses, aos quais se opunha, a família lá se estabeleceu. Com a morte do líder, seu filho mais velho toma o poder e conquista territórios vizinhos, numa expansão continuada por seus sucessores. No inicio destes Setecentos, o reino, firmememente estruturado, consolida sua hegemonia exatamente pelas mãos de Agadjá que, inclusive, toma Alladá para seu povo, em uma guerra expansionista também continuada pelos herdeiros de seu poder.

Mas a reação não tarda a chegar. E ela vem de Oyó, poderoso reino iorubano, reduto de reis santos e guerreiros, que submete e avassala Abomé. Mas Oyó, que mais tarde será também dominada, está em luta com os fulânis do norte. E é nesse cenário de morte e destruição, com milhares de prisioneiros, de ambos os lados, sendo vendidos como escravos, que os pais de Domingo, não se sabe se no mesmo tumbeiro, mas certamente depois de uma viagem de pesadelo, acabam por chegar a Irajá.




Terça-feira, Junho 19, 2007

UM POUCO DE MAGIA, INTENSA MAGIA

No prelo do grupo editorial Record, certamente aguardando uma fila quilométrica, dado o prestígio e o volume de trabalho das editoras do grupo, nosso Dicionário da Antiguidade Africana aguarda sua vez. E enquanto ela não vem, aproveitamos para mostrar alguma coisa de seu conteúdo, no verbete abaixo, que fala de magia. Vejamos.
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MAGIA - Definida como prática ou conjunto de práticas rituais, utilizadas com o objetivo de controlar ou influenciar os processos naturais do Universo, a magia era parte integrante da vida cotidiana das antigas sociedades africanas; e foi largamente usada tanto nas cortes quanto por indivíduos do povo, tanto para fins terapêuticos quanto nos negócios de Estado. Magia Egípcia - Entre os antigos egípcios, cada deus era relacionado a um astro celeste, a um dia da semana, e a uma hora do dia. Essa relação fazia com que cada indivíduo, ao nascer sob a regência de uma divindade, permanecesse a ela ligado por toda a sua vida. Assim, segundo Lourdes Bacha, a cada nascimento, a primeira providência paterna era levar a criança ao templo, para que a divindade regente, através de um sacerdote especializado, informasse o traçado do destino do recém-nascido. Tal prática remete-nos a procedimentos tradicionais até hoje vigentes como, por exemplo, entre os iorubás, o estabelecimento através do oráculo Ifá, da trajetória vital consubstanciada no odu (signo) de cada criança que nasce. Os antigos egípcios constumavam também, ainda segundo Bacha, canalizar e direcionar as forças vitais emanadas das divindades em benefício dos humanos. Isso era realizado através do pensamento e da visualização, bem como pela aposição de mãos ou através da energização de objetos, a serem utilizados como amuletos, ou mesmo da água, depois bebida com fins terapêuticos. Cientes de que a palavra falada ou escrita, quando usada adequada e corretamente, reveste-se de grande força, os sacerdotes faziam uso constante de evocações e invocações rituais, além de conjurações, sempre em voz alta, inclusive para comunicação com os mortos. A exemplo de todas as sociedades africanas posteriores, a dos egípcios repudiava a magia maléfica, o "feiticeiro" sendo considerado um ser anti-social, desagregador, constituindo-se portanto em uma ameaça ao equilíbrio do grupo. Entretanto, como salienta L. Bacha, e como comprovam diversos achados arqueológicos, o uso da magia com fins nem sempre benéficos, era popularmente disseminado. Assim, fórmulas e poções para alcançar favores pessoais, para propiciar conquistas amorosas , para provocar catalepsia ou morte de um desafeto, povoam o universo mágico do passado egípcio. Magia Núbia - Com sistemas religiosos e práticas mágicas tidos como ancestrais dos similares egípcios, os antigos núbios contavam em suas cortes com magos temidos e respeitados. Amen-Hotep (Amenófis) II, conforme Brissaud, recomendou ao seu vice-rei na Núbia, Uesertatet, que não se fiasse nos núbios e se protegesse contra sua magia. Magia Berbere - A história romana registra um episódio em que, no século Iº AD, o general Hosidius Geta (em campanha no deserto do Saara, vendo seus exércitos acossados e quase derrotados pela sede, resolveu atender ao conselho de um aliado nativo para que recorresse à magia. Segundo Dion Cassius, citado em Laffont, assim feito, caiu do céu água em abundância, saciando os soldados e afugentando os adversários, que então optaram pela rendição.




Quarta-feira, Junho 13, 2007


(Foto: Lago Açu, UFRRJ, Seropédica, recuperado e inaugurado no Dia do Meio Ambiente, 2007)

JUNTO AO LAGO AÇU

Junto ao lago sentei
Derramei duas lágrimas.
A de perda, deixei
No estuário das mágoas
A de ganho, lavei
Numa só gota dágua
E a guardei de novo
No estuário dos olhos,
Que lágrimas são de vales
Não de lagos. (NL)




Segunda-feira, Junho 11, 2007

RAÇA NÃO EXISTE. E DAÍ?

Numa chanchada da Atlântida nos anos 50, quando todos os telefones eram pretos, numa cena realmente engraçada, de repente um personagem - vivido talvez pelo cômico Ankito - vendo o braço nu do saudoso Grande Otelo apoiado no balcão de um botequim, pega-o sem cerimônia, leva o cotovelo à boca e diz: - Alô!.

Era o tempo em que os artistas do palco e do gramado chamavam-se Blecaute, Chocolate, Escurinho, Gasolina, Jaburu, Jamelão, Noite Ilustrada, Veludo etc. Quando as letras dos sambas e marchas cantavam sem problemas a "nega do cabelo duro", a "nega maluca"; e até o "crioulo doido" e a "nega luxuosa que se fosse cor de rosa era estrela de balé" (estes um pouquinho depois). E em que poderosos jornais, acusavam, até em editoriais, as comunidades religiosas afro-brasileiras como "focos de ignorância e desequilíbrio mental".

Dá até saudade desse velho e ingênuo racismo! Porque hoje, com a precisão científica de uma guerra bacteriológica, o neo-racismo brasileiro usa principalmente a estratégia de negar sua própria existência, para assim neutralizar as iniciativas que visam efetiva e maciçamente incluir na sociedade abrangente, tirando da "periferia" para o centro das decisões, o segmento afro da população brasileira.

Cada vez mais inteligente e sofisticado, o novo racismo brasileiro aceitou a divisão dos afrodescendentes em "pretos e pardos" (já que nunca se pensou em segmentar os não-negros em "louros e morenos") até o momento em que os "pardos" começaram a se ver negros e a pesar na balança. Antes, esse neo-racismo já havia negado as peculiaridades culturais e psíquicas formadoras do nosso temperamento e da nossa espiritualidade afro-originados. Ao mesmo tempo que, no campo da cultura e do entretenimento, argumentando que o fazer dos afro-brasileiros é apenas brasileiro e não afro, pôs-se a utilizar-se dele, em proveito próprio, no balcão de trocas da indústria cultural. No cinema, especificamente, passou a preferir os filmes de ação ambientados em favelas, talvez para sublinhar uma suposta violência do povo negro; e na televisão, privilegiando montagens de época exibidas em horários vespertinos, o faz talvez para perpetuar o estereótipo do negro subalterno, escravo, embora às vezes revoltado.

Assim age o novo racismo na mesma medida que nega a legitimidade de um pensamento afro-brasileiro autônomo, para continuar mantendo a hegemonia do segmento dominante, o euro-ocidental, no campo do saber letrado. Daí, quando um de nós afro-descendentes consegue externar seu pensamento através de uma grande mídia e com alguma repercussão, somos logo arrogantemente agredidos, acusados de xenófobos e reacionários, ao mesmo tempo que vemos lançada a culpa da escravidão africana sobre os próprios nativos do continente. Daí também o sofisma segundo o qual com uma boa educação de base (em quanto tempo?) todo o problema etnossocial no Brasil se resolverá.

Até então, tudo isso vinha meramente especulado, sob a alegação de que o Brasil é um país mestiço, onde "não se pode comprovar quem efetivamente são os negros" - embora essa mestiçagem nunca se tenha visto na fenotipia do Poder, como agora já se observa na Bolívia e na Venezuela e não se nota no México, por exemplo. Até então, era assim. Mas agora, finalmente, o racismo chega ao DNA. Para provar o óbvio: que boa parte dos afro-brasileiros tem sangue europeu; e que esse sangue vem predominantemente pelo lado materno - ao que perguntamos: por força do amor ou do estupro?

Brandindo estatísticas ou testes de DNA e provando sempre o óbvio, o novo racismo brasileiro o que deseja é mostrar que "raça não existe" e que está tudo bem, desde que "pretos e pardos" reconheçam seu lugar, o qual não é o mesmo dos "louros e morenos".

Hoje, qualquer estudante bem informado sabe que os seres humanos têm uma origem comum, num mesmo grupo saído da África há muitos milhões de anos. Que as diferenças físicas deveram-se à adaptação aos novos e diversos ambientes encontrados na longa caminhada. E que o ultrapassado conceito de "raça" foi há muito substituído pelos de cultura e etnia.

Mas, convenhamos: pra quê serve isso tudo? Vá essa Ciência dizer ao porteiro do prédio "bacana" que os de pele escura também têm direito ao elevador social. Vá ela dizer ao policial truculento que o jovem de cabelo carapinha também pode ser dono de um carro do ano. Vá explicar ao gerente do banco que o jovem negro candidato a bancário pode ser também honesto, inteligente e capaz. Vá dizer ao mercado que a trabalho igual tem que corresponder remuneração igual. Vá explicar para a negra do campo que não foi por ela ter "barriga limpa", como lhe ensinaram, que seu filho nasceu com pele clara. Vá, enfim, a Ciência reler para o Estado brasileiro os capítulos I e II da Constituição Federal!

Sabe o que eles vão pensar ou responder? "Raça não existe!". Mas se ainda houvesse telefone preto, certamente, pelo menos um deles diria "alô" no cotovelo do "crioulo" no balcão.




Quarta-feira, Junho 06, 2007

UMA HISTÓRIA DE IFÁ

Em 1991, o Velhote aqui, trabalhando na extinta Secretaria Extraordinária de Defesa das Populações Afro-brasileiras, do segundo governo Brizola, recebeu a missão de ajudar a trazer para o Brasil um "camerógrafo" da TV Cubana. Dito profissional pretendia fazer, segundo informado, um documentário comparativo sobre as religiões africanas aqui e em seu país. E tinha como credencial o fato de ser babalaô, cargo da hierarquia sacerdotal iorubana então praticamente desaparecido em terras brasileiras.

O babalaô, nós sabíamos na teoria, é o intérprete do oráculo chamado Ifá, no qual fala Orumilá, o grande orixá iorubano do saber, do conhecimento e da escrita, através de 16 signos principais que se combinam para formar 256, os quais, em novas combinações, chegam enfim a 4096 signos (pura matemática!) ou mais, cada um deles expressos em milhares de parábolas educativas, mostrando ao consulente o passado que gerou o presente e as formas de assegurar as benesses ou afastar os infortúnios futuros. Então, "el hombre" era de fato importante. Porque, para ser babalaô é preciso muito estudo, com dedicação integral e exclusiva, sendo tudo o mais absolutamente secundário.

Então, papel daqui papel de lá, a mãozinha de um, a influência de outro, ele chegou. E qual não foi nossa surpresa ao ver que se tratava de um jovem negão grandão, pinta de jogador de beisebol, cheio de charme, que uma reportagem do escandaloso O Dia logo rotulou, em manchete, como "o pai-de-santo de Fidel Castro".

O documentário não saiu. Mas Rafael Zamora - este o nome do personagem - ficou no Brasil, disseminando seu conhecimento e restabelecendo, de verdade o culto de Orumilá e seu oráculo Ifá em nosso país. Culto esse hoje responsável por grandes transformações na vida de muita gente, inclusive deste Velhote que ora lhes escreve, de um Lote que hoje só existe, floresce e prospera graças ao que Orula (como chamamos carinhosamente o grande Orixá) nos recomendou através de Zamora. Pois foi daí que fomos a Havana, onde através do músico e amigo Zero, hoje também babalaô, conhecemos Ño Wilfredo Nelson, "el comandante" do batalhão ao qual servimos como humilde soldado, e já há quase 10 anos também morando e trabalhando no Rio.

Este papo vem a propósito da bela reportagem com Zamora, publicada domingo 3 de junho na revista O Globo. Nela, ilustrada com uma tremenda foto, o babalaô e amigo fala inclusive da recuperação física de Fidel Castro, sem dúvida com a intervenção de Ifá. E fala de várias outras coisas, com o desembaraço e a firmeza que o caracterizam.

Bom ver coisas assim nas revistas dominicais! Prova de que os desígnios lá de Cima (ou lá de Baixo) são sempre certos, embora às vezes percorrendo caminhos tortuosos. Que a experiência de Zamora, que passou por poucas e boas até chegar onde está, sirva de exemplo à rapaziada que anda batendo cabeça por aí, dando mais importância ao que não importa do que ao que realmente interessa.

Parabéns, Zamora! Iboruboya, Ogundá Kete!




Segunda-feira, Junho 04, 2007



JÁ VI ESSE FILME: CHEGA!

A estética imperante no cinema brasileiro após o grande sucesso do excelente filme Cidade de Deus, começa a encher o saco aqui no Lote. Ninguém aqui agüenta mais ver filme de favela, com negão dando tiro.

- Mas esses filme emprega os neguinho, Coroa! - argumenta o Ururau. No que a cientista política Hanna Bowl, intelect como ela só, rebate:

- Pois é... O mundo de hoje não é nada daquilo que Karl Marx sonhou!

O fato é que nem o Velhote aqui agüenta mais. Por quê - penso eu com os seis botões do meu jaquetão de tropical Super Pitex - não metem lá um argumento esperto e um roteiro caprichado, por exemplo, em algumas das mirabolantes histórias da História Afro-Brasileira que todo mundo conhece? A do João de Oliveira, por exemplo.

João, todo mundo sabe, era iorubá, tendo nascido na atual Nigéria ali pelo iniciozinho do século 17 ou no fim do anterior. Tornado cativo ainda menino, veio como escravo para Pernambuco e, em 1733 re­tor­nou ao golfo de Benim, ain­da na condição de es­cra­vo e pro­va­vel­men­te a ser­vi­ço de seu se­nhor. Dedicando-se, talvez com a morte deste, também ao co­mér­cio ne­grei­ro, João ob­te­ve gran­de êxi­to, pe­lo que ­abriu, com ­seus pró­prios re­cur­sos, os ar­ma­zéns e em­bar­ca­dou­ros que te­riam ori­gi­na­do as ci­da­des de Porto Novo e Lagos. Segundo o professor Alberto da Costa e Silva, sua pros­pe­ri­da­de le­vou-o a en­viar au­xí­lio, em moe­da e es­cra­vos, à viú­va de seu an­ti­go se­nhor per­nam­bu­ca­no; e a con­tri­buir pa­ra a cons­tru­ção da ca­pe­la ­maior da igre­ja da Conceição dos Militares, em Pernambuco.

Em 1770, João de Oliveira re­tor­na­va a Salvador, on­de ­mais tar­de fa­le­ceu. Nesse re­tor­no, foi pre­so por con­tra­ban­do de es­cra­vos. Entretanto, dos 79 ne­gros que trou­xe­ra, qua­tro não se­riam ca­ti­vos, e sim en­via­dos do oni (rei) de Onim (Lagos) em mis­são di­plo­má­ti­ca e co­mer­cial

A história desse João dava ou não dava um bom filme? Com bastante ação e sem necessidade de gastar muito dinheiro. E, além dela, muitas outras sobrevivem na memória afro-brasileira!

Foi pensando nisso que resolvemos dar o recado em ritmo de samba. Recado esse que a rapaziada do Quinteto em Branco e Preto já assimilou e está musicando. Vamos lá! Si bemol, Everson e Maurílio! (Ré-sol-fá-mi-ré-dó)

Eu não vou mais ao cinema
Pra ver filme de negão
Da Baixada a Ipanema
Sempre de arma na mão

Na minha comunidade
Tem muito trabalhador
Tem pretinha em faculdade
Mulato quase doutor

Mas o Seu Bem garantiu-me:
Cinema é bilheteria
Então tome-lhe de filme
Com o Mal da periferia.

Eu já esse filme, sim
E não quero morrer no fim. (REFRÃO - 2BIS)

Tem um negro no Supremo que ralou pra chegar lá.
Três ministros nós já temos, com história pra contar.

Os heróis do nosso povo, só se vê em samba-enredo
Pois desde o Cinema Novo, é só negão sentando o dedo.

Eu quero ser distingüido mas não só nos carnavais
Filme com negão bandido, nego não agüenta mais.

Eu não vou mais ao cinema etc.

Ontem por mais um momento fui de novo ao Irajá
Pra levar meus sentimentos à família de um xará

Um cara que tinha idéias e sonhos iguais aos meus
E agora é anti-matéria, desfeita nas mãos de Deus.

A gente sabe o dilema de tudo o que está por trás
Mas ver isso no cinema, nego não agüenta mais.

REFRÃO

(Bonicto!!!)




Sexta-feira, Junho 01, 2007

A FALTA QUE ELA ME FAZ

Os visitantes do Lote devem estar achando o Velhote meio preguiçoso. Afinal de contas, o couro tá comendo aí fora, colunista de música chamando Martinho da Vila de "Crioulo Doido"; pesquisa dando conta de que Daiane dos Santos é mais euro que afro; os De Cima e os Di Sempre, nos jornalões, suando pra mostrar que não existe racismo no Brasil; as brabezas de sempre no jornal... e o Velhote calado, na dele.

Que nada, caríssimos!

O motivo da ausência é que Ela foi embora.

Foi embora e me deixou desatinado, berimbolado, que nem uma barata tonta, sem saber o que fazer. Foi embora a Malvada e nem deixou um simples bilhete que explicasse seu gesto tresloucado.

Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira, que não pode ser. Mas pode, sim! E o chato disso tudo é que eu já não consigo mais viver sem Ela.

Tanto que só escrevo estas mal-traçadas linhas, com os dedos embargados de emoção, porque hoje ela apareceu. Mas não tenho a mínima idéia se ela veio pra ficar ou se daqui a pouco se manda de novo.

Porque Internet na roça (da mesma forma que Saúde, Transportes, Saneamento, Educação etc) é assim. Diz que agüenta o tranco, que faz e acontece; que tem banda larga... mas quando você vai ver ela é a vapor, e tem a banda estreitinha. Tão estreita que não passa uma agulha...

Então, só nos resta rezar pra que ela tenha voltado à vera. Porque, agora, sinceramente - a não ser que o Velhote aqui vá morar nas Bahamas - viver sem ela será o meu fim.