Terça-feira, Maio 29, 2007
VIDA LONGA À TABAJARA ARAÚJO DE OLIVEIRA!
Hoje em dia, por uma dessas torpes ironias do destino, o adjetivo "tabajara" (de um grupo indígena cearense) designa, no jargão do humor televisivo, coisa vagabunda, feita nas coxas, chinfrim, de má qualidade. No entanto, "tabajara" já foi sinônimo de excelência. E isto por conta da grande orquestra que leva esse nome. Por exemplo, a bateria da Portela, numa época em que o qualificativo de "mestre" era privativo de poucos comandantes, então chamados apenas de "diretores"; nessa época, por sua cadência, por sua marcação grave, pelos pandeiros personalíssimos, o conjunto percussivo portelense, comandado por Betinho, era a "Tabajara do Samba".
Mas a Tabajara de verdade nasceu antes da bateria de Betinho. E o auspicioso fato aconteceu na década de 1930, na Paraíba, sob a égide da emissora de rádio de mesmo nome. Mas o "betinho" dela vaio um pouco depois, de Recife, e se chama até hoje, graças aos deuses da música, Severino Araújo.
A famosa Orquestra Tabajara do maestro Severino Araújo - ao som da qual eu e a Comadre bailamos, há uns 4 anos atrás, no inesquecível casamento do "Revisor Técnico", o maior baile de nossas vidas - nasceu efetivamente quando o grande clarinetista, compositor, arranjador e regente assumiu sua direção em 1938. Entretanto, em 2005, comemorando 70 anos de atividade ininterrupta, o grupo lançou seu primeiro DVD, com números musicais gravados no então recém reinaugurado auditório da histórica Rádio Nacional.
No espetacular DVD, com que o Lote acaba de ser agraciado numa gentil oferta do Sr. Paulo Roscio, diretor da Business Television (pois é...), não estão músicos legendários que passaram pela orquestra, como K-Ximbinho, Astor Slva, Ed Maciel, Julinho Barbosa e muitos outros cobras. Mas estão lá outros tantos e muitos casos famosos, como o do célebre duelo, em 1951, da Tabajara com a orquestra de Tommy Dorsey, vencido, evidentemente, por nossas cores, com olé de Severino regendo Rhapsody in Blue, de Gershwin, em ritmo de samba; como o do dia em que Severino e sua rapaziada tiveram de descer do 21o andar da Nacional, pra tocar seus eletrizantes frevos cara a cara com a multidão ululante que ameaçava invadir e derrubar o prédio da Praça Mauá, então o mais alto da cidade. E tem também um exemplar caso de racismo. Da década de 1950, quando a orquestra, então contratada da Rádio Tupi, se preparava para excursionar à Europa.
O crooner (cantor principal) era o grande Jamelão; e o todo-poderoso dos Diários Associados, o "doutor" Assis Chateaubriand (1891-1968) quis vetar sua participação na trupe, por aquelas razões que todo mundo conhece e que, na época, justificavam-se pela defesa da "imagem do Brasil no exterior". Mas o caso é que Severino, cabra macho, bateu pé e disse que Jamelão era o crooner e sem ele a Tabajara não viajaria. Foram. E acabaram ficando 1 ano em Paris, como conta o Dicionário Cravo Albin.
Severino Araújo de Oliveira nasceu no dia de São Jorge de 1917, tendo completado portanto 90 anos no último dia 23 de abril.
Do alto dos nossos 65, nós vos saudamos Grande Mestre! Pelo DVD, pelo conjunto da obra, pelos choros emocionadamente dançantes (Ah, Reflexos!). E por ter enquadrado o tal do Chateaubriand, esse, sim, uma figura tremendamente "tabajara".
por Nei Lopes 16:00
Domingo, Maio 20, 2007
ENTREOUVIDO NO LOTE
- Pan, pan, pan, pan!
- Quem é que tá batendo aí?

por Nei Lopes 15:00
Terça-feira, Maio 15, 2007
O PAN EM IMAGENS
Vai começar o Pagode
À Mesa, redondinho...
Eliseu dando o recado
(Fotos: Fabiano Mattos)
por Nei Lopes 16:36
Segunda-feira, Maio 14, 2007
PAN 65: A GRANDE OLIMPÍADA DO LOTE
Eram mais ou menos 5 horas da tarde quando alguém veio avisar:
- Ô Velhote, tem um senhor aí, todo de branco, com uma cuiazinha na cabeça, num carro esquisito, parecendo uma geladeira. Ele disse que veio de Aparecida só pra lhe dar um abraço.
Saquei logo quem poderia ser. Mas dado o estado etílico-delirante do informante, não levei em consideração e dei ordens para que o portão não fosse aberto. Afinal, casa de samba é casa de respeito. E o PAN 65 (Pagode do 65º Aniversário do Nei) estava no auge.
Aliás, o PAN esteve todo o tempo no auge. Desde a abertura da primeira cerva, às 10 e pouquinho, quando eu, banho tomado, Mum nas axilas, juntamente com Varé, Biri, Cilda e Dedé, salvei o santo, abrindo os trabalhos.
A partir daí, foi só pena que voou. E à medida que a rapaziada ia chegando, o samburá ia se enchendo dos presentes mais belos e inusitados.
Preferência para as garrafas de bebidas finas e livros, muitos livros; e camisas bonitas, claro! Afinal, tratava-se do cumpleaños de um dos coroas mais elegantes do samba, "que sabe se vestir segundo a ocasião, pena estar meio barrigudinho", como diz o Walter Alfaiate. Mas teve também um belíssimo bongô (valeu, Gilberto!); uma cadeira de diretor (grande, Quaresma!); uma escultura autêntica do povo Maconde de Moçambique, representando a cadeia vital (o doador pediu sigilo); um filme nigeriano espetacular, falado em iorubá, chamado Basorun Gaa (quem me deu?) ...e por aí foi.
O PAN não teve vencedores nem vencidos. Mas cabe apontar alguns destaques, como Thiago França no sax sem vara; Cabelada, o árbitro incorruptível, no levantamento de copo; Luiz Carlos da Vila no samba em altura; os garçons do Bufê Gilmar no revesamento copo a copo; o coral dos bebuns no nada sincronizado etc.
Na orquestra, Samara Líbano no violão de 7, Márcia do Tantã, no próprio; Lula no Cavaco; Ivan Papai no clarinete; Babalaô dos Anéis, no repique; Naífe Simões, no tudo; Tonga, na aporrinhola, Ricardo Aurélio na cuíca...E muitos mais!!!
No setor azul, que abrigava os VIPs da literatura, das artes, do jornalismo, da política, da música , do Direito e da malandragem pontificavam, entre muitos outros, o legendário Baiano, Chico Paula Freitas, André Lacé, Haroldo Costa, Aluízio Maranhão, Hugo Sukman, Zé Sérgio Rocha, Cláudio Jorge, Dr. Eloá, Dra. Jandira Feghali, Dr. Mário Tobias, tudo nos conformes.
No setor amarelo, os casais: Ilton e Hilda, Seu Jessé e Dona Néia; Seu João e Dona Anita; Seu Vidal e Dona Leila, Dona Santinha e Seu Antenor; Seu Juvenal e Dona Ester... Tinha gente de todo lugar! Pendotiba, Lagoa e Irajá; São Gonçalo, Leblon e Humaitá. Tinha a delegação do Candongueiro; a da Velha Guarda do Salgueiro; a da Escola de Música da Baixada; e a de Vila Isabel, fragmentada.
Quem veio, viu. Que não veio, perdeu.
Chato foi a bronca que (eu soube depois) rolou lá em Aparecida. O coroa de branco, injuriado, antes da missa, reclamando com o cardeal camerlengo :
- Por quê me barraram ? Afinal de contas eu falo português melhor que muito rabino que tem por aí. E o traje era esporte, não tinha ninguém de gravata... PAN pra mim, agora, só sem DEIRO. Aquilo lá estava um pandemônio!
por Nei Lopes 20:05
Segunda-feira, Maio 07, 2007
ESTO ES LA COSA
(Da série "Reflexões às vésperas dos 65 anos")
Em 1972, pelas mãos de Reginaldo Bessa, o Velhote do Lote (que ainda não era coroa nem tinha sequer um palmo de terra pra plantar suas carambolas) estreava como compositor profissional. A cantora, já razoavelmente conhecida e admirada no ambiente das boates, fazia seu primeiro disco de carreira, um compacto simples pela gravadora Phillips. E a música, nossa e do Bessa, era um sambinha sugestivo, sonoroso, carinhoso mas meio ingênuo, falando de "axé", "mandinga", "figa de guiné", "Bahia", essas coisas de preto.
Só que eu e Reginaldo éramos, como somos até hoje, em termos de pigmentação, apenas bejes. Mas a cantora, não! Ela era "A Marrom",com "A" de Alcione e "M"de Maranhão. Então, deu o maior pé.
Em 35 anos de amizade e admiração, mesmo sem sermos vizinhos ou nos freqüentarmos, encontrando-nos (menos do que gostaríamos) apenas nos ambientes de nossa profissão, foram 23 títulos gravados, fora as regravações, como as quatro ou cinco do samba "Gostoso Veneno". Assim, os leitores do Lote não podem imaginar nossa alegria quando, no último dia 3, nos encontramos, a convite dela, no estúdio Mega, no Humaitá, para registrar fotograficamente a gravação das bases da gravação de nosso "Laguidibá" (cuja letra já foi publicada, logo que escrita) aqui neste espaço.
Lá estávamos este Idoso mais os dois jovens parceiros Magnú Souzá (diretamente dos anos 70, com seu impactante cabelo black-power) e seu irmão Maurílio de Oliveira, os quais constituem a parte - digamos assim - menos clara do Quinteto em Branco e Preto, glória do samba da Paulicéia.
Que bom que foi esse encontro, meus amigos! Como nos fez bem! Chegar aos 65 com a certeza de amizades assim, e ainda poder tomar, com Maurílio e Magnú, uns dois ou três chopinhos à tarde, em Botafogo, olhando o Pão de Açúcar ... esto es la cosa, como dizem os nossos gurus cubanos.
por Nei Lopes 10:30
Quarta-feira, Maio 02, 2007
TIO JIMBO CHEGA EM JUNHO
Esse coroa esperto aí da ilustração é o Tio Jimbo.
"Foi ele que fundou, há muitos anos, a Unidos da Harmonia, nossa escola de
samba. Mas hoje gosta mesmo é de ver o carnaval depois. No aparelho de DVD
do seu home theater.
"Ele é o tata, o babalorixá, o chefe do Ilê Caboclos de Aruanda, nossa
comunidade religiosa. Mas sabe direitinho o que é hiperinflação, aquecimento
global, ecossistema, aids, narcotráfico...
"Também, pudera! Tio Jimbo gosta muito de ler. E tem livro que não acaba
mais".
O livro com as histórias que ele conta, e que vão da Antiguidade aos dias
atuais, será lançado dia 22 de junho, na Feira do Livro de Belo Horizonte,
no stand da Mazza Edições. E as primorosas ilustrações são do desenhista
Maurício Veneza.
Show de bola, Tio Jimbo!
por Nei Lopes 09:25
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