Segunda-feira, Abril 23, 2007
DUDU NOBRE, NEI LOPES E WALTER ALFAIATE
Elegância, boa música e muita amizade.
Quando o menino Nei Lopes nasceu, em maio de 1942 no bucólico Irajá, longe dali, em Botafogo, à beira-mar plantado, o esperto Walter Nunes estava se preparando para fazer 12 aninhos no mês seguinte e logo depois abraçar o ofício que lhe daria novo sobrenome.
Com 13 anos o Walter já era Alfaiate, ao mesmo tempo que já arriscava seus sambinhas nos blocos do bairro, como o Foliões e o Unidos da São Clemente. Até que nos anos 60, através do grande Mauro Duarte, e sem perder a linha e a tesoura, integrava, com sua voz potente e bem timbrada, os Reais do Samba e os Autênticos.
Foi numa dessas que, nos anos 70, começando carreira profissional e já integrando a ala de compositores dos Acadêmicos do Salgueiro, Nei conheceu o Alfaiate. Conheceu e admirou, pelo jeito malandro com que o Alfaiate sacudia a "carola" e a fita métrica. E assim que ganhou seus primeiros trocadinhos no ECAD, encomendou uma beca. Da qual vieram duas, três, quatro, os tecidos melhorando, à medida em que os sucessos iam acontecendo.
Já envergando um tropical Super Pitex, no início dos anos 80, Nei Lopes torna-se amigo do casal vila-isabelense Anita e João Nobre. E se encanta com a esperteza e a musicalidade do filho do casal, o moleque Dudu, que, em 1981, contando apenas oito anos de idade, já dizia alguma coisa no cavaco.
Dali à parceria foi um pulo. Porque o moleque, uns cinco anos depois, já pedia ao mais-velho umas dicas pra fazer um samba-enredo (sobre Zumbi dos Palmares), para a escolinha infantil salgueirense, Alegria da Passarela.
Entre alegrias e passarelas, vieram os nobres pagodes da Anita. Primeiro na Gamboa, depois na pensão da Rua dos Inválidos, mais tarde no Fundo de Quintal, em Vista Alegre, onde volta e meia Nei encontrava Alfaiate e o moleque de calça curta e perna fina, atendendo pelo nome artístico de Dudu do Cavaco, já acompanhava os dois.
Um dia Dudu assumiu o nome civil João Eduardo de Salles Nobre e entrou pra Faculdade de Direito. "Tio Nei", que já tinha passado por essa, desaconselhou, lembrando que um terno branco de linho S-120, ainda mais feito pela mão do "magnata supremo da elegância moderna", caía muito melhor do que uma toga ou um terno preto caretão, de casemira.
Dudu entendeu tudo, foi estudar a fundo o seu instrumento, principalmente com o célebre mestre Joaquim Naegle, além de ouvir muito Wilson das Neves, seu padrinho de batismo. Aí, acabou sendo o cavaco do Zeca Pagodinho, que já gravava uns pagodes do Lopes e saía na Portela junto com o Alfaiate.
Era o círculo fechado. E é esta roda de samba e amizade que o SESC Vila Mariana vai ver em primeira mão nesta curta temporada: o talento de Dudu Nobre, músico até a medula, ao lado da verve de Nei Lopes, poeta e letrista que alia humor à consciência política, ambos dividindo prazerosamente o palco com Walter Alfaiate, antes de tudo um grande cantor, daqueles dos bons tempos.
No roteiro minuciosamente elaborado por Marcus Fernando, onde se destacam sambas como "Sacode Carola", "Gostoso Veneno", "Posso Até Me Apaixonar", e na mini-orquestra habilmente conduzida pelo arranjador e instrumentista Ruy Quaresma, um show de musicalidade, elegância e carioquice. Celebrando uma tripla amizade daquelas que só o mundo do samba sabe costurar. Amizade entre quase 3 gerações de sambistas, de estilos e cortes diferentes. Mas que fazem do amor ao samba, mais que uma bandeira, uma grife.
Roteiro e direção: Marcus Fernando
Direção musical: Ruy Quaresma
violão: Ruy Quaresma
violão 7 cordas: Zé Barbeiro
cavaquinho: Ratinho
sopros: João Poleto
percussão: Vitor da Candelária
percussão: Gerson Dias
percussão: Fernando Jarrão
SESC VILA MARIANA
Rua Pelotas, 141 - Vila Mariana - São Paulo - SP
tel.: (11) 5080.3000
27, 28 e 29 de abril - sexta e sábado - 21h / domingo - 18h
por Nei Lopes 13:53
Quarta-feira, Abril 18, 2007
O SABER E O SENTIMENTO
Traduzido e adaptado de I. A. Akinjogbin*
(Da série "Reflexões no ano dos 65 anos")
1. A vida não se divide em partes distintas, portanto o conhecimento não pode ser sempre aplicado ao uso prático. O que importa é a ciência da vida.
2. O conhecimento livresco tem um valor formal e importado, enquanto o saber informal é adquirido pela experiência direta ou indireta. Os conhecimentos livrescos não conferem sabedoria.
3. Em todos os ramos do conhecimento, a cadeia de transmissão é importante. Se não há transmissão regular, o que se comunica é apenas conversa e não conhecimento. Quando emitido dentro dessa cadeia, o conhecimento torna-se uma força operante e sacramental.
4. O ensinamento tradicional deve estar unido à experiência e integrado à vida, até porque há coisas que não podem ser explicadas, apenas experimentadas e vividas.
5. As atividades humanas contêm sempre um caráter sagrado ou oculto, principalmente as que consistem em atuar sobre a matéria e transformá-la, pois cada coisa é um ser vivo.
6. Cada função artesanal deve estar ligada a um conhecimento esotérico originado numa revelação inicial e transmitido de geração a geração. Os gestos de cada ofício reproduzem simbolicamente o mistério da Criação primordial vinculado ao poder da palavra.
7. O que se aprende nas escolas, por mais útil que seja, nem sempre é vivido, enquanto o conhecimento herdado encarna-se em todo o ser.
8. O saber baseado no sentimento da unidade da vida e pleno de ensinamentos, ao mesmo tempo materiais, psicológicos e espirituais, é um tesouro insubstituível. Assim falou Akinjogbin.
(*) Akinjogbin I. A. - Le concept de pouvoir dans l'Afrique traditionelle: l'aire culturelle yoruba. In Le Concept de pouvoir en Afrique. Paris: Les Presses de l'Unesco, 1981.
por Nei Lopes 10:55
Quinta-feira, Abril 12, 2007
BRASIL, BERÇO DOS IMIGRANTES
Nei Lopes
O título deste artigo não é nosso. Nós o tiramos do enredo com que a tradicional escola de samba carioca Império Serrano desfilou entre as primeiras, no carnaval de 1977, conquistando um honroso sexto lugar. Não é nosso o título mas o artigo, com todas as suas implicações, é. E o escrevemos para mostrar como a opção imperial (no sentido lato), e depois republicana, do Brasil, pelos imigrantes que viriam europeizar e embranquecer a nação, não foi boa para todos os brasileiros.
Após a independência, depois de três séculos de imigração portuguesa, o Brasil começou a receber outros contingentes de migrantes, tais como alemães, suíços e poloneses. E esses imigrantes, além de começarem a substituir os escravos nas lavouras, passaram também a ocupar, nos centros urbanos, espaços de trabalho antes próprios dos negros, forros ou "ganhadores", restando a estes as ocupações mais duras e de menor remuneração.
Com a abolição da escravatura iniciava-se a imigração italiana. E o migrante dessa extração, tornava-se, principalmente em São Paulo, segundo uma observação de Gilberto Freyre, no conhecido livro Ordem e progresso, "o mais mimado, o mais protegido, o melhor amparado dos imigrantes europeus acolhidos pelo Brasil". Ele era aquele que, como já ocorria na vizinha Argentina, utopicamente alavancaria o processo de embranquecimento da população brasileira. Assim, ele e outros europeus eram "admitidos de conformidade com a necessidade de preservar e desenvolver o Brasil na composição de sua ascendência européia", como claramente expresso no decreto-lei nº 7.967 de 1946.
Sem mais delongas, este artigo quer dizer que o Brasil continua não apenas o "berço" mas o "berço dourado" dos imigrantes e seus descendentes, através das gerações. É aqui que eles crescem, estudam, progridem, tornam-se empresários bem sucedidos, políticos, ministros, presidentes, professores universitários etc., gozando as benesses do que este País tem de melhor.
São maioria, talvez, em universidades como a USP, onde os professores pretos e pardos representam apenas 0,42% do corpo docente; ou da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde esses números caem para 0,23%; ou mesmo na carioca UERJ onde os mestres afro-descendentes somam ínfimos 0,21% do total de professores - consoante pesquisa do antropólogo José Jorge de Carvalho no livro Educação e ações afirmativas, Inep/MEC, 2003.
Queremos dizer também que, com todo o direito que lhes é assegurado pela Constituição, esses imigrantes e descendentes aqui constituem e freqüentam seus clubes, associações, templos, restaurantes de "comidas típicas", torcem pelos times de futebol de suas "colônias" , tudo isto, muito justificadamente, afirmando sua identidade étnica, a solidariedade de seu grupo e celebrando a importância de sua ancestralidade - já que, segundo o tradicional vitalismo africano, "todo ser humano é elo de uma cadeia, sustentado, acima, por sua ancestralidade e sustentando, abaixo de si, sua descendência".
Quanto a nós afro-descendentes, cujos ancestrais foram, em sua esmagadora maioria, trazidos à força para a terra brasileira - caçados como bichos, sim, por europeus "tangomaus" e também, sabemos, por africanos corrompidos, colaboracionistas; quanto a nós, temos de nosso a Negritude. Que é a expressão de nossa originalidade, de nossa riqueza etnocultural e a consciência de nosso significado intrínseco. Expressão essa que, como disse Leopold Senghor, é o conjunto de valores civilizatórios do mundo negro e não uma forma de racismo ou complexo de inferioridade. Ela não quer odiar, ignorar ou menosprezar as outras civilizações e, sim, em conjunto com elas, construir um mundo mais humano - disse o saudoso poeta senegalês.
A partir da consciência de nossa Negritude é que recusamos o "lugar de negro" (exclusivamente no palco, na arena desportiva, na área de serviço etc) que nos vem sendo imposto há séculos. Recusamos, porque queremos estar em todos os lugares: nas páginas dos jornais, nos livros, e principalmente nas universidades. Aprendendo e ensinando. Sem exclusões nem privilégios.
Por que o Brasil - e todos os "impérios" sabem disso - é o nosso berço também.
(Artigo publicado em O Globo, 12.04.07)
por Nei Lopes 16:20
Quarta-feira, Abril 11, 2007
PARCERIAS
(Da série "Reflexões no ano do 65º aniversário")
Se parceria é, como dizem, igual a casamento, que começa com encantamento depois cai na rotina até chegar à hora de "dar um tempo", acho que já passei por todas essas fases. Em vários "casamentos".
E, aí, entre um e outro, e mesmo durante eles, houve os casos, os amassos, os sarrinhos "por cima da roupa", como se dizia outrora. E as "ficadas", como se diz hoje.
"Ficar", eu fiquei com uns três ou quatro. Tudo gente fina, apresentada por um saudoso e sincero amigo, que me sabendo espada, gostava de intermediar, meio voyeur, meio alcoviteiro.
Esses com quem "fiquei", foram sempre gente vinda de outras praias, do pop ao choro erudito (se é que isso existe mesmo), provar do meu feijão com arroz muito bem temperado. Mas chegou, comeu, pediu bis e contou pra todo mundo. Mas depois não voltou mais. "Ficou" só.
Houve também aqueles que deram uma monsuetada. Sabiam que "eu não sou água" mas me trataram "assim", só na hora da sede é que procuraram por mim: "Pô, não sei que letra botar nessa melodia aqui. Só você mesmo pra inteirar, meu poeta!". E depois não voltaram mais.
Teve o cara que se tornou parceiro sem a gente se conhecer, por cafiolagem de editor: "Bota melodia aqui nesta letra do Fool Lano. A Bell Tranna grava, você ganha a sua grana e eu tiro meus 25%".
Aí, eu vejo que parceria não é igual a casamento, não! Parceria está mais é pra sexo. Que pode ser feito por amor, por tesão, por pura safadeza, por curiosidade e até por dinheiro. E às vezes pode comportar sua dose de falta de respeito, como naquela em que o cara te pede uma letra, não gosta, faz outra em cima, grava e ainda sai assobiando por aí. Maviosamente.
De meus casamentos musicais, então, quero homenagear neste texto os parceiros mais antigos, leais e constantes - por ordem alfabética, pra evitar ciúmes. A Cláudio Jorge, Cleber Augusto, Reginaldo Bessa, Ruy Quaresma, Wilson Moreira e Zé Luís do Império, a "medalha" comemorativa dos 65 anos do parceiro e amigo Nei Lopes!
por Nei Lopes 11:57
Quinta-feira, Abril 05, 2007
NESTA PÁSCOA, CUIDE-SE SR. WALTER FIRMO!
Observem-se essas duas fotos! Não! O modelo, não! Reparem o enquadramento, a luz, as sombras, a delicadeza no clicar.
Pois saibam que elas foram feitas, em PB e a cores, pela mais jovem promessa do fotojornalismo brasileiro.
Nascido em novembro de 1999 (com 7 anos, portanto) seu nome civil é Nei Th. Lopes Filho, e sua assinatura artística é "Neinho". A foto foi feita no Domingo de Ramos, por sinal passado em alegre convescote familiar não no elegante balneário da Leopoldina mas no município fluminense intimamente conhecido como "Songa", onde reside o fotógrafo, com sua família.
De "Songa" é que ele vai. Maravilhar o mundo com a magia e a espiritualidade de suas fotos espetaculares.
Então, cuide-se meu amigo Firmo! Cuidem-se amigos Bruno Veiga, Vantoen Júnior, Januário Garcia, Ierê Ferreira!
E, bem cuidadinhos, FELIZ PÁSCOA PARA TODOS, deseja o Vovô do Lote!
por Nei Lopes 09:16
Terça-feira, Abril 03, 2007
ABOLICIONISMO, INGLATERRA E CARIDADE
Há muito tempo nós afro-descendentes sabíamos que no dia em que saíssemos do nosso "lugar de negro" para assumirmos o protagonismo de nossa História, sem necessidade de intérpretes ou porta-vozes, o racismo brasileiro tentaria desautorizar e desqualificar nosso esforço e nosso saber.
O dia finalmente chegou! E, hoje, com a pontualidade de um relógio, volta e meia vozes autoritárias vêm lançar a responsabilidade de nossa tragédia histórica sobre os ombros de nossos ancestrais. Como se, num extremo absurdo, culpassem os judeus pelos horrores do Holocausto.
Agora, por exemplo, ainda ecoando em nossas mentes as vibrantes comemorações pelo Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, somos surpreendidos com a publicação na página de Opinião de O Globo (22.03.07) de um artigo sobre escravidão e abolicionismo, assinado pelo Sr. Demétrio Magnoli; artigo no qual ele junta o nosso modesto nome ao dos veneráveis W.E.B. Dubois, Marcus Garvey e ao do ilustre professor Kabengele Munanga, rotulando-nos como propagadores da idéia de "vitimização dos africanos", estes, segundo ele, os únicos responsáveis pelo tráfico atlântico de escravos, pelo genocídio que se abateu sobre o continente e pelo conseqüente subdesenvolvimento que solapou a África.
A honra foi toda nossa por tão venerável e ilustre companhia, apesar da desagradável circunstância! Porque, a pretexto do bicentenário do ato que, a 25 de março de 1807, aboliu o tráfico de escravos no império britânico, o autor do texto, deixando de lado todas as implicações econômicas e políticas do referido ato, resolveu canonizar o "cristão evangélico William Wilberforce" e o escritor político Thomas Clarkson, tidos como os grandes responsáveis por esse ato de caridade. E isto quando todos sabemos que o Ato da Abolição foi assinado, entre outras razões, pelo fato de que os plantadores indianos e chineses protestavam contra o monopólio do açúcar concedido aos seus concorrentes antilhanos e forçavam a abolição da escravatura nas zonas de influência inglesa; e porque as sucessivas rebeliões de escravos levavam a instabilidade principalmente à região do Caribe. Sabendo disso, então, habilmente, o articulista trouxe também, para o foco de seus elogios, a figura afro-descendente de Toussaint L'Ouverture, líder da independência do Haiti.
No que toca à responsabilidade no tráfico, escreveu o articulista que "os europeus, como regra, não caçavam africanos, mas os adquiriam na segurança de suas fortalezas costeiras". E esse argumento é destruído segundo várias fontes. Primeiro, em História do colonialismo português em África, de Pedro Ramos de Almeida, vamos ver, nos primórdios dessa prática nefanda: homens do navegador Gil Eanes "cativando" mouros e "alarves", nômades muçulmanos, no Rio do Ouro em 1436; a chegada, cinco anos depois, a Portugal dos primeiros cativos seqüestrados no Saara; Nuno Tristão em 1442 "filhando" cerca de trinta cativos no golfo de Arguim; Diogo Cão, em 1483, apoderando-se, no Congo, de quatro africanos sob promessa de restituí-los em quinze meses.
Em Os magnatas do tráfico negreiro, de José Gonçalves Salvador lê-se que, nos séculos XVI e XVII, caçadores de escravos por excelência eram os "tangos-maus", os "lançados" e os "jagas", sendo que as duas primeiras denominações aplicavam-se a portugueses adaptados aos sertões e aos usos e costumes africanos. Segundo Robert Conrad em Tumbeiros: o tráfico de escravos para o Brasil, os "tangos-maus" ou "tangosmãos" (o Dicionário Houaiss registra "tangomão" e "tangomau") "adquiriam escravos em ataques e expedições a lugares remotos recolhendo tantas "peças" quanto possível através da fraude, violência e emboscada".
Quanto à corrupção de africanos por europeus na gênese do tráfico de escravos, voltemos a José Gonçalves Salvador: "... os representantes da Coroa e os contratadores do monopólio " - escreveu ele - "ao chegarem às respectivas áreas de atuação, providenciavam logo o envio de presentes aos conspícuos senhores [os governantes africanos], ofertando-lhes tecidos finos, objetos de adorno, algumas cartolas de vinho e até espadas, que eles muito apreciavam". E mais: "O conquistador luso no princípio se limitava a solicitar-lhes auxílios em comestíveis, mas, depois, o de recursos humanos para as guerras e por fim o pagamento de tributos". Mais ainda: "Esses chefes indígenas acabaram aderindo também aos resgates, de modo que vieram a converter-se nos principais traficantes dos ínvios sertões". Essa mesma linha de raciocínio é sustentada no livro Mãe África por Basil Davidson, segundo o qual os africanos aprenderam com os europeus a transformar gradualmente o tráfico de escravos numa impiedosa caça ao homem.
Sobre a compreensível associação, no texto ora comentado, do nome de Toussaint L'Ouverture ao dos abolicionistas ingleses, é bom lembrar que em 1807, o líder haitiano (cuja trajetória foi bastante diferente da vivenciada por outros heróis da Revolução) já havia morrido em circunstâncias suspeitas numa prisão francesa. E que a consolidação da Revolução Haitiana veio foi com Dessalines e Pétion (este, sendo inclusive um dos grandes financiadores da obra de Simon Bolívar), os dois certamente inspirados pelos espíritos africanos - nossos voduns, guedês e orixás - que, segundo O. Mennesson Rigaud, em Le rôle du vaudou dans l'indépendance d'Haiti ( Présence africaine, fev-maio, 1958, págs. 43-67) manifestaram-se em Bois Caïman, na noite de 14 de agosto de 1791, no grande ritual religioso e guerreiro, conduzido por Dutty Boukman, que deflagrou a luta armada, vitoriosa em 1º de janeiro de 1804.
Que nos desculpem Wilberforce, Clarkson e o Sr. Demétrio Magnoli... mas a data a ser comemorada é outra!
PS: O presente artigo estava na pauta para publicação em O Globo, em atenção ao princípio do "direito de resposta", quando a polêmica envolvendo a ministra Matilde Ribeiro tirou sua atualidade e oportunidade. Mas ele é postado aqui, ad perpetuam rei memoriam, como dizem os juristas
por Nei Lopes 09:19
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