Quarta-feira, Março 28, 2007
O RACISMO NA BOCA DE MATILDE
"A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso" - disse a ministra Matilde Ribeiro, da SEPPIR, conforme estampado em O Globo de hoje, 28.03.07.
E daí? Um branco não querer conviver com um negro de quem ele não goste é antinatural? Um negro não querer conversa com um branco que lhe "enche o saco" é alguma coisa demais?
Mas o caso é que o racismo anda solto por aí. E "baixaram o açoite" na ministra, que vem fazendo um bom trabalho em sua espinhosa área. Então, aproveitamos este espaço para botar as coisas nos seus devidos lugares.
Vamos a um exemplo: o leitor acha que todo indivíduo maduro que se sente atraído por uma adolescente insinuante como as de hoje é um pedófilo? Não! "Pedofilia é a perversão sexual que leva um indivíduo adulto a se sentir sexualmente atraído por crianças" (cf. Houaiss). Da mesma forma, o conceito de "racismo" anda sendo mal usado, em nome de outros interesses, como é o caso da ministra.
O Racismo, com "R" grande, é aquele comportamento através do qual um indivíduo manifesta, em relação a outrem de origem étnica diferente da sua, um sentimento baseado em um julgamento antecipado, em um preconceito, nascido em geral de um estereótipo, de um "carimbo", do tipo "todo negro é feio e sujo", "todo judeu é avarento", "todo português é burro", "todo sulafricano branco é racista" etc. E tem também o estereótipo positivo, o "carimbo" simpático, do tipo "todo alemão é inteligente", "todo japonês é trabalhador", "todo crioulo é bom de bola e de ritmo", "a mulata é a tal" etc.
Um negro não gostar de um branco é natural, sim: é da natureza, é humano. O que não é muito natural é um negro não gostar de branco nenhum, só porque um dia um branco o maltratou. Mas, convenhamos, um negro que - tendo ou não dado motivo - nunca recebeu amizade ou um simples gesto de carinho de branco nenhum, como é que o leitor acha que vai se sentir em relação a todos os brancos, hein? Se gostar, é masoquista!
A propósito, deve sair por estes dias um artigo nosso em resposta ao do sociólogo da USP que escreveu em O Globo comemorando a abolição do tráfico de escravos pelos ingleses. Nele, começamos dizendo que sempre soubemos que, um dia, quando recusássemos nosso lugar "na cozinha", o couro ia começar a comer. O dia chegou.
por Nei Lopes 10:56
Domingo, Março 25, 2007
A FAZENDA DE SANTA CRUZ E OS "PONTOS DE CULTURA"
Pousada com biblioteca? É ruim, hein!... Ainda mais em balneário de classe média. A rapaziada quer mesmo é piscina, churrasco, cerveja gelada, pagode e umas menininhas pra "ficar". E os coroas, coitados, estão com a vista cansada...
Mas o fato é que, contrariando os prognósticos, em uma de nossas últimas andanças lítero-políticas, acabamos de encontrar uma pousada com livros. E, entre eles, um fabuloso: As Barbas do Imperador, de Lília M. Schwarcz.
No livrão, sobre a vida daquele velho de barbas brancas que por incrível que pareça era filho daquele galante e fogoso jovem de cabelo e barba pretos, várias referências à música feita pelos negros no Rio de Janeiro colonial e imperial.
Ficamos sabendo, por exemplo, que a Orquestra dos Pretos de São Cristóvão, mantida na Quinta da Boa Vista, era apenas um dos muitos exemplos de bandas de música de escravos criadas para a exibição de poder dos senhores, nas fazendas cariocas e fluminenses, como em outras localidades brasileiras. Vimos fotos de uma banda negra do Vale do Paraíba, com doze figuras, entre as quais uns cinco ou seis meninos empunhando ou soprando clarinetes, requintas e "cornetes-a-piston", como outrora chamavam o instrumento que fez a fama do nosso grande Darcy da Cruz, que é de Vaz Lobo.
Sobre a Fazenda de Santa Cruz - em cujos antigos domínios hoje o Lote se situa - soubemos que, desde o tempo dos jesuítas, antes de Dom João VI, escravos e escravas adolescentes nela eram iniciados nas artes da chamada "música sacra", cantando em corais e executando instrumentos. E desse "Conservatório de Santa Cruz", como era chamado, saíram grandes músicos negros, como Salvador José, mestre do célebre Padre José Maurício (não! Machline é meu amigo mas é outro!) ; o cantor Joaquim Manoel; as cantoras Maria da Exaltação, Sebastiana e Matildes, todos depois integrantes do corpo musical da Real Capela do Paço da Boa Vista - na saudosa "Quinta" em cujo lago, no final do ano letivo de 1956, meu amigo Gilberto Nascimento viu afogar-se, entre brahmas e brumas, um clarim surrupiado da bandinha da escola fundada por seu venerando pai.
Digressões e pilequinhos juvenis à parte, em 1818 a Banda de Santa Cruz foi incrementada. E na década de 1830 o conjunto contava com 6 cantoras e 30 instrumentistas, destacando-se entre estes o flautista Antônio José que, cerca de trinta anos depois, por obra e graça de seu talento e sua arte, seria alforriado por Sua Majestade o velho de barbas brancas.
O livro, é claro, não conta o que aconteceu com as bandas de escravos após a Abolição. Mas sabemos que a experiência frutificou em estabelecimentos públicos de ensino profissionalizante destinados a jovens carentes, como o Colégio João Alfredo, antigo Asilo dos Meninos Desvalidos, em Vila Isabel; e mais tarde em escolas como Ferreira Viana, Souza Aguiar e Visconde de Mauá - em cuja banda o punho do hoje Velhote do Lote "avisava" o início dos dobrados e segurava o repuxo até a porrada final.
Tempo bom! Em que a garotada, se quisesse, aprendia música à vera, sem caô, de verdade. Um pouquinho diferente dos "Pontos de Cultura do Brasil", programa oficial do MinC, onde verbas públicas são destinadas a montagens de "fábricas de hip-hop", já que o Ministério, segundo alguns de seus porta-vozes, "olha para esse tipo de coisas não com preconceito, mas sim como se elas fossem oportunidades de negócios".
É aí que voltamos para a pousada. Pra tomar cerveja e comer churrasco, é claro! Que esse negócio de biblioteca é meio chato e nossa vista (como nosso saco) já anda meio cansada.
por Nei Lopes 12:05
Terça-feira, Março 20, 2007
ANGELA EVANS, O MORRO E A CIDADE
A triste miséria das periferias e favelas, que já gerou o fânqui carioca (uma das traduções da palavra funk é "aterrorizar"), o pentecostalismo histérico, o gato-net e o moto-táxi, vem produzindo também, em escala crescente, uma terrível modalidade de crime que é o roubo de cabos telefônicos.
Por uma merreca, por míseros "cobres", ladrõezinhos pés-de-chinelo vendem a receptadores, travestidos de ecológicos compradores de recicláveis, o cobre desses cabos, depois de descascá-los, queimando o envoltório plástico ou de borracha. E aí, de repente, comunidades inteiras acordam isoladas, os telefones mudos, para desespero até mesmo das multimilionárias empresas de nossa telefonia privatizada.
Aqui no Lote é constante essa chateação. E é numa dessas que, depois de quase 24 horas de silêncio, o telefone toca.
Quem fala? É o poeta Hermínio dos cabelos de orvalho, essa figura imensa de artista, produtor e agitador cultural - que descobriu Clementina, inventou o Projeto Pixinguinha, criou as edições Funarte e ainda por cima disse que "vista assim do alto..."
Pois o belo Hermínio desta vez operou o milagre de recuperar a voz do nosso telefone. E isso com um magnífico "puta-quiu-pariu", dos mais felizes e sonoros, tendo ao fundo a cantora Ângela Evans canariando o "Samba de Pedra", lindíssima melodia do amigalhão Ruy Quaresma que eu tive a honra de letrar.
Pois o HSBC (Hermínio Super Bello de Carvalho) estava bolado, encantado com o samba e com o CD, obra prima de uma cantora de belos horizontes, estreando no disco; e que o Brasil precisa urgentemente conhecer. A obra de arte, produzida por Jota Souza, chama-se Um pouco morro outro tanto cidade, sim. Tem no elenco autoral, além de nós, Elton Medeiros, Wilson das Neves, Cláudio Jorge, Wilson Moreira, Luiz Carlos da Vila, Eduardo Gudin, Sérgio Santos, Paulo César Pinheiro, Cristóvão Bastos, Salgado Maranhão, Ivan Lins, Ronaldo Monteiro de Souza, além dos saudosos Jorginho Peçanha e Padeirinho. E o time de acompanhantes reúne Cristóvão, João Lyra, Das Neves (que também canta), Bororó, Jurim Moreira, Carlos Bala, Jorjão Carvalho e Ovídio Brito.
A voz de Ms. Evans - que aliás ainda nem conhecemos pessoalmente - é algo! Cristalina, translúcida, límpida, afinadíssima, na medida certa para os onze tremendos sambas, modéstia à (nossa) parte. E o CD é moderno, classudo, fina e saborosa iguaria. De verdade. Com magia suficiente para operar milagre em qualquer miséria de periferia, do mau gosto ao fio desencapado, cortado e vendido por míseros "cobres" aos receptadores de cobre e outros metais. É disco que prova que a melhor música que se faz hoje no Brasil não é essa que toca o dia inteiro nas rádios jabazeiras nem nos faustosos domingões da TV. Assim, pena que o morro e a cidade dificilmente vão ter acesso a ela!
Entretanto, vale a pena tentar. Pra reciclar os ouvidos e a alma. Pra provar a diferença entre o ouro e o cobre. Entre morro e "periferia". Entre urbs, urbis (étimo de "urbanidade") e cidade.
Valeu, Hermínio Bello!
por Nei Lopes 08:34
Quinta-feira, Março 15, 2007
ZÉ KÉTI NO PRÊMIO TIM
O grande homenageado deste ano no Prêmio Tim é o nosso saudoso José Flores de Jesus, o Zé Kéti (1921-1999), que mereceu de nossa parte uma mini-biografia, publicada na série Perfis do Rio, do RioArte (Secretaria Municipal da Cultura), esnobada e agora esgotada. No livro, a gente dizia, entre outras coisas o seguinte:
Quando Zé Kéti, ainda quase um menino, resolveu abandonar a instrução formal e sair de casa, seu padrasto sonhava para ele um diploma universitário. Tudo isso em uma época em que pertencer ao mundo do samba, para a sociedade exterior e mesmo entre o proletariado suburbano, era ainda desqualificante e desabonador.
Em contrapartida, o mundo do samba, principalmente seus integrantes mais artisticamente dotados, como os músicos, sempre enxergaram no samba uma abertura para uma sonhada mobilidade social ascendente.
É assim que vamos ver, já nos primeiros anos da década de 1930, compositores do universo do samba conseguindo penetrar no mundo do rádio e do disco, não raro vendendo suas obras ou dando parcerias a autores e intérpretes consagrados.
Figura notória nesses primeiros tempos era a do sambista "do morro" que "sabia andar na cidade". Desenvolto, num meio que seus vizinhos sentiam como hostil e adverso, ele levava até o rádio e o disco sambas de companheiros que não sabiam ou não podiam descer ao "asfalto". Aí, ele se tornava, natural e formalmente, parceiro ou autor principal, num momento histórico e num ambiente em que propriedade intelectual era algo tão abstrato e difícil de entender quanto a concepção da Virgem Maria pelo Espírito Santo.
Zé Kéti foi um artista trabalhador, solidário e companheiro. Lutou pela profissionalização do samba e por uma vida economicamente estável para si e para os seus. Não se realizando através da música, procurou outros caminhos, até mesmo marítimos (tentou criar uma linha de barcas ligando São Gonçalo ao Rio), para o sucesso.
Não foi um Martinho da Vila, que permanece há quase 40 anos em cartaz. Nem um Candeia, cultuado hoje como uma das grandes lideranças do samba e que chegou a torcer o nariz pela aliança do Zé com os bacanas da bossa-nova. Muito menos foi um poeta refinado como Cartola nem um melodista elaborado como Nelson Cavaquinho.
Zé Kéti foi Zé Kéti.
Sua trajetória foi a busca de um samba livre, sem senhor. E por ele o neguinho subiu até a Serra dos Sonhos Impossíveis.
Fez grandes amigos na esquerda festiva; solidarizou-se com o cassados pela Redentora; sacaeou numa marchinha as coroas da TPF...
Agora, então, eis ele aí de novo (Tim! Tim!) tirando o chapéu pros aplausos.
Pois, como dizia o pai do Dom Quixote, "o sonho é o alívio das misérias dos que as têm acordados".
**
De nossa parte, a esperança é que, a memória do Zé rediviva por obra do nosso fraterno amigo Zé Maurício Machline (vixe, como tem Zé!), alguma boa editora se anime em reeditar nosso esnobado livrinho Zé Kéti, o samba sem senhor. Que, modéstia à parte, é bom paca!
por Nei Lopes 10:42
Sexta-feira, Março 09, 2007
... E MENTEM SOBRE MEU ARTIGO
Anda por aí, pelo território livre da Internet, uma versão deturpada do texto que publiquei na Folha de São Paulo (01.03.07) em réplica a artigo do jornalista Leandro Narloch a propósito do enredo da Beija-Flor, "Áfricas". Para salvaguarda de minha responsabilidade, eis aí o texto real, como foi escrito e publicado. Solicito aos amigos que divulguem.
Não é apenas Beija-Flor: todos mentem sobre a real África
Nei Lopes
Peço licença aos leitores para concordar com o artigo do Sr. Leandro Nardloch, "A Beija-Flor mente sobre a África", publicado na edição do último 23 de fevereiro da Folha de São Paulo. Concordo com ele, pois as escolas de samba cariocas, sacrificando a verdade histórica em benefício do espetáculo, têm fantasiado bastante a respeito do continente africano, ainda visto como "distante", "misterioso", "impenetrável" etc., e quase sempre mostrado como um corpo homogêneo e não como um todo multi-étnico e multicultural.
E digo mais: não foi só Beija-Flor que mentiu. Mentiu Salgueiro, quando juntou às candaces de Méroe, cuja experiência se desenvolveu entre o século IV AC e o primeiro da Era Cristã, figuras femininas como as de Nefertite e Makeda, a rainha de Sabá, que viveram em épocas mais remotas, bem como a de Cleópatra, mais grega que negra. Mentiu Porto da Pedra quando, cantando a África do Sul, disse que "o anjo invasor" deu a cor ao país. Mas, com todo o respeito, o Sr. Narloch também mentiu um bocadinho em seu artigo.
Falseou ele a verdade histórica - inclusive sobre a cidade hauçá e muçulmana de Kano, no norte da atual Nigéria, por ele localizada na antiga Costa do Ouro - não distinguindo o tráfico de escravos praticado na África antes da chegada dos europeus, exercido principalmente por traficantes árabes e direcionado para o Oriente e a Europa, com aquele que se desenvolveu através do Atlântico. E tudo isso, usando a velha tática de colocar na conta dos negro-africanos toda a responsabilidade por esses tristes eventos.
É certo que tanto o tráfico europeu, pelo vulto econômico que adquiriu, quanto o tráfico árabe contaram, a partir de um certo momento, com a efetiva colaboração de africanos de vários segmentos sociais, desde monarcas a simples transportadores. Havia, sim, mercados de aldeias que dispensavam os traficantes estrangeiros das perigosas incursões continente adentro. Mas a participação africana no tráfico de escravos não diminui a responsabilidade dos europeus. Foram eles que corromperam soberanos e súditos, inclusive fornecendo armamentos, para tornar esse tipo de comércio altamente rentável e tentador.
Entre 1580 e 1680, período em que duraram as chamadas "Guerras Angolanas", envolvendo, principalmente, Portugal, Holanda e os ambundos da rainha Nzinga Mbandi, estima-se que cerca de 1 milhão de cativos foram vendidos de Angola para as Américas. Da mesma forma, nas guerras entre axantis e fantis, na atual Gana, no início do século XIX, com participação inglesa; e também nas refregas entre iorubanos e daomeanos, a partir do século anterior. Todos esses acontecimentos foram motivadores de migrações forçadas de grandes contingentes de africanos para as Américas. Mas a aceitação passiva do tráfico de escravos e a participação nele não foi, como quis o Sr. Narloch mostrar, regra geral entre os governantes africanos. Na década de 1730, por exemplo, o rei daomeano Agajá Trudô, entendendo que o tráfico era um obstáculo ao desenvolvimento de seu país, saqueou e queimou os fortes e armazéns de escravos e bloqueou o acesso às fontes do interior. Esse fato deu ensejo a uma retaliação por parte dos europeus, concretizada por uma espécie de bloqueio econômico, o que fez com que a atividade se restabelecesse.
Mas felizmente, está aí, em vigor a Lei 10.639, instituindo o ensino obrigatório de História da África e das populações afro-brasileiras nos currículos de base no Brasil. Com ela, certamente, teremos, daqui a alguns carnavais, enredos mais verdadeiros. E comentários também.
Nei Lopes é autor da Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana e do Dicionário Escolar Afro-Brasileiro.
por Nei Lopes 09:35
Quinta-feira, Março 08, 2007
BENDITO AQUELE QUE SEMEIA...
O Velhote do Lote está revisando, para entregar já já, o livrinho "O Racismo Explicado aos Meus Filhos", encomendado pela Editora Agir. Tá delícia, tá gostoso, como diriam Martinho da Vila e Zé Catimba.
**
O Velhote do Lote está enviando hoje para a Pallas Editora a versão final do seu Dicionário Literário Afro-Brasileiro, que já vai entrar no forno. Dá um tremendo enredo!
**
O Velhote do Lote acaba de indicar à Mazza Edições, de Belo Horizonte, os nomes de 3 ilustradores para o seu livro juvenil "Histórias do Tio Jimbo" que será lançado em junho, num grande evento em Belô. Depois, a Mazza edita suas poesias completas. "Minas trabalha em silêncio..."
**
O Velhote do Lote está acertando com a Editora Língua Geral, do Agualusa e da Connie Lopes, os detalhes finais da edição do romance "Mandingas da 'Mulata-velha' na Cidade Nova", já devidamente lido e aprovado. Pois, pois...
**
O Velhote do Lote está aguardando o encerramento da trabalhosa produção do seu "Dicionário da Antiguidade Africana", na Record. Parece que vamos ter a apresentação de um grande africanista brasileiro. Que os Faraós nos abençoem!
**
O Velhote do Lote estará, neste sábado, comendo um ensopadinho, tomando uma cerveja preta e cantando uns pagodes com a família em Irajá... que ninguém é de ferro; e nem só de letras vive o Homem.
por Nei Lopes 09:24
Quinta-feira, Março 01, 2007
O SAMBA NA SALA DE AULA
E a defesa do patrimônio cultural nacional
Boa parte dos projetos de inclusão social hoje desenvolvidos nas grandes cidades brasileiras tem como apoio a música. E essa música, eleita entre aqueles gêneros ou estilo com os quais, supostamente o público-alvo, preferencialmente jovem, mais se identifica, ou quase nunca é o samba ou é um subproduto do gênero, como no caso das onipresentes orquestras de tambores, popularizadas a partir da Bahia pelo bloco-afro Olodum.
A Estética Olodum - Nascido em 1979 (seis anos depois do afoxé Badauê e cinco anos depois do bloco Ilê Aiyê, precursores da moderna africanização do carnaval baiano), como simples agremiação carnavalesca, o Olodum transformou-se numa organização múltipla, envolvida em diversas áreas da cultura e desenvolvendo bem-sucedidos projetos políticos e sociais em beneficio principalmente da comunidade do Pelourinho, no antigo centro degradado e hoje restaurado da cidade de Salvador. E no momento em que ele nascia e se organizava, as escolas de samba da capital baiana, tentando espelhar-se no modelo carioca, eram já suplantadas pelos chamados "blocos de índios", para logo em seguida chegarem a um ocaso melancólico.
A partir da visibilidade conquistada através do cantor americano Paul Simon que, empenhado em um projeto de world music em 1990, incluiu um seção rítmica do bloco em um de seus discos, o Olodum, ou pelo menos seu nome, ganhou fama internacional. Essa fama, muito bem capitaneada pelo militante João Jorge Rodrigues, líder sindical com formação universitária, levou o Olodum a fóruns internacionais, o que logo o transformou de simples entidade carnavalesca em uma organização não governamental firmemente apoiada por corporações e entidades de fora do País.
No rastro do sucesso do Olodum, outros blocos, uns bem outros mal organizados e intencionados, foram surgindo, inclusive no Rio de Janeiro, sempre tendo como base aquele tipo de orquestra de tambores com que o músico Neguinho do Samba, mestre da bateria, seduziu Paul Simon e mais tarde o polêmico megastar Michael Jackson.
Observe-se que a orquestra percussiva do Olodum tocava, a princípio, uma espécie de samba de cadência ralentada, bem próximo do produzido pelas baterias das escolas de samba cariocas até a década de 1950. Mas essa "levada" rítmica acabou por produzir um híbrido chamado às vezes de "samba-reggae", já que foi incorporando influências caribenhas, depois aproximando-se do funk, ao modo das bandas escolares norte-americana, e, assim, cada vez mais se internacionalizando. Tanto que, em 1993, os compositores Ythamar Tropicália, Alberto Pita e Moço faziam grande sucesso com a canção Alegria Geral, cuja letra diz: "Olodum tá hippie, Olodum tá pop / Olodum tá reggae, Olodum tá rock / Olodum pirou de vez...". E essa internacionalização é patente em outras canções, algumas até com letras totalmente em inglês, constantes de um songbook do bloco, o livro Olodum: carnaval, cultura, negritude, 1979-2005, organizado por João Jorge Rodrigues e Nelson Mendes e lançado em 2006.
Mas a "piração" do Olodum era consciente e rendia frutos igualmente importantes como, no Rio, na comunidade favelada de Vigário Geral, o grupo cultural sintomaticamente intitulado Afro-Reggae.
De trajetória bastante semelhante à do seu antecessor baiano, o Afro-Reggae só não foi, pelo que sabemos, um bloco carnavalesco. Nasceu logo com o estatuto de grupo cultural, mas também estabelecendo importantes parcerias internacionais, além de receber a unção de estrelas do segmento mais prestigiado da música popular brasileira, da principal rede de televisão do País e, pelo trabalho social que propaladamente desenvolve, de lideranças estelares no âmbito das ações ditas de cidadania e contra a exclusão social.
A grande contradição, entretanto, no trabalho tanto do Olodum quanto do Afro-Reggae é que, talvez pelas parcerias e compromissos que estabeleceram, essas duas entidades - e principalmente a segunda, que tem sede no Rio, exatamente na fronteira entre a zona suburbana da Leopoldina e a Baixada Fluminense - em seus projetos musicais privilegiam outras linguagens em detrimento do samba. O que provavelmente se possa explicar pela seguinte ordem de idéia.
O Samba, no Contexto - Desde a consolidação, no Brasil, da chamada "Era do Rádio" e do surgimento, aqui, das primeiras sociedades arrecadadoras de direitos autorais musicais, sob influência de grupos editoriais estrangeiros e da industria fonográfica internacional, o fazer do samba foi desdobrado, à sua revelia, em "samba de morro" e "do asfalto". O samba do asfalto freqüentou o legendário Café Nice - espécie de feira permanente da música popular de então, local onde se acertavam parcerias e gravações e se faziam negócios -, subiu aos palcos do teatro de revista e dos cassinos, de terno, gravata e sapatos de verniz. O do morro, negro em sua grande maioria, ficou nos botequins, de chapéu palheta, lenço no pescoço e tamancos; e freqüentemente se vendia ao do asfalto ou aos editores em troco de um café, um almoço, uma ajuda no aluguel.
Evidente que, vez por outra, um sambista classificado como "do morro" transpunha os umbrais do Nice, muitas vezes levado por criadores de olhar arguto e coração aberto, como foi o caso de Noel Rosa, que intercambiou experiências decisivas com sambistas do porte de Ismael Silva, Cartola, Heitor dos Prazeres etc. Mas a regra era o domínio do "asfalto", que, do rádio e do palco, chegou às boates, ao cinema e, na década de 1950, à nascente televisão.
Na televisão, a partir do movimento da Jovem Guarda, a que seguiu a Era dos Festivais e, numa seqüência, o tropicalismo e o chamado "Rock Brasil", o velho mas prolífico samba, tachado de imobilizado e passadista, quando não acusado de "alienado", não-afinado com o discurso inconformado e rebelde da juventude , foi sendo deixado para trás e excluído. Mesmo no conjunto da música de extração africana privilegiada pelos movimentos em prol dos Direitos Civis dos negros, que aqui se consolidaram a partir da década de 1970, ele - a não ser no sonho do Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, iniciativa do compositor e líder Candeia, infelizmente falecido em 1878 - não teve vez.
Injustamente acusado de alienado, o samba, mesmo o "do asfalto", sempre deu e continua dando lições de inconformismo e engajamento político. Obras como Sapato de Pobre (Jota Júnior e Luís Antônio, 1951); Lata D'água (idem, 1952); Salário Mínimo (Ernâni Alvarenga, c. 1950 ) Dia de Graça (Candeia, c. 1975 ), Zé Marmita (Brasinha e Luís Antônio, 1953), Zelão (Sérgio Ricardo, 1960), O Morro Não Tem Vez (Tom e Vinicius, 1963), O Pequeno Burguês (Martinho da Vila, 1969), Acender as Velas, (Zé Kéti, 1965), Lamento da Lavadeira (Monsueto, Nilo Chagas e João do Violão, 1956), Na Casa de Corongondó (Monsueto e Arnaldo Passos), para citar apenas alguns, são provas evidentes do que queremos demonstrar.
Na produção mais recente, chamamos a atenção para alguns sambas do Trio Calafrio (Barbeirinho do Jacarezinho, Luiz Grande e Marcos Diniz) gravados por Zeca Pagodinho, como Comunidade Carente e Parabólica. E transcrevemos, com intuito puramente didático as letras de dois sambas gravados pelo jovem conjunto da periferia paulistana Quinteto e Branco e Preto, que são as seguintes:
Nova Psicologia (Magno de Souza, 2000) - "Eu olho o Brasil e aponto o erro: / chama-se aristocracia. / O povo perdido acredita demais / na ira da demagogia. / Tem mais de dez mil querendo um coração / na fila da cirurgia. / Por isso a doença não sara/ porque o seu nome é burocracia. / (...) Nas paradas de sucesso/ ninguém mais se liga na filosofia / é só abobrinha / Bons poetas não se ouve mais/ como Chico e Gonzaguinha (...) Hoje tudo liberado, / o Sistema predomina / Sem contar a CPMF / Seu destinatário até Deus duvida..."
Fetiche Real (Magno, Maurílio de Oliveira, Everson Pessoa, Edvaldo Galdino, 2000) - "O meu pão na padaria / já não dá mais pra comprar / (...) / É um país sem comando / é o país sem polícia / tudo pra eles gostoso / tudo pro povo carniça / (...) / Eles moram em bairro nobre/ e nós na periferia / (...) / No bolso nem pra sanduíche / salário ficou só no disse-me-disse. / Não há país de Fernando / em que Cardoso não enrique..."
Na Sala de Aula - A partir do exposto, como então trabalhar o samba na sala de aula?
Acreditamos que o primeiro passo seria, historicamente, mostrar o sistema de dominação transnacional a que estão submetidos a indústria do entretenimento e a mídia no Brasil, o que faz com que produtos com algum traço distintivo de nacionalidade não interessem às grandes corporações, as quais, por exemplo, sob a trilha sonora da cultura hip-hop, inundam o mercado com suas marcas e logotipos através de bonés, camisetas, tênis etc.
Depois, seria mostrar, através da análise das letras das obras acima indicadas e outras mais, que o samba, principalmente através da crônica de costumes que sempre foi sua marca registrada, também denunciou e denuncia os desmandos do Sistema, mostrando também que, hoje, obras como a do citado Quinteto em Branco e Preto não chegam ao grande público porque artistas jovens com a proposta deles, de fazer samba tradicional, são sistematicamente barrados pelas grandes gravadoras e, conseqüentemente, não têm acesso a uma difusão mais ampla.
Também achamos interessante mostrar como as escolas de samba cariocas, que nasceram para legitimar a cultura das comunidades basicamente negras onde surgiram, a partir de um determinado momento foram-se desvinculando dessa cultura. E isto, apesar de os sambas-enredo, durante um bom tempo, terem sido legítimas aulas de História do Brasil, até mesmo revelando aspectos ocultos dessa História, como o enredo sobre Delmiro Gouveia, apresentado pela Unidos da Tijuca, em 1980; ou como o "61 Anos de República" do Império Serrano em 1950, no qual são listados, em rigorosa ordem cronológica, os presidentes do Brasil, de Deodoro a Getúlio Vargas; ou ainda como os revolucionários "Chica da Silva" (Salgueiro, 1963); "História da Liberdade no Brasil" (Salgueiro, 1967), em plena ditadura; ou "Heróis da Liberdade" (Império Serrano, 1969), também sob o tacão da opressão militar.
Finalmente, seria oportuno esclarecer porque as escolas de samba, hoje, no geral, pertencentes mais ao mundo do show-business do que ao de suas comunidades de origem, trilham caminho cada vez mais divergente daquele que é trilhado por compositores e intérpretes efetivamente engajados num trabalho de afirmação e defesa do samba como patrimônio cultural brasileiro, tal como é definido no art. 216 da Constituição Federal, que diz:
"Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores d referência à identidade, à ação, á memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
I - as formas de expressão;
II - os modos de criar, fazer e viver;
III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas; (...)"
No nosso modesto entender, nenhum dos gêneros importados, a partir da Segunda Guerra Mundial pela indústria musical atuante Brasil, mesmo os aqui aclimatados, constitui patrimônio cultural do povo brasileiro. Portanto, as ações pedagógicas que os quiserem utilizar, que o façam; mas pensando no perigoso potencial de desnacionalização e colonização cultural que essas formas representam.
(Nei Lopes - Palestra proferida em janeiro de 2007 no campus Guarujá, SP, da Universidade de Ribeirão Preto)
por Nei Lopes 13:32
|