Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007



BEIJA-FLOR, GRANDE RIO E A BAIXADA LEVANTADA

"... Atualmente a nossa velha Baixada / Tá pra lá de levantada/ com o progresso que chegou. / Tá tudo Olinda, o esquadrão fechou a tampa / Hoje tudo é Rio Sampa, Grande Rio e Beija-Flo r/ Morreu Tenório / terminou sua epopéia / e Joãozinho da Goméia / foi oló, desencarnou..."

(Sapopemba e Maxambomba, de Nei Lopes e Wilson Moreira, gravação de Zeca Pagodinho)

Saudando a Beija Flor por mais este campeonato, fruto da organização e da competência - independente da força política e econômica que a sustenta - e contrapontando com o segundo lugar conquistado pela Grande Rio, pedimos licença para "requentar" um texto que escrevemos tempos atrás e trazê-lo para os leitores do Lote. Vamos lá!

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Há 35 anos, é quase certo que nenhum dos famosos e celebridades que hoje, no carnaval carioca, se dizem "Grande Rio desde criancinha" tivesse ainda nascido.

Rolava o ano de 1969. A cidade do Rio de Janeiro era apenas a simpática capital do efêmero Estado da Guanabara. E o município de Duque de Caxias, no antigo Estado do Rio, ainda era a terra do político bambambam Tenório Cavalcanti e de Joãozinho da Goméia, pai-de-santo que levou a tradição dos orixás jeje-nagôs até os palcos e deles para a avenida. Pois, nesse último ano da década de 60, os dirigentes do samba Amauri Jório e Hiram Araújo publicavam Escolas de Samba - vida paixão e sorte, um livro que, embora cheio de erros de revisão, era um fantástico e farto documento, constituindo-se no primeiro grande inventário das escolas de samba cariocas.

Naquele tempo, sob as ondas da Rádio Difusora de Caxias e da Rádio Clube Fluminense - está lá no livro - movimentados programas de samba iam ao ar, varando a noite. Neles, tocava-se samba, veiculavam-se notícias do mundo do samba, debatiam-se questões palpitantes. E, naturalmente, lamentava-se a baixa performance das quatro escolas locais.

Essas escolas eram a azul e branco União do Centenário, da rua Seabra Sobrinho, no bairro que lê emprestava o nome; a Capricho do Centenário, verde e branco; a Unidos da Vila São Luiz, vermelha e branca, na qual se destacava a figura ímpar de Diva, compositora e emérita partideira; e a amarelo e azul-pavão, intitulada Cartolinhas de Caxias, na qual brilhava, impávido e elegante, o também mangueirense Hélio Cabral (1926-97), com seus sambas antológicos, entre eles o Benfeitores do Universo ("Acordem, benfeitores do universo! / Que eu vou render tributo aos meus heróis / E nesta apoteose de grandeza / Eu peço a presença de todos vós...") eternizado por Martinho da Vila.

No carnaval de 1952 - está lá no livro de Amauri e Hiram - a Cartolinhas chegou em 17º lugar na Praça Onze, num carnaval vencido pela Unidos do Indaiá, de Marechal Hermes. No ano seguinte, a Capricho do Centenário desfilou mas sem obter nem classificação. Em 54, Cartolinhas e Capricho empatavam em 11º lugar, para chegarem respectivamente em 6º e 9º no carnaval seguinte. Em 56 e 57, Cartolinhas chegando em 12º e 18º na chamada "poeira", a hegemonia caxiense ficava com o Capricho. Mas, no final da década de 1960 essa liderança se transferiria para a União do Centenário, considerada, já, por Jório e Araújo, uma escola de porte médio.

Em 1971, o município de Duque de Caxias, com cerca de 310 mil habitantes (contra 123 mil do vizinho Nilópolis), possuía 135 estabelecimentos de ensino primário e 15 de ensino médio (contra, respectivamente, 64 e 14 de Nilópolis), sendo cinco de ensino comercial; já tinha grandes indústrias, entre elas a refinaria da Petrobrás, dando emprego a cerca de 20 mil pessoas; e alguns bens tombados como patrimônio histórico e artístico nacional, como a igreja de N.S. do Pilar. Nesse ano, então, com a Beija-Flor de Nilópolis já preparando o vôo que a levaria ao infinito, ilustres membros da boa sociedade caxiense convenceram os sambistas a unir as quatro pequenas escolas numa só, a Escola de Samba Grande Rio, que adotou as cores azul, vermelho e branco e se estabeleceu na rua Dr. Manuel Teles.

Mas a participação caxiense, ao contrário da nilopolitana, no carnaval carioca continuava tímida e discreta. Até que, emulando a Beija-Flor, pequena escola fundada no dia de natal (!) de 1948 e que, a partir de 1976, conseguira projetar nacionalmente o nome de seu então obscuro município, a Grande Rio mudava suas cores e, talvez evocando o verde da Capricho e o vermelho da São Luiz, transformava-se em 1988 na tricolor "Acadêmicos do Grande Rio", com sede na avenida Almirante Barroso.

Em 2004, quando a primeira versão deste texto foi escrita, a Grande Rio, com Joãozinho Trinta, já era "celebridade". E hoje começa a "chegar junto com a Beija Flor".

Tomara que ela siga os passos da escola de Nilópolis. E vá buscar nas suas comunidades de samba - com a força mais do seu próprio poder do que dos "famosos" da televisão - o resgate de tudo aquilo que ficou lá atrás. Tomara!




Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007



JAMELÃO MERECE RESPEITO

Ler colunas de memórias dos jornalões, do tipo "Há 50 anos", é altamente esclarecedor. Inclusive, durante algum tempo andamos lendo o jurássico Jornal do Commércio, que recuava essa memória a até 150 anos.

Mas cinqüenta anos já é um bom tempo pra se aprender recordando. Como, por exemplo, no dia em que lemos, em editorial de O Globo, o que a opinião pública conservadora achava das religiões de matriz africana em 1954.

No mesmo O Globo, vemos agora reproduzida a seguinte nota, sobre um concurso de cães vira-latas em Vila Isabel, publicada em 09.02.57:

"Sua Majestade Canina, Jamelão I, até 16 de fevereiro, monarca absoluto dos vira-latas, deixando por um dia seus hábitos dominicais (...). Jamelão, num dos últimos atos do seu democrático reinado, presidirá ao desfile de candidatos a Rei dos Vira-Latas, que começará às 9h, na Praça Barão de Drumond em Vila Isabel".

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Em 1957, o admirável cantor Jamelão, ora amargando as seqüelas de um acidente vascular cerebral que o deixou inclusive sem fala, já era morador de Vila Isabel, onde reside até hoje. Já tinha feito sucesso com os sambas "Leviana", "Exaltação à Mangueira", "Eu Agora Sou Feliz", e já tinha gravado o belíssimo samba-canção "Folha Morta", de Ary Barroso. E, mais, já era, na avenida, o inconfundível intérprete de Mangueira - a qual, no ano anterior, num samba antológico, exaltara Vargas, "o grande presidente", certamente para desespero do jornal da família Marinho.

Veja-se, então, que a nota zombeteira de O Globo, publicada nas proximidades do carnaval de 1957, parece ter tido endereço certo. Mas há 50 anos atrás, nossas coisas eram tratadas assim mesmo...

O que não se justifica é a republicação da nota agora. Quando o nome "Jamelão", pronunciado, evoca de imediato, não mais o fruto de cor preta arroxeada, ou o apelido racista dele decorrente, mas, aí sim, um dos maiores intérpretes da música popular brasileira em todos os tempos.

Neste momento, em que esse artista sublime, muito doente e fragilizado, não tem nem como reagir, a publicação de tal nota foi uma brincadeira de mau gosto. E de extrema covardia.




Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

DANÇA DE VELHO

Aqui no Lote e adjacências, com as crianças correndo pra baixo e pra cima, com suas fantasias de bate-bola, pânico, bala-perdida, caveirão e similares (depois que o Halloween chegou por aqui, fantasia não é mais graça: é só terror), já é carnaval. Tanto que a placa "Vende-se um Gorila", na casa aqui em frente, só assusta os visitantes. E, por isso, ninguém se espantou quando o coroa estranho entrou no bar da simpática inglesa Anna Bowl, sentou, pediu um cálice de parati com ferné, uma cerveja Teutônia e uma porção de tremoços.

De terno e sapato branco, colete, chapéu panamá de aba curta, o pescoço ocupado com um plastrom azul piscina combinando com a fita do chapéu e, no braço esquerdo, a rosácea bordada, onde se lia, apenas a expressão "Velha Guarda", o coroinha já estava pronto. E, na nossa mesa, o papo era sobre escola de samba.

Discutíamos sobre ensaios técnicos, recuos táticos, coreografias, protótipos, cronometragens, essas coisas de sambista. Mas aí o nego véio, já no quarto cálice e na segunda ampola, não resistiu, meteu o bedelho no nosso papo e solou um choro de Pixinguinha:

- Vocês querem saber de uma coisa? Escola de samba era na Praça Onze, no meu tempo! Naquele tempo, a comissão de frente era de 10% sobre o faturamento bruto. Nunca menos que isso. E mestre-sala não era só mestre-sala, não! Era mestre-sala, cozinha, banheiro, dependências de empregada... E ainda tinha área de lazer. Vocês estão pensando o quê? Bateria? Não era isso de hoje, não! Era bateria mesmo, com aquele grupo de pilhas, acumuladores ou condensadores, ligados em série ou em paralelo, carregados e descarregados simultaneamente. A intensidade da corrente era tal que dava pra iluminar isso aqui tudo, até lá na Dutra! E as pastoras?! As pastoras eram tranqüilas, serenas, pregando e tal, mas sem meter a mão no bolso da gente e fugir pra Miami. Naquele tempo nenhuma pastora tinha dinheiro em paraíso fiscal, não, meu camarada! Era séria a coisa. E quando o diretor de harmonia gritava pra uma delas "dá nas cadeiras, cabrocha!", ela não dava só nas cadeiras, não! Dava no sofá, na poltrona, no divã, na espreguiçadeira. Dava mesmo! E os passistas, quando o diretor mandava eles dizerem no pé, eles se envergavam todos, até encostar a boca no tornozelo e aí mandavam um "alô" pedindo pro povo abrir alas e saudando os órgãos da imprensa. E os órgãos da imprensa naquela época eram só cérebro e coração, meus queridos! E ainda tem mais: pra entrar na escola tinha que saber pelo menos fazer uma letra, assim ó...

Nessa, a gente sem entender absolutamente nada, o coroa se levanta e risca, no ar e no chão, com a ponta do pé, um "a", um "e", um "i", um "o" e um "u", como - dizem - faziam, no carnaval dos cordões, antes das escolas, os "velhos". E tudo mais ou menos naquele tipo de dança que ainda se usa, em Cuba, nas figurações da colúmbia, a rumba mais tradicional, vinda de lá do velho Congo.

- Esse coroa é doido! - diz o cronista carnavalesco Dezóio.

- Doidos somos nós. - diz o Rubem Confete. - Esse velho sabe das coisas, como quase todo velho. Só está é misturando um pouquinho as estações.Mas ainda sabe muito bem "dançar de velho", como os malandros do bom tempo. E nós aqui nessa bobeira de ensaio técnico, protótipo, cronometragem...




Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

AQUECIMENTO GLOBAL

Aqui no Lote e na vizinhança não se fala de outra coisa. É "aquecimento global" pra lá, "aquecimento global pra lá"... Mas ninguém sabe direito o quê que é. E aí, tome de opinião, entre uma lapada e outra de 51; entre uma e outra caneca de vinho "Sultão"; entre um versículo e o seguinte do Apocalipse, ao som de mais um desafinado "louvor gospel".

- Chegou a hora do juízo! E quem nunca teve, vai ser cozido feito costela abafada no forno do Maldito!

Isso, quem berra é o ministro Ebenézer, do Tabernáculo Hexagonal das Sarças de Fogo do Monte Horebe, o qual, em seus tempos de folia, calango e timbuca, era só conhecido como "Bené da Sanfona".

Já o pessoal da obra acha que "Cimento Global" é mais uma propaganda enganosa. E Seu Pedro Pedreira alerta o servente sobre o perigo da novidade:

- Cês lembra do tal de "Cal Marx" que apareceu quando o Alemão da Loja se candidatou a vereador pelo PC do B? Ele dizia pra gente que vinha da Alemanha, que vendia muito na Rússia, mas quando a gente foi caiar aquele muro, cês lembra? O muro caiu... Essas novidades nunca dão certo. O melhor é a gente ficar com o Mauá, com o Irajá, com o Barroso e não trocar o certo pelo duvidoso.

Mas Djosilayne, Khristielly e Rosymarley, que já gostam de uma novidade, estão que é um ouriço só. Pra elas, agora, no baile do Furacão, com o MC Foguinho de São João, a chapa vai esquentar ainda mais. E aí, elas vão poder ganhar neném mais cedo; e pedir o DNA já com 11, 12 anos.

Já as irmãs Selma, Sandra e Sueli não estão nem um pouquinho "hezitada" - como escreveu a primeira num bilhete à segunda. É que, pra elas, "aquecimento global", de verdade, é namorar motorista de ônibus e ir daqui até a cidade, todo dia, sentada em cima do motor.

Agora... vibrando mesmo quem está é o Dezóio, nosso amigo e guru para assuntos de aluguel e copiagem ilícita de fitas de vídeo e DVDs.

Dezóio é vidrado em televisão e filmes de ação. E é certamente por isso ou para isso que ostenta aqueles zoião butucado (do quicongo 'butuka', nascer, brotar; ver a luz do dia, seg. o Novo Dicionário Banto do Brasil, Pallas, 2003) que lhe valeram o apelido. Então, quando ouviu falar em "aquecimento global", nosso amigo butucou ainda mais os olhos e quase teve um troço, de tão contente:

- Caraca, maluco! Agora mesmo é que não perco mais nenhuma "Tela Quente" nem "Temperatura Máxima"! A Globo é fera, mermo, né não ?!

E saiu, mandando a velha fuleira:

- Tchau! A gente se vê por aqui!