Terça-feira, Dezembro 26, 2006

"CHUTANDO O BALDE", A TODO PANO

Entusiasmadíssimos com o CD "Chutando o Balde", em fase de pré-produção, Nei Lopes e seu produtor-parceiro Ruy Quaresma dão uma palinha do que vem por aí. Abaixo, a letra de um dos espécimes do disco, no segmento "samba romântico popular".


EU LHE AMO

Eu pensava
Que eu se bastava
A si próprio
E nesse dilema
Afogava os pobrema
No copo.
Mas ainda se lembro
Do mês de dezembro
Quando Papai Noel
Me viu tão carente
E mim deu de presente
Teus lábios cor de mel.

Minha doida loucura
Me bate e tortura
Que eu gamo!
Não se canso
De falar
Que lhe amo
De qualquer maneira
Na cama, na esteira
Ou na praia de Ramos
Quando caí em si
Foi que eu me pressenti
Como a gente se amamos.




Segunda-feira, Dezembro 18, 2006

OS MELHORES DE 2006

Com aquela imparcialidade que caracteriza os nossos melhores órgãos e meios de comunicação, o Lote acaba de eleger os seus melhores de 2006. Lá vai bala!

 BLOG: "Meu Lote", Nei Lopes (produção: Marcus Fernando)

 CD: "Chutando o Balde", Nei Lopes, Gravadora Fina Flor, em pré-produção

 CIDADÃO OLODUM: Nei Lopes, reconduzido ao cargo que ocupava desde o ano anterior em festa no Largo do Pelourinho em 21.01.06

 CONVIDADO ESPECIAL: Nei Lopes, II Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora - II CIAD, Salvador, 12 a 15 de julho de 2006

 CONSULTORIA: Nei Lopes para a série "Mojubá", Canal Futura

 DICIONÁRIO EM PRÉ-PRODUÇÃO: "Dicionário Literário Afro-Brasileiro", Nei Lopes, Pallas Editora

 DICIONÁRIO EM PRODUÇÃO: "Dicionário da Antiguidade Africana", Nei Lopes, Ed.Record

 DICIONÁRIO: "Dicionário Escolar Afro-Brasileiro", Nei Lopes (Selo Negro, SP)

 DVD: "Nei Lopes no Itaú Cultural" (Itaú/Fina Flor), em final de edição

 EDIÇÃO CONTRATADA: "O Racismo Explicado a Meus Filhos", Editora Agir e Nei Lopes (para maio de 2007)

 EDIÇÃO ESPECIAL: "Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana", de Nei Lopes (para a Fundação para o Desenvolvimento da Educação - FDE); "Novo Dicionário Banto do Brasil", Nei Lopes (idem)

 ELEIÇÃO: Nei Lopes , como um dos "100 Brasileiros Geniais", Revista O Globo, 25.06.06

 EVENTO: 1º FESTINTERMUSOP, Festival Intermunicipal do Ensopado, fevereiro, Seropédica, RJ; 2º FESTINTERMUSOP, agosto, Irajá.

 GRAVAÇÃO: "Xequeré", de Nei Lopes, Magnu de Souza e Maurílio de Oliveira, com Alcione; "Inocente Fui Eu", de Zé Luiz e Nei Lopes, gravação de Zeca Pagodinho (DVD)

 GRUPO ACOMPANHANTE: Nei Lopes e suas Finas Flores (Ruy Quaresma, violão e arranjos; Márcio Hulk (Alessandro Cardoso ), cavaquinho; Zé Luiz Maia, baixo; Jorge Gomes, bateria; Naífe Simões, percussões

 INTERPRETAÇÂO: Nei Lopes em "Jongo do Irmão Café", show/DVD, "A Cor da Cultura", Concha Acústica do Teatro Castro Alves, Salvador, maio 2006

 LIVRO DE CONTOS: "Vinte Contos e Uns Trocados" , Nei Lopes (Ed. Record, Rio)

 LIVRO DE HISTÓRIA E FILOSOFIA: "Kitábu, o livro do saber e do espírito negro-africanos", Nei Lopes (Ed. SENAC-Rio)

 LIVRO INÉDITO: "Os Genes", romance, Nei Lopes; "Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova", idem

 LIVRO REEDITADO: "Bantos, Malês e Identidade Negra", Nei Lopes (Ed. Autêntica, BH)

 MÚSICA DE NOVELA: "Pega Geral" (Dudu Nobre e Nei Lopes), novela "Cobras e Lagartos"; "Esse Negro Não Se Enxerga" (Cláudio Jorge e Nei Lopes), novela "Sinhá Moça"

 PALESTRA: "Saber e Filosofia Africanas", Nei Lopes, Feira do Livro de Campos, Café Literário, 28 de maio; "A África na Nova Educação", Nei Lopes, Universidade de Ribeirão Preto, campus Guarujá, SP - 22 de novembro

 PARCERIA: João Bosco e Nei Lopes ("Jimbo no Jazz", "Unidos do Xapuri", "Sambangolê"); Moraes Moreira e Nei Lopes ("Ônibus Pirata", "Comida Caseira"); Nilze Carvalho e Nei Lopes ("Tira o Salto", "Fogo Cruzado", "Amor Segredo")

 REGRAVAÇÃO: "Coisa da Antiga", de Wilson Moreira e Nei Lopes, com Rita Ribeiro

 REPORTAGEM: "O pensador do Irajá", Adriana del Ré, O Estado de São Paulo, Caderno 2, Cultura (capa), 01.01.06; "Porta-Voz do Saber Africano", Ana Cristina Pereira, Correio da Bahia , Folha da Bahia (capa), 11.01.06; "O pan-africanista", L.A.Simas, Jornal do Brasil, Idéias & Livros (capa), 25.02.06

 RETRATO CAPITAL : Nei Lopes, na galeria "Retratos Capitais", de notáveis que fazem parte da história recente do país. Foto de Luís Garrido, a sair.

 SHOW: "Samba de Breque" (Leny Andrade e Nei Lopes), CCBB Brasília; "Dinheiro no Samba" (Nei Lopes e Sururu na Roda), Centro Cultural da Caixa, Rio; "Festival de Arte e Cultura Afro-Brasileiras" (Nei Lopes e outros artistas), Teatro Ginástico Rio

 SHOW-PALESTRA: "Samba e Negritude" (Nei Lopes e quinteto), Sindicato dos Profesores, 25 de maio; "Samba e Diversidade" (Nei Lopes e quinteto), Biblioteca Nacional, 14 de setembro

 TURNÊ: "Projeto Pixinguinha" (Fátima Guedes, Nei Lopes e Genésio Tocantins), Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal, Mossoró e Fortaleza, 6 a 19 de abril

 VIAGEM: Havana, Cuba - Nei Lopes e Dona Sonia, 3 a 11 de novembro




Sábado, Dezembro 16, 2006

COMENTÁRIOS

O sistema de comentários do Blogger pifou...

Estamos tentando recuperá-lo. Enquanto isso use o outro sistema no "Diz aqui!"

a) Assistência Técnica





SEM COMENTÁRIOS? DESCULPEM, VISITANTES!

Por problemas técnicos, e não de censura, o "Diz aí" não está recebendo seus comentários. Mas já estamos providenciando o reparo.

a) Assistência Técnica







DONA HILDA DO CANDONGUEIRO, PRÊMIO LOTE DE FOTOGRAFIA

Esta foto, sacada por Dona Hilda do Cangueiro (esposa do Ilton do Pandeiro e mãe do clarinetista Ivan Mendes) em Havana, no último novembro, mostra que pra se buscar a ancestralidade africana não se precisa necessariamente ir ao continente de Mandela. E só dar um pulinho ali na Ilha...

Merece ou não merece o Prêmio Lote de Fotografia?





SAMBA, DIREITOS HUMANOS E TIRA-GOSTOS

O Samba, embora quase ninguém tenha visto, também esteve presente ao tal show pelos Direitos Humanos na Enseada de Botafogo, no domingo passado. Só que os produtores da festa juntaram uns 20 e tantos sambistas, inclusive este Velhote que vos fala, deram uma cocada e uma mariola pra cada um, proibindo os coitadinhos de cantar mais que 1 (um) samba e os meteram lá, ainda dia claro, de qualquer jeito, naquela "informalidade" que sempre nos caracteriza, "esquentando" a platéia, servidos como "couvert" para todo o pop-rock que viria depois, como prato principal. Entretanto, no "backstage", a cerveja era farta, estava gelada e os acepipes (tira-gostos), divinos, servidos por garçons e garçonetes chiquérrimos, todos naquele pretinho básico. Disseram que o bufê era do queridíssimo Aridalton, que cuida muito bem desses detalhes. Será?

Como disse um dia o Mighty Sparrow, rei do calypso em Trinidad, "todos os homens são iguais; mas tem uns que são mais iguais que outros".





DO BLOG DO MAURO FERREIRA



Bosco lança inéditas com Nei Lopes em 2007

Inicialmente programado para este ano, o aguardado disco de inéditas de João Bosco (foto) teve seu lançamento adiado para 2007 para não prejudicar o desempenho comercial do DVD e CD ao vivo Obrigado, Gente! - editados em maio pela gravadora MP,B com distribuição da Universal Music. No álbum de inéditas, Bosco inicia parceria com Nei Lopes, primoroso letrista ligado ao universo do samba. Os compositores já fizeram músicas como Jimbo no Jazz, com versos que narram as peripécias de um jongueiro fã de jazz. Além da bem-vinda colaboração com Nei Lopes, o CD vai oficializar a retomada da parceria de Bosco com Aldir Blanc em faixas como Mentiras de Verdade e Sonho de Caramujo.

http://blogdomauroferreira.blogspot.com




Terça-feira, Dezembro 12, 2006

O "SERTANEJO" É ANTES DE TUDO UM CHATO

"Aliás, a música sertaneja (...) se aproximou bem mais da questão indianista [sic] do que as nossas políticas públicas..." (Zezé Di Camargo, O Globo, 10.12.06)

"Encontrei, hoje cedo, no meu barracão, minha roupa de Conde no chão" e, tal qual sucedeu no samba de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, resolvi vesti-la, ou seja, defender uma parte do pensamento do futuro secretário estadual de Cultura do Rio sobre a chamada música "sertaneja". É claro que pega mal pra alguém na condição dele descer a lenha como ele desceu, mas o caso é o seguinte:

A música popular da chamada "área da viola", ou seja, de partes do interior paulista, mineiro, goiano, mato-grossense e do Paraná, está presente na radiofonia e na discografia brasileira desde a década de 1910 e representa, efetivamente, um dos pilares sobre os quais se assenta a música do povo do Brasil. Tanto que, em nossa infância carioca e suburbana, na década de 1950, tivemos acesso, através principalmente da poderosa e diversificada Rádio Nacional, a esse cancioneiro, não só na comicidade das duplas Alvarenga e Ranchinho e Xerém e Bentinho, por exemplo; como no doce lirismo de Xerém e Tapuia; Tião Carreiro e Pardinho e Cascatinha e Inhana, estes os responsáveis pelo abrasileiramento da guarânia paraguaia. Mais tarde, éramos apresentados à bela verdade telúrica de Pena Branca e Xavantinho. E gostávamos.

Acontece que, nos anos 60, com a Jovem Guarda, esse tipo de música começava a mudar de rumo. Como escreveu o nunca assaz lembrado José Ramos Tinhorão (Pequena História da Música Popular Brasileira, 1991), a partir desse momento a moda de arranjos imitando aqueles trompetes dos mariachis mexicanos anunciava a "era do sertanejo de circo, que permitiria a jovens como Leo Canhoto e Robertinho se vestirem de cowboys para cantar, entre correrias e tiros de festim, histórias do faroeste americano como a de Jack, o matador." (pág. 194).

A esse desbunde, seguiram-se dois fenômenos igualmente dignos de nota. Primeiro foi, nos anos 80, a ascensão de músicos da extinta Jovem Guarda aos altos escalões de produção e marketing das principais gravadoras multinacionais instaladas no Brasil. Depois, foi a curta mas devastadora Era Collor (março de 1990 a outubro de 1992), em que a música dita "sertaneja", fortemente alinhada já com aquilo que nos USA se define como "texmex", passava a ser o fundo musical oficial dos confiscos e desmandos emanados da milionária "Casa da Dinda".

"A música mexicana do Texas expressa o dilaceramento de uma comunidade que, apesar de profundamente apegada à sua cultura de origem, sonha em integrar-se à sociedade norte-americana". Assim o antropólogo Manuel Peña, professor da Universidade do Estado da Califórnia, expressa o que é o drama vivido pelo "texmex" gênero musical a que nos referimos linhas acima. E essa é a doença que, a nosso ver, atinge a multimilionária música "sertaneja" do Brasil, com seus jatinhos, rodeios, trajes de cowboy, letras infantilizadas, melodias repetitivas e gorjeios em terça chatos, muito chatos: eles são caipiras, sim, e se orgulham disso; mas eles querem ser caipiras do Texas, ou melhor, cowboys, que é muito mais bacana.

E o pior de tudo é que, com os agrodólares que a sustenta, a música deles - que todos julgávamos ser moda passageira - vai ficando e se impondo, gerando em cascata, a cada programa do Raul Gil, mais Fulanos & Cicranos; Menganos & Beltranos, com a espantosa fertilidade das seitas neopentecostais, que se reproduzem à razão de uma por dia, em cada esquina, aqui nas cercanias do Lote. E vai ressuscitando gente do finado iê-iê-iê que sai da tumba, que horror, com 2 metros de altura, de chapéu de aba larga, colete de couro franjado e cartucheira na cintura. E vai contaminando tudo, inclusive uma certa espécie de "samba" oportunista que anda por aí.

E é por isso que vestimos, em parte, a fantasia do Conde. Caubói por caubói, ainda somos mais o Bob Nelson ("ô, tiro o leiiiiti!") que alegrava nossa infância e que acabou por gerar o Paulo Bob e outros bobs, e até um caubói crioulo, o cantor comediante Pato Preto.

Esses, pelo menos, eram engraçados. E, por não serem bobos, vendiam seu peixe sem abastardar a música brasileira, sem fazer mal a ninguém e nem escrever bobagem no jornal - veja-se o "indianista" lá em cima, na epígrafe. Porque, como dizia o saudoso Garça, negão bom de música e de filosofia, "otário com dinheiro é pior do que malandro aborrecido".




Sexta-feira, Dezembro 08, 2006

VOCÊ SABE O QUE É ZEIT GEIST?

Nunca viu, nunca leu e só ouviu falar? Pois é...

Dizem os filósofos da "mudernidade" que é uma expressão alemã, significando "espírito do tempo", formada pelos vocábulos zeit, tempo + geist, espírito ( lembra do poltergeist?). E que se teria popularizado pelo filósofo Hegel (1770 - 1831), segundo o qual um estado de consciência mais elevado só é atingido quando o indivíduo entra em sincronia com o espírito do seu tempo.

Exemplificando: o cara vem pela avenida Automóvel Clube, chega a Maria da Graça, toma cinco chopes no Amendoeira, aí quando sai é parado por uma falsa blitz que lhe leva o carro para o Jacarezinho. Então, aí, ele atinge um estado de consciência mais elevado! É isso? Não! É pior.

Esse "espírito do tempo" resume aquela história do "novo" e do "velho" que a gente vê nos anúncios de pasta de dente ("agora com hexaclorofeno"); de telefone celular ("com toques MP3 e bluetooth para conexão sem fio"); ou, ainda, de condomínio ("com piscina e deck molhado, spa, espaço zen, espaço gourmet, coffee shop, home office, lounge..."). O poder de atração dessas novidades é forte porque supõe aprimoramentos resultantes de experiências tecno-científicas. Entretanto, com a repetição dessas "cascatas" mercadológicas, o "novo", segundo o cientista social francês René Dumont (1904 - 2001), perde totalmente o respeito por si próprio, prostitui a necessidade e torna-se, assim como a prostituição é um fingimento do amor, um substituto da verdadeira necessidade.

É justificando-se através do zeit geist que certa mídia escova os dentes dos banguelas. Segundo ela, é preciso perceber a "tendência" antes que ela aconteça, viva e morra. Daí, as pautas de entretenimento dos cadernos de variedades dos grandes jornais e das revistas semanais, principalmente as dos domingos - onde preto e pobre em geral só entra naquelas matérias sobre a "inclusão social" que valoriza a "periferia".

Ora, ora... Incluir, a nosso modesto entender, é trazer para dentro do processo decisório; para o centro que dita os valores de pessoas, obras e objetos; para a aristocracia intelectual; e não perpetuar o "in" e o "out".

Mas não se assustem. Toda essa nossa pretensa erudição matinal, coisa de velho (ainda não são 6 horas, daqui a pouco passa!) é buscando, ainda uma vez, explicar o que se passa com o Samba e que as pessoas custam a entender. E é baseada numa inacreditável matéria de uns 30 segundos veiculada pelo Jornal Nacional no último 2 de dezembro, sobre o Dia do Samba.

O samba não é "tendência", todo mundo sabe: ele é PERMANÊNCIA, haja vista o Pelo Telefone ter completado 80 aninhos este ano - e ninguém se lembrou.

Aliás, mesmo só conseguindo uma matéria de uns 30 segundos, alguém se lembrou, sim, embora a matéria tenha sido desviada para a "Cidade do Samba", isto, sim, uma "tendência".

O jornalista que lembrou é nosso amigo e do Samba. Ele é daqueles que compreendem o gênero-mãe como componente fundamental da identidade e da diversidade cultural brasileira. Que há 80 anos emergiu da periferia para o centro irradiador da cultura musical nacional e não tem quem o derrube.

Nosso amigo sabe que o Zeit Geist é primo do Halloween. E que, como disse um filósofo africano, a Arte tem que ser a expressão profunda de um pensamento, de uma concepção de mundo, de uma cultura, ou seja, de um Humanismo na medida do verdadeiro Homem.

A esse querido e resistente amigo, o Samba agradece comovido.




Sexta-feira, Dezembro 01, 2006



O SAMBALANÇO SAÚDA O DIA DO SAMBA

Dias atrás ganhei em São Paulo, do músico Marco Mattoli dois CDs e um DVD. O conteúdo é "samba-rock", que aqui no Rio a rapaziada chama de "suíngue" - aportuguesamento do inglês swing, balançar.

No DVD, depoimentos e aparições de velhos conhecidos como Marku Ribas, Luiz Camilo, Boca Nervosa, Seu Jorge, Paula Lima; do inefável Ivo Meireles, dos indispensáveis herdeiros do grande cantor Wilson Simonal, e até do "tremendão" Erasmo Carlos, que um dia ia entrando no samba mas foi embora, ler seu Pasquim.

Pra quem teve a oportunidade de dançar samba ao som, principalmente, de Ed Lincoln ou apenas ouvir os que vieram depois, como os conjuntos Copa Sete, Devaneios, Charme e Chanel, foi uma viagem que merece reflexão, aliás já feita por nós, em outro lugar e momento.

É que, a partir da bossa-nova, instituiu-se uma espécie de "samba de concerto", que só se podia ouvir sentado, geralmente no chão, quase em postura de ioga, sem dançar, como nas disciplinadas e quase militares rodas de choro.

Mas o samba, que desde o pós-guerra, principalmente nas gafieiras, à base de trombone, sax e piston, já canibalizava elementos do be-bop e do boogie-woogie e os devolvia em um produto de alta voltagem rítmica, dançante até a raiz dos cílios anais, não se aquietou. E, depois de ter contaminado Denis Brean, Osvaldo Guilherme, Haroldo Barbosa, Geraldo Jacques, Geraldo Pereira e até Gordurinha, foi gerando o samba-jazz dos trios de piano, baixo e bateria; e chegou ao sambalanço de Pedrinho Rodrigues, Sílvio César, Orlann Divo, Sonia Delfino, Miltinho, Elza Soares, Luiz Reis etc, nas boates da Zona Sul, até parir Jorge Ben.

Esse Jorge, depois Benjor, é pois o mítico herói-fundador do samba-rock e do Clube do Balanço. Que tem hoje no Marco Mattoli e na Tereza Gama seus pontas-de-lança em São Paulo.

Sinceramente, meus camaradas: se vocês têm pelo samba a gamação que eu tenho, deixem de radicalismos e ouçam o Mattoli e seu Clube do Balanço. Aí, vocês vão ver o samba numa de suas formas mais fortes e competitivas: totalmente dançante, capaz de encarar pau a pau, nesse campo, a imbatível música afro-cubana. E de botar até o rythm'n' blues no chinelo, quanto mais esse pop-rockzinho michuruca que anda por aí.

Quem quiser música pra ficar ouvindo sentado (o que também é bom!) ligue na Rádio MEC. Ou vá ao Teatro Municipal. Quem estiver a fim de letras literariamente elaboradas, ouça, além dos mais antigos, o Paulinho Pinheiro, o Aldir, o Hermínio, o Luiz Carlos da Vila...

Mas quem, neste Dia Nacional do Samba, quiser dançar, segurando a dama pela cintura, dizendo uma lera no ouvido dela, cruzando, soltando, rodando, grudando de novo... não vá a rave, não, que rave dá raiva. O verdadeiro êxtase (e não ecstasy) é dançar um samba balançado, com a metaleira metendo bronca. Como o que faz o pessoal o pessoal do sambalanço, suíngue, samba-jazz ou samba-rock - ao qual o meu mais novo amigo de infância Marco Mattoli acaba de me reapresentar.

"Samba é isso, afro-mestiço, do jeito que negão nunca negou" - falou Alcione, que também é do ramo.