Quarta-feira, Novembro 29, 2006

DE LÍNGUAS NEGRAS E OUTROS PAPOS

Não! Não vamos falar das valas de esgoto que cortam, impávidas e impenitentes, o abandonado município aqui do Lote. Nossa conversa de hoje é sobre as línguas africanas, que muita gente insiste em chamar, com desprezo, de "dialetos". E o papo é o seguinte:

Quando, anos atrás, retiraram o Latim do currículo do ensino médio, muita gente apoiou, sob o argumento de que não fazia sentido o estudo de uma língua morta, mesmo que ela fosse formadora de várias outras línguas muito vivas. Agora, no auge das discussões sobre a Lei nº 10.639, a qual, entre outras medidas, obriga a inclusão de conteúdos sobre História e línguas africanas na grade curricular, a grita é parecida, principalmente com relação a este útimo ítem.

Mas "as línguas - diz uma declaração da UNESCO - não são apenas objeto de comunicação mas também reflexo de uma percepção de mundo: elas são veículos de sistemas de valores e expressões culturais e constituem fator determinante da identidade dos grupos e dos indivíduos".

No mesmo sentido, nossa irmã afro-cubana Mirta Fernández, no livro Oralidad y africanía em Cuba (Havana, 2005) escreve: "A história das palavras, das línguas e seu emprego é fundamental para a compreensão da essência social de um povo". Segundo o poeta e estadista martinicano Aimé Cesaire, citado por Mirta, "A língua é a casa do ser: o conhecimento e a compreensãode quem somos passa pela forma como falamos e pelas coisas que falamos".

Foi por isso que os colonialistas europeus, depois da partilha da África em 1885, compilaram tantos dicionários de línguas africanas - muitos deles com exemplares hoje aqui no Lote. Era preciso saber como os africanos falavam, para entender o que pensavam e, assim, poder dominá-los melhor!

A Lei nº 10.639, é evidente, não quer obrigar ninguém a falar iorubá, quimbundo, fon, quicongo, twi etc. Mesmo porque essas línguas não têm nada a ver com os MBAs que andam por aí nem vão "gerar emprego e renda", a não ser talvez para alguns especialistas. Mas a Lei quer mostrar, sim, como os muitos falantes de várias dessas línguas ajudaram a formar a identidade afro-mestiça do povo brasileiro.

Ela quer mostrar, por exemplo, que um "abadá", antes de ser uma camiseta de bloco era uma veste religiosa; que "axé" antes de ser rebolado era um conceito filosófico altamente refinado; que "quilombo" era muito mais que um valhacouto de escravos fugidos; que "ziquizira" é algo resultante da quebra de um tabu, de uma kijila (quizila); que Aruanda é uma alusão a Ruanda (a dos hútus e tútsis), lugar que, de tão bonito, era tido como morada dos deuses...

Sabendo dessas coisas, e constatando, por exemplo, como as religiões de matriz africana ainda conservam cânticos, poemas, saudações, rezas, invocações, formas de louvor, nomes iniciáticos, nomes de plantas e de comidas etc , expressos nas línguas de sua origem (cf. Mirta Fernández); sabendo isso, acho que a nos fortalecemos mais um pouco, ao ver que nossos mais-velhos, ao chegarem às Américas, não eram tão boçais quanto dizem por aí.


Diz aí!

Segunda-feira, Novembro 27, 2006



NEI LOPES ARREBATA PÚBLICO DO TEATRO GINÁSTICO
João Marcelo Pereira Carneiro Marinho Frias de Mesquita (especial*)


Numa performance avassaladora, urbana, contemporânea e totalmente acústica, com direito a público de pé, pedindo um bis insistente, o compositor e cantor Nei Lopes deixou, em seu show do último sábado, a platéia, de um Teatro Ginástico lotado, literalmente a seus pés. No esplendor de uma forma física admirável, num belo e básico cenário todo preto, o genial músico e intelectual, trajava um elegante blusão vermelho e branco - cores de sua escola de samba predileta, a Grande Rio. Ostentando a honrosa condição de o mais jovem dentre os sessentões da música popular brasileira e com o auxílio luxuoso da Banda Fina Flor (Ruy Quaresma, guitarra Irene e arranjos; Zé Luiz Maia, baixo Patrice; Alessandro Cardoso, ukelele; Jorge Gomes, drum section; e Naífe Simões, tambourine & congas), literalmente... arrasou.

No repertório, num formato predefinido, pérolas como a seminal "Senhora Liberdade"; um cross-over entre o jongo e o samba em "Irmão Café" e "Jongueiro Cumba"; e, numa mobilizante viagem sobre sua história como autor, "A Epopéia de Zumbi"; "Tempo de Glória", "Candongueiro"; "Tia Eulália na Xiba" e, no bis, "Coisa da Antiga" - que aliás, me fez derramar algumas discretas lágrimas, pois me lembrou muito minha babá, a Tina. Mas... deixa pra lá!

O certo é que, desamarrando o samba de quaisquer convenções, melódicas, harmônicas ou rítmicas, Lopes apropria-se de sonoridades inusitadas, dentro do melhor espírito da world-music, para o que contribui muito a levada da rhytmic session de sua banda. Nas strings, Ruy Quaresma, a figura mais controvérsa e divisória da história da brazilian guitar desde Quincas Laranjeira, esbanja suíngue e simpatia. E divide com Zé Luiz Maia, filho do saudoso Luizão e primo do vivíssimo rei Arthur, os groovies, riffs, shafts e high-hats (que eu não sei bem o que é, não, mas como todo mundo fala...) desse show essencial, que integrou a programação do Iº Festival de Música, Dança e Cultura Afro-Brasileiras, em celebração do aniversário natalício da Princesa Isabel.

Em janeiro, Nei Lopes entra em estúdio para a gravação do CD "Chutando o Balde", comemorativo daquele aniversário a partir do qual já poderá entrar no ônibus pela frente, furar fila de Banco e urinar na rodoviária sem pagar - ou seja, fazer e dizer o que bem entende, sem bronca. A crítica especializada aguarda, ansiosamente.

(*) O jornalista, que mora em Imbariê, na Baixada, viajou, de van, a convite da Fina Flor Produções.

Nota: A câmera do repórter foi roubada numa falsa blitz na Dutra, então ilustramos com esta foto de um outro show do Nei.


Diz aí!

Sexta-feira, Novembro 24, 2006



SOBRE UMA FOTO NA INTERNET

Pra quê clamar no deserto
Se ninguém vai escutar?
Deus escreve sempre certo
Mesmo em linha irregular:
Tem sempre um chinelo esperto
Pro inteligente calçar.

(NL)


Diz aí!

Terça-feira, Novembro 21, 2006



Entrevista aqui.


Diz aí!

Segunda-feira, Novembro 20, 2006



"TROFÉU CONSCIÊNCIA NEGRA"

O Lote, levando em conta os quesitos formação intelectual, integridade de caráter, respeitabilidade, consciência política e coerência de pensamento e atitudes, elegeu simbolicamente as seguintes personalidades, merecedoras, neste 20 de novembro, de um "troféu Consciência Negra":

ABDIAS NASCIMENTO, escritor, filósofo multiartista;
ÉDIO SILVA, jurista e ex-secretário de Justiça do Estado de São Paulo;
JOEL RUFINO DOS SANTOS, escritor, historiador;
JORGE DA SILVA, cientista político;
JUREMA WERNECK, médica, doutoranda em Comunição e Cultura;
MARCELO PAIXÃO, economista e professor;
MATILDE RIBEIRO, ministra de Estado, titular da SEPPIR;
MUNIZ SODRÉ, teórico da Comunicação, presidente da Fundação Biblioteca Nacional;
SUELI CARNEIRO, doutora em filosofia da Educação;
WÂNIA SANTANA, historiadora.
A estes 10 expoentes da Negritude, e a todos os outros, anônimos e conhecidos, nossos aplausos nesta data em que se celebra a passagem de Zumbi dos Palmares para o plano espiritual, de onde nos ilumina e impulsiona.


Diz aí!

Quinta-feira, Novembro 16, 2006

O PAIZÃO E OS "FILHOS" PRÓDIGOS

Sabe aquele paizão talentoso, experiente, que já comeu o pão que o diabo amassou e, hoje, realizado e na maturidade plena, tem à sua volta os filhos, a quem dá carinho, conforto e bons conselhos? Pois esté o Senhor Samba.

E sabe aquele filho bobinho mas metido a esperto; mal escolarizado mas metido a intelectual; que não sabe nada da vida mas diz que tem "atitude"? Que acha o pai chato e careta mas que, um dia, depois de ter dado mil cabeçadas na rua, volta pra casa dele em busca de carinho, conforto, bons conselhos e... um dinheirinho ? Pois este é o "Segmento Jovem" (pop) da música popular cantada em língua brasileira. O qual, diga-se de passagem, nem é filho do Samba, embora pense assim, pelo simples fato de o "Velho" (esse malandro espada), ter dado umas voltinhas com sua mãe, a Canção Americana, nos anos 50.

Você duvida? Pois então preste atenção na forçação de barra que as gravadoras múltis vêm fazendo, aproximando esse Pop do Samba, pra enganar os trouxas, dizendo que assim o samba "rejuvenesce".

Preste atenção e avalie, ilustre vistante do Meu Lote.

Quem é que sai ganhando nessa história? Hein, hein?

Eu acho que são os laboratórios de DNA...

Eu, hein!?

Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas!


Diz aí!

Segunda-feira, Novembro 13, 2006



HAVANA, HAVANA, HAVANA...

Voltando de Havana, onde estivemos oito dias, chegamos aqui e encontramos o Lote conflagrado. Lástima! Quanta conversa jogada fora, em nome da liberdade de expressão!

Quanta laranja podrinha, quanto limão azedo pelo chão!...

Mas, como diz nossa neta Larissa, irmã do Neinho, vamos falar de coisas agradáveis:

Voltamos de Havana, onde fomos pela terceira vez, para gozar da companhia daqueles "parentes" tão semelhantes a nós; para bailar ao som dos tambores batá num güemillere da pesada; para beber rum depois do almuerzo e fumar uns puros.

Fomos para saudar nossos orixás e correr os mercados populares, sentindo a exemplar dificuldade de se comprar um simples tubo de pasta de dente e assim condenar o desperdício que rola por aqui. Fomos para sentir os efeitos do bloqueio e também para ver, sin embargo, que, como disse alguém, dos milhões de crianças abandonadas que há hoje pelas ruas do mundo, nenhuma é cubana.

Fomos para conviver com um povo pobre mas altivo e intelectualizado, que é capaz de rir às gargalhadas, na sacanagem, sem, por supuesto, ficar dizendo ou escrevendo abobrinhas (calabacitas?), porque ninguém lá é analfabeto; um povo que é ruim com a bola no pé mas é catedrático no taco de beisebol e no xadrês, cujas estratégias são ensinadas até pela televisão.

Fomos para ouvir, de novo, a extremamente rica diversidade musical que define a identidade afro-mestiça do povo cubano: pois a diferença entre uma guaracha e o que a indústria multinacional chama de "salsa", Compay, é da água pro rum añejo!

Voltamos felizes, apesar de constatar as dificuldades! Felizes de ver como está bonita a Habana Vieja, o bairro histórico, com as obras de restauração. Felizes de beber da Bucanero Max, cerveja com gosto de cerveja; e da crua, servida à mesa, geladinha, em proveta de 5 litros, com serpentina e torneirinha. De ver como anda a assistência à infância e à velhice. De comer bastante mariquitas, maripositas, moros y cristianos, congris, bananas,bananas, bananas...E de apreciar as iaôs bonitinhas, às centenas, pelas ruas, todas de branco, inclusive chapéus de abas largas e sombrinhas, cumprindo seu período de retiro espiritual sem reclusão. Mas muito, muito diferentes das gineteras criadas e nutridas pelo perverso, digamos, "braço sexual" da indústria turística.

Entonces, neste Mês da Consciência Negra, foi muito bom voltar a San Cristóbal de Havana, com as bênçãos da Vírgen de La Caridad de El Cobre.

Ah! Íamos esquecendo: El Comandante passa bem, manda lembranças e diz que no dia 2 de dezembro (aqui, Dia do Samba) é que vai comemorar seu aniversário, com um tremendo desfile (militar, é claro!) pela Calle 23.


Diz aí!

Quinta-feira, Novembro 09, 2006

O NASCER DE UM POVO NOVO

René Depestre, poeta haitiano nascido em 1926, é um dos maiores pensadores da Negritude. Dele, recebi recentemente, numa generosa oferta de nosso amigo jornalista Carlos Andreazza, o livro Encore une mer à traverser (Paris, La Table Ronde, 2005), que é daqueles que a gente pega e dá vontade de traduzir tudo, para socializar com quem gosta e precisa. Foi assim que pinçamos um dos trechos iniciais e trazemos, traduzido, adaptado e intitulado, para os visitantes do Lote, neste mês da Consciência Negra. En voilá!

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A relação entre as contribuições africanas e o desenvolvimento cultural do ocidente cristão tem uma história; e suas vicissitudes são inseparáveis da própria aventura negreira. Os mitos caricaturais durante muito tempo mantiveram num gueto de significados mentirosos os povos da África subsaariana e seus filhos dispersos pelas Américas. Foi preciso chegar ao século XX para que o mundo compreendesse o papel da herança africana na história de suas culturas. Mesmo num país tão próximo da África como o Haiti, foi somente em 1928, graças ao célebre ensaio de Jean Price-Mars, Ainsi parla l' Oncle (i) que a opinião pública compreendeu que os escravos negros deportados para a América não foram somente mão-de-obra servil. Nas condições atrozes de sua escravidão, eles desempenharam um papel eminentemente cultural nos estabelecimentos coloniais do hemisfério ocidental.

Dentro desta perspectiva, havia até esse século uma divisão nítida na avaliação do papel desempenhado pelos legados culturais europeus e africanos na formação histórica das sociedades do Novo Mundo. A Europa atribuía a si o conjunto de atividades tidas como nobres: a vida espiritual, o papel do Estado e da sociedade civil, os aspectos jurídicos, políticos e econômicos do desenvolvimento das colônias americanas, bem como as altas manifestações intelectuais e artísticas (ii) . Assim, quando dos primeiros inventários do "patrimônio colonial", reconhecia-se a contribuição das culturas africanas somente nas tradições orais, nas crenças religiosas, na música, na dança, no teatro popular, na culinária, no carnaval, enfim nos diversos aspectos disso que se considera como "folclore".

As escolas de antropologia, no estudo das culturas das Américas Negras, começaram por privilegiar a contribuição européia, apresentada invariavelmente como o modelo ideal de referência, como a medida por excelência de todo o fermento histórico de cultura, civilidade e civilização.

Um eurocentrismo de fundo postulou uma identidade de direito divino entre o conceito de "branco" e o ser humano universal. As múltiplas expressões da criatividade dos escravos negros nas fazendas foram de antemão consideradas como um amontoado de "africanismos", acidentalmente enquistados no organismo que o continente americano manteria imaculado graças às suas origens européias. Dentro dessa ótica "racial", durante muito tempo deixou-se de enxergar a influência que as diversas culturas africanas exerceram, durante três séculos, não somente na evolução da música, da dança, das tradições religiosas mas também, de modo não menos criativo, sobre as mentalidades americanas e sobre o conjunto de ideologias culturais que enriqueceram, no Ocidente, a história, o espírito e a sensibilidade dos indivíduos.

Na América, escreveu-se muito sobre os processos de aculturação dos descendentes de africanos pelos valores, sentidos, símbolos e normas de conduta dos europeus. Fez-se acreditar que o estilo de vida e de pensamento próprio da Europa (entende-se comumente por "Europa" a "raça branca"), teria sido objeto de um esforço desastrado, doloroso, caricatural mesmo, de reinterpretação pelos negros.

Isso levou a acreditar-se na existência de uma "mentalidade negra", sui generis, que nada conseguiria mudar, irredutível ao progresso, imutável em suas relações com o trabalho, o direito, a religião, o sagrado, a liberdade, enfim com o conjunto das manifestações de civilidade ou de civilização que a Europa propunha ao mundo.

A realidade é completamente diversa. Uma vez estabelecidos os contatos civilizatórios nas sociedades coloniais das América, o fenômeno de crioulização (iii) mobilizou profundamente as forças criativas tanto de descendentes de europeus como de africanos. Enquanto os colonos brancos europeizavam o espírito e o corpo dos escravos negros, esses, por sua vez, faziam tudo para africanizar a consciência e a sensibilidade de seus proprietários. Mas, longe de dar nascimento a uma "Europa americana", continental e insular, esse movimento de interfecundação estabeleceu um intercâmbio de identidades: heranças européias e africanas, submetidas a um metabolismo americano, engendraram modos de sentir, de sonhar, de agir, modos de ser, enfim, absolutamente originais.

Até então, no Ocidente, etnias e culturas não se misturavam. Havia um nítida dissociação de mentalidades, tanto entre as etnias originárias da Europa quanto entre as afro-descendentes. Até que, nas Américas, as contribuições culturais herdadas dos dois continentes - estreitamente associadas às do mundo indígena pré-colombiano - começaram a ser intensamente crioulizadas pela escravidão rural e urbana.

Assim, os negros das Américas não são nem neo-africanos nem neo-europeus. Trata-se de um povo novo, saído direto dos estabelecimentos coloniais. No espaço geográfico que se estende dos Estados Unidos ao sul do Brasil, de uma América a outra, todo um mundo nasceu da mistura, étnica e cultural, que marcou a história dos contatos civilizatórios gerados, em todo o planeta, pela expansão européia.

(i) Esse livro (cujo título poderia ser traduzido como "Assim falou, Meu Tio") evoca e enaltece tradições afro-haitianas, num momento em que a literatura nacional ainda era, quase toda ela, calcada no modelo francês (NL).

(Ii) A título de comparação, veja-se que, na África colonial, principalmente na portuguesa, africanos considerados "assimilados", i.e., integrados, por seus novos hábitos e costumes, à civilização européia, gozavam de estatuto jurídico privilegiado em relação aos que permaneciam ligados às suas culturas ancestrais (NL).

(iiI) "Crioulo": nascido nas Américas; "crioulização": fenômeno através do qual se engendra, a partir de matrizes européias ou africanas, o nascimento de um produto cultural puramente americano (NL).


Diz aí!

Sexta-feira, Novembro 03, 2006

DE FATO, PRETOS E PARDOS SÃO NEGROS.
E de direito também.


Revendo aqui, no maravilhoso livro Encore une mer à traverser, do poeta haitiano René Depestre, as razões da derrocada de seu país depois de ter-se tornado, em 1804, a segunda nação independente das Américas e a primeira república nascida de uma rebelião de escravos - aliás, foi a única vitoriosa em toda a história da escravidão africana -, somos forçados a voltar a um tema complexo: o da moderna acepção do vocábulo "negro" no contexto da luta contra a exclusão.

"No Haiti - escreve Depestre - o antagonismo entre pretos e mulatos, que serviu de apoio a Papa Doc Duvalier ("em nome de uma africanidade ilusória, de um 'gobinismo* ao contrário' "), tem sua raízes históricas, sua base, na sociedade colonial. Os mulatos, por força de seus laços de sangue com os colonos brancos, formavam, nas fazendas, um grupo privilegiado em relação à massa de escravos pretos. Quando de seu nascimento, eles se tornavam legalmente affranchis (libertos) ou "pessoas de cor" livres, situação jurídica que lhes permitia desempenhar, na idade adulta, um papel às vezes dinâmico na economia da colônia. Daí a querer ser cidadãos de modo integral, e a querer compartilhar o poder político com os colonos brancos, era um passo, que eles pretendiam um dia resolutamente dar. Os brancos (grandes e pequenos) opuseram-se fortemente a essa aspiração. Então as famílias mulatas aliaram-se politicamente aos pretos que, por sua vez, lutavam por abolir a escravatura e por uma revolução social que libertasse todos os oprimidos, independente da cor da pele. Pretos e mulatos, assim unidos, acabaram por formar um exército de libertação nacional que, em 1804, expulsou os colonos franceses da ilha de São Domingos e fez do Haiti o país onde pela primeira vez a Negritude se colocou de pé.

"Depois da proclamação da independência - arremata Depestre - as peripécias complexas da reforma agrária puseram em choque as duas forças sociais que tinham acabado de vencer, juntas, a guerra de libertação nacional. Os mulatos ricos arvoraram-se em únicos herdeiros dos antigos proprietários brancos, muitas vezes exibindo falsos títulos de propriedade. Mas a facção dominante, de oficiais pretos do exército nativo, não se deixou levar. E esse drama de origem agrária domina há dois séculos a vida haitiana".

Foi para eliminar antagonismos desse tipo que, no Brasil - como já escrevemos outras vezes - o movimento social dos negros cunhou o termo "afro-descendente", nele reunindo numa única adjetivação, a de "negro", pretos, mulatos e outras classificações de base étnica com que se distinguem as pessoas outrora chamadas "de cor". E assim nós, para evitar dúvida, - repetimos - definimos como "negro" todo descendente de negros africanos, em qualquer grau de mestiçagem, desde que essa origem possa ser identificada historicamente e, no caso de pessoas vivas, seja reconhecida ou autodeclarada pela pessoa objeto da classificação.

(*) - Alusão a Gobineau, autor do Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (1855).


Diz aí!