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Terça-feira, Outubro 31, 2006
CONSCIÊNCIA NEGRA Consciência Negra é saber que, no Brasil de hoje, não existe ainda igualdade total entre os descendentes dos africanos que para cá vieram como escravos e os daqueles que vieram da Europa e da Ásia, como colonizadores e depois como imigrantes. Estes, já tiveram representantes em todos os escalões dos três poderes da República, inclusive na Presidência. E o povo negro, não! Consciência Negra é compreender que isso acontece não por incapacidade intelectual ou de trabalho do povo negro e sim pelo que aconteceu após o fim da escravidão. Os ex-escravos foram "jogados fora", sem terra para plantar, sem emprego, sem teto - a não ser aqueles que permaneceram com seus antigos donos. E aqueles que já não eram mais ou não tinham sido escravos e ganhavam sua vida por conta própria foram perdendo seus lugares, até nas ocupações mais humildes, para os imigrantes que aqui chegavam. Consciência Negra é entender que desde antes da escravidão criou-se uma literatura através da qual se infundiu na cabeça do brasileiro uma impressão irreal sobre o povo negro como um todo. De que nós somos feios, sujos e pouco inteligentes; que só queremos saber de festa e divertimento; que nossas religiões são infantis; que só somos bons para pegar no pesado, praticar esportes, fazer música e praticar sexo. E muitos negros acreditaram nisso. Consciência Negra é aprender como negar isso tudo: estudando a História da África, desde o Egito, passando pelos grandes impérios oeste-africanos da Idade Média; tomando conhecimento de que as concepções religiosas africanas têm um profundo fundamento filosófico, como foi inclusive comprovados por padres europeus que as estudaram; Consciência Negra é saber que o povo negro não resistiu passivamente à escravidão e usou de todos os meios ao seu alcance para se libertar. É saber também que houve negros que lucraram com o tráfico de escravos, a partir do século 17; mas que, essa modalidade de escravidão, foram os europeus que levaram para a África; Consciência Negra é, hoje, perceber que os que lutam contra a adoção de políticas de ação afirmativa contra o racismo e a exclusão do povo negro (como a chamada "política de cotas") são pessoas que não querem perder os privilégios de que desfrutam, com o possível ingresso em seus "reinados" (caso de alguns professores universitários que fizeram carreira estudando o "problema do negro") de concorrentes até mais bem preparados, pela própria vivência do problema. Consciência Negra é, enfim, entender que o conceito de "negro" é hoje um conceito político, que engloba pretos, pardos, mulatos (menos ou mais claros) desde que se aceitem como tal e estejam dispostos a dar um basta no que hoje se vê nas telenovelas, nas profissões mais lucrativas, nas gerências empresariais, nos altos escalões de decisão, nos espaços de prestígio e de formação de opinião, nos locais onde se concentra a renda nacional. E o que se vê nesses lugares e situações é um Brasil que não corresponde à realidade de sua população, na qual mais de 60% são descendentes, próximos ou não, dos africanos aqui escravizados. Quinta-feira, Outubro 26, 2006
Mês da Consciência Negra UM POEMA À IGUALDADE God save you, Mãe inglesa Cujo ventre abençoado Vem, no momento aprazado Por as cartas sobre a mesa Ou, dando ainda mais clareza, Depor na mesa do parto O exemplo, nu, cru e farto De que a cor da pele humana Vale apenas quando irmana Na paz, na copa ou no quarto. Quarta-feira, Outubro 25, 2006
VINTE CONTOS E UM MILHÃO DE AMIGOS Sem bombar, sem presepadas, sem folclore, rolou bonito o lançamento do "Vinte", com a Devassa correndo honesta e sem exagero. A ABL representada pelo acadêmico Domício Proença; o telejornalismo bom da Globo pelo Chico Pinheiro; o setor de best-sellers e contos máximos por Ruy Castro e sua Heloísa Seixas; a ala do romance histórico pelo grande Joel Rufino dos Santos; o samba por Walter Alfaiate e Tantinho da Mangueira; a MPB (no bom sentido) por Fátima Guedes; a ala da pedagogia engajada, por Marcelo de Sá Corrêa; a Rádio Nacional pelo novo diretor artístico Sirlan de Jesus; a boa magistratura pelo juiz Antonio Carlos Torres, da 4a. Vara Empresarial; o ministério público pelo procurador Mário Tobias; o Instituto dos Advogados, por seu presidente Celso Soares, só gente boa... E o Velhote lá, " fromoso", autografando todas e recebendo o abraço de muitos dos seus poucos mas bons amigos. Como Ifá mandou. LULA DE NOVO PELA AFIRMAÇÃO DAS EXPRESSÕES CULTURAIS AFRO-BRASILEIRAS Nós, artistas e produtores culturais afro-brasileiros manifestamos nosso apoio à reeleição de Luiz Inácio LULA da Silva para Presidente do Brasil. No próximo dia 29 de outubro, vamos votar em Lula porque é preciso garantir o aprofundamento de debates e iniciativas que apontem para um projeto cultural comprometido com a preservação, a promoção e a divulgação da cultura afro-brasileira, nos termos do art. 125 da Constituição Federal; Vamos votar em Lula porque é urgente assegurar políticas públicas que reconheçam as manifestações da cultura afro-brasileira, em todas as formas de arte e expressão - da religião à dança - como componentes fundamentais e distintivos da identidade brasileira. Vamos votar em Lula porque é imperativo ampliar nossos espaços através das diversas formas de expressão artística que, ao longo de séculos, têm fortalecido a auto-estima do povo negro, sem perder de vista o caráter multirracial da sociedade brasileira. Vamos votar em Lula porque é necessário promover uma articulação institucional que finalmente democratize os apoios, incentivos e patrocínios estatais que, historicamente, têm subestimado e excluído nossas ações no campo da cultura. Vamos votar em Lula porque este é nosso ponto de partida para um projeto mais democrático de sociedade, capaz de desmascarar o racismo, enfrentá-lo cara a cara e superar as desigualdades que ele monstruosamente engendra. Um projeto que jogue por terra a insensibilidade e a ganância dos setores da elite dominante, que têm nos excluído das estruturas de poder e riqueza da sociedade. Um projeto que nos possibilite, enfim, cumprir nossa responsabilidade histórica. No próximo dia 29 de outubro, vamos votar em Lula para pavimentar o caminho que há de nos levar, mulheres e homens negros, a sermos reconhecidos não só como protagonistas mas também como livres condutores de nosso próprio destino. Outubro de 2006 PS: O cidadão Nei Lopes colaborou na redação deste texto. Principalmente pela continuidade da SEPPIR, criada no Governo Lula; pelo incremento que ganhou a então esquecida Fundação Cultural Palmares; e pelo trabalho da equipe que no Ministério da Educação vêm concretizando, sem alarde, políticas educacionais em favor da juventude afro-descendente. Para que o neoliberalismo não barre, mais uma vez, o avanço da luta anti-racista no Brasil. Quarta-feira, Outubro 18, 2006
FLAGRANTE CARIOCA Veja, ilustre passageiro Do Metrô, bem ao seu lado: A moça lendo, primeiro, "20 Contos e uns trocados". Diz aí! Segunda-feira, Outubro 16, 2006
NEI LOPES, CIDADÃO DE SEROPÉDICA Nosso companheiro Nei Lopes acaba de ser agraciado com o título de "Cidadão Seropedicense" conferido pela Câmara Municipal de Seropédica, RJ, por iniciativa do vereador Oscar Goulart, na conformidade do decreto legislativo nº 018/2003. A solenidade de entrega ocorreu no último dia 12 de outubro. E, na oportunidade, o homenageado fez chegar à Mesa Diretora da sessão a seguinte mensagem: "Sirvo-me da pessoa de meu particular amigo Cléber do Nascimento Santos para, em meu nome e de minha família, agradecer a homenagem que me é hoje prestada e dizer o seguinte: "Quando há 21 anos, em 1985, cheguei a Seropédica, trazido por meus orixás e ancestrais, em busca de paz e realização, não sabia que iria aqui permanecer para sempre. "Mas a cordialidade que aqui encontrei, as amizades sinceras que fiz e o clima simples mas honesto e trabalhador que aqui senti, me fizeram adotar o antigo distrito, depois município, como meu lugar. "Nasci e me criei no subúrbio carioca de Irajá e vivi grandes momentos de minha vida na região de Vila Isabel. Mas reconheço que minha realização e o reconhecimento de meu trabalho se deram a partir de Seropédica. "É aqui que produzo, que entro em contato com as Forças Superiores que me guiam, e que realizo a obra que tem dado sentido à minha vida. "Agradeço, pois, a Seropédica e ao seu povo, na pessoa do vereador Oscar Goulart e dos amigos aqui presentes esta homenagem. Na certeza de que meus orixás e ancestrais estenderão também seu manto protetor sobre esta terra que me acolheu e homenageia. Para que Seropédica, sem distinção de "raças" ou convicções, de origens ou de crenças, trilhe, também o caminho de Paz, Democracia, Segurança e Prosperidade que seu povo, principalmente aquele mais carente e sofrido, tanto merece. Muito obrigado!" ** N.R.- Seropédica, localidade originária de um estabelecimento produtor de seda criado no Segundo Reinado e antigo distrito de Itaguaí, ganhou autonomia municipal em 1997. Sediando hoje importantes pólos de difusão do conhecimento científico, como o campus da UFRRJ, a "Universidade Rural", além de seções da EMBRAPA e do IBAMA, é um município bonito e relativamente tranqüilo. Lamenta-se nele, apenas, a discriminação contra manifestações da cultura afro-brasileira, que estariam sendo praticadas, por razões tidas como religiosas, por algumas escolas da rede pública, em choque frontal com o art. 215 da Constituição Federal. Sábado, Outubro 14, 2006
Diz
aí!
Segunda-feira, Outubro 09, 2006
CIDADANIA DESAFINADA Até a morte trágica do presidente Getúlio Vargas, em 1954, os ginásios da rede pública no Rio adotavam, todos ou quase todos, uma orientação profissionalizante e em horário integral. Isto quer dizer que, ao lado das matérias convencionais, das áreas de ciências exatas e humanas, nós estudantes tínhamos acesso ao aprendizado de técnicas como tornearia, mecânica, marcenaria, fundição, forja, motores, eletrotécnica etc. Com a reforma educacional que sucedeu à era getuliana, isso ficou restrito à antiga Escola Técnica Nacional. E matérias equivocadamente ditas inúteis, como desenho artístico, teoria musical, francês e latim, foram saindo do currículo das escolas públicas. A década de 1980 nos trouxe noções teóricas e terrivelmente práticas sobre fenômenos como violência urbana, exclusão social, cultura de massas e comunidades de periferia. E aí nasceram entidades ocupadas em "resgatar a cidadania" daqueles excluídos das benesses do "milagre brasileiro", nascido das políticas públicas adotadas a partir da queda do trabalhismo em 1964. Só que esse "resgate" não tem passado pela formação de técnicos adequadamente preparados para tornarem-se mais tarde, como ocorria até 1954, profissionais de nível superior nas áreas de sua escolha, e até mesmo artistas - como escultores, gravadores, ilustradores etc. As entidades "de direitos humanos", hoje, têm foco preferencial no mundo do entretenimento, do lazer e do charme - teatro, música, dança, esporte, moda, cinema, fotografia etc. Como se as atividades da área eminentemente técnica não fossem dignas; e como nossa sociedade precisasse mais de bailarinos, modelos, manequins, capoeiristas e percussionistas do que de mecânicos, eletricistas, pintores, marceneiros etc. Achamos por bem escrever este texto motivados por recente matéria de jornal que exalta a talvez mais apoiada e aplaudida dessas entidades no Rio, cujo braço musical acaba de lançar um CD comemorativo. Porque a matéria, em um box escrito pelo jornalista Mário Marques, toca numa ferida exposta. "O grupo - diz Marques - tornou-se importante instrumento cultural para meninos e meninas em fuga da miséria" e, por esse lado, merece todos os elogios. "Pela música, não". - acusa o jornalista - "No palco e em disco" o grupo "com canções ruins", "percussões esquizofrênicas", "vocais gritados", é simplesmente "risível" (Jornal do Brasil, 07.10.06). Não conhecemos o trabalho objeto da contundente crítica. Mas, a partir de outros exemplos conhecidos, podemos afirmar que, na era getuliana, as escolas a que nos referimos (Visconde de Mauá, João Alfredo, Ferreira Viana, Souza Aguiar, Visconde Cairu etc) tinham bandas de música. Bandas e não "bandas", como hoje se diz de qualquer conjunto formado por mais de dois instrumentistas. Eram bandas de verdade. Das quais saíram muitos dos grandes músicos, em geral negros e pobres, que fizeram a época áurea da música orquestral popular brasileira. Sexta-feira, Outubro 06, 2006
O ÚLTIMO PAGODE DO ANDINHO O negócio do Anderson, "Andinho" pra nós, mais chegados, era tocar tantan nos pagodes. Não era dos piores mas também não era nenhum Neoci nem Sereno nem Marcelinho. Mas não perdia um: Ideal, Ponto Chic, Mesquita, Juarez, Costela Abafada do 32... E onde chegava, no seu modesto Audi A3 de 4 cilindros, turbocompressor e intercooler, era sempre saudado, e saudava efusivamente: - E aí, sangue bão?! O problema é que o pai do Andinho era um dos próceres, um dos líderes, um dos caciques (erramos?) da política da Baixada. E queria porque queria que o filho, único, fosse o continuador de uma dinastia de beneméritos que vinha do bisavô, desde o tempo do velho Amaral Peixoto. Mas Andinho queria era tantan, Rio Sampa, artes marciais, Via Show, Grande Rio, uma latinha gelada, gatinhas, cachorras e um red-bull de vez em quando. E talvez por isso, com 19 anos de idade, ainda não tinha terminado o segundo grau. Resumindo a ópera, Andinho não queria nada com a "Hora do Brasil". Pelo que, ano passado, seu pai tomou a drástica decisão: - Vou te candidatar a deputado estadual, seu vagabundo! Dito e feito. E, aí, entabulados os necessários conchavos, negociações, coligações e alianças, iniciada a campanha eleitoral, lá estava a cara do Andinho - triste, acabrunhado, abatido - em centenas de outdoors - nos quais só se lia "Andinho" e o número do candidato - espalhados pela Baixada, pela Zona Oeste e até por boa (?) parte da Costa Verde. Ontem, encontrei o Andinho no "Treyller da Marly". Ainda mais triste, acabrunhado e abatido. Era seu último pagode, o de despedida, pois acabara de ser o mais votado do PCAPA, Partido dos Correligionários e Amigos do Pai do Andinho, vulgo "Pe-ce-a-pá", com 30 e tantos mil votos. Foi aí que ele me contou toda a história, do esporro do pai à eleição. E me falou, quase chorando: - Já pensou? Ter que acordar cedo todo dia e enfrentar engarrafamento na Dutra, tiroteio na Linha Vermelha... e ainda por cima de paletó e gravata. Sacanagem do meu pai! ... Segunda-feira, Outubro 02, 2006
UM LIVRINHO REALMENTE TERRÍVEL Não! Calma! Não vou falar de nenhum livro que anda aí anunciado pra virar best-seller, não! Eu, hein!? "Quem refresca bico de pato é lama" - já dizia minha Tia Sinhá. E "beira de penico não é cocada!", como repetia Vó Maria. Quero falar de um livrinho de bolso, com apenas 121 páginas, definido como "terrível" no prefácio do mestre Alberto Costa e Silva, historiador que aprendeu, in loco, a amar a África, seus filhos, netos e bisnetos, mesmo os "misturados". O livro chama-se "Cinqüenta dias a bordo de um navio negreiro", foi escrito pelo reverendo inglês Pascoe Greenfell Hill, narra acontecimentos passados a bordo de um navio negreiro capturado quando vinha de Moçambique para o Brasil, em 1842, já depois de proibido o tráfico atlântico. Nele, a gente lê coisas assim: "A tempestade aproximou-se, e eu e outros que estavam deitados no tombadilho recebemos o aviso através de pesadas gotas de chuva. A isso se seguiu uma cena de horror que é impossível descrever". A cena descrita é a de cerca de 500 escravos se atropelando em busca de abrigo no exíguo porão do navio, o qual de tão quente emanava fumaça. Empurra daqui, pisa da li, o resultado foi esse: "A previsão do espanhol sobre ontem à noite foi tristemente verificada hoje de manhã. Cinqüenta e quatro corpos esmagados e lacerados foram içados do tombadilho dos escravos trazidos para o passadiço e jogados ao mar." Brabeza, esse tipo de cena se repete diversas vezes ao longo do livro. E o que é pior: vitimando dezenas de crianças e jovens mulheres indefesas. Estamos lendo e ainda não chegamos ao fim do livrinho. Mas podemos garantir que é uma das coisas mais brabas que já lemos até hoje. Brabas como as que, por razões semelhantes (cobiça, busca de lucros fáceis, desumanidade, arrogância, complexo de superioridade etc.) ainda se repetem por aí, vez por outra, neste país grande, que não é de bolso, nem é de papel. Mas que é racista - é sim -, não temos a mínima dúvida! |
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