Terça-feira, Setembro 26, 2006

A "RAÇA AMALDIÇOADA DE CAM" E AS ELEIÇÕES DE DOMINGO

Às vésperas de novas eleições, com todo o respeito que nos merecem as diversas correntes de pensamento e na estrita observância das normas constitucionais, servimo-nos deste espaço para produzir e divulgar a seguinte reflexão.

Partimos do princípio de que a Bíblia é um importante conjunto de livros eminentemente étnicos, de interesse histórico, jurídico e moral dirigido aos povos judaicos e descendentes. A sacralização desses livros obedeceu a objetivos muito mais políticos que filosóficos, como não aconteceu, por exemplo, com os ensinamentos hinduístas, budistas, taoístas e os ensinamentos não escritos das religiões africanas tradicionais.

Em ambientes onde o pensamento judaico-cristão foi imposto, às vezes de forma violenta, essa sacralização foi admitida pelos oprimidos através de sincretismos e apropriações, como ocorreu, nos Estados Unidos, nas chamadas "igrejas etiópicas" a partir do século 19. Aí, a apropriação que afrodescendentes fizeram de alguns textos bíblicos - por exemplo simbolizando o rio Jordão no Mississipi, Moisés em alguns de seus líderes, o cativeiro egípcio dos hebreus ao que eles próprios amargavam no Novo Mundo -; essa apropriação foi, a nosso ver, puramente estratégica, em sua sincretização.

Hoje, nas periferias das grandes cidades brasileiras, as massas miseráveis, majoritariamente compostas por negros de todos os matizes, anestesiadas principalmente pelo analfabetismo funcional, pelas telenovelas e pelo telejornalismo manipulado ou pelas técnicas de comunicação empregadas por "bispos", "missionários" etc.; essas massas são absolutamente incapazes de trazer o Evangelho para sua realidade, como o fizeram os antigos afro-americanos (inclusive o negro William Seymour, fundador do novo pentecostalismo), em cujas igrejas até hoje se dança, canta, batuca e até se recebe o "Espírito Santo", em transes espetaculares, no mais puro estilo africano.

No Brasil de hoje, amestradas nos limites do fundamentalismo mais emburrecedor, as massas negras, são, no geral, incapazes de refletir sobre sua ancestralidade e sobre os fundamentos de sua opressão. E muito menos de entender que os livros do Velho Testamento , com seus adultérios, roubos, homicídios, sodomizações e estupros são nada mais que livros históricos. Que inclusive legitimam o racismo contra as "raças, escuras", através principalmente de um episódio que vale a pena aqui recordar.

Nele, o patriarca Noé se embriaga ao experimentar pela primeira vez o vinho e adormece nu. Após isso, um de seus três filhos, Cam, o vê assim despido, acha graça e vai contar o que viu aos irmãos. Estes, pegam um véu, vão até seu pai e o cobrem, sem que ele os veja. Mas depois narram-lhe a zombaria de que fora objeto.

Noé fica furioso e decide amaldiçoar Cam. Mas Cam já fora abençoado. Então, o patriarca descarrega toda a sua cólera sobre seus futuros descendentes, condenado-os a serem escravos de seus parentes. É então que, após o Dilúvio, no assentamento das populações humanas sobre a Terra a partir dos três filhos de Noé, aos descendentes de Sem (os semitas) cabem as margens orientais e meridionais do Mediterrâneo; aos de Jafé (jafetitas), as margens setentrionais e ocidentais desse mar; e aos de Cam (camitas) as terras desconhecidas da África, até sua extensão mais longínqua.

Os filhos de Cam tornam-se, então, segundo a Bíblia, a origem de todas as populações negras. De onde se conclui: os negros são os herdeiros naturais da escravidão. Daí, a escravidão negra ter sido perfeitamente legitimada e o tráfico de escravos africanos aparecer, desde então, como um meio providencial de escravização.

Versão evidentemente lendária mas tendo, como todo mito, seu mitologema, isto é, um fato real que o originou (e os textos bíblicos foram escritos muito posteriormente aos acontecimentos que narra), essa passagem do Gênesis é a fonte primordial do racismo anti-negro ainda imperante no mundo.

A interpretação literal da Bíblia, como é feita pelas seitas barulhentas que pululam aqui pela vizinhança - essas que demonizam as religiões afro, lutam contra a cultura afro-brasileira e privilegiam o "louvor gospel", de claro interesse da indústria fonográfica pop, em seus templos, televisões, gravadoras e até em absurdos cultos realizados nos meios de transporte público; essa interpretação fundamentalista, vê então os negros como a "raça amaldiçoada de Cam".

Por isso, nas eleições de domingo, nós aqui no Lote, abençoados que somos, não votaremos em nenhum desses "pastores", "ministros" ou "missionários" neopentecostais, fundamentalistas e criacionistas que andam por aí nos amaldiçoando e enchendo o saco - o nosso, de aborrecimento; e o deles, de dinheiro.

E você?


Diz aí!

Quinta-feira, Setembro 21, 2006



UM CERTO SENHOR ALCIDES
(Da série "Os que fizeram minha cabeça")


Hoje em dia ninguém mais bota num filho o nome "Alcides". Mesmo quando se sabe que Alcides, variante de Alceu, vem do grego e quer dizer "forte", "vigoroso". Mas se a gente grande soubesse, certamente que haveria muito menos Wellersons, Maicons ou Harrisonlenons e muito mais Alcides por aí.

Mas esse papo de cerca-lourenço é pra contar uma bela história. Que começa num dia de São Jorge, no finalzinho dos anos 60, em Vista Alegre, na casa do grande festeiro Geraldo Careca - um casarão que ficou muito tempo inacabado, numa rua então esburacada e deserta, lá no alto, mas que foi palco de memoráveis pagodes. E palco mesmo, porque, naquela tarde - dia de semana e os devotos todos lá, a cerva rolando aos baldes - depois da "parte espiritual" (lembra, compadre Celso?) e da comidaria nordestina preparada pela saudosa pernambucana Tia Veva, mãe do anfitrião, este, ao pé da escada que dava para a laje, anunciava o início do show.

Palmas e tal, sob os acordes dos violões de Carlão Elegante e Everaldo Cruz (mais tarde também meus parceiros), o cavaquinho do Jones do Cartório, além das ricas percussões de Baianinho da Cuíca e Samuel, eis que, uniformemente vestidos, nas cores rubro-amarelas dos Unidos de Lucas, vêm descendo a escada e cantando bonito o seu prefixo, de autoria de Délcio Carvalho, os integrantes do grande conjunto Lá Vai Samba.

Mais palmas, vibração, delírio, Carlão anuncia: "- E agora, então, com vocês..."

Só pelo jeito teatralmente correto de o cara descer a escada, já cantando também, a gente já sacou que se tratava de um grande artista. Que já cantava no Opinião; no Belvedere do Méier e em bocadas da zona sul, como nas boates Sucata, Degrau, Colt 45 e Cassino Royale.

Nascia ali minha amizade e minha grande admiração pelo cidadão Alcides Aluízio Machado, sambista da noite e, de dia, funcionário exemplar do Tribunal Marítimo. Amizade que, no início, era coisa de padrinho pra afilhado, ele me apresentando como "grande promessa", na roda do Clube Marabu, na Piedade, e eu, embrameado de emoção, esquecendo a letra do meu próprio samba e ganhando um merecido esculacho do mais velho. E que hoje é parceria de compadres, carinhosa, embora não tão próxima e constante como ambos gostaríamos.

Aluízio Machado, mais tarde eu soube, nasceu em Campos dos Goitacazes em 1939 mas veio para o Rio ainda menino. Tanto que já aos 14 anos "saía" no Império Serrano, de onde foi, mais tarde, para a Imperatriz, sair como passista e mestre-sala.

Mas a escola de Ramos foi apenas uma rápida "pulada de cerca", um "sarro" por cima da roupa, como foi, aí um pouquinho mais séria, sua relação com a Vila Isabel, nos anos 70 - época em que era anunciado como o "Vice-Rei da Vila", já que o Rei, de fato e de direito, todos nós sabíamos e sabemos quem era e ainda é.

Acontece que o Império tocou "reunir". E aí eis o filho pródigo de volta para, na Ala de Compositores, cumprir uma trajetória fulgurante. Tanto que, de 1980 a 1990, dos onze sambas com que a escola desfilou, só quatro não levaram sua assinatura. E, de lá pra cá, foram mais outros tantos.

E tudo começou com o antológico Bumbum praticumbum prugurundum, em 1982, em parceria com o indescritível Beto Sem Braço, numa ligação que vinha lá da Vila. Ligação estreita essa! Que deu ensejo, inclusive, a um dos versos mais geniais da história do partido-alto, que vai aqui reproduzido de memória:

"Sou Aluízio Machado / comigo não tem embaraço / Eu sou com todo o respeito / o braço direito do Beto Sem Braço".

Entretanto, este é o Aluízio que todo mundo lembra e gosta. Porque tem um outro, que os militares de 68 detestavam. Pois, embora "sambista de morro" futucava o "Brasil, ame-o ou deixe-o" com versos assim:

"Não eu não saio daqui / pois aqui é meu torrão / (...) Aqui minha mãe me pariu / minha mãe pariu meu irmão..."

Ou assim:

"Quem tem muito quer ter mais / Quem não tem resta sonhar / Quem não estudou é escravo / De quem pode estudar / Os direitos humanos são iguais / Mas existem as classes sociais / Eu não sou de guerra quero paz / Quero trabalhar pra poder ter / É tendo que a gente pode dar / Eu quero ser livre e liberar..."

Viram só? Quem é que disse que a vanguarda do protesto na música popular brasileira foi do roquenrol? E mesmo "protestando", o nosso Aluízio ainda acabou vencedor do programa "A Grande Chance" do udenista Flávio Cavalcanti, em 1974, na TV Tupi, de onde, indiferente aos cães de fila, seguiu em frente, com o currículo cada vez mais enriquecido.

Em 1981, no LP "Na fonte", Beth Carvalho inclui "Escasseia", música sua em parceria com Beto Sem Braço e Zé do Maranhão; e nesse mesmo ano, Alcione registra "Minha filosofia". Três anos depois, sob a batuta do inesquecível Paulinho Albuquerque lá está ele, ao lado de Wilson Moreira, Nei Lopes, Cláudio Jorge e Sonia Ferreira, a "Soninha do Quarteto em Cy", fazendo um memorável show, intitulado "Roda de Samba", no Teatro João Caetano. E em 96 emplaca, agora com a parceria, entre outros, de Arlindo Cruz (Beto Sem Braço falecera três anos antes) um samba-enredo bem ao seu jeito: "E verás que um filho teu não foge à luta", premiado com o "Estandarte de Ouro", de O Globo, como o melhor samba do grupo especial naquele ano, numa premiação que, aliás, recebeu ainda mais três vezes.

Em 2001, ainda com Paulinho Albuquerque, vieram os três espetáculos da série "Meninos do Rio", no palco do Centro Cultural Banco do Brasil, com Dauro do Salgueiro, Nei Lopes, Nelson Sargento, Baianinho, Niltinho Tristeza, Casquinha, Zé Luiz, Nílton Campolino, Jair do Cavaquinho, Monarco, Elton Medeiros, Luiz Grande, Jurandir da Mangueira e Dona Ivone Lara. Os shows renderam um CD antológico, produzido pela gravadora Carioca Discos. E nesse mesmo ano, Aluízio registrava para a posteridade um depoimento no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

É claro que, nesse depoimento, não está mencionado aquele dia de São Jorge do final da década de 60. Porque essa menção cabe a mim, se um dia lá for falar dos meus começos e das minhas grandes influências.

Porque uma delas, e das maiores, veio deste senhor, padrinho e parceiro, a quem sempre tirei meu chapéu - hoje infelizmente sem fita de cor nenhuma - do vigoroso e forte imperiano Alcides Aluízio Machado.


Diz aí!

Segunda-feira, Setembro 18, 2006



O COURO COMEU NA BILÔ. E OS DEUSES DANÇARAM.

Quinta-feira 14, a veneranda Biblioteca Nacional abriu suas portas para o samba, no projeto O Som do Livro, saindo de sua formalidade para ser a "Bilô", como sempre a tratamos os que a amamos, sem perder o respeito e a elegância. Fomos lá e demos nosso recado, ao lado dos companheiros Ruy Quaresma (violão), Márcio Almeida (cavaquinho). Zé Luiz Maia (baixo), Jurim Moreira (bateria) e Naife Simões (percussões). Valeu a pena! Principalmente por que o atual presidente da Fundação BN é o mestre Muniz Sodré. Que além de ser hoje o maior teórico da Comunicalção no Brasil, é ensaísta, ficcionista, violonista, capoeirista, e obá aressá do Axé Opô Afonjá, centenário terreiro baiano.

E eis que então, chega ao Lote esta amável "crítica", enviada pela Elisabeth, que não temos o prazer de conhecer:

"Acabo de descobrir este blog do Nei Lopes por acaso, mas veio a calhar, pois me dá a chance de expressar aqui, e pra ele, que fiquei maravilhada com a apresentação dele ontem, no projeto O som do Livro, a que tive a felicidade de assistir. Num momento de tanta descrença com o povo deste país que, como diz João Ubaldo, tem tomado uma dose exagerada de "Brasilian", e com aqueles que se destacam em meio a enxurrada de mal-caratismo e corrupção deslavada, deparar com alguém do naipe do cidadão que em si mesmo é a fina flor da genuína cultura brasileira é colírio pra alma...

Confesso, envergonhada, que conhecia pouco de você, Nei, obrigada por me provar que nem tudo está perdido, que esta terra também produz gente de primeira qualidade e que nada elimina , na gente,a capacidade de admirar e se emocionar com o que é

Bom, Muito Bom!!!

Obrigada,

Elisabeth"


Diz aí!

Quinta-feira, Setembro 14, 2006



PARA DEPUTADO FEDERAL, FREI BARAÚNA!

Conta Damasceno Vieira em Memórias históricas brasileiras (1500 ¿ 1837), publicado na Bahia em 1903, que o frei Francisco Xavier de Santa Rita Bastos Baraúna era da pá-virada. De dar nó em pingo dágua, como muitos políticos de hoje.

Nascido na Bahia no ano de 1785 e falecido em 1846, o frei era mais amante dos folguedos do mundo profano do que dos misticismos do claustro. Assim - escreve Vieira - "consagrou o melhor de sua existência à paixão do jogo, do vinho e das mulheres, pelo que sofreu muitas prisões no cárcere de seu convento".

Uma ocasião, entretanto, teve que sair correndo da mesa do jogo para o púlpito, pois esquecera da missa da noitinha. E saiu sem ter tempo de esconder o baralho na manga do hábito.

Introibo ad altarem, ao persignar-se, genuflexo (gostaram?) caíram-lhe algumas cartas no chão. Sem perturbar-se, Frei Baraúna mandou que um menino as apanhasse e lhe dissesse que cartas eram.

O menino obedeceu, mostrando conhecer os naipes. O frade ordenou-lhe em seguida que rezasse o "crem Deus Padre" e, como o menino declarasse não saber a reza, Frei Bastos começou:

- Vejam, senhores e senhoras paroquianos! Este menino conhece todos os naipes do pernicioso baralho e é incapaz de rezar o Credo...

E, a partir daí, improvisou um sermão eloqüentíssimo, de quase 1 hora, sobre os vícios e a educação religiosa da mocidade, merecendo calorosos aplausos pelo encanto de sua palavra fluente e luminosa.

Pois é isso aí, gente boa! Frei Baraúna 1771. Para Deputado Federal!


Diz aí!

Terça-feira, Setembro 12, 2006



BANTOS, MALÊS E IDENTIDADE NEGRA

Já chegando às lojas em outubro, o livro "Bantos, Malês e Identidade Negra", lançado em 1988, esgotadaço, e que vem sendo disputado a tapas até na geral do Maracanã e em barraquinhas que vendem angu à baiana, à noite, lá em cima na rua Teotônio Regadas, na velha Lapa dos Mercadores.

A edição agora é da Autêntica de Belo Horizonte.

E a recriação (novas informações, correções, novidades) é deste senhor aqui do Lote. O qual, em vez de ir pros pagodes, beber, cantar, batucar... agora, depois de velho, achando mesmo que "bendito é aquele que semeia", deu pra isso: fazer livros "à mancheia". Tsk,tsk,tsk. Já não se fazem mais sambistas como antigamente...

PS: O "Vinte Contos" (Record) já estánas boas bocadas livrescas. E o "Dicionário Escolar Afro-Brasileiro" (Selo Negro) já tá na ponte aérea.


Diz aí!

Quarta-feira, Setembro 06, 2006

MAMBO JAMBO NA FAVELA

Don Lázaro Valdés é um negro cubano aí na faixa os 70. Sacudido, forte, saúde boa e cabeça melhor ainda, mora no Rio, perto do campo do Vasco, há uns oito anos; e já está completamente integrado na vida carioca.

Quem o vê tomando uma cerveja na CADEG, boné branco, camiseta do "Sorri Pra Mim", guia no pescoço, bermudas, sandálias, encostado no balcão, se não escutar sua voz, vai achar que é um "nativo", um crioulo-padrão, sambista da Mangueira, estivador, arrumador, nego do cais-do-porto.

Mas mesmo abrindo a boca, Don Valdés engana. O sotaque já não é tão acentuado. E o portunhol está mais pra porto que pra nhol. E em substituição ao "Valdés", já ganhou da vizinhança até outro nome: "Seu Valdeir".

O único problema de Seu Valdeir ainda é o trânsito carioca e a confusão dos viadutos, vias expressas e ruas com grades, que ele não consegue entender de jeito nenhum. E é assim que ele, no seu Aero-Willys 59, azul-vermelho-creme, já foi parar em Saracuruna, querendo ir pro Jardim Botânico; já chegou a Grumari pensando que estava em Pendotiba e, noutro dia, ansiando curtir uma praia, de sunga e óculos escuros, tipo Varadero, acabou por dar com os costados no epicentro de uma favela salsa e merengue, chapa-quente.

A rapaziada do movimento, quando viu aquele carro, primeiro achou engraçado. Mas logo, logo cada um amarrou convenientemente a cara, sugestionando, e um deles perguntou onde o negão tava pensando que ia.

- Coño, sócio! - disse ele, respondendo, carregado na cubanidad, ao que parecia ser o chefe dos soldados - Ave Maria Purísima! Candela este verano en el Rio, verdad?! Y a mi me gustaria una cerveza! No les gustaria a ustedes? Como no?! Bien hielada!

Os soldados, armas engatilhadas, não entenderam chongas e ficaram boladões. Um, sacando o som "colombiano", pensou que era gente de cima. Mas um outro, mais esperto, percebeu que o crioulo gringo tava a fim mesmo era de uma cerveja, pra refrescar a chapa daquele domingo escaldante.

E então as ampolas começaram a ser abertas, "Seu Valdeir", deixando o portunhol de lado e carregando na língua do bairro Jesús Maria; falando o mais afri-caribenho possível, misturando até termos de jerga abakuá no papo, e com a cabeça lá fora, bolando um jeito de sair daquela enrascada.

Até que os novos amigos descobriram tratar-se de um cubano, morador perto da Barreira do Vasco. Aí, o papo fluiu gostos - pra eles, é claro, pois o nosso Valdés , só pensava no jeito de se mandar daquele ambiente, antes que uma bala-perdida ou um caveirão invadissem seu domingo de praia.

Cerveja vai, cerveja vem, "Seu Valdeir", apesar do medo, e os traficas foram ficando íntimos. Até que um deles, simpático depois de umas três cafungadas, quis saber como era Cuba, como era o "movimento" por lá.

- Marijuana! - respondeu lacônico, o nosso cubano. E ante a decepção da rapaziada com mercado tão pouco diversificado, oferecendo tão poucas oportunidades, fruto certamente do bloqueio americano, o nosso Don Valdés, já entrando no Aero Willys - sem gastar um tostão, pois o dono da boca fez questão de uma "presença" com o visitante ilustre, embaixador da nação amiga, "pátria do finado Guevara", mandou, já no portunhol:

- Y es solo um cara que fuma!

Ante a incredulidade geral, acrescentou, já engatando a primeira e se arrancando:

- Como vocedes acham que alguién consigue hacer um discurso de mais de diezocho horas sin parar ni pa dar uma mijada?

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PS: Conforme carta enviada a O Globo em 05.09.06, informo que a declaração de Ali Kamel que reproduzi em meu artigo "Entre negros e pardos" está com todas as letras na matéria "A política de cotas raciais e a pobreza" (O Estado de São Paulo, 20 de agosto de 2006), assinada pelo jornalista Carlos Marchi, a partir da 10ª linha da 1ª coluna, nestes termos: "Kamel lembra que nem só os negros são pobres, mostra que os negros usam os pardos para engordar os números da miséria, mas depois os afastam dos benefícios, e afinal, alerta para o perigo de o ódio racial instalar-se no Brasil [grifamos]".


Diz aí!