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Quinta-feira, Agosto 31, 2006
HOJE, NO GLOBO Artigo de Nei Lopes sobre o livro do jornalista Ali Kamel ENTRE NEGROS E PARDOS Nei Lopes "Divide e impera!". Essa frase, atribuída a Maquiavel, define uma das estratégias mais eficazes em todo tempo e lugar. E foi ela que, desde mesmo antes da Conferência de Berlim, em 1885, sempre marcou as relações colonizadoras e coloniais entre europeus e nativos na África e entre os descendentes de ambos nas Américas. Chegados aqui para o trabalho escravo, os africanos eram classificados não por etnias e sim por regiões de embarque ou apresamento, o que já representava uma divisão, com indivíduos pertencentes a grupos étnicos diversificadas e muitas vezes antagônicas recebendo denominações arbitrários, como "minas", "benguelas", "ambacas" etc., em detrimento de suas orgulhosas tradições clânicas e ancestrais, todos misturados no mesmo balaio supostamente distintivo, apenas pela coincidência do porto de embarque. Depois, eram categorizados por local de nascimento. Os nascidos do outro lado do Atlântico eram naturalmente africanos, "de nação", sendo não raro inferiorizados em relação aos "crioulos", nascidos em solo americano e, assim, supostamente mais afeitos ao trabalho, por razões ecológicas, de aclimatação. Dividia-se também a massa escrava em "ladinos" e "boçais", os primeiros, em geral crioulos, já dominando de uma certa forma, a língua do colonizador, enquanto que os outros, como suposto sintoma de apoucamento mental, permaneciam falando o que se considerava algaravias, caçanjes, "dialetos" - como aliás, até hoje, popularmente, no Brasil se adjetiva qualquer língua africana, mesmo as veiculares, de larga circulação e com milhões de falantes, como o suaíle e o hauçá. Numa outra ponta do novelo e estendendo sobre o assunto o amplo lençol das relações jurídicas, distinguiam-se também as vítimas diretas ou indiretas da escravidão em escravos, libertos e livres - sem que a condição de liberto ou livre representasse muita coisa em termos de direitos de cidadania, haja vista o caso dos affranchis, nas colônias francesas, e dos apprentices, nas colônias inglesas, submetidos a uma espécie de "estágio" até serem considerados "aptos para a liberdade". Uma última categorização era feita a partir da cor da pele, o que distinguia, no Brasil, os "pretos", dos "mulatos" e dos "cabras". E esta foi a classificação, baseada unicamente na fenotipia e basicamente na cor da pele - num momento em que o Brasil procurava a todo custo, principalmente na aparência externa, desafricanizar-se - que o escravismo deixou como herança à decantada democracia racial brasileira. A antagonização entre "pretos" e "pardos" já tinha sido utilizada com relativo sucesso pelos franceses na Revolução Haitiana, na virada para o século 19. E a desafricanização da população não branca era o grande objetivo dessa estratégia. Inculcando na mente dos indivíduos a falsa premissa de que todo africano é, em princípio, um ser inferior, o racismo divide e domina. E foi isso que fez uma certa a ciência negando a as origens núbias (negras) do Egito faraônico ou não acreditando nelas; ou estudando a África só partir do advento do tráfico atlântico e não de sua rica Antigüidade e de sua pujante Idade Média; ou ocultando a influente presença negra da península Ibérica desde o século 15, o que repercutiu fortemente, até mesmo do ponto de vista biológico, na constituição da população brasileira, caribenha e centro-sulamericana. Além disso, quando se esconde a ascendência africana de um grande personagem do passado, a pretexto de ¿limpar¿ sua biografia e preservá-lo da pecha de inferior, como ainda se faz no Brasil, sonega-se um tipo de informação que pode ser muito útil à emocionalidade e à construção da auto-estima do indivíduo afro-brasileiro, principalmente a daquele ainda em formação. Foi por isso que, na prática diária, para tornar visível a importante participação da matriz africana na formação da sociedade brasileira e na civilização universal, e para constituir um corpo coeso na luta pelos direitos civis dos descendentes de africanos, o movimento social dos negros, no Brasil, cunhou o termo "afro-descendente", englobando "pretos", "pardos" e outras designações para as pessoas outrora chamadas "de cor", numa única adjetivação: "negro". Assim, nós , por exemplo, em nosso trabalho, definimos como "negro" todo descendente de negro-africanos, em qualquer grau de mestiçagem, desde que essa origem possa ser identificada historicamente e, no caso de pessoas vivas, seja reconhecida ou auto-declarada pela pessoa objeto da classificação, como é o nosso caso particular. Pensando e agindo assim, nós, embora de pele menos pigmentada que muitos dos nossos familiares (mesmo porque o tempo, ironicamente, se encarrega de clarear os mulatos: de Machado de Assis a Dorival Caymmi, passando por Sylvio Caldas e muitos outros ), sentimo-nos profundamente chocados e ofendidos com a afirmação do jornalista Ali Kamel, veiculada no fim de semana de 19-20 de agosto, segundo a qual "os negros usam os pardos para engordar os números da miséria mas depois se afastam dos benefícios". Mais uma vez o jovem jornalista e agora escritor volta ao passado mais obscurantista para justificar seus argumentos supostamente modernos. Em sua cruzada contra as tentativas de ações e políticas públicas que estabeleçam a tão sonhada igualdade entre negros e não negros (inclusive descendentes de espontâneos imigrantes levantinos, como ele) no Brasil, Kamel procura jogar os negros de pele mais clara, (por ele derrogatoriamente chamados "pardos") como nós, contra os mais pigmentados, como alguns de nossos familiares e amigos, militantes da mesma causa. Exatamente como ensinou Maquiavel; como fizeram os europeus na África, do século 15 ao 20; como fazem os donos do poder e da informação no Brasil, desde sempre até hoje. Lamentavelmente. Terça-feira, Agosto 29, 2006
SARGENTO SOLTA A VOZ NA SALA DO MINISTRO Aí, na casa do ministro Gil, reunida a chamada "classe artística", o querido compositor carioca Nelson Sargento, diz pro presidente: - Ô Lula, tem que ver esse negócio do direito autoral. Eu não ganho um tostão. Faz aí uma lei para o artista ter direito a carteira assinada, 13º salário, férias... Essa historinha, parecendo brincadeira, publicada numa coluna de jornal (Ancelmo Góes, O Globo, 23.08) tem foros de verdade. Porque dias antes, a aguerrida assessoria do velho Sargento mostrava a este amigo documento por ela redigido em que se dizia, entre outras coisas, o seguinte: "A princípio, intriga-me bastante o fato de haver tanta insatisfação com os órgãos sindicais e de classe, parecendo que não prezam pelos interesses de seus associados, os quais não contam com nenhuma forma de amparo social ou apoio profissional. Qual seria então o real papel dessas entidades em relação às suas atribuições legais? Por que se cobra tanto tributo em cima de cada show realizado, por exemplo? Por que a [sic] ECAD, responsável pela arrecadação, não se põe à disposição, ao menos, para cooperar na viabilização de um sistema que possibilite que os artistas tenham acesso a serviços como plano de saúde ou seguro de vida, por exemplo? E por último, mas não por fim, por que não há aposentadoria para os artistas que já não podem trabalhar, que não têm mais o vigor que tanto nos deu alegria e prazer de viver?" Coberta de razão está a assessoria de Nelson Sargento, por sinal diretor da co-irmã SICAM! Só que o argumento, brandido pelo Sargento na casa do ministro, parte de uma desinformação que é a seguinte: Direito Autoral não é "trabalho". É muito mais! Trata-se de um dos direitos e garantias individuais consagrados pela Declaração Universal dos Direitos do Homem e previstos na Constituição brasileira nos "Direitos e Garantias Fundamentais" (art. 5º, parágrafo XXVII), na forma seguinte: "Aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros, pelo tempo que a lei fixar"; Um direito sobre uma obra intelectual não se confunde com uma relação trabalhista ou de prestação de serviço, como a gerada por um show, que demanda o pagamento de um cachê. As sociedades gestoras de direitos autorais têm natureza jurídica e atribuições completamente diferentes dos sindicatos, associações que cuidam dos interesses profissionais e econômicos de todos os que exerçam, no campo do direito do trabalho, a mesma atividade ou atividades similares ou conexas. Os autores musicais, como o grande Nelson Sargento, não recebem do ECAD, simples escritório arrecadador e distribuidor, dirigido por um colegiados das sociedades de gestão (como AMAR, UBC, SADEMBRA etc), salários, como os "trabalhadores", no sentido estrito. Recebem, aí sim, "direitos" pela utilização de suas obras, no Brasil e no exterior. E em alguns países europeus, como a França, as sociedades de gestão congregam no mesmo quadro várias categorias de criadores, como pintores, fotógrafos, autores teatrais etc. O grande problema é que, pouco a pouco, com a selvageria da economia de mercado, a instituição do Direito Autoral, nascida no século 19, vai deixando de ser vista como um direito fundamental da pessoa humana para ser encarada apenas como um negócio. E aí, de fato, as coisas começam a se confundir, com "patrões" e "empregados", cujos interesses sempre foram antagônicos, bebendo no mesmo rio, o que nos faz lembrar aquela antiga fábula do cordeiro e do leão. À beira desse rio, bebe mais água quem é maior, tem mais força, a goela mais larga e fala inglês, que é a língua das grandes corporações. E sobre "uma lei para o artista ter direito a carteira assinada, 13º salário, férias...", por ser do âmbito do Direito do Trabalho e não do Direito Autoral, e envolver a numerosa e diversificada categoria profissional dos músicos (executantes, regentes, arranjadores, intérpretes, cantautores etc) acho que teria que ser amplamente discutida nas sedes dos órgãos de classe, ou no Congresso... e não na sala de visitas ou de jantar, por maior e mais bonita que seja, do ministro da Cultura. Você também não acha, caríssimo Nelson Sargento? Domingo, Agosto 27, 2006
O PROTESTO NEGRO E A INDÚSTRIA DO ENTRENIMENTO A revista Cult, publicação de "alta Cultura" editada há nove anos na capital de São Paulo, publica em sua edição de agosto, nº 105, uma longa entrevista com o grande compositor e cantor Caetano Veloso. A certa altura da conversa, o admirável artista aborda a momentosa questão afro-brasileira, relatando uma discussão que tivera, a respeito, com o rapper MV Bill, nestes termos: "...eu queria fazê-lo ver que ele precisava levar em conta que grande parte do que é, não só movimento de consciência da questão racial, como o movimento específico do hip hop, ao qual ele se filiou, tem muito do desejo brasileiro, exposto em várias áreas, de ansiosamente imitar os americanos. E, de certa forma, com isso, se reafirmava uma humilhação dos brasileiros perante os americanos, o que não difere da humilhação dos negros perante os brancos". Pelo que entendemos, o grande Caetano Veloso, que se manifestou recentemente contra a chamada "política de cotas", também acha que a pauta de reivindicações dos negros brasileiros obedece a um modismo africano-americano. Mas ele, que é também uma espécie de "padrinho" de algumas instituições que praticam o que chamamos de "cidadania hip hop", e que conhece muito mais do que nós os meandros da indústria fonográfica transnacional, por onde transitam com desenvoltura importantes personagens como Nelson Motta e André Midani, é claro que não desconhece uma outra verdade cristalina. Essa verdade é que o protesto negro na música sempre foi um apanágio da canção brasileira mais legítima, desde Lata d'água na Cabeça, Pedreiro Valdemar, João do Vale, Gordurinha, Aluísio Machado - sambista só conhecido pelos seus sambas-enredo mas que entretanto foi um dos "malditos" da ditadura de 64 - até o atualíssimo Trio Calafrio, para só citar alguns exemplos. Mas esse protesto, hoje, só é aceito como tal, e não como galhofa, quando tem a forma do protesto made in Bronx, Harlem etc. Aí, é moderno, é "tendência". Fora disso, porque, inteligentemente, usa o riso para fustigar os costumes, é apenas graça. E falamos de cadeira, desde os nossos sambas, com Wilson Moreira, Senhora Liberdade e Coisa da Antiga, que já no final da década de 70, tiveram letras forçosamente modificadas; do partido-alto Pega no Pilão, no festival da Globo de 1980; dos nossos LPs, agora CDs, Negro Mesmo e Canto Banto, respectivamente de 1983 e 1985. O conteúdo de todo esse conjunto de obra expressa nossa posição diante da questão negra. Mas a forma que preferimos é a do samba. Então, as majors sempre descartaram esse nosso lado, preferindo, na hora de escolher os frutos no nosso tabuleiro, aqueles da "galhofa" ou do lirismo individualista, tipo "este amor me envenena". Daí, então, a conclusão que tiramos da afirmação de Caetano Veloso: Enquanto o protesto negro, mesmo de dread-locks, tênis Nike e uniforme de beisebol, se restringiu à música, ele foi bem vindo e bem aceito, porque era pop. Mas quando ele transcendeu o entretenimento e passou à esfera legislativa, reivindicando inclusive, de terno e gravata, um Estatuto de Igualdade Racial, aí ele passou a ser "imitação de negro americano" e ameaça à "cordialidade que sempre reinou, entre brancos e negros, neste país sem racismo". Ora, ora... a "cordialidade" já desceu o morro está na rua, brothers! E exatamente pra buscar aquele Nike, aquelas roupas de marca, aquele carrão, que a música da esfera pop prometeu. E usando aquelas técnicas e instrumentos que os filmes de tela-quente e temperatura máxima, coadjuvados pelos games de mortal combate, ensinaram a usar. Isso, sim, é que é imitar americano! Sexta-feira, Agosto 25, 2006
NÓS E OS SRS. LINS E GONÇALVES. "ACARIOCANDO" O jovem Ivan Lins é parceiro do Velhote há muito mais tempo do que vocês podem imaginar. Desde o disco "Traço de União", da jovem Beth Carvalho, que nos gravou o "Enquanto a gente batuca", de Lins, Martins & Lopes. Aliás, a amizade do Ivan é um pedaço do muito que o saudoso Paulinho Albuquerque me deu! Agora, Seu Ivan gravou "Prece ao Samba" (de Lins & Lopes), que está no CD "Acariocando", mostrado em show nestes sábado e domingo no Canecão. Aí, Seu Ivan pediu ao Velhote um texto para a abertua do show. Que acabou sendo gravado, nem mais nem menos que pela voz maviosa do grande Milton Gonçalves, irmãozão também, aqui do Lote. O texto é o seguinte: Rio! Rio! Rio! O morro não tinha vez. E o que ele pedia, ninguém ouvia. Até que a incúria trouxe a penúria; o descaso levou ao atraso E o morro desceu, ruiu, se espatifou no asfalto. O que pedia socorro vestiu gorro e gritou "perdeu!" A cidade, partida do alto, chorou: "dancei!" Mas nesse perde e dança, veio a ordem lá de cima: "Eu sou o samba e o rap, sou a canção, sou a rima! O dono desta cidade sou eu!" Aí, as luzes reacenderam, uma a uma. E a cidade, plana, plena, carioca da gema Afinou o gogó, de Pavuna a Ipanema Acariocou de novo. E sabendo que era preciso, Mais que nunca, voltou a cantar Com chope e tira-gosto Vento do mar no rosto... *** Como domingo o Velhote vai sair do Lote cedinho pra ir ao Festival de Samba e Choro, organizado pelo Alexandre do Galo Preto, em Mendes, não dá pra ir ao Caneco. Mas quem for, por favor, nos conte depois. É capaz de pegar bem, não? Quarta-feira, Agosto 23, 2006
O SAMBA SOB AS LUZES, NAS TREVAS DO RACISMO Voltamos ao Lote, depois de 4 dias fora, trazendo na bagagem uma entrevista do já manjado Ali Kamel, sobre a questão negra (publicada no Estadão de domingo) em que ele diz, entre outras brincadeirinhas, que "os negros usam os pardos para engordar os números da miséria, mas depois os afastam dos benefícios". Mas essa chateação fica pra depois, porque, voltando com a alma em festa e o coração a gargalhar, preferimos, por enquanto outro papo, que é o seguinte: O Samba, essa entidade que há muito ultrapassou a categoria de ritmo, estilo ou gênero musical para ser, muito mais, uma forma de socialização, vive de fato um grande momento. Melhor do que o da Era Zicartola-Opinião, na segunda metade dos anos 60; melhor que o momento das rodas de samba, capiteanadas pelo Renascença e o Bola Preta nos 70; melhor que o grande momento dos fundos de quintal (Quintal da Doca - Arlindo - Beira do Rio) nos 80; que o Candongueiro nos 90. Porque agora tem pra tudo e pra todos, da Lapa ao Rena; do Cacique ao Ponto Chique; das feijoadas das escolas às das "tias" espalhadas por aí. Mas, apesar disso tudo, falta uma coisinha no Rio, que alguém, e nunca vai ser um político, tem que ver: salvo raríssimas e episódicas exceções, faltam palcos dignos para o samba. Como em São Paulo, nos SESCs, principalmente no de Pinheiros - cujo teatro é obra-prima de técnica e conforto - ; no auditório Ibirapuera, e, em Brasília, no Centro Cultural Banco do Brasil. Falamos isso de cadeira, ou melhor, de estrado, coxias, gambiarras, canhões de luz e cortinas. Pois acabamos de levar nosso samba a esses três lugares. Em Sampa, com a portentosa Fabiana Cozza e depois com a doce Teresa Cristina. E em Brasília, com esse monumento da melhor música popular brasileira que é Leny Andrade. Todas, cada uma em seu estilo, grandes cantoras de samba. De samba e de palco - que nos perdoem os botecos e tendinhas. Porque o samba gosta de informalidade, claro. Mas também gosta de um bom piano, cortina de veludo, luzes afinadas. Afinal, hoje em dia, a "Voz do Morro", todo mundo sabe, é outra. E essa é também uma parte do que queremos comentar sobre os estrategistas do racismo, que agora jogam os "negros" contra os "pardos" para garantir seu domínio. Mas vamos descansar um pouquinho e sonhar com as divas Leny, Fabiana e Teresa. Sobre a brabeza da nova técnica racista... amanhã a gente conversa. Papo de kota, com "k" - termo que em congo significa "mais-velho", "número baixo"... Segunda-feira, Agosto 14, 2006
2º FESTINTERMUSOP SUPERA EXPECTATIVAS Realizou-se, no último dia 12, domingo consagrado aos Pais, o 2º FESTINTERMUSOP, Festival Intermunicipal do Ensopado, desta vez no lote do Irajá. Abrilhantado pelo samba paulistano-carioca do Quinteto em Branco & Preto (gentilmente cedido pela madrinha Beth Carvalho, a quem a organização do evento penhoradamente agradece) e reforçado pela rapaziada da casa, o Festival bombou. E premiou, nas categorias, sabor e originalidade, respectivamente as tias Hilda do Tonga e Namir do Moa, com ensopados tão originais e saborosos que a reportagem, com a boca muito ocupada, esqueceu de anotar os nomes. Os troféus, esculpidos em legumes pela artista Namirzinha (esses Lopes!) , foram uma atração à parte. Nas fotos de Ruy Quaresma, jurado incorruptível, os visitantes deste Lote podem ter a idéia de como o couro comeu. E nós também. Quarta-feira, Agosto 09, 2006
O OURO NEGRO E O MASCAVADO Moacir Santos (1926 - 2006) Quando, no início de 2001, os produtores do CD duplo Ouro Negro me propuseram colocar letras em 5 canções do maestro Moacir Santos, o argumento era o seguinte: ele não gostava de várias letras em inglês colocadas em suas obras, notadamente as da série Coisas, por achar que elas não traduziam sua real identidade e seu real sentimento de ser humano nascido negro, pobre, místico e nordestino. Ele queria um letrista de vivência e sensibilidade semelhantes às suas! A sugestão de meu nome - como não poderia deixar de ser - partiu do grande e inesquecível produtor e amigo Paulinho Albuquerque (1942-2006), jóia rara no falso brilhante que é o "showbizz" além-túnel. E a tarefa, aceita com o maior orgulho, consistiu em criar, a partir de um texto autobiográfico e de um CD contendo as gravações originais, cinco letras brasileiras - letras mesmo e não versões, vejam bem! - para Make Mine Blue (Coisa nº 8), Luanne, Quiet Carnival, April Child e What's My Name? Mãos à obra, com muita transpiração, longe do carnaval daquele ano, enfurnado que estava, com Sonia, Luca e Olívia no bucólico Hotel Colonial, em Piraí, evocando lembranças e inspirado na autobiografia do Maestro, nasceram (além do texto que apresenta os CDs) as letras, que são as seguintes: ODUDUÁ (What's my name) Gravação de João Bosco Diz, Oduduá, quem sou eu? Pra onde vou? De onde vim? Quem me fez voar tantos céus, Navegar, tanto assim? Diz se foi Olofim Ou se foi Olorum! Foi Olodumarê Ou Todos Três em Um? Sinto flutuar outro eu, Todo amor, sobre mim. Diz Oduduá, quem me deu Este ar leve assim? (SOLO) Quando Olofim criou A luz inicial Veio Eleguá vibrar Toda a tensão vital. Diz, Oduduá, sou de quem? Sou do ar, sou do chão? Diz se é um mal ou um bem Represar a emoção! SOU EU (Luanne) Gravação de Djavan Se um clarão lilás Te banhar de luz Não te acanhes, não! Sou eu... Se uma estranha paz Te vestir de azul Não te espantes, não! Sou eu... Se descer dos céus O dragão lunar Manda me chamar Pelo amor de Deus! Pois teu anjo bom Teu Ogum Mejê Teu Alabedé Sou eu! MARACATU NAÇÃO DO AMOR (April Child) Gravação de Gilberto Gil Quem vem lá Surgindo lá de trás do mar? Será a Calunga, num vapor, Trazendo de Luanda o amor? Ê, gonguê, Repica aí que eu quero ver Moenda quero ver virar Na hora que o amor chegar. O amor é rei Nosso rei bantu Sua voz é lei No maracatu - BIS Ê, Sinhá, Prepara o caranguejo uçá Refoga e escalda o sururu Apura o vinho de caju. Ê, Iaiá Da ilha de Itamaracá, Prepara a rede de tucum Que o amor veio embolar mais um. O amor é rei bantu... NAVEGAÇÃO (Make Mine Blue) Gravação de Milton Nascimento Depois de tanto procurar Motivações e explicações Depois de tanto palmilhar Desvios e bifurcações Da proa desta embarcação Consigo interpretar, enfim, A carta de navegação Que o Mar traçou dentro de mim. A previsão sombria Assim se dissipou Aquela Estrela Guia Do céu me orientou Milhões de milhas naveguei Nem sempre ventos a favor Mas afinal reencontrei O cais da paz interior. ORFEU (Quiet Carnival) Gravação de Ed Motta Turbilhão de carnaval Num salão todo irreal A emoção me fez ver você Numa estranha procissão Murmurando uma canção Soluçando sem perceber. Mas tudo foi sumindo E eu, mais uma vez, me vi Dançar sem par No ar, assim... Brilho de purpurinas Bolas e serpentinas Som vibrando metais Nus, foliões, casais E eu sem ter você... Pendurado num cordão Abraçado ao violão A ilusão me vestiu de Orfeu. Fui ao fundo da paixão Persegui tua visão Mas você se desvaneceu. E veio a Quarta-feira Cinzas, contrição e Orfeu Desceu, perdeu, morreu... Moacir Santos faleceu , aos 80 anos, no último domingo, 6 de agosto, em Los Angeles, onde morava desde o final da década de 1960. Os seus 80 e os meus 64 só se encontraram fisicamente uma vez, no Teatro João Caetano, no espetáculo de apresentação do álbum, num papo de uns 15 minutos, pois o assédio a ele era grande. Aberto o pano, na super-banda formada para a gravação e a apresentação do Ouro Negro, chamava a atenção lá atrás o percussionista Marçalzinho, aparentemente o único afro-descendente na orquestra. Mas foi bom e bonito, pois todos os músicos eram excelentes. Quanto a mim, tenho certeza de que disse o que o Maestro queria dizer. E se faltou alguma coisa, vai aqui neste texto mascavo, de um escravo da palavra. Porque o ouro negro da grande música popular brasileira hoje, no showbizz a que me referi lá em cima, embora caldeado na nossa "cozinha" mascavada, é privilégio exclusivo de apetites mais requintados. Terça-feira, Agosto 08, 2006
IBIRAPUERA, A ENTREVISTA QUE NÃO ENTROU NA FOLHA Bem... Nosso show no Ibirapuera (O Velhote aqui, Almir Guineto, Fabiana Cozza, Monarco, Quinteto em Branco & Preto e Paulão Sete Cordas) foi um tremendo sucesso. Inclusive, no segundo dia, Leci Brandão apareceu por lá com seus músicos e fez bonito também.
Na sexta, todos os jornais de São Paulo noticiaram o show. E o inusitado, pra eles, é que se tratava de um show de samba no Auditório Ibirapuera, moderno, bacana, super-organizado, com funcionários atenciosíssimos e, por isso, tido como sofisticado. Aí, a Folha fez com o Velhote esta entrevista, leiam só, prestem atenção nas perguntas: "- Nei Lopes, qual vai ser o repertório do show do Auditório Ibirapuera? R: Como sempre, nesses shows, a gente entremeia sucessos com outras coisas que a gente gosta. Da minha parte, por exemplo, pretendo apresentar "Pega Geral", parceria minha com Dudu Nobre, na trilha da atual novela das 7 da Globo; "Tempo de Dondon" e "Goiabada Cascão", sucessos recentes em outras novelas; e alguma coisa gravada pelo Zeca Pagodinho, como "Cavaco e Sapato", recente parceria minha com ele; "Jogo de Caipira", um dos primeiros sambas meus que ele gravou, e por aí. Não pretendo cantar "Senhora Liberdade" nem "Gostoso Veneno", que o público sempre pede, porque estou a fim de fazer minha parte centrada no partido-alto, que é o tipo de samba de que eu mais gosto, alegre, criativo, bem-humorado. Quanto aos colegas, acho que devem seguir a mesma linha, cada um na sua. - O que vocês estão planejando interpretar juntos? R: Normalmente, em shows coletivos assim, a gente escolhe um meta-samba pra encerrar, tipo "A Voz do Morro" (Zé Kéti), "Apoteose ao Samba" (Silas e Mano Décio), apoteoticamente. Se não for um desses, vai ser do estilo. - Como você vê essa mistura do samba do Rio e de São Paulo, que vai acontecer no show com as presenças de Fabiana Cozza e Quinteto? R: Conheço e me apresento com o Quinteto há quase 10 anos, quando eles ainda usavam calça-curta. Somos, inclusive, parceiros em composições gravadas pela Alcione em seus dois últimos discos . Uma delas, inclusive, "Primo do Jazz" abre um show e um DVD da Marrom. Já a Fabiana Cozza, essa belíssima mulata italiana, me deu o CD e vi que ela canta samba muito legal também. Almir, Paulão, todo mundo já sabe que arrebentam. E o Monarco é só abrir a boca com o seu "Vai Vadiar", que todo mundo cai dentro. Então, não tem nada de complicado. A praia é a mesma. Só os governadores é que são diferentes: aí é Lembo aqui é Rosa - o que alías é também quase a mesma coisa. - Como você vê o samba, que tradicionalmente acontece em espaços informais, como as rodas, agora em espaços mais "suntuosos" como o Auditório Ibirapuera, onde acontece o show? R: Não é a primeira nem a última vez. Eu já cantei várias vezes no Theatro (com "h") Municipal do Rio; recebi, ano passado, um Prêmio Tim lá; o Xangô da Mangueira recebeu a Ordem do Mérito Cultural do MinC na mesma cerimônia que eu, no Palácio do Planalto; já cantei aí, com a Paula Lima e o Quinteto no Crowne Plaza; e até no Teatro Nacional (Karl Marx) em Havana... O Quinteto tem viajado bastante para o exterior... Nada é novo para o samba, não! Não existe espaço "suntuoso". O que faz a "suntuosidade" - desculpe a falsa modéstia - é a nossa música e o nosso talento. - Obrigada mais uma vez e um abraço, R: Eu é que agradeço, em meu nome e dos meus colegas." A repórter foi Adriana Kuchner. Pena que, por falta de tempo ou espaço, não sei, a entrevista não saiu na Folha. Mas quem não tem Folha caça com Lote, não é mesmo? Segunda-feira, Agosto 07, 2006
SAUDADE, PALAVRA CRUZADA. (Da série "Os que Fizeram Minha cabeça") Na época da saudosa Escola Técnica Visconde de Mauá, tínhamos lá um colega, o Sebastião Mamede de Sant'Ana, que era cruzadista. Mesmo! Desses de criar problemas de palavras cruzadas (que os boleros cubanos chamam crucigramas) e outros tipos de enigmas, desenhando-os primorosamente a nanquim, em papel vergê, para publicá-los, sob o pseudônimo anagramático "Samedant", às revistas especializadas. Tião Mamede, crioulinho baixinho, troncudo e bacana, inoculou em mim, com meus 13 anos, o vírus do cruzadismo. E foi esse vírus, aliado a outro forte sentimento que me acompanha desde a primeira juventude (estou vivendo a segunda), que me fez há uns dois ou três anos atrás reclamar ao editor do caderno de variedades de um jornalão carioca contra a inclusão, na seção de palavras cruzadas, de conceitos como "prática de feitiçaria dos negros" ou "cheiro desagradável da pele dos negros" (cf. Cândido de Figueiredo), para definir, por exemplo, "candomblé" e "catinga". O responsável pela seção era alguém com sobrenome que me soava como antigo e lusitano. E seus conceitos reproduziam idéias que ainda andam por aí, nos dicionários mais velhos, como o citado no parágrafo acima. Mas o importante é que o editor, mal ou bem, não só anotou as reclamações como me respondeu, embora secamente, e o fato nunca mais se repetiu. Cruzadista incorrigível, constato agora que os jornais das grandes cidades brasileiras, quase sem exceção, dispensaram seus colunistas especializados nesse saudável tipo de passatempo e passaram todos a comprar problemas de palavras cruzadas numa mesma fonte editorial. Coisa de "mercado", custo-benefício, eu sei... Mas ficou chato. Regras antigas são agora quebradas; a simetria dos quadros não é mais obrigatória; não há mais casas vazias; palavras são escritas da frente pra trás; privilegiam-se conceitos da cultura de massa e termos do inglês americano. E, aí - exceção feita para a tradicional revista Recreativa - a informação que nos enriquecia o vocabulário vai por água abaixo. Pois é... Foi-se, então, o tempo em que caixeiro viajante era "ALABAMA", vendedor de fazendas era "FANQUEIRO"; "ROQUEIRO" era quem morava em cima de rocha... E "GALERA" era apenas uma embarcação. Saudade do Sílvio Alves, do Santos Alves, do meu amigo Samedant!... Quarta-feira, Agosto 02, 2006
foto: Adriana Lorete PESQUISADOR EXPLORA MÃO-DE-OBRA DE SAMBISTA Em mais uma de suas ações desumanas, o pesquisador Nei Lopes põe o sambista Nei Lopes para pegar a ponte aérea e ir "ralar" em São Paulo durante todo o fim de semana. O pobre do compositor vai cantar sexta 4, sábado 5 e domingo 6, no AUDITÓRIO IBIRAPUERA, a partir das 20h30, sem adicional noturno, quebrando pedra junto com Almir Guineto, Fabiana Cozza, Leci Brandão, Monarco, Paulão Sete Cordas e Quinteto em Branco e Preto. Ouvido por nossa reportagem, o sambista se defendeu atacando: - O otário pensa que me explora. Mas eu vou a São Paulo é tirar onda, ciscar no tapete, enquanto ele fica aí escrevendo esse montão de besteira que ninguém lê. E tem mais: pergunta a mulher dele quem é que paga as contas desse Lote dele aí? Pergunta só, pra tu ver o que ela vai dizer... Nossa reportagem, para evitar mais um "barraco" no Lote, botou a caneta Bic e o bloco de laudas na bolsa... e foi saindo de fininho. |
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