Sexta-feira, Junho 30, 2006

CHICO ANYSIO NÃO CONFIA EM GOLEIRO NEGRO

Finalmente, chega até nós a página do jornal esportivo Lance (edição de quinta-feira 8 de junho) em que, na coluna "Espaço Aberto", página 4, o humorista Chico Anysio, fazendo prognósticos sombrios para a seleção brasileira no campeonato mundial de futebol que transcorre na Alemanha, alinha entre os motivos de sua descrença, o seguinte: "Não tenho confiança em goleiro negro. O último foi Barbosa, de triste memória na seleção".

Juro que quando me contaram não acreditei. Achei que fosse engano ou piada de mau gosto. Mas agora está aqui. Na minha frente. O sorriso estranho, a expressão mais estranha ainda e a declaração estarrecedora, proferida num momento em que o racismo começa a ser questionado e até apenado como crime no Brasil e em outras partes do mundo dito civilizado. Lastimável!


Diz aí!


FUTEBOL E MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
Do amadorismo à economia globalizada

Parte 6

A "Avenida" e o "Tapetão"


"O Brasil há de ganhar, ê, ê/ Para se glorificar,ê , ê/ Bota a pelada no gramado/ palmas pro selecionado...", cantava Linda Batista em 1950. Nesse ano, em que o Brasil sedia pela primeira vez uma Copa do mundo - e a perde para o Uruguai, no trágico dia 16 de julho - as preferências da torcida se dividem entre os ídolos Ademir e Zizinho. E, no ambiente da música popular, essa bipolarização se dá também, envolvendo as cantoras Marlene e Emilinha Borba.

Nos preparativos da Copa, o compositor Lamartine Babo, além de compor a Marcha do Escrete Brasileiro ("Eu sou brasileiro, tu és brasileiro/ Toda gente boa, brasileira é/ Vamos torcer com fé/ No nosso coração/ vamos torcer para o Brasil ser campeão..."), cria, de um fôlego só, as marchas, depois hinos, do América, Bangu, Bonsucesso, Botafogo, Canto do Rio, Flamengo, Fluminense (em parceria com Lírio Panicalli), Madureira, Olaria, São Cristóvão e Vasco da Gama.

Na depressão que se segue à derrota para o Uruguai, o craque Zizinho se contunde, vai a exame médico e é, tristemente, dispensado da seleção. Nessa ida ao médico, vai acompanhado por seu amigo e compadre Ciro Monteiro, cantor conhecido no meio artístico por seu jeito ao mesmo tempo brincalhão, carinhoso e solidário. Tanto que em 1969, depois de enviar de presente, à filha recém nascida do compositor Chico Buarque uma camisa do Flamengo, o querido cantor recebia, em troca, o espirituoso samba Ilmo. Sr. Ciro Monteiro ou Receita pra virar casaca de neném, no qual Chico agradece mas reafirma as suas convicções futebolísticas, torcedor do Fluminense que é.

Mas, na ressaca de 1950, para tristeza ainda maior dos flamenguistas, a hegemonia continuava sendo do Vasco. É então que Geraldo Pereira grava o samba Ser Flamengo, de Freire Gomes, Bruno Gomes e Ayrton Amorim: "Ser Flamengo, hoje em dia é uma tristeza,/ Falo assim mas com franqueza sou Flamengo pra chuchu (pergunte ao Babaú)/ Ser Flamengo é pra quem tem coração forte, /Pra quem não liga pra sorte/ Ao ver o Mário Vianna apitar um Fla-Flu./ Ser Flamengo é ir pro estádio ao meio-dia,/ Ficar com barriga vazia/ Sofrendo até o apito final./ É também ficar para estourar,/ Toda vez que o Flávio Costa, / Diz que o time vai melhora" . Flávio Costa, ex-técnico do Vasco e da seleção brasileira, era agora treinador do Flamengo. E Mario Vianna foi o juiz do jogo realizado em 14 de outubro de 1951, no qual o Flamengo perdeu de 1X0 pra o Fluminense, campeão carioca daquele ano. Um mês depois, realizava-se outro Fla-Flu, no qual o Fluminense venceu novamente por 1xO. Mas o árbitro, então, foi Alberto da Gama Malcher. Essa partida, aliás, foi o grande jogo da temporada, assistido pelo presidente Getúlio Vargas e seu sobrinho Vargas Neto, presidente do CND, do vice-presidente Café Filho, do prefeito do então Distrito Federal, João Carlos Vital e do chefe da casa civil da Presidência, embaixador Lourival Fontes.

Em 1953, surgiam, no Rio de Janeiro, no verde dos gramados e no asfalto da "avenida" (a pista dos desfiles do samba), duas forças avassaladoras: Mané Garrincha, "o anjo de pernas tortas" e a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, que, graças às instigantes peculiaridades que trouxe ao carnaval, logo se tornaria conhecida por seu jactancioso slogan: "nem melhor nem pior; apenas uma escola diferente".

O ano seguinte, por sua vez, é o ano do lançamento, em Recife, Pernambuco, do buliçoso coco Um a Um, de Edgard Ferreira, que lançaria nacionalmente o cantor, compositor e ritmista Jackson do Pandeiro, influência declarada de toda uma geração de artistas nordestinos. "Esse jogo não pode ser uma um/ se meu time perder, eu mato um" - diz o refrão do coco. E no desenvolvimento das estrofes, a alusão às cores dos principais times recifenses, Santa Cruz, Náutico e Sport Clube: "É encarnado, branco e preto/ é encarnado e branco/ é encarnado, preto e branco".

Era ano de Copa, desta vez disputada na Suíça. Os "cobras" Veludo, Rubens e Zizinho, acusados de "inadaptados" não são convocados para a seleção. E o Brasil é eliminado pelos húngaros, num jogo que terminou em grossa pancadaria, redundando, inclusive, na exclusão do juiz brasileiro Mário Vianna dos quadros da FIFA.

Dois anos depois, no subúrbio carioca de Padre Miguel, a afinada bateria que animava os jogos amadorísticos do Mocidade Futebol Clube, estrutura-se em escola de samba, fazendo surgir a gloriosa Mocidade Independente. E, lá adiante, num tempo em que ainda havia indústria fonográfica nacional, o cantor Roberto Silva gravava Tiradentes, de Mano Décio, Penteado e Estanislau Silva, samba-enredo apresentado em 1949 pela Império Serrano, o qual se tornaria o primeiro exemplar do gênero a ultrapassar as fronteiras das escolas de samba e a alcançar consagração popular.

Enquanto isso, Wilson Batista e Jorge de Castro lançavam o Samba Rubro-Negro: "Flamengo joga amanhã, eu vou pra lá/ Vai haver mais um baile no Maracanã/ O mais querido tem Rubens, Dequinha e Pavão/ Eu já rezei pra São Jorge/Pro Mengo ser campeão/ Pode chover, pode o sol me queimar/ Eu vou pra ver a charanga do Jaime tocar/ Flamengo, Flamengo, Sua glória é lutar/ Quando o Mengo perde eu não quero almoçar / Eu não quero jantar".

O "Rubens" a que a letra se refere era o meia-direita Rubens Josué da Costa, um dos maiores virtuoses de seu tempo, também conhecido como "Doutor Rubens". Sobre ele, escreveu Mário Filho : "Não andava como qualquer mortal. Levava um pé á frente, devagar, deixava-o pousar na calçada e, depois, trazia o outro, gingando o corpo, como se dançasse. Não era um samba, embora o corpo do Dr. Rubens balançasse num compasso de samba". A "charanga do Jaime", por sua vez, era um pequeno conjunto orquestral, uma bandinha, que, organizada em 1942 pelo chefe de torcida flamenguista Jaime de Carvalho, tornara-se, ao que se sabe, o primeiro grupo musical reunido profissionalmente para animar jogos de futebol no Brasil. A ela caberia, às vésperas do trágico final da Copa de 1950, a iniciativa de atacar a marchinha Touradas em Madri, de Alberto Ribeiro e João de Barro, com que o inebriado coro de milhares de torcedores comemorou a goleada do Brasil na Espanha

No início da euforia do governo de Juscelino Kubistchek - presidente do Brasil de 1956 a 1960 - em que se acelera o processo de internacionalização da economia brasileira, surge o menino Pelé, no mesmo Santos F.C. onde atuava o carioca Tite, que também se destacou como cantor e violonista. À época do surgimento do grande Pelé, o compositor Herivelto Martins, autor de grandes sucessos, lançava, na voz de Nelson Gonçalves, o samba Nega Manhosa, em cuja letra, o agente do discurso, saindo para o trabalho, acorda sua preguiçosa mulher para "fazer o café", dá as ordens e conclui: "Deixei embaixo do rádio uma nota de cinqüenta/ Vai à feira, joga no bicho, vê se te agüenta!/ Economiza, olha o dia de amanhã!/ Eu preciso do troco/ Domingo tem jogo no Maracanã/ (Do bate bola eu sou um fã)".

Em janeiro de 1958, Elizete Cardoso grava o samba Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinícius de Morais, o qual, após o registro de João Gilberto, feito seis meses depois, passa a ser considerado o deflagrador da revolução estética da bossa-nova. Entre uma gravação e outra, o Brasil conquista a Copa, pela primeira vez.

Saindo do Brasil para a Escandinávia com uma equipe titular na qual o único jogador preto era Didi a seleção brasileira, depois de convenientemente escalada, promoveria, segundo o historiador Nicolau Svecenko , o "encontro da modernidade com a ginga", através principalmente de Didi, Garrincha e Pelé, atletas artistas, egressos daquela parcela da população brasileira eternamente excluída e invisibilizada. Conquistada a Copa, o delírio que tomou conta do país gerou, entre outras, a marchinha A Taça do Mundo é Nossa, composta por Wagner Maugeri, Maugeri Sobrinho, Vitor Dagô e Lauro Muller - quase uma linha atacante. E deu ensejo, também, ao lançamento de um samba, cuja letra, depois de enunciar a escalação da equipe, e antes de descrever um lance de gol, dizia: " ... eis o escrete nacional/ Que vencendo a Suécia/ Com bravura e decisão/ Pode dar ao meu país/ O cobiçado título de campeão...". Este samba, provavelmente intitulado Reis do Futebol e supostamente de autoria do prolífico Wilson Batista, a ser realmente de sua lavra, anunciaria o final da carreira de um dos autores brasileiros que mais se ocuparam da temática futebolística, com obras como Rei Pelé; Mane Garrincha; Mais Uma Taça, além dos muitos já citados.

Mas voltando aos gramado ou, melhor, ao "tapetão" (como a verve popular denomina a sala de reuniões dos "cartolas", os dirigentes do futebol), vamos ver que, em meio a toda a alegria da Copa de 1958, Jean-Marie-Faustin Godefroid Havelange, conhecido apenas como João Havelange, assume a presidência da Confederação Brasileira de Desportos, depois Confederação Brasileira de Futebol, dirigindo-a até 1974 quando passa a ser presidente da FIFA, cargo que exerce até 1998.

No primeiro carnaval que se seguiu à conquista na Suécia, a então obscura escola de samba Beija-Flor de Nilópolis apresentava o enredo "Copa do Mundo", num momento em que, graças, principalmente, às esplendorosas exibições de Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro, o desfile das escolas já se tornava o maior espetáculo do carnaval brasileiro.


Diz aí!

Quinta-feira, Junho 29, 2006

CRAQUE É JOEL, O RESTO É QUASE TUDO PERNA-DE-PAU

Uma das amizades que mais nos honram é a de Joel Rufino dos Santos, historiador (mesmo) e escritor afro-brasileiro, suburbano, ex-guerrilheiro e...um tremendo craque da pelota - hoje, meio fora de forma aos 65 anos.

Joel foi "bola" de verdade. Inclusive, no exílio, na época da "braba" chegou - diz a lenda - até a ganhar, carregando um reluzente número 8 nas costas (como Didi, Dr. Rubens, Maneco, Zizinho), um troquinho defendendo uma aguerrtida equipe na terra do finado Allende.

Mas esse papo de futebol só entrou aqui, mesmo, por causa do clima. Porque o que nos interessa demonstrar é a "bola" que o Joel bate como escritor. E isso vem a propósito da relação de suas obras completas, que ele acaba de nos enviar, com vistas ao "Dicionário Literário Afro-Brasileiro" que a "fantástica fábrica de dicionários" aqui do Lote está produzindo. Vejam abaixo. Avaliem. E me digam se existe, mesmo ali naquele vetusto prédio da avenida Presidente Wilson onde se toma chá às quintas-feiras, algum brasileiro com mais "bola " que ele. Pode haver mais ou menos parecido. Porém, mais do que ele não tem, não! Vejam só.

JOEL RU­FI­NO DOS SAN­TOS - Es­cri­­tor bra­si­lei­ro nas­ci­do no Rio de Janeiro, em 1941. Co­nhe­­cido a par­tir dos ­anos de 1960, quan­do par­ti­ci­­­pou da ela­bo­ra­ção da re­vo­lu­cio­ná­ria co­le­ção de li­vros di­dá­ti­cos dufundida co­mo História No­­va, foi, por es­se tra­ba­lho e por sua atuação política, várias vezes re­co­lhi­do aos cár­ce­res da di­ta­du­ra mi­li­tar ins­ti­tuí­da no Brasil em 1964. Mais tar­de, fluen­te em vá­rias for­­­mas de ex­pres­são es­cri­ta, do li­vro di­dá­ti­co ao ro­man­ce his­tó­ri­co, pas­sou pe­lo tea­tro, pe­los ro­tei­­ros de te­le­vi­são e pela li­te­ra­tu­ra in­fan­til. Pro­fes­sor da Escola de Comunicação da Uni­versidade Fe­deral do Rio de Janeiro (­UFRJ). Obra publicada: I) Literatura infantil e juvenil editada em livros: El sabor de África ¿ Historias de aquí y de allá. Tradução: Lourdes Hernández Fuentes. México: Global, 2003; Duas histórias muito engraçadas.São Paulo: Moderna, 2002. 2ª edição 2003; O saci e o curupira e outras histórias. São Paulo: Ática, 2002; O presente de Ossanha. São Paulo: Global, 2000; Gosto de África.São Paulo: Global, 1998. 3ª edição 2001; O burro falante. São Paulo: Moderna, 1991. 11ª edição, 1997; Mania de trocar. São Paulo: Moderna, 1991.21ª Edição, 1997; O grande pecado de Lampião e sua peleja para entrar no céu. Rio de Janeiro: Antares, 1987; História de Trancoso. São Paulo: Ática, 1987. 11ª Edição, 1999; Dudu Calunga.São Paulo: Ática, 1986. 5ª Edição, 1997; Rainha Quiximbi. São Paulo: Ática, 1986. 4ª Edição, 1997; Cururu virou pajé. São Paulo: Ática, 1984; O saci e o curupira. São Paulo: Ática, 1984. 9ª Edição, 2000; A botija de ouro. São Paulo: Ática, 1984.7ª Edição, 1999; Uma festa no céu. Belo Horizonte: Miguilim, 1982.5ª Edição, 1995; Ipupiara.São Paulo: Moderna, 1985.5ª Edição, 1989; O soldado que não era. São Paulo: Moderna, 1983. 31ª Edição, 2000; Quatro dias de rebelião. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980.2ª Edição, São Paulo: FTD, 1992. O noivo da cutia. São Paulo: Ática, 1980. 9ª Edição, 1998.A pirilampéia e os dois meninos de Tatipurum. São Paulo: Ática, 1980. 13ª Edição, 2000.O curumim que virou gigante. São Paulo: Ática, 1980. 10ª Edição, 2000; Uma estranha aventura em Talalai. São Paulo: Pioneira, 1979.8ª. Edição, São Paulo: Global, 1998; O curupira e o espantalho.São Paulo: Abril, 1978. Abril /Instituto Nacional do Livro, 1979; Aventuras no País do Pinta-Aparece. São Paulo: Abril, 1977. São Paulo: Círculo do Livro, 1982. Marinho, o marinheiro.São Paulo: Abril, 1977. São Paulo: Círculo do Livro, 1982; O caçador de Lobisomem. São Paulo: Abril, 1976. 9ª Edição, Rio de Janeiro: Salamandra, 1986. II ) Literatura infantil e juvenil publicada em revistas: 1 -Revista Recreio, São Paulo: Marinho, o marinheiro; Aventuras no País do Pinta-aparece;O teiú; O roceiro que tinha mania de trocar; O burro falante e o fazendeiro ambicioso;A história do saci;Os índios que não sabiam dançar; O pônei voador; A inacreditável história da capivara de ouro;O bicho misterioso;O cavalinho branco do sorriso azul; O jacaré que comeu a noite;A famosa gaita do senhor macaco;O bicho engolidor; A harpa eólia; Dessas histórias, algumas foram publicadas também nas revistas Colorin (Espanha), Recreo (Argentina), Carosello (Itália) no período 1968-1974; 2 --Revista Nova Escola, São Paulo ( março a dezembro 1993): A sagrada Família; O leão do Mali; As pérolas de Cadija; Bumba-meu-boi; O príncipe tatu; O presente de Ossanha; A casa da Flor; Bonsucesso dos pretos; O filho de Luísa. 3; Revista Ciência Hoje nº 5 - SBPC, São Paulo:A gaiola e a pistola dourada; III -Literatura infantil e juvenil publicada em livro acompanhado de disco: Editora Abril, Coleção Taba Brasileira - Histórias e Músicas Brasileiras, São Paulo, 1983: A salamanca do jarau; O mistério de Zuambelê; A flauta de Pan; Marinho, o marinheiro; IV - Literatura infantil e juvenil publicada em áudio-livro: Robin Hood - tradução e adaptação. São Paulo: Scipione, 1995, 19ª edição; V- Coletânea: 1 Como nasceu a primeira mandioca, in Contos, lendas e mitos da América Latina, São Paulo: UNESCO et alii, 1981; in Cuentos , Leyendas y Mitos para Niños de America Latina, UNESCO, 1991; VI- Não-ficção para jovens: Quando eu voltei tive uma surpresa (cartas para Nelson), Rio de Janeiro: Rocco, 2000; Quem fez a República? São Paulo: FTD, 1989; Constituições de ontem, Constituinte de hoje; São Paulo: Ática; Zumbi dos Palmares; São Paulo: Moderna, 1985; ª; Edição, 1988; O que é racismo; São Paulo: Brasiliense, 1980; 15ª edição, 1987; VII - Livros didáticos: Histórias, história (primeiro grau, 4 volumes). São Paulo: FTD, 1992; História do Brasil (segundo grau); São Paulo: FTD, 1991; São Paulo: Marco Editorial, 1980; VIII ¿ Co autoria: História Nova do Brasil (7 volumes); Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro, 1963; São Paulo: Brasiliense, 1967; IX - Ficção para adultos: Crônica de indomáveis delírios. Rio de Janeiro: Rocco, 1991; Épuras do social. São Paulo: Global, 2005; X - Não-ficção para adultos: Missão do Ministério da Cultura; Rio de janeiro: Edições Fundo Nacional de Cultura, 2002; Paulo e Virgínia- o literário e o esotérico no Brasil atual. Rio de Janeiro: Rocco, 2001; A questão do negro na sala de aula. São Paulo: Ática, 1990; História política do futebol brasileiro. São Paulo: Brasiliense, 1981;O dia em que o povo ganhou. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979; São Paulo: Círculo do Livro, 1981; A república: campanha e proclamação; Rio de Janeiro: JCM Editores, 1970; (Pseudônimo: Pedro Ivo dos Santos); O renascimento, a reforma e a guerra dos trinta anos. Rio de Janeiro, JCM Editores, 1970 (Pseudônimo : Pedro Ivo dos Santos); Épuras do social: Como podem os intelectuais trabalhar para os pobres; São Paulo, Global, 2004; XI - Co-autoria: Atrás do muro da noite. Brasília: Ministério da Cultura, 1991; Mataram o presidente. São Paulo: Alfa-Ômega, 1996; XII - Coletâneas: Para entender o Brasil. São Paulo: Alegro, 2001; A bioética e o Brasil. In Bioética no Brasil; Rio de janeiro: Espaço e Tempo, 1999; Como me apaixonei por livros. In A formação do leitor: Pontos de vista; Rio de Janeiro: Argus, 1999; Bola Brasilis; In Brasil Bom de Bola - edição trilingue; São Paulo: Tempo e Imagem, 1998; Antes do Plebiscito. In Defesa do Presidencialismo; Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1993; XIII- Traduções: A colonização alemã no Espírito Santo. Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1968; Filho de Ladrão (Hijo de Ladrón - Manuel Rojas, 1951). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.


Diz aí!

Terça-feira, Junho 27, 2006



PAULINHO, VOCÊ NÃO PRECISA PEDIR LICENÇA!

"Em primeiro lugar, é bom lembrar que o iê-iê-iê foi um dos mais indigentes movimentos musicais da história do mundo. Acho absurdo um músico egresso desse movimento dar qualquer tipo de opinião sobre a obra de Chico Buarque, Caetano Veloso, Djavan, Cartola, Martinho da Vila e outros. Acho que eles são colocados nesses postos de direção para serem talvez mais manipuláveis pelo big boss lá de fora." (Paulinho Albuquerque, Direitos Já, jornal da AMAR, nov-dez. 1998, sobre alguns executivos de gravadoras)

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Duvido que alguém aí na platéia possua uma coleção de bonés do "Meyer, The Hatter", de New Orleans como a que eu tenho! E que haja um sambista de escola de samba aí que seja parceiro de Fátima Guedes, Guinga, João Bosco, Zé Renato, maestro Moacyr Santos; e já tenha cantado em dupla com o Chico e sido gravado por ele, por Djavan, Ed Motta, Gil, Milton etc!

Duvide-o-dó que alguém aí já tenha roteirizado e apresentado um show no CCBB, mostrando o que vai nas escolas além do samba; e que já tenha ciscado naquele palco de excelência as diversas formas de samba que cultivamos! Duvido, mais, que algum de vocês aí já tenha feito um CD cantando seus próprios sambas junto com as maiores estrelas (mesmo) da verdadeira música popular brasileira. E tenha gravado um vinil (que depois virou CD duplo) através de um contrato tão juridicamente perfeito que, depois de o "break-even" (estimativa ideal de vendas) não atingido, a multinacional sucessora da gravadora contratante teve que entregar as matrizes.

Duvido finalmente que algum de vocês aí tenha tido um amigo tão grande, carinhoso e importante quanto foi para mim Paulo Roberto Medeiros e Albuquerque, o Paulinho Albuquerque que ontem, 26 de junho, nos deixou. Pois foi ele que, direta ou indiretamente me proporcionou tudo isso aí em cima.

Paulinho é mais um guerreiro que se vai. Para ser recebido, lá na outra Dimensão, por todos aqueles santos que fizeram sua cabeça, além dos amigos que foram na frente, como Lena Frias, Roberto M. Moura e tantos outros.

Aí, imagino o Paulinho entrando no Céu, com aquela cara de John Lennon, o humor inglês mascarando a timidez enrustida:

- Dá licença, São Pedro?

Só que, então, em vez de São Pedro, vem aquele monte de sambistas da antiga, de partideiros geniais, de sanfoneiros de zydeco, blueseiros, músicos das brass-bands e dos social & aid clubs de New Orleans; aquela tonga de congueiros cubanos... Aquele montão de crioulos, carinhosos e sem nenhum traço de humildade ou subserviência, abrir a porta para o bacharel e produtor musical e imenso amigo, mandando aquela de Manu Bandeira:

- Qualé, Paulinho? Você é nosso! E nunca precisou pedir licença!...

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PS - Pena eu tenho é do Antunes, o mordomo português que atendia o telefone quando Paulinho não estava. Tá desempregado, coitado! E patrão igual àquele...


Diz aí!

Segunda-feira, Junho 26, 2006

NOITE FRIA, TÃO FRIA DE JUNHO

"Olha pro céu, meu amor,
Vê como ele está lindo..."
(José Fernandes e Luiz Gonzaga)

Noite fria, tão fria de junho, os balões lá no céu sumindo, e os baloeiros, aqui em baixo no terreno baldio do Pau-Ferro, apreensivos, preocupados com a Defesa Civil. Eles dão os últimos retoques no grande balão tangerina (o pião, o caixa e o cara, já foram) de 15 metros de altura, que gastou 250 folhas de papel fino.

Valdemar Carvoeiro está lá dentro da armação com um maçarico, que vai enchendo o pião de ar quente, pra ele tomar forma. E aqui fora, Zezé, Tichico, Biguá, Carlinho Truta, Birreco, Zezinho e os garotos começam a acender as 750 lanternas. Cabo Dayr, habilidoso e inteligente como ele só, já acendeu e vai encaixar a bucha de mais de 10 quilos. E a rapaziada vai soltando as cordas...

Noite fria de junho, o balão vai subindo, e a quadrilha come solta. O francês foi pro cacete: o en avant virou anavã; o en arrière é anarriê e o chaine des dames virou chã de dama... Mas, tudo bem! Coroné Agostinho Silva na sanfona, é meia festa garantida.

Só que a quadrilha de hoje vai até agosto e é bem diferente daquele tempo. As meninas vestem roupas tipo destaque de escola de samba e os rapazes usam botas, bombachas, avental de gaúcho e chapelões de caubói - tudo com muito vidrilho e lantejoula. Mas é bonito ver a encenação da Frevo Mulher, na Vila Aliança; ou das Blecotinhas, nos arraiais daqui e de Bangu, Realengo, Irajá, Ilha... Afinal, tudo muda, não é mesmo? E já tem até um arraiá "gaypira" em Padre Miguel.

Noite fria, tão fria de junho, vem caindo a garoa, e o Adilson vai vivendo o seu primeiro amor.

Tudo começou no primeiro ensaio da quadrilha. Compadre Varisto foi formando os pares e a dama dele foi a Lurdinha, graças a Deus!

No primeiro anavã, o coraçãozinho dele deu um solavanco. E no anarriê, já estava completa e irremediavelmente flechado por aquele anjinho de cabelos anelados.

- Que casalzinho bonitinho! Como eles combinam! Parecem até irmãos, que gracinha!

E tome-lhe anavã, anarriê, balancê, tu, chã de dama, coroa de flores... E tome-lhe de balão-beijo, pamonha, pé-de-moleque... O coraçãozinho dele ardendo na fogueira e farfalhando as bandeirinhas.

Mas mesmo acabado o São João, o fogo não baixava nem apagava. E ficava cada vez mais alto, difícil de assar batata doce. Foi aí que deu aquela baita vontade de escrever: "Sonhei que me esperavas e sonhando, / Fui ansioso por te ver. Corria..."

- Tá doente, rapaz? Verso é coisa de mariquinha!

Tava doente, sim. Mas era uma doença gostosa, uma sensação até boa. E duvido que exista mulher que resista a um verso. E ela gosta de você, também. Tá na cara! Não vê como ela te olha ?!

Elazinha também tinha sido flechada. Mas aquele papel perfumado, com aquela letra bonita...

- Lurdinha, você leu o verso?

- Não li e não gostei!

- ?!

- Rasguei e piquei o papel em um montão de pedacinhos.

- Mas... Lurdinha... toda menina gosta de versos...

- Mas eu não gosto!

Pálido, trêmulo, Adilson agora queria tudo menos ficar ali. Mas as pernas não entendiam nada e ele muito menos. E o pior é que elazinha, coitada, foi ficando vermelha, trêmula também, até explodir num choro intenso e convulso, trágico e apaixonado, mistura de revolta e frustração.

Lurdinha gostava muito do Adilson. E gostava de verso, sim. Só que Lurdinha, tadinha, não sabia ler.

(Nei Lopes - in Guimbaustrilho e Outros Mistérios Suburbanos)


Diz aí!

Sexta-feira, Junho 23, 2006



LEÔNIDAS ALMOÇOU FEIJOADA E COMEU A BOLA

Permitam-nos dar uma rapidinha! É que, no meio dessa coisa de craque gordo, pesado etc, releio aqui a biografia de Leônidas da Silva, o Diamante Negro (já, já informo o autor, um jornalista de São Paulo) e me deparo com um fato muito engraçado.

É que num dia de jogo entre as seleções carioca e paulista, nos anos 30, ele, estreante, sabendo-se preterido na escalação, despreocupou-se: foi ao baile no sábado, jogou uma pelada de manhã, almoçou feijoada e foi pro campo ver o jogo.

Para sua surpresa, entretanto, o titular estava machucado. Aí, às pressas, ele teve que descer da arquibancada onde estava, ir pro vestiário, trocar o terno pelo uniforme e entrar em campo.

O primeiro tempo foi meio devagar. Digestão e coisa e tal. Mas, no segundo, o Diamante Negro comeu a bola, fez dois gols e a seleção carioca jantou a da Garoa.

Parece que foi aí que nasceu a "virada à paulista" (ops!). Desculpem, amigos e amigas de Sampa.


Diz aí!

Segunda-feira, Junho 19, 2006

CICINHO! CICINHO! CICINHO!

Estamos nós no Convenção de Genebra, o point aqui perto do Lote, assistindo o jogo do Brasil em preto e branco - entre chuviscos, verticais e horizontais do aparelho, que o Seu Haroldo tenta consertar aos tapas. O torresmo está frio e duro, a Belko está meio quente, mas, pela Seleção, vale a pena!

O que não vale é esse velho caduco e desdentado, berrando a todo momento: Cicinho! Cicinho! Cicinho!

É claro que o Fenômeno já era. Mas tem o Cacá, o Robinho, o Fred, garotada boa. Então, esse velho chato não tem nada que ficar gritando, a voz roufenha: Cicinho! Cicinho! Cicinho!

Até que o Brasil mete lá o primeiro gol, os fogos espoucam, Cometa, meu cão fiel e quase filho, se espanta; a égua sem orelha do Ailton dá uns pinotes. De alegria, claro! E o velho insiste: Cicinho! Cicinho! Cicinho!

Duas, três Belko (ou Itaipava?) , já estou quase perdendo a paciência. Mas o "Fenômeno" sai, o time melhora e o Brasil faz o segundo.

Foguetório, abraços, latidos do Cometa, pinotes da égua do Ailton... e o velho continua: Cicinho! Cicinho! Cicinho!

Aí, perdoem leitores, mas perco as estribeiras e chamo o velho na chincha:

- Ô Zé Mané, tu veio aqui só pra zonear é?

No que ele replica:

- "Sonear" o quê, "amiçade"? Eu sou do tempo do "Xeneral Cenóbio"; do "Cé Trintáti", da "Cecé Maceto", da "Célia Hoffman", do "Sócimo Parroço do Amaral". E no meu tempo, jogador mesmo era o "Cicinho".

O velho, coitado, tinha um problema de fala. E, já caducando, cismou que quem tinha que entrar era meu saudoso amigo Tomás Soares da Silva, o Zizinho, o maior craque brasileiro antes de Pelé. No que não deixava de ter uma certa razão.


Diz aí!

Quinta-feira, Junho 15, 2006



SARITA , LA VIOLETERA , Y YO

Por um desses acasos da pesada, dia seguinte ao jogo da Croácia, o Velhote aqui, dá de cara, numa loja de CDs do edifício Menezes Cortes, com um DVD chamado Samba. Trata-se de "um filme que celebra toda a sensualidade e alegria do samba carioca, com a belíssima atriz e intérprete Sara (na intimidade, Sarita) Montiel", celebrizada como La Violetera.

O filme, mistura de dramalhão mexicano ou espanhol com chanchada carioca, conta a história de um nobre bilionário, descendente do legendário contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, morador num tremendo palácio em Petrópolis e loucamente apaixonado como uma cantora, Laura.

Na primeira cena do filme, ele sobe a suntuosa escadaria do Municipal, chega ao balcão - nobre como ele - e a vê, cantando, de vestido de suarê - claro! - o samba-canção Caminhemos, do Herivelto, numa versão em espanhol (talvez de autoria do Juan Carlos, viu, Doutor Garcez?). Fica puto, louco de ciúmes, pois Laura canta pra ele, tipo "tô fora" porque tem um caso com o personagem vivido pelo ator Carlos Alberto (lembram, aquele da Ioná?) que observa a interpretação, todo prosa, da coxia. Mas Laura tomba morta, em pleno palco, depois dos delirantes aplausos da seleta platéia, com três tiros desfechados, num tresloucado gesto, pelo nobre milionário, tomado de violenta emoção.

Acontece que Laura tem uma sósia perfeita, moradora num bucólico e sossegado morro da Tijuca, chamado Salgueiro. Uma sósia, que por incrível que pareça, se chama "Belén", namora um pé-rapado e tem uma avó macumbeira, que fuma cachimbo.

Mas o caso é que o nobre, depois de matar Laura, pira. E, esquecendo que ela morreu, resolve transformá-la numa nova Xica da Silva, e toca de procurá-la.

Seus capangas acham Belém e armam uma jogada: sabem que a escola do morro do Salgueiro vai sair com esse enredo; então, resolvem comprá-la (a escola), impondo Belém como a interprete da Xica na avenida, em troca de muitas verdinhas.

Por trás dessa armação, entretanto, existe outra: os bandidos querem se servir da Xica e da escola para levarem para a Europa, onde estão armando um desfile, um vultoso contrabando de pedras preciosas, naturais de Diamantina, que serão as substitutas das pedras de araque que Xica e seu séqüito vão levar nas fantasias.

Mas tudo se frustra, graças a São Sebastião, nosso padrinho, em nome da Lei, da ordem, da moral e da disciplina salgueirenses.

Mas o melhor de tudo, nesse samba do cinegrafista doido, é que, em maio a números musicais em que Sarita, gostosona, canta Copacabana, do alto do Corcovado; Isso aqui, ô, ô, entre iaôs e capoeiristas na Bahia; Aquarela do Brasil, saindo do mar vestida de Iemanjá etc, aparecem varias cenas no velho morro do Salgueiro, no ano de 1963 ou 64.

Voltamos a ver, então, a sede e o terreiro onde a escola ensaiava; o barracão de madeira, branco com ripinhas vermelhas onde a diretoria se reunia, lá em cima na rua Potengi nº 80. E revimos, novinhas em folha, figuras como o grande líder Casemiro Calça Larga; Bira e Ernesto, diretores de bateria; Arlindo Bigode, passista, que depois foi um dos Originais do Samba; Tia Zezé e Tia Neném, saudosas baianas; Osmar Valença... E vimos Ciro Monteiro, como presidente dos Acadêmicos; Grande Otelo; Zeni Pereira...E vimos a cena final, do desfile da escola, cantando Chica (ou Xica) da Silva, filmada ali na rua da Imprensa, entre o prédio do MEC e do MTPS, numa noite de um dia útil, se não nos falha a memória.

Por incrível que pareça, senhores, nós estávamos lá, apesar de não possuirmos grande beleza. E só não aparecemos no filme porque a coisa foi se arrastando, se arrastando, naqueles "claquete!"; "ação", "corta!". Aí, nós, de fantasia e tudo, fomos saindo de fininho, que amanhã era dia de branco e os simpáticos lusitanos da fábrica de sabão, embora conterrâneos do João Fernandes, não eram muito chegados ao samba, mesmo o da escola campeã daquele ano, nem à Sétima Arte. E o cartão de ponto (créu) comia solto.

Então, já viu né !? La Violetera hoje é apenas um DVD na minha tela (sem plasma). E a saudade dói, dói, dói...


Diz aí!


FUTEBOL E MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
Do amadorismo à economia globalizada

Parte 5


São Januário e "Um a Zero"

Chegada a década de 1940, o DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda do governo Vargas já mantém laços estreitos com o samba, inclusive promovendo concursos e festivais nos quais incentiva os sambistas a cantarem a ordem e o trabalho no lugar da orgia e da malandragem. É nesse quadro histórico que o grande compositor Wilson Batista, malandro assumido e flamenguista de assistir até treinos de seu time querido, compõe, em parceria com Ataulfo Alves, o samba O Bonde São Januário. Conhecida por ser a principal via de acesso ao estádio do Vasco da Gama, a rua de São Januário até hoje se confunde com o clube da colônia portuguesa. Então, segundo a lenda, Wilson teria concluído a letra do samba com versos virulentos, que diziam: "O bonde São Januário/ leva um português otário/ pra ver o Vasco apanhar". Tal letra, obviamente, teria desagradado ao DIP, que, segundo a tradição, teria obrigado o compositor a reescrevê-la, na forma em que ficou conhecida: "O bonde São Januário/ leva mais um operário/ sou eu que vou trabalhar".

Verdade ou lenda a versão sobre a letra ofensiva, provavelmente uma paródia anônima, surgida depois, o fato é que o samba fez grande sucesso no carnaval de 1941, ano, aliás, em que um decreto do Estado Novo criava o Conselho Nacional de Desportos e determinava a absorção da Federação Brasileira de Futebol pela Confederação Brasileiras de Desportos, CBD.

No ano seguinte a essa federalização do futebol brasileiro, o cantor Moreira da Silva gravava o samba Fui a Paris, com letra de Ribeiro Cunha, co-autor, também, de Jogo Proibido, Na Subida do Morro e outros clássicos do estilo conhecido como samba-de-breque, falecido em 1991 aos 90 anos de idade. Curioso é que os pesquisadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello atribuem a autoria do primeiro samba citado a "Roberto Cunha, ponta-direita do Flamengo e do São Cristóvão, que chegou a titular da seleção brasileira, atuando no Sul-Americano de 1937 e na Copa do Mundo de 38, quando marcou o gol da vitória do Brasil contra a Tchecoslováquia". Trata-se, entretanto, ao que parece, de equívoco dos laboriosos pesquisadores, já que o futebolista, Roberto Emílio Cunha, segundo a Enciclopédia Delta Larousse, teria nascido em 1913, na cidade de Niterói.

Voltando, então, ao Estado Novo, vamos ver que no triênio que se fecha em 1944, o Flamengo sagra-se campeão carioca. Nesse momento, segundo as memórias do grande craque Zizinho , faziam parte da "família rubronegra" e freqüentavam a sede e o estádio do Flamengo, grandes figuras da música popular como Ciro Monteiro, Patrício Teixeira, João Petra de Barros, Ataulfo Alves, Wilson Batista e até mesmo Sílvio Caldas, que era torcedor do América. No início da vitoriosa campanha, os jogadores Nandinho, Pirilo e Vevé gravam o samba Coisas do Destino de Wilson Batista, cuja letra dizia: "Este ano eu vou perder. Mas deixar de ser Flamengo não pode ser". E o mesmo Wilson, flamenguista fanático, agora em parceria com Antonio Almeida expunha suas preocupações no samba E o Juiz Apitou: "Eu tiro o domingo pra descansar mas não descansei que louco fui eu. Regressei do futebol, todo queimado de sol, e o Flamengo perdeu pro Botafogo. Amanhã vou trabalhar meu patrão é vascaíno e de mim vai zombar. Foram noventa minutos que eu sofri como um loco até ficar rouco. Nandinho passa a Zizinho, Zizinho serve a Pirilo, que preparou pra chutar. Aí o juiz apitou o tempo regulamentar/ que azar".

Só dava Flamengo! Mas já sem Leônidas que, na noite do Ponto Chic, célebre reduto boêmio da Paulicéia, ao lado de sua loira Iracema, ouvia meio chateado o samba composto por seu camarada Nilo, sambista dos bons: ".../ a turma lá do Ponto/ fica com água na boca/ por meu tipo ser mulato/ e ela uma coisa louca" . E, nas bocas cariocas, o jogador Quirino, de atuações meio irregulares, ganhava o epíteto de "Pé de samba", provavelmente em alusão a Pé de Valsa, "half" direito do Fluminense na mesma década.

No campeonato que se segue à conquista rubronegra, começa a brilhar a estrela do América Futebol Clube, cujo trio atacante, composto, então, por Maneco, César e Lima, vai ganhar, principalmente pelo virtuosismo do primeiro, driblador habilíssimo, cognominado "o Saci de Irajá" (bairro suburbano onde vivia) o apelido de "Tico Tico no Fubá", em referência ao buliçoso e ritmadíssimo chorinho do pianista Zequinha de Abreu. Mais tarde, o "Tico Tico", agora com Maneco, Dimas e Ranulfo, mereceria, em alusão a um jogo realizado em julho de 1951, a seguinte afirmação de Mário Filho : "Os uruguaios (...) não gostaram nada do baile que o América deu no Peñarol. (...) Os mulatos e pretos do América (...) , jogando como se dançassem em campo, o chorinho de Zequinha de Abreu".

Mas no campeonato de 1945 quem leva tudo de roldão é o "Expresso da Vitória", epíteto pelo qual foi conhecido o time do Vasco da Gama. E a torcida vascaína cantava os versos debochados de Wilson Batista e Augusto Garcez: "Vamos lá que hoje é de graça do boteco do José/ entra homem entra menina/ entra velho, entra mulher/ é só dizer que é vascaíno/e que é amigo do Lelé" . O Vasco foi campeão com a linha atacante Djalma, Lelé, Isaías e Chico. E Lelé foi o artilheiro do campeonato, com 13 gols.
Infelizmente, entretanto, o "Expresso" sai dos trilhos, chegando em quinto lugar no ano seguinte. Mas o Flamengo, já seu maior rival, também não está bem. E, aí, Araci de Almeida grava de Wilson Batista e Geraldo Gomes, Memórias de um torcedor samba cuja letra, cheia de referências elogiosas ao time rubro-negro campeão carioca de 1927, diz : "Eu hoje vim da Gávea tão cansada/ estou com a cabeça inchada/ pois o Flamengo voltou a perder. /Confesso que tristeza em mim é mato/ pois lembro daquele tempo do Amado, / Élcio Pena e Moderato".

Nesse mesmo ano de 1946, em excursão do Flamengo a Salvador, Bahia, Zizinho trava amizade com os cantores Dircinha Batista e Manezinho Araújo. Juntos, e mais Perácio, Adilson e Tião, vão a um candomblé, numa visita que foi marcante na vida espiritual do craque.

Enquanto isso, no Rio, no ano seguinte, um grupo de estivadores funda a escola de samba Império Serrano, a qual, a partir daí, e durante mais de duas décadas, vai, juntamente com Mangueira, Portela e depois Salgueiro, dividir as preferências dos sambistas cariocas, da mesma forma que Vasco, Flamengo, Fluminense e Botafogo já dividiam as predileções dos torcedores de futebol.
Fechando a década de 1940, Pixinguinha lança o chorinho Um a Zero, feito em parceria com Benedito Lacerda, o qual nos anos 90, iria receber, do músico mineiro Nelson Ângelo, a seguinte letra: "Vai começar o futebol, pois é/ Com muita garra e emoção/ São onze de cá, onze de lá/ É o bate-bola do meu coração/ É a bola, é a bola, é a bola/ É a bola e o gol/ Numa jogada emocionante/ Nosso time venceu por um a zero/ E a torcida vibrou.../ Vamos lembrar a velha história desse esporte/ Começou na Inglaterra e foi parar no Japão/ Habilidade, tiro cruzado, mete a cabeça, toca de lado/ Não vale é pegar com a mão/ E o mundo inteiro se encantou com esta arte/ Equilíbrio e malícia, sorte e azar também/ Deslocamento em profundidade/ Pontaria na hora da conclusão/ Meio de campo organizou/ E vem a zaga rebater/ Bate e rebate de primeira/ Ninguém quer tomar um gol/ É coisa séria e é brincadeira/ A bola vai e volta e vem brilhando no ar/ E se o juiz apita errado é que a coisa fica feia/ Coitada da sua mãe/ Mesmo sendo uma santa cai na boca do povão/ Pode ter até bolacha, pontapé, empurrão/ Só depois de uma ducha fria é que se aperta a mão, ou não/ Aos quarenta do segundo tempo o jogo ainda zero a zero/ E todo time quer ser campeão/ Tá lá um corpo estendido no chão/ São os minutos finais, vai ter desconto/ Mas numa jogada genial, aproveitando um lateral/ Num cruzamento que veio de trás/ Alguém chegou, meteu a bola na gaveta e comemorou..."


Diz aí!

Sábado, Junho 10, 2006



SAMBA DA VELA ME ACENDE. DE VERDADE.

Tomando aqui umazinha antes do jogo Trinidad-Tobago e Suécia (sem saber por quem torcer...), boto na vitrola o disco da Comunidade Samba da Vela.

Que pancada, mermão!

Manja aqueles discos, tipo Velha Guarda da Portela em 1970 (com o som de hoje), todo mundo cantando aqueles sambões melodiososos, em uníssono, soltando a voz? Arrepiou. Mesmo.

Ganhei de presente do meus amigos do Quinteto em Branco e Preto. E quem não sabe do que se trata - a comunidade e o samba da vela - clique aqui e acesse o site.

Numa dessas, não tem Suécia que agüente. Já sei por quem vou torcer.


Diz aí!




O IRAJÁ NA UNESCO. E NA ONU TAMBÉM.

Sob os auspícios da ONU e da UNESCO e com a presença de chefes de Estado africanos e caribenhos, de 12 a 14 de julho próximo, a cidade de Salvador, BA, vai sediar a 2ª CONFERÊNCIA DE INTELECTUAIS DA ÁFRICA E DA DIÁSPORA - a primeira realizou-se em Dacar, Senegal, em 2004.

Uma das mesas-redondas do encontro intitula-se "As línguas africanas no sistema de ensino". E nela, na condição de autor do Novo Dicionário Banto do Brasil e da Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, o Velhote do Lote figura como "convidado especial".

Olha aí, Carmo! Vou estrear aquele agbadá esperto que a gente comprou na Mamãe África, na Praça da República paulistana.

É isso aí! Ê Irajá!

OBS.: Quem não sabe o que é agbadá, veja o verbete "ABADÁ" da Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. Mas não confunda com camiseta de carnaval.


Diz aí!

Quinta-feira, Junho 08, 2006



Diz aí!


FUTEBOL E MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
Do amadorismo à economia globalizada

Parte 4

Nascem as Escolas, Morre Fausto


A partir da primeira Copa do Mundo, realizada em Montevidéu e vencida pelo Uruguai, o futebol começa a se tornar, no Brasil, um espetáculo, uma arte popular como a música. E, para isso trabalhou decisivamente a Revolução de 1930, que marca o triunfo do capitalismo, a consolidação das leis trabalhistas, o fortalecimento do Estado, e cujos líderes, à frente Getúlio Vargas, souberam como nunca usar habilmente futebol e música popular como instrumentos de controle e subordinação das massas trabalhadoras.

Em 1932, ano seguinte ao da disputa da Taça Rio Branco entre as seleções do Brasil e do Uruguai, o jornal O Mundo Esportivo, por iniciativa de Mário Filho - que hoje empresta seu nome ao principal estádio de futebol brasileiro, o popular Maracanã - promove o primeiro desfile de escolas de samba, espécies de agremiação surgidas na década anterior. Nesse mesmo ano, em que, no Rio, a Marinha unifica todas as suas bandas de música para formar a portentosa Banda dos Fuzileiros Navais, celeiro de tantos músicos virtuosos, a Orquestra de Romeu Silva exibe-se nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, nos quais, ao que parece, o futebol não teve vez.

Dois anos depois, o Vasco da Gama sagra-se campeão pela Liga Carioca de Football (pela Associação Metropolitana, foi o Botafogo), tendo como "goal-keeper" o elegante Rei que, segundo comentários da época, teria sido o grande amor da cantora Araci de Almeida, notável intérprete da obra do imortal compositor Noel Rosa.

Às vésperas da segunda Copa do Mundo, realizada na Itália, chegava-se, finalmente, para desgosto dos puristas "olímpicos", à adoção do regime profissional no futebol. E, no rádio brasileiro, também profissionalizado, a atividade musical já atrai uma nova geração de compositores, oriundos da classe média, como Noel, Almirante, Braguinha, Alberto Ribeiro e Ari Barroso, o qual passa a atuar também como locutor esportivo. Nas transmissões de futebol, Ari, mais tarde celebrizado como autor da Aquarela do Brasil, ficaria famoso por usar uma gaitinha de brinquedo toda vez que era marcado um gol e pela sua total parcialidade a favor do Flamengo. Mais tarde, como vereador, foi um dos grandes defensores da construção do Estádio do Maracanã.

A chegada dessa classe média ao ambiente radiofônico era celebrada, por alguns, com euforia. Como exemplo, observe-se esta afirmação de Osvaldo Santiago, jornalista, compositor e depois dirigente autoral, legendando uma fotografia, na edição de 31 de outubro de 1935 da coluna Broadcasting que assinava na revista carioca O Malho: "Os sambistas são tidos geralmente como sujeitos mal vestidos e mal encarados. Na realidade, porém, a classe está cada vez mais limpa e elegante. Paulo de Frontin Werneck, cantor e autor de sambas românticos, é o moço alinhado que o clichê indica. Ele acaba de gravar por Mário Reis o samba 'Quando Meu Amor Morreu', uma peça digna do êxito que está obtendo".

Em 1937, o Clube de Regatas Vasco da Gama inaugura seu estádio, o qual, com capacidade para 50 mil espectadores, passa a servir também como o grande anfiteatro das manifestações cívicas e populistas do governo de Getúlio Vargas. Governo que, através da Prefeitura do Distrito Federal, já tinha avalizado as até então proscritas agremiações do samba. E esse reconhecimento ocorreu no mesmo ano em que Noel Rosa e Vadico, no samba "Conversa de Botequim" cantavam: "Seu garçon (...)/ fecha a porta da direita com muito cuidado, / que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol/ vá perguntar ao português do lado,/ qual foi o resultado do futebol".

Com o terceiro lugar na Copa do Mundo da França, começava a afirmação do futebol brasileiro. E, de mãos dadas, a bola e a canção popular faziam nascer os dois primeiros grandes ídolos de massa no Brasil, Leônidas da Silva e Orlando Silva, ambos portadores do sobrenome que ainda hoje identifica a maioria dos despossuídos no país.

Para os negros e pobres, a profissionalização, tanto na música popular quanto no futebol representaram, a partir da década de 1930, canais de uma possível ascensão social. Antes do rádio - lembra João Batista Borges Pereira - "o consumo de música, em escala reduzida, era feito através dos teatro de variedades, circos, cafés, festas familiares e públicas, casas de chope, espetáculos de tela e palco nos cinemas mudos e dos clubes que iam aos poucos dando nova feição à paisagem urbana carioca". E as próprias gravadoras não tinham um grande alcance econômico.

O final da década, assinala a terceira viagem da Orquestra de Romeu Silva ao exterior, desta vez a Nova York. Marca também a morte, em Minas Gerais , do legendário Fausto dos Santos, o "Maravilha Negra", o maior centro médio do seu tempo; tão bom que motivou a Noel Rosa, o poeta da Vila Isabel, a seguinte "boutade": "Torço pelo clube em que Fausto estiver jogando". E no mesmo ano da morte de Fausto, como atestado da importância econômica da música popular, é fundada, no Rio, a Associação Brasileira de Compositores e Autores, ABCA, a primeira sociedade brasileira exclusivamente arrecadadora e distribuidora de direitos autorais musicais, direitos esses cuja cobrança coubera, até então, a uma pequena divisão da SBAT, entidade de autores teatrais.

Fundada no mesmo ano em que o trompetista Sebastião Cirino, de volta ao Brasil, fundava uma orquestra só de negros, a ABCA surgiu da iniciativa do já citado jornalista e compositor Osvaldo Santiago, o qual em sua também já mencionada coluna, escrevia, em 2 de novembro de 1939: "Não é só de macumbeiros, sambistas da Praça Onze, compradores de composições alheias, analfabetos e gente de baixa categoria que se forma o ambiente radiofônico do Rio. Há também uma dúzia ou pouco mais de cavalheiros que sabem entrar e, principalmente, que sabem sair de um sala. (...) E há até, 'comprometendo o setor', alguns doutores de verdade".


Diz aí!

Terça-feira, Junho 06, 2006

O VELHOTE E ROBERTO RIBEIRO,
A VOLTA DO "MALANDRO MANEIRO"




Roberto Ribeiro - Duetos

A EMI acaba de lançar o CD cuja capa vai aí em cima. No ano em que lamentamos 10 anos de ausência do saudoso Dermeval Miranda Maciel, de nome artístico Roberto Ribeiro. Nos duetos, a primeira faixa "é com nós mermo": o Velhote do Lote versando "Malandros Maneiros" com o grande gogó imperiano. E, nessa, cantamos juntos, várias vezes, até no Chacrinha. À vera!


Diz aí!


O FENÔMENO BOLHA

O fenômeno bolha ocorre quando um corpo, contendo matéria em decomposição ou levado à ebulição, se enche de ar, vapor ou gás. A superfície líquida que limita a bolha toma a forma esférica por causa da tensão superficial. E isto ocorre quando, por exemplo, o corpo experimenta convulsões estranhas, de origem inexplicada; resolve casar num castelo de cartas (ou de Caras?) e deixa barrados na festa seus amigos da infância suburbana; ou, ainda, quando, mesmo vendo a indiscutível aparência afro-mestiça da mãe ou do pai, resolve dizer que é "branco" e não tem nada a ver com racismo.

Assim ocorre o fenômeno "bolha", termo que - redução de "bolha d'água" na gíria dos anos 70 - também quer dizer "pessoa extremamente enjoada, ou que assim se faz por birra ou outro motivo" (cf. Delta Larousse) sendo sinônimo da atualíssima expressão "bola murcha" (cf. Serra e Gurgel , Dicionário de Gíria).


Diz aí!


FUTEBOL E MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
Do amadorismo à economia globalizada

Parte 3

Friedenreich e os Tangarás


Segundo Darcy Ribeiro , 1920 foi o ano em que "o Governo proibiu negros na seleção brasileira de futebol" e em que o chefe de polícia Geminiano de França, a pedido do capelão-mor da Igreja da Penha, proibiu a presença de ranchos, blocos e rodas de batucada no arraial que se ainda hoje se arma, em outubro, para a famosa festa popular carioca.

Por essa época, recém chegado a São Paulo, o negro Mário Américo, mais tarde celebrizado como massagista da seleção brasileira, aprende, ainda menor de idade, a tocar bateria e passa por várias orquestras de gafieira, como a do maestro Otto Way. Entretanto, interrompe a carreira de músico, por proibição do juizado de menores, e vai ser lutador de boxe .

Era um tempo em que o mulato Candinho Silva, instrumentista genial (mais tarde, primeiro trombonista da Orquestra Sinfônica Brasileira) criava, com Pixinguinha, o "choro de 32 compassos". E que Malaquias, descrito como preto e magro, destacava-se como grande clarinetista, primeiro na banda do Corpo de Marinheiros, depois no Instituto de Música, onde não concluiu o curso por motivos financeiros - tendo, não obstante, muitas de suas obras gravadas pelo já mencionado Fred Figner.

Com relação à denúncia de Darcy Ribeiro, às vésperas do campeonato sul-americano de 1921, em Buenos Aires, travava-se acalorada discussão na imprensa sobre a conveniência ou não de se convocar atletas negros para representar o Brasil na Argentina. O talentoso Arthur Friedenreich, filho de pai alemão e mãe negra, integrou a seleção. Mesmo porque não era, para os padrões da época, rigorosamente, um "preto", como o músico Pixinguinha por exemplo.

Pois a mesma discussão racista travou-se na imprensa respeito da excursão do grupo de Pixinguinha, Os Oito Batutas, convidado a se exibir em Paris. Reacendendo velhos preconceitos, jornalistas e leitores de várias partes do país se manifestavam , achando que o conjunto de "pardavascos" iria desmoralizar e envergonhar o Brasil na Europa. Mas o grupo exibe-se com sucesso não só em Paris como em Buenos Aires, num momento em que, no Brasil, inauguravam-se as primeiras emissoras de rádio, veículo que viria ligar, estreitamente, as duas primeiras atividades de massa em nosso país.

Com o surgimento do rádio, surge a oportunidade não só de trabalho remunerado como notoriedade, passando esse veículo a ser o ponto máximo de aspiração dos músicos populares. E o mesmo se daria no futebol, como no exemplo de Quirino, negrinho pobre da cidade mineira de Alfenas que veio para o Flamengo, e voltou consagrado, depois de campeão em 1944, à sua cidade natal: "E durante uma semana, o tempo que demorou lá - conta Mário Filho - Quirino foi uma espécie de hóspede oficial de Alfenas. Não se dava uma festa sem ele. Recebeu convite até para tomar parte na solenidade de formatura das moças da Escola Normal. O banqueiro Osvaldo Costa, outro filho ilustre de Alfenas, no centro da mesa, Quirino à sua direita".

Iniciada a "Era do Rádio", começam a surgir também, nos morros e nos subúrbios afastados, a primeiras agremiações do samba, nas comunidades da Portela, da Mangueira e do Estácio. Enquanto isso, e sem nenhum problema, o Paulistano torna-se o primeiro clube brasileiro a excursionar à Europa, jogando na França, Suíça e Portugal. E esse intercâmbio traz para o futebol brasileiro novas idéias e regras técnicas e táticas, que se contrapõem ao estilo de jogo espontâneo e malicioso que já começava a identificar o futebol praticado em nosso país.

No rastro dos Oito Batutas e no mesmo ano da viagem do Paulistano, exibe-se na Europa uma orquestra liderada pelo saxofonista Romeu Silva, ex-músico da orquestra do rancho Ameno Resedá, do qual foi um dos primeiros integrantes. No ano seguinte, seguia para a Europa, onde permaneceria cerca de treze anos, o trompetista Sebastião Cirino, ex-integrante, juntamente com Pixinguinha, da Companhia Negra de Revistas. E enquanto Cirino brilhava na Europa, onde chegou a ser condecorado pelo governo francês, o músico e malabarista Moleque Diabo, com seu banjo, faria furor em Buenos Aires à frente do Jazz-Band da Marinha.

A década de 1920 encerrou-se, no Rio, com a realização no estádio do Vasco da Gama, do primeiro jogo noturno realizado em um gramado brasileiro. Enquanto isso, o radialista, cantor e compositor Almirante, criava o grupo Flor do Tempo, depois Bando dos Tangarás, também especializado principalmente em música rural, como emboladas, cateretês etc., além de interpretar sambas à moda dos morros cariocas. E, no mesmo contexto histórico, em São Paulo, o folclorista Cornélio Pires começava a produzir discos de música da tradição rural, dando o impulso inicial a um negócio que depois se tornaria altamente lucrativo.


Diz aí!

Quinta-feira, Junho 01, 2006

FUTEBOL E MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
Do amadorismo à economia globalizada

Parte 2


Fluminense e Ameno Resedá

Apesar de nascido nesse berço aristocrático e de, por isso, contar com a radical antipatia de pensadores como o romancista Lima Barreto, o futebol foi, não obstante, adotado com grande entusiasmo pela cultura popular carioca, de predominância negra e fortemente vinculada às tradições coreográficas africanas, em que o uso do corpo, e principalmente de pés e cintura é determinante . E em pelo menos um momento a aristocracia "tricolor" (como é popularmente conhecido o torcedor do Fluminense) vai, através da música, aproximar-se dessa cultura: dentre os admiradores que freqüentavam as reuniões da Sociedade Dançante Carnavalesca Ameno Resedá, no bairro do Catete, na década de 1910, salientava-se o escritor Coelho Neto , entusiasta do clube das Laranjeiras e pai de um dos jogadores, o meia-esquerda Preguinho.

Veja-se agora que, após sua introdução e implantação no Brasil, o futebol passou pelas fases de: difusão e popularização, de transição e de afirmação - esta última tendo seu marco inicial na destacada participação do Brasil na Copa do Mundo de 1938, na França. E observe-se que, quando o futebol chegou ao Brasil, o que hoje se conhece como música popular brasileira (e não "MPB", que é uma sigla criada para nomear a canção de extração universitária surgida na década de 1970 e na qual, preconceituosamente, não é incluído o samba); quando o futebol chegou ao Brasil, a música popular, mesclando principalmente elementos europeus e africanos, passava por uma fase de transição mas já começava a tomar os formatos com que se consolidou. Assim, logo depois de fundada, no Rio, a Liga Metropolitana de Futebol, em 1905, o tango-chula Vem Cá, Mulata, de Arquimedes de Oliveira com letra de Bastos Tigre, e já quase um samba, é um dos maiores sucessos do carnaval. E, no mesmo ano em que Albertino Carramona, pistonista e protegido da Princesa Isabel, sucede a Anacleto de Medeiros na direção da famosa Banda do Corpo de Bombeiros, chega ao Brasil John Hamilton, primeiro treinador profissional contratado por um clube brasileiro de futebol, no caso, o Paulistano.

Nesse mesmo ano, é fundada a já mencionada sociedade Ameno Resedá, de onde sairá, no carnaval, o célebre "rancho escola", matriz das escolas de samba hoje espalhadas por todo o Brasil. E, nos anos seguintes, quando surgem clubes de futebol por quase todas as capitais brasileiras, agremiações antes dedicadas principalmente ao remo, criam suas sessões de futebol, como é o caso do Flamengo, em 1911 e do Vasco da Gama em 1916.

No contexto paulistano em que o jogador Arthur Friedenreich começa a esboçar aquilo que seria a "escola brasileira de futebol", no Rio, o pianista Ernesto Nazareth lança a polca Apanhei-te, Cavaquinho, hoje um clássico do repertório chorístico. É um momento chave, em que o lundu já deu lugar à polca e ao xote no gosto dos compositores populares; e futebol já desbancou a capoeiragem. Nesse momento, os músicos negros famosos já não são predominantemente baianos e, sim, cariocas, como o são o jovem Pixinguinha, músico da orquestra do Cine Palais; Sinhô, pianista da Kananga do Japão, famoso clube de danças da Praça Onze; e Freire Júnior inicia sua fulgurante carreira como compositor profissional de teatro.

Em 1917, a Confederação Brasileira de Desportos, antiga Federação Brasileira de Esportes, fundada três anos antes no Rio, obtém reconhecimento provisório da FIFA, a federação internacional do futebol, que a acolhe definitivamente seis anos mais tarde. Ano importante tanto para o futebol quanto para a música popular no Brasil, esse 1917 é o ano do primeiro campeonato sul-americano de futebol, realizado em Montevidéu, colocando-se o Brasil em terceiro lugar; e é o ano da gravação do Pelo Telefone, de Donga e Mauro de Almeida, historicamente considerada, polêmicas à parte, como o primeiro registro autoral de uma obra lítero-musical sob a rubrica "samba".

Dois anos depois, novo campeonato sul-americano de futebol. Desta vez a disputa final é no Rio, no campo do Fluminense. Terminado o jogo, com a vitória do Brasil sobre o Uruguai (nossa equipe formando com Marcos, Píndaro e Bianco; Sérgio, Amílcar e Fortes; Milton, Neco, Friedenreich, Heitor e Arnaldo), o povão desce o morro existente atrás do estádio cantando, segundo o historiador Joel Rufino, uma espécie de marcha cuja letra dizia: "Nossos dianteiros fazem entrar/ tiros certeiros de assombrar".

Mário Filho, em O Negro no Futebol Brasileiro, chama a atenção para um fato interessante. É que, no início do futebol no Rio, as canções de celebração de vitórias tinham ainda um caráter britânico, obedecendo ao costume inglês das canções de brinde, ao redor da mesa da celebração. Pouco a pouco, entretanto, elas foram ganhando caráter brejeiro e popular, como a composta para o Fluminense por Jardel Bôscoli, na década de 1920: "O Fluminense tem três times/ que colosso/ três canjinhas de osso/ bem difícil de roer./ Primeiro time, o suquinho de garapa/ campeonato não escapa/ rapa até de canjerê/ Segundo time um escrete brasileiro/ atemoriza o mundo inteiro".


Diz aí!