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Segunda-feira, Maio 29, 2006
sou brasil, soy cuba Sobe ao palco do Itaú Cultural o sambista e compositor popular Nei Lopes. Com sete trabalhos solo, Lopes já teve suas letras cantadas pelas vozes de artistas como Milton Nascimento e Gilberto Gil e já gravou em parceria com Chico Buarque e Dudu Nobre, entre outros nomes consagrados da música brasileira. O último CD de Lopes, Partido ao Cubo, explora a semelhança entre o són, gênero da música popular cubana, e o partido-alto, vertente do samba brasileiro. Durante a apresentação, será gravado o DVD Toca Brasil com o artista. toca brasil com nei lopes sexta 2 a domingo 4 19h30 sala itaú cultural (SP) 255 lugares [ingresso distribuído com meia hora de antecedência] COPAS À PARTE, UM CONVITE MUITO HONROSO O velhote do Lote acaba de ser contatado pelo Itamarati para participar em julho, em Salvador, da II CONFERÊNCIA DE INTELECTUAIS DA ÁFRICA E DA DIÁSPORA , na condição de "convidado especial" em uma mesa-redonda de renomados lingüistas. Estaremos lá. É isso aí! Ê Irajá!... Sexta-feira, Maio 26, 2006
O LOTE CALÇA CHUTEIRAS E ENTRA DE SOLA Há dois anos atrás, escrevíamos o texto abaixo, publicado no livro Futebol de muitas cores e sabores, editado em Portugal pela Editora Campo das Letras, em parceria com a Universidade do Porto. Como durante as próximas semanas, não se vai falar noutra coisa, fatiamos o texto para serví-lo bem passado, em porções, aos visitantes do Lote. Recomendamos acompanhar com um vinhozinho espanhol... FUTEBOL E MÚSICA POPULAR BRASILEIRA Do amadorismo à economia globalizada Parte 1 Vivendo melhor, o povo jogará mais futebol e fará um samba mais bonito (Joel Rufino dos Santos) Nação constituída a partir de 1822, com a libertação do domínio português, o Brasil, sucessivamente submetido à influência cultural da Inglaterra, da França e, mais tarde, dos Estados Unidos, só começa a definir sua identidade nacional cerca de cem anos depois de sua independência política. Nesse processo definidor, caminham, lado a lado, muitas vezes entrecruzando passos, a sua grande música popular, expressa em sua vertente principal que é o samba, e o esporte preferido de seu povo, o futebol. "Futebol e música popular, duas paixões brasileiras, sempre conviveram bem, com cantores e compositores pretendendo mostrar habilidades de craques (Chico Buarque, Paulinho da Viola) em suas peladas, e craques de verdade (Pelé, Júnior ) se arriscando vez por outra em canções e cantorias" - lembram os jornalistas e pesquisadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello . E, hoje, essas duas grandes paixões nacionais se inserem, ambas, ou bem ou mal, no contexto mercadológico da cultura globalizada. Do Lundu ao Football Association Na segunda metade do século XVIII, com o mulato carioca Domingos Caldas Barbosa, estilizador e divulgador da modinha portuguesa e do lundu de raízes africanas, surge a música popular brasileira. A qual vai, sucessivamente, agregar variadas influências e desdobrar-se em vários gêneros, tendo como espinha dorsal, o samba, herdeiro do lundu e da modinha setecentistas. Mais de um século, entretanto, se passará do sucesso europeu de Caldas Barbosa até os primórdios do futebol em terras brasileiras. Com efeito, em 1895, seis anos depois da chegada ao Brasil do "milagre" da reprodução fonográfica, disputa-se, na Várzea do Carmo, na cidade de São Paulo, entre empregados da Companhia do Gás e da São Paulo Railway, aquela que se tem como a primeira partida regular de futebol aqui realizada. Por essa época, tanto São Paulo como, principalmente o Rio de Janeiro, exerciam forte atração sobre o capital inglês, que vai se estabelecendo no país com empresas como The Western Telegraph, The Leopoldina Railway, Rio de Janeiro Traction, Light and Power, Bank of London etc. Para atender a seus funcionários e familiares, os empresários ingleses vão fundando igrejas, escolas e clubes recreativos. Em 1898, logo depois de, no Rio, o maestro Anacleto de Medeiros, um dos pais de nossa música popular, ter organizado a Banda do Corpo de Bombeiros; e de a pianista Chiquinha Gonzaga ter lançado o tango-brasileiro Gaúcho (depois chamado Corta-Jaca), alunos e professores do Mackenzie College, em São Paulo, fundam a Associação Atlética Mackenzie College, primeiro clube de brasileiros destinado à prática do futebol. No limiar do novo século, o "nobre esporte bretão", como era então aclamado, começava a ganhar incremento no Rio e arredores, com a fundação do Paissandu, na capital federal, e do Rio Cricket, clube de veraneio da comunidade britânica, em Niterói, do outro lado da baía de Guanabara. Por essa época, os estabelecimentos industriais tinham por hábito manter, para recreio dos empregados, além de equipes de futebol, também bandas de música, das quais vão sair muitos dos instrumentistas que alicerçaram as bases da nascente música popular brasileira. Música que já via brilhar, por exemplo, artistas negros como: Ferreira Torres, pianista e compositor festejado; Pedro Galdino, flautista, compositor, operário e mestre de banda da Fábrica de Tecidos Confiança, no histórico bairro de Vila Isabel; Manduca de Catumbi, elogiado cantor de lundus; Saturnino, flautista; e, destacadamente, a cantora Plácida dos Santos, precursora de Carmem Miranda, que, interpretando lundus, apimentados e buliçosos, e vestida à moda da Bahia, exibiu-se no Follies Bergères parisiense. Tudo isso, no mesmo contexto histórico pioneiro em que fazia seus primeiros registros fonográficos o genial flautista Patápio Silva. Na primeira década do século XX, quando o samba conhecido na cidade de São Paulo ainda era apenas aquele da tradição rural, difundida, nos incipientes meios de comunicação, principalmente pelo folclorista Cornélio Pires; por esse tempo era fundada, na capital paulista, a Liga Paulistana de Football E no Rio, num tempo em que o termo "maxixe" era ainda usado no sentido de salão de dança do populacho; e onde o tcheco Fred Figner instalava sua fábrica de discos para gravar principalmente modinhas e lundus; nesse contexto histórico era fundado, na zona sul, o Fluminense Futebol Clube e, no que hoje se conhece como zona oeste, berço da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, nascia o Bangu Atlético Clube. Observe-se que, inicialmente integrado por funcionários ingleses da Companhia Progresso Industrial, esse Bangu foi a primeira equipe carioca a, nos tempos do amadorismo, receber jogadores negros. Veja-se, ainda, que, nos anos de 1940, seus jogadores passaram a ser chamados pela imprensa de "os mulatinhos rosados", por força do significativo número de jogadores negros atuando no clube, circunstância que se somava à impressão causada pelas cores de sua camisa, listrada em vermelho e branco. Mas, efetivamente, já que nascido, em 1902, na rua Marquês de Abrantes - embora concebido na rua Paissandu, onde antes funcionara o Jockey Club Fluminense e sob a influência do Paissandu Cricket Club - a primeira agremiação carioca de futebol foi o Fluminense Futebol Clube. (continua) Segunda-feira, Maio 22, 2006
TABERNÁCULO VERSUS ARCA DA ALIANÇA Leio, no jornal de um município aqui próximo ao Lote, sobre a realização de um Campeonato Evangélico de Futebol. Mente desocupada, sabe como é né?... Aí, começo a imaginar a irradiação de um jogo. É entre as fervorosas equipes do Tabernáculo F.C e do E.C. Arca da Aliança. E disputam o Evangelho Quadrangular. Apurem os ouvidos: - Iniciada a partida, Senhor! Aleluia! ... Bola com Mateus que penetra pela esquerda, cruza na grande área para Ezequias. Avança Ezequias, é trombado por Jeremias. O juiz apita a falta e ordena: "Arrependei-vos!" Jeremias se redime. Cobra a falta Ezequiel. Domina Abdias e leva o Tabernáculo para o contra-ataque. Estica para Gedeão. Domina Gedeão e aplica uma unção em Samuel. Ô, Glória! Avança Gedeão, passa por um ímpio, dribla um filisteu, é acossado por um macabeu, estica na ponta para Malaquias. Ó, Glória! Malaquias vai entrando com bola e tudo. Está cara a cara com o goleiro. Pára. O goleiro grita: "Tá amarrado!". É incrível, Senhor! Malaquias fica totalmente paralisado. Vem Ebenezer, toma-lhe a bola e leva o Arca da Aliança para o ataque. Estica para Mateus, este para Sofonias. Vem em seu encalço Roboão. É uma verdadeira babel, Senhor! Roboão aplica uma carruagem de fogo em Nehemias. Repreenda-o, Senhor! Pe-ca-do! Pe-ca-do! O Juiz mostra o Salmo 19 a Roboão. Prepara-se Uziel para cobrar o dízimo. Corre Uziel... o juiz apita... É o juizo final, Senhor! Terminada a partida! Tabernáculo, O x Arca da Aliança, O. Sem nenhuma revelação. Mas a arrecadação foi um maná dos Céus : rebanho dizimista, 1235 ovelhas; a uma média de R$ 5,00 cada uma... Conta aí, ministro! Ó, Glória! Deus é fiel!!! Sábado, Maio 13, 2006
BERTOLEZA E O TREZE DE MAIO Quem tem olhos para ver, hoje, no Brasil, a mal batizada "lei de gerson" inspirando o capitalismo mais selvagem, o qual estabelece um trágico elo com toda essa brabeza que está aí, desde a violência urbana até a programação das emissoras de radiodifusão, há de entender com clareza o que foi o Escravismo no Brasil. A ordem econômica era outra; mas, em nome do lucro, também valia tudo, num contexto em que os trabalhadores africanos e seus descendentes brasileiros - descontada sua força de trabalho, como hoje seu potencial de consumo - não valiam nada. Pois acontece que Velhote aqui do Lote, neste 13 de maio, anda em meio à elaboração de um Dicionário Literário Afro-brasileiro: autores, obras, personagens, onde já avulta - ao lado da Negrinha, de Lobato; do Moleque Ricardo, de Zé Lins; do Pedro Arcanjo, de Jorge; do Damião, de Montello e tantos outros - pelo simbolismo que representa, o verbete "Bertoleza", referente a um personagem de Aluísio Azevedo em O Cortiço, romance de 1890. "Crioula trintona" escrava de ganho, de propriedade de um velho residente na cidade mineira de Juiz de Fora, e dona de uma taberna onde fazia e vendia refeições como angu e peixe-frito, Bertoleza despertou o interesse do ambicioso português João Romão, que iniciava carreira de comerciante no Brasil. Tornando-se "o caixa, o procurador e o conselheiro da crioula", João acaba por tornar-se seu sócio e fazê-la sua amásia. Bertoleza, cujo companheiro português falecera, "não queria sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior à sua" - como escreve Azevedo. Assim, submete-se à vontade de Romão - que inclusive lhe compra uma alforria falsa - e, com seu trabalho duro, contribui decisivamente para a prosperidade do lusitano, que se torna dono do cortiço que dá título à obra. À noite, na cama, enquanto ao seu lado "a crioula roncava , de papo para o ar, gorda, estrompada de serviço, tresandando a uma mistura de suor com cebola crua e gordura podre", João Romão sonhava alto, enquanto passavam os anos. E, assim, almejando também ascensão social, além do dinheiro, resolve, depois de bem próspero, casar-se com uma moça abastada e branca. Então, para tirar Bertoleza de seu caminho, denuncia-a como escrava fugida, fazendo com que prepostos do senhor de Juiz de Fora venham, com ajuda de força policial, buscá-la no Rio para restituí-la ao cativeiro. Ante tal situação, Bertoleza, percebendo o logro em que caíra e preferindo a morte, toma de uma faca de cozinha e rasga o ventre de lado a lado, caindo "rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue". E isto no mesmo momento em que membros de uma sociedade abolicionista chegavam trazendo para João, além de outras que já recebera, mais uma honraria, além: o título de sócio benemérito da sociedade. ** Neste 13 de maio, o Lote reverencia a memória de todas as "bertolezas". As daquele tempo, que hoje, na forma de milagrosas pretas-velhas, devem estar espargindo sua luz, pelas boas casas umbanda de todo o país. E as de hoje, lembrando a elas que, apesar de tudo, já contam, mal ou bem, com entidades e mecanismos de proteção e defesa contra o machismo, o racismo e o abandono. Terça-feira, Maio 09, 2006
MARTHA NÃO GOSTA DE SAMBA. MAS FELIPE GOSTA. A dois dias do meu aniversário (que é hoje, 9 de maio), chegam-me aos olhos dois textos de presente. Um da cronista Martha Medeiros, da Revista O Globo (edição de 07.05.06), confessando-se "roqueira desde o útero materno" e admitindo do samba, apenas "um Chico Buarque, um Paulinho da Viola, um Celso Fonseca [?]" - depois de botar pra tocar um CD de um sambista "bem colocado nas paradas de sucesso" e só conseguir ouvir três trechos de faixas. No outro texto, o mestre em musicologia e doutorando em comunicação Felipe Trotta (Revista de História da BN, nº 8, fev-março 2006 ) fala, como também já falamos alhures, das reações preconceituodsas contra o samba, considerado "coisa de negros e vadios", ocupando "uma zona de menor prestígio estético" no mercado da cultura "sendo caracterizado como uma prática dotada de menor grau de sofisticação, 'parada' no passado e por isso menos relevante para a história da música popular brasileira". Que me desculpe a bela e sofisticada moça da Revista O Globo, porém sou mais o Felipe, que eu nem tenho o prazer de conhecer. E as mais de 50 linhas que ela gasta, em seu texto, para justificar seu gosto, não elidem a impressão de preconceito que me deixaram. Quem conhece, como conhecemos, o Samba em sua diversidade e sofisticação, vai ficar também com o Felipe, cujo texto recomendo, nessa cruzada contra a colonização e o racismo que vimos enfrentando, a qual - os Orixás querem - vamos gloriosamente vencer. E viva Nei Lopes no dia dos seus 64 aninhos! Idoso mas lúcido, sofisticado, esperto, criativo (modéstia à parte). Como o Samba. Sexta-feira, Maio 05, 2006
GREVE DE FOME - Come, filhinho, come! Tá "gotoso"!... - Num quero! - Ah, "galotinho", mamãe fez pra vocezinho... - Num quelo! - Come pra ficar forte, filhinho... - Num como! - ... pra ficar inteligente... - Num quero! - ... pra deixar de ser bobo... - Num como! - Ah, garotinho, come! - Num quero! - Ah, é? Vai comer, sim! Quer ver só? - Num como! - Tá vendo esse cinturão aqui? - Mãe!!! - Come, seu filisteu! Come, seu vendilhão do templo! Come, seu dizimista! Come, seu filho ... (LEPT, LEPT, LEPT, LEPT, LEPT) - Ai! Ai! Senhor! Socorro! O povo tá me batendo!... ** MORAL DA HISTÓRIA : "Quem sempre comeu melado, quando não come, lambuza". Quarta-feira, Maio 03, 2006
CARLINHOS PALHANO E O SAMBA DE MESA Uma das mais gratas surpresas de nossa excursão ao nordeste nos veio de Fortaleza, Ceará. Lá, travamos contato com o grupo Carlinhos Palhano & Samba de Mesa, que nos prestigiou vibrantemente o show e ainda nos brindou com 2 CDs e 1 DVD. Ouvindo aqui no Lote, nosso queixo cai, com o melhor samba, naquele jeito debochado, crítico e malandro do carioca, feito por um grupo... cearense. Em uma das faixas de um dos CDs, Palhano sola o nosso "Justiça Gratuita" ("Felicidade passou no vestibular...), com o melhor sotaque e verve ze-trindadianos - e Zé Trindade foi, no meu entender, o mais carioca de todos os comediantes nordestinos. Não é à toa que os cearenses se orgulham de serem os reis do humor. E samba com picardia, humor e crítica bem feita, como o do Palhano e sua rapaziada... é disso que o Velhote gosta. Muito bom! Segunda-feira, Maio 01, 2006
CONCURSO "O SAMBA VAI MUITO BEM" Numa resposta à afirmação em O Globo que "o samba vai muito bem", conclamo os visitantes do Lote a contabilizarem, no mês de maio que hoje se inicia, quantas matérias o Segundo Caderno desse simpático órgão de imprensa vai publicar sobre samba e quantas sobre o segmento pop-rock. Ao final, sortearemos um brinde surpresa entre os que tiverem tempo de elaborar essa estatística. De verdade! |
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