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Sexta-feira, Março 31, 2006
NOCA DA PORTELA NA CULTURA: LIGAÇÃO A COBRAR Com a nomeação do nosso amigo Osvaldo Pereira, o Noca da Portela, para a Secretaria de Cultura do Estado, a coisa deve melhorar. Pelo menos pra mim, que ganhei um Golfinho de Ouro em 1989 e fiquei só com o troféu, porque na época o Governo tava duro. Agora, a cada edição do Golfinho, o agraciado leva a taça e mais 50 mil. ** Então, esperançoso, ligo pra Secretaria. Aí, uma voz gravada, meio rouca, responde cantando: - Se você sentir saudade, liga pro meu celular! Liga pro meu celular! Liga pro meu celular!... Saudade é acima de Barra Mansa. Mas vou ligar. A cobrar. Terça-feira, Março 28, 2006
BANTOS, MALÊS E IDENTIDADE NEGRA (Nota de Esclarecimento) Informamos às inúmeras pessoas que têm procurado por esse livro, de autoria de Nei Lopes, que o mesmo se acha esgotado e com contrato de edição rescindido. Publicado em 1988, com uma tiragem de 2 mil exemplares, ele ficou esquecido, vendendo poucos exemplares em 17 anos. Entretanto, com sua recomendação por algumas secretarias estaduais de Educação, como obra de referência sobre a cultura dos povos bantos no Brasil, veio a demanda que a oferta não conseguiu suportar. E, aí, optamos pela rescisão do contrato. Como há necessidade de atualizações e ajustes em seu texto, estamos aguardando uma oferta editorial à altura de sua agora reconhecida importância. Mas lembramos aos interessados a edição, programada para novembro, do Dicionário da Antiguidade Africana, pela competentíssima Editora Record, que, inclusive ilustrado com mapas, cobre boa parte dos temas nele enfocados. Sábado, Março 25, 2006
VIVA O ACADÊMICO DOMÍCIO PROENÇA! Na página 544 da nossa Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana está lá verbetizado o nome do professor e crítico literário Domício Proença Filho, que acaba de ser eleito para a Academia Brasileira de Letras. Carioca, doutor e livre-docente em Literatura Brasileira na Universidade Federal Fluminense, além de outros títulos universitários, o agora acadêmico é autor de Dionísio Esfacelado (Quilombo dos Palmares), 1984; Oratório dos Inconfidentes, 1989; e Capitu, Memórias Póstumas (1999), além de várias outas obras nas áreas de crítica, ensaio e poesia. Amigo do Velhote do Lote há muitos anos, o professor Domício Proença é um afrodescendente orgulhoso dessa condição; e, como tal, o primeiro de nós a ingressar na Academia, por acaso fundada por um mulato do Morro do Livramento. Parabéns a ele e a nós todos!!! Quinta-feira, Março 23, 2006
O VELHOTE, CADA VEZ MAIS LIGHT, AGORA EM SITE Seguinte, rapaziada! Agora o Velhote do Lote pode ser visto, juntamente com uma turma de responsa, também num site à vera, cheio daquelas mumunhas internéticas. Nele, as comadres e os compadres podem rastrear o Velhote em suas andanças, como por exemplo, agora, em abril, numa turnê pelo nordeste, no Projeto Pixinguinha. Trata-se da página da nossa agência, produtora e gravadora Fina Flor, artisticamente dirigida pelo parceirão Ruy Quaresma. Vale a pena conferir. Vamos lá! www.finaflor.art.br Terça-feira, Março 14, 2006
ESTE NEGRO NÃO SE ENXERGA Cumprindo sua sina de só ilustrar musicalmente os núcleos dos pobres das telenovelas, o Velhote do Lote está na trilha sonora da novela "Sinhá Moça", estréia desta semana na Rede Globo. Mas está bem. A obra é um batuque, criado em parceria com o grande Cláudio Jorge, cujo refrão diz assim: "Esse negro não se enxerga/ não conhece o seu lugar; Essse negro não se enverga/ esse negro é de amargar." "É claro que só vai tocar nas cenas de senzala. Mas tem tudo a ver..." - diz aqui o povo do Lote. Segunda-feira, Março 13, 2006
JOÃO BOSCO VIOLANDO NO LOTE Está aqui o Velhote sambista lapidando cuidadosamente a última de uma série de três letras encomendadas pelo grande compositor e violonista João Bosco. No sonzinho, sob os acordes acrobáticos do violãozaço, rolam as onomatopéias, cacofonias, onomatopoeses e prosopopéias da voz do histórico parceiro do Aldir Blanc (ele blanc, eu black), sugerindo palavras para eu encaixar nas notas. Tipo "toca de tatu, rabo de paio com tutu". Que exercício, meu sinhô! Mas o Velhote sambista, modéstia à parte, já letrou Guinga e Ed Motta; já fez versão para Fascinating Rhythm, dos Gershwin (um projeto guardado do Zé Renato); e criou 5 letras para as "Coisas" pretas do genial Moacir Santos, o maestro dos maestros. Então, não tem mosquito!! Mas eis que já nos finalmente do tão difícil quanto prazeroso trabalho, chega-se um moleque escolarizado daqui do Lote, ouve as onomatopéias do João e pergunta: - Que lingua é essa em que esse moço tá cantando, tio? E o velhote de sacanagem responde: - É "jombosco". Aí, o moleque, entendendo tudo e lembrando a última aula de História da África Austral que tivemos, rebate satisfeito: - Ah, sei! É a língua dos Bosquímanos... EM 1973, UM GRANDE ENCONTRO NACIONAL DO SAMBA Remexendo aqui uns guardados, encontramos o folheto do "2º Encontro Nacional do Compositor do Samba", realizado pela Riotur em 1973. A idéia foi do sambista caprichoso-vila-isabelense Jorge Garrido (pai da talentosa e dinâmica assessora de imprensa Jane Garrido, uma afrodescente da pesada!) e a organização foi dos saudosos Waldinar Ranulpho e Walfrido Tourinho, além de Carlos Alfredo Macedo, que nossa memória cansada não registra. Concorrentes, entre outros: Aluísio Machado; Candeia; Gisa Nogueiro; Nelson Cavaquinho & Guilherme de Brito; Ederaldo Gentil; Toco ; Jorginho Pessanha e Walter Coringa; Otacílio e Ary do Cavaco; Babaú; Wilson Moreira; Marinho da Muda; Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro; Mano Décio da Viola; Darcy da Mangueira; Zé Catimba; Sidney da Conceição; Antônio Grande; Suely Costa; Sinval Silva. Timaço, hein? Alguns ambas que fizeram sucesso e ficaram: "Malandro é Malandro Mesmo" (Ary & Otacílio); "Menino Deus" (Mauro Duarte & Paulinho Pinheiro); "Quero Sim" (Darcy); "Nanaê, Nanã, Naiana" (Sidney). Curiosidade: Jorginho Saberás ("Saberás, saberás, saberás, como eu te amo, meu amor!") , grande e pranteado sambista de Vila Isabel, ainda assinava seu nome civil... Jorge Aragão. ** O festival, realizado em 3 noites, trouxe concorrentes da Bahia (Ederaldo Gentil, Edil Pacheco, Valmir Lima), de São Paulo e Minas Gerais; contou co m shows temáticos estrelados por gente como Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Zé Kéti, Elizeth Cardoso e Candeia. Por essa época, também, a Secretaria Municipal de Educação promovia, anualmente, entre as escolas da rede de ensino fundamental, um certame chamado "O Jovem Diz o Samba", que revelou muito sambista bom, tendo alguns deles feito carreira. Estas lembranças vêm a propósito da criação da "Cidade do Samba". Será que vai ser apenas uma fábrica de carnaval? Ou vai resgatar, para o samba, iniciativas como essas que agora relembramos? Trinta anos se passaram, a realidade é outra, mas... quem sabe? Segunda-feira, Março 06, 2006
ROBERTO RIBEIRO, 10 ANOS DE SAUDADE Dia 8 de março, na Sala Baden Powell, a partir de 19 horas. Lançamento do livro "Roberto Ribeiro, 10 Anos de Saudade", de Liete de Souza. Show com Grupo Caivúna, Alex Ribeiro, Zé Luiz e as Pastoras do Império. Ingresso: R$ 10,00 e R$ 5,00 Sala Baden Powell Av. N.Sra. Copacabana, 360 VENDO A VILA CAMPEÃ, LEMBRANDO JARRÃO Em 1982, iniciando uma nova fase em nossa vida, realizávamos o sonho de levar uma vida tranqüila numa casa de vila em Vila Isabel. A gente já era do bairro havia muito tempo. Mas éramos, como inúmeras outras pessoas, daqueles vilisabelenses de fim de semana. Mas aí, naquele final de 82, conquistávamos a vila da Vila. Foi um tempo de altos pagodes! Nos quais, a Vila só era um pouco esquecida no carnaval, quando envergávamos os trajes alvirrubros da escola da vizinhança - que também era "de casa", pois Seu China, o grande fundador da escola de Paulo Brasão e depois Martinho, viera de lá, do legendário Morro do Salgueiro. Noel Rosa gostava do Salgueiro - taí João Máximo que não me deixa mentir -, onde tinha parceiros como Canuto e Antenor Gargalhada. E, mesmo Martinho, quando botava pilha na gente, tentando seduzir para trocar de escola, o fazia com reverência à então grande campeã tijucana. Até que veio 88. Ruça e Martinho nos chamaram e nós fomos. Era uma festa. Uma "kizomba". E era só chegar bonito, bem vestido e participar do banquete ambulante, cantando, dançando, comendo, bebendo e curtindo. Foi muito bom! Muito melhor do que ter saído na véspera, com uma roupa toda dourada, dos pés à cabeça, na comissão de frente do enredo salgueirense "Em Busca do Ouro" - belo traje, de fraque, cartola e bengalinha, que, aliás, foi, depois, solenemente doado ao Professor Leony, o mágico profissional da rua Jorge Rugde. No ano seguinte nos desligávamos do Salgueiro e a Vila nos recebia de braços abertos. E isto, num concurso de temas para o carnaval de 91, no qual apresentamos com sucesso "Luiz Peixoto: E Tome Polca!", desenvolvido, sem tanto sucesso assim , pelo carnavalesco Ilvamar Magalhães. Não que o Ilvamar não tivesse talento. Muito pelo contrário! Mas a situação da escola era complicada e viemos em 11º lugar. Em 92, criávamos, com o Departamento Cultural, "A Vila Vê o Ovo e Põe Às Claras", ousado enredo sobre a presença africana nas Américas antes de Colombo, baseado em teses afrocentristas de respeito e bem desenvolvido pelo carnavalesco Gil Ricon. Mas a escola tinha ainda mais problemas e caiu pra o 12º lugar. Ainda no Departamento Cultural, mas com a escola já mais bem organizada, ajudamos na pesquisa do enredo de 94. E tivemos a honra de criar o quilométrico título que a Vila levou para a avenida, naquele enredo auto-referente: "Muito Prazer! Isabel de Bragança e Drummond Rosa da Silva... mas pode me chamar de Vila". O enredo foi desenvolvido pelo experiente Oswaldo Jardim e a escola deu uma boa melhorada.Principalmente pelo samba, que, pela primeira vez levava a assinatura do jovem André Diniz, co-autor do samba deste ano, que a partir daí se tornaria conhecido. E a Vila chegou em 9º lugar. Então, demos uma parada. Para uma recaída em 99. E a desaceleração geral logo depois. Aqui no Lote. ** Vila Isabel, hoje, vai ficando cada vez mais distante. Mas os pagodes e carnavais no Corre pra Sombra, no Fogo no Tacho, na Cachopa, no Costa, no Zeca's nunca serão esquecidos. Foram grandes anos de nossas vidas! Com Juca, Inaldo, Jucelino (grande amigo que nos deixou semana passada), Chico Banerj, Osvaldo Funéreo, Maria Helena Pimenta ... Com Agrião, Bazinho, Carlinhos Sete Cordas, Balica, Vavá, Dunga, Gaúcho, Lota, Paulinho da Aba, Tonelada, Trambique, Pecê... Com o pessoal do Sorri Pra mim, do Renascença e do Vila, o clube... Com toda essa gente boa hoje comemorando o merecido campeonato conquistado pela escola do bairro de Noel neste carnaval de 2006. Bebemorando um título que nós, se tivéssemos autoridade para tal, dedicaríamos à memória de um grande amigo, ausente há uns dois anos. Chamava-se Aluísio Ramalho dos Santos, tinha o apelido de "Jarrão", saía na Velha Guarda, e era um dos mais aguerridos componentes da Escola. Viva a Vila Campeã! Um brinde à memória do Jarrão! Quarta-feira, Março 01, 2006
KITÁBU NA BAHIA Reportagem de Ana Cristina Pereira - Folha da Bahia, 11.01.2006 Porta-voz do saber africano Novo livro do escritor e sambista Nei Lopes reforça sua imagem de revisor do legado negro no país Com muito trabalho e seriedade, o cantor, compositor e escritor Nei Lopes, 63, firma-se como um dos principais pesquisadores na revisão do legado negro no país. E, o melhor, como destaca, é que fala "de dentro", já que é "negro, sambista e praticante da religião dos orixás". Dando seqüência a uma série de livros publicados a partir de 1981, Nei Lopes lança Kitábu - O livro do saber e do espírito negro-africanos (Senac Rio). Kitábu significa livro no idioma suaíle (grupo bantu), segundo o autor, a mais internacional das línguas africanas. Foi escolhida para traduzir o projeto ambicioso de Nei Lopes de tentar sistematizar num único corpus informações consistentes sobre a espiritualidade africana. A idéia, explica, é concentrar os princípios básicos filosóficos de religiões como o candomblé, umbanda e até a reinterpretação africana do islã, sobre os mais variados aspectos. Vai das mitologias originárias à descrição dos cultos, rituais e divindades. Com formato inspirado na Bíblia e no Alcorão, a publicação é dividida em O antigo legado - História e tradições negro-africanas e O novo legado - História e tradições da diáspora afro-americana. "Quero mostrar que as religiões africanas, ao contrário do que se pensa, não são folclore, nem bruxaria, nem infantilidade, já que se apóiam numa filosofia complexa e atuante", afirmou o autor, em conversa por e-mail. Cheio de planos e projetos, Nei Lopes anuncia para este ano um livro de contos e dois dicionários, na mesma linha de pesquisas que vem desenvolvendo. Quanto à música, o sambist a disse que é só aparecer a oportunidade que abre o baú e tira de lá as tantas composições inéditas que possui. Por estas e outras ele recebeu, ao lado de outras personalidades, em novembro passado, a Ordem do Mérito Cultural 2005, a mais importante condecoração nesta seara dada pelo governo federal. FOLHA - Com Kitábu - O livro do saber e do espírito negro-africanos o senhor dá seguimento, no plano religioso-filosófico, ao trabalho de pesquisa e busca do Novo dicionário banto e da Enciclopédia brasileira da diáspora africana. Poderia fazer um paralelo entre os trabalhos? NEI LOPES - Meu trabalho em livro, iniciado com O samba, na realidade... em 1981, procura evidenciar a importância das culturas africanas e seus frutos, no Brasil e nas Américas. E isso não com uma visão científica, acadêmica, mas de dentro, já que sou negro, sambista e praticante da religião dos orixás. No Dicionário banto, o objetivo foi dar visibilidade à maior contribuição dos povos de Congo e Angola à cultura brasileira, em relação aos outros contingentes que foram trazidos para o Brasil. Na Enciclopédia, a idéia foi abarcar o máximo possível de toda a contribuição africana, não só para a civilização brasileira como de toda a Afro-América. E, agora, com o Kitábu, eu quero mostrar que as religiões africanas, ao contrário do que se pensa, não são folclore, nem bruxaria, nem infantilidade, já que se apóiam numa filosofia complexa e atuante. Então, todo o trabalho tem uma coerência interna. F - A falta de um livro sagrado, a exemplo da Bíblia e do Alcorão, faz com que as religiões de origem africana se ressintam de uma espécie de certidão de nascimento? NL - Eu não diria "livro sagrado", coisa que nem a Bíblia nem o Alcorão, vistos de fora, são tanto assim. Ambos são livros normatizadores, códigos de comportamento e ritualização. E a Bíblia, principalmente no Antigo testamento, é, antes de tudo, um livro étnico, dos povos hebreu e judeu. A idéia de Kitábu foi mais ou menos por aí: começar a criar um corpus para, mais tarde, quem sabe, formar-se uma grande "Bíblia" do povo negro disperso pelo mundo. Sem que esse povo precise recorrer a crenças de outras origens. Utopia? Pode ser... Quem não vive delas? F - Como resolver a dicotomia oralidade/escritura nessas religiões? NL - Qualquer história oral pode ser escrita. No Kitábu, eu parti de toda uma etnografia colhida por cientistas europeus da boca de negros africanos, a traduzi, adaptei e rescrevi. Quanto às fórmulas rituais, aí sim, o problema não tem solução, principalmente pela importância das palavras originais na transmissão da força vital, do axé. Mas o Kitábu não é um livro de fórmulas rituais. Essas, a gente aprende da boca dos mais velhos... F - O senhor poderia falar um pouco sobre a metodologia e construção de Kitábu e sobre as fon tes utilizadas? NL - Eu parti, como disse, de toda uma bibliografia acadêmica. Dividi-a primeiro em duas parte, África e América, as quais chamei de Antigo legado e Novo legado. Em cada uma dessas grandes partes, contei um pouco da história de cada povo e depois discorri, em forma conselheiral, sobre ritos e tradições (o que é isto, como se faz aquilo, por que se faz aquilo outro). Assim, fui construindo um corpus, ordenado em volumes, capítulos, versículos, como a Bíblia e o Alcorão - esta foi a metodologia. E as fontes foram aquelas obras produzidas desde os tempos coloniais africanos (Delafosse, Parrinder, Balandier, Maquet, Paulme, etc), passando pelos clássicos brasileiros, pelas investigações de cientistas da antiga URSS após a descolonização, até chegar às inúmeras teses universitárias publicadas no Brasil a partir dos anos 80. De cada um eu fui tirando um pouquinho. F - Muito curioso a presença de provérbios em todos os povos estudados. Qual a importância desses ditos nas diversas culturas? NL - Como diz um dos aforismos africanos citados, "o provérbio é o cavalo da conversa". Em todas as culturas antigas, ele é a grande expressão do saber e o grande veículo da educação. F - Entre os rituais abarcados nas várias etnias, alguns chamam atenção, como aqueles em torno da morte, muito mais complexos do que na tradição cristã. O senhor poderia falar um pouco sobre este ponto? NL - Para o africano, a morte é tão importante quanto o nascimento - ou talvez até mais. É na passagem para a outra vida que o indivíduo tem a condição de adquirir, por seus méritos e pelo legado material e moral que deixa, a condição de ancestral, que é um degrau para a divinização. Na tradição cristã, basicamente, morre-se para esperar o juízo final. É bem diferente... F - A priori, a quem se destinaria Kitábu ? NL - No meu entender, o Kitábu pode ser um instrumento teórico de base para os fiéis das religiões originadas. Mas sempre levando-se em conta que os livros informam mas não conferem sabedoria. F - O senhor é um homem religioso? Quando teve os primeiros contatos com a religiosidade afro-brasileira? NL - Fui criado numa família em que a gente, mesmo sem compreender, cultuava um espírito ancestral, uma preta-velha que minha mãe incorporava, chamada Vovó Maria Conga, e que resolvia todos os grandes problemas da casa. Meus tios, irmãos dela, incorporavam caboclos, daqueles de roncar e bater no peito. Meu pai, que nasceu em 1888, carregou com ele para o túmulo um amuleto que lhe foi dado por um velho africano, no próprio subúrbio carioca (Irajá) onde minha família está radicada há quase 80 anos. Mas tudo isso sempre no âmbito doméstico. Até que, em 1977, através de um saud oso amigo, Gilberto de Jesus, que era alabê e tocava no Balé de Mercedes Baptista, cheguei ao candomblé, na Baixada Fluminense - reduto de sucursais de importantes terreiros baianos. E entre 1997 e 2000, duas viagens a Havana abriram ainda mais meus horizontes nesse sentido. F - Quais são seus próximos projetos literários e/ou musicais? NL - Para 2006 tenho já dois contratos assinados com a Editora Record: um livro de contos, passado no ambiente dos morros e escolas de samba; e um Dicionário da antigüidade africana, escrito sob perspectiva afrocêntrica. Estou, ainda, montando um Dicionário escolar afro-brasileiro e escrevendo meu primeiro romance, também afrocentrado. Quanto à música, como tenho um "baú" cheio de canções inéditas, é só aparecer a oportunidade que a gente vai gravando. E isso é fundamental que aconteça pois, lá em casa, quem paga as contas é o sambista compositor, já que o escritor nunca recebeu nenhum tipo de apoio ou patrocínio e nunca foi best-seller. Até agora... *** FICHA Livro: Kitábu - O livro do saber e do espírito negro-africanos Autor: Nei Lopes Editora: Senac Rio |
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