Terça-feira, Fevereiro 28, 2006



POLÍTICA DE COTAS MARCA O FESTIVAL DO ENSOPADO

Revivendo uma velha tradição irajaense, o Lote foi palco, dia 11 de fevereiro, do 1º FESTINTERMUSOP, Primeiro Festival Intermunicipal do Ensopado.

Num clima de grande harmonia e confraternização, o Festival premiou, respectivamente, nas categorias "sabor" e "originalidade", um excelente chuchu com camarão e um exótico bacalhau com tudo em cima.

Vencedoras, duas filhas do mar, como seus ensopados indicaram: Vilma do Doceu e Alda do Bizarro.

E, como o Lote é politicamente correto, vejam os leitores, as vencedoras foram, claro, uma branquinha e uma pretinha. Se liga Ali!


Diz aí!

Domingo, Fevereiro 26, 2006

O AFOXÉ

Cumpridos os preceitos de estilo, com a libação aos ancestrais e as oferendas propiciatórias a Exu Lonan, o dono dos caminhos, o Afoxé saiu, todo de branco.

A orquestra de 256 atabaques (runs, rumpis e lês), 160 agogôs e 64 xequerés, retumbava, repicava, tilintava e chacoalhava o ijexá mais lindo que nossos ouvidos já tinham ouvido, apoiando o coro de 4096 vozes, masculinas, femininas e infantis.

"Afoxé loni, loni ilê ô..." - a cantiga ecoava por toda a Baixada.

A concentração fora em Caxias. E o cortejo, aberto por 32 cavalarianos da Polícia Militar em trajes de gala, percorreu, durante 4 dias e 4 noites, sem cansar nem parar, as principais ruas de São João, Belford Roxo, Nilópolis, Nova Iguaçu, Mesquita, Queimados, Japeri, Paracambi, Seropédica, voltando a Nova Iguaçu pela Estrada de Madureira e de lá voltando ao ponto de partida.

"Ialodê, Ialodê, iá ô..." - Mamãe Oxum, que é "assim" com Exu, garantia a beleza do cortejo. Que, a cada esquina que chegava, arrebanhava mais gente, literalmente encantada por aquele som. E "afoxé" significa, mesmo, encantamento.

Entravam padres, traficantes, pastores, operários, camponeses, drogados, soldados, prostitutas, pentecostalistas fanáticos, bichas loucas, grávidas de onze anos de idade, crentes imbecilizados, kardecistas exercendo seu livre arbítrio, vans clandestinas, pais-de-santo marmoteiros, ginasianos analfabetos funcionais, quimbandeiros malévolos nem um pouco preocupados com a Lei do Retorno, ônibus piratas, prefeitos cassados mantidos no poder à custa de honorários advocatícios pagos com recursos do FUNDEF...

Inebriados e beatificados por aquela música encantadora, componentes e aderentes não estavam nem aí. Pulavam valas negras, driblavam focos de aedes aegypti, desviavam-se de orelhões quebrados, cantando, dançando e sorrindo; sorrindo, dançando e cantando.

"Ê, ê, ê, ê, ê, Logun elebokê..." - As frases das cantigas eram vez por outra intercaladas de breques, interjeições e emissões felizes: "Aleluia!"... "Evoé!" ... "Hosana!"... "Saravá!"... "Shalom!"... "Salam!" ... "Ommmm..."

Até que, na paz, no amor e na harmonia, o afoxé voltou ao ponto de partida e se dispersou, numa nuvem dourada, de serena alegria.

Do seu canto, que é em todos os cantos e espaços, Exu, satisfeito, sorveu um gole, deu uma baforada e sorriu satisfeito, sentindo-se recompensado.

Porque Carnaval é isso: a instabilidade que precede o equilíbrio; a transgressão a partir da qual se estabelece a ordem; o saber e a estultice; a falta e a pena; o erro e o perdão; a culpa e a remissão; o "céu" e o "inferno"; o ir e o voltar; o mal e o bem inerentes a tudo; a dinâmica, enfim, sem os quais nem o Universo nem os seres humanos existiriam.

Feliz Carnaval a Todos os Visitantes do Lote!


Diz aí!

Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006

REMINISCÊNCIAS CARNAVALESCAS - 3

Era de manhã. Domingo de carnaval. O bloco vinha lá do Beco da Coruja - cafundó da pesada que a urbanização e a especulação imobiliária transformaram em bairro Vista Alegre.

Bloco de sujo. A bateria invocada, cadenciada, chocalhada (ah, mamãe!), tamborinada. E as comadres e meninas cantando lá em cima, naquelas regiões sonoras improváveis.

Devem ter parado no depósito do Zeca, pra molhar o bico, sem perder o ritmo; entrado na Gustavo de Andrade, dobrado à direita na "rua do Poço" (Félix Pereira). Subiram a Pau-Ferro, passaram na esquina da Vendinha, chegaram no nosso portão, pra receber a emoção de um moleque de 8 ou 9 anos - que quase meio século depois se tornaria o Velhote do Lote, apreciador do que é bom e verdadeiro, venha de onde vier. E foram embora pra "Estação".

O samba era lindo, muito lindo. Não era do bloco, era do Rádio. E a voz da Dona Vitória, avó do Afinha, uma negra velha já de uns 70 anos, papuda, portadora do que hoje sabemos se chamar bócio endêmico, vibrava no ar, uma oitava abaixo do coral das meninas e comadres:

"Chorar como eu chorei/ ninguém deve chorar
Amar como eu amei/ ninguém deve amar
Chorava que dava pena/ por amor a Madalena
E ela me abandonou/ diminuindo no jardim/
Uma linda flor..."
Tremendo samba. Típico dos antigos terreiros. Assinado por Airton Amorim e Ari Macedo. E, na interpretação de Linda Batista, foi um dos grandes sucessos do carnaval de 1951.

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Passados muitos anos, o Velhote ouve o velho samba, em ritmo de són ("salsa" é coisa de portorriquenho) na voz de Oscar De Léon. E, ao checar na ficha técnica vê uma autoria estranha. Passa mais tempo, num CD cubano de rumbas tradicionais, lá está a mesma Madalena gravada como obra de domínio público. E, sábado passado, aqui no Lote, no 1º FESTINTERMUSOP (quem veio, sabe o que foi e como foi), na hora que Doceu riscou o ré menor na viola, e a mala do ritmo entrou quebrando e chocalhando tudo, o Velhote mandou, de picardia, o velho samba, de olho na Ala Cubana da casa.

Ah, menino! Nem te conto. Os amigos habaneros largaram os charutos e caíram dentro, cantando em espanhol e depois comentando que Madalena era una rumba muy antígua, del tiempo de Senseribó.

Airton Amorim de Macedo, o primeiro autor, vejo aqui na Enciclopédia da Música, nasceu em Maceió em 1921 e veio criança ainda para o Rio, tornando-se conhecido como discotecário nas rádios Cruzeiro do Sul, Eldorado, Mundial e Tamoio.

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Discotecário ouve muito disco; da mesma forma que, no universo autoral internacional, compositor tem que andar com a bunda encostada na parede. Assim, não sabemos quem garfou ou foi garfado. Mesmo porque o que nos interessa, nessa reminiscência, é apenas lembrar a velha Vitória, de papo e tudo, abrindo o gogó nesse samba-rumba antológico. Domingo de manhã, o bloco subindo a rua, vindo lá do Beco da Coruja...


Diz aí!

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006

AVISO AOS JORNALISTAS INADIMPLENTES: OLHA O PRAZO!

Nosso querido amigo José Sérgio Rocha, "Zé Sé" para o Lote, está organizando uma antologia de contos, só de jornalistas escritores. Já tem Alexandre Medeiros, Antônio Fernando Borges, Carlos Marchi, Lourenço Cazarré, Marceu Vieira, Marcos Santarrita, Mauro Dias, Pinheiro Júnior, Regina Echeverria, Regina Zappa, Toninho Vaz, e mais uma pá de canetas nervosas de nossas redações. Só que o Zé Sé e a Marcia Silveira, da Casa Jorge Editorial, estão aflitos pois o lançamento está previsto para abril e tem cara que ainda não chegou junto, entregando os trabalhos. Então, o Velhote aqui do Lote, na condição de "paraninfo" da tchurma (na nossa época, crioulo jornalista só cobrindo polícia ou escola de samba; aí fomos ser "adevogado") apela aos inadimplentes: Olha o prazo, gente! Olha o prazo! Jornalista que se preza, bebe mas no outro dia está firme no batente.


Diz aí!

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

REMINISCÊNCIAS CARNAVALESCAS - 2

Quem por acaso folhear a "História" dos desfiles salgueirenses, verá, no ano de 1967, quase chegando o AI-5, nossa escola cantando a saga dos que lutaram pela liberdade neste sofrido País. E vai ver, colocado lá na divisa entre o Brasil imperial e o republicano - não sabemos se devida ou indevidamente - a figura amulatada de Deodoro, marechal cuja memória hoje quase que se restringe à placa na estação onde se bifurcam os trilhos da Central, em direção, respectivamente ao Matadouro e a Paracambi.

Nesse heróico desfile, a certa altura, o longo samba assinado por Aurinho da Ilha (segundo algumas versões, não comprovadas, também de autoria do legendário Didi Baeta Neves), depois de um verso genialmente sintético ("... a Manuel, o Bequimão, / que no Maranhão / fez aquilo tudo que ele fez) cantava: "Oba, lararararara! Oba, lararararara!". E, nesse refrão, Deodoro, vestindo impecável farda alvirrubra, brandia a espada, no ritmo, personificado pelo famoso locutor turfista Heitor de Lima e Silva, o popular "Bolonha".

Bolonha, como se vê pelo sobrenome, era descendente em linha direta do heróico Duque de Caxias. E a espada, de verdade e pertencente ao ilustre ancestral, Bolonha, segundo um dia nos contou, tinha levado de casa, do museu familiar, para dar mais autenticidade à cena que representou.

Imaginem, visitantes do lote: Deodoro-Bolonha brandindo a espada autêntica, a verdadeira (ou seria uma estepe, sobressalente?), de Luiz Alves de Lima e Silva, o popular Caxias.

E o alto-falante, galopando: "Foi dada a partida para o grande páreo das escolas de samba! Lá vai Deodoro, espada em riste, montando Salgueiro pela raia esquerda da Presidente Vargas, passa Rio Branco, Miguel Couto, Andradas, Conceição, Avenida Passos, Regente Feijó, Tomé de Souza... e cruzam o disco final".

Pule de dez? Que nada! Deu Mangueira em primeiro, montada por Monteiro Lobato; Império em segundo, cavalgado por São Paulo, Chapadão de Glórias (na garupa, o saudoso Evandro de Castro Lima, fantasiado de Gêngis Khan - lembra, Haroldo Costa?); e nossa Academia em terceiro.

Mas o Bolonha era espada! E não era nada "Caxias".


Diz aí!

Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006

A CONVENÇÃO DE GENEBRA E OUTROS TRATADOS

Semana passada, um grande número de bebuns, biriteiros, pé-de-canas, esponjas, pau-dáguas, pão-doces, inchadinhos etc., presididos pelo Joacir Blecaute - qualquer dia desses a gente apresenta melhor o personagem - reuniu-se para fundar uma nova tendinha, aqui perto do Lote. O objetivo era a Melhoria do tratatamento dos feridos, doentes e náufragos, vítimas do mau humor do Bestalhão, português dono da "Conferência de Samba em Berlim", a tendinha antes por eles freqüentada; bem como a proteção dos signatários (todos eles biscateiros, sem Instituto, SUS, essas perfumarias) em casos de crise de abstinência.

Genebra é bom pro estômago, todo mundo sabe. Por isso, a aristocrática bebida foi eleita a madrinha, a patronesse da Convenção, que, diga-se de passagem, nada tinha a ver com o guaraná homônimo.

Após muita discussão, regada a um copázio da "madrinha" a cada frase, o tratado foi assim redigido:

"Art. 1º -- É expressamente proibido o consumo de cerveja ou de qualquer outro refrigerante gaseificado neste estabelecimento;

Parágrafo 1º - Tira-gosto, só mesmo em caso de extrema necessidade;

Parágrafo 2º - Baixa-gastronomia é coisa de... deixa pra lá... "

O problema foi na hora de assinar o documento, no papel da carne-seca. Blecaute, que ainda não tinha tomado a primeira, tremia tanto que o lápis de carpinteiro, aquele meio largo e chato, foi parar no olho esquerdo do Pernambuco, seu amigo de fé, irmão e camarada.

MORAL DA HISTÓRIA: Quem não tem SUS não faz trato com pinga. (E o Ministério da Saúde se diverte...)


Diz aí!

Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006

REMINISCÊNCIAS CARNAVALESCAS - 1

Segunda-feira de carnaval, 1965. O Velhote, ainda um frangote de 22 aninhos, sai pelas ruas de Irajá, em direção ao coreto, desfilando a belíssima fantasia da Ala dos Significantes, com que, nem melhor nem pior, arrebentara naquele memorável carnaval do 4º Centenário do Rio.

Na esquina de Coronel Vieira, berço do Urubu Cheiroso e outros aromas, encontra um colega imperiano, também devidamente fantasiado. Os dois se dirigem ao Moreira, para uma cerveja, quando chega um cuiqueiro portelense, também colega, e se incorpora ao grupo. Puxa, vida! Só falta um mangueirense, pra completar o quarteto que se revesava, sempre, até meados dos 70, nos primeiros lugares da grande parada do samba.

Cerveja vai, cerveja vem, eis que aparece, abalando a Rua Cisplatina e adjacências um Ford bigode, de capota arriada, trazendo como alegoria viva uma senhora boneca ("senhora", nos dois sentidos: bem fantasiada e bem coroa) que saía de baiana nos Aprendizes de Lucas.

Do alto de seu alegórico fordeco, a boneca fez psiu. - É comigo? Eu hein, Rosa!? - muxoxou o portelense, naqueles tempos politicamente incorretos em que crioulo bicha era logo internado no Engenho de Dentro. Entretanto, nós, paladinos dos direitos civis das minorias e arrostando todo e qualquer preconceito de gênero, classe ou etnia, fomos lá ver do que se tratava.

Tratava-se de uma proposta de trabalho, a troco de umas cervejas a mais. A boneca queria que a gente subisse no estribo do calhambeque, pra dar uma volta pelo centro de Irajá, saudando o povo, o comércio, a imprensa escrita falada e televisada e o vereador José Machado Wanderley (ou era - socorro, Gilberto - o Doutor Geraldo?), o cacique local.

Foi um sucesso o desfile. E, dali, devidamente consagrado e encervejado, despedimo-nos da boneca e dos colegas e rumamos pra Madureira, pra pegar o Saenz Peña (hoje 638), que nos levaria para os braços da nossa, digamos, comunidade salgueirense.

Nossa fantasia alvirrubra causava espécie, naquele reduto verde ou azul escuro. Foi quando um coroa, com cara de especialista chegou-se pra nós e perguntou:

- Por favor, meu jovem, que escola é essa?

Peito inflado, ainda sob o impacto do tremendo desfile da véspera, quando bisamos o "Chica da Silva" de dois anos antes, enchemos a boca, orgulhosos:

- ACADÊMICOS DO SALGUEIRO !

E aí o "especialista", tão entendido quanto quase todos os jurados de hoje em dia, ajeitou os óculos e mandou a análise abalisadíssima, de expert mesmo, com vistas ao resultado que sairia na quarta-feira:

- Vocês vieram muito bem. Mas precisam ter cuidado é com o Bafo da Onça... (NL)


Diz aí!