Quinta-feira, Dezembro 29, 2005

OS MELHORES DE 2005

Seguindo uma tradição do mais puro jornalismo de variedades, o sempre isento e insuspeito júri do Lote escolheu os melhores de 2005 nas variadas categorias do entretenimento, da cultura e até da anatomia brasileiras.
The winners are...

Melhor Banda: a do Corpo de Bombeiros.
Melhor Galera: a do pirata da perna de pau, que nos verdes mares não teme o tufão.
Melhor Balada: "Balada Triste", de Dalton Vogeler e Esdras Silva, na voz de Ângela Maria, a Sapoti.
Melhor Canção: o vinho tinto da venda aqui em frente: custa R$ 0,30 o copo cheio.
Melhor Pagode: o templo de Buda em Nakayama.
Melhor Dupla Sertaneja: a enxada e o ancinho.
Melhor Grupo de Louvor: o cordão dos puxa-sacos.
Melhor Clip: aquele de plástico, que não enferruja.
Melhor CD: o Corpo Diplomático.
A Mais Descolada: a retina.
Melhor Celular: a prisão individual, incomunicável.
Melhor Delegado: o da Mangueira.
Melhor Ministro: o da cuíca, neto de Tia Ciata , que tocava na escola de samba do Herivelto Martins, no carnaval Brahma Chopp.
Melhor Senador: Dantas.
Melhor Dirceu: o da Marília.
Melhor Presidente: o conhaque.
Melhor Rádio: o osso do meu antegraço direito.
Melhor Audiência: a da 6ª Vara de Família.
Melhor Escola: o parnasianismo.
Melhor Harmonia: aquela praça da Gamboa.
Melhor Conjunto: calça, blusão e sapato sem meia.
Melhor Bateria: a do meu chevette 74.
Melhor Comissão: a de 50%.

(colaboraram Mary Christmas e Rap New Year)


Diz aí!

Quarta-feira, Dezembro 21, 2005

O BOM VELHINHO DE IRAJÁ
(Conto de Natal, RN)


Seu Noel, velho faceto, safadinho, ex-brincante de antigos pastoris, resolve passar as Festas no seu nordeste. E, três dias antes da Noite Feliz, lá está ele num famoso bordel da capital potiguar, todo de vermelho, inclusive o boné, quem tem um pomponzinho branco, o traje complementado com cinturão e botas pretas. Escolheu a Natalina, a mais bonita e mais cara das meninas.

Mulherão, tipo Roberta Close, salto 7 e meio, cinta-liga, a quenga informa o câmbio, dengosa:

- 500 réais, bichinho!

Seu Noel, sem titubear, mete a mão na carteira, paga adiantado e passa uma hora de sexo selvagem, desenfreado, tirando da sacola aquela ruma de instrumentos e aparelhos; e elevando Natalina a excelsitudes inimagináveis de loucura e prazer.

Na noite seguinte, o bom velhinho aparece, novamente, e chama pela Natalina.

Ela estranha, dizendo que nenhum cliente dela veio duas noites seguidas. E vai logo avisando que não tinha porra nenhuma de desconto, nem pelo prazer nem pela fidelidade.

Seu Noel, então, com aquela sua carinha safada, tira mais 5 notas de 100 reais e entrega à garota, que o conduz ao recôndito do tristemente célebre lupanar da capital norte-riograndense, onde a sessão se repete - e tome polca! - ainda melhor que na véspera.

Na noite seguinte... pasmem os amados leitores do Lote! Mais uma vez, o bom velhinho entrega o maço de notas à messalina, e tornam a ir para o quarto. É, então, que ela, terminada a refrega, não resiste e pergunta ao coroa:

- Oxente! Nunca nenhum cabra da peste usou os meus serviços três noites seguidas, porque eu sou a melhor quenga deste brega e cobro muito caro. Se é que por mal lhe pergunte: de onde é o senhor?

- Sou do Rio de Janeiro, minha filha. De Irajá. - responde Noel, com aquele seu olho de peixe morto.

- Fala sério? Que coincidência! Eu tenho uma irmã que mora no Rio. Justamente em Irajá!

Seu Noel, então, ajeitando o gorrinho vermelho de pompom branco na cabeça encanecida, arremata, ao som da harpa de Luís Bordón que toca lá no salão:

- Eu sei. Foi ela que me pediu para lhe entregar os 1500 reais!!!

(Historinha ricamente adaptada de texto recebido via Internet)


Diz aí!

Segunda-feira, Dezembro 19, 2005

ECOS DO DIA DO SAMBA: O LOTE NO PLANALTO
(Pronunciamento da Deputada Jandira Feghali)


A SRA. JANDIRA FEGHALI (PCdoB-RJ. Pronuncia o seguinte discurso.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, hoje quero utilizar esta tribuna para homenagear um capital cultural do País que há muito deixou de ser apenas um ritmo ou um estilo musical para tornar-se símbolo da resistência cultural dos brasileiros. Dois de dezembro foi o dia em que Ari Barroso, autor do samba Na Baixa do Sapateiro, pisou pela primeira vez em Salvador. A arte tem dessas coisas. O grande mestre escreveu a letra sem antes nunca ter ido àquela cidade.
É muito importante destacar esse dia, pois o samba constitui elemento basilar de nossa identidade cultural. São muitos a serem homenageados: compositores e intérpretes. Aqui cito apenas alguns, para reverenciar todos: Pixinguinha, Cartola, Zé Kéti, Nelson Sargento, Luis Carlos da Vila, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Paulinho da Viola, João Nogueira, Moacyr Luz, Monarco, Mauro Diniz.
Em particular, quero fazer 2 homenagens. A Nei Lopes, escritor, compositor e intérprete. Suas obras são valiosas contribuições para a preservação da memória de nossa cultura, inclusive de nossas raízes africanas. Desse modo, ajuda a constituição de nossa Nação e do povo brasileiro.
A outra homenagem é a Bernard Von Der Weid, por seu trabalho na Associação dos Compositores e Músicos da Baixada Fluminense (AMC) e em São João do Meriti. Há 8 anos ele ensina música para jovens, tendo hoje 150 alunos, dentro de um projeto pedagógico em que se aprende arte musical, cidadania e profundo conhecimento da criação da música popular brasileira.
Com muita honra, faço integrar meu pronunciamento um texto de autoria de Nei Lopes:
"Comecemos por 'Tempos Idos', obra na qual o genial compositor Cartola orgulhava-se de o samba ter saído do morro e chegado aos salões, indo exibir-se 'pra Duquesa de Kent no Itamaraty', como de fato aconteceu nos anos 50.
Essa trajetória simbolizaria a ascensão social do gênero e da cultura que o gerou, ascensão essa coroada em 2001 com a outorga da Ordem do Mérito Cultural a 4 das principais e mais tradicionais escolas de samba cariocas pelo Ministério da Cultura em solenidade palaciana de Brasília.
Esses fatos nos remetem, agora, a uma outra letra, de Guilherme Godoy, excelente e quase anônimo compositor, recente e prematuramente falecido, segundo o qual 'desde que a Ciata minha tia/ deu início à fidalguia/o samba sabe o que quer'. E os versos nos levam à pergunta: será que o Ministério da Cultura sabe o que o samba quer e do que precisa?
Entendemos que é muito difícil para o não iniciado perceber a enorme diferença que hoje existe entre samba e escola de samba e o grande fosso que se cavou entre essas duas instituições. As escolas nasceram bem depois do samba, com a intenção de desestigmatizá-lo e legitimar sua aceitação pela sociedade dominante.
De alguns anos para cá, as escolas propiciam trabalho informal remunerado a alguns componentes especializados, como mestres-salas, porta-bandeiras, diretores de bateria, cantores etc. Da mesma forma que direta ou indiretamente garantem remuneração a jornalistas, radialistas e outras categorias de profissionais envolvidos no espetáculo que protagonizam. Mas no nosso entender, modesto mas baseado em uma vivência de mais de 40 anos, o samba, como dizia Guilherme Godoy, sabe o que quer e não se contenta só com isso.
Matriz principal da música popular brasileira, o gênero se diversifica a cada passo, dando provas de uma vitalidade extraordinária, desde a gravação do 'Pelo Telefone' em 1917. Ao mesmo tempo em que vê surgir de seu seio subprodutos discutíveis mas de grande sucesso comercial, ele - como jazz, seu primo-irmão americano - estimula rodas de discussão na Internet e nas universidades, motiva a elaboração de teses acadêmicas (inclusive no exterior), revigora tradicionais redutos como a velha Lapa, e se consagra com um belo e merecido Prêmio Shell, na figura admirável do sambista Elton Medeiros.
Para nós, em termos de capacitação profissional, o samba precisa é de técnicos e engenheiros de som que saibam gravar, mixar e reproduzir com fidelidade as freqüências e sonoridades peculiares de seus instrumentos, que diferem fundamentalmente daqueles usados na música internacional. Precisa de bailarinos e coreógrafos capazes de levar aos grandes e prestigiosos palcos, recriadas em linguagem teatral, a riqueza e a diversidade dos seus passos, bastante diferentes do pastiche hoje vendido como a dança do samba. Precisa também de músicos, arranjadores, regentes, acompanhantes e intérpretes, capacitados a levar para a pauta, para os espetáculos e para as gravações, partindo da tradição para a modernidade, todo o amplo espectro de seu repertório. E de produtores descolonizados e progressistas que enxerguem o samba através de uma perspectiva nacional, desvinculada da massacrante globalização pop.
Finalmente, o samba precisa é de uma política governamental que o reconheça como patrimônio inalienável do povo brasileiro e merecedor de todas as proteções possíveis, inclusive no campo minado do direito autoral.
Quanto aos sambistas, é preciso termos em conta que, para vencer o preconceito e disputar espaço no mercado cultural, o samba precisa limpar sua imagem, desvinculando-a de tudo o quanto é ilegal, mostrando-se como um produto do morro, sim, mas que se impôs no asfalto. É preciso mostrar a multiplicidade desta arte, que inclui dos estilos mais populares à bossa nova mais sofisticada, e caracterizá-la como um importante fato cultural, que transcende raça, classe social e faixa etária.
É claro que o samba precisa de medalhas também. Afinal, elas fazem parte de nossa pompa e circunstância. E quanto mais medalhas no peito, melhor. Porque o chumbo que tem vindo lá de fora é grosso".

Muito obrigada.


Diz aí!

Domingo, Dezembro 18, 2005

EXCLUSÃO, FORNO & FOGÃO, ENGENHO & ARTE

Anúncio de página inteira publcado no caderno "Ela" de O Globo no sábado 17, a propósito de um evento de artes, gastronomia e decoração, estampa fotos tipo 3X4 de 92 arquitetos e decoradores, chefes de cozinha e confeccionadores de bolos, todos parece que atuantes no Rio. Dessas, apenas a foto de 1 única profissional indica tratar-se, provavelmente, de uma afro-adescendente.
Cota é isto ali!


Diz aí!

Sexta-feira, Dezembro 16, 2005

OS PRIMOS DO NEI, DO BLANC, DO VIGNOLI E DO TÁRIK DE SOUZA

O Lote, mesmo jogando recuado, leu com alegria sobre o lançamento de mais uma obra carioca da gema. Ao livro do querido Moacyr Luz, hoje um dos grandes nomes da literatura etílica e baixo-gastronômica, junta-se agora o CD do Bip-Bip, adorável bar do não menos Alfredinho, lenda viva do samba, do choro e do birinaite.

No disco do Bip, pelo que lemos no Tárik de Souza (Caderno B, JB) está lá a "caricatura" da "frondosa genealogia" do velhote aqui do Lote, no samba "Primos do Nei", de Jaime Vignoli e Aldir Blanc. Mas a história não é bem assim, velho Tárik!

O fato é que, pelo que aprendeu, nos anos 50, no semi-internato da Escola Técnica Visconde de Mauá, onde todos os negrinhos de 13, 14, 15 anos de idade se tratavam por "compadre" e usavam entre si o respeitoso tratamento "senhor" - como ainda é hoje comum entre os sambistas tradicionais: Das Neves, Ovídio Brito, Zé Trambique etc não nos deixam mentir - o Velhote aqui, ainda menino, criou sua própria família extensa que não é tão frondosa assim e muito menos uma caricatura.

Justifica-se, falando sério, essa extensão da família pelo fato de que os descendentes de africanos na Diáspora tiveram que refazer simbolicamente os laços parentais perdidos. E aí chamamos qualquer semelhante próximo de "tia", "pai", "mano", "compadre" etc.

O querido Aldir Blanc acho que não sabia disso. Então, quando conheceu nossos "primos" Camunguelo, Valmir Gato Manso, Lula do Cavaco, Juca Serpente de Prata, Murilo da Chave de Ouro etc, etc, etc, escreveu o samba, em cuja letra descobriu que "até o Lula é primo do Nei".

O pessoal do Irajá e do Lote se amarrou no samba. Ficamos felizes ao imaginar que os bisavós dos Blanc, Vignoli, Vergueiro, Duvivier, Buarque, Jobim, Hime, Byington etc - todos hoje, com seus nomes inscritos no grande livro da melhor Música Popular Brasileira - podem ter sido primos dos patrões dos nossos bisavós, os quais, por razões óbvias, nenhum de nós sabe ou soube quem foram.

Pois o Brasil é isso. Como bem conhece o nosso amigo Tárik, filho dileto do grande jornalista, escritor e publicitário Emil Farhat - a quem o Lote reverencia nesta nota já meio natalina.

Feliz Natal pra nós! E pra todos os inúmeros primos entre o quarteto em si!


Diz aí!

Quarta-feira, Dezembro 14, 2005

SE LIGA, GENTE BOA!

Em Recife, onde, em sua intrépida itinerância, o Lote foi, através da AMAR-SOMBRÁS, para um bate-papo de trabalho com a Fundação Quinteto Violado, nosso Velhote e o grande amigo e compositor Paulo César Pinheiro estranharam o teor da nota "Quanto vale o som?", publicada na coluna "Gente Boa", de O Globo, no sábado 10.

Na nota, a coluna falava de "mais uma do ECAD", condenando o fato de o escritório cobrar por música tocada em consultório de dentista e por aquela que é "distribuída" na Internet.

Foi aí que, entre patinhas de uçá, manteigas de garrafa e alguma cerveja, Paulinho e o Velhote resolveram, cada um de seu Lote, mandar um alô pra "Gente Boa". E a nossa foi mais ou menos por aqui assim, ó:

"Joaquim: (...) É que o ECAD, escritório que representa todas as sociedades autorais musicais brasileiras, quando taxa música ambiental de escritório de dentista e cobra transmissão de música via Internet, ele o faz absoilutamente de acordo com a Constituição e as leis que regem o assunto. Você não acha que a música de consultório alivia a aflição da broca e assim "agrega valor" (como dizem os moderninhos)? E você também acha que a Internet não tem dono, que seu território é tudo isso de livre e democrático que dizem por aí e que ninguém fatura com a música que rola nela? É ruim, hein!...

Tua deliciosa coluna 'Gente Boa' não é boba, Joaquim. E quando os textos dela são reproduzidos pelos jornais de todo o Brasil, será que você e sua equipe não faturam um dindinzinho? Ah, é!? 'Flexibilizaram os direitos?' - como diz um pessoal lá do Ministério da Cultura? Qualé?

Dá um jeitinho aí, Joaquim. E retifica a nota. O art. 7o da Lei 9610/1998 ('São obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte...') vai te agradecer muito. E não vai deixar que, de noite, durante o sono, e "espírito da lei" puxe a perna do pessoal da 'Gente Boa'"


Diz aí!

Terça-feira, Dezembro 13, 2005



Diz aí!

Sábado, Dezembro 10, 2005



VOTE EM NILZE CARVALHO!

Não! Não é para presidente da Lapa nem para a Academia Brasileira de Bandolim. O voto que o Lote pede para a nossa queridíssima Nilze se refere ao prêmio "Faz Diferença do jornal O Globo", categoria Música, para o qual nossa estrela foi indicada, e que contempla quem se destacou em 2005.

Vote clicando aqui.

E se puder, caro(a) (e)leitor(a), lembre ao pessoal que escreve na página de Opinião do querido jornal que, das 42 indicações, só 4 foram para afro-descendentes. E apenas na área do entretenimento, não tendo nenhum de nós se destacado nas áreas de produção de conhecimento, letras, informação, economia etc.

Cota é isso aí!


Diz aí!

Quinta-feira, Dezembro 08, 2005

MOJUBÁ, EXCELÊNCIAS!

O avanço das igrejas ditas "evangélicas" no Rio e no Brasil tem-se revestido, quase sempre, de intolerância e truculências jamais vistas no País; nem mesmo na década de 1950, quando fazendo eco à tendência dominante, condenavam-se as práticas religiosas não católicas, colocando-as numa espécie de index, de forma velada ou expressa.

Assim, hoje, na vigência de uma salutar liberdade de expressão religiosa, chega a ser pitoresco ler, num editorial de O Globo de 6 de janeiro de 1954 (cf. coluna "Há 50 Anos", Segundo Caderno) o texto seguinte: "É preciso que se diga e que se proclame que a macumba, de origem africana, por mais que apresente interesse e pitoresco para os artistas, por mais que seja um assunto digno de estudo para o sociólogo, constitui manifestação de uma forma primitiva e atrasada da civilização..."

Coisa "da antiga"! - como diria um conhecido samba. Principalmente quando vemos, veiculada, desde o último 20 de novembro, no canal Futura, o "canal do conhecimento" da Rede Globo, a bem concebida e realizada série "Mojubá", sobre as tradições religiosas afro-brasileiras, com cenas de rara beleza e depoimentos de importantes teóricos e práticos dessas vertentes filosóficas. A expressão mo juba é, em iorubá, uma interjeição de reverência diante de um poder superior.

Na contramão desse louvável avanço, vimos, dias atrás, as histéricas e invasivas pregações "evangélicas" no espaço público dos transportes, notadamente nos trens suburbanos e barcas da baía de Guanabara, tendo que motivar até a intervenção do Ministério Público Estadual. E lemos, numa revista semanal, declaração estapafúrdia de uma ex-cantora pop-rock, agora "pastora", segundo a qual a tragédia ambiental que se abateu sobre a cidade americana de Nova Orleans seria um castigo dos Céus pela prática do vodu, similar caribenho da nossa umbanda, presente na cultura local desde o século 18. Mas vemos também, com um certo alívio, que o Tribunal Regional Federal da 3ª Região acaba de garantir, por unanimidade, o direito coletivo de resposta ao Ministério Público Federal e a organizações da sociedade civil, por conta das repetidas ofensas às religiões afro-brasileiras em transmissões televisivas da famigerada Igreja Universal do Reino de Deus.

A principal lição que os bons praticantes das religiões afro-originadas têm assimilada é que todos os seres do universo são detentores de força vital, valor supremo da existência; e que, para se proteger contra a perda ou diminuição dessa energia, deve-se recorrer àquela emanada das divindades e dos espíritos dos antepassados, às quais se chega através do culto ou ritual propiciatório das graças da Energia Suprema.

Isto está em "Mojubá", a série do Canal Futura. E é, juntamente com a Constituição Federal e a isenção dos bons magistrados do País, a grande arma dos candomblecistas, umbandistas e afins contra as arrogantes, tonitruantes e histéricas trombetas - tão incômodas quanto as rajadas de metralhadoras - que vêm tirando a paz de milhões de cidadãos pacíficos, entre os quais me incluo, do Rio e da Baixada fluminense.


Diz aí!

Quinta-feira, Dezembro 01, 2005

PERDERAM! PERDERAM!

Quem não foi ao lançamento do Kitábu, além de ser "mulher do padre" e "comer toda a porcaria do mundo" - como a gente dizia no Irajá, nos 40 - perdeu a oportunidade de ouvir uma trilha sonora afro espetacular, composta aqui no Lote, plena de tambores e cânticos espertos, navegando de Santiago de Cuba a New Orleans, com altas escalas em Kingston, São Luís do Maranhão, Triângulo Mineiro e Montevidéu - perguntem ao Carlos Negreiros se estamos mentindo. E perdeu também um show, com a grife SENAC, de acepipes étnicos, que iam de canapés de acarajé, barquetes de xinxim e patês de galinha d'angola, até vinho de palma, servido em cabacinhas e licores "afro-disíacos" - taí o baianíssimo Dr. Eloá, Omó Oni Xangô, que não nos deixa mentir.
Quem não foi, perdeu...perdeu... No bom sentido, é claro!


Diz aí!


O RENASCENÇA E O DIA DO SAMBA

O clube Renascença, hoje experimentando um espetacular renascimento por conta de sua roda de samba das tardes de segunda-feira, quando consegue reunir, segundo seus organizadores, mais de mil pessoas, nem sempre foi um clube de samba. Fundado em 17 de fevereiro de 1951 no Méier e de­pois trans­fe­ri­do pa­ra o Andaraí, ele nasceu dos anseios de uma emergente classe média negra carioca, cansada de ter seu ingresso vetado nos quadros sociais dos clubes sociais da vizinhança, no eixo Tijuca-Méier, aí incluído o aristocrático Grajaú e até a boêmia Vila Isabel - bairro, também, de militares de altas patentes.

O ideário do Renascença objetivava a inserção do negro na vida social e cultural carioca. Então, ali, se fez "cultura" no melhor sentido do termo, como uma histórica montagem do "Orfeu da Conceição" nos anos 70, lançamentos de livros, fóruns de debates políticos, além de outras iniciativas importantes, nas quais se incluíam os concursos de beleza, que romperam, em nível até internacional, com a nossa Vera Lúcia Couto, os padrões estéticos europeizantes de tais certames.

Quando o Renascença já tinha dez aninhos de idade realizou-se, no Rio, em 1962, o Primeiro Congresso Nacional do Sam­ba, evento em cujo final, no dia 2 de dezembro, o et­nó­lo­go negro Édison Carneiro foi in­cum­bi­do de re­di­gir a "Carta do Samba", do­cu­men­to que propunha, entre outras coisas, a pre­ser­va­ção das ca­rac­te­rís­ti­cas do gênero-mãe, den­tro de uma pers­pec­ti­va de pro­gres­­so, e que foi pu­bli­ca­do pe­lo en­tão Mi­nis­té­rio da Educação e Cultura, por in­ter­mé­dio da Campanha de Defesa do Folclore. Foi aí que o 2 de dezembro virou efeméride, ofi­cia­li­za­da, no Rio, pe­la lei es­ta­dual nº 554 de 28 de ju­lho de 1964.

Renascença e Dia do Samba, então, são duas faces de uma mesma moeda: a da luta dos negros cariocas contra a exclusão racista e a espoliação, pelo respeito enfim. Tantos anos depois, entretanto, as duas iniciativas podem, de certa forma, ter sido superadas pelas leis do Mercado, essa entidade que hoje justifica tudo. Mas fica aqui nosso registro, pela alegria de ver o Samba dando exemplo de longevidade e diversificação, "sem distinção de credo, cor ou classe social". E de constatar que a tradicional agremiação de que somos associados ganha, agora, com o som ao vivo de sua roda de samba lançado em CD, e igualmente "sem distinção de credo, cor ou classe social", o legítimo estatuto de "Renascença Samba Clube".

Parabéns ao Rena! Viva o Samba!


Diz aí!