Quarta-feira, Novembro 23, 2005



Diz aí!

Quarta-feira, Novembro 16, 2005

CHACOALHANDO OS XEQUERÉS

Chega ao Lote solicitação de um texto para integrar volume a ser publicado, neste mês da Consciência Negra, pela Fundação Cultural Palmares do MinC. O assunto é música popular, de 1980 até hoje, no contexto do movimento negro. E o texto, que vai aqui como tira-gosto para os visitantes do Lote, nos saiu, com o título acima e o subtítulo abaixo, mais ou menos assim:

Música Popular, Desafricanização e Exclusão nos 25 anos do Movimento Negro

Escrevo este texto poucos dias depois de a UNESCO ter aprovado, em 21 de outubro, a "Convenção sobre Proteção aos Conteúdos da Diversidade Cultural e Expressões Artísticas". E o faço para colocar em discussão o verdadeiro processo de colonização a que é submetida a música popular brasileira no transcurso do jubileu do movimento negro organizado. Na forma seguinte:

Gerada ainda no ambiente escravista do século XIX, a música popular do Brasil (popular e não folclórica), exteriorizada através da canção e da execução instrumental, atingiu sua maturidade nos anos de 1950, sob o natural influxo de outras músicas nacionais. Não obstante, na década de 60, toda essa produção, difundida a partir do eixo Rio-São Paulo - à exceção da música estrangeira aqui aclimatada ou da rural urbanizada e industrializada - era indistintamente reconhecida como "samba". E isto, numa referência ao gênero mãe, de indiscutível origem africana, erigido à condição de símbolo nacional na Era Vargas.

Nesse contexto, a partir de meados dos 60, ganhava força a vertente então conhecida como "samba de morro", porque principalmente produzida naqueles redutos cariocas de maior concentração populacional negra, hoje mais mencionados como "favelas" ou "comunidades". E se revitalizavam, no ambiente das gafieiras ou nas rodas e choro, as várias formas de música instrumental levadas a excelsas alturas por mestres afro-descendentes, tais como - correndo a linha do tempo - Henrique de Mesquita, Callado, Anacleto de Medeiros, Pixinguinha, Claudionor Cruz, Maestro Carioca, Moacir Santos etc.

Entretanto, durante a Ditadura militar, com a efetiva implantação, no Brasil, de uma indústria cultural (fenômeno ambivalente), desde a "Era dos Festivais" a idéia de criação de um "som brasileiro para exportação' tomou corpo. E isso resultou no advento do chamado "Rock Brasil", movimento gerado no seio da alta classe média urbana, a partir de Brasília, e naturalmente não identificado com a massa de criadores e consumidores afro-descendentes.

No rastro desse direcionamento internacionalizante, onde a "exportação" acabou cedendo lugar à importação mais dependente, os anos 80 estabeleceram definitivamente os dois grandes compartimentos hoje vigentes na música popular urbana do país: o escaninho do "pop-rock", no qual a negritude original (a do rhythm blues e do rock'n'roll) se diluiu; e o da MPB, no qual o samba, salvo rarísimas exceções, só tem ingresso quando criado ou interpretado pelos filhos não negros da alta burguesia ou da classe média urbana.

Por conta dessa contradição, a presença, então, da música popular de origem africana na cena brasileira, no contexto dos 25 anos do Movimento Negro, é extremamente ambígua, medindo-se com dois pesos e duas medidas diferentes. Se ela é construída dentro dos padrões da globalização pop, ditada pela indústria internacional do entretenimento, ela é bem vista e difundida, mesmo vinda dos guetos e irradiando atitudes vendidas como de afirmação étnica e supostamente transgressoras; mas aí o discurso anti-racista, por exemplo, é assimilado como modismo internacional e portanto esvaziado. Se, ao contrário, a música insiste em afirmar valores afro-brasileiros (nos quais a rebeldia é inerente) ela é desqualificada, como pobre a anacrônica, ou desafricanizada e também esvaziada em seus conteúdos, como foi o caso da música dos bloco afro da Bahia, diluída em "axé music" ou, na melhor das hipótese, em afropop, fórmula que se pretende música dançante afro-brasileira dotada de "linguagem universal".

Aliás, foi a busca desse alinhamento pop que gerou, também o híbrido rotulado como "pagode", nos anos 90. "Imagine o que é você ser um grupo de samba que não é mais samba." dizia um músico desse segmento à revista Raça Brasil (nº 46, junho, 2000). "É um grupo de pop que vai gravar um acústico no Teatro Municipal de São Paulo. Nunca nenhum grupo de música popular conseguir tocar lá, e nós vamos gravar o nosso Acústico MTV" - exultava. "Fomos o primeiro grupo de samba a tocar na MTV e agora estamos consolidando este trabalho com este disco acústico" - concluía, referindo-se ao braço televisivo mais atuante na estratégia de desnacionalização da música brasileira.

Quanto ao velho "samba de morro", rotulado como "de raiz", vive hoje um destino semelhante ao do jazz nos EUA: distante da mídia hegemônica e da grande indústria (as majors atuantes no Brasil, de seu numeroso elenco, hoje só investem pesado em apenas 3 artistas do samba), ele se espraia por bares e casas noturnas especializadas, cultuado pela juventude universitária e de alto poder aquisitivo mas desconhecido da massa negra jovem. Finalmente, no que toca à música instrumental, observe o leitor que, entre os profissionais considerados hoje "de ponta", nos estúdios, nos palcos principais, nos grupos de choro e nas orquestras all stars, reunidas para os grandes projetos, até mesmo em homenagem a ícones da Música Negra, os afrodescendentes conscientes de sua circunstância étnica, quando os há, estão apenas lá na "cozinha" (o leitor que busque as razões), batendo seus pandeiros, batucando seu atabaques e chacoalhando seus xequerés. [NL]


Diz aí!

Quinta-feira, Novembro 10, 2005



OU ME RESPEITA OU ME RELAXA

- Não sou Aretha Franklin, não; mas exijo "respect"! Gritou, ontem, o Velhote ao chegar aqui no Lote, visivelmente emocionado, a medalha da Ordem do Mérito Cultural pendente do pescoço encarquilhado, a insígnia espetada na lapela, uma auréola de santidade (hmmm...) sobre a carapinha branca.

E prosseguiu, em tom profético:

- Eu presenciei, meninos, as velhinhas do grupo Bandolins de Oeiras, Piauí, solando a mais pungente interpretação do Hino Nacional que meus olhos e ouvidos já tinham visto e escutado! Eu vi, garotos, a escultora pernambucana Ana das Carrancas, 82 anos, abrir o berreiro, de emoção purinha, cada vez que o presidente chegava perto dela! Eu assisti, meus candengues, Dona Militana, cantadora potiguar de romances, na liberdade que lhe permitem seus 80 anos, dar uma rabanada pra cerimônia, ir lá fora tomar um ar e só voltar pra receber a medalha, cantarolando! Eu me deliciei, seus moleques, ao ver o parense Pinduca, 68, rei do carimbó e do marketing, também cantando, cumular o presidente e o ministro de belíssimos presentes típicos de sua terra! Vi ainda, meus piás, o índio ticuna Nino Fernandes, invocadaço, na defesa dos direitos de seu povo! E vi nosso Xangô da Mangueira, a elegância de sempre, representando o maior partido do Brasil, o nosso Partido Alto.

Nessa, o Velhote tomou fôlego pra encerrar:

- Finalmente, mes petits, tive a honra de ver e ouvir também, por duas vezes, o grande Henri Salvador, 88, cantar, com aquela cara de velho espada, o "Dans Mon Île", acompanhado pelo esperto violão ministerial! Crianças: Não vereis país nenhum como este!

Tava danado o Coroa. Tanto que ainda improvisou um versinho:

- Não vem, ó Leonor/ que agora eu sou Comendador /
Me trate com respeito / faz favor ...


Diz aí!

Segunda-feira, Novembro 07, 2005

SORRI, PERIFERIA! SEU LOPES TÁ SENDO FILMADO.

Esta semana, prezados visitantes, o Lote estará fechado para manutenção. É que o Comendador está em Brasília, recebendo a medalha e o diploma da Ordem do Mérito Cultural, das mãos de Suas Excelências.

Foi o único jeito que ele encontrou para botar o Lote em Ordem. Mas dia 30 tem a grande festa do lançamento do "Kitábu", no Senac-Riachuelo (r. Vinte e Quatro de Maio); e dias depois tem "O Samba do Irajá e outros subúrbios: identidade negra e suburbana na obra de Nei Lopes" (Cosme Elias - Pallas Editora), na Livraria Folha Seca. Tudo com muita comida, bebida e música.

Então, sorri, periferia! De orelha a orelha.


Diz aí!