![]() |
Segunda-feira, Agosto 29, 2005
ABENÇALGUEIRO! VIVA O SAMBA! Nesta terça, dia 30 de agosto, o Velhote do Lote estará no CCBB de São Paulo, ao lado do grande Monarco - "meu compadre que Deus me deu!" - defendendo as cores do samba carioca numa programação ("projeto" é quando ainda não aconteceu) que procura mapear a força do samba em todo o Brasil. A direção musical, a cargo do revisor técnico e violonista Luis Filipe de Lima, houve por bem incluir um samba nosso, composto na década de 80 em parceria com Almir Guineto. Chama-se "Abençalgueiro" e diz assim: "Foi lá que eu nasci e me batizei, lá eu cresci, me diplomei... Salgueiro! (BIS) Na fé do meu padrinho São Sebastião que cura minha alma e põe meu corpo são Pego a viola, que alegria, e me faço rei nesta folia, noite e dia Ah, meu Salgueiro, Deus te abençoe! Quanta emoção, que tempo bom que foi. (BIS) Lá, na subida da minha vida um belo dia um lindo sol raiou Branco e vermelho, jogo de espelhos, onde a minha poesia se deslumbrou Academia, que me arrepia, meu primeiro verso, meu primeiro amor. Foi lá que eu nasci e lá se encerra o bem maior que Deus botou na Terra (BIS) - (IMPROVISOS) ** Este samba, para quem não sabe, evoca nossa passagem pela gloriosa agremiação alvirrubra da Tijuca, entre 1963 e 1989. A letra poetiza os bons momentos que lá vivenciamos. E homenageia num trocadilho ("e lá se encerra"), o velho Iraci Serra, 1917-94, pai do Almir, certamente um dos maiores violonistas que o samba carioca já conheceu. Sábado, Agosto 27, 2005
CHEGA DE ESCRAVIDÃO! OU NÃO? Diante das intermináveis investigações sobre mensalões e correiões; das longas férias do ministro da Cultura; do avanço dos descendentes de Cortez, Pizarro e Cabeza de Vaca sobre nossos serviços essenciais privatizados e sobre a indústria cultural, o Velhote do Lote encontra-se mergulhado até o pescoço (fuga ou atavismo?) na brilhante História da Antigüidade africana. E é aí que ele, pra arejar, abre os suplementos literários de sábado e vê notícia de mais livros publicados sobre a escravidão africana no Brasil. Bolas! Para quê e a quem servem esses livros? À recuperação da auto-estima dos descendentes de escravos, como nós, é que não é... Essa sonhada recuperação estaria, aí sim, é na exata compreensão dos fatores que levaram a Mãe África à situação atual ¿ depois de ser o berço da Humanidade e das primeiras civilizações humanas; depois de ter inventado da agricultura e da metalurgia até a medicina e as primeiras elaborações filosóficas; depois de ter sido o útero onde foram geradas as grandes crenças e religiões, inclusive o Cristianismo. Mergulhado no estudo desses tempos remotíssimos, o Velhote vem descobrindo como a História moderna poderia ser melhor contada sem as manipulações que sofreu ao longo dos anos. Hutus versus Tutsis; Etiópia; luso-tropicalismo; franceses no norte africano, etc. etc. etc, isso tudo precisa ser mais bem explicado, para que a gente entenda melhor da violência das favelas cariocas até os mensalões - reflexo também da estratificação social que aqui se construiu, a partir da "epopéia" lusíada. No entender do Velhote, já está na hora de os "da cor", como nós, jogarmos menos capoeira com calça pescando siri, evocarmos menos o infortúnio do período c.1530-1888 (dia desses, numa praça aqui perto, vimos, envergonhados, um "grupo folclórico" dramatizando cenas da escravidão, com correntes e chicotes), dar um jeito de driblar a carência de literatura em português sobre o assunto e recuarmos na História. Aí, seremos fatalmente obrigados a concordar com o que escreveu o cientista social americano Clyde Winters, vejam só: "Muitos eurocentristas acreditam que os afro-americanos devem apenas escrever sobre a escravidão e deixar a História Antiga para estudiosos mais "qualificados". [...] O problema central é que os historiadores fizeram da escravidão a sua única preocupação; e persuadiram os estudantes a fazer o mesmo. O dano que isso causou é incalculável, pois os negros passaram a enxergar sua História e a da África apenas pela ótica da escravidão." Alô, Joel Rufino, Flávio Gomes, Álvaro Nascimento, João Carlos Rodrigues, José Sérgio Rocha! Manipulação, mensalão, colonização, esculhambação e escravidão têm tudo a ver! Ou não? Terça-feira, Agosto 23, 2005
A CARA DO VELHO Venho tentando um poema sobre o tema "Quando eu olho nos espelho e velho um velho...". E aí me deparo com um texto do magistral García Marquez, no seu Putas Tristes, segundo o qual o homem, conforme vai envelhecendo, vai ficando com a cara do pai. Vejam aí se é isso mesmo. A foto acima é do Sr. Luiz Braz Lopes (nascido em 1888) às vésperas de completar 55 anos e sendo pai de um molequinho de apenas 9 meses de idade. Coroa espada! ![]()
EDUARDO RIBEIRO E SEU RETRATO AMERICANO O "retrato americano", conforme verbetizado em nossa Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, foi um tipo de reprodução fotográfica executada comercialmente no Brasil, no século XIX, com grande procura. Usando pintura a óleo e crayon sobre a fotografia ampliada, o fotógrafo "embelezava" a fisionomia do retratado, arianizando-a, no caso de mulatos, mediante o clareamento da tonalidade da pele e o alisamento dos cabelos. Muitas fotos de ilustres personagens de nossa História passaram por esse processo. E um claro exemplo está na comparação entre essas duas fotos de Eduardo Ribeiro, o inditoso governador do Amazonas redescoberto aqui no Lote. Vejam só! Sexta-feira, Agosto 12, 2005
DIA DOS PAIS, O ALMOÇO Dona Pergentina, a "Tina", natural de Desterro de Entre Rios, MG, mas egressa do ABC Paulista, lava, passa e cozinha com esmero. Mas, petista de carteirinha e ciente dos seus direitos trabalhistas, antes da execução de cada tarefa, não abre mão de esclarecer os detalhes do "seuviço": - Uma coisa di cada veis! Si eu lavo, não cunzinho; si eu cunzinho, eu não lavo! - disse ela aqui, antes de iniciar o primeiro dia de trabalho. Mas é dedicada a Tina. Tão dedicada quanto às vezes estranha. E, aí, ontem, solicitada a sugerir uma comidinha pro almoço do Dia dos Pais, nos veio com esta lista de opções, cuidadosamente digitada no computador. Vejam só! a. Confit de coxa de pato ao molho picante com arroz selvagem; b. Murgh Makhani: cubos de frango cozidos com com maçã, nozes, páprica e massala (uma mistura de especiarias); c. Risoto de cevada com camarão e legumes; d. Frango tailandês (com shiitake, shimeji, gengibre, arroz integral e abacaxi grelhado); e. Medalhão de atum em crosta de limão siciliano com croquete de batata e aspargo; f. Tortelli de abóbora ao molho de amêndoas; g. Filé de cordeiro em crosta de ervas com risoto de gorgonzola e tomate seco; h. Ishikari nabe: ensopado de salmão e verduras feito em caldo de missô; i. Tortelloni de alho-poró e queijo brie ao creme de leite e vinho branco. Ninguém entendeu nada. Mas... vira daqui, mexe dali, ficamos sabendo, pasmos, que ela não é só petista como dirigente do Partido dos Trabalhadores. E que, nas folgas daqui do Lote, vai à Paulicéia, pela Dutra, para reuniões políticas em restaurantes tipo Fasano, Gero, Sushi Guen (não confundam! ), Frico, Ghiotone, Emporium Plaza... E aí, já viu, né? Quarta-feira, Agosto 10, 2005
EU, PESQUISADOR, ME CONFESSO: E tiro do baú mais um Negão ilustre Dia desses, manifestávamos "nosso mais veemente repúdio" (como se dizia naquele tempo de política estudantil) diante de um texto que apresentava o Velhote aqui do Lote como "pesquisador". Pô! A imagem do "pesquisador", pra nós, sempre foi a daquele cara que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras, deixa a moçada com água na boca... e não apresenta nada. E nós aqui, filiados ao Sindicato dos Escritores do RJ e com a anuidade em dia, modéstia à parte, desde 1981, temos apresentado paca! Porém, saibam quantos este virem que acabamos de dar uma pesquisada legal. Naquela de incrementar a Enciclopédia da Diáspora, fomos ao Pai dos Burros Cibernéticos, o Google, procurar mais informações sobre Eduardo Gonçalves Ribeiro (1862-1900), um negro que foi governador do Amazonas, e vejam só o que encontramos: "Em 1890 o governo provisório do Brasil nomeia o Tenente Augusto Ximeno Vileroy para governar o Amazonas. Este convida para oficial de gabinete o Tenente Dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro, cognominado "O Pensador" em virtude de possuir no Maranhão um jornal deste título. Eduardo Ribeiro acumulava as funções de diretor das obras públicas, quando teve oportunidade de começar a executar planos atrevidos de urbanização de Manaus. Ximeno Villeroy se indispôs logo com os políticos de Manaus e resolveu abandonar o cargo ao seu oficial de gabinete, Dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro, em 2 de novembro de 1890, tendo de enfrentar a ganância da politicalha, que esperava agir em benefício próprio, tomando conta do erário público. É colocado fora do governo por uma revolução armada, chefiada pelo Capitão de Fragata Borges Machado, novo titular da flotilha de guerra. Constitucionalizado o Estado, foi eleito governador e assumiu a 23 de julho de 1892, governando até 23 de julho de 1896. No seu governo, que foi breve mas operoso, acabou a construção do Teatro Amazonas e do Reservatório do Mocó, mandou construir as pontes de ferro e dotou Manaus de sistemas modernos de viação (bondes elétricos), luz e água com esgotos ampliados." Eduardo Ribeiro nasceu no Maranhão, filho de escravos e vivia no Amazonas desde 1887. E depois de ser 2 vezes governador do Amazonas, morreu, aos 38 anos, em circunstâncias que a História "chapa branca" camuflou como suicídio. ** Essas informações estão no site da TV Cultura, a qual, inclusive, no sábado 10.08.2002 apresentou um documentáio dramatizado, em que nosso personagem era representado pelo músico Jair de Oliveira, filho do aplaudido sambista Jair Rodrigues. DE XEQUERÉS E SHECK-BALD'S Quem não sabe o que é um xequeré, pergunte ao Zero, percussionista introdutor, através da Vila Isabel, desse belo e estridente chocalho africano à frente das baterias das escolas. Instrumento, aliás, que pela inventiva do Pecê, também da Vila (e da Aba) , já deu um filhote, em forma de um balde com rebites, cujo nome os mais colonizadinhos grafam como "sheck-bald's" - Ave Maria Puríssima! Mas esse tremendo introito (ad altare nei) é pra dar a palavra ao Roberto M. Moura, que em sua coluna de ontem (9/8) na Tribuna da Imprensa fala do novo CD da querida Alcione. vejam só: "São destaques absolutos "Xequeré", de Nei Lopes, Magnu Souza e Maurílio de Oliveira ("chegou no nosso terreiro gargalhando no ganzá/mas na hora de abrir os trabalhos/pegou meu chocalho e não quis mais largar/sacode, remexe, balança, não pára, não cansa/e não sai do meu pé/mas o ponto melhor do pagode/é quando ele sacode aquele xequeré"); "Pedra 90", de Serginho Meriti, Gilson Bernini e Rody do Jacarezinho; "O samba vai balançar", de Sergio Santos e Paulo César Pinheiro ("balança que o samba onde passa pelo mundo deixa um fã/balança Paris, Tóquio, Havana, Londres, Roma e Amsterdã/espalha o samba que o samba vai balançar") e "Causas perdidas", de Rosa Passos e Aldir Blanc ("o meu amor vive em causas perdidas/sabe as datas vencidas/dos bens que não resgatei")". ** A letra do nosso Xequeré foi feita "no masculino". Mas a tarimbada Alcione botou no feminino e saiu balançando. Bom demais! Sem "sheck-bald's". Que de xeques, xeiques, cheques e debaldes já estamos carecas, não é mesmo? Terça-feira, Agosto 09, 2005
IBRAHIM FERRER E O NOSSO CUNHADO Domingo último, na estrada que liga o Aiê, este conturbado mundo dos vivos, ao Orum, o outro lado, o grande cantor cubano Ibrahim Ferrer encontrou-se com o bolerista amador Humberto Fialho. Afinidades muitas entre os dois - um preto, outro branco: idade; trabalho operário; convições esquerdistas; macumba; santería... Mas sobretudo o repertório infinito e o prazer inigualável de cantar bolero. Imaginamos o diálogo, travado entre os dois, se conhecendo naquele instante de "divina claridad": - Que pasa, compañero? - A vida é um bolero, Seu Ferrer! - Sé que en tu vida has tenido um mar de aventuras... - Solo una vez platicamos... - Y enamorados quedaron, usted y la vida? - Que nada! Fueron simples juguetes ... - Dicen que la distancia es el olvido... - É... mas la barca tiene que partir... Aí, la puerta se cerró atrás dos dois. E lá foram, bem anos 50 - ternos de linho branco, gola do blusão pra fora do paletó, sapatos de sola grossa também brancos - amigos e felizes. Para sempre. ** Nosso cunhado Humberto era o irmão mais velho do pintor e homem de idéias Renato Fialho, amigo que todo o mundo do samba admira e a quem o Lote dedica este texto. Quinta-feira, Agosto 04, 2005
SER IBÉRICO TÁ DANDO IBOPE Quando éramos chiquitos, lá en el viejo arrabal, curtíamos uma rumba que dizia: "España, tierra bella de flores/España, tierra de mi pasión" - ou "de mi ilusión", trai-nos a memória. Pois, agora, vendo a Espanha botar pra quebrar, da telefonia à música popular, passando é claro, pelo futebol, anda nos dando vontade de ser espanhóis, como o Roberto Carlos, o da bola, que acaba de adquirir cidadania naquele país. Pois ser ibérico hoje - tipo Real Madrid, Barcelona - é o que dá ibope. Não? Então, vejam o sucesso que o baiano Carlinhos Brown, agora Carlito Marrón, está fazendo pela Península, levando milhares à rua, atrás de seu trio elétrico e de sua timbalada (TIM balada?). Lembrem também que, antes dessa confusão chata aí do "mensalão", o então ministro Zé Dirceu, como noticiaram alguns jornais, esteve juntamente com o ministro Gil, num almoço na SGAE, sociedade dos autores e compositores da Espanha - o que sinceramente não entendiemos: um chefe da Casa Civil comendo paella numa sociedade de direitos autorais. Mas deixa pra lá: eles que são ibéricos que se entendam! O fato é que tudo isso anda dando vontade, como disse Sancho, nosso fiel escudeiro aqui no Lote, de a gente também buscar cidadania espanhola. Afinal, é só botar um acento no "o" e trocar o "s" pelo "z": "LÓPEZ é muito mais charmoso que esse 'Lopes' lusitano que a gente carrega sem saber de onde veio" - disse-me ele coçando a pança cheia de Cerveza. Mas saiba o pragmático Sancho que, na contracorrente dos que querem "chegar ao cais e ver o peso", tem gente boa já recusando essa filiação "ibérica" e preferindo a "latina". Recusando o eixo Madri-Miami. Querendo que as fortes músicas mexicana e cubana sejam elas mesmas, sem a interferência do peso, ("El peso, el peso/ el peso en España..." ) vitaminado depois da entrada do país no Mercado Comum Europeu. Por supuesto, nós, aqui do Lote, que não entendemos muito dessas coisas, estamos, apesar das ponderações do Sancho, só vendo onde isso vai dar. Inclusive,noutro dia, demos um paso doble e fomos ler um capítulo do Don Quijote no CCBB, dando uma força no quadricentenário do Cervantes (não o dos incrementados sanduíches, repito); Cervantes esse que, por sinal, teve como seu grande inimigo um poeta xará, o Lope de Veja, "mistura nossa com a família do Jorge Veiga" - como explica o genealogista Sancho. O caso, minha gente, é que a Espanha está dando ibope. E, aí, até roqueiros argentinos de tristes figuras estão virando megastars pop, como tem mostrado a TV a cabo. Então, vamo' nessa? Ou não? O Sancho diz que, agora, o melhor caminho pra deixar de ser "cucaracha", "latino" etc, é fazer o Caminho de Santiago e ser "ibérico". Sin embargo. Ou (tele) com? PS: O CD "Partido ao Cubo" não é ibérico. Ele é "afrolatino". É outro papo! |
|
|