Quinta-feira, Junho 30, 2005



Nilze Carvalho, a que estava faltando

Roberto M. Moura

De repente, a Lapa ficou pequena para Nilze Carvalho. O regional precisou ser reforçado para se altear aos novos vôos da ex-menina-prodígio do cavaquinho e do bandolim, transformada agora, aos 36 anos, numa bela e sensual mulher brasileira, dona de uma arte madura e plena, como se vê em seu CD "Estava faltando você" (Fina Flor) e como pôde testemunhar, na terça passada, um Rival-BR lotado e comovido.

A estética do CD produzido por Ruy Quaresma é mais ambiciosa. Soma momentos em que há uma orquestra que evoca as velhas gafieiras com outros em que as cordas dão uma dimensão, digamos, mais Gaya, ao resultado final (sentado à mesa de Nelson Sargento, falávamos do maestro e o compositor me lembrava de viagem a Cataguases, em que foi no carro de Gaya, com Stellinha, e do encontro com Sergio Sampaio, na Praça Ruy Barbosa).

E que ficha técnica tem o CD da Nilze! Pode parecer detalhe, mas é importante que o ouvinte perceba estar diante de um trabalho que lista, na última página de seu encarte, 42 músicos, aí incluídos Márvio Ciribelli (tecladista), Andréa Ernst-Dias (flauta), David Chew (cello), Léo Ortiz (violino), Alceu Maia (cavaquinho), Carlinhos 7 Cordas, Zé Luiz Maia (contrabaixo, filho do grande Luizão), Itamar Assière (piano), Marcelinho Moreira e Ovídio Brito (percussão). Sem contar o coro, que incluiu Analimar, Mart'nália, Camila Costa e Rixxa (aquele ótimo puxador que enlouqueceu o numerólogo, de tanto que já mudou a grafia do nome). Parece coisa dos bons tempos das multinacionais.

Desde Clara Nunes, a quem o release do CD se refere e homenageia, a música brasileira não registra o surgimento de um timbre feminino tão agradável, com extensão que lhe permite flutuar sem dificuldades das notas mais graves aos agudos de uma composição de intervalos tão largos como "Ilusão à toa" - a velha criação de Johnny Alf é a ponte que liga Nilze não apenas ao choro e ao samba, seus gêneros de referência, mas podem levá-la a um andamento jazzy (como se viu no arranjo de Humberto Araújo, com inspirado solo de sax-tenor).

E podem transportá-la ao choro "Evocação de Jacob" (de Avena de Castro, letrada pelo pai e parceiro Cristino Ricardo) e à "Valsa do sonho", de Paulinho Lemos e Agenor de Oliveira (que, num certo momento, me pareceu coisa de Edu e Chico e elogio maior não sei fazer).

No repertório, achados que logo se incorporarão aos clássicos do samba. Inevitável mencionar "Ele pensa", de Nivaldo Duarte e Márcio Lima, de melodia fluida como água e letra com o caráter das mulheres de fibra, e a faixa-título, de Wilson das Neves e Délcio Carvalho. E acrescente-se a esses os sambas metalinguísticos: "C'est fini", parceria de Padeirinho com Nei Lopes ("Vou da Lapa ao Amapá/ Sou sucesso no Japão/ Sou rei na terra do sushi e sashimi/Visto qualquer figurino/ E nos uribulinos/ Já dei c'est fini"); "Samba ao samba", de Toninho Galente e Marceu Vieira ("O samba é mistura de Mané Garrincha com Pelé/' É curtido no talo da cana e no café/ É filho de santo de olho na cambona/ Torresmo, rabada e azeitona/ É pau da braúna, é minha fé") e "Somos nós", de Wanderlei Monteiro, Mariozinho Lago e Paulinho do Cavaco ("Somos mensageiros de vocês/ Mistura de loucura e lucidez/ Somos todo mundo e cada um/ Todos os lugares, lugar nenhum/ Por isso quando um samba/ Enfeitar a voz/ Aplaudam, pois o samba, somos nós"). Discaço.

(Roberto M. Moura é professor de comunicação, jornalista e nosso amigo. O presente texto é transcrito de sua coluna semana de cultura no jorna carioca Tribuna da Imprensa, acessível também via Internet)


Diz aí!

Quarta-feira, Junho 29, 2005



SUPREMO DOS EUA DECIDE: BAIXAR MÚSICA PELA INTERNET É CRIME

Decisão unânime da Corte Suprema dos EUA, em ação movida por corporações das indústrias fonográfica e cinematográfica, reverteu, no último dia 27 de junho, acórdão de segunda instância que liberava o download de arquivos de som e imagem pela Internet.

Por esta última decisão, os sites que permitam esse tipo de "disponibilização" de arquivos, "distribuindo um dispositivo com o intuito de promover seu uso para violar o direito autoral", cometem crime contra a propriedade intelectual e são passíveis de punição. A decisão teve como objeto principal a atividade dos sites Grokster e Morpheus.

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PS: O povo aqui do Lote não sabe o que é download, copyleft, creative commons, "flexibilização de direitos", essas mudernidades de que o nosso querido Ministério da Cultura tanto admira. No nosso tempo, Direito se aprendia em latim.

Mas parece que, nessa aí, a Suprema Corte da matriz deu uma dentro...


Diz aí!

Segunda-feira, Junho 27, 2005



MEIA CABELEIRA

Ao contrário dos salões de cabeleireiro e mesmo de barbeiro ("unissex") convencionais, aqui perto do Lote tem um "salinho", de 1 cadeira só, muito legal. Abre todo dia às 6 horas da manhã, de domingo a domingo (sem folga), quando o barbeiro encosta a bicicleta, levanta a portinha de ferro, veste o jaleco com a bermuda e a sandália de dedo e pendura a gaiola do canário na porta.

Seu Geraldo é o nome do profissional. Gente boa, esperto, bom papo (futebol, é claro). E cobra só 4 "real", à máquina ou a navalha.

Da antiga, ele não se troca por nenhum desses barbeirinhos aí de hoje que não sabem o que é uma meia-cabeleira, um buscarré, um príncipe-danilo. Então, resolvi homenageá-lo, numa letra musicada pelo querido e talentoso amigo Luiz Fernando do Salgueiro.

Escutem só! Dó maior, Quaresma!


Seu Geraldo, olha aí
Dá um trato no meu pelo
Que essa de esticar cabelo
Agora não dá mais pé.
Capricha aí
Um corte cheio de estilo
Serve príncipe-danilo
Escovinha ou buscarré.
E se não der
Me faz meia cabeleira
Ou então faz ela inteira
Caprichando bem no pé.
Mas trança, não
Que eu já não sou mais criança
E na minha vizinhança
Quem usa trança é mulher.


Sem costeleta
Que eu não me chamo Elvis Presley
Minha lambreta
É bicicleta e olhe lá
E sem topete nem Tablete Santo Antônio
Que eu prezo meu matrimônio
E tenho um nome a zelar.
(Seu Geraldo, olha aí)

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PS: Alguém aí na platéia por acaso sabe o que é "Tablete Santo Antônio"? Quem souber, ganha um vidro de "Água Romana", "Seiva de Mutamba" ou "Quina Petróleo sandar"


Diz aí!


O MELHOR AMIGO DO HOMEM

Remexendo aqui no Lote uns papéis velhos, achamos um ofício do Instituto Nacional do Folclore-Funarte, datado de 1988. Informa a premiação, em concurso, de nossa monografia "Partido-alto e tradição oral" que agora serve de base ao livro "PARTIDO-ALTO, SAMBA DE BAMBA", daqui a pouco saindo por Pallas Editora.

Quem assina o ofício é a sra. Amália Lucy Geisel, filha do ex-presidente. E aí me lembro de uma tremenda historinha.

O general no poder, um dia a referida senhora vai visitar uma empresa de meios audiovisuais para educação em que trabalhávamos, numa daquelas ruas senhoriais aos pés do Corcovado.

Quarteirão todo interditado, mil aparatos de segurança, a vizinhança curiosíssima nas janelas dos casarões, doida pra saber do que se tratava.

Eis que lá pras tantas, sai a filha do presidente em direção ao carrão preto, ladeada pelo "professor" Maurício, um-sete-um de carteirinha, diploma fajuto de sociólogo, "pós-graduado" em tecnologias "de ponta".

Dona Lucy entra no carro e, antes que a porta se feche, o "professor" berra, a voz de barítono, fingindo intimidade, mirando nela mas acertando na vizinhança atenta:

- Dá um abraço no Velho!!!

Daquele dia em diante, o aristocrático bairro, da Ladeira dos Tabajaras ao Pereirão, bateu continência pro nosso querido "sociólogo".


Diz aí!

Sexta-feira, Junho 24, 2005

PADEIRINHO NA FOLHA SECA
Clube do Samba na Porcão Rio's


Segunda-feira 27 tem lançamento do livro "Padeirinho da Mangueira: retrato sincopado de um artista" de meu compadre Franco Paulino, publicitário e jornalista da pesada, sobre meu genial e saudoso amigo e parceiro Osvaldo Vitalino de Oliveira, o "conhecido Padeirinho, dentro da Estação Primeira" - como dizia num de seus partidos.

Vai ser na simpática Livraria Folha Seca dos não menos Rodrigo Ferrari e Daniela Duarte, no início da rua do Ouvidor, naquele trechinho esperto entre Primeiro de Março e Alfredo Agache (quase na Praça Quinze). O horário é tipo 7 horas.

O livro é da pesada. E o Franco Paulino, amigo íntimo de Padeirinho, além de extremamente talentoso e competente, é uma grande figura humana.

PS: Na mesma 2a. feira, à tarde, tem o coquetel de lançamento do projeto da sede do Clube do Samba, na churrascaria Porcão Rio's, no Aterro. Franco Paulino também foi, junto conosco, diretor fundador do clube criado pelo igualmente saudoso João Nogueira. E Ângela, viúva do João, no comando do barco, merece todo o nosso apoio.


Diz aí!

Segunda-feira, Junho 20, 2005

JEFFERSON, "ADORÁVEL" SEDUTOR

Essa a gente já sabia mas o Élio Gaspari, em O Globo de ontem, domingo, aviva a nossa memória. É que o grande Jefferson teve vários filhos, mais de três, com uma mulher negra, criada de sua casa, a qual, por sua vez era filha do sogro do nosso trêfego e esperto Jefferson com outra mulher negra, também sua criada e amante.

Coisas do poder! Afinal de contas, mulher pobre e negra, era pra se usar e dispor do jeito que se quisesse. Até à força mesmo.
Mas... espere aí! Calma, leitor! O Jefferson a que estamos nos referindo é o Thomas Jefferson (1743-1826), presidente dos Estados Unidos. E essa história está resumida lá, no verbete "HEMINGS, Sally" da nossa Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana.


Diz aí!

Quinta-feira, Junho 16, 2005



DÉCIMA SAIDEIRA

Cerveja chocha e chinfrim
É bebida de alto risco:
Faz evacuar chuvisco
Estoura o virabrequim
E quando bate no rim
Dói mais que hérnia de disco;
Azeda qualquer petisco
Achincalha tudo, enfim.
Cerveja quando é ruim...
Pode até lesar o fisco !!!


Diz aí!

Quarta-feira, Junho 15, 2005

UM MINUTO DE REFLEXÃO
Em Tempo de Crise, "Mensalões" e Poderes Paralelos


(Capítulo do nosso "KITÁBU, O livro do Saber e do Espírito Negro-Africanos" - lançamento previsto para novembro pela Editora Senac-Rio)

I - Axé e Agbara:

1. Existem dois tipos de poder, intimamente ligados. O primeiro é o agbara, o poder físico; o outro é o axé, o poder espiritual. O poder espiritual é o mais importante mas o poder físico não pode ser desprezado.

2. O poder físico é representado pelo conjunto dos meios materiais que permitem fazer executar uma ordem; são por exemplo as armas, os soldados, ou mesmo as proezas físicas sobre o campo de batalha ou quando de um combate civil. O poder espiritual é muito mais sutil: constitui-se de um conjunto de forças invisíveis mas poderosas.

3. Quando, nos combates, os fracos são vencidos pelos fortes; quando nos conflitos econômicos, os poderosos se apossam das terras dos mais fracos, essa conquista ou aquisição só é possível graças a uma ajuda espiritual.

4. E ela não estará completa se as divindades e os objetos sagrados dos vencidos não tiverem sido profanados, se seu laço espiritual com o passado não tiver sido rompido.

5. O homem que procura despojar um outro de sua terra nem sempre acredita que lhe privará de seus direitos legítimos, pela força. Freqüentemente, ele pensa que a terra pertence a seus ancestrais e que apenas retoma o que lhe pertence.

6. Quando ele sabe que se apodera deliberadamente da terra de uma outra pessoa, ele procurará desmoralizar os poderes espirituais desse homem, destruindo seus deuses. Assim, os poderes inteiramente espirituais dos orixás são tidos como muito mais eficazes que todos os poderes físicos.

7. Um obá, um rei, tem seu poder emanado dos orixás e, ele mesmo, depois de sua consagração, é alçado à condição de alaxé, num patamar logo abaixo dos orixás, porque lhes deve obediência. E quando morre, ele vai se integrar ao panteão dos orixás.

8. Todo ato de poder, como por exemplo, uma declaração de guerra, deve receber a sanção espiritual dos orixás.

9. Da mesma forma, o direito de legislar, outra manifestação do exercício do poder, não seria considerado como um simples ato de racionalidade e de regulamentação social e sim como uma manifestação da vontade dos orixás e ancestrais.

10. Mesmo as leis mais simples são promulgadas como uma revelação divina. Em razão dessa crença na superioridade das forças espirituais, o uso da força no exercício do poder tornou-se secundário

11. Com efeito, da mesma forma que se obedece imediatamente ao rei, porque se reconhece nele uma força espiritual superior; da mesma forma toda pessoa idosa é obedecida sem dificuldade pelos mais jovens porque ela é tida como possuidora de poderes espirituais superiores.

12. Mesmo entre os reis, existe uma hierarquia. Aquele considerado o mais jovem inclina-se diante do que se tem como mais velho.

13. Tudo isso significa que, em geral, a força física não é considerada como argumento último e mais eficaz. Uma pessoa, mesmo idosa, fraca, pobre, doente, pode comandar um indivíduo jovem, forte, viril e robusto com a certeza de que será obedecida.

14. Assim, nem sempre é indispensável que o rei monopolize todos os meios da violência organizada, mesmo que seja de seu interesse fazê-lo, já que uma só palavra sua expressando os poderes espirituais de todos os ancestrais, será considerada como muito mais eficaz que todas as forças físicas desses meios.

15. Nos reinos iorubás anteriores ao período colonial, os exércitos não eram permanentes nem deviam obediência a um único obá. Cada homem poderoso tinha seu próprio exército, e o rei podia ou não possuir um.

16. Para os antigos, isso não era sinal de enfraquecimento do poder do rei, porque, em virtude de seus poderes espirituais, ele poderia recorrer aos serviços desses exércitos cujos chefes lhe deviam favores e lhe obedeciam sem discutir.

17. (...)

18. (...)

19. Um Ololá é um homem honorável. E um homem pobre pode ser um Ololá se seu caráter for sem mancha. Porque o bom caráter é uma competente couraça contra os acontecimentos adversos da vida. E qualquer um que o possua não precisa temer nada.

20. O bom caráter é o guardião do homem. As pessoas de mau caráter são as que temem desnecessariamente, isto é, seu pecado lhes causa medo desnecessário.

21. Graças à admiração que suscita na população, o Ololá, o homem honrado, exerce um poder considerável. Mas a aquisição de poderes espirituais é bem mais complexa.

22. Os poderes espirituais estão relacionados com o axé. Um rei adquire esses poderes espirituais por meio das cerimônias de iniciação que precedem sua ascensão ao trono e que o transformam, progressivamente, de simples mortal em um companheiro das divindades. Ele personificará, então, o espírito coletivo da comunidade e se tornará o depositário da essência imortal de todos os reis falecidos. (...)


Diz aí!

Sexta-feira, Junho 10, 2005



Diz aí!

Quarta-feira, Junho 08, 2005

ALDIR DIXIT, QUOQUE SUKMAN

Aldir Blanc e Hugo Sukman, em seus respectivos JB e O Globo canetearam ontem, dia 7, o seguinte sobre o Velhote do Lote.


ALDIR BLANC (sobre o Prêmio TIM de Melhor Disco de Samba para "Partido ao Cubo"):

"Junho de 2005 - No momento em que escrevo, eu e meu fiel super-labrador, o Batuque, estamos meio grogues de Original emoção, graças à conquista do prêmio Tim de melhor disco de samba por meu dileto amigo Nei Lopes, com o primoroso CD, já elogiado aqui na Rua dos Artistas, Samba ao cubo.

A novela de Gilberto Braga, Celebridade , resgatara um pouco o extraordinário valor do Nei - ironicamente, consagrando sambas de 20 anos atrás, que todo freqüentador das rodas do Corre pra Sombra, Fogo no Tacho, Pagode da Cachopa, entre outros, conhecia. Mas louve-se a inteligência de Gilberto e do Mariozinho Rocha que, percebendo a importância da casa de samba na novela, fizeram um pacto: agora é pra valer, deixando o pessoal do boi-com-abóbra pendurado na baqueta.

Nei é autor, entre outros livros indispensáveis (poesia, crônica, história), da Enciclopédia da diáspora negra , obra que, sozinha, justificaria uma vida inteira de esforço e dedicação.

Que os orixás protejam sempre Nei Lopes e seu quilombo de imbatíveis guerreiros!"


HUGO SUKMAN (sobre o novo CD de Ed Motta):

"(...) Como se não bastasse "all that jazz", Ed apresenta os primeiros sambas que fez com Nei Lopes, o letrista com quem mantém insuspeitadas identidades afrodescendentes. O resultado, "Pharmácias" e "Samba azul", é perfeito: samba carioca de verdade (o primeiro, mais ligeiro, sincopado; o segundo, mais lento, de carnaval antigo, ritmo marcado pelo surdo), unindo a profundidade musical de Ed com os temas inusitados e o acabamento impecável do poeta do Irajá.

Em "Pharmácias", Ed esbanja bossa para cantar a letra de Nei feita como que sob medida para o parceiro, inspirando-se nas lindas velhas farmácias do Rio para preconizar a estética como curativo tão poderoso quanto os remédios: "Art Deco/Contra a dor/Pronto alívio para todo e qualquer mal/Art Nouveau/Prateleiras de cristal/Que medicinal visual:/Farmácias do antigo Rio".

Se "Pharmácias" é bom, "Samba azul" é uma obra-prima. Nele, Ed divide os vocais com Alcione, a mais jazzística das cantoras de samba. A base jazzy - sax, trompete, piano Rhodes etc. - convive com as leves percussões de samba executadas pelos especialistas Armando Marçal e Marcelo Moreira. Ante a grandiosidade musical da melodia curtida por Ed e pela Marrom, só restou a Nei apelar para Picasso ("Samba azul/Como os tons mais azuis/Que um pintor andaluz/Sutilmente/Muito levemente/Usou naquelas telas") ao falar de um amanhecer onírico na Zona Norte ("Beija-flor voa ao léu/Sobre Vila Isabel/Elegante, vai pousar distante/Na Portela"), anunciando o que todos esperam no Rio: "A paz recai enfim sobre a cidade".(...)"


Diz aí!

Domingo, Junho 05, 2005

"CARIOCAÇAMBA"
Uma Orquestra Carioca de Samba


(Em homenagem a Ruy Quaresma, que acreditou na idéia do Partido ao Cubo)

Música sem dança, já ensinava minha tia-avó Rosária, partideira centenária, é como chupar bala sem tirar o papel fino - pra não dar outro exemplo mais íntimo. Pode ser mais seguro, mais correto mas não é bom, não!

Ouvir música como simples deleite da alma é, para nós aqui do Lote, mais uma imposição da civilização cristã ocidental. Porque o corpo também gosta de música. E como gosta! Talvez mais que a alma! E vem daí o impasse em que se colocou uma certa música popular brasileira, hoje conhecida como MPB, principalmente desde a bossa-nova e, agora, mais ainda com os fundamentalistas do chamado "samba-de-raiz".

Surgida, como se dizia, para renovar esteticamente o quadro da música urbana de consumo de massas, saturado, então, de rocks, bolerões e cha-cha-chás (músicas eminentemente dançantes), a bossa-nova acabou por instituir o intimismo, a contemplação, a não-participação, o banquinho-violão. Paradoxalmente, entretanto, o estilo acabou por propiciar o surgimento, ou a disseminação reativa, de pequenos conjuntos orquestrais cultores do samba então chamado de "balanço" (diferente do "samba-jazz"), já dentro da nova divisão rítmica.

São dessa época, grupos como os de Ed Lincoln (o mais bem sucedido de todos), Walter Wanderley, Steve Bernard etc., onde se notava a utilização primordial dos teclados eletrônicos como instrumento de samba - o que já se conhecia através dos "solovox" de Djalma Ferreira e Waldyr Calmon. Data também dessa época o sucesso de cantores como Miltinho, Pedrinho Rodrigues, Sílvio César, Orlann Divo e outros, todos oriundos da condição de crooners , garantia de cancha, bossa e malandragem sambística.

Com a Era dos Festivais o divórcio entre música e dança atingiu extremos - como aquelas músicas "universitárias", chatinhas que doía - salvando-se, ali e acolá, um ou outro exemplo de balanço jovem e renovado.

Na contramão, entretanto, pelo menos desde a bossa-nova os subúrbios cariocas sempre deram de graça, aos estudiosos, provas eloqüentes de que a celebração da vida, através da dança e do canto, espontâneos e coletivos, continua firme e forte. Que o digam os freqüentadores dos bailes de grupos tão bons quanto estranhos ao mundo da música massificada como Devaneios, Brasil Show, Charme, Channel, Copa Sete - grupos que interpretavam (não sei se permanecem) , sim, os obrigatórios sucessos das paradas mas que botavam fogo na "fundanga" era com...samba!

Esses bailes freqüentemente tomavam caráter de verdadeiros campeonatos de samba com par enlaçado - o chamado "samba de gafieira". E, aí, conjugando os antigos puladinho, cruzado, pião, cobrinha (este, tão antigo quanto o maxixe), citações de tango etc., os pares realizavam prodígios nos salões. Até pelo menos a década de 80, quando de nossa aposentadoria compulsória.

**
O perene sucesso internacional da música afro-cubana vem daí: da não dissociação entre dança e música. Agora mesmo, ouvindo dois CDs do moderníssimo grupo Cubanismo, constato isso. E proponho:

Que tal, senhores músicos, arranjadores e regentes meter lá um projeto na Petrobrás para criação de uma "Cariocaçamba", uma orquestra típica carioca, de samba? A nossa multinacional do petróleo já apoia orquestras de cordas. E... onde vão as cordas...

Para formar o grupo, pega-se os fundamentais piano, baixo e bateria; adiciona-se trombone, piston e saxes a gosto; mete-se lá, agora, um violão e um cavaquinho; e incrementa-se o molho com pandeiro, surdo, tantan, repique de baqueta, chocalhos de platinelas... e pronto!

O repertório? Já está todo aí! Os arranjos? Vejam-se os de Severino Araújo, Humberto Idem, Moacyr Santos, K-Ximbinho etc., etc., etc.

Aí, a gente solta os bichos! Vamos ver se alguém fica parado!? E vamos ver quem vai dizer que moderno é o rock; que samba é coisa de crioulo velho.

Atrás de um samba desses, major, até as majors vão atrás!


Diz aí!

Sexta-feira, Junho 03, 2005



Diz aí!




TIM,TIM. POR TINTIM.

Contrariando a norma atual segundo a qual "artista" tem que andar esculachado, de tênis sujo, barba por fazer e camisa fora das calças, o Samba botou terno, gravata e longo (claros, alegres, na contramão do rigoroso luto hoje dominante nas festas) e partiu lá pro Tim.

Foi bom ter ido. Pra confirmar um montão de coisas já sabidas. Pra ver Nossa Praia dominando tudo, por baixo do pano, sem que ninguém percebesse: na elegância aristocrática de Bira e Ubirani, os caciques do nosso quintal; no "banho" dado por Leny Andrade; nos sambas de Baden pairando sobre tudo; no espírito do velho Meira, mestre do Baden, num andar ainda mais acima, fumando aquele toco de cigarro com a cinza sem cair, na hora do concerto de violões.

Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira, que não pode ser, mas o samba é isso mesmo. É maçaranduba, moço, que não quebra nem dá pra rachar. É igual ao Fenômeno, ex-marido de Dona Cica, às vezes branco na poesia mas negro demais no coração, saravá! E não tem imperialismo, falando inglês, espanhol ou spaninglish, que lhe resista. Laroiê, Eleguá, Bará Assivaju - que sai na frente e comanda o cortejo! Tim, Tim!

PS: Meu compadre Pavão lembra que o Prêmio Tim é uma justa homenagem a Elba de Pádua Lima, o Tim (1915 - 1984), meio-de-campo campeão pelo Fluminese nas décadas de 30 e 40. E eu, que pensava que era homenagem ao Tim Maia, confesso que não sabia que "Pádua Lima" é o sobrenome da festejada cantora paraibana... Vivendo e aprendendo.


Diz aí!



 

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