![]() meu lote |
Quinta-feira, Março 31, 2005
A VERDADE DE NEI LOPES Foi ar ar esta semana o programa "A Verdade de Nei Lopes" pela TVE. Eis o texto de apresentação no site da emissora: "Para marcar o programa de número 200, Fernando Pamplona entrevista um nome de respeito no samba carioca: Nei Lopes. Compositor, escritor, sambista e intelectual, ele é autor de 14 livros e de sucessos como Goiabada cascão e No tempo de Dondon. A verdade de Nei é a sua luta contra injunções que, segundo ele, querem fazer um Brasil diferente do lugar onde foi criado. Sobre a recente parceria com o músico Ed Mota, o compositor diz que acredita que o cruzamento entre estilos musicais ajuda a reduzir o preconceito contra o sambista: "Assim dou uma pernada no racismo e estou aqui para isso". Militante da causa negra, Nei Lopes não acha que o sistema de cotas vai resolver o problema do racismo, mas é positivo porque já traz à tona a discussão. Em resposta ao acadêmico e Secretário Estadual de Cultura Arnaldo Niskier, que indica a necessidade de um Museu de Cultura Negra, Nei aponta para uma necessidade maior da inclusão do negro e pergunta: "Por que não um negro na Academia Brasileira de Letras?" Quanto à predominância do funk sobre o samba nos dias atuais, ele diz que o samba se recria a cada momento. Nei também alerta que será difícil enfrentar a desnacionalização da cultura brasileira, mas prevê que o samba continuará sempre nos bares." Segunda-feira, Março 28, 2005
ENTREOUVIDO NA ESQUINA DE RIO BRANCO E ASSEMBLÉIA: FUNCIONÁRIO DO MINISTÉRIO: - A cobrança de direitos autorais dificulta a circulação da Cultura! CAMELÔ: - É isso aí, chefia! E o cumprimento das Leis Trabalhistas é a maior causa do desemprego... SAMBA-REGGAE E DICIONÁRIO O Serviço de Utilidade Pública do Lote envia para o visitante Pablo Souza a letra de "Ginga, Angola!", uma espécie de samba-reggae (à vera!) que o Coroa aqui gravou, já faz anos, na voz do saudoso Roberto Ribeiro e depois regravou na sua própria e estranha voz. Nessa letra confirma-se o que Seu Juranildo e o pessoal aqui do Boteco do Aurélio sempre falam pro Velho: "- Se o senhor fizesse umas letras mais fáceis, o senhor não estaria aqui andando a pé por estas ruas enlameadas e sem calçamento!..." . Mas o que eles não sabem é que eu sou também autor de um "Novo Dicionário Banto do Brasil" (Editora Pallas, 2003). Aí, uma coisa puxa a outra e a gente fatura uma merrequinha. Morô cumequié? Olha a letra aí embaixo, malandráji! GINGA, ANGOLA! Nei Lopes Ginga, Angola! Não chora povo bantu! Canta, Congo, no jongo e no caxambu! (REFRÃO - BIS) Lá nas terras de Matamba Quando o sol me viu nascer Minha tia, Sinhá Samba, Lavou meu camutuê Com folhinhas de mutamba Que ganhou de Catendê. (REFRÃO) Meu pai é Lembarenganga Caviungo é meu avô Sou a paz de Zumbaranda Flecha de Mutalambô Sou as águas da Quianda Sob as cores de Angorô. (REFRÃO) Na toada do quiçanje Na batida do gonguê Sou o rei Jaga-Caçanje Sou couro de munganguê Danço pra Cambarangüanje Canto alto pra esquecer (REFRÃO) Sábado, Março 26, 2005
A MODA DO LAGUIDIBÁ Na complexa e sofisticada tradição jeje-iorubana, o lágídígba (em português, laguidibá) é um fio preto de rodelas de chifre de búfalo, usado, tradicional e ritualisticamente, em torno de cinturas femininas. Ligado ao culto de divindades da terra, como Nanã, Omolu e Oxumarê, é peça de alto fundamento, podendo ser usada como colar, mas não aleatoriamente. As divindades representadas no laguidibá são cultuadas de modo muito particular, com muito mistério e respeito. Tanto que "Omolu" é apenas o epíteto de um orixá ou vodum tão forte que seu nome não pode sequer ser pronunciado. E este papo todo vem a propósito da "moda do laguidibá", que virou adorno obrigatório de pescoço de percussionista; e de alguns músicos "de raiz". Raro hoje ver, no palco, um pandeirista, um tantanzeiro, um repiquista-de-mão, ou mesmo um violonista, que não se apresente com um laguidibá no pescoço. Foi aí que, naquela linha do "quem não pode com mandinga, não carrega patuá", ocorreu ao Veterano aqui fazer um samba. Que pode começar mais ou menos assim: "Quem não é de Obalibô / Não usa laguidibá/ Tira o colar do pescoço, seu moço / Que pode se machucar..." Obalibô, vocês sabem, é outro cognome da grande divindade conhecida como Omolu e que, em Cuba, inspirou a rumba famosa: "Babalu! Babalu-aiê!"... Atotô, meu pai! Sexta-feira, Março 25, 2005
AGENDA DA SEMANA O Coroa do Lote estará 3a. e 4a. feira desta semana final de março no SESC-Pinheiros, novinho em folha (ele e o SESC) conduzindo o SEIS NO SAMBA, com Luís Carlos da Vila, Noca da Portela, Nilze Carvalho, Dunga, Diogo Nogueira e Carmen Queiróz. Vamos cantar um pouquinho cada um, uns 500 réis de samba, mas acho que vai ser legal. De volta daquela cidade mansa e pacífica (os craques que têm mãe que o digam), o Coroa volta à tranqüila São Sebastião do Rio de Janeiro para, atendendo a insistentes pedidos dos cambistas, repetir 5a., 6a. e sábado o "Partido ao Cubo" no Teatro Rival. Todos juntos, vamos, pra frente Nei Lopes!!! DO LOTE À BIENAL Sábado 14 de maio, chiquérrimo e já com 63 anos, o Velho estará na XII Bienal do Livro, no Riocentro, às 16 h., no Fórum de Debates conversando sobre "Memorialismo". À mesa, Beatriz Resende; Márcio Souza, pai da "Mad Maria"; Ronaldo Costa Couto; e Zélia Gattai, ilustre viúva de Jorge. Chique, não? Vou de charrete, puxada por uma parelha de alazões ajaezados, negros como as asas da graúna... ENQUANTO ISSO... Entre uma "balada" e outra, o Velhote vai botando o ponto final no"20 Contos e Uns Trocados". E o "Pequeno Dicionário da Antiguidade Africana" , cada vez mais afrocentrado, vai tomando corpo e forma. Como numa academia de ginástica. Mental, é claro! Sexta-feira, Março 18, 2005
JOELZINHO NÃO TOMA "QUENTE" Vida de aposentado é isso mesmo: acordar; comprar o pão e o Extra; tomar café; ler a parte de esportes, que o resto do jornal só tem coisa ruim; fazer uma fezinha, na loto ou no bicho... e ir pro botequim. Depois, almoçar, tirar um cochilo, ver uma bobagem na televisão... e voltar pro botequim, ou "sindicato" - como o pessoal daqui chama o Café e Bar Faraó, que é o estabelecimento do Chabaca, um negão deste tamanho. Aliás, o Chabaca, dos que eu conheço, é um dos poucos crioulos com vocação pra dono de bar. Bota na conta, mas sabe direitinho o dia do pagamento da gente; então, cobra. Não permite cantoria nem batucada no Faraó, que "botequim não é 'refeitório' de rádio nem 'esquadra' de escola de samba" - como ele diz, sempre trocando tudo. Chabaca não permite que se fale palavras "obscênias" nem de baixo "galão". Só serve tira-gosto que não dê trabalho, como azeitonas, salaminho e queijo prato. Mas tem sempre na geladeira uma cerveja preta achampanhada, estupidamente gelada, e participa com a gente dos torneios de sueca e de porrinha. Pois vida de aposentado é isso mesmo: é tentar fazer esse longo dia de 24 horas passar logo, pra amanhã começar tudo de novo: o pão, o jornal, o café, a fezinha, o bar... Café e Bar Faraó, o boteco do Chabaca, um negão deste tamanho. Chabaca tem um primo, Joelzinho. Aposentado também, igual à gente. Só que "ingere" pouco, não toma "quente", só joga porrinha, não vem todo dia e é cheio de idéias. Simpático, o Joelzinho. E fala muito bem. Parece que foi professor, não sei direito. Chabaca diz que ele se aposentou como maluco, por causa de uns catiripapos que levou no DOI-CODI e no DOPS, na época do general "Garrafa Azul". De maluco Joelzinho não tem nada. Mas de vez em quando ele surpreende a gente com umas novidades. Ontem mesmo ele esteve aqui. E foi bom porque eu estava sozinho. Aí, tomou um copo comigo e veio com uma história estranha... - É verdade, sim, Necau! Você é meu amigo, fez o ginásio, e pra você eu posso falar. Na África já teve um reino mais preto e mais forte que o Egito, sim! E esse reino mandou direto no Egito por mais de cem anos. Joelzinho bebe pouco e não toma "quente". Essa história de que se aposentou como maluco, eu acho que foi mais é esperteza. Mas esse papo me deixou cabreiro... - Eles viviam lá embaixo, na Núbia, bem no sulzinho dos egípcios. E foram colônia deles. Mas como o Egito entrou em crise, eles crescerem, enriqueceram, foram incorporando outros reinos pequenos e se tornaram poderosos também. Aí, se libertaram e expandiram suas fronteiras ainda mais. Isso foi ali, mais ou menos, pelo ano 1500 antes de Cristo. Na África! E o Egito é africano também! História da carochinha!...O Egito que eu aprendi no ginásio eram aqueles reis carecas, meio afeminados, de olho pintado... E, no cinema, era Elizabeth Taylor, Yul Brinner, Victor Mature... - Os reis começaram a aplicar tudo o que tinham aprendido com os egípcios, inclusive a escrita. Aí, botaram pra quebrar. Chegaram até a Palestina, pelo Mar Vermelho, e saquearam Jerusalém. E os negões foram cada vez se libertando mais do Egito e resgatando sua identidade. Mudaram a capital mais pra dentro, mais protegida, prum lugar que tinha melhores condições naturais... e aí começaram a fabricar armas, ferramentas, utilidades, agora não mais de bronze e cobre mas de ferro. E foram aumentando e treinando seu exército. Na África! Antes de Cristo, meu amigo! Eu hein?! África... Pelo que eu sei, África é savana, leão, elefante, Tarzan, Chita, pigmeus, Fantasma Voador... É o Rei Zulu, que "não paga casa nem comida e anda nu"... é o "Congo lelê, olha o Congo lalá, uh, uh"... Grandes marchinhas dos velhos carnavais! Mas essa história até que é curiosa. - Aí, uma família decidida e muito religiosa toma o poder. E, aproveitando que o Egito estava decadente, numa confusão danada, vai lá em cima de novo. Os santos estavam do lado deles, então eles meteram bronca. Aí, começa uma série de vitórias. Nessa altura dos acontecimentos, já estamos mais ou menos em 750 antes de Cristo quando um negão invocado, chamado Piânki, quebra e queima tudo e assume o poder geral. Hmmm... - Esse domínio dos negões da Núbia no Egito dura mais de 100 anos. E foi um tempo muito bom e muito bonito. O Egito lá em cima e eles cá embaixo, construindo pirâmides, templos gigantescos, deixando sua história escrita nos monumentos. E tudo com estilo próprio, não era cópia do que os egípcios faziam, não! Joelzinho não é bobo, não! E debaixo desse angu tem carne... - Eles tinham seus próprios deuses, usavam elefantes como arma de guerra e pro rei tirar onda; comerciavam no Mar Vermelho; organizaram expedições ao interior da África... E tiveram relações comerciais com os árabes, com os indianos e parece que até com a China. Já pensou? Antes de Cristo, Necau!...Depois, como tudo na vida, o reino foi definhando e acabou. E outro reino africano, agora da Etiópia, tomou o seu lugar. Mas é uma história muito bonita essa do Reino de Cuxe, não é? E pouca gente sabe disso... Esse neguinho Joel parece que foi professor, não sei direito. E a história dele deve ter algum fundamento. Aí, eu resolvi dar uma de joão-sem-braço, botar pilha: - Por que tu não escreve isso, Joelzinho? Acho que tu pode ganhar um dinheiro. Chega numa escola de samba dessas aí, mostra pra eles, e quem sabe eles não aproveitam como enredo? Mas quando eu ia, Joelzinho já estava de volta. E ele - que nunca tocou um tamborim, nunca dançou de mestre-sala, nunca fez um samba - sabe disso muito melhor que eu. - Não dá, não, Necau! Escola de samba não dá, não! Fui falar isso lá no Unidos e sabe o quê que me disseram? - ?! - Que iam ter que gastar muita tinta pra pintar o pessoal de preto... * * * É... vida de aposentado é isso mesmo. Mas como diz o Chabaca, dono do Faraó e primo do Joelzinho, no final das contas "melhor ouvir 'terminadas' coisa que ser surdo dos 'ovídios'". (De "20 Contos e Uns Trocados" - a sair) Segunda-feira, Março 14, 2005
COMENDO PELAS BEIRADINHAS Como dizia nossa tia-avó Rosária, partidária centenária, o negócio é comer pelas beirolas, mesmo porque tampa de pinico não é cocada nem focinho de porco é tomada. E é nessa que chega ao Lote um e-mail de Sheila Walker, nossa "little sister" do Spelman College, Atlanta, GA., USA, onde, PH.D. que é, ela bate um bolão no Humanities Women's Research and Resource Center. O e-mail é sobre as modestas 715 páginas da nossa "Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (São Paulo, Selo Negro, 2004). Diz aí, Ms. Walker! "Oi Nei - Que maravilha (e muito trabalho) e a sua enciclopedia! Te agradesco por o que voce contribuiu ao meu conhecimento. Sheila Walker". ** É, malandragem! Os bravos suplementos e revistas da cultura bacaninha não gostam muito, não! Mas os "brothers" , os "ecóbios" (mesmo sem saber bem a nossa língua) e os "malungos" parece que estão gostando. E aí a gente vê que valeu. Quinta-feira, Março 10, 2005
TALES, DE MILETO E DA MIRONGA O "vício da África" como diz o mestre Alberto da Costa e Silva, é pior que droga pesada. E eu, confesso, sou um áfrico-dependente. Numa de minhas últimas incursões veladas para saciar esse meu vício solitário, cheguei a Tales de Mileto (c. 640 - 546 AC), exaltado como o primeiro e o mais ilustre dos "Sete Sábios da Grécia". O grande Tales foi matemático, astrônomo e filósofo. Revolucionou o conhecimento grego de sua época, principalmente no campo da geometria. Só que, pelo que sei agora, o grande sábio não teve, em toda a sua vida, nenhuma outra instrução formal se não a que recebeu. De volta à Grécia, ele difundiu conhecimentos egípcios antigos como aquele que vê na água o princípio e a essência do Universo, e a divisão do ano em 365 dias -- conhecimentos dominados, lá, desde muito antes, desde os sábios Imhotep (c. 2700 AC) e Amenhotep, filho de Hapu (c.1400 AC). Consultando aqui no Lote uma enciclopédia "chapa branca", vejo que ela enche a bola do Tales mas critica o fato de ele e seus discípulos "confundirem a existência do Ser Supremo com a existência de vários deuses". E dou uma tremenda gargalhada quando leio, num livro americano recente, que o grande Tales, após descobrir como inscrever um triângulo retângulo num círculo (alô pessoal da Mauá, lembra? b2 - 4ac ?), em regozijo e agradecimento, sacrificou um boi às divindades egípcias que iluminaram sua mente. Mojubá! PS: Quem se interessar pelo assunto, procure por autores contemporâneos como Molefi Kete Asante, Maulana Karenga, Ama Mazama, Don Luke, Asa G. Hilliard III etc. E principalmente pelo falecido Cheik Anta Diop, o pai da História afrocentrista. Terça-feira, Março 08, 2005
DIA INTERNACIONAL DA MULHER: E a homenagem vai para... Oito de março, Dia da Mulher! Então, eu, feminista desde bebezinho, resolvo a homenagem. Que é a seguinte: Na história do samba carioca, as mulheres sempre tiveram papel fino, celofane, preponderante. Desde o tempo das coroas baianas da Praça Onze, do axé de João Alabá e Bamboxê. Mas em todo esse cenário deslumbrante, o perfil de uma senhora, que eu não conheci e nem sei se ainda está entre nós, há muito tempo me chama a atenção. Em "Escolas De Samba em Desfile: vida, paixão e sorte", de Hiram Araújo e Amaury Jório, livro publicado em 1969 e que repertoria minuciosamente a história das escolas de samba de então, na parte relativa à Unidos da Ponte, fundada em São Mateus, na Baixada, em 30 de março de 1957, lá está seu nome: CARMELITA BRASIL, fundadora e primeira presidente da escola. Na estréia da Ponte, num desfile campeão em São João de Meriti, em 1958, o enredo - "Riquezas do Brasil" - e o samba são de autoria de Dona Carmelita. E assim ela vai, até 1961, com os enredos e os sambas "Revista Brasileira" (Praça Onze, 1959); "Exaltação ao Estado do Rio de Janeiro" (Presidente Vargas, 1960); "Exaltação ao Estado da Guanabara" (Praça Onze, 1961); Homenagem ao Pai da Aviação" (Praça Onze, 1962); "Homenagem ao Barão de Mauá" (Praça Onze, 1963);e "A Escravidão" (Praça Onze, 1964). A partir daí, o nome de Dona Carmelita Brasil (que teve como parceiros, em alguns dos sambas-enredo, João Vernud, Durval Silva Araújo ou Walter Coringa) desaparece dos anais. Era 1964. Não se sabe o que aconteceu. E se alguém souber me conte. Para que se coloque no seu verdadeiro lugar a memória dessa sambista pioneira, provavelmente a primeira mulher a assinar um samba-enredo na história das escolas de samba cariocas. Então... Salve o Dia Internacional da Mulher! Viva Dona Carmelita Brasil! Quarta-feira, Março 02, 2005
O DESMONTE DA CULTURA BRASILEIRA A AMAR-SOMBRÁS é uma sociedade gestora de direitos autorais musicais. Mas é diferente. Porque, além de seus objetivos específicos, ela pensa os problemas brasileiros e opina sobre eles. A AMAR (como é mais conhecida) mantém uma página na Internet. E está veiculando um artiguinho curto e grosso sobre esse desmonte da Cultura brasileira que está ai em curso e as pessoas fingem que não vêem. Vale a pena dar uma olha. Terça-feira, Março 01, 2005
ORAÇÃO AO RIO, NO DIA DOS SEUS ANOS "Cidade, quem te fala é um sambista!" - como dizia Paulo da Portela. Um sambista de 62 anos que, no dia do teu 440º aniversário, beija as sandálias do teu Cristo e te pede, através d' Ele: Cidade, manda teus governantes pararem de fazer política rasteira e cuidarem de teus reais interesses, Cidade! Manda teus cidadãos se indignarem, para tirar daqui, o mais rápido possível, tudo o que não presta, Cidade! Manda teus intelectuais e artistas deixarem de embarcar na canoa furada das corporações transnacionais, Cidade! Manda eles praticarem uma arte e uma criação intelectual realmente comprometidas com tua identidade e os interesses do teu povo, Cidade! Avisa a esses intelectuais e artistas, Cidade, que - em nome de um falso deus chamado Mercado - há em pleno curso todo um projeto de desmonte da Cultura brasileira; que vai acabar por nos deixar sem empregos, sem direitos (notadamente os autorais), na mais abjeta "informalidade"! Diz aos cariocas do Rio e da Baixada, Cidade, que a Natureza está morrendo. E que assim como areais, saibreiras, pedreiras, caça predatória e extração de palmito estão secando os mananciais, o consumismo irracional está secando a espiritualidade, Cidade! Por fim, diz aos "crentes", Cidade, que a Bíblia é um livro e não "O" livro. Que, além dela, existem também o Corão, o Talmud, o Bagvad Ghita, o Kebra Nagast, o Zend Avesta, os ensinamentos de Buda e as tradições negro-africanas. E se te sobrar algum tempinho, Cidade, diz se eu estou certo ou errado em desejar um Rio de Janeiro melhor pra todos nós. Amém! Amin! Igboru Igboye! |