meu lote


Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005



ED MOTTA NO LOTE

Recebo um telefonema do parceiro Ed Motta, entusiasmado com nossas duas parcerias em seu novo CD, que sai mês que vem pela Trama: "Pharmácias" e o premonitório "Samba Azul", no qual ele divide os vocais com a querida comadre Alcione.

Comentamos sobre quando tudo começou, há uns 3 anos, num café da manhã em Vitória, num encontro em que soubemos de nossas afinidades panafricanistas.

E, ao fim do papo, ensaiamos próximas visitas.

Como Don Motta é enólogo de fino trato, informo que aqui nas cercanias do lote o vinho que se bebe é Sultão, ainda mais heavy-metal que o Único. E cerveja, comunico que os hits são a Lokal e a Buena, esta com um rótulo igualzinho ao da Boêmia.

- Baixada também é cultura! E bebida é apenas uma questão de preço! -- finalizo.

Ed Motta solta uma gargalhada que vai até Tairetá - que hoje é Paracambi. E rimos muito os dois.

Diz aí!

Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005

UM OLHAR SOBRE A CULTURA, HOJE

Ali pelos anos 60-70, o Luiz Carlos Saroldi montou na antiga UEG, hoje UERJ, um espetáculo teatral de vanguarda. Era de poesia mas incrementado, cheio de bossa, com textos de Cassiano Ricardo (moda, na época!), Drummond, etc. ditos de forma bem "contemporânea".

Antes do espetáculo - que, agora lembro, chamava-se "Ciranda" - o Saroldi distribuía uns formulários de pesquisa, pra saber o quê que as pessoas achavam daquele tipo de encenação.

Na inocência de meus verdes 28 anos, achei que podia levar o espétáculo ao Grêmio Pau-Ferro, no Irajá. E o Saroldi topou.

O povo gostou muito e coisa e tal. Mas na hora de tabular as respostas da pesquisa, na pergunta sobre qual o aspecto mais interessante de "Ciranda" em relação ao teatro convencional, eis que nos chegou, naquela letrinha redondinha, bonitinha, pefumada, a seguinte resposta: "O moreninho da esquerda".

Ali, no Irajá, acho que em 1970, começava tudo...

Diz aí!

Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005

SAMBA AZUL - MERA COINCIDÊNCIA?

No dia 8 de dezembro do ano passado, dia de Iyá Oxum, o Velhote aqui do Lote mandava para o Ed Motta a letra abaixo, escrita para uma melodia do talentoso sobrinho do Tim Maia, dois meses antes do carnaval. A canção acaba de ser gravada e estará no próximo CD de Don Motta. Leiam a letra, inclusive com as opções que o Velhote criou; e pensem no desfile das superescolas. Coincidência? No lo creo...

Samba Azul

Samba azul
Como os tons mais azúis
Que um pintor andaluz
Sutilmente
Muito levemente
Usou naquelas telas.

Tudo azul
Beija-flor voa ao léu
Sobre Vila Isabel
Elegante [E elegante
E mais adiante Vai pousar distante
Pousa na Portela Na Portela]

A paz recai enfim
Sobre a cidade
Nenhum prenúncio
De tempestade.
Paz do sol do norte
Ao mar do sul
Neste samba azul [Tudo azul]

Diz aí!


SALGUEIRO METE BRONCA

O bloco de enredo Raízes da Tijuca, do morro do Salgueiro, foi o grande vencedor do desfile oficial de sábado na Av. Rio Branco.

O enredo foi "Adelzon Alves - O Amigo do Samba e da Madrugada", de autoria de Pedro Nobre, salgueirense da antiga, com direção de carnaval de Carlos Roberto.

O samba foi da autoria de Miudinho, Gel Babinha (filho de Geraldo Babão), Cláudio Inspiração, João Conga, Mauro Torrão e Luiz Fernando - este, grande compositor dos Acadêmicos, desde os anos 60.

Atualmente, o bloco está sob a presidência de Sebastião Pinto Gonçalves, o popular Tião do Salgueiro, o primeiro (e único?) negro a ser administrador regional do aristocrático bairro Tijuca.

O Raízes congrega muitos salgueirenses saudosos dos velhos tempos.

Diz aí!

Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005

1974, O ANO QUE NÃO TERMINA

Depois de Martinho da Vila, em 1968, o último nome saído do universo das escolas para integrar o panteão dos grandes sambistas no disco e na mídia foi Dona Ivone Lara, em 1974. De lá para cá, passaram-se muitos anos sem que o fenômeno se repetisse. E o estrelato isolado de Dudu Nobre, surgido na Alegria da Passarela, antiga escola mirim do salgueirense Osmar Valença, é um fato absolutamente isolado.

Observe-se que 1974 foi o ano dos boleristas Jair Amorim e Evaldo Gouveia faturarem o samba-enredo na Portela; do início do reinado de Joãozinho Trinta no Salgueiro; e da Beija-Flor fixar-se no primeiro grupo, com um enredo exaltando as realizações da Ditadura.

Chegando ao hoje, vamos ver que, musicalmente, e contrariando a geografia, na paralela da Marquês de Sapucaí estão as avenidas Mem de Sá, Gomes Freire e a rua do Lavradio, onde o samba toca forte mas com sutileza e cadência, múltiplo e diversificado. Da mesma forma, no Cacique de Ramos, no Ponto Chic de Padre Miguel, em Osvaldo Cruz, Irajá e por esse Rio a dentro.

E isso leva àquele raciocínio por nós exaustivamente repetido: SAMBA É UMA COISA; ESCOLA DE SAMBA É OUTRA. Mesmo porque antes de existir escola já havia samba.

O fato de a Portela de Paulinho da Viola, Wilson Moreira e da Velha Guarda, assim como o Império de Dona Ivone, Aluísio Machado, Wilson das Neves, Arlindo Cruz e Zé Luiz; e mesmo a Vila Isabel dos mais requisitados músicos sambistas dos estúdios cariocas, chegarem na rabada do ranking das escolas é apenas uma acachapante constatação disso que a gente já sabe. Desde 1974.

Mas ainda há tempo de mudar. É só as escolas investirem, por exemplo, na preservação de seu repertório tradicional, gravando também sambas de terreiro; ou na formação de sambistas realmente músicos, com aulas teóricas e práticas de violão, cavaquinho, canto, percussão etc.

Pensar só na Sapucaí pode levar à dispersão. Ou a um túnel sem saída.

Diz aí!

Terça-feira, Fevereiro 01, 2005

UJAMAA

Imaginem o Velhote aqui do Lote, no Largo do Pelourinho, diante de uma platéia estimada em 8 mil pessoas, cantando, com o vocalista da casa e acompanhado por aquela batucada mobilizante (as baquetas voando), o "Gostoso Veneno" em ritmo de samba-reggae.

- Só Paul Simon e Michael Jackson! - exclamou o exagerado João Jorge, presidente do Olodum, a poderosa entidade do movimento negro.

Pois essa foi só uma parte da festa onde, orgulhosamente, recebi o título de Cidadão Olodum 2005, no último fim de semana de janeiro. Festa que contou com a presença do senador Paulo Paim, da ministra Matilde Ribeiro da Promoção da Integração Racial, do Capinan, da revista Raça Brasil etc. - todo mundo recebendo o troféu Ujamaa, cujo título, na língua suaíle, da África oriental, significa "família, comunidade".

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UJAMAA (2)

Sábado 28, o velhote em Salvador e o bloco Samba no Pé, do SESC Madureira, desfilando na avenida Atlântica.

O tema foi nosso livro "Sambeabá, o samba que não se aprende na escola". E o samba, a certa altura dizia:
"O negro africano aqui chegou / e o seu lamento se tornou / nesse alimento que nutriu geral / Paixão da gente nosso varanaval./ Nei Lopes, bacharel e escritor / na Arte Negra se consagrou".

O bloco é também parte de um projeto de cidadania capitaneado pelo SESC Madureira.

O Lote e seu Velhote agradecem a Cleide Fonte, diretora do departamento cultural e Ana Cunha, coordenadora técnica, duas "baluartes da inclusão social" - como diríamos nós, num samba-enredo dos bons tempos.

Diz aí!