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Sexta-feira, Janeiro 28, 2005
OBRIGADO, BATERIA! "Bujica", escrito assim, é complicado para um não falante da língua de Lima Barreto e Marques Rebelo. Diziam "Biu-jai-co", "Bou-jai-co", por aí. Então, o músico assumiu o modo fonético anglófono (ou nórdico, sei lá) de escrever: Boo-djee-kah, Boojeekah. E viu que era bom. O som é quase o mesmo e fica mais brilhante, assim, no letreiro: "TONIGHT. BOODJEEKAH. Master of brazilian percussion". Como emocionante é, agora, chegando para mais um concerto, de sobretudo escuro, cachecol e gorro de lã, a case dos pratos armênios sob o braço, ir lembrando devagarinho como tudo começou. Não! Não se tratava de tirar os meninos da "rua", pois, na comunidade, o limite entre as vielas e os cômodos das casas praticamente não existiam. O projeto, como todos os outros, de inclusão social, cidadania ou geração de renda, o que de fato objetivava era ocupar, de modo sadio, corpos e mentes daquela garotada sem perspectiva. O ritmo nascera com eles. Como nasce com todo mundo. Só que uns desenvolvem a intimidade da convivência. E aí percebem melhor a batucada das rodas do trem, da máquina de costura, da goteira caindo do teto e repenicando na lata... Porque tudo no universo tem seu ritmo. A vida, ela própria, é ritmo. E a música não é só uma arte do espírito e da alma mas de todo o corpo. É claro que não foi filosofando assim que Timbira teve a idéia. O projeto surgiu na sua mente foi no Maracanã, vendo o Vascão bater aquela bola redondinha, num dos times mais entrosados dentre os que já desceram a "Colina de São Januário". Por quê não juntar todos aqueles rapazes talentosos, capazes, e formar um timaço? Um time pequeno mas com uma perfeita noção de conjunto. Um dream team da batucada. Uma seleção brasileira do "bumbum praticumbum prugurundum". Uma orquestra sinfônica da percussão sambística. Uma fantástica mini-bateria mirim, nascida no seio da gloriosa tradição dos Caprichosos da Serra. Quando a notícia se espalhou, não houve grande entusiasmo. Música, naquele momento, era o Michael Jackson, era o break dos negões americanos, que viviam em projects caindo aos pedaços, meio parecidos com os conjuntos habitacionais daqui. Mas jogavam basquete e usavam aqueles bonés e tênis coloridos, desafiadores. Batucada de escola de samba só mesmo no carnaval, e pela farra. Era meio fora de moda e não combinava com o estilo lá de fora, com aquilo que se via nos filmes, nos videogames e na televisão. Além do mais, a arregimentação era condicionada ao boletim escolar. E escola era um assunto meio distante. Mas Timbira e o pessoal da ONG insistiram. Aí, vieram os primeiros, Birinha e Pingo, que já tinham uma certa intimidade com o mestre. E ele explicou o que pretendia. Não! Não era uma simples bateria mirim, um mero conjunto de percussão integrado por adolescentes e meninos de uma comunidade carente. Não se tratava de um projeto banal de ressocialização de menores infratores ou em situação de risco. Timbira queria, porque podia, mas era formar uma super-orquestra, para tocar em shows, dar concertos, gravar um-dois-três CDs e clipes, fazer sucesso, ganhar dinheiro, muito dinheiro. Os apoios e patrocínios já estavam negociados; e os instrumentos já estavam chegando de São Paulo, da Contemporânea... Então, a orquestra foi-se formando: No surdo, Bochecha.; no surdo de resposta, Cidinho: no de terceira, Doca. Nos repinicadores, Bujica e Claudinho; tarol, Nem; caixas de guerra, Quim e Biu; chocalhos, Fabinho e Vaguinho; tamborins, Digo, Birinha e Ronaldo; cuícas, Linho, Pingo e Pretinho. O caso é que foi um sucesso. Em menos de um ano, a cidade toda já falava na ORJUPECS, a Orquestra Juvenil de Percussão dos Caprichosos da Serra. E a garotada vivia com a agenda cheia de compromissos, entre apresentações em comunidades, espetáculos oficiais, televisão, gravações... Mestre Timbira, na intimidade, batia no peito, afirmando orgulhoso que aqueles jovens eram dezesseis que ele tinha posto no bom caminho, tirado definitiva e irreversivelmente das garras do vício, dos prazeres ilusórios e fugazes, da marginalidade e da delinqüência. Mas não foi para sempre que os timbres da bateria soaram e tocaram de forma compassada, cadenciada e harmônica. O primeiro a sair foi Quim, que no fundo, no fundo queria mesmo era entrar para a Polícia. Teve que deixar o morro, com a família, expulsa quando seu pai, por uma razão qualquer, resolveu contestar uma ordem do Homem. Birinha mudou-se naturalmente, também com a família, quando o pai teve a chance de terminar a casinha que havia vários anos construía num distante mas pacífico município da Baixada. Hoje é professor do ensino fundamental, e vai vivendo. Fabinho saiu por imposição dos pais, que receberam uma "revelação" e se tornaram "cristãos". Hoje anda de terno e gravata (paletó de uma cor, calça de outra) e já tem seu próprio ministério, numa salinha com doze cadeiras. Vaguinho passou num concurso para a Marinha de Guerra e foi ser aprendiz de marinheiro em Florianópolis. Pingo aprendeu um pouquinho de guitarra, formou uma "banda" de pagode romântico e anda por aí, à procura do sucesso. Os outros, foram saindo de cena de em circunstâncias e de modos diferentes. Primeiro, foi Cidinho, 17 anos, gorro enfiado na cabeça, dormindo na chuva - tuberculose pulmonar. Depois, foram, pela ordem: Bochecha, 16, cambono do terreiro de Seu Sete Velas - traumatismo craniano provocado por disparo de arma de fogo; Doca, 15, que um dia sonhou ser enfermeiro no carro dos bombeiros - parada cardíaca por ingestão de substância química de fórmula C17 H2 NO4; Claudinho, esperto, inteligente, boa conversa - incurso no art. 156 do Código Penal, aguardando progressão para regime semi-aberto; Nem, 19, mentiroso e viciado desde os 12 - deficiência imunológica na época ainda não identificada; Biu, 14, que veio com a mãe de Catolé do Rocha ainda bem pequenininho - hemorragia conseqüente a perfuração de órgãos vitais por instrumento pérfuro-contundente; Digo, 17, rápido nas quatro operações, sabendo inverter e cercar um milhar e uma centena - Diretor financeiro de uma rica e badalada escola de samba do grupo especial ; Ronaldo, 16 anos, bom de bola - Emirado de Abu Jebah ; Linho, quase 18, fortão, ágil, bom de briga - Segurança, de terno preto, gravata e óculos escuros ; Pretinho, 13, sensível e obediente - economia informal, esquina de rua da Assembléia com avenida Rio Branco. * * * Bujica conheceu Gunnar Bergström, 58 anos, phd em Artes, quando o lourão veio pesquisar música no Brasil. Foi, por acaso, na quadra dos Caprichosos. Entre idas e vindas, muita entrevista e muita gravação, no fim de dois anos veio o convite para conhecer a Europa. Para ele, mesmo sem nunca ter tido pai ou mãe, no princípio foi duro. As regras, as proibições, as tradições estritamente observadas - apesar de focos de rebeldia, sem muito motivo, espocando aqui e ali mas logo sufocados. Rebeldia sem causa! Afinal, todos eram iguais perante a Lei e tinham garantidos seus direitos à cidadania. Bons hospitais, ótimas escolas, excelente rede de transportes, moradia acessível, o Estado estruturado e forte olhando por todos e cortando, na medida do possível, os tentáculos poderosos do Mercado. Mas tinha o frio, que obrigava Bujica a vestir dois-três agasalhos por baixo do sobretudo, além das meias, luvas e toucas. E tinha, mais terrível que todas as carências, mais avassaladora e acachapante que todas as ausências, mais desoladora e destrutiva que todos os banzos, saudades e nostalgias; tinha a falta do feijão preto, que aparecia, naquele sonho recorrente, borbulhante de paios, carnes-secas, lombos, orelhas e toucinhos, cheirando como uma obsessão diabólica. Mas Bujica superou o frio e a falta do feijão. Incentivado e ajudado pelo enérgico mas carinhoso Gunnar Bergström, freqüentou cursos livres, foi aprendendo a língua da terra e aquele indispensável inglês universal, fez-se habituê dos circuitos de arte e cultura, conheceu artistas, intelectuais, políticos, embaixadores, cônsules, adidos, primeiros secretários, gente, muita gente. No morro, Mestre Timbira, quando recebe aquelas cartas cheias de selos bonitos, sai mostrando: - Olha aí! Cria minha! Não falei que eu ia botar eles todos no bom caminho? * * * Sobretudo escuro, cachecol e gorro de lã, na mão a case dos pratos armênios e o estojo de baquetas, Bujica cumprimenta um e outro - good evening, how do you do - e se dirige ao camarim. Na porta, o lettering "BOODJEEKAH" sob a pequena estrela prateada. MARCUS VINÍCIUS E A INCLUSÃO DIGITAL Meu amigo Marcus Vinícius, maestro, autor de belas trilhas para cinema, diretor artístico do selo CPC-UMES, presidente da AMAR-SOMBRÁS e a maior cuca do Direito Autoral no Brasil é, além de tudo isso, um tremendo gozador. Que a cada vez que a gente se reúne, numa clareira que fica no meio da selva inóspita do universo autoral brasileiro, ali perto da Praça Mauá, sai sempre com uma boa. A última, toureando as frases feitas que andam por aí na boca dos moderninhos, foi, quinta-feira, dia 26: - Ora, porra ! Pra mim, "cadeia produtiva" é penitenciária agrícola. E "inclusão digital" é exame de próstata! - mandou. E foi correndo pra Ponte Aérea, em meio à gargalhada geral. Terça-feira, Janeiro 25, 2005
MEU TIO NÃO MATOU O CARA Acabo de receber um telefonema do ótimo ator Lázaro Ramos (aliás, verbete de nossa Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana) sobre o filme "Meu Tio Matou Um Cara", que comentei, não me lembro se foi aqui no Lote, como mais um exemplar da estética "chapa quente". Informa ele que o ideário do diretor Jorge Furtado, muito pelo contrário, vai contra a corrente cinematográfica que bota sempre os negros com uma arma na mão. E que o filme mostra uma família negra comum, no seu dia a dia, e coisa e tal. Confesso que ainda não vi a "fita" (como se dizia no meu tempo) e fiz o comentário, naturalmente, baseado no título. Então, peço desculpas ao Furtado e ao Lázaro pelo pré-julgamento e prometo dar um pulinho até o cinema. E se o tio deles tiver mesmo matado o cara, eu juro que desenferrujo minha carteirinha OAB e meto lá um habeas-corpus. BUMBUMPRATICUMBUM PRUGURUNDUM (2) Como sempre acontece nessa época, chovem no Lote pedidos de declarações sobre os sambas-enredo das escolas. Confesso que não me agrada mais falar sobre isso, mesmo porque todo mundo sabe que, em qualquer roda de samba, hoje, quando o sentimento "escolístico", o velho "amor às cores da agremiação" volta, o que a gente canta, mesmo, aqui no Lote, é "Palmares" (1960), "Chica da Silva" (1963), "História do Carnaval" (1965), nessa base. Mas aí, sem querer, acabei dando uma declaração para a jornalista Adriana Chaves, da Folha, a qual acabou sendo assim resumida: "Com 'raríssimas exceções', os sambas-enredo tornaram-se 'repetitivos e bobinhos' afirma o sambista e estudioso do tema Nei Lopes. 'São colchas de retalhos, principalmente de melodia, sempre colagens de motivos já ouvidos', critica. 'Às vezes, a gente se anima com a empolgação, a interpretação do cantor, alguma convenção no arranjo, mas quando vai ver direitinho é como um jingle: grudou no ouvido porque remete a trechos de canções ou fórmulas já utilizadas", afirmou Lopes." Entre as raras exceções a que me referi, incluo o samba da Beija-Flor no ano passado. Segunda-feira, Janeiro 24, 2005
BUMBUMPRATICUMBUM PRUGURUNDUM Para contribuir um pouquinho com o clima dos ensaios técnicos, dos protótipos e disso tudo que a nossa querida mídia insiste em chamar de "folia", venho por meio deste fazer algumas propostas para o carnaval do ano que vem. Proponho que se instituam, no julgamento das escolas, novas unidades de medida, no lugar daqueles "dez, nota dez" antes tão imperiais e hoje tão perlingeiros. O quesito "evolução", proponho que seja julgado em "darwins" ou "spencers", tipo assim: "- Mangueira ... 10 darwins!" "Bateria", proponho o julgamento em "voltas" (em memória do físico italiano Alessandro Volta, que em 1800 inventou a pilha elétrica). No item "concentração", acho que as notas devem ser dadas em "yogas". "Dispersão", em "jânios". E por aí vai... Finalmente, proponho que a interpretação do samba seja julgada em atenção ao abalo por ele produzido nas arquibancadas do setor 1. E esse abalo deverá ser mensurado por tanto ou quantos graus ele atingir na "escala Richa". Richa, hoje "Rixxah" por causa da numerologia e trabalhando como coralista em gravações, é o maior cantor de samba que já cruzou a avenida, desde a década de 1980, quando estreou no sambódromo, defendendo as cores salgueirenses. Meu amigo Haroldo Costa sabe de quem é que estou falando. Segunda-feira, Janeiro 17, 2005
KITÁBU E MUNIZ SODRÉ Nosso "Kitábu, o livro do saber e do espírito negro-africanos", a sair este ano pela SENAC-Rio, já tem um honroso prefácio. Agudo e certeiro, o texto é assinado nada mais nada menos que pelo grande teórico da comunicação Muniz Sodré, mestre de toda uma geração e que, além de professor-titular da UFRJ, é alto dignitário (Ossi Obá Aressá) no Axé Opô Afonjá, uma das mais antigas e respeitadas comunidades religiosas do Afro-Brasil. Cada vez mais feliz com essa sucessão de eventos venturosos, agradeço aqui, publicamente, aos Orixás e Ancestrais, que têm me mostrado o verdadeiro caminho. Sexta-feira, Janeiro 14, 2005
OLODUM E ANTIGO EGITO Todo mundo aqui já sabe da homenagem que o Velhote do Lote vai receber do Olodum. O que talvez não se saiba é que a famosa instituição, este ano, no carnaval, através de seu bloco-afro, homenageia o "casal solar", Akenaton e Nefertite. E que, por uma dessas "coincidências" que a gente aqui em casa conhece como sincronicidade, antes disso o Coroa aqui já estava, desde setembro, mergulhado na elaboração de um Dicionário da Antiguidade Africana onde o Egito tem papel fundamental. Saibam os visitantes do Lote que os melhores faraós egípcios viam as terras ao sul de seu território (Núbia, Cuxe e Etiópia), a ele ligadas pelo dadivoso rio Nilo, como o local de origem de seus deuses e muitas de suas tradições. Tradições essas em que os principais filósofos gregos e até mesmo reis hebreus, como o "mulatólogo" Salomão - espécie de Sargentelli sem ziriguidum - foram beber. E que deram origem a uma filosofia chamada "hermética" (os gregos sincretizaram Toth, deus egípcio do saber, com o seu Hermes) difundida pelo mundo. Só que quando esse alto conhecimento se tornou respeitado, começou-se a negar que ele tivesse sido formulado num país africano e a partir de saberes enraizados no mais profundo do continente. "Egípcio negro? Qual! Negro nunca construiu civilização nenhuma!" - S.M. o Racismo meteu a boca nas trombetas. Sem saber que Menés ou Narmer, o unificador, foi um negão; que vários faraós, principalmente da 18ª eram originários da Núbia; e que uma dinastia inteira, a 25ª, que governou o país por mais de 100 anos era constituída por faraós do país de Cuxe, tidos como "etíopes". É claro que não vamos sair por aí quebrando o barraco, mostrando o retrato dos mulatões Anwar Sadat e Gamal Abdel Nasser pra dizer que tudo quanto existe no Vale do Nilo, e principalmente no Delta, é coisa de crioulo. Pero que las hay, hay... Melting Pot - Verdadeira encruzilhada (em todos os sentidos), o velho Egito recebeu povos e influxos étnicos e culturais da Mesopotâmia, do Mediterrâneo etc; e também da África Profunda. Foi um puta caldeirão, mesmo! Agora... é preciso que se veja o seguinte: Baseados no fato de que, nos dias atuais, alguns grupos étnicos da África oriental e central, como tutsis, massais etc - de elevada estatura e que , apesar da pele escura - apresentam o que se convencionou ver como "perfil grego" ou nariz adunco, do tipo visto como "semítico", alguns antropólogos recusam-se a enquadrar esses tipos como negro-africanos. Entretanto, na defesa de interesses políticos e econômicos, pensamento da mesma linha eurocêntrica, principalmente nos EUA, qualifica modernos afro-mestiços, mesmo com "perfil grego", "nariz hamítico" ou cabelos lisos, como mulatos, colored, oitavões, quadrarões, etc, pospondo-lhes, sem hesitação, o qualificativo, muitas vezes derrogatório, de "negros". Os antigos egípcios se auto-representavam, na iconografia que chegou até nós, em vários tons de pigmentação: do ocre (geralmente para as mulheres, que talvez não pegassem sol) até o "marcelinho-moreira" ou "carlinhos-sete-cordas" - classificação que acabo de inventar, para homenagear dois grandes músicos e amigos, orgulhosos de sua negritude. Então, fim de papo, meu rei! E saiba a rapaziada soteropolitana que dia 29 me pico daqui e chego aí retado, contente como um corno... Viva o Olodum 2005! Terça-feira, Janeiro 11, 2005
HIP HOP, VIOLÊNCIA, JUVENTUDE E SAMBA Leio no jornal notícia de uma pesquisa feita pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares juntamente com o rapper MV Bill, cujos resultados vão sair brevemente em livro. O trabalho, desenvolvido em oito estados brasileiros, analisa a questão da juventude diante da criminalidade dominante. "A juventude vulnerável tem sido alvo de várias formas de exclusão e preconceito, principalmente, de cor. É o segmento mais exposto à violência, seja como vítima ou protagonista. Dos quase 50 mil assassinatos que ocorrem anualmente no Brasil, maioria das vítimas é do sexo masculino, pobre, negra e está entre os 15 e 24 anos." E vão por aí as sábias conclusões da pesquisa, mostrando que a "fome de reconhecimento e valorização desses jovens" e não só a "fome material", não saciada, gera uma desestruturação que acaba por desembocar na violência. "A valorização pessoal [dessa juventude] pode ser tratada do ponto de vista familiar, comunitário, como também a partir da criação cultural, estética e política" - diz o texto. Só que aí os pesquisadores, entre os quais se inclui o empresário de MV Bill, apontam o hip hop como "uma das linguagens mais propícias para que os jovens construam uma identidade, desenvolvam responsabilidade pública e política, e tenham seu valor reconhecido socialmente". Pois é... O papel que deveria ser das escolas de samba foi definitivamente entregue à música e à cultura dos guetos novaiorquinos, em mais um capítulo do triste processo de capitulação da cultura brasileira ante a indústria transnacional da cultura, aquela que nos relega "ao papel passivo de simples consumidores de bens culturais", como escreveu Celso Furtado - aí incluídos, entre esses bens, camisetas, bonés, tênis e bermudões Nike, Mizuno etc. "Incapazes de reagir criticamente à descaracterização de nossa cultura", como, definindo essa síndrome, escreveu recentemente a jornalista mineira Eliane Facion, até mesmo os projetos mais bem intencionados sucumbem ante essa mundialização geradora, ela mesma, da criminalidade que as "ações de cidadania" pretendem minimizar. E aí entramos no "terreiro" (hoje superquadras) das escolas de samba. Qual delas, à exceção talvez da Mangueira, pensa hoje o samba como linguagem propícia à construção de identidade, à assunção de responsabilidade política, levando a um reconhecimento social de seus pensadores e criadores? O saudoso Candeia via no samba esse papel. Darcy Ribeiro também. A propósito, o que foi feito das salas de aula que existiam no sambódromo? E do revolucionário projeto da Escola Tia Ciata ali do lado? Será que a "Cidade do Samba" que está sendo erguida no Cais do Porto está de olho só nos dólares do turismo? Ou será ... Como será o amanhã? DEPOIS DO OLODUM, ORILAXÉ Dia 21 de fevereiro, no Canecão, Tio Nei vai receber do prestigioso grupo cultural Afro-Reggae, o prêmio Orilaxé. Vejam aí o que diz recente e-mail enviado ao nosso Coroa pela entidade: "Neste ano, na categoria 'Produção de Conhecimento', tivemos a honra de elegê-lo, considerando o seu trabalho que é, sem dúvida, uma das contribuições mais importantes para a reflexão sobre temas centrais da sociedade e da cultura brasileira, notadamente aqueles ligados à diáspora africana. Sendo assim, gostaríamos de contar com sua presença na entrega do Prêmio, no dia 21 de Fevereiro, no Canecão, Rio de Janeiro, a partir das 18 horas. Reiteramos que é uma honra para nós a sua presença em nosso evento, que este ano, entre outras figuras fundamentais, elegeu Xangô da Mangueira, na categoria 'Cultura Popular', e Pai Euclides Talabyan, em 'Tradição Afro-Brasileira'." É, malandragem: os orixás não jogam mas fiscalizam... Terça-feira, Janeiro 04, 2005
SEU NEI LOPES & DUNGA NO CCBB No próximo fim de semana, o coroa aqui do Lote vai estar, sábado e domingo, dias 8 e 9, às 18h30, tirando onda no Teatro II do CCBB. Trata-se da abertura de uma programação ("projeto" é quando ainda está só sendo cogitado) sobre o humor no samba. Seu Nei, de chapéu novo e gravata borboleta velha, vai estar muito bem acompanhado, dividindo o palco com o parceiro Dunga, sambista da pesada, neguinho esperto de Vila Isabel e muito bem humorado, como convém. No repertório, só aqueles sambas sacanas que a gente faz porque gosta. E, de quebra, vai ter até samba do Dicró (um papa no assunto). Acho que quem for, vai se divertir muito. Inclusive os cambistas... |