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Sábado, Novembro 20, 2004
CONSCIÊNCIA NEGRA "No que me diz respeito [como itinerário cultural] parti da cultura dominante em minha época: a cultura européia. Graças a meus contatos com a França, ampliquei essa cultura. Como todos da minha geração, li Gide, Proust e Breton...Mas acrescentei, por exemplo, Frobenius [etnólogo africanista alemão], para andar mais depressa. "O que temos em comum [ele e Senghor, poeta e estadista senegalês] é a recusa obstinada de nos alienar, de perder nossos laços com nossos países, nossos povos, nossas línguas. Quanto a mim, aliás, o que em grande parte me preservou culturalmente foi o contato assíduo com africanos. Este contato serviu de contrapeso à influência da cultura européia. Senghor (...) exerceu uma ação considerável no meu universo pessoal. Assim como ele, fiz tudo para assimilar e não ser assimilado. Nós dois somos francófonos, aderidos à cultura francesa, mas queremos por as 'armas miraculosas' a serviço de nossos povos". (Texto de Aimé Cesaire, poeta e político nascido na Martinica em 1913. In Entrevistas Le Monde: Civilizações: São Paulo, Ática, 1989, tradução de Sérgio Flaksman) Sexta-feira, Novembro 19, 2004
Diz aí! Quinta-feira, Novembro 18, 2004
UMA HISTÓRIA MUITO ANTIGA Emergindo já da diáspora, mergulho agora na Antigüidade africana, com vistas a um novo dicionário. Estou indo beber em respeitadas fontes da História afro-centrada, para mostrar, por exemplo, que o Egito não era tão clarinho assim como Hollywood nos ensinou. E que o saber que dele emanou, através de gente como Platão, Aristóteles, Euclides e Hipócrates, que lá estudaram, veio de dentro do continente, das antigas Núbia e Etiópia, de onde o país recebeu também mais de 30 faraós, tão escurinhos quanto Pelé, Sabará, Milton Nascimento, Acerola e Laranjinha. Mais ou menos de 332 a 30 AC, o Egito esteve sob domínio grego - taí a bela Cleópatra, última soberana desse período, que não me deixa mentir! Dispostos a colonizar culturalmente o povo local, os gregos tornaram sua língua a oficial em Alexandria; impuseram nomes gregos às localidades e até mesmo a faraós; proibiram os nacionais do país de freqüentar o museu e a biblioteca lá existentes, bem como de exercer atividades comerciais. No âmbito da religião, os gregos organizaram uma comissão de teólogos, incluindo sacerdotes da terra, para compatibilizar, através de sincretismo, as divindades das duas culturas, o que redundou em deturpação e abastardamento de muitas das concepções originais. É por isso que sábios como o grão-sacerdote Imhotep, que viveu por volta de 2000 AC, destacando-se como astrônomo, matemático, arquiteto e principalmente como o grande patrono das artes médicas, sendo venerado como deus pelos próprios gregos, é hoje um ilustre desconhecido diante do nome de Hipócrates - por força de um helenismo "sencillamente hipócrita", num bolero que a gente já está careca de escutar. Pois é isso, moçada! O novo balão está começando a alçar vôo. E desta vez (já tô escolado) sobe bem mais rápido que os anteriores. Me aguardem! Segunda-feira, Novembro 08, 2004
A FAMA E A GLÓRIA (Soneto Sincopado) A Fama encontrou a Glória e perguntou pra ela: "Gostou dos meus olhos? Viu como eu sou bela? A Glória não quis responder e apenas sorriu Caminhando tranqüila. Mas a Fama insistiu: "Repara como todo mundo me anseia e deseja! Todo mundo me adora, me elogia e corteja!" A Glória foi atenciosa mas se desculpou: "Há uma longa jornada até o lugar aonde eu vou." A Fama ofereceu carona e a Glória agradeceu "Meu caminho é de pedras, vai furar seu pneu!" A Fama sentiu-se ofendida e arrancou furiosa Resmungando: "Que audácia! Pobretona orgulhosa!" E aí, a galera aplaudiu e não viu quando a Glória Recolheu-se ao seu canto... nas páginas da História!!! Sexta-feira, Novembro 05, 2004
PRETO VELHO E O DIA DA CULTURA - Cultura, mizifio - diz o Preto Velho aqui do Lote - é tudo aquilo que o ser humano realiza em contato com o meio ambiente. E, aí, nesse balaio grande cabe tudo. Cabem, inclusive, a cultura anonimamente produzida pelo povo e aquela outra, criada a partir desta e trabalhada industrialmente para ser oferecida a esse mesmo povo em doses massivas, mizifio! O Preto Velho sabe das coisas. E está sempre atualizado: - Nem mesmo nos rincões mais afastados pode-se hoje viver alheio à cultura de massas, mizifio! Imagine suncê o que é, hoje, viver sem luz elétrica, geladeira, rádio, televisão, telefone - para só falar dessas coisinhas mais do que básicas. Eh,eh! Mas cá entre nós - argumento eu - a gente bem que podia escolher a luz, a geladeira, o rádio, a televisão que a gente quer, não? Pois o grande grilo da cultura, hoje, pra mim, é esse: ter que vestir o mesmo estilo de roupa que todo mundo veste; ter que escutar a mesma música; ter que beber a mesma bebida; ter que comer a mesma comida; ter que se comportar do mesmo jeito. É aí que surpreendentemente, nesse papo pelo Dia da Cultura, Preto Velho saca uma citação do maestro Villa-Lobos: - "O compositor invulgar, mizifio, é o único que poderá reagir dentro da sua época e do seu meio à vertigem exagerada do progresso, à fatalidade das tendências e ao delírio das modas, olhando reto, raciocinando justo e agindo rápido, obedecendo às leis lógicas que o destino lhe deu para universalizar os pensamentos humanos." Morô, mizifio? Tem razão o Preto Velho. E não se diga que Villa-Lobos, com este pensamento, não estava se referindo aos do nosso time - porque ele freqüentava e admirava os "do morro" também, como Cartola. E observe-se que na "fatalidade das tendências" e no "delírio das modas" que Preto Velho citou, pode estar contida também, aquela coisa sempre presente entre os "da Cultura" de "reinventar a roda" ou repetir o mito de Sísifo, empurrando uma enorme pedra montanha acima para, quase no topo, vê-la rolar e ter que começar tudo de novo. - É verdade, mizifio! Esse povo da Curtura! Hmmm... ** Preto Velho, que também bate lá seu tamborzinho e tem carteira da OMB, está sabendo da grande agitação que rola no ambiente musical carioca, por conta do anúncio da criação de uma "câmara setorial da música" no âmbito do governo federal. - É claro que precisamos de políticas públicas para a Cultura da música, mizifio! Políticas que nos garantam escolas, palcos, orquestras, estúdios, democratização da veiculação de nosso trabalho, acesso a fontes de recursos etc. Mas antes é preciso descolonizar a Cultura e a música brasileiras, libertando-as do domínio das grandes corporações transnacionais, com sua lábia falaciosa, pretensamente modernizadora. Neste ponto do discurso, Preto Velho adota um tom bem menos de formador de opinião e muito mais profético: - É preciso cuidado! O deus pagão das multinacionais quer a morte da Cultura Brasileira! E suncês não podem deixar que ele os condene a empurrar, eternamente, ladeira acima, uma nova pedra, quando já existe lá, posta no alto da montanha, aquela, carregada com o esforço dos mais antigos, há mais de 20 anos. Ela existe e está lá. O que suncês tem é que dar um polimento nela, para que seja cada vez mais firme, forte, boa e valiosa. Morô, mizifio? ** É... Preto Velho também é cultura! Terça-feira, Novembro 02, 2004
TÍTULOS (HONORÍFICOS ) SEM PROTESTO É, gente... Depois de um antiquário "Coisa da Antiga"; do "Candongueiro" dos queridos amigos Hilton e Hilda; do grupo "Água de Moringa"; do "Fidelidade Partidária", de Belo Horizonte; e até de um motel na Rio-Magé chamado "Gostoso Veneno" (juro que é verdade!), chega ao Lote a notícia da existência de um grupo de samba de Juiz de Fora chamado "Tempo de Dondon". Pois é... Acho que nós aqui somos bons de botar título, mesmo! Então, vamos sugerir outros, para nomes e marcas, tirados de nossas canções - o que só nos honra. Escolham! ÁGUA DE BARRELA - Marca de cerveja "baixa renda" BAILE NO ELITE - O próprio BOLOLÔ - Boate de pit-boys CABOCLA JUREMA - Igreja evangélica CAÍDO COM ELEGÂNCIA - Brechó CHAVE DE CADEIA - Escola de samba COCO SACUDIDO - Barraca na orla CORPO MESTIÇO - Óleo bronzeador DEBAIXO DO MEU CHAPÉU - Loja de guarda-chuvas E EU NÃO FUI CONVIDADO - Produtora de eventos ESPARRELA - Instituição financeira FESTA DA DENTADURA - Oficina de protético FIM DE FEIRA - Escola de samba do 3º grupo FIRME E FORTE - Academia de malhação GOIABADA CASCÃO - Clínica dietética GOTAS DE VENENO - Cachaça vagabunda IGUAIZINHOS, NÃO - Boate exclusiva para heterossexuais LOURA LUZIA - Salão de cabeleireiro black LUXUOSOS TRANSATLÂNTICOS - Grupo no Iate Clube de Ramos MINHA ARTE DE AMAR - Casa de massagens MIRONGA DO MATO - Casa de ervas no Mercado de Madureira MISSÃO CUMPRIDA - Grupo de Extermínio MOCOTÓ DO TIÃO - Restaurante na Região dos Jardins, São Paulo MULHER DE PALETÓ - Idem, atelier de alta costura NA INTIMIDADE, MEU PRETO - Agência de empregos domésticos NÃO FOI ELA - Escritório de advocacia especializado em defesa de mulheres SANDÁLIA AMARELA - Sapataria gay SENHORA LIBERDADE - Cachaça boa SOLUÇÃO URGENTE - Detetive particular TE SEGURA - Empresa seguradora VENDEDOR DE ILUSÕES - Clínica de impotência VOU TE BUSCAR - Cooperativa de táxis |