meu lote


Domingo, Outubro 31, 2004

DIA DOS MORTOS - UM POUQUINHO DE FILOSOFIA

Temos no prelo, a sair pela Senac-Rio Editora, um trabalho chamado Kitábu: o livro do saber e do espírito negro-africanos. Trata-se, principalmente, de uma compilação reinterpretada de textos sobre a história dos povos africanos com maior continuidade nas Américas, bem como de princípios filosóficos e religiosos - no continente de origem e aqui recriados.

Hoje, véspera do "Dia dos Mortos", enquanto a moçada ali da esquina se prepara para o Halloween, o povo aqui do Lote prefere celebrar, também com alegria, seus parentes que estão lá do Outro Lado. E vai pinçar lá no Kitábu (nome que significa "livro" em suaíle, língua veicular da África oriental), as seguintes orientações:

A Morte é a Própria Vida

1. A morte é um estado de diminuição do ser.Mas a vida não é destruída pela morte, embora a morte a submeta a uma mudança de condição.Por isso, a vida é a existência na comunidade; é a participação na vida dos ancestrais; é uma extensão da existência dos ancestrais e uma preparação de nossa própria vida para que ela se perpetue em nossos descendentes.

2. A impotência genésica masculina e a esterilidade das mulheres representam uma ruptura da cadeia que liga os vivos e os mortos. Porque todo Ser Humano tem um destino preciso: é um viajante cósmico destinado a cruzar a fronteira que separa os vivos e os mortos, e que demarca duas partes inseparáveis da totalidade do real.

3. A morte, então, não é a realidade última mas a própria vida. Quando morre, o indivíduo se dissolve na imortalidade coletiva que proclama a grande cadeia da existência.

4. A morte é o processo e a condição pelas quais o corpo físico se desintegra e a unidade da vida, corpo-espírito, se fragmenta. Mas ela não é uma aniquilação completa da pessoa e, sim, uma partida. O morto se reúne aos que o precederam e a única modificação importante é a ruína do corpo físico, pois o espírito tem acesso a outro estágio da existência.

5. Os mortos levam uma existência diminuída em relação aos seres viventes, mas conservam sua mais elevada e potente força vital. Ao passarem pela agonia individual da morte, eles adquiriram um conhecimento mais profundo do mistério e do processo de participação vital que rege o Universo. [Kitábu, Tomo Introdutório, Livro I, Cap. 7 ]


Os Ancestrais Devem Sempre Ser Homenageados

1. Os Bakulu, grandes anciãos, são os membros falecidos do clã. Seu domínio é o seio da terra, onde moram, dentro das florestas e dos cursos dágua. Aí, onde formam aldeias semelhantes às dos vivos, eles se relacionam em perfeita harmonia. Porque o domínio dos Bakulu é lugar onde não existe o mal.

2. Os Bakulu são extremamente ligados aos vivos, porque, desde o momento de sua formação, o clã constitui uma unidade permanente. Embora invisíveis, eles estão sempre presentes, participando dos atos de seus descendentes. E dispõem do poder de favorecer ou criar obstáculos aos nossos projetos.

3. Os Bakulu devem ser honrados regularmente em um dos quatro dias da semana que lhes é consagrado. Suas ordens, transmitidas principalmente através dos sonhos, devem ser prontamente acatadas. Seu apoio deve sempre ser invocado, antes de qualquer empreendimento. E é a eles que se pede paz para a aldeia, quando a discórdia e a morte a acometem.

4. As cerimônias em honra dos Bakulu deverão ser sempre solenes e faustosas. Nelas, eles receberão a homenagem de todos os adultos de seu sangue e de todos os afins. Porque ninguém pode viver sem sua terra nem longe de seus mortos. "Se teu ancestral não mora lá, tu não podes lá construir tua morada".

5. Na cabana dedicada à veneração dos ancestrais, deve estar sempre um fogo aceso.Nela deve ser guardado o gonga, cesto de relíquias do ancestral.

6. Além de reservar-se um dia da semana para homenagear o ancestral, uma vez por ano, no início da estação seca, deve-se celebrá-lo, em seu túmulo, com bebidas e comidas, pedindo-lhe que propicie a fertilidade das pessoas e dos campos.

7. Os soberanos, ao falecerem, passam imediatamente à condição de ancestrais de seu povo. E o receptáculo de sua alma passa a ser a estátua que o representa. [ Kitábu,Tomo 1º, Livro I (Congo), Cap. 2, III ]


O Ancestral Volta Reencarnado

1. O indivíduo normalmente reencarna na sua própria família. E o eledá representa, em geral, a energia de um antepassado do lado paterno.Nomes como Babatundê ("papai voltou") ou Yetundê ("mamãe voltou") devem ser dados a crianças do mesmo sexo do ancestral que se sabe reencarnado. Mas um ancestral pode reencarnar em uma criança de sexo diferente.

2. A identidade do ancestral que reencarna é determinada pela semelhança física ou de personalidade; por sonhos em que o antepassado revela que voltou ou voltará; ou pela consulta ao oráculo durante a gravidez ou logo após o nascimento.

3. Antes de uma criança nascer, o espírito do antepassado comparece perante Olorum para receber um novo corpo, um novo sopro vital e um novo destino para sua vida na Terra.

4. Ajoelhado diante de Olofim, ele tem a oportunidade de escolher seu próprio destino, embora Olofim possa negar suas pretensões se isso não for feito de forma humilde e razoável. [Tomo 2º, Uângara - Iorubás, Cap. 3, III]

Diz aí!

Quarta-feira, Outubro 27, 2004

OS FILHOS DA INTERNET

O número de nomes próprios, cada vez mais esdrúxulos, que chegam ao cartório da minha cidade, no colo daquelas mãezinhas adolescentes e sem marido, de cabelinho molhado e cheirando a condicionador, cresce a cada dia. E se nutrem agora, também, do leite ninho da Internet - essa outra mãe, tanto dos que não têm tempo pra nada (como nós) quanto daqueles que não têm mais o que fazer - como nós também.

Dona Marilu, do Cartório do 2º Ofício, me mostrou a lista aí embaixo. Vejam só!

Chat Ferreira da Costa

Dábliudábliu Dábliupontucom Pereira

Dom Loud das Neves

Emy Petrez do Nascimento

Gil Gabaith do Sacramento

Ícone da Silva

Imeil Teodoro

Jigabaith de Oliveira

Mauze Agostinho dos Santos

Romy Peije de Souza

Webmaster Gomes da Silva

Viram só? Inclusão digital é isso. O resto é conversa fiada!...

Diz aí!

Segunda-feira, Outubro 25, 2004



"AQUELES RAPAZES QUE DANÇAM"

Vejo no jornal a foto do roqueiro ruivão, barbudão, cara de mau, de autodeclarados 1,90 m.de altura e 120 kg de peso. Toca num grupo de rock-pesado, chamado Matanza e seu nome artístico é Jimmy London.

O sobrenome é o mesmo de um velho e hoje distante amigo, o Jack, em cuja casa, parece que no Leblon, uma noite, lá pelos anos 70, fui protagonista de uma cena cinematográfica.

Era uma reuniãozinha daquelas paz-e-amor-e-bossa-nova, todo mundo relaxadão nas almofadas, beliscando um amendoinzinho, bebendo um negocinho e levando um papo cabeça, com um sonzinho em BG. Aquela semi-sonolência, sabe cumequié, né?

De repentemente, rola na eletrola (epa, Dondon na área!) - que eu ouvia mais do que o papo - um dixieland invocado, daqueles de filme de gangster tipo "A Taberna Maldita". Aí, comunicando-nos apenas através das ondas etílicas que tínhamos posto na cuca, a partir do Melindrosa (ali ao lado do Ópera) desde o finzinho da tarde, eis que eu e meu indômito parceiro Bebé da Vila erguemo-nos, num salto só, movimentos perfeitamente sincronizados e, qual dois Nicholas Brothers em branco e preto, executamos nosso surpreendente número de sapateado, nosso tap-dance - mais tap do que dance, diga-se de passagem.

O filho do anfitrião, de uns 7 ou 8 anos, cabelo cor de cenoura, óclinhos redondos, um woodyallenzinho em potencial, nos analisava estático, queixo apoiado na mão, sem dizer uma só palavra e sem expressar nenhum sentimento.

Dias depois, o Jack nos contava o pedido do moleque quando perguntado sobre o que queria de presente, no aniversário próximo:

- Quero aqueles rapazes que dançam - teria dito ele, se é que o Jack, criativo sempre, não inventou essa história para nos agradar.

Vendo hoje a foto do roqueiro, de nome civil Bruno London, com cara de mau mas parecidíssimo com o pai, um tremendo boa-praça, lembrei dessa historinha de 30 anos atrás. Mas o moleque não deve ser ele. Deve ser o irmão mais velho. Que hoje parece que cuida de e-books, livrarias virtuais e certamente não se lembra mais daqueles cyber-sapateadores, cheios de gigabaites líquidos na idéia. Tap-dancers de araque! Que seu irmão roqueiro, cara de mau, ainda bem que não teve a chance de ver dançar.

Diz aí!

Sexta-feira, Outubro 22, 2004

DICBEST, O DICIONÁRIO DE BESTEIRAS

Nosso DICBEST também vai muito bem. Vejam, aí, os verbetes recém-incorporados, por conta de nosso mergulho na Antiguidade.

FENÍCIOS - Povo de poetinhas, marinheirinhos, cheios de diplomaciazinha, foram considerados os brancos mais pretos da Antiguidade, saravá!

HERÓDOTO - Barbeiro, contador de histórias. Ganhando, numa dádiva do Nilo Batista, a concessão de uma rádio que só tocava notícia, passou a ser conhecido como o "Delta do Nilo". Mas, diga-se de passagem, seu bom humus fertilizou o radiojornalismo brasileiro.

IÊMEN - País ao sul da Península Púbica. Sua unidade foi rompida com a paulatina penetração de povos como prepúcios, glandes, pênis, eretos, vibrators e outros.

MITRÍDATES, REI DO PONTO - Contraventor, foi o patrono da Escola de Alexandria. Segundo outras versões, era ogã de umbanda, e juntamente com o macedônio Filipão, foi um dos maiores tiradores de curimbas das antigas, daí Seu Epíteto - que, por sinal, era o nome de seu pai.

Diz aí!

Quinta-feira, Outubro 21, 2004



UM FENÓMENO, Ó PÁ!

Relembrando seus tempos de pelada, quando sambava nos gramados carecas de Irajá, Vila da Penha e adjacências, o Coroa aqui acaba de publicar, em Portugal e impresso na língua de lá (actualizado em todos os aspétos) o artigo "Futebol e Música Popular Brasileira: do amadorismo à economia globalizada". Está no belo livro "Futebol de Muitas Cores e Sabores: reflexões em torno do desporto mais popular do mundo" (Porto, Universidade do Porto, Campo das Letras Editores, 2004), coordenado por Júlio Garganta, José Oliveira e meu amigo vascaíno Maurício Murad.

Estou lá, perna-de-pau, junto com Joseph Blatter, presidente da FIFA, Eduardo Galeano, Juca Kfouri, José Sérgio Leite Lopes e mais 20 e tantos craques. E o meu texto rola a bola, esforçado, pelos seguintes capitulos: Do lundu ao futebol association; Fluminense e Ameno Resedá; Friedenreich e os Tangarás; Nascem as escolas, morre Fausto; São Januário e 'Um a Zero'; A 'avenida' e o 'tapetão'; Do Carnegie Hall ao capitão Coutinho; Dondon versus marketing; e Negócios, negócios, negócios.

Não sei se vai chegar por aqui. Mas vale a pena dar uma olhada. Deixando agora a modéstia de lado, tá redondinho.

Diz aí!

Quarta-feira, Outubro 20, 2004

(continuação)

MACONDO - Na Colômbia, antiga plantation bananeira, cujo nome inspirou o da localidade imaginária onde se ambienta o célebre romance Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Sua origem está certamente no maiaca (variação regional do quicongo*) makondo, bananal.

PÉ-DE-COELHO - Amuleto da tradição africana nos Estados Unidos. No folclore da Louisiana, a pata esquerda de um coelho morto em um cemitério, numa noite escura, é tido como objeto de grande força mágica. Ver BRER RABBIT.

PEDREIRA UNIDA - Escola de samba fundada em 1938, em Belo Horizonte, MG, sob a liderança dos sambistas Mário Januário da Silva, o Popó, e Dionísio José de Oliveira, o Chuchu. Primeira agremiação do gênero na capital mineira, é também considerada como uma das organizações pioneiras do movimento negro* naquela cidade.

SAMUEL, Abraham (séculos XVII - XVIII) - Pirata francês de origem africana. Contramestre do navio John and Rebecca, do pirata inglês John Hoar, em 1697, sobreviveu a um ataque de nativos da Ilha de Santa Maria, próximo a Madagascar, no qual sucumbiram seu patrão e mais 30 membros de sua tripulação. Mais tarde, tido pela rainha de Madagascar como seu filho - levado como escravo, provavelmente para a Martinica, vinte anos antes - foi aclamado como "Rei Samuel", governando por um período não exatamente conhecido, antes de dezembro de 1706 (cf. J. Rogozinski). Ver PIRATAS NEGROS.

SARDINHA, Simão Pires (1751- 1808) - Personagem da história de Minas Gerais, nascido no Tejuco, atual Diamantina e falecido em Lisboa, Portugal. Sargento-mor das ordenanças de Minas Novas, foi, no exercício da função de distribuidor, inquiridor e contador do Arraial do Tejuco, um dos homens mais influentes de sua província na segunda metade dos setecentos. Sócio correspondente da Real Academia de Ciências de Lisboa e reconhecido como um dos maiores naturalistas brasileiros do século XVIII, destacou-se como mineralogista e arqueólogo, tendo sido encarregado, em 1784 do estudo do primeiro achado fóssil na região das Minas. Amigo e protegido do governador Luis da Cunha Menezes, teve seu nome envolvido na Inconfidência Mineira, sendo inocentado mas mantendo, de Portugal, contato com outros envolvidos na conjura, como o médico naturalista José Vieira Couto, a quem enviava livros de conteúdo científico e revolucionário. Era o filho primogênito da célebre Chica da Silva*, nascido da união da então escrava com Manuel Pires Sardinha.

SCHUYLER, Philippa [Duke] (1931 ¿ 1967) - Pianista, compositora clássica e escritora nascida na cidade de Nova York e falecida em Da Nang, Vietnam. Dona de precocidade espantosa, começou a compor aos três anos de idade. Aos sete, apresentava-se no auditório da Feira Mundial realizada em sua cidade, interpretando suas próprias composições. Aos doze, teve a obra Manhattan Nocturne interpretada, com grande sucesso, no prestigioso Carnegie Hall. Aos treze, teve seu scherzo Rumpelstilttskin executado pelas orquestras Filarmônica de Nova York, Boston Pops, Sinfônica de New Haven e Dean Dixon Youth Orchestra. Em 1953 estreou no Town Hall como intérprete e a partir daí exibiu-se em cerca de cinqüenta países sob os auspícios do Departamento de Estado americano, deixando registradas em cinco livros as impressões dessas viagens. Sua brilhante carreira foi interrompida aos 35 anos de idade, na guerra do Vietnam, com o bombardeiro do helicóptero em que se encontrava, em uma missão de resgate de crianças.

SILVA, Chica da (c. 1734 - 1796) - Nome pelo qual foi conhecida Francisca da Silva de Oliveira, personagem do Ciclo do Ouro no Brasil, nascida no arraial do Milho Verde e falecida no Tijuco, hoje Diamantina, MG. Ex-escrava, adquiriu fortuna e poder graças à união marital com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira. Protetora das artes, ajudou a projetar o compositor Lobo de Mesquita*; fundou uma importante escola de pintura em seu arraial; ajudou a consolidar o Convento de Macaúbas, onde educou nove filhas. Teve, além de uma filha freira e um filho padre e outro desembargador, seu primogênito, Simão Pires Sardinha*, reconhecido como um dos maiores naturalistas brasileiros do século XVIII.

Diz aí!

Terça-feira, Outubro 19, 2004

(continuação)

CLUB ATENAS - Sociedade cultural e recreativa fundada em Havana, Cuba, em 21 de setembro de 1917. Exclusiva de negros e mulatos, promovia eventos como concertos, conferências, atos cívicos e recepções mas era avessa às manifestações da cultura afro-cubana, por considerá-las depreciativas. Em contrapartida, seus membros eram objeto de escárnio por boa parte da população da cidade, sendo qualificados como "negritos catedráticos". Ver CATEDRÁTICO.

DIMINUTIVOS AFETIVOS - Na linguagem popular tanto do Brasil quando da América hispânica, as formas reduzidas de antropônimos, usadas familiar ou afetivamente, são quase sempre resultado da adaptação de características fonéticas africanas, notadamente bantas. É o caso de Zeca (para José, possivelmente influenciado pelo quimbundo mukua-zeka, dorminhoco); Chico (Francisco); Juca (João; José ); Quinca (Joaquim); Tonho (Antônio); Zuza (José) etc. Vicente Rossi afirma que, no espanhol, muitos desses diminutivos, tidos como criações de Madri ou da Andaluzia, são de indubitável origem negro-africana, como Charo (Carlos), Chucho (Jesús), Lola (Dolores), Toño (António), Paco e Pancho (Francisco) etc.

EMBAIXADAS AFRICANAS ao Brasil Escravista - Entre l750 e l823, diversas embaixadas, por várias razões ligadas ao comércio de escravos, foram enviadas ao Brasil por soberanos do golfo de Benim. Em 1750, em nome do rei Tegbessu; em 1795, em nome de Agonglo; em 1805, em nome de Adandozan e acompanhados do intérprete Inocêncio Marques de Santana, vieram emissários de Abomé. Em 1770, 1807 e 1823 o soberano de Onim ou Eko, cidade-estado que deu origem à atual Lagos, na Nigéria, envia seus representantes; e em 1810 era a vez do soberano daomeano de Aladá, Ardra ou Porto Novo. A embaixada de 1823 trazia mensagens de reconhecimento da independência do Brasil enviadas, respectivamente, pelo obá Osemwede, do Antigo Benim, e pelo obá Osinlokun ou Ajan, de Lagos, seu vassalo.

ESCRAVO AFRICANO, Perfil do - Em seu livro Como a Europa Subdesenvolveu a África (ver Bibliografia), Walter Rodney* faz uma análise detalhada das circunstâncias em que se deu o tráfico europeu de escravos para as Américas. Dessa análise, pode-se fazer um perfil aproximado do africano objeto desse tráfico, que é basicamente o seguinte: idade entre 15 e 35 anos, majoritariamente próximo dos 20; prisioneiro de guerra ou vítima de seqüestro; sobrevivente à travessia do Atlântico, numa viagem em que morriam de 15 a 20 por cento dos embarcados; integrante de um contingente de pessoas em que 2/3 eram do sexo masculino.

FARRAPOS, Guerra dos - Movimento insurrecional, também mencionado como "Revolução Farroupilha", ocorrido no sul do Brasil, no período da Regência, entre 1835 e 1845. Os rebeldes, cognominados "farrapos", pretendiam estabelecer uma república confederada a outras que seriam proclamadas em diferentes pontos do país. Segundo alguns historiadores, um dos pontos do programa revolucionário era a extinção do escravismo. E assim, por prometer alforria a muitos escravos que se alistaram nas fileiras de seus exércitos, o movimento arrebanhou grande número de adeptos entre a população negra. Quando finalmente derrotados pelas forças imperiais, os farroupilhas exigiram, no documento de rendição, uma cláusula declarando livres os escravos que tinham lutado ao seu lado. Entretanto, segundo Sandra J. Pesavento, em novembro de 1844, no combate de Porongos, iminente a derrota dos farrapos, quando se estabeleceu quem devia morrer para que a paz fosse selada, os escolhidos foram os lanceiros negros, escravos que lutavam do lado farroupilha em troca da liberdade. Ver RAFAEL, Nascimento.

FUTEBOL - Esporte introduzido no Brasil por imigrantes ingleses em 1894. Logo ganhando popularidade entre as massas, a participação de afro-brasileiros nessa modalidade começa a se dar, com restrições, ainda nos tempos do amadorismo. Tal foi o caso do Bangu Atlético Clube*, fundado no Rio de Janeiro em 1904 na comunidade de uma fábrica de tecidos, e no qual atuou, já no primeiro campeonato carioca, em 1906, o goleiro Manoel Maia, o primeiro afro-descendente a integrar uma equipe de futebol no Brasil. Incomodada, a Liga Metropolitana, no ano seguinte, proibia o registro de atletas negros, numa decisão depois revogada. Mas, em fevereiro de 1924, em represália a clubes, como o Vasco da Gama, que acolhiam ¿jogadores negros e mulatos, sem emprego fixo¿, Fluminense, Flamengo, Botafogo e outros, abandonavam a Liga de Futebol e fundavam a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos. Com a instituição gradual do profissionalismo, a partir de 1933, pretos, mulatos e pobres em geral começaram a ser admitidos nos clubes burgueses, mas ainda dentro de uma hierarquização que distinguia claramente os atletas (sócios dos clubes) dos jogadores (empregados). Completamente profissionalizado, o futebol finalmente tornoua-se um dos mais importantes veículos de mobilidade social dos negros. Reconhecido mundialmente, durante muito tempo, como uma espécie de arte, permeada de movimentos inconscientemente herdados do samba e da capoeira, o futebol brasileiro revelou o talento de incontáveis jogadores afro-descendentes, boa parte deles verbetizada ao longo desta obra. Em julho de 1999, na Copa das Confederações, no México, o Brasil apresentava, pela primeira vez, uma seleção integrada exclusivamente por jogadores negros.

JARDIM DO NEGO - Museu a céu aberto na cidade de Nova Friburgo, RJ. Erguido a partir da década de 1970 em área de propriedade do escultor Geraldo Simplício, o Nego (nascido no Ceará c. 1942), mantém em exposição permanente um acervo de obras monumentais modeladas pelo artista na própria terra. Revestidas e conservadas contra a erosão pelo musgo do ambiente, as obras, representando figuras humanas, de animais e até um presépio, impressionam por seu realismo e imponência.

Diz aí!

Quinta-feira, Outubro 14, 2004

(continuação)

BRANCO DA BAHIA - Expressão outrora usada, no Brasil, para qualificar o afro-mestiço, de aparência pouco ou nada negróide, integrado à classe dominante ou em processo de ascensão social.

BRAZILIAN QUARTER (Bairro brasileiro) - Denominação do conjunto de edifícios e logradouros construído pela comunidade de retornados* do Brasil em Lagos, Nigéria. Nele, a exemplo de outros existentes na região do Golfo de Benim, as fachadas dos prédios e a divisão dos cômodos reproduzem padrões arquitetônicos marcadamente luso-brasileiros.

CAJADO FILHO, José Rodrigues (1912- 1966) - Cineasta brasileiro nascido e falecido no Rio de Janeiro, RJ. Cenógrafo formado na Escola de Belas Artes, foi colaborador dos principais diretores do gênero chanchada. Roteirista, assinou O Petróleo é Nosso (1954), De Vento em Popa e Garotas e Samba (1956), alem de o magistral O Homem do Esputinique (1958). Como diretor, destacou-se como o diretor de cinco longas-metragens produzidos entre 1949 e 1959: Estou Aí, Todos por Um, Falso Detetive, De Conversa em Conversa e O Espetáculo Continua.

CARNAVALIZAÇÃO - Processo pelo qual se imprime caráter carnavalesco, exótico e, em geral, sem muita seriedade, a uma manifestação cultural. - Grande parte das expressões religiosas de africanos e descendentes na diáspora, que a princípio utilizavam o espaço temporal das datas festivas católicas, como o ciclo do Natal, foi deslocada para o carnaval. Foi assim, no Rio de Janeiro, com as festas de coroação dos reis congos, deslocadas das festas do Rosário e transformadas em cucumbis; na Bahia, com os ranchos de reis, transformados em ranchos carnavalescos; e, no Prata, com o candombe*. Ver CUCUMBI; ROSÁRIO, Festas do.

CASINO DE LOS CONGOS (Casino Congo) - Associação recreativa e religiosa sediada no povoado cubano de Santa Isabel de las Lajas, na atual província de Cienfuegos. Remanescente de um cabildo* da época colonial, o núcleo conservava, até o início do século XXI, dois tambores trazidos da África por escravos congos. Segundo a tradição, nessa comunidade foi que floresceu o talento artístico do legendário cantor Benny Moré*, descendente direto de Ta Ramón Gundo Moré, tido como o primeiro rei do cabildo.

CATEDRÁTICO - Em Cuba, antigo qualificativo do negro pernóstico, de vocabulário empolado e pretensa erudição.

CHANCHADA - Gênero cinematográfico popular, de grande voga na década de 1950 e difundido principalmente a partir do Rio de Janeiro. Tendo como público alvo as massas das grandes cidades, a produção do genro contribuiu decisivamente para a fixação e a disseminação de estereótipos do negro - o "crioulo doido", a "mulata boa", o "crioulo malandro", o sambista etc. - notadamente nos papéis rotineiramente entregues a atores como Grande Otelo*, Chocolate*, Pato Preto, Vera Regina*, entre outros.

Diz aí!

Quarta-feira, Outubro 13, 2004

ENQUANTO O LIVRÃO NÃO VEM...

Enquanto nossa Enciclopédia não chega, aí vai para os visitantes do Meu Lote um breve tira-gosto, pinçado entre os 9 mil e tantos verbetes e entradas. Bom apetite!

AFRICAN GLORY - The story of vanished negro civilizations - Livro sobre grandes civilizações africanas desaparecidas, de autoria do historiador ganense J.C. Graft-Johnson e publicado em Londres, em 1954. Trata-se provavelmente do primeiro livro moderno sobre História da África escrito por um africano.

AFRICAN GROVE THEATRE - Casa de espetáculos e companhia teatral fundada por negros livres em Nova York, em 1821. Criada e mantida por artistas amadores, encenou seguidamente montagens importantes, como Ricardo III, Otelo e Hamlet, de William Shakespeare. Em junho de 1823, a companhia levou à cena The Drama of King Sothaway, de Henry Brown, a primeira peça escrita, produzida e interpretada por negros em um palco americano.

ALMEIDA, José Custódio Joaquim de (1832 - 1936) - Líder religioso gaúcho, n. no antigo Daomé e f. em Porto Alegre, RS. Segundo A. Costa e Silva (2003), veio para o Brasil cumprindo exílio político, talvez por envolvimento na disputa ente Inglaterra e França pelo controle da região do Golfo de Benim. Pensionista do governo britânico, fixou-se em Rio Grande, depois Bagé e, finalmente, na atual capital gaúcha, onde levou vida abastada e bem relacionada com as elites. Admirado e respeitado entre os fiéis do batuque porto-alegrense, era, segundo a tradição, membro da nobreza em sua terra natal, pelo que foi também conhecido como o "Príncipe de Ajudá".

APARECIDA Conceição Ferreira (n. 1915) - Médium espírita brasileira nascida em Igarapava, SP. Na década de 1950, trabalhando como auxiliar de enfermagem na Santa Casa de Misericórdia de Uberaba, MG, iniciou obra de assistência a portadores de pênfigo foliáceo, dermatose grave popularmente conhecida como "fogo selvagem". Em 1960, depois de árdua campanha de donativos, liderou a criação, nessa cidade, do Hospital do Pênfigo Foliáceo, o qual, mais tarde, ampliou sua área de atuação, desenvolvendo, também atividade assistencial e educacional. Ligada ao médium Chico Xavier*, nos anos de 1970 a instituição passava a agregar, ainda, um centro espírita.

ARMAS DE FOGO e Tráfico Negreiro - Durante a vigência do tráfico atlântico*, na África, a venda de escravos foi fundamental à obtenção, pelos detentores do poder, das armas de fogo com que defendiam seus territórios e atacavam inimigos e adversários ocasionais. Essas armas, fabricadas principalmente na Inglaterra, uma vez destinadas especificamente ao mercado africano, ou eram de má qualidade, para durarem poucos, ou eram já obsoletas. Na segunda metade do século XIX, segundo A. Costa e Silva (2003), quando indústria bélica européia já exibia um importante avanço tecnológico, os exércitos africanos só tinham acesso a espingardas de carregar pela boca. E algumas delas eram tão propositalmente mal feitas que explodiam no momento do disparo, ferindo o atirador. Com o tempo, e manifestas as intenções imperialistas européias, o fornecimento legal de armas aos africanos vai sendo cada vez mais dificultado, até a supressão absoluta, na mesma proporção em que se começa a reprimir o tráfico negreiro.

ATLÃNTICO NEGRO - Expressão modernamente usada para designar a intensa rede de comunicação formada pelas comunidades da Diáspora entre si e delas com o continente africano , através do oceano Atlântico. A expressão procura enfatizar que o movimento entre África e América realizou-se em ambas as direções, num fluxo e refluxo, como acentuou Pierre Verger, fazendo do oceano não apenas um elemento de separação traumática mas, também, de união, pela importantes aportes culturais levados das Américas até as civilizações africanas. Ver RETORNADOS.

BANGU ATLÉTICO CLUBE - Associação esportiva fundada na atual zona oeste carioca em abril de 1904 por empregados da Companhia Progresso Industrial do Brasil, ingleses em sua grande maioria. Em 1906, no primeiro campeonato de futebol disputado no Rio, fazia integrar sua equipe um jogador afro-descendente, o goleiro Manoel Maia, fato que causou reação na Liga Metropolitana, a qual, logo depois, proibiu o registro de atletas negros. Abandonando a Liga e mantendo em seus quadros jogadores como Luís Antonio e Ladislau, irmãos do futuro grande craque Domingos da Guia*, o Bangu firmou posição contra o racismo. Em novembro de 2001, durante a semana da Consciência Negra, o clube recebia, por isso, a medalha Tiradentes, concedida pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Ver FUTEBOL.

(continua)

Diz aí!

Terça-feira, Outubro 05, 2004

A ENCICLOPÉDIA, FINALMENTE.

Nossa ENCICLOPÉDIA BRASILEIRA DA DIÁSPORA AFRICANA, começada a gerar há uns 50 anos e efetivamente organizada a partir de 1995, está indo para o prelo, esta semana, pela paulistana Selo Negro Edições, para lançamento em novembro.

O livro, que já tem prefácio da professora Elisa Larkin Nascimento, do Centro de Estudos das Américas, Universidade Cândido Mendes, acaba de ganhar uma apresentação, escrita pelo professor doutor Hélio Santos, da pós graduação da Universidade São Marcos, SP e ex-coordenador do Grupo de Trabalho para a Valorização da População Negra, instituído do Governo Federal.

Leiam e opinem.

Apresentação

Uma enciclopédia por sua natureza é vasta. Requer acúmulo, densidade e sentido de completitude. Trata-se, assim, de um tipo de obra apta ao talento de Nei Lopes. Ao produzir esta Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana o autor chamou para si uma tarefa árdua que é fundamental para o país.

Nei Lopes nos presenteia com uma obra de referência há muito reivindicada por aqueles que se dedicam de fato a aprofundar a nossa brasilidade imensamente negra. Trata-se de uma produção brasileira cujo alcance transcende o Brasil, pois cuida da farta e diversa contribuição dos negros fora da África. A enciclopédia vai auxiliar de forma especial a aprofundar a idéia tão cara da identidade nacional, bem como a consolidar uma auto estima positiva para o segmento negro - cerca de 45% da população do país.

Num momento em que se implementa na educação brasileira, por determinação legal, disciplinas que versam sobre a história da África e do povo negro no Brasil, não poderia haver iniciativa mais importante do que a edição desta obra.

O mundo tem uma dívida colossal para com o continente africano. Esse passivo moral é particularmente contundente no que diz respeito às Américas. O autor, ao escapar dos cacoetes que muitas vezes amarram as obras de referência, desenvolve conceitos sociológicos e religiosos que iluminam a ignorância e o preconceito que ainda incidem sobre a negritude.

Escrever um livro é também um ato de doação. Nei Lopes, com prazer, se empenha de forma generosa no sentido de nos proporcionar uma importante fonte de luz ancestral - seu trabalho tem o aconchegante colo da mãe África como pano de fundo.

Na Diáspora Africana, negras e negros reinventam áfricas - presos em camisas-de-força representadas por idiomas, culturas e climas diversos -, irradiando uma singular energia pelo resto do planeta. A matriz dessa luminosidade, todavia, é um veio uno e permanente de inspiração e energia. A magia dessa intensa produção humana é magistralmente decifrada por Nei Lopes ao longo da Enciclopédia.

Para um simples ativista da luta do negro no Brasil, cabe agradecer pelo privilégio de poder opinar sobre este trabalho pioneiro. Cabe-me também louvar - sim - a paciência e a dedicação de um autor em produzir uma enciclopédia que pode inspirar o Brasil, tão machucado socialmente, a se tornar melhor.

Helio Santos

Diz aí!

Domingo, Outubro 03, 2004

ENTRE A ABSTENÇÃO E A ABSTINÊNCIA

Chego a seção eleitoral e encontro o mesário de chinelo, bermuda e camiseta, com o pé em cima da mesa e tomando uma Schin pelo gargalo. Absurdo! Tempo bom era quando a gente, pra votar, tinha que botar paletó e gravata. E não podia nem pensar em tomar umazinha.

Só que, como tudo o que é proibido e mais gostoso, a gente só pensava naquilo, bem geladinho e na pressão. Aí, armavam-se esquemas e táticas mirabolantes, dignas de guerrilha, como esconder as ampolas num isopor dentro da banca de jornal, montar um bunker nos fundos da quitanda, botar conhaque na garrafa de coca-cola e tomar de canudinho...

Dia de eleição era dia de confraternização. E de farra, portanto. Porque era aí que a gente encontrava os amigos de infância (o Clarimundo, por exemplo, estudou comigo no 3º ano primário e era um cara que eu so via na eleição, mulato sério, posudo, presidente da mesa - abstêmio, claro!).

Lembro de uma em que, ali por 81, 82 (tempos dificeis, de definições existenciais), eu resolvi ir pra esbórnia de véspera, até meia-noite. Mas a barra foi pesada. E, aí, na boca da urna, o cérebro não comandou a mão direito, Brizola quase que perde o voto e a prova ficou lá, naquele garrancho vergonhoso, à guisa de assinatura.

Mas isso é vida. E História. Por isso é que hoje, entre a abstenção e abstinência, cumpro meu dever de cidadão moderadamente.

Voto na Jandira, com a esquerda. E com a direita ergo minha tulipa, na pressão, em memória de todos aqueles que tombaram no cumprimento do dever cínico - Lobinho, Julio Jornaleiro, Gil do Cais, Hudson, Tourinho, Jarrão, Gilmair... Descansem em paz!

Diz aí!