meu lote


Terça-feira, Agosto 31, 2004

FASCISMO POP BLACK? QUALÉ?

Meu camarada João Carlos Rodrigues, jornalista, simpatizante da causa negra e escritor de respeito, sendo inclusive autor de "O Negro Brasileiro e o Cinema " (Pallas, 2001), que eu tive a honra de prefaciar, me envia a nota seguinte:

"Todo mundo dever ler com atenção a página 32 do caderno RioShow do Globo de hoje, sexta feira! (27/08) Há uma matéria im-pres-sio-nan-te e bem documentada sobre uma corrente homofóbica da música jamaicana, onde astros do novo reggae pregam a extermínio (isso mesmo que vocês leram: extermínio) dos gays! Já estão sendo boicoitados nos EUA, Inglaterra etc etc. E aqui, caras pálidas? Pau neles, que eles merecem...

"Também sempre me revoltou o título Hutus do festival do hip-hop carioca. Sabem o que quer dizer Hutus? Pois bem, é uma tribo africana que simplesmente exterminou dois milhões (isso mesmo: dois milhões!) de pessoas de outra tribo (os tutsi) na república de Ruanda alguns anos atrás. Os mandantes (incluindo ex-presidentes e bispos católicos e metodistas) estão sendo julgados por tribunais internacionais e condenados a penas altíssimas de prisão. Enquanto isso, aqui, os genocidas são homenageados dando nome de festivais de música. E ninguém protesta, caras pálidas? Como o fato está nos jornais, isso sem dúvida indica uma tendência anti-democrática assustadora dos hip-hopistas, ou será que estou ficando louco?

"Eu, como estudioso e admirador da cultura e raça negra do Brasil e alhures, creio que temos obrigação moral e política de protestar e alertar contra o embrião de algo monstruoso que parece se avizinhar: um certo fascismo negro pop de proporções internacionais, que só vai atrapalhar a luta da maioria esmagadora da população de origem africana, lá e cá. E insuflado pela indústria multinacional de discos. Querem vender, não importa o quê. Olho vivo, minha gente, é sempre melhor prevenir do que remediar. Pau neles!

João Carlos Rodrigues"

**
É isso aí, João Carlos! (NL)

Diz aí!

Terça-feira, Agosto 24, 2004



O SORRISO DO VELHINHO

Tinha eu meus 8 anos de idade e acabava de ingressar, depois dos preparatórios no coleginho doméstico de minha Tia Rosa, na 3ª série da Escola 20-10 Maria do Carmo Vidigal. Era setembro de 1950, o clima era de eleições e meu pai queria botar o retrato do Velho, com aquele sorriso, outra vez, no mesmo lugar de onde saíra cinco anos antes.

Meu tio-avô Juca, ex-ator amador, dentista e protético com consultório no casarão de Quintino, e funcionário do "emplacamento" na Francisco Bicalho, tinha um amigo candidato a vereador. Era um mulato alto, parrudo e grisalho chamado Waldemar de Barros e integrava uma chapa com Eurico de Souza Gomes Filho, diretor da Central (imaginem!) e o famoso Napoleão Alencastro Guimarães, respectivamente candidatos a deputado e senador.

Doutor Waldemar trabalhava com peixe, parece que na administração do entreposto da Praça Quinze. E aí, Tio Juca armou com meu pai uma peixada eleitoral, no nosso grande quintal, reunindo parentes, amigos e outros possíveis votantes.

Casa de festeiro, o peixe oferecido pelo candidato foi muito bem chegado. Menos, inicialmente, pros meus irmãos mais velhos que tiveram que ir lá pegar aquele montão de corvinas, tainhas e xereletes e trazer naquelas sacas pesadas, de lotação até o Irajá. Era 7 de setembro, dia de parada, trânsito enrolado, condução escassa. E eu acho que nem a "Variante", como primeiro se chamou a Avenida Brasil, existia naquela época.

Mas deu tudo certo. Muita cerveja, todo mundo contente, Gimbo tirou o trombone do estojo, Ernesto meteu a mão no violão, Dica centrou no cavaquinho, Tonga firmou no pandeiro, Lozinho roncou na cuíca e o pagode ficou redondo.

De repente, lá estou eu, sob o "pôster" (que ainda não se chamava assim) do Velho na parede da varanda, sendo entrevistado pelo homem da Central, terno de linho branco, gravata, oclinhos sem aro:

- Então, meu filho, você é Getúlio ou Brigadeiro?

E eu, cheio de malandragem, cantei a marchinha do Rádio:

- "O Brasil tem muito doutor/ muito funcionário, muita professora/ Se eu fosse o Getúlio mandava/ metade dessa gente pra lavoura..."

Fiz o maior sucesso!

Quatro anos depois desse sucesso e da memorável peixada, estou eu na Visconde de Mauá, na aula de Matemática, sem entender chongas daquelas equações do primeiro grau com duas incógnitas, daqueles binômios, daqueles b2 - 4 ac. Aí, entra o Bianor e cochicha alguma coisa no ouvido do professor Verdini, impecável em seu alvo guarda-pó e seus óculos ray-ban,
As aulas foram suspensas. "O Grande Presidente, o estadista, o realizador" - como escreveu logo depois meu compadre Padeirinho - tinha se matado com um balaço no peito e entregue à sanha dos nossos inimigos o legado do seu sangue. A gente saiu cabisbaixo mas na estação de Marechal aquele feriado inesperado já tinha virado uma grande farra.

A ressaca, entretanto, veio logo ano seguinte. As aulas de "cultura técnica", profissionalizantes, foram esvaziadas. O ensino em horário integral acabou. A banda de música desafinou. Acabaram as aulas de Canto Orfeônico. O currículo se voltou, mal, para o beletrismo das Humanidades. A comida do restaurante foi ficando ruim. E isso ao mesmo tempo em que, cá fora, acabavam o Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência, com aquelas ambulâncias públicas que iam consultar e até buscar o doente em casa. Acabava o SAPS. Acabava uma época. Verde-amarela de esperança.

O sorriso do Velhinho (que não se confundia com o do ditador do Estado Novo), apagado há exatos cinqüenta anos, no dia 24 de agosto de 1954, fazia, mesmo, a gente se animar..

Diz aí!

Terça-feira, Agosto 17, 2004

A PLENO VAPOR...

Poesia Escurinha
O Velho aqui acaba de entregar ao colega e amigo Salgado Maranhão um pequeno volume de poemas inéditos para possivelmente integrarem uma antologia de poetas afro-brasileiros contemporâneos, que o festejado autor maranhense está organizando para a editora da Academia Brasileira de Letras.

Zecavaco
Paulão Sete Cordas escreveu o arranjo do samba "Cavaco e Sapato", de Zeca Pagodinho e Nei Lopes, incluído, se Deus quiser, no repertório do novo CD do festejado sambista de Irajá (o mais novo), já em estúdio.

Partido-Alto calangueado
O Coroa aqui do Lote está pondo o ponto final no livro "Partido-Alto, Samba de Bamba", encomendado por Pallas Editora. O livro destaca a importância do calango mineiro e fluminense na formatação dessa modalidade e o Cais do Porto como importante foco de difusão da arte dos partideiros.

Kitábu
O violonista, doutor em comunicação e "omó- orixá" Luís Filipe de Lima ultima a revisão técnica da obra "Kitábu, o livro do saber e do pensamento negro-africano", do awofá Nei Lopes, cuja edição está contratada com a Senac Rio -Editora.

Enciclopédia
Enquanto Summus Editorial/Selo Negro não conclui as negociações sobre as ilustrações do livro, o Seu Nei aqui do Lote continua revisando as 800 e tantas páginas da sua "Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana" e enviando para a Editora Página Viva, em São Paulo, responsável pela editoração técnica, dados de atualização.

Partido ao Cubo
Dia 15 de setembro, no Centro Cultural Carioca, começa a temporada de lançamento do novo CD.

Ufa!!

Diz aí!

Segunda-feira, Agosto 16, 2004

É ISSO AÍ, IRAJÁ!

A meninada do projeto "O Samba e o Irajá" acaba de marcar um golaço.

É que Tio Nei escreveu um musical, devidamente orquestrado pelo parceirão Ruy Quaresma, sobre o samba no bairro, cuja encenação está desde o ano passado sendo preparada pelos jovens, às expensas do centro social e de cidadania do SENAC-Rio lá instalado.

Sábado agora, eles fizeram a primeira apresentação pública do espetáculo, para a comissão julgadora do Festival de Teatro da Federação de Teatro do Rio de Janeiro. E, segundo a vibrante e competente coordenadora Lila Secron, botaram pra quebrar. Ainda segundo a Lila o texto e a idéia foram muito elogiados, o júri achando a maior sacação escrever sobre o Irajá: "Ninguém faz isso! Assistimos 5 peças de tema nordestino e só um grupo era de nordestinos. As pessoas não valorizam sua história, a cultura local. Esse espetáculo está pronto para correr o mundo!" - disseram os jurados.

Agora, é aguardar a final, em Angra dos Reis. Parabéns pra rapaziada, pra Lila e sua equipe, pro Irajá "onde eu nasci e fui criado"; e pra nós todos!

Diz aí!


MENOS ALICAMEL
Uma Reflexão Olímpica


A Cuba de Fidel sempre me impressionou por exibir garbosamente seus negros nas Olimpíadas e outros eventos. E até mesmo no Comitê central, pelo que sei, hoje a crioulada já está bem representada.

Sexta-feira, na abertura olímpica de Atenas (quando a velha Grécia mexeu bonito nas suas raízes, em sua arte e sua ciência, fundamentos da Civilização ocidental - só esquecendo, talvez, de explicar o quanto deve aos "morenos" egípcios) não foi diferente.

Candela! Qué tonga de morochos!

Aí, resolvi checar, de novo, os percentuais da presença afro-descendente em Cuba (22% me diziam) e nos EUA (12%).

Os dados mais recentes de que disponho estão no Almanaque Abril, 2003. E lá eu vi: "Cuba: 51% de euro-africanos e 11% de afro-americanos".

Entenderam? Por "euro-africanos" leia-se "mulatos"; e por "afro-americanos" leia-se "pretos". Bastante preciso, não? Cuba tem, então, em sua população, 62% de descendentes de africanos.

Sei que o Brasil é muito grande, patati patatá, pororó pão duro... Mas acho que com um pouquinho de Ciência, consciência, paciência e menos alicamel (poção mágica recém-criada em laboratório para mostrar que não há racismo no Brasil) a gente chegava, aqui, bem mais perto dos números de nossa realidade demográfica. E erradicava de vez esta praga que tanto nos incomoda e subdesenvolve. Tô certo ou tô errado?

Diz aí!

Quinta-feira, Agosto 12, 2004



O SACRIFÍCIO DA BALEIA

Meu compadre Celso Pereira de Souza me manda uma reflexão, feita por um confrade dele, chamado Assaruhy, a respeito da comovente morte da baleia jubarte, ontem, na Baía de Guanabara:

"Os animais, que convivem conosco em nosso ambiente Terra, são parceiros na evolução e parte do processo de enriquecimento da vida. Também não podemos deixar de considerar o fato de essa baleia ser um instrumento da espiritualidade, pois em uma cidade tão castigada pela violência, pela insensibilidade geral face as muitas tragédias diárias, pelo grotesco e pela insana "ânsia de viver", ela veio concentrar a atenção em sua dor e sua luta pela sobrevivência, comovendo a todos (a mim também) com a sua circunstancial tragédia, sua agonia e desenlace... Quantos não pararam para pensar?"

Valeu, Compadre! Valeu Assaruhy!

Diz aí!

Segunda-feira, Agosto 09, 2004

ÓI NÓS, NOS STATES!

Acaba de sair, nos Estados Unidos, uma edição especial do Journal of Black Studies, coordenada por Elisa Larkin Nascimento, sobre os afro-descendentes no Brasil. No simpático livrinho, num alentado estudo de 22 páginas, intitulado "African religions in Brazil, Negotiation and Resistence: a look from within", um ensaio meu esquadrinha, olhando de dentro ("within"), a natureza e a formação das religiões de origem africana no Brasil.
Journal of Black Studies
Volume 34, Number 6, July 2004
Sage Publications, Thousand Oaks, California

Diz aí!

Quarta-feira, Agosto 04, 2004

LOTE EM REPAROS

Por conta de mudanças climáticas, a semeadura regular do Lote está interrompida por alguns dias. Mas aguardem que vai chover na nossa horta e e vamos voltar a blogar com tudo: notícias, rabanetes, crônicas, espinafres, poemas, acelgas, críticas, pepinos, esculachos, rúculas, sacanagens, aipos, cerveja e samba.

Enquanto isso, Seu Lopes vai acabando de escrever para a Pallas Editora, o livrinho "Partido Alto, Samba de Bamba"; entregando a encomenda de um argumento-roteiro cinematográfico para um produtorzão da pesada (segredo...); e preparando o lançamento do CD "Partido ao Cubo", no dia 15 de setembro, no Centro Cultural Carioca.

Eta nós! Malandragem, mesmo, é isso : trabalho paca!...

Diz aí!