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Terça-feira, Julho 27, 2004
ALÔ, TEERREÉ! Se alguém do T.R.E. estiver visitando este Meu Lote - onde tudo é possível - anote o seguinte: Segundo a legislação autoral brasileira , só o autor de uma obra musical tem o direito de utilizá-la ou autorizar sua utilização. O uso de uma canção, de qualquer forma, como por exemplo., sua reprodução, integral ou parcialmente, inclusive em forma de paródia (outra letra sobre a melodia) depende de autorização prévia e expressa do autor. Digo isso por conta das garfadas que já estão acontecendo a torto e adireito, inclusive aqui, na frente do Lote, com candidatos a vereador pegando músicas de sucesso popular, metendo nelas suas mensagens e berrando nos alto-falantes de suas caranguejolas de som. Alô, T.R.E, isso é crime! É gatunagem como outra qualquer. Dá multa e pode dar cadeia, como Suas Excelências sabem melhor que eu. Segunda-feira, Julho 26, 2004
SE CORRER, O BISPO PEGA; SE FICAR... Baixada, julho, 2004. A "madame" encontra a ex-empregada: -- Oi, Chica, tudo bem? -- Ah! Agora, tá, Dona Marlene. Tudo na paz. Em nome de Jesus. -- O menino, tomou juízo? -- Tá trabalhando, Dona Marlene. Ganhando bêinnn! Trezentos por semana. Ô, Glória! -- Tsk., tsk. .sei... E a menina? -- Vai até casar , Dona Marlene! -- Mas... -- Conheceu ele lá dentro, na visita. -- E ele? -- Cento e cinquenta e seis. Combinado com... parece que é dezenove, não sei bem. -- Quando é? -- Estão só esperando sair a semi-aberta. -- Que bom que está tudo bem, Chica! Tchau! -- Vai na paz, Irmã! Aleluia! (PANO EXTREMAMENTE RÁPIDO, COMO DIZIAM AS ANTIGAS RUBRICAS TEATRAIS) Quinta-feira, Julho 22, 2004
WYNTON MARSALIS, ARTE E ENTRETENIMENTO Um dos músicos mais lúcidos da atualidade em todo o mundo, o trompetista Wynton Marsalis, nascido em New Orleans em 1961, é jazzista renomado e um coerente militante da causa negra. No texto abaixo, parte de um artigo publicado em uma antiga edição da revista Ebony, ele coloca questões fundamentais. Transpostas do contexto norte-americano e pensando-se a música brasileira através delas, essas formulações podem fornecer algumas respostas extremamente importantes aos nossos questionamentos. Vamos a elas! Arte, Liberdade e Democracia Se nossa noção de arte fosse melhor e nossa noção de história mais forte, não teríamos que aceitar a idéia de que entertainers são artistas. Não tenho nada contra a música pop, mas realmente me ressinto com a pretensão que se atribui ao entretenimento de hoje. Se você vende milhões de discos, talvez esteja realizando uma façanha econômica, mas uma façanha econômica não é o mesmo que realização artística. Hoje há tantos músicos que tentam nos fazer acreditar que eles são a mesma coisa que chega a ser repugnante. Não invejo ninguém, nem o sucesso deste ou daquele, mas fico chocado com tantas pessoas negras que, no auge de suas carreiras, sejam tão ingênuas e estejam preocupadas por serem acusadas de não se identificarem com as pessoa comuns; que se recusam a discernir aquilo de fato contribui para a formação de uma verdadeira elite. Vou à casa de brilhantes profissionais negros e vejo que eles não têm qualquer senso do que seja realmente superior, simplesmente seguindo as tendências que lhes são passadas através da mídia. Entre seus discos não se encontra nenhum Armstrong, Ellington, Parker, Monk, Coltrane, Coleman etc. Geralmente gostam daquilo que mais vende e freqüentemente avaliam seu significado em termos financeiros. Na realidade, acho que o sentimento geral entre os negros de todo este país é que o sucesso financeiro é a essência de tudo. Isso é muito perigoso porque baixa o nível de consciência da população e faz com que suas aspirações sejam unicamente econômicas. Muitos de nossos problemas advêm do fato de que pouquíssimos negros que conheço, independente de classe ou renda, têm alguma aspiração intelectual forte o suficiente para os fazer ler livros onde o mundo - e o lugar deles aí dentro - esteja em perspectiva. Mas o que os torna importantes para este artigo é o fato de que eles construíram um pensamento a respeito do significado do que seja "negro" e de como este elemento característico tem sido estilizado. Eles sabem que qualquer coisa importante surge a partir do pensamento, mesmo que tenha começado casualmente. Quando lemos algo como O Homem Invisível, de Ralph Ellison, encontramos uma obra que tem a mesma intenção que Duke Ellington teve em Sepia Panorama. Quando pegamos a biografia de Martin Luther King, de Stephen Oates, descobrimos que homem grandioso era King, os vários níveis em que ele pensava, com quantas coisas ele tinha que lidar para concretizar seus objetivos. Mas, naquele livro King é descrito como um homem com grandes preocupações com a cultura negra de raíz e um homem que visualizava que a integração colocaria um risco a ser combatido: que a população negra poderia perder de vista a importância do modo negro e poderia rejeitá-lo por considerar que se trata de uma reminiscência de um passado de opressão. Talvez, isto já tenha acontecido. Temos jovens músicos que não sabem tocar o blues, que não se importam em estar sintonizados, que não conseguem executar nenhuma das músicas compostas por Monk, mas tentam fingir que estão acontecendo porque eles estão tocando no momento. É como um Watusi que tem um filho anão e o filho diz que é mais alto que o pai porque ele é mais jovem. Porém, acredito que podemos superar tudo isso se aprendermos a apreciar nossas conquistas mais importantes e evidenciarmos o desejo de perpetuá-las. Por exemplo, os judeus jamais permitiriam que se confundisse Barry Manilow com Itzhak Perlman, nem permitiriam que alguém dissesse que Manilow seja mais importante para nossa época porque vende mais discos que Perlman. Um é uma estrela pop, o outro um grande violinista. Muito já se perdeu e muitos mestres de períodos anteriores estão morrendo a cada ano, mas isto poderia ser contornado se optássemos por aspirar por padrões mais elevados, se fôssemos tão sérios em relação à nossa cultura quanto os negros antigos o foram quando se dedicaram a mudar, de forma indelével, a música ocidental, ao acrescentarem a ela um novo ingrediente: a expressão advinda de uma forma de arte baseada na liberdade e na noção democrática de coletividade. (Tradução de Regina Domingues) Segunda-feira, Julho 19, 2004
DEU N'O GLOBO O MinC - informa o Segundo Caderno de O Globo - está criando Casas de Cultura, num projeto que prevê a criação de pólos de irradiação cultural em favelas e até aldeias indígenas. E está convidando o músico Marcelo Yuka e a atriz Regina Casé para divulgar a programação. Que bom! Parece que finalmente os índios vão ter acesso ao hip-hop, ao reggae e ao funk... E, por falar em funk, deu também n'O Globo (mas aí já é outro papo, de 1º Caderno) que a Rádio 94 FM, fruto de uma concessão outorgada ao Governo do Estado para implantação de uma emissora educativa, veicula um programa diário de "funk carioca", com 4 horas de duração, animado por uma vereadora. É isso aí, gente! Funk também é cultura. E política, claro... Sexta-feira, Julho 16, 2004
A MULATA É MESMO A TAL? Nos EUA, branco é branco e preto é preto. Aqui, como se sabe, "a mulata é a tal". Com esta frase, o jornalista Zuenir Ventura encerrou texto (O GLOBO, 14/7) no qual sinceramente expôs suas dúvidas sobre a eficácia da discutida adoção do sistema de cotas na educação, afirmando, porém, como era de se esperar, não ter dúvida sobre o débito da nação brasileira para com seus afro-descentes, deixados fora da cidadania e do "processo civilizatório". Admirador das sempre lúcidas posições do festejado jornalista e de seu envolvimento com a questão social, tomo a liberdade, entretanto, de discordar um pouquinho de seu texto. Primeiro, quando ele escreve que os negros ficaram fora do processo civilizatório brasileiro. Depois, quando ele diz que "a mulata é a tal". O processo civilizatório brasileiro, entendo eu, teve, como seus principais artífices, os negros. Ele começa, no meu ponto de vista, no momento em que chegam ao Brasil, provenientes da costa ocidental africana, os primeiros trabalhadores dos engenhos de cana, ainda no século XVI. A partir daí forja-se todo um complexo civilizatório, que, com seus saberes, técnicas, artes, folguedos, linguagem, ritos e mitologia aqui aportados com os africanos e recriados por seus descendentes, vão constituir a face mais definidora da identidade nacional. Graças a esse complexo foi que, no meu entender, construiu-se a verdadeira cultura brasileira. Ou é cultura brasileira essa hoje apenas voltada para a cultura de massa do eixo anglo-saxônico, como foram antes aquelas expressões espelhadas em modelos greco-latinos, depois franceses e europeus de um modo geral? Daí a minha certeza de que os negros, embora excluídos das benesses, não ficaram fora da construção do processo civilizatório brasileiro. Sobre a "mulata" ser "a tal" - e apesar de toda a imprecisão e confusão que essa caracterização étnica possa causar - acho que isso se realiza, por razões históricas e socioeconômicas, muito mais nos EUA do que aqui. Numa breve consulta ao índice de uma obra específica, anoto, sem juízos de valores políticos, os poderosos nomes da hoje famosa Condoleeza Rice; das escritoras Alice Walker e Toni Morrison, Prêmio Nobel de literatura; de Katherine Dunham, a mãe da dança moderna; Mae Jemison, cientista e astronauta; Oprah Winfrey, atriz, empresária e apresentadora de TV; Shirley Chisolm, educadora e cientista política; Leontyne Price, cantora lírica; Barbara Jordan, congressista; Maya Angelou, poetisa; etc. etc. etc. E aí, refletindo sobre como os EUA produziram tantas e tantas "mulatas" importantes e decisivas, procuro chegar ao cerne da palpitante questão. Já em 1837 era criada nos EUA, na Pensilvânia, a primeira instituição de ensino superior exclusivamente para negros, a Cheyney State, até hoje existente. Entre 1865 e 1871, aumentava consideravelmente, lá, o número de estabelecimentos do gênero: Shaw University, Virginia Union, Fisk University, Lincoln Institute (hoje Lincoln University), Talladega College, Augusta Institute (hoje Morehouse College), Biddle University (hoje Johnson C. Smith University), Howard University, Scotia Seminary (hoje Barber Scotia College), Tougaloo College, Alcorn College (hoje Alcorn State University) e Benedict College nasciam nesse momento histórico, como exemplo de ações afirmativas em prol dos afro-descendentes americanos. A ampla luta pelos direitos civis da população negra contou também, nos EUA, com a decisiva participação das organizações femininas, as quais já na década de 50 contavam com um órgão governamental, o Conselho Nacional das Mulheres Negras, como canal de suas reivindicações específicas. É assim, então, que me posiciono, mais uma vez e de um outro ângulo, sobre a multifacetada questão das cotas. Da mesma forma que Zuenir Ventura, embora não tenha clareza sobre como pôr em prática as políticas de ação afirmativa hoje preconizadas, comungo com o prezado jornalista da certeza de que as elites brasileiras têm uma enorme dívida para com os brasileiros afro-descendentes, entre os quais orgulhosamente me incluo. Dívida que, gerada pela ação de um poder sempre branco e masculino, é ainda maior para com as mulheres negras. Lendo sobre o exemplo americano, confesso que cada vez mais tenho dúvidas sobre os benefícios da democracia racial supostamente reinante neste país. E, ante o exemplo das ¿mulatas¿ lá de cima e as de cá de baixo, cada vez mais constato que a frase de Braguinha e Antônio Almeida, na marchinha de 1948, em suas supostas alegria e ingenuidade, é, em termos de Brasil, bem menos alegre e ingênua do que possa parecer. NEI LOPES é compositor. Publicado hoje na seção Opinião do jornal O Globo Segunda-feira, Julho 12, 2004
JOHN AARON IV, O ÚLTIMO DOS BRASILEIROS Há uns dez anos, através da radialista Katrina Geenen, que mantém um programa de música brasileira chamado "Tudo Bem", numa pequena rádio de New Orleans, a terra do jazz, eu era apresentado, por carta, a John Aaaron IV. Tratava-se de um negrinho (ou negão?) de uns 14 anos, que vira não sei como e onde um show de mulatas gostosas e se apaixonara pelo "Brazil". Movido por essa razão deveras "abundante", resolver aprender a escrever e falar "brasileiro". E para tanto muniu-se de um dicionário e de não sei quantas revistas. Na primeira carta que me escreveu, ele pedia desculpas pelo seu "escribindo" (writing, escrita); dizia que ia sempre me mandar "novas" (news, notícias); que o seu "assento" (accent, pronúncia) já estava melhorando; e outras coisas engraçadas de quem tenta aprender uma língua na marra, sozinho, agarrado ao dicionário. O tempo passou e o John Aaron IV sumiu. Mas eis que o milagre da Internet o traz de volta e agora tinindo. São duas páginas num brasileiro pra ninguém botar defeito, falando do melhor do samba (intérpretes, autores, história etc), da cultura afro-brasileira; e terminando assim, ó: "A razão que demoro tanto tempo em ir pro Brasil é porque eu tinha muitos problemas na minha vida que não podia evitar ou ignorar que tinha que enfrentar porque o bicho tava pegando. Agora ta tudo mais tranqüilo graças a deus e a força dos Orixás. (...) Então meu amigo um abraço e espere a minha chegada. Vá com deus. a) João. # Agô " É...pode chegar, meu jovem amigo John Aaron IV, ou melhor, João Aarão Quarto! Você não precisa sujar o dedo! Nem pedir licença. Quarta-feira, Julho 07, 2004
TRADUZINDO O IORUBÁ Em 1976 era publicada, pela Editora Vozes, a primeira edição do livro Os Nago e a Morte; pàdé, asèsè e o culto ègun no Brasil, de Juana Elbein dos Santos. Fruto de longos anos de trabalho de campo, na África e no Brasil, o livro continha tese de doutoramento em Etnologia apresentada pela autora à Sorbonne, quatro anos antes. E, nele, a doutora Juana Elbein propunha-se a "examinar e desenvolver algumas interpretações sobre a questão da morte, suas instituições e seus mecanismos rituais, tais quais são expressos e elaborados simbolicamente pelos descendentes de populações da África Ocidental no Brasil (...)". Focado nas comunidades auto-qualificadas como nagôs, que modernamente se conhecem como iorubás, o livro logo tornou-se um clássico acadêmico, e talvez a mais importante referência brasileira no tema "candomblé". Livro tão revelador quanto complexo, sua maior dificuldade, entretanto, estava na grafia das palavras em língua iorubá que o leitor encontrava a cada linha. Isto porque a autora, com extremo rigor científico, optou por grafá-las "segundo a convenção internacionalmente adotada pelos institutos especializados da Nigéria". Renovando inteiramente a cena dos estudos sobre as religiões africanas no Brasil, o livro, repetimos, passou a integrar, obrigatoriamente, todas as bibliografias das obras congêneres que o sucederam, com o merecido reconhecimento da Academia. Mas para os brasileiros não detentores das chaves que abrem os códigos científicos - e notadamente o "povo do santo", gerador de todo o conhecimento estudado no livro - essa obra tão importante, por sua linguagem quase que "cifrada", tornou-se um tesouro inacessível. Foi assim que, em 1997,cerca de vinte anos depois do lançamento de Os Nago e a Morte, participando de reunião do Grupo de Trabalho Interministerial criado, entre outras coisas, para articular as pesquisas sobre a questão negra no Brasil, fazíamos uma recomendação, aceita e incluída no relatório final dos trabalhos, conclamando os pesquisadores que lidam com vocábulos oriundos das línguas africanas circulantes no Brasil a evitarem o preciosismo ou esnobismo de grafar esses vocábulos segundo a convenção internacional adotada por Juana Elbein. Que se utilizem - pedíamos - nesses casos, as regras para grafias de palavras de origem africana ou indígena já estabelecidas por filólogos como Antenor Nascentes. Seguindo as normas do Acordo Ortográfico de 1943, Nascentes recomendava, para essas grafias: escrever-se com x o som chiante; com ç o som sibilante; com qu o som kê; com j o fonema gê; etc. Pelas dificuldades gráficas que a língua iorubá acrescenta aos padrões editoriais brasileiros, aportuguesar os vocábulos oriundos desse idioma, conservando, apenas em alguns casos já consagrados pelo uso, o emprego de k, w e y, por exemplo, nos parece salutar. Encaramos a adoção dessa prática - e esta era a justificativa que fazíamos na referida recomendação ao GTI - como um ato político, pois, quanto mais abrasileirarmos os vocábulos de etimologia africana que circulam no Brasil, mais estaremos tirando deles o rótulo de "exóticos", para incorporá-los oficial e definitivamente ao léxico brasileiro e afirmarmos, assim, cada vez mais, a africanidade da língua falada no Brasil. A língua dos negros do Brasil, que muitas vezes parece gritar por autonomia, expressa um saber centenário e profundo. E essa é, também, uma das importantes revelações contidas no seminal, referencial e indispensável livro de Juana Elbein, Os Nago e a Morte, em cuja elaboração foi decisivo o axé do venerável Deoscóredes M. dos Santos, o Mestre Didi. CANDOMBORO (poema a propósito de "afro-sambas") Os poetas negristas Cabelouros bastos Vestiam onomatopéias E saíam nos livros Em candombes alucinados. Tumba calumba Retumba mondongo! Formavam comparsas Atlânticas, pacíficas -- Congas, lubolas, quimbundas Arrebanhando multidões A cada tiragem. Bumba sandunga Mayombe macumba! Os poetas negristas Costumbristas Deslumbrados Ouviam o galo cantar Mas não sabiam ao certo Onde e por quê Candomboro Ekondombolo, o galo, Cantava. (21.12.03) Terça-feira, Julho 06, 2004
SEROPÉDICA E A MARQUESA Parte da antiga Fazenda Real de Santa Cruz, o município fluminense de Seropédica, emancipado de Itaguaí há sete anos, tem a origem de seu povoamento na antiga Companhia Seropédica Fluminense, dedicada ao beneficiamento da matéria-prima têxtil extraída do bicho-da-seda, no Segundo Império. E que, antes disso, segundo historiadores locais o imperador Pedro I, numa estratégia diabólica, teria nomeado o marido abandonado da sua Marquesa de Santos, alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, administrador de uma feitorai na região. Ao saber, entretanto, de uma carta insultuosa enviada por Felício ao irmão da Marquesa, D. Pedro teria vindo até o atual município de Seropédica, na altura do km 42 da Estrada Rio-São Paulo. Ali, teria chicoteado no rosto o marido abandonado, obrigando-o a assinar um documento em que renunciava expressamente à mulher. Essa informação me veio através de matéria escrita pelos pesquisadores Marcello Gomes e Cláudio Merchiori ("Seropédica também foi palco de escândalo de D. Pedro I"), publicada no jornal "Seropédica", em setembro, 2002. É, malandragem... a rapaziada da periferia também resgata sua História! ALI KAMEL E AS QUARENTA RAZÕES O jornalista Ali Kamel, diretor de telejornalismo da Rede Globo, vem há meses ocupando as páginas de "opinião" do jornal de Irineu Marinho para deblaterar contra as políticas de ação afirmativa em prol dos negros no Brasil. Suas inúmeras razões - só eu, já contei quarenta - contradizem todo um IBGE e se apóiam no axioma segundo o qual o racismo brasileiro, essa bomba detonada, só existe nas cabeças de negros, entre as quais incluo a minha. Em resposta às 40 razões do senhor Ali Kamel, penso reunir 40 artigos, meus e de pensadores "moreninhos" como Muniz Sodré, Joel Rufino, Sueli carneiro, Marcelo Paixão, Carlos Alberto Medeiros, Álvaro Nascimento, Edna Roland, Flávia Oliveira, Flávio Gomes, por aí... O primeiro deles aqui vai! ** Na mesma edição de O Globo (29/6) em que o jornalista Ali Kamel faz sua mais recente e longa diatribe contra as políticas de ação afirmativa em benefício dos descendentes de africanos no Rio e no Brasil, a coluna de Ancelmo Góis, poucas páginas adiante, informa, na nota "Velho é branco": 58% dos cariocas são brancos; e, desses, 70% são idosos, com mais de 60 anos. Esses números podem apontar em várias direções. Mas o que eles efetivamente expressam com mais eloqüência é o fato de que os "pretos e pardos", no Rio, vivem menos. E isto certamente pela má qualidade de vida e pela violência urbana, como já provou o IBGE. Sim, a exclusão social mata! E disso já sabiam, por exemplo, os padrinhos brancos de negros proeminentes como, por exemplo, Teodoro Sampaio, Machado de Assis, Lima Barreto, José do Patrocínio e tantos outros, que à falta de políticas públicas num contexto histórico absolutamente adverso, e pondo em prática ações afirmativas pioneiras, encaminharam seus afilhados à instrução e ao reconhecimento. Como já sabiam os fundadores das confrarias e sociedades de auxílio mútuo aqui constituídas por africanos e descendentes, ainda na época escravista. Como souberam o jamaicano Marcus Garvey e todos os líderes pan-africanistas. Como sempre souberam as inúmeras entidades de direitos civis surgidas no Brasil desde a Frente Negra, em 1931.Como já sabia também, nos EUA, em 1909, ano de sua fundação, a NACCP (Associação Nacional para o Progresso da Gente de Cor), a qual, aliás, noventa anos depois, acusava judicialmente a poderosa indústria de armas em seu país, aí incluídos distribuidores e importadores, como principais causadores, pelo excesso de oferta, da morte de jovens negros na faixa de 15 a 24 anos. De que, então, nós, negros cariocas e brasileiros precisamos para que se ponha cobro à nossa inquietante realidade? Precisamos "apenas de ter acesso a um ensino básico de qualidade", como receita o jornalista Ali Kamel? Suponhamos, com extrema boa vontade, que esse acesso se concretize agora. Quanto tempo levaria para que nosso povo passasse a desfrutar de igualdade de oportunidades e a morrer menos, vítima da exclusão e da violência? Há cerca de 1 ano e meio, os afro-cariocas Carlos Alberto Medeiros e Ivanir dos Santos, em artigo jornalístico (O Globo, 31.12.2002), chamavam atenção para o fato de que as denúncias do movimento negro já se respaldavam numa nova vertente da pesquisa acadêmica sobre relações raciais no Brasil; e que, através de indivíduos qualificados do ponto de vista acadêmico, os negros já se assumiam como agentes do discurso anti-racista, não necessitando mais de intérpretes ou intermediários. Nós é que sabemos do que efetivamente precisamos. Ou não? Segunda-feira, Julho 05, 2004
PELÉ ETERNO Ando doido pra ver o filme "Pelé Eterno", que deve ser de fato uma pancada, como foram os dribles e gols com que o "Rei" nos brindou durante tantos anos. Mas pancada, mesmo, foi a do saudoso Baiano do Salgueiro, cascateiro como ele só, no tempo que o "negão" namorava a Xuxa. A "rainha dos baixinhos", como todo mundo sabe, tinha uma casa em Coroa Grande, onde o Baiano reunia sua turma. Contou ele, então, que um domingo, estava lá com o churrasco armado quando a Xuxa se chegou: - Seu Baiano, eu estou ali com o "Edson" e ele queria participar do churrasco. Será que...? Aí, o venerando sambista, que, além de mentiroso era justo como ele só e não admitia privilégios, meteu lá: - Poder pode, minha filha. Mas tem que "chegar junto". Igual a todo mundo. Contava o velho salgueirense que, então, Pelé, o eterno, de calção e chinelo raider, foi no açougue, comprou 1/2 kg de contra-filé, pegou duas brahmas geladinhas no botequim e trouxe pra roda. E até cantou uns sambinhas, acompanhando-se ao violão, naquele dó maior básico que ele sabe fazer. Baiano jurava que era verdade... |