meu lote


Segunda-feira, Maio 31, 2004

ENTREVISTIM

Está na edição desta semana do Pasquim 21, entrevista com o dono desse lote feita por Aldir Blanc:

O samba está aplicando um chocolate na mídia. Pra melhorar, de forma inesperada (pros otários), em pleno horário nobre, durante a novela Celebridade. Minha idéia era: o Pasca faz um entrevistão e eu lasco uma entrevistim, no meu canto, com os talentos que nossa sociedade sebosa insiste em empurrar pro gueto. Só que toda vez que meu primo-irmão Nei Lopes abre a boca, sem falsa modéstia, sai Entrevistaço. Ele é meu compositor preferido, o letrista que eu queria ser - e não é de hoje, não, girolhos. Jalabão uns 30 anos de fidelidade partidária. Além disso, por sua luta quase quixotesca contra preconceito, racismo, por sua extrema coragem moral, pela - espertalhões tentam botar a palavra pra escanteio - coerência, ele é um dos raros brasileiros que pode, sem mácula, ser chamado de herói nacional. Poeta, cronista, humorista, advogado, historiador, vão acrescentando aí, sangue bom, sujeito homem, Nei Lopes é íntegro até a raiz africana da alma, e deu a volta por cima em sofrimentos que só um homem de moral supera. Abença, Mestre Nei!


1. O grande público, pra lá de desinformação, julga que o DonDon foi feito para novela. Quando foi feito o samba e em que circunstâncias.
R: Aldir, o Dondon foi um amigo e quase parente que conviveu conosco até meados da década de 90. Chamava-se Antônio de Paula, morava na rua Dona Maria, paralela à tua rua dos Artistas e era um crioulo sestroso e namorador. Só andava bacana, bem vestido, dançava paca e era marrento, com toda a razão. E já setentão, mas ainda em plena forma, lembrando os tempos de craque, mandava sempre aquela lera: "Porque no meu tempo...". De fato, nos anos 30, Dondon foi figura conhecida no velho Andaraí, que tinha sede na Praça Sete e campo onde é hoje o shopping Iguatemi. Jogou, inclusive no mesmo time que o Yustrich, depois famoso como técnico. Aí, como um dos personagens prediletos da minha galeria, um dia Dondon ganhou o samba. Que foi gravado pelo Zeca Pagodinho, depois de esnobado pelo Pedrinho da Flor, que morava no Andaraí e não quis encher a bola do bairro. Isso foi em 87. E pouco depois a gravação entrava na trilha da novela "Mandala", como tema do personagem do Milton Gonçalves, um motorista de táxi. Como você vê, Dondon tem história...

2. Você levantou uma lebre justíssima sobre essa besteira de falar de MPB e de samba como se fossem coisas distintas. De certa forma, fica parecendo que a discriminação continua, apesar de light. Temos um CD da novela, duplo, com repertório nacional e internacional, e outro, separado, "Celebridade Samba". Até que ponto isso é bom ou é ruim.
R: Isso, pra mim, é sempre ruim, não tem aspecto nenhum positivo -- a não ser que os números me provem que o "Celebridade Samba" venda menos ou mais que o outro; e me digam o porquê. Pessoalmente, estou bem, pois tenho música nos dois. Mas continuo achando que não tem que separar: samba é música popular brasileira, sim! João Gilberto canta samba, todo mundo canta samba, uns bem outros mal... Até o grande Henri Salvador lançou há pouco, na França, um disco com sambas e até pandeiro. Mas no Brasil, por causa desse racismo babaca, ainda se associa samba a escravidão, favela, malandragem, marginalidade... E o pior é que certo fundamentalismo que existe por aí fomenta essa distinção. Por exemplo, quando o cara acha que samba só é verdadeiro com cavaquinho, pandeiro e violão, ele prende o samba no velho gueto. É por isso que eu, desde o Sincopando o Breque, CD que eu gravei pelo selo CPC-UMES, venho procurando fugir dessa camisa-de-força. Agora mesmo, estou gravando, pelo selo Fina Flor, um CD de partido-alto com piano, baixo acústico e bateria, além de cavaquinho e pandeiros, claro, mas com um pouquinho de percussão afrocubana, porque tem tudo a ver. Fica gostoso demais! Com "sandunga", como dizem lá na terra do "mojito". O nome do CD é "Partido ao Cubo". Mas, de sacanagem, estou chamando de "Raiz Cúbica", pra gozar os fundamentalistas.

3. O critério de escolha do repertório de sambas para a novela não implica no reconhecimento tácito de que existe sambas autênticos, no caso fazendo sucesso na presente trilha, e sambas ruins que, paradoxalmente, são muito mais divulgados nos programas da própria emissora?
R: Concordo contigo mas não gosto da expressão "samba autêntico". O que existe é samba bom e samba ruim; samba criativo e samba repetitivo, como essa fórmula metida a "love-pop" que anda por aí.

4. O coração musical da novela são os sambas. Você acha que isso veio pra ficar?
R: Isso é uma questão estranha. As Organizações Globo estão preocupadas com o que chamam de "conteúdo Brasil". Já realizaram até um seminário para discutir o assunto. Mas no próprio seminário, na parte de música, só havia gente altamente comprometida com o esquemão internacional, das grandes gravadoras. Na tevê a cabo, a programação do Multishow e da MTV, que pertencem à Globo, é um massacre. Semanalmente, o jornal O Globo, além da copiosa pauta pop-rock do Segundo Caderno, ainda veicula um suplemento juvenil onde a lavagem cerebral é completa. Aí, dá a impressão que o tal do "conteúdo Brasil" é jogo pra arquibancada.

5. Como você vê o Andaraí retratado na novela em comparação com o Andaraí real?
R: Fisicamente até que parece, naquele pedaço ali da Barão de Mesquita, junto da Maxwell. Mas o Andaraí tem morro. E tem crioulo paca! Tem até um tradicional clube de negros, o nosso Reanascença, de gloriosa memória e que resiste lá, a duras penas. Podia ter um Rena na novela: negros bonitos a Globo sabe onde arranjar. Mas ela deixa tudo dentro do armário, esperando a próxima novela de época. Os crioulos da TV Globo são todos do século 19 e escravos do Rubem de Falco!

6. Você foi o incentivador de tardes/noites inesquecíveis de samba: Corre pra Sombra, Fogo no Tacho, Pagode da Cachopa, sábados no Bar do Costa. O batuque agora é em Seropédica?
R: O batuque em Seropédica é nas teclas do computador. Mas de vez em quando a gente reúne os amigos. Até mesmo para alegrar os orixás...


Diz aí!

Quinta-feira, Maio 27, 2004

DEU NO JORNAL DA UFF

O jornal eletrônico Balaio Porret@, editado pelo poeta Moacy Cirne, deu a seguinte indicação:

VALE A PENA LER
Sambeabá - O samba que não se aprende na escola,
de Nei Lopes, com desenhos de Cássio Loredano.
Rio de Janeiro: Casa da Palavra / Folha Seca, 2003, 188p.
Considerações: Algumas pessoas reclamaram do purismo de Nei Lopes, igualmente compositor, mas esta é uma das qualidades da obra: uma ótima introdução para-didática ao samba de raiz, ao samba que ainda nos empolga verdadeiramente. Por vários motivos, um livro indispensável. Na "saideira", há que destacar: Grandes sambas, grandes bambas; Breve vocabulário do mundo do samba; Discografia mínima.

Diz aí!

Quarta-feira, Maio 26, 2004

CHARLIE CHAN, NA CHINA

Meu amigo Charlie Chan, policial integrante da comitiva presidencial na China, me diz que está curtindo demais.

Já andou de roda gigante no Parque Shangai, comprou uma belíssima capa de shantung, um montão de vidros de tinta nanquim, conheceu o fantástico Doutor No... e comprovou que o mandarim não manda mais nada.

Mas o que ele mais curtiu, diz ele pra mim via e-mail, foi a visita que fez ao Pagode Fun Kim Tao.

Diz que primeiro ficou meio "confúcio" (hummmm!) mas depois sambou tudo e tomou todas!

Fora da comitiva, claro!

Diz aí!

Terça-feira, Maio 25, 2004



EU E MONSUETO

As três mais fortes imagens que tenho de Monsueto remontam ao ano de 1963. Na primeira, no edifício Marquês do Herval, na avenida Rio Branco, num sábado à tarde. Eu me dirigia para uma reunião clandestina, no escritório de um deputado do PCB, quando ouvi um familiar olor de comida e uma batucadinha que me fizeram sentir em casa e quase me tiraram do caminho politicamente correto. Mais tarde, vim a saber que o aroma e o ritmo vinham do apê do Monsu.

Na segunda, em plena concentração do Salgueiro na Candelária, a gente se preparando para arrebentar a boca do balão e ser campeões pela primeira vez, com Chica da Silva, me chega aquele negão, andando com dificuldade por causa dos "esporões" (não tem mais?) que antigamente castigavam a sola dos pés dos pretos velhos. Já meio enzinabrado, Monsueto, com propósitos inimagináveis, perguntava: "Cadê Zélia Hoffmann?" E essa Zélia era uma bela figura de mulher, misto de estrela de TV e dona da cantina Fiorentina no Leme, que endoidava a rapaziada naquele tempo (a propósito, cadê Zélia Hoffmann?).

Na terceira, Monsueto foi, de Copacabana, ao Irajá, levado pelo meu cunhado Moacir, que era seu amigo e sósia, para batizar o Bloco do Rascunho, agremiação carnavalesca criada em 1969 pela minha família. Chegou lá e fez um samba na hora, homenageando o bloco.

Musicalmente, o que me ficou do grande Monsueto Menezes, além dos clássicos Me Deixa em Paz e A Fonte Secou, este em parceria com meu saudoso amigo Tuffic "Raul Moreno" Lauar - baluarte que o Salgueiro esqueceu - foram criações absolutamente originais como o samba Lamento das Lavadeiras e um outro falando de um certo Antônio Jó que levou um pão para casa, para dar de comer a vários filhos e todos queriam comer, do pão, apenas o bico, que era mais gostoso.

Diz aí!

Segunda-feira, Maio 24, 2004

VOVÓ ROSÁRIA E O PAGODE DE BUTIQUE

Cada um come do que gosta, já diz minha tia-avó Rosária, partideira centenária...

Mas não deixa de ser interessante essa coisa, agora, de o povo das reives, do tecno, das baladas (de "embalo", velocidade) começar a curtir "bandas de pagode", como deu na Folha. E isso, no meu entender, liga historicamente o que ocorreu na zona sul carioca, no final dos anos 50, à explosão do "glitter pagode" ( glitter: brilho, resplendor, lamê - como explica Vó Rosária) quarenta anos depois.

Pois esse "pagode" é, pra mim, descendente da bossa-nova. Não? Então, experimente, ilustre visitante do Meu Lote, cantar Garota de Ipanema ou Chega de Saudade nesse ritmo que o paulistano Gilson de Souza formatou, Agepê consagrou e o Raça Negra jogou no ventilador. Conseguiu, claro!

Agora... experimente cantar um samba de Geraldo Pereira, de Jota Cascata, de Dilermando Pinheiro, de Padeirinho, de Luiz Grande, no mesmo ritmo. Não dá, né!?

Um dos fundamentos estéticos da bossa-nova foi, como já disssemos no nosso"Sambeabá", a decodificação do ritmo original do samba, despojando-o de sua polirritmia. Nessa esteira foi que, a partir do sucesso comercial do Raça Negra, surgiu, dentro do samba, uma espécie de reproliferação do antigo "sambão jóia", disseminado antes por Benito, Wando, Ayrão, além dos citados Gilson e Agepê.

O sucesso da fórmula dos neo-sertanejos - por sua vez herdeira do iê-iê-iê romântico - foi a pitadinha que faltava para que os produtores de discos egressos da Jovem Guarda, em geral guitarristas de 3 acordes só ou solistas de "sax baixo", cozinhassem tudo no mesmo microondas para criar o "glitter pagode", que agora volta, agitando as baladas em Sampa, como disse a Folha.
Se a Folha falou, tá falado! É samba também. E no fundo, no Brasil, tudo é samba. Mas minha tia-avó Rosária não consegue ficar calada. E aí mandou essa:

- Esse pagode aí, é "filho bastardo do telec-tec emasculado da bossa-nova", como diria meu amigo José Ramos Tinhorão...

Diz aí!

Quarta-feira, Maio 19, 2004

DE QUE MORREU LENA FRIAS?

Em meados de 2001, nossa grande amiga Lena Frias, recente e precocemente falecida, circulava a carta abaixo. Jornalista precursora e do mais alto nível, foi autora, nos anos 70, de reportagens densas (em geral publicadas em página dupla no JB) e de alto teor investigativo, sobre a Cidade de Deus, sobre o fenômeno Black-Rio, sobre as entranhas da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, entre outras. Um dos mais valorosos quadros da militância em prol de uma ação cultural descolonizada e efetivamente brasileira, fez parte do Conselho de Carnaval da Cidade do Rio de Janeiro e em 1999 assumiu uma das cadeiras do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro.

Nos últimos tempos, minha amiga Lena já não era mais a esfuziante repórter com quem convivi a partir do 70. Tornara-se meio tristonha, meio abatida embora ainda conseguisse soltar a espontânea gargalhada de antes, tomando seu comportado guaraná diet diante das minhas infindáveis cervas no Bar do Costa. E alguns amigos comuns me segredavam que seu ambiente de trabalho (talvez pelo excesso de perfume francês) se tornara irrespirável.

Então, veio a notícia: Lena estava mortalmente atingida por um câncer. Talvez desses que nascem da mágoa, do desprezo, da humilhação. Até que o final se consumou. No dia 12 de maio.

Mas de que morreu Lena Frias, afinal? Um câncer é um câncer, é um câncer, é um câncer... Lembro então da carta que ela circulou em meados de 2001. Que segue abaixo. E que pode conter a resposta. Releio.

Sete anos depois do meu retorno à casa da condessa Pereira Carneiro, acabo de deixar o Jornal do Brasil, onde vivi os episódios mais intensos da minha carreira jornalística. Uma relação que se iniciou ainda nos anos 70, teve momentos de destaque e não merecia encerrar-se melancolicamente, razão pela qual pedi que me demitissem. Há pouco mais de um ano eu me vi afastada do caderno de cultura por um desses equívocos inexplicáveis, esses acidentes de percurso meio doidos que vão atrapalhando a gente. Coisas de poder e traição. Como vocês sabem, quando a então editora do Caderno B e minha amiga Regina Zappa foi derrubada numa manobra interna, eu também me vi atingida. Mas a questão é que depois de longas conversas com a direção do JB, apesar da deferência e evidente consideração com que me distingue o Flávio Pinheiro, executivo do jornal e pessoa com a qual dialogo bem, senti que o equívoco ainda se manteria, afetando as minhas atividades nessa área na qual tenho tanto a realizar.

A dificuldade reside no fato de que o saber e a experiência que acumulei ao longo de três décadas não interessam ao JB. Ou não interessam ao meu olhar e a minha abordagem, expressão de um efetivo compromisso jamais traído com a cultura brasileira, que nunca tratei com curiosidade ou exotismo, mas como valor de identidade. A minha terra e a minha gente estão no cerne do meu interesse de profissional da cultura e da minha emoção como criadora e como intelectual. Seja a multiplicidade e diversidade da cultura, seja a capacidade que nós brasileiros temos de reinventar o viver, dentro de um cotidiano de desvalia e desvalorização daquilo que nos é fundamental como povo. Meu compromisso é com tudo aquilo que revela e exprime as matrizes de nossa verdade e da nossa integridade e brasileiros. Por isso escrevo com tanta paixão sobre o cantador Azulão da Feira de São Cristóvão, sobre Patativa de Assaré, Ariano Suassuna, Antônio Nóbrega. Sobre Gilberto Freyre e Câmara Cascudo. Sobre superstições e lendas do nosso fabulário. Sobre cordel e grial, batucadas e batuques, músicas e sons. Sobre as raízes pré-ibéricas do boi amazônico, os mistérios caboclos dos caruanas, os barros de Adauto e de Tracunhaém, as cerâmicas de Caicó, os torés dos índios, a ancestralidade e a tradição religiosa dos negros ou qualquer outra expressão ou manifestação desse amplo espectro que me explica e nos explica. Enfim, sobre as células do nosso tecido nacional que é também tão universal pelo fato simples de sermos todos humanos e partilhamos os mesmos instintos e sentimentos.

Por isso mesmo, e pelo contraditório que se instalou, considerei ser a hora de deixar o jornal com que tenho laços tão vivos de afeto: os donos da verdade nos meios de comunicação não parecem sensibilizados ou mesmo interessados em tão profunda brasilidade. Preferem tratar a cultura brasileira como curiosidade, exotismo ou eventualidade.

Bem, é com essa brasilidade que eu sigo e é ela que me conduz. Estou livre e pronta para oferecer consultoria, criar, orientar e executar projetos, escrever minhas crônicas e artigos. Tudo sobre Brasil. Afinal, foi a missão que recebi de Deus. Ainda este ano desejo publicar meu livro sobre jornalismo cultural, atendendo a cobranças e apelos nesse sentido com que sou honrada Brasil a fora.

Mas francamente, acho um despudor o Jornal do Brasil me negar espaço no segmento cultural porque a minha voz e o meu talento estão a serviço do que o país tem de melhor, que é seu povo. Eu até podia ficar no JB ganhando o parco salário que ganhava, quietinha num canto, esperando pela oportunidade de assinar uma crítica de disco ou um comentário sobre isso ou aquilo. Anulada.

Mas... quietinha, eu? Num cantinho. Eu? Anulada, eu?

Nunca! Eu até caio, mas de pé, denunciando a falta de vergonha que é a desqualificação da cultura que eu represento, desde a cor sépia da minha pele, até o saber bebido diretamente nas fontes populares e apurado em muito estudo, muita leitura, muita crítica, muito empenho intelectual. Considerei meu dever informar aos meus amigos e aos meios culturais e jornalismo o porquê da minha decisão As minhas relações profissionais com o JB podem até mesmo se restabelecer - o que parece bastante possível - mas, em outras bases. Por outro lado, os meios culturais e de comunicação, informados da minha atitude, estão me respondendo com enfática solidariedade e aprovação ao meu gesto, o que me desvanece, anima e conforta.

Um abraço cordial da
Lena Frias


Diz aí!

Quarta-feira, Maio 12, 2004

ABAIXO A RAIZ QUADRADA!

É, malandragem... o couro tá comendo! Imagine Leandro Braga no piano, Bororó no baixo acústico, Jurim Moreira na bateria, Alceu Maia no cavaquinho e Zero nas percussões.

Não! Não é "MPB", não! É Música Popular Brasileira, sem siglas, na sua expressão mais sincera.

É samba, cheio de molho, balanço, suíngue, síncopas, quiálteras e os cambau a quatro. Do jeito que o Velho aqui sempre gostou.

Trata-se da gravação das bases do meu CD "Partido ao Cubo" já prontinhas, aguardando vozes e complementos. Nele, convido vocês para uma viagem com muitas escalas (cromáticas, principalmente), de Irajá a Marechal, Santa Cruz, Lins, Dacar, Tijuca, Morro do Pinto, Vila Isabel, Luanda, Benguela, Huíla, Seropédica, Montevidéu e (ufa!) Havana.

Porque esta é a viagem do meu samba. E das minhas raízes. Cúbicas!

Me aguardem.

Diz aí!


DONDON NO CAETANO

De 21 a 25 de junho vamos reviver o "Tempo de Dondon" no Seis em Ponto do João Caetano. Vai ter Goiabada Cascão, Coisa da Antiga, O Ganzá do Seu Leitão e mais uns tantos sambas falando do tempo em que se amarrava cachorro com linguiças mais sadias.

Vai ter até figurino de época. Assinado pelo estilista francês Rouy Carème. Manjam?

Diz aí!

Quarta-feira, Maio 05, 2004

XIXI DE CÓCORAS É COISA DE EGÍPCIO

Esta minha mania de fuçar velharias tem me revelado cada uma!

É o caso, agora de um certo Sr. Heródoto, que não era barbeiro nem da CBN, e que me voltou, 50 anos depois do ginásio, através de um livrinho da Ediouro (Clássicos de Bolso: História: s/d) achado no sebo.

Heródoto, que não era barbeiro mas também dava aula de geografia, viveu na Grécia mais ou menos entre 484 e 420 A.C. e acabou sendo considerado "o pai da História". Dando um rolé bacana pelos povos vizinhos e contemporâneos do seu, escreveu coisas muito interessantes. Sobre os egípcios, por exemplo.

Através dele, fiquei sabendo, entre outros mexericos, que, no Egito Antigo, a urina de uma mulher que nunca tivesse contato com outro homem além do marido, curava cegueira (pág. 117); que egípcio não beijava mulher grega na boca, nem se servia da faca, do pincel ou da marmita de um grego (pág. 100), imagina-se porque; e que a rapaziada egípcia evitava a companhia de pessoas de pele clara e cabelos louros (pág. 140), chegando, em tempos remotos, a sacrificar a Osíris pessoas assim.

Sobre a disposição desses morenos, conta o historiador que, certa ocasião, instado pelo faraó a não passar, com suas tropas, para o lado dos inimigos etíopes, abandonando seus deuses, esposas e filhos, um bravo e malcriado comandante egípcio, mostrou ao soberano o chamado instrumento da virilidade e disse: "Por toda parte onde levarmos isto encontremos mulheres e teremos filhos!".

O velho Heródoto me contou também que, no Egito Antigo, as mulheres urinavam em pé e os homens de cócoras (pág. 98), certamente por alguma razão prática. E comparando a aparência do povo do Egito com o da Cólquida, país vizinho, o Pai da História escreveu - vejam bem - isso aqui, ó:

"Sempre me parecera que os Colquidianos eram Egípcios de origem, e foi para certificar-me disso que resolvi sondar uns e outros. Os Colquidianos tinham mais reminiscências dos Egípcios do que estes daqueles. Os Egípcios pensam que esse povo é descendente de uma parte das tropas de Sesóstris, e eu pensava da mesma maneira por dois motivos: primeiro, por serem os Colquidianos negros e possuírem cabelos crespos (...); segundo e principalmente porque os Colquidianos, os Egípcios e os Etíopes foram os primeiros povos a adotar a circuncisão (pág.115)"

É... O velho Heródoto dirigia direitinho!

Diz aí!

Terça-feira, Maio 04, 2004

VOLTEIOS, VOLTAIRE

1 - Do Amor

A égua
Passiva espera
O macho
Que irá cobrí-la.
Apenas
Afasta a cauda
E se abre
A recebê-lo.
E, nele,
Que em corcoveios
Relincha,
Os olhos dardejam
As narinas
Lançam chispas
Sobre o objeto
Em fogo
Do seu natural
Instinto.
Mas o prazer
Da parelha
Vem de um único
Sentido
Que, tão logo
Saciado,
Cede lugar
Ao vazio.
Pois desconhecem
O dom
De aperfeiçoar
O amor
E de os órgãos
Da volúpia
Tornar mais
E mais
Sensíveis.
Não conhecem
A admiração
E a estima
Que o prazer
Do corpo
Ao do espírito
Aproxima.

Diz aí!

Segunda-feira, Maio 03, 2004



CAROS AMIGOS PISAM NA BOLA

Meu amigo Rolf de Souza mandou a seguinte carta para a revista "Caros Amigos". Antes que eles não publiquem, a gente lê aqui. Manda bala, Rolf!

Caros ex-amigos,

Não poderia ser mais infeliz a capa escolhida para a edição especial da Caros Amigos!
Eu sou leitor desta revista e estou escandalizado!!!

Por que a escolha desta capa? Por que um menino negro ganhando uma arma?

Será que apenas meninos pobres e negros recebem violência como presente?

São justamente eles as maiores vítimas. Vide os últimos dados divulgados pelo IBGE: Meninos pobres e negros morrem mais vítimas de violência do que eu meninos brancos.

Seria interessante mostrar na próxima edição as mãos e caras de quem dá/importa o presente.

Vamos nos lembrar que os meninos ricos que espancam e matam (todos brancos) e estão fora do alcance da lei também são marginais, pois estão à margem dela, na margem oposta a dos negros e pobres, mas estão à margem.

Isto é um desserviço a nós negros e negras que lutamos, na maioria das vezes, sozinhos/as contra o racismo. É muito cansativo ter que denunciar este tipo de prática a esta altura dos acontecimentos, depois de tantos avanços... E principalmente para um grupo que se propõe mais progressista. Que diferença faz, neste sentido, entre a Caros Amigos e a Veja, por exemplo?

Não preciso me estender sobre o dano que imagens como estas causam a nós negros e negras, sei que há pessoas inteligentes o bastante nesta redação.

Por que ao invés de fazer coro com a mídia reinante, não radicaliza convidando intelectuais negros e negras para fazer parte de sua revista? Não precisa ser para falar negros/as, mas para mostrar que esta revista realmente difere das outras.

Quero registrar meu protesto que tornarei público.

De agora em diante ex-leitor,
Rolf Ribeiro de Souza - Rio de Janeiro/RJ

Diz aí!


A CONJUNTIVITE NO TEMPO DE DONDON

As palavras, como os seres, cumprem um ciclo: nascem, vivem e morrem. Muitas delas às vezes hibernam, dormem um longo sono, para depois voltar, malandrinhas, parecendo novas. É o caso, por exemplo, de arcaísmos que viram gírias e se propagam através principalmente da música e da tevê.

Lembro, agora, que no meu tempo de moleque eu nunca ouvira falar em "conjuntivite". Será que não havia essa doencinha chata que está avermelhando e comichando os olhos de meio Grande Rio neste momento?

Havia sim, mas com outro nome. Como "volvo", como o povo lá em casa chamava o vólvulo, que é a torção do intestino; o "vento-virado", constipação ou prisão de ventre; a "espinhela-caída", inflamação do apêndice xifóide, ou dor produzida por fadiga ou doença debilitante, na região do esterno, no meio do peito; o "quebranto", efeito malévolo supostamente produzido pela atitude ou o olhar de uma pessoa sobre outra etc.

A conjuntivite, no tempo que Dondon jogava no Andaraí, atendia pelo nome de "sapiranga" - nome indígena, derivada do tupi esapi'ranga, olho vermelho - embora os livros atenham esse termo mais à blefarite ou tarsite, inflamação das pálpebras, também conhecido como "bonitinha" ou "palpebrinha".

Mas, a perdurar a epidemia, o que nenhum de nós quer que aconteça, vai acabar se chamando mesmo é "conjunctivitis" ou "reddish and itching eyes" - que é do jeito que, segundo as más línguas, já chamam lá naquele país distante, a oeste, entre Jacarepaguá e a Rocinha.

Diz aí!