meu lote


Terça-feira, Abril 27, 2004



FIM DE SEMANA COM WHITNEY HOUSTON

Fim de semana frio e chuvoso no Lote, então o negócio é dar um pulinho até a locadora de vídeo, onde, na estante, chama atenção a bela Whitney Houston, no musical "Cinderella", do qual eu nunca ouvira falar. Pois vejam só que grata surpresa!
O filme, baseado no conto tradicional, foi bancado por Miss Houston, em co-produção com os estúdios Walt Disney, em 1997. Nele, em meio a um elenco multi-étnico (e bota multi nisso!), a personagem central é vivida pela lindíssima atriz negra Brandy; o príncipe encantado, por um com traços orientais e sobrenome Moltalbán; o rei, por um ator de aparência caucasóide, cujo nome não guardei; e a rainha, pela premiadíssima Whoopi Goldberg.

Produção extremamente bem cuidada, "Cinderella" demonstra, assim, o envolvimento de Whitney Houston (freqüentemente acusada de alcoólatra e drogada) na luta pela derrubada das barreiras raciais em Hollywood.

Vale a pena ver esse filme. Principalmente quem tem, em casa, crioulinhas que só vêem bonecas loiras na tevê e, aí, se acham feias, sem chance, com aquela baixa auto-estima que a gente conhece.

Acho que, embora naquela do conto de fadas, vai fazer bem. Mesmo porque a Fada Madrinha é a própria Whitney, belíssima e cantando o fino.

Diz aí!

Terça-feira, Abril 20, 2004

A CARAVANA PASSA

Aqui na Periferia, a propaganda volante, através de carros de som, corre solta. Assim, foi a princípio sem nenhuma surpresa que, no sábado pela manhã, ouvi o alarido se aproximando.

Só que desta vez o som era até legal, bem timbrado, caprichado, profissional, apesar de o samba-enredo vir acompanhado com guitarras, teclados e numa levada meio funk meio reggae. Fui olhar do portão. E, vi, pasmo, uma espécie de bloco.
Na frente vinham umas pessoas bacanas, cheirosas todas vestidas de branco (embora, algumas, consumidoras, de fim de semana, "desportivas", de certas químicas perigosas) , com camisetas onde se lia a palavra "PAZ" bordada em prata, no peito. Davam-se as mãos e orientavam crianças pretinhas e encardidas que soltavam pombas brancas em todas as direções.
Logo atrás, vinham uns rapazes de cabelos rastafári dando cambalhotas e fazendo acrobacias complicadas, misturando-se a um outro grupo, de capoeiristas, todos muito lourinhos, também de branco e com cordões de várias cores nas cinturas, executando aqueles "aús", "bênçãos" e "rabos-de-arraia" que a gente já manja de outros carnavais.

Mas o melhor eram os tambores, cada qual mais colorido, batendo direitinho, em sincronia com o som que vinha das caixas, naquelas viradas bonitas que puseram o Paul Simon e depois o Michael Jackson literalmente "de quatro".

O samba-enredo, mesmo sem ter nada a ver com samba, era muito bonito. Apesar da letra, que eu fiz questão de anotar, pois dizia assim:

Sorri, periferia!
Chegou a Caravana da Cidadania!
Tem capoeira, hip-hop, rap, reggae, olodum
Pode chegar
Que sempre cabe mais um!

(E AÍ REPETIA, PRA ENTRAR NA SEGUNDA)

Chega de torno, eletrônica,
Motor a explosão,
Cidadania não se faz de macacão!
Nada de eixos, parafusos
Ou virabrequim
Cidadania é ser modelo e manequim!
Sem essa de engrenagem,
De embreagem
De relê
Cidadania é ser famoso na tevê
Escola tá ruim
Emprego já era
A Caravana traz a fama pra galera!

Nessa ONG que eu vou
Olha a ONG, ioiô !!!

(E REPETIA PRA VOLTAR "DA CAPO")

Não gostei da letra, que me pareceu derrotista e injusta, pois ainda tem muita gente fazendo coisa certa por esse Brazilzão todo aí - Márcio Moreira Alves que o diga. Mas, enfim, estava fundada mais uma ONG na nossa roça. E isso era bom!

Diz aí!

Segunda-feira, Abril 19, 2004



O "CHORO CRIOLO" DO HUMBERTÃO

Certamente vai tocar na Rádio MEC e em outras bocadas de bom gosto e fino trato - e isto é o que interessa: o resto é hit & shit.

Trata-se do espetacular CD "Choro Criolo" (Fina Flor) do meu irmãozão, saxofonista e arranjador craque, Humberto Araújo.

"Choro Criolo", pra mim, significa aquilo que aprendi ouvindo e lendo Pixinguinha: que choro é um estilo de interpretação, nascido de uma confluência de gêneros, principalmente do samba, célula-mãe da música popular brasileira, do qual representa o lado instrumental por excelência.

Vibrante, gostoso, caliente, com sandunga e swing, o CD do Humbertão arregaça as mangas da camisa volta-ao-mundo do choro; desabotoa-lhe o peito e bota as fraldas pra fora da calça de tergal; troca seu sapato vulcabrás e suas meias brancas por um chinelo esperto; e cisca com ele, do terreiro do cortiço ao pátio del solar.

Tudo isso com a humildade de chamar pra festa, além dos ancestrais sempre venerados, outros, daqui e do Orum, não menos importantes, como Juarez, Macaé, Vavá Mico, Zé Bodega, Dudu, Biju, Aurino, Mário Pereira, Moacir Silva, Jorginho, Ivanildo e Saraiva.

Sobre estes dois últimos informo que, sax-clarinetistas injustamente esnobados pelos pop-jazzeiros de plantão, freqüentam assiduamente os cestões de saldos onde eu, que não sou muito trouxa, vou às vezes pescar minhas preciosidades.

Então, bola pra frente, Humbertão!

Sempre "criolo" (sem o "u", mesmo, que soa melhor) - no exato sentido da palavra, i.e., que nasceu ou foi produzido num país colonizado, em oposição ao que é importado da matriz colonial.

E ku ixé!

P.S: O velho Humberto Reis, lá em cima, com aquele vozeirão bonito, declarou-se suspeito pra dar nota, pediu licença ao júri, e saiu pra tomar uma no Amendoeira, vulgo "Embaixada do Uruguai", no Largo do CACO.

Diz aí!

Quinta-feira, Abril 15, 2004

"POESIA, NUMA HORA DESSAS?"

Esse título é de uma seção que Millor Fernandes, sob o pseudônimo "Vão Gogo", ocasionalmente publicava em sua página dupla da velha revista O Cruzeiro. Acho que cabe aqui e agora, quando, cansado de balas traçantes, arrogâncias e incompetências político-evangélicas, procuro me fortalecer na minha espiritualidade. Pode não ser uma solução, porque também não é muito light, mas pelo menos alivia um pouquinho.
Venham comigo!


Visitantes Noturnos

Toda noite eles vêm. E chegam batucando
Os dejetos da sociedade industrial.

Rebolam danças inconspícuas.
Entoam cânticos bárbaros
Litanias monótonas, sem nexo
Permeadas de refrões impublicáveis.
Recendem a cachaça dos engenhos
Os corpos apenas cobertos
De opróbrio, escárnio, humilhação.

Beiços em carne viva, como
Uma salsicha aberta ao meio
E, entre as duas partes,
Os dentes, um recheio apodrecido,
Evém Filomena
Espiar meu sonho, os olhos abestalhados
Feito os de Emídio, mortos
Sobre a baba boboca pingando da boca
Boi, boi, boi da cara. Preta
E não colored escandalosa
Rumba esfuziante barafunda
Da bunda de Nega Regina
Puta rampeira descendo aos mangues
Do seu urânico mercúrico meretrício.
E nem excelentíssimo, sem juízo
Nem direito, como jaz
Na vara de contravenções banais
O processo do Bagulho
Arquivado por falta de provas.

E evém Birreco
Andando sem mãos no monociclo
Corda bamba do circo
Olho vira e mexe
No moleque Apaga-a-Luz
Que recolhe a bosta do elefante na
Carteira de pequenos furtos
Da arquibancada do Brasil.

E evém Vó Luzia
Maria, da Costa
Dáfrica.
E evém Tia Zica
No alto de um panteão de glórias
Portelenses.

Vêm todos espiar meus sonhos
Os olhos esbugalhados.
Mas neles, seus olhos e meus sonhos,
Quem está é Seu Lauro cantando
Cantigas muito antigas
(sacurupemba, bacurumbamba
sacurumbamba, sacurucuá!
)
Jongos oblongos
Longos lundus
Cateretês catretas.

E está Vô Belizário
Contando mistérios
Do tempo em que se amarrava
Escravo com lingüiça.


Diz aí!




SOLANO, POETA NEGRO

No recente e magistral CD de Luiz Carlos da Vila para a Carioca Discos, rola um samba-enredo, dele em parceria comigo e com Zé Luiz. Trata-se de "Solano, Poeta Negro", com o qual concorremos e perdemos o carnaval de 1981 no então já combalido "G.R.A.N.E.S Quilombo", o sonho de Candeia.

A derrota no Quilombo e a amizade com o "Dávila", me levaram ao Morro do Pinto, onde comecei a escrever uma nova e definitiva página da minha vida. E hoje, 23 anos depois, graças à gravação (que ainda não ouvi mas sei que é ótima), me vejo na obrigação de repassar aos visitantes do Meu Lote um pouco do que sei sobre o personagem do nosso samba.

**

Entre 1918 e 1928, a comunidade negra dos Estados Unidos, fazia florescer, a partir do Harlem novaiorquino, o movimento artístico e literário que ficaria conhecido como Harlem Renaissance. Sua proposta básica era pensar a vida dos negros através de uma perspectiva própria, negra portanto. Inspirados nas idéias de W.E.B. Dubois e Booker T. Washington, poetas, dramaturgos, romancistas, músicos e artistas plásticos, com suas idéias e realizações, faziam a América ferver e levavam seu pensamento até muito longe.

Essa idéias ecoaram também no Brasil. E seu fervilhar chegou ao centro (geográfico e do poder) da antiga capital da República, numa área nitidamente demarcada por monumentos da Cultura, como os prédios da Biblioteca Nacional, da ABI, do Teatro Municipal, da Câmara dos Vereadores e do antigo Senado Federal.

É ali, na roda literária do Café Vermelhinho, que, nos anos 40, aparece a figura do poeta, militante político e homem de teatro Francisco Solano Trindade.

Nascido em Recife em 1908 e falecido na Grande São Paulo em 1974, Solano Trindade participou dos históricos congressos afro-brasileiros realizados em 1934 e 1937 em Recife e Salvador. Criador da Frente Negra de Pernambuco e do Centro de Cultura Afro-Brasileira, estruturou, em Pelotas, RS, um grupo de arte popular já existente, transformando-o, em 1943, no Teatro Popular Brasileiro. No Rio de Janeiro, participou da fundação da Orquestra Afro-Brasileira e do Teatro Experimental do Negro. Ao mesmo tempo, afirmou-se como o primeiro grande nome da poesia de temática e vivência negras no Brasil, deixando publicados Poemas de Uma Vida Simples (1944), Seis Tempos de Poesia (1958) e Cantares ao Meu Povo. Além disso, fundou em Embu, São Paulo, um importante centro de arte popular. Colocando as reivindicações específicas dos negros dentro do amplo universo da luta de classes, tinha uma pefeita visão do potencial do negro como agente transformador da realidade brasileira.

Intelectual e artista sumamente importante, Solano Trindade foi um dos grandes nomes da cultura afro-brasileira e um dos vetores da efervescência cultural que fez da Cinelândia carioca, nos anos 40-50 - como no Harlem dos anos 20 - um dos mais fortes redutos artísticos e literários da consciência negra no país.

Diz aí!

Segunda-feira, Abril 12, 2004

DA SÉRIE "O SAMBA RECEBENDO"... EM SÃO PAULO

- Murilão recebe Quinteto em Branco e Preto e manda colorir.

- Padre Marcelo Rossi recebe Demônios da Garoa e exorciza.

- Paulo Vanzolini recebe Talismã e diz que não é supersticioso.

- Eliana de Lima recebe Seu Nenê e batiza com o nome de Leandro.

- Germano Matias recebe Penteado e depois se descabela.

- Jangada recebe Pato Nágua.

- Adoniran recebe Mercadoria e é preso como receptador.

- Almir "Guinêto" recebe Originais e manda fazer cópias.

- Negritude recebe Netinho e manda pra casa da vovó.

- Raça Negra recebe Rosas de Ouro e penhora na Caixa Econômica.

- Leci Brandão recebe Travessos e bota de castigo.

- Luizinho SP recebe Prateado e manda dourar.

- Carmo Lima recebe Sílvio Modesto e depois fica presunçoso.

- Zelão recebe Cidão. E se não dão, deixa pra lá.

Diz aí!

Domingo, Abril 11, 2004

ALELUIA: Ô, GLÓRIA!

Antigamente, quando era safadinha e saía no nosso bloco, o nome dela era Glória. Mas agora, depois que se casou com um tal de Dízimo, diz que seu nome é "Eva Angélica" e não quer saber de mais nada, só passar a sacolinha.

Mas como eu não sou ingrato, e em atenção ao muito de bom que essa criatura já me deu (e como!), resolvi fazer um pagode pra ela. Ré maior, Quaresma! "Cacurucai", você sabe, é o mesmo que "preto-velho" - no caso, eu. Ajeita aí a melodia, que hoje é Sábado de Aleluia e a gente precisa fechar o repertório do disco novo. Vamo lá! Senhoras e senhores, com vocês, "Ô Glória", de Lopes e Quaresma.

Ô Glória!
Saravá cacurucai!
Ô Glória
Eu também sou filho do teu Pai. (BIS)

O Pai da Glória
Que era pau pra toda obra
Batalhou, matou a cobra
Pra depois mostrar o pau.
Só trabalhava
Não descansava e nem dormia
Mas no fim de sete dias
Caiu num sono legal.

(Ô Glória!)

O Pai da Glória
Fez um batalhão de filhos
Caprichou, lustrou, deu brilho
Pra todos se darem bem
Não sou anjinho
E até já fiz canalhices
Mas a minha mãe me disse
Que eu sou filho d' Ele também .

(Ô Glória!)

A velha diz
Que ele era um Velho cem por cento
Que legou por testamento
A cada um seu quinhão
E agora a Glória
Que já sambou no meu terreiro
Só porque eu sou partideiro
Não quer me chamar de irmão.

Diz aí!

Quinta-feira, Abril 08, 2004

THE FOREIGN SINGERS
(A Paixão Segundo a Tropicália)

Na década de 60, os artistas e intelectuais do grupo da Tropicália, propugnavam pela "retomada da linha evolutiva da música popular brasileira". Sob essa proposta de evolução, tentavam, segundo José Ramos Tinhorão criar, "a partir do rock americano e de seu instrumental eletrificado", um sucedâneo musical brasileiro semelhante ao obtido dez anos antes em relação ao jazz, através da bossa nova. "Bem interpretado, o tropicalismo propunha-se a representar, em face da linguagem 'universal' do rock, o mesmo que a bossa nova representara em face da linguagem 'universal' do jazz" - analisou, depois, o maior historiador social da música brasileira, boicotado pelo coronelismo da tal "MPB" mas reabilitado em sua importância pela excelência da obra que vem produzindo.

Passado o tempo, o grande artista Gilberto Gil, hoje ministro da Cultura, lançava um disco só de reggae, "Kaya n' Gan Daya" ("kaya", todo mundo sabe o que é) apoiado num vídeo gravado na Jamaica. Agora, o também importante cantautor Caetano Veloso grava um disco, "A Foreign Sound", só de clássicos da canção norte-americana.

É... deu certo! Evoluiu...

Diz aí!

Domingo, Abril 04, 2004

UNESCO E SAMBA

Não tenho idéia muito clara do que possa, em termos concretos, representar para o samba sua elevação, pela UNESCO, ao patamar de "patrimônio cultural da Humanidade". Mas imagino que isso possa se traduzir em medidas que barrem a política de imposição da estética pop-rock em escala global, ora em curso, e que resguardem o samba em sua condição de matriz de nossa música popular urbana e elemento definidor da identidade musical nacional.

Essas medidas, em minha avaliação, deveriam, sobretudo: obrigar legalmente as gravadoras estabelecidas no Brasil a priorizarem em seus lançamentos, o samba em suas múltiplas e legítimas vertentes (considerando-se, aí, como legítimas aquelas surgidas espontaneamente e não as objeto de fusões contrafatórias); orientar a CNIC, Comissão Nacional de Incentivo à Cultura a aprovar prioritariamente, na área da música popular, aqueles projetos, de comprovada qualidade e viabilidade, que tenham como objetivo a difusão do samba, observada a legitimidade acima mencionada; incentivar, nos teatros e outros tipos de casas de espetáculo mantidos pelo poder público a montagem de espetáculos de samba. Além disso, acho que a afirmação do samba como patrimônio da Humanidade passa também, como já disse em outras ocasiões, pelo caminho da capacitação profissional.

O samba precisa de técnicos e engenheiros de som que saibam gravar, mixar e reproduzir com fidelidade as freqüências e sonoridades peculiares de seus instrumentos, que diferem fundamentalmente daqueles usados no pop-rock globalizado. Precisa de bailarinos e coreógrafos capazes de levar aos grandes e prestigiosos palcos, recriadas em linguagem teatral, a riqueza e a diversidade dos seus passos, bastante diferentes do pastiche hoje vendido como a dança do samba. Precisa também de músicos, arranjadores, regentes, acompanhantes e intérpretes, capacitados a levar para a pauta, para os espetáculos e para as gravações, partindo da tradição para a modernidade, todo o amplo espectro de seu repertório. E de produtores descolonizados e progressistas que enxerguem o samba através de uma perspectiva nacional, desvinculada da massacrante globalização em mão única que hoje assistimos. Finalmente, acho que o samba precisa é de uma política governamental que o proteja da ação das corporações internacionais também no campo minado do Direito Autoral.

Quanto aos sambistas, é preciso termos em conta que, para vencer o preconceito e disputar espaço no mercado cultural, o samba precisa manter sua imagem limpa, desvinculando-a de tudo o quanto é condenável, mostrando-se como um produto do "morro", sim, mas que se impôs no "asfalto", naquilo em que esses distintos ambientes têm de melhor.

Assim, conseguiremos destacar a multiplicidade desta arte, que inclui dos estilos mais populares à bossa-nova mais sofisticada, e caracterizá-la como um importante fato cultural, que transcende raça, classe social e faixa etária.

Diz aí!

Quinta-feira, Abril 01, 2004

1964: NOSSOS HERÓIS NA RESISTÊNCIA

Quarenta anos depois, os olhares que se têm fixado na resistência à ditadura militar instalada no Brasil em 1º de abril de 1964 nos dão a impressão de uma novela da Globo, com aqueles personagens todos lourinhos e filhos de "boas famílias". E isto quando se sabe que os muitos negros e mestiços pobres envolvidos nessa resistência, até mesmo na luta armada, foram duplamente castigados: por serem "subversivos" e por serem "crioulos folgados", que recusaram o histórico papel de passividade e subserviência que as elites nacionais lhes reservaram. E está aí o historiador Joel Rufino dos Santos, amigo e irmão que viveu na carne esse castigo, para confirmar o que escrevo.

Além de Joel, foi o caso, por exemplo, do recém falecido ator Haroldo de Oliveira, vitimado por um tiro quase fatal, aos 22 anos de idade, na invasão do prédio da UNE naquele fatídico "dia da mentira". E também, só para citar dois exemplos fortes, o de Osvaldão e Gaúcho.

Osvaldo Orlando da Costa, os Osvaldão, nasceu em Passa Quatro, MG, por volta de 1942. Formado em engenharia de máquinas na Tchecoslováquia, para onde fora como bolsista nos anos 60, ao retornar ao Brasil, ingressou na luta armada contra a ditadura militar.Com um suposto curso de guerrilha na China, aliado a uma compleição física invejável - era um negro de quase 2 metros de altura - e a um preparo de atleta, foi envolvido numa aura de lenda, segundo a qual teria o dom da imortalidade. Após sua execução, em São Domingos, Mato Grosso, em 1974, num episódio da chamada Guerrilha do Araguaia, sua cabeça - numa prática que remontava ao Brasil colonial - foi decepada para ser exibida à população e enterrar de vez o mito.

Já Gaúcho era o apelido de Edmur Péricles Camargo, nascido em 1914, em São Paulo. Jornalista e também de compleição bastante forte, militou em vários movimentos de esquerda desde a década de 1950. Banido do país em 1971, exilou-se no Chile juntamente com outros companheiros. Após a derrubada de Salvador Allende, foi para a Argentina, desaparecendo quando tentava entrar clandestinamente no Brasil com outros banidos. Segundo relatórios oficiais, teria sido preso por autoridades brasileiras e argentinas em junho de 1975, no aeroporto de Buenos Aires, em trânsito do Chile para o Uruguai, usando o nome falso de Henrique Vilaça. A partir daí, nunca mais foi localizado.

O mito do negro dócil que ajuda a sustentar o cordial racismo brasileiro também é um "1º de abril". E a prova está nesses heróis, cujas memórias hoje humildemente reverencio aqui deste meu lote.

Fonte: LOPES, Nei - "Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana", no prelo (ainda).

Diz aí!