meu lote


Terça-feira, Março 30, 2004

LUZ, CÂMERA, MÚSICA!

Nosso amigo Rodrigo Browne, jornalista de Curitiba, levantou uma bola legal. Em recente reportagem, ele lembra que os dois últimos grandes sucessos do cinema nacional, Central do Brasil e Cidade de Deus, têm em sua trilha o samba "Preciso me Encontrar", de Candeia (1935-78), na voz de Cartola (1908-80) e ao som pungente do saudoso fagote de Airton Barbosa (1942-80).

O samba e os desprestigiados músicos brasileiros afro-descendentes saúdam o bem patrocinado e premiado cinema brasileiro.

Diz aí!

Segunda-feira, Março 29, 2004

LINHAS DE ALFE

Manja aquele papo de futebol da antiga, com beque, centeralfe e centrefor; com aquelas escalações tudo ritmadinhas? Pois é... Rolava essa conversa ontem aqui na esquina, no "Café e Bar Cesárias de Évora".

Foi quando o Tião Catuaba, que sabia tudo, resolveu tomar umas de graça, por conta do Seu Albino Lobarinhas:

- Diz aí o time e o ano, Albino! Cada trio de goleiro e beques e cada linha de alfe que eu acertar, você libera uma Da Roça. Mas só vale linha de alfe e trio final!

Seu Albino topou, chegou junto. Aí, puxou bem pela memória e mandou:

- Basco! Linha de alfe, 1942:

- Alfredo, Figliola e Argemiro! - Tião respondeu na bucha.

- Andaraí, trio final, 32:

- Nabuco, Aragão e Dondon - Tião rebateu no ato.

- Votafogo, linha de alfe, 52:

- Arati, Bob e Juvenal - Tião mandou de trivela.

O desafio já durava quase 1 hora e o Tião já tinha um crédito de mais de dez doses, fora as cinco que já tinha virado. Aí, começou a apelar e mandar tudo quanto era trio que lhe vinha na cabeça, naquele ritmo certinho.

- Reco-Reco, Bolão e Azeitona... Sena, Maná e Rosa... Javari, Juruá e Purus... Piano, Baixo e Bateria... Santa Maria, Pinta e Nina...

Mas, nessa última, Seu Albino chiou:

- 'Xpera aí, ó pá! Nessa eu te p'guei! Santa Maria, Pinta e Nina foi a linha de alfe do São Cristóvão... não, 'xpera aí ... do América... não! ... Ah! Lembrei! Foi da seleção da Culômbia! Em 1492!

Diz aí!

Sexta-feira, Março 26, 2004

O SAMBA RECEBENDO

Quando leio a programação de samba na Agenda (aliás, só lá é que tem) e vejo aquele negócio do "Fulano recebe Sicrano", começo a pensar besteira. Tipo assim, ó:

- Mart'nália recebe Agrião e faz uma tremenda rabada na Vila.

- Agrião recebe Bom-Bril e deixa as panelas tinindo.

- Barbeirinho recebe Cabelinho e raspa com a navalha.

- Luiz Carlos da Vila recebe Sapato e deixa de andar de chinelo.

- Efson recebe Jovelina e a platéia sai correndo.

- Luiz Grande recebe Fundo de Quintal e exige o terreno todo.

- Nelson Sargento recebe Pelado e deixa as visitas chocadas.

- Jamelão recebe Tantinho da Mangueira e reclama que é muito pouco.

- Seu Jair do Cavaco recebe Sete Cordas e devolve três.

- Monarco recebe Sarabanda do Jacarezinho e promete ir à forra.

- Zé Luiz recebe Confete e joga tudo pro alto.

- Arlindo Cruz recebe Sereno e exige Sombrinha.

- Cláudio Jorge recebe Xangô e bota fogo pela boca.

- Luis Filipe de Lima recebe Revelação e vira pastor evangélico.

Diz aí!

Quinta-feira, Março 25, 2004

BOLOLÔ EM CURURUPU

Cururupu é cidade e município da zona do litoral norte do Maranhão, estado de graça da minha querida Alcione, a "marrona" (cheia de marra, no bom sentido; e porque pode), e dista 470 km da capital, na ilha de São Luís. Pois saibam Vossas Excelências que, na década de 70, Cururupu tinha 74 estabelecimentos de ensino primário e apenas 2 de ensino médio. O povo de lá criava porco, pescava, trabalhava nas salinas, extraía babaçu e plantava mandioca pra fazer farinha e comer. Mas em 74 nasceram 2326 criancinhas lá, todas vivas (em Codó, outro município maranhense, nasceram mais porém os natimortos foram 7), prova de que a rapaziada lá... Mas esses são dados de 1974, que a minha enciclopédia está vencida!

E este caô maranhense, de bigodão e jaquetão, saibam Vossas Excelências que é pra contar uma historinha muito engraçada, que me trouxe agora, fresquinha, o meu amigo de infância Gilberto Nascimento, colega da Escola Mauá e freqüentador deste nosso lote. Toca, Gilberto!

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"Nei: Saiba que VOCÊ foi o causador involuntário do maior sururu em Cururupu. Leleco, também meu amigo de infância, contou-me, neste final de semana, a historinha que se segue e eu rí às pampas. Ele conta que nas estradas de acesso a Cururupu muitas placas de trânsito avisam: "Cuidado! caranguejos na pista". Pode? Pode.

Pois bem: corria o ano de 1992 e Leléco, ou melhor, o Comandante Indalécio, como era lá conhecido, aposentado da Marinha Mercante, carioca, "figura de -proa da alta sociedade cururupuense", casado com D.Graça, oriunda do lugar; vivia seus dias semi-paradisíacos. Bem, o Leléco, a uma semana do carnaval, em cima de uma escada, envernizando o madeirame da varanda, ouvia tranquilamente um LP: "Os melhores sambas-enredos do carnaval de 1977(RJ)" . Nisso, uma sua empregada grita: - Ô comandante! esse samba o tal de "Sacode Bem"é da Escola "Aspirante do Samba".
- É mesmo? responde Leléco, vamos apurar.
Ligou o telefone e colocou o presidente da Escola em que desfilava "Águia do Samba" para ouvir a gravação. Bum ! O samba era o mesmo. Bafafá formado. Um tal de Nei Lopes era o autor, no Rio, daquele samba bom pra cabeça, pois o tema do "Aspirante..." era Cachaça. (Fui ainda informado que naquela época cerca de 200 ônibus partiam de São Luis para o carnaval de Cururupu).

A desculpa veio: um tal de Rubinho alegou ter sido autorizado (claro que agá) pelo Nei Lopes para divulgar o samba. Carnaval a pique. Solução encontrada: não haveria disputa, todos desfilariam sem mágoas ou dissabores.O samba não podia tirar nota zero, era bom demais pra não ser cantado (apesar de injustamente ter sido segundo lugar no Salgueiro). Leléco, ainda foi acusado de "forasteiro! Quer é acabar com o carnaval de Cururupu" , só faltou levar porrada. Mas, ao passar o carnaval, foi entrevistado por repórter do jornal ' O Imparcial'.

Primeira página: "Carioca atento" . Plágio , etc. Foi um desbunde".

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Essa historinha do Gilberto é duca! E o "Sacode Bem" está realmente gravado, por mim, no LP RCA "Os Melhores Sambas Enredo de 77". Na cola do sucesso do "Estrela de Madureira", do Império, samba perdedor de 75 que, na voz de Roberto Ribeiro, fez muito mais sucesso que o vitorioso, a gravadora resolveu investir no filão. Meu samba, em parceria com Tuna e João Laurindo
foi pra final do enredo "Do Cauim ao Efó, com Moça Branca Branquinha". Mas como o enredo era sobre cachaça, como disse o Gilberto, ganhou o saudoso Geraldo Babão, que tinha muito mais conhecimento do que eu. De birinaite e de samba.

Diz aí!

Segunda-feira, Março 22, 2004

UMA VIAGEM JÁ NEM TÃO FANTÁSTICA

A palavra, realmente, como diz a filosofia tradicional africana, "é como fogo: pode criar a paz, assim como pode destruí-la; e sendo agente mágico por excelência e grande transmissor de força, não pode ser usada levianamente". E eu já tive experiências em que escrevei uma letra de samba e depois o conteúdo dela se concretizou - até em episódios tristes.

Mas agora a coisa se dá numa boa! É que ano passado escrevi uma letra, musicada com a ajuda bacana e amiga do parceiro Ruy Quaresma, que contava uma viagem fantástica, de ficção científica, de Saracuruna, perto da Rio-Petrópolis, a Seropédica, que é aqui à margem da antiga Rio-São Paulo.

O trajeto era meio longo e improvável, porque o viajante teria que vir até a Avenida Brasil (longe paca!), contornar ali perto da Cidade Alta e começar tudo de novo, na direção de Campo Grande ou de Paracambi.

Mas eis que leio no jornal o anúncio da obra do Anel Rodoviário, que vai cortar a Baixada, saindo de Niterói, chegando a Magé e, de lá, passando por Magé, Guapimirim, Saracuruna, Caxias, Nova Iguaçu, Japeri, Seropédica, Itaguaí e, finalmente, chegando ao porto de Sepetiba.

Aí, vai ser mole vir de Saracuruna até Seropédica. Cantando assim, ó (Dó maior, Ruy! Segura aí, Marceu!):

Saracuruna a Seropédica / Saracuruna a Seropédica!

(REFRÃO, BIS)

Eu e o Beto Sem Braço / mais compadre Almir Guineto
Fomos fazer um sanhaço / na caxanga do Aniceto
Que era mais ou menos perto / ali de Parada Angélica
Mas no meio do trajeto / houve uma coisa tétrica
Surgiu no céu um objeto / brilhante, de forma esférica
Isso se deu no trajeto / de Saracuruna a Seropédica...

(REFRÃO, BIS)

Uma fisgada no baço / a pressão baixou direto
Senti no corpo um cansaço / que me apagou por completo
Já dentro do objeto / vi luzes psicodélicas
E uma voz saiu do teto / cavernosa e cadavérica.
Isso se deu no trajeto / de Saracuruna a Seropédica...

(REFRÃO, BIS)

Quando desci lá do espaço / vim versando em dialeto
Todo fora do compasso / tudo errado e nada certo
Foi aí que o Aniceto / numa tirada profética
Disse que o estranho objeto / roubava veias poéticas
De partideiros espertos / pra transplantar lá na América
Isso se deu no trajeto / de Saracuruna a Seropédica...


Diz aí!

Terça-feira, Março 16, 2004

OH, TEMPOS...OH, SABORES!

Na década de 70, no samba e no Rio, o pega-pra-capá cervejal era estupidamente polarizado entre as marcas Antarctica (já sem a Faixa Azul e a Portuguesa, ahhh...) e Brahma. Só que esta era tida pela rapaziada como a cerveja dos coroas, os quais replicavam dizendo que a outra era cerveja de otário e até, num extremo, daquela categoria masculina que na Bahia se classifica como "falso ao corpo".

Mas aí a paulista Antarctica caiu dentro e lançou como seu "garoto-propaganda" o velho e insuspeito Adoniran Barbosa, com aquela voz rouca, perguntando: - Nos vinhemo aqui pra bebê ou pra conversá?

Embora nem otário nem muito menos falso às minhas mais arraigadas convicções, eu preferia Antarctica. Tanto que no meu aniversário de 33 anos, em 1975, meu compadre Celso Pavão me deu de presente um samba que dizia assim (ré maior, Revisor!):
"A grande companhia do sambista/ é a Antarctica paulista/ Salve o Nei e o Adoniran./ Brahma quando desce, dói, machuca/ é cerveja de sinuca/ pé-sujo e Maracanã./ Glória ao sambista cervejeiro/ compositor do Salgueiro/ na idade de Jesus./ Deus o livre de ressaca, cirrose e de bode/ sempre com muitos pagodes/ e os caminhos cheio de luz."

Pois é... No meu paladar, cerveja é uma questão de gosto - que no caso ora em tela não dá nem pra discutir. Com relação aos aspectos nocivos à saúde desse hábito tão arraigado no mundo do samba, confesso que prefiro uma cerveja que me faça mal no dia seguinte a outra que já me dificulte, mesmo sóbrio, até pronunciar seu nome. E se a questão é de "ética", nesse contexto a única palavra que combina é "antártica". Pelo menos na acentuação tônica.

Diz aí!

Segunda-feira, Março 15, 2004

ALIENAM VITAM BONA SALVARE

Muito pouca gente sabe que eu tenho um dobrado, uma marcha militar de minha autoria, no repertório da Banda do Corpo de Bombeiros do RJ. Trata-se de uma obra razoável, valorizada por um magistral arranjo do magistral saxofonista Macaé; chama-se "Coronel Dorcelino" e foi assim intitulada para homenagear um amigo.

Menos gente, ainda, sabe que eu já recebi um diploma "pelos relevantes serviços prestados à Corporação". E muito menos conhece um samba-enredo dos Aprendizes de Lucas, acho que de 1958, que dizia assim:

"No tempo imperial surgiu/ essa briosa corporação/ exemplo edificante/ de bravura sem igual/ que sob o alvirrubro pendão/ cumpre a sua sagrada missão/ de contra as chamas dantescas lutar/ e vidas e riquezas alheias salvar..."

Pois essa frase final da primeira parte da letra é exatamente a tradução do dístico em latim lá em cima, lema da "briosa corporação".

Saiba o leitor que a grande escola de samba Aprendizes de Lucas, verde e branca, fundiu-se em 1968 com a Unidos da Capela, branca e azul, para dar origem à Unidos de Lucas, vermelho e ouro. Isto, num tempo em que bateria (e a da Capela era demais!) não precisava de "madrinha" nem de "musa" pra incendiar a avenida. E calendário, mesmo, era o da Pirelli, que nos anos 60 teve uma edição inteiramente dedicada ao samba. Quem se lembra?

Ah, ia me esquecendo! O samba terminava assim, ó:

"Corpo de Bombeiros/ símbolo de abnegação/ Valentes soldados do fogo/ lutam com as forças do coração/ Seus feitos estão gravados na história:/ ação, audácia e glória! Lararararará...larararararará"

Diz aí!

Sexta-feira, Março 12, 2004

ABDIAS, 90 ANOS DE UM LÍDER INCONTESTE

Neste domingo, 14 de março, amigos e correligionários de Abdias Nascimento estarão celebrando seus 90 anos com uma solenidade na tradicional Igreja do Rosário, sede da irmandade dos "homens pretos" na rua Uruguaiana. Daqui do meu quilombo, envio meu abraço ao líder, através do texto que se segue.

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Em 1999 era publicada nos Estados Unidos a Africana: The Encyclopedia of the African and African American Experience. Trata-se de um tão volumoso quanto importante livro, organizado por Kwame Anthony Appiah e Henry Louis Gates, com a colaboração de uma equipe de centenas de colaboradores da área acadêmica , responsável pela elaboração de longos e bem fundamentados artigos, distribuídos por mais de 2 mil páginas.

Sem dúvida a maior obra já publicada sobre a África, suas civilizações e seu impacto na cultura mundial, a Africana, sonho acalentado durante anos pelo respeitado intelectual afro-americano W.E.B. Du Bois, nasceu principalmente da carência de uma obra de cunho enciclopédico na qual se enfatizasse a origem africana de importantes instituições, realizações, eventos e personalidades em todo o mundo. Nas publicações disponíveis até então, a africanidade parecia ter apenas interesse etnográfico, nelas raramente figurando heróis, sábios, grandes homens realçados em sua circunstância étnica. Inclusive, no Brasil, para publicações desse tipo, em geral, o vocábulo "negro" define mais uma categoria social, já que os "grandes homens", quando afro-descendentes, são apenas "nascidos em lar humilde" e quase nunca efetivamente "negros".

Foi, então, seguramente para reparar essa grave omissão que o sonho de Du Bois se concretizou na elegante Africana. E, nela, na página 1385 do volume de 2093 páginas, impecavelmente impressas em papel cuchê, lá está a entrada: "NASCIMENTO, Abdias (...) Afro-brazilian playwright, poet, educator, artist, and political activist; onde of the leading figures of Brazil's black movement". E segue-se o alentado verbete, ilustrado por uma bela foto colorida do venerando brasileiro.

Nascido no interior paulista, numa família operária, em março de 1914 - há exatos noventa anos portanto -, Abdias do Nascimento foi sucessivamente entregador; servente de laboratório farmacêutico; e faxineiro num consultório médico, atividade que acumulou com a de estudante de contabilidade num curso noturno. Até que na década de 1930 se transfere para São Paulo e, depois, para o Rio de Janeiro.

A vida intelectual e artística na antiga capital federal fascina o jovem interiorano. A cidade fervilha, notadamente no centro, numa área nítida e simbolicamente demarcada pelos prédios da Biblioteca Nacional, da A.B.I., do Teatro Municipal, da Câmara dos Vereadores e do antigo Senado. É ali, naquele ambiente efervescente de idéias que, em 1944, levado pela constatação de que "num país de negros, o negro não podia representar papéis principais, mesmo quando os personagens desses papéis fossem especificamente negros", Abdias funda, dirige e atua no T.E.N., Teatro Experimental do Negro.

Muito mais que um simples companhia de teatro, o T.E.N. foi uma das primeiras experiências de conscientização e luta pela cidadania dos descendentes de africanos no Brasil. Tendo a prática teatral como alavanca, o movimento religava os elos de uma corrente quebrada com a dissolução da Frente Negra Brasileira, alguns anos antes.

A partir dessa primeira e decisiva experiência, Abdias organiza encontros nacionais para discutir a questão negra; funda e dirige o jornal Quilombo e o Museu de Arte Negra, este não um mero acervo físico de obras mas um núcleo irradiador de conhecimento voltado para a estética afro-brasileira. E por aí vai.

No exílio, nos anos 70, fez-se professor na Universidade do Estado de Nova Iorque em Buffalo, onde fundou a cadeira de Cultura Africana no Novo Mundo tendo sido, ainda, professor visitante nas universidade de Yale e no departamento de línguas e literaturas da Universidade de Ifé, na Nigéria. A partir dessa década, tornou-se presença constante em congressos e fóruns de debates anti-racistas nos Estados Unidos, na África e no Caribe, constituindo-se na primeira voz brasileira a ecoar no cenário do pan-africanismo.

Em 1982 coordenou e presidiu, na PUC-SP, o 3º Congresso de Cultura Negra das Américas; em 83 elegeu-se deputado federal; e a partir de 1991 assumiu, seguidamente, o Senado na condição de suplente de Darcy Ribeiro; e os cargos de secretário de Estado de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras e de Cidadania e Direitos Humanos, ambos no governo do Estado do Rio e Janeiro.

Além de a mais longeva liderança negra em atividade no Brasil, o pan-africanista Abdias Nascimento é também, como verbetizou a enciclopédia Africana, ator, autor teatral, poeta e artista plástico. Guerreiro com nome de profeta, sua trajetória se escreve com a lança e a pena da mais absoluta coerência. Coerência de 90 anos absolutamente bem vividos, dentro dos quais quase setenta dedicados à luta pela afirmação, no Brasil e no mundo, do ser humano negro em todas as dimensões.

Diz aí!

Quarta-feira, Março 10, 2004

A PRIMEIRA UMBIGADA

A origem do termo "samba" sempre esteve ligada a semba, estilo de dança congo-angolana caracterizada pela umbigada com que o cavalheiro distingue a dama, gesto esse recriadas em antigas danças afro-brasileiras. Tanto que, no meu tempo de garoto, tocava no rádio um baião cuja letra dizia assim: "a primeira umbigada éo baiano que dá/ eu também sou baiano/ também quero dar".

Entretanto,muito mais que "umbigo", o termo multilingüístico africano semba, que está na raiz do nosso "samba" significa "agradar, encantar" (em quimbundo), além de "honrar, reverenciar" (em quicongo). Dele se originaram disemba e masemba que, aí sim, significam "umbigada", respectivamente no quimbundo de Angola e no quicongo. Observe -se que, nas danças africanas das quais o samba se originou, a umbigada, muito mais do que "a representação grosseira do ato sexual" apontada pelos missionários portugueses na época colonial, representava um agrado, um ato de sedução e uma reverência do homem para com a mulher, o que reafirma a elegância da civilização tradicional africana.

Mas isso tudo, desculpem, é aproveitado de uma correspondência que troquei por esses dias e vai aqui só para incrementar um pouquinho o lote, já que não anda me sobrando tempo pra parar e bater aquele papo gostoso. Mas daqui a pouquinho já vai dar.

Diz aí!

Sexta-feira, Março 05, 2004



DUAS CARTAS PARA O GLOBO

Para conhecimento dos visitantes do meu blog, transcrevo abaixo duas cartas enviadas a O Globo, respectivamente em novembro e fevereiro, e não publicadas. Comentem vocês!

O POP BOM DE CABEÇA

Senhores: Peço licença para comentar a matéria "O pop que está bom da cabeça..." (Segundo Caderno, pag.4, 28.11.03), assinada pelo João Pimentel, o caríssimo "Janjão":

Tenho um razoável conhecimento de história da música popular e vejo como saudáveis os muitos processos espontâneos de fusão e transculturação ocorridos no seio dessa forma de arte ao longo do tempo.Sei que se não houvesse a fusão da polca, da mazurca, do xote, da habanera cubana etc. com o samba, o choro não seria o que é. Da mesma forma que da assimilação do bolero cubano e mexicano pelo samba nasceu o samba-canção; que, do samba com o bebop, no ambiente da bossa-nova e a partir dos trios piano-baixo-bateria, surgiu o samba-jazz; da mesma forma que, do canto cool do jazz nasceu o samba bossa-nova; e que, da cadência ralentada das antigas baterias das escolas baianas (Diplomatas de Amaralina, Apache do Tororó, Juventude do Garcia, todas já extintas) com ritmos antilhanos criou-se a levada "olodum" etc, etc.

Reconheço como saudáveis todas essas fusões porque foram espontâneas, nenhuma delas, pelo que sei, fruto de jogadinhas de marketing de gravadoras ou produtores de entretenimento. E vejo com profunda desconfiança essas tentativas, que toda hora aparecem, de "rejuvenescer", "dignificar" e "dar uma força" para o samba -- "essa coisa velha e ultrapassada", como querem nos fazer acreditar.

O samba, origem e sustentáculo da melhor música popular brasileira, está aí se recriando e diversificando espontaneamente há pelo menos 70 anos. E seu vigor mostra que ele é natural e viceja em solo fértil, só precisando de ar para respirar, água para beber e um carinho de vez em quando. O samba não precisa de agrotóxicos nem de experiências genéticas de resultado duvidoso. Essas coisas redundam, no meu modesto entender, pura sugação de energia. E, elas sim, podem fazer o samba agonizar e morrer.
a) Nei Lopes

SAMBA PERENE

Parabenizo o O Globo pelo editorial de domingo de carnaval ("Samba Perene", 22/02/2004). Finalmente, o veículo mais importante da Imprensa brasileira focaliza o samba como componente fundamental da nossa nacionalidade invadida e assume a vanguarda na luta por sua libertação do gueto espaço-temporal das escolas e do carnaval. É importante, agora que os outros veículos do poderoso Sistema Globo também se alinhem nesta trincheira, em defesa do nosso patrimônio musical. Estou confiante. Parabéns!!!!!
a) Nei Lopes

PS: Nesse editorial, O Globo, depois de dizer que, hoje, a Lapa "serve de vitrina para mostrar o que a música representa para a cidade", fechava dizendo: "O caminho é ampliar o samba para além do carnaval. As escolas de samba são maiores que a Marquês de Sapucaí".

Diz aí!

Quinta-feira, Março 04, 2004

ÓCULOS VENCIDOS

Juro que é verdade! Tô eu naquele bembom, curtindo a Rádio MEC de tardinha, quando entra um locutor noticiarista. Fala que fala, ele dá uma nota sobre um show, ou lá o que fosse, de alguém ligado à Mangueira. Aí, mete lá, com aquela voz ministerial-da -educação: "No repertório, músicas de Nelson Sarmento e Carlota".
Juro por tudo quanto é mais sagrado que não estou mentindo! Foi na semana do carnaval, ali por volta dumas 4 horas da tarde.

Diz aí!

Quarta-feira, Março 03, 2004



EU, CONTISTA...

A Livraria Folha Seca, do nosso querido Rodrigo Ferrari, agora na rua do Ouvidor, vai bombar no dia 16. Vai ser o lançamento da antologia "Terra de Palavras", onde o velho aqui diz "presente" com um conto ambientado num morro carioca nos anos 80. Vou ver direitinho o endereço e o horário e boto aqui no Lote. Por enquanto, curtam release que está sendo veiculado pelos editores:

TERRAS DE PALAVRAS

Histórias de amor, solidão, a morte e a vida. A beleza de uma bailarina negra, o cotidiano de pessoas comuns, a fé e as raízes. Se a oralidade sempre foi uma marca de identificação e resistência da população negra no Brasil e na diáspora africana, Terras de Palavras se inscreve entre as valiosas produções literárias publicadas no Brasil.

Terras de Palavras, é uma edição conjunta da Pallas Editora e Afirma.

Organização e introdução de Fernanda Felisberto.

A antologia reúne contos de Eduardo H.P. de Oliveira, Esmeralda Ribeiro, Kátia Santos, Lande Onawale, Cuti, Márcio Barbosa, Marco Manto Costa, Mayra Santos-Febres, Micheline Coulibaly e Nei Lopes.

Apresentações de Conceição Evaristo e Maria Consuelo Cunha Campos

192 p; R$ 22,00. Formato 11,5 x 16,5
Pallas Editora; tel: 21 2270-0186


Diz aí!

Terça-feira, Março 02, 2004



SÈ LÈ KOULÈV MOURI, OU KONN LONGÈ LI.

Segundo Anthony Daniels, do Daily Telegraph (O Globo, 01.03.04) a tragédia do Haiti dever-se-ia ao seguinte: após a independência, em 1804, "os haitianos ficaram divididos em três classes incompatíveis: escravos recentemente chegados da África; negros proprietários de terras; e os mulatos que controlavam as cidades e o comércio". Até aí, tudo mais ou menos certo já que, por várias vezes, os interesses da burguesia urbana e os do latifúndio estiveram lado a lado. O que não é nada certo é, agora, querer botar tudo na conta dos 95% de afro-descendentes que compõem a população da terra de Toussaint e Dessalines -- o primeiro país, depois dos Estados Unidos, a afrontar e vencer a hegemonia européia no mundo contemporâneo, numa "ousadia" que a chamada "civilização ocidental" jamais perdoou.

Não! O Haiti não é um país de negros boçais, incapaz de se autogovernar. Após a declaração de sua independência, a intelectualidade haitiana passou a produzir uma grande literatura e muitos livros didáticos. O número dessas publicações - 5 mil títulos de 1804 a 1954 - grarantiu ao país, na época, a maior produção per capita de livros em todas as Américas, inferior apenas aos Estados Unidos. Mas isso é coisa que a gente vai saber com detalhes na nossa Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, prometida pela paulistana Summus Editorial para o segundo semestre; e ainda no nosso Kitabu, o livro do saber e do espírito negro-africano, também já no forno, aqui na SENAC-Rio Editora.

O que importa, agora, é não debitar apenas na conta dos negros essa interminável tragédia. Pois isso seria o mesmo que dizer que a violência dos morros cariocas é toda culpa da maioria de afro-descendentes que começou a se fixar nesses locais no início do século 20. Afinal, quem foi que levou negros cativos para trabalhar no Haiti? Quem antes se apossara das terras indígenas que os emancipados de 1804 tomaram "na mão grande"? E quem, afinal, gerou os "mulâtres" haitianos ?

Como diz um provérbio local, "sè lè koulèv mouri, ou konn longè li", ou seja, " só quando a cobra morre é que a gente vê como ela é comprida".

Diz aí!