meu lote


Sábado, Fevereiro 28, 2004

O SAPATO DO SEU GERALDO

Dias atrás, na primeira edição pós-carnavalesca de sua coluna em O Globo, a jornalista Cora Rónai (cujo pai ou avô, com seu Gradus Primus et Secundus me iniciou nos mistérios do latim) contou um caso de carnaval: um casal seu amigo pintou de dourados velhos pares de sapatos para desfilar no Império Serrano. O fato, aparentemente corriqueiro, me trouxe à lembrança uma outra passagem.

No carnaval de 1985, saímos eu e mais uma dezena de velhotes na comissão de frente do nosso Salgueiro, liderada por meu amigo Haroldo Costa. O enredo era uma homenagem ao presidente Getúlio Vargas e nosso traje, casaca e cartola em cor cinza, faixa vermelha atravessada sobre a camisa branca, calça preta de "risca de giz", gravata e sapatos pretos - estes, sociais, sóbrios, de cadarço. Tudo tinindo, novinho em folha!

Só que sapato novo, mesmo feito de encomenda, sabe como é que é, né? Principalmente em pé de velho, com todos aqueles joanetes, unhas encravadas e esporões. E aí, na concentração, Seu Geraldo do Caxambu, irmão de Dona Fia e tio de Mestre Louro e Almir Guineto, me confidenciou:

- Ah, meu camarada! O sapato novo tava me apertando que tava danado. Aí, peguei esse que eu só tinha usado uma vez, num casamento, dei mais um brilho e vim com ele. Tá ruim?

Claro que não estava! Sapato preto social, de cadarço, brilhando, é tudo a mesma coisa. Ainda mais visto à distância, em meio às luzes do sambódromo em festa.

Acontece, entetanto, que na hora do "vamo vê", a escola ficou em quinto lugar. E a comissão de frente tirou nota 9, o que gerou uma crise institucional na nossa Velha Guarda.

O saudoso Moacir Lorde, fundador da tradicional Ala dos Lordes, contabilista das tendinhas do morro do Salgueiro, ex-presidente da escola e conhecido por seu temperamento exaltado, tinha ouvido a confidência de Seu Geraldo. E, na reunião, botou a boca no trombone: - A gente se ferrou porque o Geraldo veio de sapato velho! Ele não tem compostura pra sair numa Velha Guarda!!!

***

Cora Rónai certamente não sabe o tabu que representa, para um sambista tradicional, esse negócio de aproveitar fantasia usada. E se algum coroa do Império leu a coluna dela, vai botar a culpa em seus amigos pela decepcionante colocação da escola da Serrinha.

Diz aí!

Sábado, Fevereiro 21, 2004



GRANDE RIO, ANOS TRINTA

Há 35 anos, é quase certo que nenhum dos famosos e celebridades que hoje, no carnaval carioca, se dizem "Grande Rio desde criancinha" tivesse ainda nascido.

Rolava o ano de 1969. A cidade, hoje comandada ou terceirizada por sabe-se lá quem, era apenas a simpática capital do efêmero Estado da Guanabara. E o município de Duque de Caxias, no antigo Estado do Rio, ainda era a terra do político bambambam Tenório Cavalcanti e de Joãozinho da Goméia, pai-de-santo que levou a tradição dos orixás jeje-nagôs até os palcos e deles para a avenida. Pois, nesse último ano da década de 60, os dirigentes do samba Amauri Jório e Hiram Araújo publicavam Escolas de Samba; vida paixão e sorte, um livro tão cheio de erros de revisão quanto fartamente documental, que seria o primeiro grande inventário das escolas de samba cariocas.

Naquele tempo, sob as ondas da Rádio Difusora de Caxias e da Rádio Clube Fluminense - está lá no livro - movimentados programas de samba iam ao ar, varando a noite. Neles, tocava-se samba, veiculavam-se notícias do mundo do samba, debatiam-se questões palpitantes. E, naturalmente, lamentava-se a baixa performance das quatro escolas locais.

Essas escolas eram a azul e branco União do Centenário, da rua Seabra Sobrinho, no bairro que lê emprestava o nome; a Capricho do Centenário, verde e branco; a Unidos da Vila São Luiz, vermelha e branca, na qual se destacava a figura ímpar de Diva, compositora e emérita partideira; e a amarelo e azul-pavão, intitulada Cartolinhas de Caxias, na qual brilhava, impávido e elegante, o também mangueirense Hélio Cabral (1926 -97), com seus sambas antológicos, entre eles o Benfeitores do Universo ("Acordem, benfeitores do universo!/ Que eu vou render tributo aos meus heróis/ E nesta apoteose de grandeza/ Eu peço a presença de todos vós...") eternizado por Martinho da Vila.

No carnaval de 1952 - está lá no livro de Amauri e Hiram - a Cartolinhas cegou em 17º lugar na Praça Onze, num carnaval vencido pela Unidos do Indaiá, de Marechal Hermes. No ano seguinte, a Capricho do Centenário desfilou mas sem obter nem classificação. Em 54, Cartolinhas e Capricho empatavam em 11º lugar, para chegarem respectivamente em 6º e 9º no carnaval seguinte. Em 56 e 57, Cartolinhas chegando em 12º e 18º na chamada "poeira", a hegemonia caxiense ficava com o Capricho. Mas, no final da década de 1960 essa liderança se transferiria para a União do Centenário, considerada, já, por Jório e Araújo, uma escola de porte médio.

Em 1971, o município de Duque de Caxias, com cerca de 310 mil habitantes (contra 123 mil do vizinho Nilópolis), possuía 135 estabelecimentos de ensino primário e 15 de ensino médio (contra, respectivamente, 64 e 14 de Nilópolis), sendo cinco de ensino comercial; já tinha grandes indústrias, entre elas a refinaria da Petrobrás, dando emprego a cerca de 20 mil pessoas; e alguns bens tombados como patrimônio histórico e artístico nacional, como a igreja de N.S. do Pilar. Nesse ano, então, com a Beija-Flor de Nilópolis já preparando o vôo que a levaria ao infinito, ilustres membros da boa sociedade caxiense convenceram os sambistas a unir as quatro pequenas escolas numa só, a Escola de Samba Grande Rio, que adotou as cores azul, vermelho e branco e se estabeleceu na rua Dr. Manuel Teles.

Mas a participação caxiense, ao contrário da nilopolitana, no carnaval carioca continuava tímida e discreta. Até que, emulando a Beija-Flor que, a partir de 1976, conseguira projetar nacionalmente o nome de seu então obscuro município, a Grande Rio mudava suas cores e, talvez evocando o verde da Capricho e o vermelho da São Luiz, transformava-se em 1988 na tricolor Acadêmicos do Grande Rio, com sede na avenida Almirante Barroso.

Em apenas 16 anos a caçula das superescolas virou "celebridade". E passou a ser a principal escola dos famosos da televisão. E, hoje, sob a batuta do anti-ortográfico "Joãosinho" Trinta, tem carro alegórico figurando posições do Kama-Sutra; abre-alas com Eva e Adão fazendo saliência; e até saias de baianas com coxas se engalfinhando nas mais antigas das posições.

Daqui a alguns anos, então, a frase chavão "eu sou Grande Rio desde criancinha" é capaz de ser substituída por essa aqui, ó: "Eu saio na escola desde os Anos Trinta. Quando a Grande Rio fazia criancinha".

De minha parte, só me resta tomar essa Belco morna e comer esse torresmo vencido aqui no Meu Lote. Carnaval é assim mesmo... Evoé, Momo! Saravá, Baco! Bom carnaval pra todos!

Diz aí!

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2004

GLOBO DISCUTE CULTURA BRASILEIRA

A estratégia é conhecida: organiza-se um seminário para discutir a "cultura brasileira"; convida-se uma personalidade, só uma, de pensamento discordante (e já folclorizado) e, ao mesmo tempo, engrossa-se o coro dos entreguistas, oportunistas e contentes. Aí, o discordante passa por "radical", "maniqueísta", "retrógrado", "tinhorão". Então, pronto! Traçam-se, à luz do mercado, os rumos de uma cultura brasileira imaginária. Sem ouvir os verdadeiros produtores da rica, diversificada e real cultura brasileira. O jovial Nelson Motta, cujas memórias, altamente reveladoras, acabo de ler, estava lá, é claro!

Diz aí!

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004



EU E O QUINTETO

Uma das melhores coisas que aconteceram ao samba nos últimos dez anos foi o surgimento, em São Paulo, do Quinteto em Branco e Preto. Com esses cinco jovens, altamente talentosos e aplicados, tenho passado os melhores momentos de minha carreira musical. E com eles venho compondo uma obra já alentada - que agora, com a gravação de Alcione para o samba "Primo do Jazz" (minha e do pandeirista Magno de Souza) começa a sair do ineditismo. A foto acima é de uma das últimas apresentações minhas com o grupo, no projeto "Samba da Gema" no SESC-Pompéia, numa produção de meu amigo Carmo Lima, hoje, sem favor, o maior produtor de samba nessa Paulicéia desvairante.

Diz aí!

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2004

REDE GLOBO DEBATE COLONIZAÇÃO CULTURAL

No sábado 7 de fevereiro, o Jornal Nacional da TV Globo veiculou ampla matéria em que o repóter Maurício Kubrusly discorreu sobre a colonização cultural que assola o Brasil, do delivery ao pet shop. A seguir, Arnaldo Jabor, em sua crônica, abordava o mesmo assunto, advertindo que, se continuar do jeito que está, bye bye Brazil...
Dia seguinte, abro O Globo e vejo lá anúncio de meia página sobre o seminário a ser realizado , 5ª feira dia 12, no Teatro do Tuca, em Perdizes, na Paulicéia, promovido pela Rede Globo em conjunto com a PUC-SP. Os debates versarão sobre "os rumos da produção artística e intelectual no Brasil"; e a palestra inicial vai ser de Ariano Suassuna, conhecido por suas radicais posições em defesa da brasilidade.
Lembrando, entretanto, que a Globo parece estar investindo pesado no cinema, fiquei curioso. Será que o encontro é pra falar só de "audiovisual" ? Ou vai-se falar também da "pop-rockização" de nossa música popular; da falta de políticas oficiais para o ensino de música e para a manutenção de nossas orquestras; do compadrismo no acesso e concessão de incentivos fiscais; da falta de proteção ao patrimônio musical brasileiro ante o assédio das editoras multinacionais, etc etc etc?
Quem puder ir, por favor, vá e depois me conte.

Diz aí!

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004



BRAVO, PAGODINHO!

Não é nenhuma sugestão de compra, porque custa salgados R$ 9,50, mas a elegante revista Bravo! , rendendo-se ao charme e à importância do Zeca Pagodinho, traz, este mês, uma enorme reportagem de capa com o ídolo de todos nós; e, o que é melhor, enchendo a bola do samba.
É, gente... parece que a bola tá quicando na nossa frente. Inclusive, eu soube que a Maria Clara Diniz vai ficar pobre e vai abrir uma casa de samba no Andaraí. Aí, já viu né?!
Mais uma vez, a Patota de Cosme (com os Mais-Velhos segurando a pemba) não deixou nos derrubar.

Diz aí!


ARTE NAS FAVELAS

A Prefeitura do Rio - deu no jornal - contratou um cenógrafo badaladíssimo e uma diretora teatral bacana pra formarem profissionais de teatro, dança, música, circo e artes plásticas em favelas.
No meu tempo, lá no Irajá, o pessoal mais caidinho queria era ser mecânico de motor a explosão, torneiro mecânico, sargento especialista da Aeronáutica, piloto da Marinha Mercante, técnico de qualquer coisa - e para isso existiam escolas, como foi a minha Visconde de Mauá.
Do Méier pra baixo, futuro era ser cadete, normalista (as meninas) ou funcionário do Banco do Brasil. Porque "artista" e jogador de futebol, naquela época, era só de brincadeirinha; e nem sempre pegava muito bem.
Hoje, até os governos, de mãos dadas com a indústria cultural globalizada, incentivam a cultura da "fama" e da "celebridade" a qualquer preço, vendendo a idéia de que, de tênis Nike e comendo hambúrguer, todo mundo é igual.
Aí, eu penso: será que, daqui a alguns anos, ainda vai haver aquele "marceneiro de mão-cheia", aquele "tremendo mecânico", aquela "alfaiate refinado"? Ou será que essas já são categorias tão improváveis como o homem da vaca-leiteira, o amolador de faca, o funileiro e o vendedor de tringuilim?
Não tenho nada contra nenhum cenógrafo famoso nem contra nenhuma diretora teatral, mas não seria bem mais produtivo e futuroso a Prefeitura meter lá, em cada favela, um conveniozinho com o SENAI ou o SENAC? Hein?

Diz aí!

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004



ORÍN YEMAYÁ

(Pelo dia de Iemanjá, 2 de fevereiro )

Iemanjá, dizem,
Mora em Salvador, num rio vermelho,
Vizinha do escritor Jorge Amado
Das irmãs-dágua e do fogo
Yara, Yone, e Yéry
E do Tio Renato, bento demais.

Acontece que hoje
Iemanjá veio a mim líquida e certa
Ali entre aquelas pedras
Naquele canto da praia grande
Entre Itacuruçá e Ibicuí
Na costa verde do rio.

Era uma senhora negra
De ancas enormes
De andar jogado como um barco pesqueiro
Tinha seios redondos e cheios
De cujos mamilos
Jorrava manteca de corojo.

Falou, cantando, a mim
No mais claro lucumí
Seu nome Assessu.
Lavou minha cabeça
Em nome de Olokum.
Comeu ecó e olelê
Que eu lhe levei em oferenda.
Dividiu comigo
Uma cuia de vinho de palma
Depois foi embora lentamente
Mar adentro de mim
Montada num pato
Enfeitado de fitas coloridas
E lhe contando as minhas penas.
Foi embora
Para que baía?

Diz aí!


SILVA MELLO E AS COTAS

Leio na revista Caros Amigos um artigo sobre o médico e escritor Antônio da Silva Mello (1886 - 1973), homem de visão além do seu tempo, que deu a receita, nunca adotada, para combater a fome no Brasil.
Preocupado também com a exclusão dos negros na sociedade brasileira, o Dr. Silva Mello escreveu Estudos sobre o Negro, livro publicado pela José Olympio em 1958. Nele, o cientista e acadêmico propunha a criação de uma "Associação Brasileira para a Reabilitação do Homem de Cor" - expressão polida com que, ali pelos anos de 1950, se qualificava o indivíduo afro-descendente. E os estatutos da Associação, em dado momento, estabeleceriam:

"Art. 5º -- Os sócios serão distribuídos pelas seguintes categorias:
I - PATRONOS:
a) Categoria A: os que assumirem a responsabilidade de manter em colégio particular 10 ou mais crianças, correndo todas as despesas por sua conta, inclusive durante as férias.
b) Categoria B: os que assumirem responsabilidade idêntica para menor número de crianças, sob as mesmas condições.
Em todos os casos acima indicados, as crianças permanecerão sob a tutela econômica do mesmo Patrono até a terminação dos estudos, sendo substituídas por outras somente no final, exceto quando houver determinação em contrário, quer por parte do Patrono, quer do Conselho Administrativo."


E seguiam por aí os estatutos, estimulando, parece que com base em experiências norte-americanas, a filantropia de sócios beneméritos e benfeitores.
Humanista além do seu tempo, o Doutor Silva Mello, se ainda estivesse entre nós, certamente teria uma solução para o problema da pretendida implantação do sistema de cotas no ensino público. E quem sabe um bom político, lendo este texto, não se interesse em transformar em lei alguma coisa da idéia do saudoso cientista? Vamos tentar?

Diz aí!

Terça-feira, Fevereiro 03, 2004



O ÓSCAR VAI... PARA LENA FRIAS!

Nos anos 70, a grande repórter Lena Frias escreveu para o JB e, se não me engano, também para a Revista Civilização Brasileira extensas e contundentes matérias sobre a Cidade de Deus.
Por essa época, o brilhante Paulo Lins devia estar ainda no colégio, talvez no estadual Brigadeiro Schorcht, em Jacarepaguá. E nossa amiga já metia bronca.
Agora, ao ler sobre a indicação do filme (não dos atores nem da comunidade, esclareça-se) para o Oscar, em quatro categorias, eu lembro da grande amiga com quem já não falo há muito tempo.
Assim, se alguém souber por onde anda e como está a grande Lena Frias, diga a ela que o meu Óscar vai pra ela. Em todas as categorias.

Diz aí!

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2004

XUXA E A RAINHA MACACA

Rolando pela Internet, a seguinte denúncia:

"Hoje (28/01/04) no programa da Xuxa ela estava contando uma história sobre um rei que daria sua coroa ao filho que arrumasse uma noiva que lhe desse o presente mais original. Os dois filhos foram procurar suas noivas. Um dos filhos encontrou um castelo habitado por macacos. Foi muito bem tratado e gostou da Rainha Macaca. Escolheu esta rainha para ser sua noiva e levou até o seu pai. Como o Rei preferiu o presente da Noiva Macaca o seu filho muito feliz beijou a noiva. Quando ele beijou a Rainha Macaca virou uma 'bela' mulher, pois ela estava enfeitiçada. Moral da história, como o príncipe não ligou para aparências acabou ganhando uma bela esposa e o seu reino. Detalhe, a representação da Rainha Macaca era de uma atriz negra, com um focinho e uma roupa de bananas. Os súditos macacos também eram pessoas negras (se não eram estavam com os corpos pintados). Quando a Rainha Macaca se transformou, se libertando do feitiço, ela e os seus súditos ficaram brancos."

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Da minha parte, nenhuma surpresa. A "nossa Hollywood", nesse aspecto, está atrasada em relação à matriz pelo menos uns 40 anos. Lá, isso daria uma confusão daquelas! Eu acho que é caso para o juiz Siro Darlan...

Diz aí!