meu lote


Quinta-feira, Janeiro 29, 2004



SAMBA SOCIAL CLUB

Acabo de ver numa loja um CD intitulado "Samba Social Club". Coisa de conhecida multinacional, ele tem na capa um crioulo velho, cara de pobre, de chapéu e sobraçando um violão, num cenário meio favelizado, sugerindo alguma coisa de um certo e querido país das Grandes Antilhas. No repertório do disco, uma coletânea de sucessos do repertório da multi, gravado por famosos intérpretes brasileiros. Com diz o samba da Velha Guarda da Portela, "a maldade não tem fim".

Diz aí!




RAP E EMBOLADA

Numa tremenda entrevista na Caros Amigos que está nas bancas, o grande multiartista pernambucano Antônio Nóbrega pergunta por quê que a rapaziada do rap não faz embolada, gênero musical que também privilegia a palavra e que guarda algumas semelhanças com seu similar norte-americano. Pois é...

Diz aí!

Segunda-feira, Janeiro 26, 2004


WILSON MOREIRA ABRE AS ASAS

Belíssimas notícias! Primeiro, a de que o parceirão Wilson Moreira, cantando no Rival, abriu os dois brações enormes - coisa que não fazia desde o acidente vascular de que foi vítima há uns cinco anos - cantando a nossa Senhora Liberdade.
Depois, a de que ele literalmente arrebentou, no show do bom Moacyr Luz, no Canecão, botando a platéia no bolso.
Meu querido amigo Paulinho Albuquerque, que não é de chorar à toa, diz que foi às lágrimas. E é pra chorar mesmo.
Eu, por exemplo, dia desses, ouvindo aqui em casa Meu Cavalo Baio, O Bom Remador e Chegou Dona Rosa!, obras-primas só do "Alicate" e que pouca gente conhece, quase que... deixa pra lá...

Diz aí!

Sexta-feira, Janeiro 23, 2004

UM POUQUINHO DE FILOSOFIA

Há já algum tempo, circula pelo Grande Rio, em pára-brisas de automóveis e outros suportes, cada vez mais numerosos, uma frase intrigante - "Deus é fiel" - sobre a qual eu gostaria de refletir um pouco.

O adjetivo "fiel", segundo os dicionários, aplica-se àquele que dá mostras de lealdade; que não contraria a confiança em si depositada; que é incapaz de atraiçoar. E aí eu exponho:

No meu entender, esse adjetivo expressa um julgamento e carrega um tanto de subalternidade, obediência. E acreditando, como creio, que o Ser Supremo (Olofim, Olodumarê, Olorum, Zâmbi, Mulúngu, Unkulúlu, Alá, Jeová ou que outro nome tenha) é uma Força Infinita, tão impenetrável quanto distante - tanto que a Ele em nenhuma religião se rende culto ou se fazem oferendas; pensando assim, acho que Ele está completamente fora de qualquer possibilidade de julgamento ou qualificação por parte de qualquer um de nós, simples humanos.

Acho, então, que essa frase que anda por aí nos carros, "Deus é fiel", é de uma pretensão absolutamente infantil. Deus-Olofim-Zâmbi-Alá-Jeová criou o mundo e se afastou. Para longe, bem longe. Deixando em seu lugar santos, anjos, orixás, inquices, espíritos de luz, numes tutelares.

Ele é Força Infinita! Medir ou qualificar essa Infinitude? Como?

Diz aí!

Quarta-feira, Janeiro 21, 2004


EU E O TÁRIK

Na virada dos anos 80 para os 90, auge do sucesso da dupla Sullivan & Massadas e "anos de chumbo" do samba, um produtor de discos (e eu sei bem porque) me falou que minha música era pouco aproveitada porque era "raiz demais". Agora, meu amigo Tárik de Souza, em seu novo e excelente livro "Tem Mais Samba: das raízes à eletrônica" (Editora 34), depois de me destacar com uma bela foto na pág. 145 e me adjetivar como "ativista", "autor escolado", "craque", "múltiplo" "virtuose na trama das rimas" (gentilezas de amigo, que eu retribuo enviando um caloroso abraço) diz, sobre meu trabalho e a propósito do CD "De Letra & Música" o seguinte:
"Na verdade o que falta para um reconhecimento maior do compositor entre os grandes da MPB é driblar o preconceito que ainda confina os sambistas numa reserva de regionalismo".
Pois esse meu "regionalismo" é que é meu orgulho. A partir do nosso quintal é que a gente se torna universal.

Diz aí!

Segunda-feira, Janeiro 19, 2004

OS NETOS DO JONJOCA

Quando do lançamento, ano passado, de meu livro Sambeabá; o samba que não se aprende na escola, um crítico bobinho e doente do pé gastou não sei quantas páginas de uma revista bacana para botar na minha conta um racismo que eu nunca pratiquei.

Na dupla condição de praticante e teórico, eu sempre soube, senti e vi que a história do samba se confunde, até hoje, com a do racismo antinegro no Brasil. Mas também sempre observei, ao contrário do que se falou sobre o meu texto, que desde o início houve músicos não necessariamente negros fazendo um samba dentro das "regras da arte" - Noel Rosa que o diga! - e até mesmo renovando e legitimando o velho gênero mãe.

Consultando o encarte de um precioso álbum do selo Revivendo, o Duplas de Bambas, que reúne, em dois CDs, registros da década de 1930, vamos travar contato com João de Freitas Ferreira, o Jonjoca, nascido no então aristocrático bairro de Botafogo, na zona sul do Rio, em 1911. Pandeirista, violonista, compositor e cantor, já no curso ginasial (na época, um privilégio), Jonjoca se destacava como intérprete de sambas, ao estilo elegante de Mário Reis.

No álbum em questão, em dupla com Castro Barbosa, humorista (aquele "portuga" da engraçadíssima "PRK-30") e cantor que era tido, juntamente com o jovem e elegante João Petra de Barros, como um dos êmulos vocais de Francisco Alves, "o rei da voz", Jonjoca interpreta, além de sambas de sua criação exclusiva, outros de autores como Ismael Silva, Buci Moreira, Noel Rosa, Ari Barroso e Benedito Lacerda.

Em 1950, Jonjoca elegeu-se vereador, chegando a vice-presidente da Câmara Municipal do então Distrito Federal. Por fim, aposentou-se como superintendente administrativo do Instituto de Neurologia da UFRJ.

Na coletânea, podemos ouvir a voz do famoso Mário Reis (1907-1981) em dupla com Francisco Alves, cantando, entre outros, Brancura, Gradim, Ismael e Cartola, arquetípicas figuras de negros sambistas. Mário Reis, como se sabe, era bacharel, alto funcionário público, dândi, e hóspede permanente do hotel Copacabana Palace. E aí chegamos ao cerne da questão.

O samba carioca, embora nascido de um amálgama de ritmos predominantemente africanos - como, aliás, toda a música popular afro-americana, do sul dos Estados Unidos ao Prata - sempre teve admiradores e cultores entre as camadas mais abastadas e epidermicamente menos pigmentadas da sociedade. Admiração e culto esses que, no contexto da bossa-nova, fora do esquema "banquinho e violão" e graças à tríade piano-baixo-bateria, propiciou a saudável fusão entre ele e o jazz, que já se ensaiava nos antropofágicos "bibaburiba" ("bebop w're bop") do trombonista Raul de Barros, cantados em coro pelos animados músicos das gafieiras.

A bendita fusão levada a efeito pelos Tamba, Zimbo, Jongo e outros trios, de nomes africanizados ou não, coube a eles mais por questão de espaço. Afinal, seu palco era o das exíguas boites ("caixotes, caixinhas", em francês), ambientes também freqüentados por muita gente boa e amante do bom samba.

Foi aí, e nos bailes dos clubes da classe média, que se gerou o "sambalanço", hoje experimentando um renascimento animador. E foi assim que surgiram, firmaram-se ou reapareceram grandes compositores de samba não negros e nem "do morro" e com curso ginasial, como Denis Brean, Hianto de Almeida, João Roberto Kelly, Macedo Netto, Luiz Reis, Luiz Antônio (coronel do Exército brasileiro), presentes no repertório inicial da Elza Soares que hoje a intelligentzia quer pop-roquizar. E vieram também Ed Lincoln, Sílvio César, Orlann Divo etc.

Pois é... O tempo das fusões naturais e saudáveis já passou! Agora, vendo o mercantilismo das escolas de samba e a omissão oficial abortarem ou inanirem os talentos das comunidades negras; vendo a truculência da globalização one way ditar a norma de extermínio segundo a qual "preto bom só preto pop"; agora, vendo os netos de Jonjoca, Mário Reis, Castro Barbosa e João Petra de Barros empunharem a bandeira (às vezes reducionista e imobilizadora) do "samba de raiz", a gente olha pra trás. E aí vê que a influência do jazz, primo do samba, não era má influência e, sim, uma saudável troca de águas e forças vitais entre dois caudalosos rios intercomunicantes. Preto no branco! -- digo eu. "Ebony and ivory", diria o crítico bobinho e colonizado.

Diz aí!



DICIONÁRIO BANTO: A VOLTA POR CIMA

Acabo de receber o livro "Vocabulário crioulo: contribuição do negro ao falar regional amazônico" (Belém, IAP, 2003), do professor Vicente Salles, etnólogo da estatura de Câmara Cascudo e Édison Carneiro. É a segunda grande alegria que me dá o meu modesto "Dicionário Banto do Brasil", lançado em 1992 e, agora, de roupa nova e conteúdo melhorado, adjetivado como "Novo Dicionário", publicado ano passado por Pallas Editora.
A primeira alegria foi ver o meu livrinho servindo como base a centenas de etimologias propostas pelo grande Dicionário Houaiss em 2001. Agora, o vejo apoiando o livro do profesor Salles, que meteu lá, na simpática dedicatória: "Nei Lopes, você é uma das fonte mais seguras para o crédito deste Vocabulário Crioulo".
Isto é bom demais! Porque, na década de 90, teve gente, intelectual mas deselegante, que desqualificou meu trabalho, tentando até impedir a publicação da Pallas. E, como dizia o escritor francês Georges Bernanos, "a partir de certa idade, a glória se chama desforra".

Diz aí!

Sexta-feira, Janeiro 16, 2004

DEU HOJE EM O GLOBO

Os orixás saúdam os evangélicos de Irajá
NEI LOPES

Leio no Globo (10/1/04), na coluna carnavalesca de Cesar Tartaglia, sobre a existência em Irajá, bairro carioca onde nasci e fui criado, da existência de uma escola de samba formada por evangélicos, que desfila no carnaval da Avenida Rio Branco, em missão de proselitismo.

O fato, do qual eu já tinha ouvido falar, é estranho. Mas remete meu pensamento aos tempos anteriores ao surgimento das escolas, quando manifestações festivas e folguedos dos negros no Brasil eram, como em todas as comunidades negras nas Américas, realizadas principalmente no dia 6 de janeiro, na festa católica da Epifania, consagrada aos santos Reis Magos.

Nesse tempo, não só no Dia de Reis como nos consagrados a outros santos, os negros, principalmente os bantos de Congo, Angola e Moçambique, embora portadores de outras informações religiosas, buscavam inserção social através da participação nas festas da Igreja hegemônica. E isso não apenas objetivando inclusão mas efetivamente incorporando o culto dos santos católicos ao seu universo filosófico, dentro da concepção de que se os brancos eram senhores, o eram pelo poder de seus santos; e a força vital, a energia, desses santos lhes poderia ser útil também.

Mais tarde, as manifestações dos negros foram proibidas nas celebrações efetivamente religiosas e deslocadas para o espaço do carnaval, que, embora profano, também faz parte do calendário católico.

Festa cristã que marca a entrada da Quaresma, o carnaval encontra similares em várias culturas africanas, como a Akan, na qual é comum a realização de um grande festival anual, o odwira , seguido de um longo período de recolhimento e abstinência, como na tradição de Roma. Certamente devido a essa similitude, as celebrações carnavalescas nas Américas devem grande parte de sua alegria e seu brilho, fundamentalmente, à música dos afro-descendentes. Assim foi e é nos ranchos carnavalescos, escolas de samba, afoxés, maracatus, blocos afro etc, no Brasil; no candombe platino; nas comparsas cubanas; no mardigras , nas Antilhas e em Nova Orleans.

Nas Antilhas, o carnaval foi introduzido pelos católicos franceses, que costumavam estendê-lo por um bom tempo antes de enfrentarem os rigores da Quaresma, sendo que, na Martinica, o costume foi adotado por volta de 1640.

Isolados pela sociedade dominante, os escravos uniram-se para celebrar o carnaval à sua moda, com a música e a dança de sua tradição, introduzindo, na festa européia, além de seus instrumentos, suas crenças e seu modo de ser. Depois da devastadora erupção vulcânica de 1808, a tradição carnavalesca reviveu em Fort-de-France, a nova capital onde, hoje, os preparativos começam na já mencionada Epifania, em janeiro, e se estendem até a quarta-feira de cinzas.

Durante esse período e no carnaval propriamente dito, as máscaras têm lugar destacado na festa. E além das que homenageiam ou criticam personalidades do momento, como artistas, políticos etc., há as relacionadas à morte, cheias de simbologias africanas - das quais o poeta e estadista Aimé Césaire encontrou o significado em rituais da região de Casamance, no Norte do Senegal. No Haiti, de um modo geral, o carnaval é celebrado dentro desse mesmo espírito e com traços semelhantes aos carnavais do Brasil, de Trinidad e de Nova Orleans.

Em nosso país, a descrição de um festival de negros, em 1808, no Campo de Santana, provavelmente em honra da família real portuguesa e do qual participaram mais de 2.000 indivíduos, transcrita por Mary Karasch em "A vida dos negros no Rio de Janeiro " (Cia. das Letras, 2000, págs. 326-27), é exemplar.

Suponho estar aí a gênese remota das escolas de samba, surgidas no Rio depois de proibidas, em algumas cidades como Salvador, "a exibição de costumes africanos com batuques" e duas décadas antes de se criar, na mesma capital baiana, o afoxé Filhos de Gandhi, para divulgação do culto nagô, como forma de afirmação étnica", segundo seus estatutos.

Assim, então, fez-se o carnaval. E que bom seria que a participação dos neopentecostais na festa formatada pela religiosidade dos afro-descendentes ocorresse dentro de um espírito de tolerância e sem antagonismo ou intenção de confronto.

Nossos deuses africanos dançam. E, se bem tratados, teriam, acho eu, a maior alegria em saudar e pedir passagem aos evangélicos unidos de Irajá.

NEI LOPES é compositor e escritor.

Diz aí!




Essa foto é histórica. É do musical "Oh, Que Delícia de Negras", meu, com música do Cláudio Jorge e dirigido pelo Haroldo de Oliveira, recém-falecido. Foi encenado em temporada (mesmo!) no Teatro Rival em 1989. Aproveito para homenagear a memória do Haroldo, que é o que segura o microfone. A vedete é Jussara Calmon. Parece a Camila Pitanga mas não é. Quem dera!...

Diz aí!


COMEÇOU ASSIM?

Deve sair por estes dias, em O Globo, um texto nosso sobre a escola de samba evangélica que foi criada, no Irajá, para desfilar na avenida Rio Branco - fato comentado na coluna de carnaval do César Tartaglia.

No artigo, por falta de espaço, não vai sair a descrição de uma reunião festiva de milhares de negros, que aconteceu no Campo de Santana, em 1808, parece que em honra da corte portuguesa recém-chegada ao Brasil. O texto, de um viajante inglês, está lá no livro de Mary Karasch, A vida dos negros no Rio de Janeiro (Cia. das Letras, 2000) e é o seguinte:

"Em frente avançavam os grupos das várias nações africanas, para o campo de Sant'Anna, o teatro de destino da festança e da algazarra. Ali estavam os nativos de Moçambique e Quilumana, de Cabinda, Luanda, Benguela e Angola [...] A densa população do campo de Sant'Anna estava subdividida em círculos amplos, formados cada um por trezentos a quatrocentos negros, homens e mulheres.Dentro desses círculos, os dançarinos moviam-se ao som da música que também estava ali estacionada; e não sei qual a mais admirável, se a energia dos dançarinos, ou a dos músicos. Podiam-se ver as bochechas de um atleta de Angola prontas a arrebentar pelo esforço de produzir um som hediondo de uma cabaça, enquanto outro executante dava golpes tão abundantes e pesados no tímpano que somente a natureza impenetrável do couro de um boi poderia resistir-lhes. Um mestre-de-cerimônias, vestido como um curandeiro, dirigia a dança; mas era para estimular, não para refrear, a alegria turbulenta que prevalecia com supremo domínio. Oito ou dez figurantes iam e vinham no meio do círculo, de forma a exibir a divina compleição humana em todas as variedades concebíveis de contorções e gesticulações. Logo, dois ou três que estavam no meio da multidão pareciam achar que a animação não era suficiente, e com um grito agudo ou uma canção, corriam para dentro do círculo e entravam na dança. Os músicos tocavam uma música mais alta e mais destoante; os dançarinos, reforçados pelos auxiliares mencionados, ganhavam nova animação; os auxiliares pareciam envoltos em todo o furor de demônios; os gritos de aprovação e as palmas redobravam; cada observador participava do espírito sibilino que animava os dançarinos e os músicos; o firmamento ressoava com o entusiasmo selvagem das [sic] clãs negras..."

Não dá a impressão que tudo começou aí?

Diz aí!

Quinta-feira, Janeiro 15, 2004

O BRASIL JÁ NÃO É MAIS AQUELE

Em 1960, um conhecido senador udenista baiano beijava a mão do presidente Eisenhower, então em visita ao Brasil. Noutro dia, um famoso cantor brasileiro de língua hispânica chorava no ombro do presidente Bush.

Agora, vem a Polícia Federal e dá uma dura no piloto folgado e impede de embarcar toda a debochada tripulação do avião americano.

Como falava aquele locutor esportivo: O quê que é isso minha gente???

Diz aí!


AMAR É...

A AMAR-SOMBRÁS, minha sociedade autoral e de um montão de craques, tem uma página esperta. Quem quiser saber das coisas, inclusive através de alguns textos criados aqui na roça, pode chegar lá.

Diz aí!

Terça-feira, Janeiro 13, 2004

SAMBA E COLONIZAÇÃO CULTURAL

Dia 10 de fevereiro, às 18:30h, estaremos lá no CCBB, falando sobre "Samba e colonização cultural: a corrente principal da música brasileira ante os desafios da globalização". O couro vai comer! E o explosivo tema é também o assunto principal de uma coletânea de ensaios que estou preparando junto com o historiador e também sambista Flávio dos Santos Gomes, o "Flávio Quinze", duas vezes premiado pelo Arquivo Nacional. Como dizia o Assis Valente, chegou a hora desta gente bronzeada mostrar seu valor!

Diz aí!


DONDON, 17 ANOS DE NOVELA

O samba "Tempo de Dondon", hoje "Celebridade" global, cantado pelo Dudu, nasceu mesmo pra telinha. Não é que um pesquisador me ligou pra falar do sambinha na telenovela "Mandala", de Dias Gomes, em 87, na voz do Zeca !? Ele disse que tem o disco. Aí, eu lembrei! Era o tema do personagem do Milton Gonçalves que era, se não me engano, um taxista, da Zona Norte. Ô sambinha mandingado, hein?!

Diz aí!

Sábado, Janeiro 10, 2004

SAMBA DE FUNDAMENTO
Nei Lopes - Magno de Souza


Vestiu o meu terno de linho e ficou feito um morto
Calçou meu pisante branquinho e sentiu desconforto
Botou na cabeça o chapéu assim feito uma flor
Pegou meu pandeiro e bateu com mais ódio que amor.

E aí foi catando cavaco em fundos de quintais
Arfando, como quem viola templos virginais
E como era sambista só porque Seu Rei mandou
Vibrou minha sétima corda e nela se enforcou.

O samba
Vem lá de muito longe
De antes da Praça Onze
De emoções ancestrais.

Candeia
Por sinal já dizia
Que ele é filosofia
Não é moda fugaz.

O samba
É uma coisa de dentro
Tem os seus fundamentos
Os seus rituais

E a gente
Só penetra essa seita
E em seu colo se deita
Quando sabe o que faz...

Diz aí!

Sexta-feira, Janeiro 09, 2004

OS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA - 1

Mais ou menos por volta de 1955, um colega da Escola Técnica Visconde de Mauá, Almir Nascimento Conceição, irmão do Adilson, mais conhecido como "Porcolino" (porque era gordinho e bonachão, ao contrário dele, baixinho, sério, introspectivo, cabelo muito bem tratado quimicamente, e com seus lábios grossos e rosados contrastando com a pele muito escura) me levou em casa de sua família, em Marechal Hermes, "do outro lado", o da Unidos do Indaiá. O pai deles era da Marinha e tinha uns discos "de preto", principalmente jazz e música afro-cubana, que trazia de suas viagens. E foi na casa de Almir e Adilson que eu ouvi, primeira vez, Célia Cruz, Bobby Capó e Beny Moré, por exemplo.

Mais tarde, Almir saiu da escola e foi trabalhar como contínuo de um escritor famoso - Fernando sabino, se não me engano.

E, não me lembro como, talvez através do Adilson, começou a me mandar livros que o patrão recebia e nem abria - daqueles que a gente tinha que separar as páginas com espátula. E eu me lembro de alguns, principalmente de "Cubo de Trevas", do poeta Moacyr Félix, estreando, e "João Urso", livro premiado, de um ator... sim, lembrei! Bruno Aciolly.

Eram livros cheirando a tinta de impressão - uma tinta de livro novo que até hoje me excita o olfato e o sentimento. E o som da casa simples, boa e acolhedora em Marechal guia meus passos até hoje, quase meio século depois.

God bless you, Almir! Moforibale, Adilson Porcolino! Salve Escola Técnica Visconde de Mauá!

Diz aí!

Quinta-feira, Janeiro 08, 2004


JORGE ARAGÃO: "DA NOITE PRO DIA"
Atenção! Vem aí o novo CD de Jorge Aragão "Da Noite pro Dia" (Indie Records). Hoje, ouvindo o CDR, pra escrever o press-release, o coração do velho aqui bateu mais forte, principalmente com a regravação de Volta por Cima do cientista do samba Paulo Vanzolini. De chorar.

Diz aí!

Quarta-feira, Janeiro 07, 2004

O JINGLE E O SAMBA

Na mão inversa de muitos criadores do gênero, que, por brilharem como autores de música popular, foram chamados ao pódio das agências de propaganda, eu fui antes jinglista para só depois me tornar compositor gravado e razoavelmente conhecido.

Minha chegada à primeira produtora - e a primeira a gente nunca esquece - foi absolutamente por acaso, como escrevinhador de textos. Ganhava pouco mas era divertido, num ambiente romântico e extremamente musical. Até que um dia me perguntaram se eu era capaz de escrever uma letra.

Os versos já me freqüentavam, e eu a eles, desde os tempos do ginásio. Tempos de muito Bilac, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira (Cruz e Souza ainda era complicado), tudo alexandrinamente escandido e acentuado. E versos cantados era o que mais eu ouvia, tanto no meu quintal suburbano, onde era freqüente a presença de grandes seresteiros, quanto no terreiro acadêmico do meu amado Salgueiro, cuja ala de poetas mais tarde me recebeu. Então, o desafio foi vencido, com ampla vantagem, pois a melodia chegou bonito, juntinho com a letra encomendada.

A partir daí, e até chegar aos dias de hoje, muito jingle rolou estúdios a dentro. Cheguei até a interpretar alguns deles. E até mesmo a aparecer na TV, por vários meses seguidos, cantando e sambando as excelências de um supermercado, "lugar onde o barato faz (ia) ponto".

Pois nunca tive, como muita gente que conheço, vergonha de fazer jingle, essa arte de cantar o consumo. Meu negócio é a palavra, e pelos carinhos dela, minha cabrocha, eu vou até o Irajá. Que me importa que a mula manque! Por ela, já escrevi e publiquei até um dicionário! Através dela, com muito carinho e muita honra, tenho escrito letras para grandes músicos como o virtuose Guinga e o genial maestro Moacir Santos.

É claro que já me recusei a musicar campanhas racistas, excludentes e coisas que tais. Mas quantas vezes, também, me emocionei ao falar de um ou dois políticos (raríssimos) com cujas idéias eu me identificava.

No jingle, o que me incomoda é ter de sacrificar uma boa sacada, uma boa rima, a métrica caprichada, o enjambement da pesada, por causa do perfil do consumidor ou da autoridade, nem sempre incontestável, dos criadores da campanha. Isso é que incomoda! Como também chateia essa falsa idéia de que samba só serve para cantar cerveja, cachaça, trem suburbano, alisante de cabelo, cigarro mata-rato e produtos de limpeza.

A propaganda brasileira precisa entender que o gênero-mãe da música popular brasileira também freqüenta as boas famílias, da Gávea ao Morumbi, do Cosme Velho aos Jardins. E estão aí os Buarque de Holanda, os Jobim, os Hime, os Vergueiro, os Byington etc. que não me deixam mentir.
A propaganda brasileira precisa também perceber que o Brasil está mudando. Que "esta gente bronzeada" aqui - como exaustivamente demonstrou o mestre José Roberto Whitaker Penteado - já mostra seu valor também hora do consumo. E que, nos rádios de seus carros e em seus CD players e DVDs ouve-se de tudo. Inclusive samba.


Diz aí!


DEUSES QUE DANÇAM

Nossos heróis jazem dormindo
Nas bibliotecas.
É preciso explodir o silêncio das bibliotecas.
Altissonantes batucadas
Tirem nossos heróis
Desse sono nefasto.
Afastem-se mesas e cadeiras
Desses cemitérios de livros
Para que virem terreiros
Onde nossos heróis
Exibam sua face afra.
Profanem-se os sacrários
Retumbem fichários
Semeiem-se colcheias
A mão cheia
Nas seções de periódicos.
Insiram-se quiálteras
Nas referências bibliográficas
Para que os heróis saltem álacres
E mostrem caras
Máscaras
Couros, carapinhas
Em sua integridade
Afra.
Nossos heróis são deuses que dançam.
Não viram Mandela?!

Diz aí!